Memórias Jubilares – Jubileu 2025

Passou um ano desde o Jubileu dos Jovens. Um ano desde que, mais uma vez, foi possível perceber que a Igreja não cabe nas paredes da nossa paróquia, nem na geografia do nosso país. Nesses dias, vemos a Igreja respirar em milhões de rostos, cantar em mil idiomas, ajoelhar-se em silêncio diante do mesmo Deus.

Passou um ano. Provavelmente, muitas t-shirts já perderam a cor, talvez a credencial esteja esquecida numa gaveta e as fotografias se tenham perdido no meio de milhares de outras. Mas há memórias que não se gastam e que continuam vivas porque nos recordam quem fomos e quem encontramos naqueles dias e, sobretudo, quem Deus nos chamou a ser.

Nos dias seguintes, a pergunta que se impunha era quase sempre a mesma: o que trouxeram de Roma? A certeza de que Deus continua a escrever futuro com a marca permanente da juventude. A experiência de uma alegria que se multiplica em verdade. A convicção de que a Igreja é esta casa imensa onde há sempre lugar para mais um e, por isso, vale a pena sonhar uma Igreja jovem, alegre, imperfeita, cansada… mas sempre a caminho, sempre em Estrada.

Há um ano, fizemos caminho até Roma. Um ano depois, Roma continua e continuará sempre no nosso caminho.

Ana

Viver tudo numa vida

Achamos sempre que quem faz parte da geografia afetiva das nossas vidas e memórias é imortal. Hoje morreu Luís Represas. E percebemos que ele deixou de ser imortal para se tornar imortal. Chegados a este dia, fica mais frágil aquele património invisível que cada um de nós vai construindo ao longo da vida: a memória afetiva. Cada despedida destas obriga-nos a revisitar quem fomos. A música tem este poder extraordinário de vencer o tempo e, ao mesmo tempo, de nos lembrar que ele existe. Cada canção é uma ponte entre aquilo que vivemos e aquilo que permanece. As canções dos Trovante e de Luís Represas habitaram todas as casas onde vivi, as minhas viagens de carro, os dias de verão, as amizades feitas e desfeitas, os amores sentidos, as despedidas, os regressos.

A sua morte é um abalo silencioso na nossa própria biografia. Não porque a sua voz deixe de existir (essa felizmente continuará gravada e disponível), mas porque tomamos consciência de que o tempo passou e está a passar. Que a nossa infância já não é aquele lugar imediato. Que a juventude vai ficando do outro lado da memória. E que aqueles que deram som às diferentes etapas da nossa vida começam, eles próprios, a pertencer à eternidade.

As canções do Trovante e de Luís Represas são, para mim, lugares de memórias mil. De tempos em que as palavras tinham importância, em que a música era trabalhada infinitamente, em que as canções tinham uma dimensão plural.

Escrevo este texto enquanto vejo o concerto do Trovante na RTP 1. Tive o privilégio de, em março, ter estado no Porto a assistir a este mesmo concerto, sem imaginar que seria o último. Na altura, senti-me novamente em 1999, no então chamado Pavilhão Atlântico, num concerto memorável a pedido do presidente Sampaio. Numa altura sem instagram, com muito poucos telemóveis e sem selfies. Tantas memórias, boas e gratas memórias que hoje me invadem. O Trovante deixou de pertencer apenas aos palcos para habitar a nossa biografia, a minha história. É por isso que a voz única e a música de Luís Represas continuarão a cantar dentro de nós, mesmo quando o concerto chegou ao fim.

“As memórias são…” 🎶
Obrigada, Luís!

Ana

Um Deus que se experimenta

Reflexão para o mês de julho de 2026

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Aproximai-vos de Deus, e Ele aproximar-Se-á de vós.”” (da Carta de Tiago)

É possível experimentar Deus? Esta questão não é nova. É uma pergunta que surge à medida que vamos construindo a nossa relação com Deus. Desde sempre, o ser humano procura sinais que confirmem que não está sozinho no universo. Procura uma presença que não seja apenas uma ideia, uma doutrina ou uma tradição recebida. Procura um Deus que possa ser encontrado no terreno concreto da vida.

Muitas vezes, imaginamos que experimentar Deus é viver algo extraordinário: uma emoção intensa durante a oração, uma certeza absoluta que elimina todas as dúvidas, uma espécie de evidência interior que transforma tudo de um momento para o outro. Esperamos, quase sempre, acontecimentos grandiosos, momentos inesquecíveis, respostas imediatas. Mas Deus parece preferir outros caminhos…

Deus não quer “conquistar-nos” pela força da evidência, mas sim pela liberdade do encontro. E, por isso, há uma diferença profunda entre provar uma verdade e experimentar uma presença. Podemos provar um teorema. Podemos demonstrar uma teoria. Podemos verificar um facto. Mas uma presença só pode ser acolhida. Só pode ser vivida. Só pode ser experimentada.

Ninguém consegue demonstrar cientificamente a amizade. Ninguém mede o amor com instrumentos. Ninguém quantifica a esperança. E, no entanto, sabemos quando fomos verdadeiramente amados, quando fomos compreendidos ou quando uma palavra nos devolveu a coragem de continuar. Com Deus acontece algo semelhante. Há pessoas que passam anos a procurar argumentos sobre Deus e esquecem-se de prestar atenção aos lugares onde Ele se manifesta. É como quem estuda minuciosamente um mapa sem nunca iniciar a viagem…

Deus não é apenas objeto de conhecimento. É, acima de tudo, relação. As experiências de Deus acontecem quando alguém nos perdoa sem termos merecido, quando encontramos força para recomeçar depois de uma queda, quando uma dor que parecia insuportável não nos destrói, quando descobrimos uma paz inesperada no meio da tempestade. Momentos em que sentimos que a realidade é maior do que aquilo que conseguimos explicar. Momentos em que o coração reconhece algo antes de a inteligência conseguir nomeá-lo. Aquela certeza cristã de que não estamos entregues ao acaso. Não são provas, são vestígios. Não são evidências, são encontros.

Uma das maiores dificuldades para vivermos a experiência de Deus está no ritmo com que existimos. Habitámo-nos a uma vida cheia de ruído. Corremos de tarefa em tarefa, de preocupação em preocupação, de ecrã em ecrã. Vivemos ocupados a responder a tudo, menos àquilo que acontece dentro de nós. E Deus raramente compete com o ruído. Ele espera. Espera que a pressa abrande. Espera que o coração se torne novamente disponível. Espera que alguém tenha a coragem de permanecer.

A experiência de Deus não é uma conquista. É uma descoberta íntima, interior. Não acontece porque finalmente conseguimos chegar até Ele. Acontece porque, num determinado momento, percebemos que Ele já tinha chegado até nós. Fazer a experiência de Deus é descobrir que a nossa vida nunca foi um monólogo. Há Alguém que fala através dos acontecimentos, das pessoas, da beleza, da consciência, da Palavra, da oração e até das feridas. Nem tudo o que nos é dado viver é Deus, mas Deus é capaz de atravessar todos os nossos viveres para estar do nosso lado.

Deus deixa-se experimentar quando nos aproximamos dele. Esta é uma daquelas relações que não funciona à distância… pode até existir, mas nunca será suficiente. A nossa relação com Deus precisa de proximidade, de intimidade porque nós precisamos de conhecer este Deus. Quanto mais O conhecermos, mais capazes somos de O amar, de O compreender. E esta proximidade constrói-se sempre nos pequenos gestos: na sinceridade de uma oração, na gratidão vivida, na disponibilidade de O procurarmos nas variadas circunstâncias de vida. Tudo isto transforma a nossa vida interior. Olhamos para nós, para os outros e para o mundo com um olhar renovado. Cresce a confiança diante das dificuldades, a serenidade perante a incerteza e a capacidade de amar com maior generosidade. Deus deixa de ser apenas uma ideia distante ou uma mera referência religiosa e torna-se uma presença viva que acompanha cada passo do nosso caminho. Quanto mais próximo estou de Deus, mais descubro quem sou; e quanto mais íntima se torna essa relação, mais encontro sentido, esperança e plenitude para a minha vida, tantas vezes frágil e vacilante.

Experimentar Deus é encontrá-Lo no interior da nossa vida. É entregar-Lhe o lugar maior do nosso coração. Experimentar Deus não nos permite encontrar respostas para todas as perguntas, mas oferece-nos uma presença que muda a forma como vivemos todas as perguntas que a vida nos coloca. Experimentar Deus é deixar que a Sua presença transforme a nossa maneira de habitar a vida. Por isso, a experiência de Deus não termina num momento de oração, nem se encerra numa emoção passageira. Continua na forma como olhamos, escutamos, perdoamos, esperamos e amamos. Porque Deus não quer apenas visitar a nossa vida; Ele quer habitá-la. E quando Lhe oferecemos esse lugar, descobrimos que a verdadeira experiência de Deus não consiste em vê-Lo com os olhos, mas em deixar que seja a nossa vida a tornar visível a Sua presença.

Este é o Dia

A saudade tem datas. Há dias em que ela nos invade sem pedir licença e permanece connosco. Hoje é um desses dias que trazem consigo esta mistura estranha de alegria e falta, uma indecisão confusa entre o riso e a dor.

Por muita outra festa que se prepare, por muita azáfama que se sinta no ar, hoje, para mim, para nós, vai ser sempre o teu dia porque estas datas parecem guardar melhor os nomes de quem amamos. E o teu é um desses nomes que as nossas vidas insistem em continuar a cantar de tantas formas. Às vezes, é uma fotografia encontrada por acaso no telemóvel. Outras vezes é uma história repetida pela centésima vez e que termina sempre em risos. Outras ainda é apenas uma daquelas recordações sem importância aparente: a tua gargalhada sonora, um comentário teu certeiro dito no momento perfeito, a tua forma muito própria de estar e de fazer os outros sentirem-se em casa. Tantas outras vezes são as lembranças das muitas voltas de carro às rotundas, das idas ao horto para escolher as tuas plantinhas, das músicas escritas em mil papéis espalhados pela casa.

Hoje, o aniversário é teu, mas o presente é sempre meu, sempre nosso. Porque fomos nós que recebemos a tua amizade. Porque fomos nós que ficamos imensamente ricos com a tua passagem pela nossa vida. Porque fomos nós que nos tornamos pessoas maiores com a tua pessoa em nós.

Por isso, hoje, no dia em que celebramos o teu nascimento, não são os anos que contamos. Contamos, sim, as palavras que deixaste, as pessoas que uniste, os caminhos que ajudaste a abrir, o bem que espalhaste sem dele nunca fazer notícia. E, sobretudo, continuamos a contar e a agradecer a alegria imensa de nos termos encontrado neste nosso projeto de vida em comum, numa vida para toda a vida.

Na eternidade onde habitas e de onde nos olhas, e na nossa memória onde permaneces, continuas a ser o nosso menino dos anos! Parabéns, Jorge.

Ana

Celabração do Batismo, Eucaristia e Crisma de Adultos – 14 de junho de 2026

O quinto grupo da Formação Cristã de Adultos, promovida pela Paróquia Nossa Senhora da Conceição (Matriz) em parceria com a Comunidade Estrada Clara, chegou a um momento particularmente significativo do seu caminho de fé com a celebração do Sacramento da Confirmação, presidida por D. Nélio Pita, Bispo Auxiliar de Braga, no dia 14 de junho de 2026, na Igreja Matriz.

Foi um dia de profunda graça, marcado pela ação discreta e transformadora do Espírito Santo, que mais uma vez Se manifestou na vida da Igreja através daqueles que, livremente, responderam ao convite de Deus. Com alegria e gratidão, recordamos os nossos treze crismandos — Ana Clara, a Andrea, o António, a Araceli, o Bautista, a Daniela, o Jhony, o João Areias, o João Flores, o João Pedro, a Milena e a Raissa — que receberam a plenitude dos dons do Espírito e renovaram o seu compromisso de seguir Cristo, fortalecidos para serem testemunhas do Evangelho no mundo.

De forma particular, recordamos também o percurso da Milena, que, já na idade adulta, acolheu o dom da fé e decidiu dar um passo decisivo na sua história espiritual, recebendo os sacramentos do Batismo e da Eucaristia. O Álvaro e o João Flores receberam igualmente, pela primeira vez, o Corpo de Cristo na Eucaristia, sinal visível de uma comunhão que Deus deseja estabelecer com cada coração humano.

Aos nossos queridos crismandos, deixamos uma palavra de sincero agradecimento. Que o Senhor continue a acompanhar cada passo desta caminhada e que a chama acesa neste dia permaneça viva, alimentada pela oração, pela comunidade e pelo desejo constante de viver o Evangelho diário.

Agradecemos também ao nosso pároco, padre Avelino Castro, por caminhar connosco em irmandade e em partilha.

Damos também graças pela presença de D. Nélio Pita nesta Celebração, sinal da proximidade e da solicitude pastoral da nossa Igreja. Agradecemos as suas palavras que nos recordaram a importância da vocação, da comunhão e da comunidade em Igreja que somos.

Um caminho feito de encontros

Com grande alegria e com o coração profundamente agradecido, reunimo-nos enquanto comunidade para celebrar um momento muito especial. Amanhã, o nosso grupo de Formação Cristã de Adultos receberá o Sacramento da Confirmação. Alguns receberão ainda, neste mesmo dia, o Batismo e a Eucaristia, completando assim o seu itinerário de iniciação cristã.

Entre outubro de 2025 e junho de 2026, semana após semana, este grupo foi caminhando em conjunto, ao ritmo dos encontros, da partilha e da descoberta. Às sextas-feiras, em ambiente de escuta e reflexão, foram-se deixando tocar por um Deus que se revela como presença fiel e convite permanente a uma vida nova. Ao longo deste percurso, foram sendo lançadas sementes de uma fé mais consciente, mais adulta, mais enraizada no quotidiano e vivida em comunidade.

Foram meses de crescimento, de desafios e de esperança. Meses em que se procurou compreender melhor o que significa ser cristão hoje, no mundo real, nas escolhas concretas, nas relações, no serviço e no compromisso com os outros. Ser cristão não como uma identidade abstrata, mas como uma forma de vida que se constrói dia após dia.

Por isso, amanhã faremos uma grande festa! Celebramos não apenas um Sacramento, mas sobretudo treze histórias de encontro e de renovação. Celebramos o caminho do Álvaro, da Ana Clara, da Andrea, do António, da Araceli, do Bautista, da Daniela, do Jhony, do João Areias, do João Flores, do João Pedro, da Milena e da Raissa. Cada um, com a sua história, com o seu tempo deixaram-se conduzir por esta estrada!

A todos eles deixamos um profundo agradecimento pela coragem de dizer “sim”, pela perseverança, pela confiança com que participaram em cada encontro e pela forma como foram construindo, em conjunto, uma verdadeira comunidade de fé.

Este não é um ponto de chegada, mas o início de uma caminhada ainda mais plena. Continuem a descobrir e a viver a fé com alegria e autenticidade. E nunca se esqueçam de que caminham sempre acompanhados!

E nós estaremos sempre onde nos encontraram pela primeira vez: na mesma Casa, na mesma Fé, de braços abertos para caminhar convosco.

Ana

Dia da Mãe 2026

“A coisa mais parecida com os olhos de Deus são os olhos de uma mãe.” (Cardeal José Tolentino Mendonça)

Hoje é dia de parar um pouco para olhar para todas as mães e não apenas para as que o são de forma biológica, mas para todas aquelas que, de algum modo, geram vida à sua volta.

Há mães que são palavras que se escutam no momento certo. Há mães que são presentes oferecidos toda a vida. Há mães que são histórias de amor multiplicado.

Ser mãe é descobrir que o coração cresce de formas inesperadas, que vive fora do corpo, que aguenta, que recomeça. Como Maria, tantas mães caminham sem mapas, confiando mais na vida do que nas respostas. Nem sempre compreendem o caminho, mas continuam. Nem sempre têm certezas, mas permanecem. E é nesse permanecer, tantas vezes discreto, que se revela uma força que é imortal.

Há uma beleza escondida nas mães que fazem do quotidiano um lugar de amor, nas que transformam pequenas coisas em abrigo, nas que sabem que um olhar pode salvar, nas que, mesmo quando não são vistas, continuam a ser o lugar onde pertencemos. Hoje é dia de agradecer esta forma tão concreta e tão misteriosa de amar.

Um abraço cheio de gratidão à minha MÃE, por tudo o que me tem dado e pelo que me ajudou e ajuda a ser, por tudo o que foi e é presença vital na minha vida.

Um abraço a todas as MÃES da nossa Comunidade Estrada Clara, às que caminham connosco, às que nos acompanham de longe e às que já vivem na paz de Deus, mas que continuam tão intensamente presentes.

Feliz Dia da Mãe a todos os que são filhos e mães, porque este dia só pode existir porque existe a maior de todas as relações – a do Amor!

Ana

Sinais dos Tempos

Reflexão para o mês de maio de 2026

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Sabeis interpretar o aspeto do céu, mas não sabeis interpretar os sinais dos tempos?” (do Evangelho segundo São Mateus)

Esta passagem do Evangelho de Mateus surge num ambiente de confronto. As autoridades religiosas da época, no seu orgulho, pediam a Jesus um “sinal do céu”, ou seja, uma prova incontestável da sua autoridade divina. Este pedido não era neutro: na tradição judaica, sinais celestes estavam associados a manifestações diretas de Deus na história. No entanto, ao longo do seu ministério, Jesus já realizara inúmeros sinais (curas, milagres e ensinamentos) que apontavam para a presença do Reino de Deus. Por isso, Jesus chama a atenção para o facto de os seus contemporâneos serem capazes de prever o tempo, observando o céu, mas revelarem-se incapazes de reconhecerem que o maior sinal de todos os tempos, o próprio Filho de Deus, já estava diante deles.

Também nós, tal como aqueles fariseus, orgulhamo-nos de saber interpretar muitas coisas: as mudanças climáticas, as tendências políticas, os gráficos económicos, as oscilações tecnológicas. E ainda bem! Mas Jesus convida-nos – tal como o fez no seu tempo – a algo mais profundo, a ler a presença de Deus no quotidiano, no que acontece à nossa volta.

Então, o que significa, hoje, interpretar os sinais dos tempos? Significa viver com atenção ao que está a nascer, mas também a morrer na nossa sociedade, nas nossas relações, no nosso coração. Significa olhar para as mudanças do mundo não com medo, mas com discernimento e serenidade. Ler os sinais dos tempos implica perguntar: “O que é que Deus me quer dizer através disto?”.

O nosso tempo exige que vivamos os problemas que surgem como desafios, e não como obstáculos. Ler os sinais dos tempos pressupõe uma atenção profunda à realidade para perceber a complexidade do presente, ligando o interior com o exterior e com o que vai acontecendo no mundo. Para nós cristãos esta leitura da vida implica sabermos usar a sabedoria que nos é dada pelo Espírito Santo para sermos capazes de discernir o que está a acontecer e, à luz do Evangelho, compreender a vontade de Deus para cada um de nós e para o mundo onde habitamos. É um convite que nos é feito para reconhecer nos acontecimentos atuais o caminho sempre novo e impactante da misericórdia e da fraternidade.

Os sinais dos tempos são, muitas vezes, subtis, discretos. Por isso, exigem de cada um de nós uma atenção própria e a disponibilidade permanente de um coração que se alarga sempre pelo amor. Há sinais nos ritmos das nossas vidas: quando uma inquietação regressa, vezes sem conta, como quem bate à porta e não desiste; quando uma palavra, ouvida quase por acaso, fica a ecoar dentro de nós; quando uma alegria inesperada abre uma brecha de esperança num dia comum. Há sinais nos encontros: pessoas que nos desinstalam, que nos fazem perguntas que não estávamos à espera, que nos mostram caminhos novos. Há sinais também nas feridas: no que dói, nas ausências, no que parece não fazer sentido, também aí Deus se revela para que nos aproximemos d’Ele com mais verdade.

Os sinais dos tempos raramente são claros à primeira vista; na realidade, são quase sempre ambíguos e, por vezes, até bastante desconcertantes. Um fracasso pode ser sinal de um caminho que precisa de ser abandonado para que se inicie algo novo e verdadeiro. Uma perda pode ser apenas dor ou um lugar onde se aprender a amar de outra forma. Uma espera pode parecer estagnação ou um tempo de gestação silenciosa.

Interpretar os sinais dos tempos é recusar a superficialidade do imediato. É aceitar que a vida precisa de espaço, de tempo, de disponibilidade para ser vivida em plenitude. É preciso habitar as situações e permanecer nelas o tempo suficiente para que revelem a sua essencialidade. E esta forma de leitura que Jesus nos traz contradiz a lógica da pressa com que tendemos a viver. Queremos respostas imediatas, direções claras, certezas firmes. Mas Deus parece preferir processos e caminhos que se vão iluminando passo a passo. Aceitar esta pedagogia é, então, reconhecer os sinais dos tempos. É aceitar que nem tudo é evidente, mas que a presença e a fidelidade de um Deus que é Amor atravessa todos os momentos. É aprender a ler a própria vida não com critérios de sucesso ou fracasso, mas com a pergunta mais profunda: onde é que Deus está aqui, nisto que nos acontece? E esta questão muda tudo e ajuda-nos a saber que Ele nos conduz. A fé vive-se neste espaço da confiança e prepara-nos para saber viver o sentido maior da nossa existência.

Os sinais dos tempos são convites que Jesus nos faz a sair de onde estamos instalados, a olhar com mais profundidade, a confiar que há um sentido que nos precede e nos chama. Os sinais dos tempos não são enigmas a resolver. São um encontro a acolher. E só quem se dispõe a esse encontro – com tudo o que ele tem de incerto e de transformador – começa a compreender a presença sempre presente de Deus em cada detalhe das nossas vidas.

No fundo, talvez o maior risco não seja o de não vermos sinais extraordinários, mas deixarmos de reconhecer o extraordinário que já habita o comum. Como aqueles que pediam um sinal do céu, também nós podemos ficar à espera de algo evidente, inequívoco e, nos entretantos, perder a presença tão viva e simples de Deus.

Há um Deus que continua a falar, não através de sinais espetaculares, mas por meio de gestos simples, de processos inacabados, de histórias que ainda estão a ser escritas. Deixemo-nos habitar pela confiança, discreta mas firme, para que o nosso coração se vá tornando capaz de ver, não apenas sinais no céu, mas Deus presente na terra, na vida, em nós.

Oração, caminho de relação

Formação para Catequistas – Junqueira, 2026

No passado dia 14 de março, a convite do padre Delfim Afonso, a Comunidade Estrada Clara foi convidada para orientar uma manhã de formação para catequistas na paróquia de São Simão da Junqueira. O título deste nosso encontro “Oração, caminho de relação” era já todo um programa interior: mais do que falar sobre a oração, deixámo-nos conduzir por ela, num momento de reflexão e aprofundamento dedicado à centralidade da oração na vida cristã e na missão catequética.

Ao longo do encontro, os participantes foram convidados a revisitar a oração não apenas como prática pessoal, mas como experiência de relação viva com Deus, capaz de moldar o modo de viver, escutar e acompanhar na fé. A formação desenvolveu-se a partir de um texto do Papa Francisco e foi enriquecida com os testemunhos dos catequistas presentes.

Num ambiente marcado pela participação atenta e pela riqueza das partilhas, destacou-se a importância de redescobrir a oração como fundamento da missão do catequista. Mais do que um conteúdo a transmitir, a oração surgiu como experiência a viver e testemunhar, reconhecendo-se que a educação da fé nasce antes de mais da autenticidade da relação com Deus.

O encontro foi igualmente ocasião para reforçar a consciência de que a missão catequética se alimenta de interioridade, silêncio e encontro, e que é nesse horizonte que a oração se torna lugar de formação permanente.

O nosso agradecimento aos catequistas da paróquia da Junqueira pela presença disponível, pela simpatia, pelo amável acolhimento, pela escuta atenta, pela riqueza das partilhas e pelo contributo de cada um para fazer deste momento um verdadeiro espaço de formação e comunhão. A participação de todos enriqueceu o encontro e confirmou que é no caminho feito em conjunto, sustentado pela oração e pela dedicação à missão, que continuamos a crescer como catequistas e como comunidade. Um bem-haja a todos vós, queridos catequistas!

Domingo de Páscoa 2026

Onze anos depois da última vez em que participamos, e respondendo a mais um desafio do nosso pároco, partimos em visita pascal, levando no coração a alegria da Ressurreição e a vontade de partilhar esta boa notícia.

Na visita aos utentes da Santa Casa da Misericórdia da Póvoa de Varzim, levamos nas nossas vozes e na nossa presença o amor e o consolo de Cristo ressuscitado que se deixa reconhecer na fragilidade humana, lembrando-nos que a vida nova começa tantas vezes nos lugares mais improváveis.

Também junto dos doentes no hospital da nossa cidade, a Páscoa fez-se encontro e consolo, alegria e entusiasmo. Entre corredores e quartos, entre a pressa e a espera, a visita tornou-se presença, uma presença que não resolve a dor, mas que a acompanha. E, por momentos, a esperança ocupava o seu lugar. A Páscoa também é isto: acreditar que mesmo ali, onde o sofrimento se faz mais evidente, há uma promessa que não falha.

Ao entardecer, a comunidade paroquial reuniu-se na igreja como quem regressa a casa depois de um dia em caminho. A Eucaristia foi o culminar desse caminho: nos nossos cânticos, na Palavra, no pão partilhado, reconhecemos de novo que a ressurreição não é uma ideia distante, mas uma presença que se concretiza na vida concreta, nos rostos encontrados, nos gestos oferecidos.

E assim foi o nosso Domingo de Páscoa: onde há amor partilhado, a vida já começou a vencer. E os nossos corações, tal como os dos discípulos de Emaús, ardem, de festa e de gratidão, por termos tido a possibilidade de vivermos este dia sempre maior!

Ana