Falar para CRER

A paróquia da Matriz vai promover, em parceria com a Comunidade Estrada Clara, os encontros “Falar para CRER”. Numa época em que é cada vez mais imperioso e urgente que os cristãos saibam “dar razões da sua esperança” (1 Pe 3, 15), estes encontros surgem com o objetivo de fomentar o conhecimento da vida cristã, de refletir acerca do que é acreditar e de permitir a partilha de experiências comunitárias. Atualmente, é visível e inegável o poder da palavra, a força da comunicação. É importante falar, mas mais importante é saber falar e saber do que se fala quando se está a falar. É em partilha, em conversa, em relação que vamos aprendendo, descobrindo, assimilando ideias, conhecimentos e conceitos e construindo, assim, a nossa identidade. Tudo isto é igualmente válido para a vida em Igreja. Há muita desinformação a circular, ideias pré-concebidas, preconceitos enraizados que precisam de ser desconstruídos e isto só é possível através da formação. O poder da comunicação é universal e, em contexto religioso, leva-nos a consolidar as nossas crenças, a perceber aquilo em que acreditamos, a viver o que cremos.

Neste sentido, os encontros “Falar para CRER” pretendem ser um espaço de partilha e de reflexão sobre o Outro, que é Deus, e com os outros, que somos todos nós. Os temas abordados terão por base a atualidade da mensagem da vida cristã e o modo como podemos (e devemos!) trazê-la para o nosso quotidiano, para as nossas escolhas e para os nossos contextos. Refletiremos sobre a possibilidade de viver nas nossas vidas a vida de Jesus Cristo e, de um modo muito particular, como podemos ser cristãos esclarecidos e comprometidos com a comunidade paroquial em que estamos inseridos. A metodologia utilizada será a do diálogo partindo sempre de um texto, sendo depois a partilha feita também em pequenos grupos comunitários. Estes encontros terão uma periocidade mensal e estão abertos a todos os elementos das comunidades paroquiais. Não é necessária inscrição. Contamos com todos os que se quiserem juntar a nós.

1.º Encontro “Falar para CRER” – 8 de fevereiro de 2023 (4.ª feira), das 21h às 22h30, no Salão Paroquial da Matriz

A vida toda para toda a Vida

Dia da Vida Consagrada.

Quando se pensa em “vida consagrada”, associa-se esta expressão ao estado mais comum, a vida sacerdotal ou religiosa. No entanto, a vida consagrada tem uma dimensão muito mais ampla. Ser consagrado/a significa dedicar a vida a uma Vida Maior, a um projeto de construção com os Outros por causa desse Outro que é o nosso Deus. Consagrar é tornar sagrado, assumir como relevante, rotular como importante. E esta noção de consagração envolve qualquer escolha de vida e significa sempre uma disponibilidade de coração, de pensamento, de confiança.  Há vinte anos, eu, o Jorge e a Beatriz fomos escolhendo (e digo escolhendo porque este é sempre um caminho que se vai fazendo) esta vida consagrada, dedicada à nossa Comunidade, ao nosso projeto de vida que é a nossa vida toda. Nunca nos guiamos pela ideia limitada que há, segundo a qual a vida em Igreja é só para os tempos livres, para quando é possível, para quando não há mais nada para fazer, para quando se é novo ou velho. Connosco acontecia o contrário, ou seja, tudo o que não acontecesse na Igreja (catequese, grupos de jovens, eucaristias, encontros, passeios, retiros, jornadas) não nos despertava muito interesse. Foi e continua a ser esta a nossa escolha, a de construirmos um projeto de vida cristã que tem como princípios a oração, a espiritualidade, a música, a cultura, o silêncio, o pensamento, o acolhimento, a partilha de ideias e o compromisso diário com uma Vida Maior. Os elementos que connosco partilham esta Estrada – e que são pais e mães, adultos e jovens – são testemunho desta proposta de vida cristã. Costumamos dizer que somos muito felizes com as escolhas que fazemos porque são as nossas escolhas. Nestes últimos dezassete anos, nós os três partilhamos uma vida em comum no espaço onde vivemos, rezamos, conversamos, choramos, sonhamos, sofremos e acreditamos. Por tudo isso, acreditamos que esta nossa vida comunitária poderá ser um incentivo para outras pequenas comunidades de vida em comum que existam em Igreja. “A vida toda para toda a vida”, foi o que prometemos os três num dia bonito de verão diante de um projeto de Vida. E assim continuamos. Feliz dia dos Consagrados!

Ana

No primeiro dia…

Reflexão para o mês de fevereiro de 2023

Uma Luz que não se apaga!

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus.” (Evangelho segundo São Mateus – Mt 5, 16)

“Estórias Abensonhadas” é o título de um livro do criador de palavras e escritor Mia Couto. Considero esta expressão muito feliz e muito verdadeira. Somos, de facto, este misto de bênçãos e de sonhos, somos “abensonhados”. E a nossa vida, com todas as suas alegrias e tristezas, avanços e recuos, risos e choros, é um conjunto de histórias que reflete esta inegável variedade. Em todos os tempos, Deus escolhe-nos, chama-nos pelo nosso nome e conhece quem somos.

Nesta passagem do Evangelho de São Mateus, Jesus reforça-nos esta bênção. Somos feitos de Luz. Jesus diz-nos que nós já somos esta Luz. E Ele confia em nós, nunca o deixando de o fazer em momento algum. Jesus encoraja-nos a tomar consciência disso mesmo, ao procurarmos ser e viver essa Luz. Ser esta luz através das nossas obras, dos nossos movimentos, das nossas idas e vindas. Todos nós cristãos somos chamados a agir de um modo comprometido. Jesus convida-nos a segui-lo e espera que este nosso seguimento se manifeste num estilo de vida. Anunciamos Jesus através daquilo que somos, de quem somos, daquilo que vivemos e escolhemos.

Por isso, não pode existir um cristianismo que não esteja envolvido nos desafios atuais que a nossa sociedade apresenta. O cristão deve estar onde a dignidade é ameaçada, onde a injustiça quer dominar, onde os irmãos são rejeitados. Ser cristão não é nunca viver à parte. Ser cristão é fazer parte da parte, de todas as partes. O cristianismo autêntico, real, concreto vive-se, mostra-se, apresenta-se. Por isso, a vida do cristão é sempre a sua primeira mensagem. O cristão humaniza os ambientes, os contextos em que habita. O cristão torna visível, com a sua vida, a profundidade das coisas, o mistério de Deus.

Todos nós temos essa luz que atrai quem nos rodeia. Felizmente, não faltam exemplos de pessoas que fazem da sua vida um hino à bondade, ao altruísmo, à relação. Mas aqueles que acreditam que esta nossa luz vem de Deus, sabem que esta luz é mais verdadeira, mais universal, mais comunitária. A luz do cristão nunca brilha sozinha. A luz do crente nunca existe no singular. Não é a minha luz, é a luz de Deus para o mundo. Através do meu caminho, das minhas escolhas, eu deixo que Deus venha ao mundo. Deus diz-se presente no mundo atual através daquilo que o cristão é. Por isso, a nossa tarefa enquanto discípulos de Jesus é deixar transparecer essa luz que em nós habita, é ser sinal da sua presença divina no meio dos homens.

A missão do cristão é manter esta luz acesa quando, tantas vezes, é mais fácil diminuí-la ou até mesmo apagá-la. E não precisamos de culpar os outros, as circunstâncias, o mundo. A responsabilidade é, muitas vezes, apenas nossa. Quando deixamos de falar em esperança, quando vivemos a indiferença, quando não sabemos ser gratos, quando silenciamos a vontade de pertencer, quando fazemos cálculos em vez de amar. De cada vez que esta luz se apaga, deixamos que a aridez da nossa alma cresça. Tornamo-nos profissionais da tristeza, da negatividade, do desespero. Tornamo-nos menos quando não nos permitimos ser mais. Assim, o maior projeto humano é não deixar que o mundo, tantas vezes agreste, nos seque, é não permitir que os incêndios quotidianos nos queimem a vontade de sonhar, é não possibilitar que o fim da linha faça parte do nosso desenho.

Nesta passagem do Evangelho, não é por acaso que Jesus refere, quase em simultâneo, luz e mundo. Isto acontece porque não se pode dissociar estas duas realidades. Um cristão precisa do mundo e Deus desafia-nos a abraçá-lo, a acolher as suas circunstâncias e a viver de um modo íntegro neste lugar de tanta contradição. O cristão não é uma realidade abstrata ou inconcreta. O cristão é chamado a exercer, com a sua luz, um poder modificador. Este é o maior tesouro que Deus nos dá. Podermos ser, com Ele e por Ele, Luz para um mundo novo. Por isso, devemos perguntar-nos: o que faço com esta luz que me é dada? Como pode a minha vida refletir esta luz que me foi oferecida?

A nossa luz brilha sempre que os nossos olhos não se fecham, sempre que continuamos a caminhar até à Terra Prometida, sempre que decidimos seguir viagem. Esta Luz é vida que vive em cada dia nosso. Vivermos em relação é condição fundamental para descobrirmos em nós luzes que levávamos e não víamos. Todos temos esta luz. E temos escolhas. Podemos esconder esta luz e fingir que não é nosso o papel de fazer do mundo um lugar de gratidão. Ou podemos revelar esta luz e iluminar os dias que nos são dados, mostrando ao mundo como é possível fazer caminho em paz, fraternidade, comunidade.

Deus chama-nos a todos a sermos esta luz, sem condições ou restrições. A todos nos é oferecida esta possibilidade, a de sermos luz. É desafiante? Muito. É exigente? Tantas vezes. É caminho de vida? Sempre. A essencialidade do nosso ser humano só se completa quando aceitamos dar a vida pela vida desta luz. É sempre dando que recebemos. É sempre iluminando que somos iluminados. Que possamos ser, em cada dia, a Luz que vem de Deus, esta luz que nunca se apaga em nós. Que a nossa Luz brilhe sempre entre nós.

Colorir a Fé

O ano de 2023 é sinónimo de Jornadas Mundiais da Juventude. E ser sinónimo de juventude é olhar a vida com alento, com alegria, com ação. A Igreja põe sempre toda a esperança nos jovens e naquilo que eles podem ser. Quem lida com eles e, sobretudo, quem faz parte do seu percurso de educação e formação cristãs, sabe o quão exigente e desafiador é este mesmo caminho. Os tempos vão mudando, as atividades vão-se modificando, outras escolhas vão-se fazendo. O trabalho com jovens, em Igreja, deve ser sempre cuidado, acolhido, amado. Tendo durante muitos anos trabalhado com esta faixa etária, a Comunidade Estrada Clara congratula-se com o facto de ver que os jovens, com os seus sonhos, vontades e percursos, querem, com a sua vida, fazer da vida da Igreja uma Vida Maior. Por isso, foi com muito gosto que participamos no encontro “Colorir a Fé”, a convite das animadoras dos grupos de adolescentes e jovens da nossa paróquia (Matriz). O objetivo deste encontro foi o de sensibilizar os adolescentes e jovens dos grupos para a ligação umbilical existente entre a música e a dimensão religiosa e a forma como ambas se complementam. O encontro foi dividido em “workshops” sobre a relação entre a música e a vivência cristã. Os participantes puderam experimentar instrumentos musicais e praticar o canto e também analisaram e exploraram a ligação entre música e letra em várias canções. A Comunidade Estrada Clara orientou o workshop “Música e Espiritualidade” onde proporcionamos aos adolescentes e jovens um momento de meditação através do silêncio interior de cada um em harmonização com uma música que ouviram, tendo depois partilhado as sensações sentidas. Todos concluíram que a música é um suporte único para a oração, seja ela individual ou comunitária. Através da música que ouvimos em silêncio ou através dos cânticos que entoamos, a nossa oração torna-se mais vivida, mais bela, mais presente. E assim a nossa vida interior vai crescendo. E assim nós vamos vivendo Deus. Um agradecimento carinhoso às animadoras da nossa paróquia e o oferecimento da nossa disponibilidade para continuar a colaborar nestes encontros que são sempre caminho para o desenvolvimento integral de cada cristão.

No primeiro dia

Reflexão para o mês de janeiro de 2023

A melhor parte!

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada’” (Evangelho segundo São Lucas – Lc 10, 41-42)

Agora que o ano civil chegou ao seu final, costuma ser este o tempo propício para a sociedade fazer os seus balanços e avaliações, idealizando e enumerando projetos futuros. É também por estes dias que muito se fala em escolhas e opções. Em várias etapas da nossa vida somos confrontados com escolhas importantes. A escolha de um curso, de amizades e amores, de um sítio para viver. Também nos deparamos com outras escolhas bem mais banais, a escolha de uma peça de roupa para usar numa festa, a escolha de um filme para ver, a escolha da ementa diária. A sociedade prepara-nos – ou tenta preparar-nos – para sabermos fazer as escolhas mais compensadoras, mais enriquecedoras, em que cada um sai sempre a ganhar. Há cursos para tudo, para que nada falhe, ninguém se confronte com o erro, tudo seja perfeito. Ora, acontece que a vida tem sempre formas de nos dizer que nós somos um processo, um caminho feito de avanços e recuos e que é tantas vezes na fragilidade e no erro que encontramos a possibilidade de descobrir o nosso ser, de saber quem somos.

No Evangelho de Lucas, quando se reúne com as irmãs Marta e Maria, Jesus menciona “a melhor parte”. O que significa escolher a “melhor parte”? Parece óbvio que todos nós aspiramos a esta escolha, a optar pela melhor parte. Ninguém quererá, com certeza, escolher a pior parte. Contudo, muitas vezes, a pior parte acaba por ser mesmo a nossa escolha, precisamente porque não sabemos bem o que significa, para nós, a “melhor parte”. Ao contrário do que a sociedade nos diz, escolher a melhor parte não é querer ter mais, querer comprar mais, querer ser superior aos outros. Escolher a melhor parte implica uma visão mais humanizada, mais empática, mais comunitária. Escolher a melhor parte é, tantas vezes, fazer menos, dizer menos, ser o último, aparentemente escolher a perda, optar pelo que é mais fraco, mais frágil, mais simples. Jesus faz-nos uma promessa, dá-nos uma esperança que não morre ao dizer-nos que “a melhor parte” nunca nos será tirada porque é eterna, porque é caminho infinito, porque não está sujeita à sucessão dos dias e das horas nem à erosão do material. Por isso, a melhor parte raramente será a do sucesso, a das vitórias, a do materialismo, a dos prémios. A melhor parte será sempre aquela em que eu consigo ser mais comunitário, mais presente, mais irmão. A melhor parte é sempre uma possibilidade em cada dia que nos é dado.

Nesta passagem do Evangelho, ao referir-se à “melhor parte”, Jesus chama também a atenção para a nossa essencialidade, para a importância que damos à nossa dimensão espiritual. Estaremos nós ocupados com esta nossa essência? O que fazemos para cuidar do nosso lado espiritual? Como tratamos daquela nossa dimensão que tantas vezes permanece oculta e é aparentemente ausente de valor? Que espaço damos ao cuidado para com aquela nossa vertente que não se encaixa nos estudos, nas profissões, nos sucessos sociais? Como cuido eu de mim quando não sou a profissional, a mãe, a irmã, a dona de casa? Esta passagem do Evangelho de Lucas tem sido, muitas vezes, injustamente mal interpretada, pois tem sido vista numa dualidade antagónica entre a boa pessoa, Maria, e a outra a quem Jesus repreende, Marta. Ou então, entre o favorecimento dado à oração em detrimento da vida ativa, como se fosse possível estancar estas duas vertentes, a da vida orante e a da vida mundana. Na nossa comunidade, nós sempre procuramos que essa separação entre a nossa vida de prática religiosa e a nossa vida como cidadãos do mundo não existisse. Nunca nos vimos como umas pessoas ao fim de semana (na catequese, nos encontros, nas eucaristias) e outras durante a semana (profissionais, membros de uma família, cidadão). Somos sempre um todo, somos um conjunto de tudo o que vamos escolhendo, vivendo, sentindo. O ser humano acaba por sofrer porque vive precisamente esta incoerência, porque se compartimenta em dimensões múltiplas, porque é um quando está a trabalhar, porque é de outra forma quando está em família, porque é ainda de uma outra maneira quando vive os seus ditos tempos livres. Somos todos muito mais completos e verdadeiros se escolhermos ser os mesmos em todas as dimensões da nossa vida. Ser cristão é, antes de mais, querer ser uma testemunha de Cristo, um mensageiro da sua Palavra de Amor, um anunciador de que a Vida é sempre mais. Ser cristão é escolher sempre a melhor parte, o que implica trazer a vida de Jesus para a nossa própria vida. Ser cristão é ser coerente todos os dias. Só assim encontraremos a tal “melhor parte”.

Jesus não condena a irmã que está atarefada a preparar a casa para o receber, mas chama a atenção para o excesso de preocupação que ela parece sentir. Quantas vezes isto nos acontece! Preocupamo-nos tanto em ter tudo preparado, tudo perfeito, para que ninguém nos possa criticar ou para que não haja nenhuma falha e nem nos apercebemos que o momento pelo qual aguardávamos já está agora a acontecer. E acabamos por perder a oportunidade de o viver em serenidade. Saber escolher a melhor parte é sabermos estar disponíveis para o encontro, é sabermos estarmos próximos, é relativizar as pressas e as preocupações, é sentir quando é importante estar, simplesmente estar. Tudo na vida de Jesus nos mostra que não é na perfeição que a vida nasce, não é quando temos tudo preparado que a vida acontece, não é quando dominamos as circunstâncias que a vida se faz vida em abundância. Há que saber acolher e aceitar o que a vida nos dá, o que não é perfeito, o que não dominamos, o que nos parece diferente do que idealizamos, pois é tantas vezes nesses momentos que verdadeiramente encontramos o que andávamos à procura. A tal “melhor parte”. Aquilo a que podemos chamar a nossa sorte grande.

A melhor parte. Saber estar presente. Saber estar perto. Acolher este Jesus Salvador que vem até nós, sem se impor, sem se tornar dominador. Somos nós que fazemos esta escolha. É sempre nossa a liberdade de o escolhermos. Somos nós que lhe damos espaço na nossa vida para Ele nascer a cada dia connosco. Somos nós que abrimos os olhos do nosso coração para o vermos nascer em nós e por nós. E para, como Maria, nos sentarmos com Ele e sentirmos que, com Ele, viveremos sempre a melhor parte. A nossa melhor parte. A nossa sorte grande.

Pequenos grandes Natais

Natal! Esta palavra promete logo alegria, festa, encontro, nascimento. Em cada ano, o mundo inteiro renova votos de esperança e de paz, enfeita-se para receber o seu Deus, descobre a existência única de cada ser humano e percebe que afinal aquilo a que chamam Amor teima em não acabar e só pode ser escrito com letras maiúsculas.

É uma data sem idade esta que celebramos. É um Deus sempre menino, sempre promessa, sempre novidade. É um presépio onde o frio nunca entra, onde o silêncio é encantador, onde o pai e a mãe estão sempre presentes e onde os amigos chegam para fazer uma grande festa. O Natal é isto mesmo, uma grande festa, e é preciso festejá-lo com tudo o que somos, acreditando sempre que cada Natal é sempre novo porque novos podemos ser sempre nós.

O nascimento de Jesus é o sonho projetado por Deus para se realizar em cada Homem. Há um absoluto divino que vive em nós, que nos foi dado e que é preciso fazer nascer nas nossas vidas. Acredito que o Amor nos torna maiores que nós próprios. Que colaboramos com o Universo, com a criação, com Deus. Que o Natal que em cada ano celebramos é nosso, pertence-nos. Que por isso somos responsáveis por fazer nascer pequenos grandes Natais nas nossas vidas e nas vidas de quem está perto de nós. Só assim celebramos verdadeiramente o Natal! Por isso, entendo que o nascimento de Jesus não aconteceu apenas naquele presépio, nem foi só há dois mil e vinte e dois anos. Não faria sentido celebrar um acontecimento passado se ele não pudesse ser presente e, também, futuro. O Natal é sempre de hoje, é meu e teu! Jesus nasce na vida de cada um de nós e em cada dia sempre que acreditamos que Ele faz parte de cada vida, de cada projeto, sempre que o fazemos nascer nas nossas escolhas, nos nossos gestos, nas nossas canções.

Celebrar o Natal é, por isso, muito mais do que assinalar uma data, uma época, uma história. O Natal é a nossa festa da criação, da esperança e da comunidade. É o anúncio da simplicidade e da universalidade. É um mistério que só o Amor pode explicar, se é que são precisas explicações para quem ama. É sentir que afinal de muito pouco precisamos para sermos felizes e que Deus também nos escolhe para vir ao mundo. E se acreditamos que somos filhos de Deus, de que mais precisamos nós para fazermos das nossas vidas algo de significativo e imortal?

Natal! Um feliz Natal só pode ser isso mesmo… um feliz Natal! Que aquele primeiro Natal nos faça acreditar que a nossa vida é sempre o nosso bem mais valioso e valioso é também tudo aquilo que podemos e devemos fazer com ela.

Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

No primeiro dia…

Reflexão para o mês de dezembro de 2022

Enquanto houver estrada para andar…

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’” (Evangelho segundo São Mateus – Mt 3, 3)

A época em que estamos a viver é sinónimo de azafama, de agitação, do “não deixes para ontem o que podes fazer hoje”. A sociedade grita-nos que o tempo urge para sermos os mais felizes, os mais ricos, os mais importantes. Há um lema que nos é imposto que é o de evitar derrotas e sermos sempre vencedores. A corrente da movimentação faz com que grande parte da sociedade viva a ansiedade de querer tudo, de experimentar tudo, de preencher todas as horas com atividades e ocupações que sejam sempre e só lucrativas. Pede-nos ainda que fujamos do sofrimento e que finjamos que a morte só acontece aos outros. Pouco espaço parece existir para a simplicidade, para o silêncio, para o gratuito. Alguém que esteja quieto a contemplar a vida é logo questionado se está triste. Tantos se espantam quando veem outros a escolher não correr atrás de carreiras cheias de sucesso e de dinheiro, mas que lhes roubam o tempo de estar consigo e com quem mais amam. Hoje vive-se sempre com pressa, com horários, com prazos, com objetivos só mundanos. Hoje o Homem vive como se fosse uma máquina feita para o sucesso. Vive para o lucro e com o lucro. Escolhe em função do resultado final que só pode ser um: ganhar.

É neste contexto que os cristãos aparecem, tantas vezes, como aqueles que poucos entendem, como aqueles que não sabem aproveitar a vida de acordo com os modelos que a sociedade quer impor. O cristão autêntico é aquele que, muitas vezes, anda na contra-corrente. A mensagem de Jesus Cristo é anti-pressa, anti-barulho, anti-lucro. É a mensagem de um Homem que veio ao Mundo anunciar que a Vida só é vida em abundância quando é vivida na simplicidade, na gratidão, no encontro. Sem trocas, sem contratos, sem lucros, sem lógicas de mercado. É um modo de viver que implica a maior das escolhas: amar. Só amar. No seu tempo, Jesus morreu porque a vida que anunciava era incompatível com a vida da sociedade em que escolheu viver. Hoje, Jesus continua a morrer de cada vez que os homens se recusam a escolher o amor, o outro, a comunidade. Por isso, precisamos tanto do Natal, precisamos que Jesus venha até nós e nos recorde que é sempre possível voltarmos a escolher o amor de novo. Por isso, precisamos todos de voltar a nascer com aquele menino em Belém para nos lembrarmos que a vida é simplicidade.

Acabamos de iniciar o tempo do Advento. O Advento surge como uma época de preparação. Enfeitam-se as casas, iluminam-se as ruas, cuidam-se das ementas natalícias, procuram-se as melhores ofertas, vemos os filmes familiares que a televisão nos proporciona, fazemos listas de tarefas para cumprir. Toda a sociedade se prepara para a grande festa natalícia. Nada pode falhar ou faltar. Há mais de dois mil anos, usando as palavras do profeta Isaías, João Batista anunciava que Deus precisava que os homens preparassem caminho, fizessem estrada, aplanassem as suas veredas. Mas este caminho que João Batista lembrava que todos temos de preparar não é a via das compras, da pressa, do imediato, do consumismo. É o meu caminho. É o teu caminho. É o caminho que nos leva à Vida Eterna, é o caminho que nos direciona para um Deus que insiste, todos os anos, em nascer em nós e para nós. É um caminho que traz tanto trabalho como leveza, que apresenta tantas dúvidas como certezas, que tem tantas curvas como retas, que é tão solitário como comunitário. Esse caminho é a minha Vida. É a tua Vida. E este caminho é sempre uma escolha, um trabalho que eu posso fazer, uma estrada para andar.

Deus vem para que nós possamos ser, para que a Humanidade tenha esse toque divino que nos eterniza. Por isso, cada um de nós é sempre o lugar onde Deus escolheu estar, a nossa estrada é o espaço onde Deus caminha connosco, a nossa vida é a manifestação de um Deus que nos nasce. Deus é connosco. Não estamos sozinhos. Mesmo quando não o queremos na nossa estrada, ele insiste em aparecer sob a forma de uma palavra que lemos, de um amigo que encontramos, de um abraço que recebemos, de uma música que cantamos. E assim Deus continua a visitar-nos através daquilo que nos é próximo. É por isto que se faz Natal.

“Ao lado do teu amigo, nenhum caminho será longo.” Este provérbio japonês, que serviu de título a um livro magnífico do Cardeal Tolentino, põe em evidência a essência comunitária do caminho. Quando caminhamos juntos, quando as nossas estradas são partilhadas, tudo fica mais simples, mais completo, mais fácil, mais suportável. Assim é Deus em nós. Acreditando na sua presença, sentindo o seu amor, vamos seguindo neste caminho que é a vida. Com Ele e por Ele, o nosso coração sente que a vida pode ser sempre mais, que a estrada segue, que os trilhos se desenham.

Por isso, nesta caminhada de Advento, reflito nas questões que se me impõem. Que caminho é este que eu quero preparar? A que me quero eu dedicar? Que estrada estou eu a construir? Com quem quero eu partilhar este meu caminho? Que obstáculos devo eu tentar retirar das minhas veredas? A vida é um conjunto de questões, de interrogações, de avanços e recuos. Só o Amor é inquestionável. E eu avanço na medida em que eu confio e assim vou caminhando. Sempre. Mais depressa ou mais lentamente. Eu sigo. Seguimos. Nesta estrada que escolhemos. Numa estrada clara.

Mensagem do Papa Francisco para a XXXVII Jornada Mundial da Juventude (2022-2023)

«Maria levantou-se e partiu apressadamente» (Lc 1, 39)

Queridos jovens!

O tema da JMJ do Panamá era este: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38). Depois daquele evento, retomamos o caminho para uma nova meta – Lisboa 2023 –, deixando ecoar nos nossos corações o premente convite de Deus a levantar-nos. Em 2020, meditamos nesta palavra de Jesus: «Jovem, Eu te digo, levanta-te!» (cf. Lc 7, 14). No ano passado, serviu-nos de inspiração a figura do apóstolo São Paulo, a quem o Senhor ressuscitado dissera: «Levanta-te! Eu te constituo testemunha do que viste» (cf. At 26, 16). No troço de estrada que ainda nos falta para chegar a Lisboa, caminharemos juntos com a Virgem de Nazaré, que, imediatamente depois da Anunciação, «levantou-se e partiu apressadamente” (Lc 1, 39) para ir ajudar a prima Isabel. Comum aos três temas é o verbo levantar-se, palavra (é bom lembrá-lo!) que significa também «ressuscitar», «despertar para a vida».

Nestes últimos tempos tão difíceis, em que a humanidade já provada pelo trauma da pandemia, é dilacerada pelo drama da guerra, Maria reabre para todos e em particular para vós, jovens como Ela, o caminho da proximidade e do encontro. Espero e creio fortemente que a experiência que muitos de vós ireis viver em Lisboa, no mês de agosto do próximo ano, representará um novo começo para vós jovens e, convosco, para toda a humanidade.

Maria levantou-se

Depois da Anunciação, Maria teria podido concentrar-se em si mesma, nas preocupações e temores derivados da sua nova condição; mas não! Entrega-se totalmente a Deus! Pensa, antes, em Isabel. Levanta-se e sai para a luz do sol, onde há vida e movimento. Apesar do inquietante anúncio do Anjo ter provocado um «terremoto» nos seus planos, a jovem não se deixa paralisar, porque dentro d’Ela está Jesus, poder de ressurreição. Dentro d’Ela, traz já o Cordeiro Imolado mas sempre vivo. Levanta-se e põe-se em movimento, porque tem a certeza de que os planos de Deus são o melhor projeto possível para a sua vida. Maria torna-se templo de Deus, imagem da Igreja em caminho, a Igreja que sai e se coloca ao serviço, a Igreja portadora da Boa Nova.

Experimentar na própria vida a presença de Cristo ressuscitado, encontrá-Lo «vivo», é a maior alegria espiritual, uma explosão de luz que não pode deixar ninguém «parado». Imediatamente põe em movimento impelindo a levar aos outros esta notícia, a testemunhar a alegria deste encontro. É aquilo que anima a pressa dos primeiros discípulos nos dias que se seguiram à ressurreição: «Afastando-se apressadamente do sepulcro, cheias de temor e grande alegria, as mulheres correram a dar a notícia aos discípulos» (Mt 28, 8).

As narrações da ressurreição usam muitas vezes dois verbos: acordar e levantar-se. Através deles, o Senhor impele-nos a sair para a luz, a deixar-se conduzir por Ele para superar o limiar de todas as nossas portas fechadas. «É uma imagem significativa para a Igreja. Também nós, como discípulos do Senhor e como Comunidade Cristã, somos chamados a erguer-nos apressadamente para entrar no dinamismo da ressurreição e deixar-nos conduzir pelo Senhor ao longo dos caminhos que Ele nos queira indicar» (Francisco, Homilia na Solenidade de São Pedro e São Paulo, 29/VI/2022).

A Mãe do Senhor é modelo dos jovens em movimento, jovens que não ficam imóveis diante do espelho em contemplação da própria imagem, nem «alheados» nas redes. Ela está completamente projetada para o exterior. É a mulher pascal, num estado permanente de êxodo, de saída de si mesma para o Outro, com letra grande, que é Deus e para os outros, os irmãos e as irmãs, sobretudo os necessitados, como estava então a prima Isabel.

…e partiu apressadamente

Santo Ambrósio de Milão escreve, no seu comentário ao Evangelho de Lucas, que Maria partiu apressadamente para a montanha, «porque estava feliz com a promessa e desejosa de prestar devotadamente um serviço, com o entusiasmo que lhe vinha da alegria interior. Agora, cheia de Deus, para onde poderia apressar-se se não em direção ao alto? A graça do Espírito Santo não admite morosidades». Por isso a pressa de Maria é ditada pela solicitude do serviço, do anúncio jubiloso, duma pronta resposta à graça do Espírito Santo.

Maria deixou-se interpelar pela necessidade da sua prima idosa. Não se escusou, não ficou indiferente. Pensou mais nos outros do que em si mesma. E isto conferiu dinamismo e entusiasmo à sua vida. Cada um de vós pode perguntar-se: Como reajo perante as necessidades que vejo ao meu redor? Busco imediatamente uma justificação para não me comprometer, ou interesso-me e torno-me disponível? É certo que não podeis resolver todos os problemas do mundo; mas talvez possais começar por aqueles de quem está mais próximo de vós, pelas questões do vosso território. Uma vez disseram a Madre Teresa que «quanto ela fazia não passava duma gota no oceano». E ela respondeu: «Mas, se não o fizesse, o oceano teria uma gota a menos».

Perante uma necessidade concreta e urgente, é preciso agir apressadamente. No mundo, quantas pessoas esperam uma visita de alguém que cuide delas! Quantos idosos, doentes, presos, refugiados precisam do nosso olhar compassivo, da nossa visita, de um irmão ou uma irmã que ultrapasse as barreiras da indiferença!

Quais são as «pressas» que vos movem, queridos jovens? O que é que vos faz sentir de tal maneira a premência de vos moverdes que não conseguis ficar parados? Há muitos que, impressionados por realidades como a pandemia, a guerra, a migração forçada, a pobreza, a violência, as calamidades climáticas, se interrogam: Porque é que me acontece isto? Porquê precisamente a mim? Porquê agora? Mas a pergunta central da nossa existência é esta: Para quem sou eu? (cf. Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 286).

A pressa da jovem mulher de Nazaré é a pressa típica daqueles que receberam dons extraordinários do Senhor e não podem deixar de partilhar, de fazer transbordar a graça imensa que experimentaram. É a pressa de quem sabe colocar as necessidades do outro acima das próprias. Maria é exemplo de jovem que não perde tempo a mendigar a atenção ou a aprovação dos outros – como acontece quando dependemos daquele «gosto» nas redes sociais –, mas move-se para procurar a conexão mais genuína, aquela que provem do encontro, da partilha, do amor e do serviço.

A partir da Anunciação, desde aquela primeira vez quando partiu para ir visitar a sua prima, Maria não cessa de atravessar espaços e tempos para visitar os filhos carecidos da sua ajuda carinhosa. Os nossos passos, se habitados por Deus, levam-nos diretamente ao coração de cada um dos nossos irmãos e irmãs. Quantos testemunhos nos chegam de pessoas «visitadas» por Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe. Em quantos lugares remotos da terra, ao longo dos séculos, Maria visitou o seu povo com aparições ou graças especiais. Praticamente não há lugar, na Terra, que não tenha sido visitado por Ela. Movida por uma solícita ternura, a Mãe de Deus caminha no meio do seu povo e cuida das suas angústias e vicissitudes. E onde quer que haja um santuário, uma igreja, uma capela a Ela dedicada, lá acorrem numerosos os seus filhos. Quantas expressões de piedade popular! As peregrinações, as festas, as súplicas, o acolhimento das imagens nas casas e muitas outras iniciativas são exemplos concretos da relação viva entre a Mãe do Senhor e o seu povo, que se visitam reciprocamente.

Uma pressa boa impele-nos sempre para o alto e para o outro

Uma pressa boa impele-nos sempre para alto e para o outro. Mas há também uma pressa não boa, como, por exemplo, a pressa que nos leva a viver superficialmente, tomar tudo levianamente sem empenho nem atenção, sem nos envolvermos verdadeiramente no que fazemos; a pressa de quando vivemos, estudamos, trabalhamos, convivemos com os outros sem colocarmos nisso a cabeça e menos ainda o coração. Pode acontecer nas relações interpessoais: na família, quando nunca ouvimos verdadeiramente os outros nem lhes dedicamos tempo; nas amizades, quando esperamos que um amigo nos faça divertir e dê resposta às nossas exigências, mas, se virmos que ele está em crise e precisa de nós, imediatamente o evitamos e procuramos outro; e mesmo nas relações afetivas, entre noivos, poucos têm a paciência de se conhecerem e compreenderem a fundo. E, a mesma atitude, podemos tê-la na escola, no trabalho e noutras áreas da vida quotidiana. Ora, todas estas coisas vividas com pressa dificilmente darão fruto; há o risco de permanecerem estéreis. Assim se lê no livro dos Provérbios: «Os projetos do homem diligente têm êxito, mas quem se precipita [a pressa má] cai certamente na ruína» (21, 5).

Quando Maria, finalmente, chega à casa de Zacarias e Isabel, sucede um encontro maravilhoso. Isabel experimentou em si mesma uma intervenção prodigiosa de Deus, que lhe deu um filho na velhice. Teria todas as razões para falar, primeiro, de si mesma; mas não o fez, toda propensa a acolher a jovem prima e o fruto do seu ventre. Logo que ouve a sua saudação, Isabel fica cheia do Espírito Santo. Acontecem estas surpresas e irrupções do Espírito quando vivemos uma verdadeira hospitalidade, quando colocamos no centro o hóspede, e não a nós próprios. Vemos isto mesmo também na história de Zaqueu, que lemos em Lucas: «Quando chegou àquele local [onde estava Zaqueu], Jesus levantou os olhos e disse-lhe: “Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa”. Ele desceu imediatamente e acolheu Jesus cheio de alegria» (19, 5-6).

Já aconteceu a muitos de nós sentir que, inesperadamente, Jesus vem ao nosso encontro: n’Ele, pela primeira vez, experimentamos uma proximidade, um respeito, uma ausência de preconceitos e condenações, um olhar de misericórdia que nunca tínhamos encontrado nos outros. Mais, sentimos também que, a Jesus, não Lhe bastava olhar-nos de longe, mas queria estar connosco, queria partilhar a sua vida connosco. A alegria desta experiência suscitou em nós a pressa de O acolher, a urgência de estar com Ele e conhecê-Lo melhor. Isabel e Zacarias hospedaram Maria e Jesus. Aprendamos daqueles dois anciãos o significado da hospitalidade. Perguntai aos vossos pais e aos vossos avós, bem como aos membros mais idosos das vossas comunidades, que significa para eles serem hospitaleiros para com Deus e com os outros. Fazer-vos-á bem escutar a experiência de quem vos precedeu.

Queridos jovens, é tempo de voltar a partir apressadamente para encontros concretos, para um real acolhimento de quem é diferente de nós, como acontece entre a jovem Maria e a idosa Isabel. Só assim superaremos as distâncias entre gerações, entre classes sociais, entre etnias, entre grupos e categorias de todo o género, e superaremos também as guerras. Os jovens são sempre a esperança duma nova unidade para a humanidade fragmentada e dividida. Mas somente se tiverem memória, apenas se escutarem os dramas e os sonhos dos idosos. «Não é por acaso que a guerra tenha voltado à Europa no momento em que está a desaparecer a geração que a viveu no século passado» (Francisco, Mensagem para o II Dia Mundial dos Avós e do Idosos). Há necessidade da aliança entre jovens e idosos, para não esquecer as lições da história, para superar as polarizações e os extremismos deste tempo.

Ao escrever aos Efésios, São Paulo anunciou: «Em Cristo Jesus, vós, que outrora estáveis longe, agora estais perto, pelo Sangue de Cristo. Com efeito, Ele é a nossa paz, Ele que, dos dois povos, fez um só e destruiu o muro de separação, a inimizade, na sua carne» (2, 13-14). Jesus é a resposta de Deus face aos desafios da humanidade em todos os tempos. E esta resposta, Maria leva-a dentro de si quando vai ao encontro de Isabel. A maior prenda que Maria oferece à sua parente idosa é levar-lhe Jesus: certamente também a ajuda concreta foi muito preciosa; mas nada teria podido encher a casa de Zacarias com uma alegria tão grande e um significado assim pleno como o fez a presença de Jesus no ventre da Virgem, que se tornara o tabernáculo do Deus vivo. Naquela região montanhosa, Jesus, com a mera presença, sem dizer uma palavra, pronuncia o seu primeiro «discurso da montanha»: proclama em silêncio a bem-aventurança dos pequeninos e dos humildes que se entregam à misericórdia de Deus.

A minha mensagem para vós jovens, a grande mensagem de que é portadora a Igreja é Jesus! Sim, Ele mesmo, o seu amor infinito por cada um de nós, a sua salvação e a vida nova que nos deu. E Maria é o modelo de como acolher este imenso dom na nossa vida e comunicá-lo aos outros, fazendo-nos por nossa vez portadores de Cristo, portadores do seu amor compassivo, do seu serviço generoso, à humanidade sofredora.

Todos juntos em Lisboa!

Maria era uma jovem como muitos de vós. Era uma de nós. Assim escrevia acerca dela o bispo D. Tonino Bello: «Santa Maria, (…) bem sabemos que foste destinada a navegar no alto mar. Mas, se te constrangemos a navegar junto da costa, não é porque queremos reduzir-te aos níveis da nossa pequena navegação costeira. É porque, vendo-te tão perto das praias do nosso desânimo, possa apoderar-se de nós a consciência de sermos chamados, também nós, a aventurar-nos, como Tu, nos oceanos da liberdade» (Maria, mulher dos nossos dias, Cinisello/Balsamo 2012, 12-13).

Como recordei na primeira Mensagem desta trilogia, nos séculos XV e XVI, muitos jovens (incluindo tantos missionários) partiram de Portugal rumo a mundos desconhecidos, inclusive para partilhar a sua experiência de Jesus com outros povos e nações (cf. Francisco, Mensagem JMJ 2020). E a esta terra, no início do século XX, Maria quis fazer uma visita especial, quando de Fátima lançou a todas as gerações a mensagem forte e maravilhosa do amor de Deus que chama à conversão, à verdadeira liberdade. A cada um e cada uma de vós renovo o meu caloroso convite a participar na grande peregrinação intercontinental dos jovens que culminará na JMJ de Lisboa em agosto do próximo ano; e recordo-vos que, no próximo 20 de novembro, Solenidade de Cristo Rei, celebraremos a Jornada Mundial da Juventude nas Igrejas particulares espalhadas pelo mundo inteiro. A propósito, o recente documento do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida – Orientações pastorais para a celebração da JMJ nas Igrejas particulares– pode ser de grande ajuda para todas as pessoas que trabalham na pastoral juvenil.

Sonho, queridos jovens, que na JMJ possais experimentar novamente a alegria do encontro com Deus e com os irmãos e as irmãs. Depois dum prolongado período de distanciamento e separação, em Lisboa – com a ajuda de Deus – reencontraremos juntos a alegria do abraço fraterno entre os povos e entre as gerações, o abraço da reconciliação e da paz, o abraço duma nova fraternidade missionária! Que o Espírito Santo acenda nos vossos corações o desejo de vos levantardes e a alegria de caminhardes todos juntos, em estilo sinodal, abandonando falsas fronteiras. O tempo de nos levantarmos é agora. Levantemo-nos apressadamente! E, como Maria, levemos Jesus dentro de nós, para O comunicar a todos. Neste belíssimo momento da vossa vida, avançai, não adieis o que o Espírito pode realizar em vós! De coração abençoo os vossos sonhos e os vossos passos.

Roma, São João de Latrão, na Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria,15 de agosto de 2022.

Francisco

Caminho em Ti – 05.10.22 (Junqueira, Vila do Conde)

No passado dia 5 de outubro, no início do novo ano catequético, a Comunidade Estrada Clara orientou um encontro “Caminho em Ti” para o grupo de catequistas da paróquia da Junqueira (Vila do Conde). Durante a manhã, após as apresentações iniciais e o momento de oração, foi trabalhado, em grande grupo, o tema “Deus investe em nós – a parábola dos talentos”. Juntos, concluímos, a partir do texto evangélico, que cada um de nós, tendo em conta as suas características e individualidade, dispõe de capacidades dadas por Deus e que se multiplicam e ganham um significado maior quando são colocadas a render, isto é, quando são dinamizadas com os outros e para os outros. Abordaram-se também os principais obstáculos experimentados na aplicação destes talentos, ou seja, quando deixamos que o medo, a apatia, a indiferença e o egoísmo nos dominem e assim ficamos aquém do que verdadeiramente podemos ser. Seguiu-se o almoço partilhado e um passeio pela bela quinta dos Padres Monfortinos, um espaço privilegiado para o contacto com a natureza e com o silêncio. Durante a tarde, trabalhamos a Nota Pastoral “O Educador Cristão, um guia no caminho” elaborada pela Comissão Episcopal da Educação Cristã e da Doutrina da Fé. Os catequistas formaram pequenos grupos onde abordaram as seguintes questões: a partir dos cinco pontos mencionados na Nota Pastoral, o que melhor define o educador cristão; qual a responsabilidade de cada um, enquanto educador cristão, no seu contexto paroquial. Depois, em grande grupo, partilhamos as várias conclusões, tendo sido destacada a necessidade de se saber acolher com amor cada catequizando, respeitando a sua individualidade, e a necessidade de adotar estratégias que possibilitem uma maior participação das crianças e das famílias na vida comunitária. O Encontro terminou com uma Oração de Compromisso, onde cada um se disponibilizou a usar os seus dons no contexto paroquial. A Comunidade Estrada Clara agradece, com muita gratidão, o convite feito pelo padre Delfim Afonso e a presença deste grupo de catequistas, sempre tão disponíveis e empáticos. Que juntos façamos um caminho de Luz, de descoberta e de alegria n’Aquele que é tudo em nós!

No primeiro dia…

Reflexão para o mês de novembro de 2022

Vaidade das riquezas

Texto de Jorge Ferreira, Comunidade Estrada Clara (este texto foi escrito pelo Jorge em novembro de 2008)

“O homem que vive na opulência não permanecerá. Esta é a sorte dos que confiam em si mesmos. Não te preocupes, se alguém enriquece, se aumenta a fortuna da sua casa. Quando morrer, nada levará consigo; a sua fortuna não há-de acompanhá-lo.”  Salmo 49

Em tempo de crise, as palavras proféticas da Bíblia gritam-nos com mais força. Crise que não é uma doença nem uma catástrofe natural diante das quais somos quase impotentes, mas uma crise provocada por homens. Homens que sem escrúpulos fazem mal aos seus semelhantes. Há dias, na SIC Notícias, um comentador dizia que a irresponsabilidade dos especuladores da bolsa estava ao nível da irresponsabilidade de Hitler, Mao Tse ou Pol Pot. Homens estes que queriam ter mais dinheiro e mais poder, mais dinheiro e mais lucro, mais lucro e mais dinheiro, mais dinheiro e mais dinheiro. Perderam. E com eles todos. E ao que parece todo o mundo, em efeito dominó, como dizem os economistas.

Penso que toda esta busca incessante e incansável que se faz pelo dinheiro é uma ideia confusa que se generalizou em todas as pessoas de que o dinheiro traz felicidade ou nos põe perto dela. Querer ter mais dinheiro é normal e saudável. Querer ter muito dinheiro, acumular riqueza, possuir tudo à volta até onde o olhar alcança é doença. A árvore do fruto proibido do Éden lembra-nos isso: não nos é dado ter tudo nem saber tudo. O homem não soube ver quão maravilhoso era tudo à volta e preferiu aquele fruto. Hoje faz-se o mesmo. A felicidade não vem de termos mais dinheiro, mas vem na medida em que nos realizamos. Não valemos pelo que temos dentro dos bolsos, mas pelo que temos dentro da cabeça. Somos felizes na medida em que percebemos o que se passa à nossa volta, na medida em que compreendemos os nossos irmãos, os nossos amigos, o mundo, o cosmos. Não se chega a este conhecimento preocupados em ganhar dinheiro nem a pensar no carro que vamos comprar amanhã. A felicidade é um estado sereno. Quieto. Calmo. A felicidade não faz barulho. Não é um mero divertimento. É um estado interior. Parece-me que a felicidade estará ao nível daquilo a Abraham Maslow chama de autorrealização. Na teoria da hierarquia das necessidades humanas que ele apresenta em forma de pirâmide com cinco níveis, a autorrealização é o nível mais elevado e “depende da realização e cumprimentos máximos dos nossos potenciais, talentos e capacidades. Se uma pessoa não estiver autorrealizada, ficará impaciente, frustrada e descontente”. Assim estava o Jovem rico que Jesus encontrou um dia. Apesar da sua grande fortuna e de cumprir todos os mandamentos, como dizia, sentia-se insatisfeito. Jesus disse-lhe como deveria alcançar a felicidade, mas ele não foi capaz de a encontrar “porque possuía muitos bens”. Diz-nos também Maslow que “independentemente das nossas ocupações e interesses podemos maximizar as habilidades pessoais e atingir o desenvolvimento completo da personalidade. A autorrealização não é limitada a celebridades intelectuais e criativas, como os músicos, artistas, astrofísicos. O importante é desenvolver os seus próprios potenciais no mais alto nível possível, qualquer que seja a missão escolhida”. Uma das diversas condições para que possamos sentirmo-nos realizados que mais aprecio é esta: “Estar livre de restrições impostas pela sociedade e por nós mesmos”. Quais são as restrições que a sociedade nos impõe? Como é que eu me livro destas restrições? Como é que eu descubro que tenho uma vontade, um gosto, uma ideia se estou obcecado pela moda, pela fama, pelas tecnologias, pelo dinheiro, pelo bem-estar material? E já agora: o que é que me faz rir? Rio-me com aquilo que os outros se riem? O que é que de mim quero mostrar aos outros? O que é que os outros vêm em mim? Conhecermo-nos e pensarmo-nos chama a felicidade a nós. Ter um telemóvel que a sociedade nos impõe não chama. Nas Forças de Assinatura de Martin Seligman não é mencionado o dinheiro, ter muito ou pouco. Pelo contrário ter muito dinheiro é normalmente sinal de muitas preocupações. “A boa vida consiste em obter a felicidade através da utilização das suas forças de assinatura nos principais domínios da vida. Uma vida com significado adiciona mais um componente: utilizar estas mesmas forças para promover o conhecimento, o poder ou a bondade.”(Martim Seligman). A descoberta das nossas forças e a sua utilização no dia-a-dia pressupõem estarmos livres de restrições, regras e modelos que nada têm a ver connosco, nada nos acrescentam e nada valem. Maslow diz que a autorrealização exige coragem. Eu digo que é preciso coragem para, por vezes, tomarmos certas decisões, tais como abandonarmos um curso que não nos interessa, um(a) namorado(a) que não nos completa, a comida que nos faz mal, o telemóvel, as modas, as manias, as mentiras, a cama, a televisão, o trânsito, o computador se preciso for para sermos nós mesmos, para sermos felizes. “O processo de autorrealização exige esforço, disciplina e autocontrole. Assim, para muitas pessoas pode parecer mais fácil e seguro aceitar a vida como ela é, em vez de procurar novos desafios. As pessoas realizadas testam-se a si mesmas constantemente, abandonando rotinas seguras, comportamentos e atitudes familiares”. (Maslow)

 “Estou interessada em fazer filmes que desafiem as pessoas a ser protagonistas das suas próprias vidas.” disse Susan Sarandon há dias de passagem por Lisboa. Ela descobriu que todos podemos conduzir e nossa vida. Ela não acha que só os artistas ou pessoas com dinheiro o podem fazer. Por fim, podemos especular se os especuladores da bolsa que especularam demais e com o dinheiro dos outros se sentirão felizes e realizados. Ou especulados!

“Uma vida cheia de significado é aquela que se junta a algo maior do que nós” (Martim Seligman)