No primeiro dia…

Reflexão para o mês de agosto de 2022

Mi casa es tu casa

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa.» (do Evangelho segundo São Lucas 19, 5)

A história de Zaqueu é uma das passagens mais conhecidas e comentadas da Bíblia. Nela se aborda o encontro de Jesus com alguém que, aos olhos da sociedade da época, era um pecador, sem possibilidade de redenção. O encontro de Jesus com este homem é transformador, desafiador para os críticos do seu tempo e é sempre sinal de vida nova para todos nós.

Neste texto bíblico, há um acontecimento curioso e que, muitas vezes, ao lermos esta narrativa, acaba por passar despercebido. É o momento em que Jesus, avistando Zaqueu, lhe diz que precisa de ficar em sua casa. Esta urgência deste pedido feito por Jesus está carregada de amor, de acolhimento, de proteção. E é um pedido que Ele nos faz a todos nós. Jesus quer ficar em nossa casa, na nossa vida, nos nossos espaços. É Ele quem vem até nós e nos pede abrigo. Este pedido que Jesus faz a Zaqueu inaugura o princípio da hospitalidade que é marca indelével de todo o Cristianismo. Antes de sermos Igreja, temos de ser acolhimento. Para sermos Igreja, temos de ser acolhimento.

Hospitalidade significa estarmos preparados para acolher, para receber, para sermos casa para os outros, para sermos um abraço amigo, um olhar de ternura. Nos Evangelhos, a hospitalidade é um tema fulcral. A conhecida passagem das irmãs Marta e Maria. O pai misericordioso do filho pródigo. O bom e cuidadoso samaritano. Mas o primeiro sinal de acolhimento acontece quando o próprio Deus se faz presente numa criança. Maria e José são os primeiros a acolher e a hospedar Deus nas suas vidas.

Hospitalidade é uma forma de amor. Jesus pede a Zaqueu hospitalidade. Quer ser recebido em sua casa. O método de Jesus é sempre o de amar primeiro, o de procurar, o de se fazer presente. Jesus transforma os comportamentos e as atitudes mais marcadamente desumanizadas em vias de proximidade, amizade e hospitalidade. Jesus oferece a Zaqueu o seu Amor e a sua presença de uma forma incondicional, sem estratagemas, sem negociações, sem pré-requisitos. E respeita a sua liberdade, valor tão fundamental para que o posterior “sim” de Zaqueu a uma vida nova – ele compromete-se a partilhar com os pobres os seus bens e a emendar injustiças – possa ser verdadeiro e pleno. Jesus é sempre o primeiro a querer fazer parte da nossa vida. Zaqueu, aquele homem desprezado pelos seus, sentiu a hospitalidade de Jesus e isso renovou-o, isso fez dele um homem novo, que deseja a mudança. Começa para ele uma vida nova porque ele próprio assim o quis, assim se disponibilizou a mudar. Neste episódio de Zaqueu, Jesus mostra a disponibilidade de Deus frente a toda a humanidade. Jesus toma sempre a iniciativa, não espera primeiro uma conversão. Este é o modo de Deus amar.

Hoje, Deus continua a querer entrar em nossa casa, a querer habitar connosco, a querer ficar entre nós. E isto acontece de tantas formas, através de tantos acontecimentos quotidianos. Ouvimos, no nosso coração, as mesmas palavras escutadas por Zaqueu: “Hoje tenho de ficar em tua casa.” Nos tempos de correm, nós devemos ser estes lugares de acolhimento, de presença, de fortaleza. Devemos ser uma palavra inteira, uma força firme, uma presença serena. O mundo anda enraivecido, irritado, desiludido. As pessoas procuram refúgios e cada um de nós tem essa obrigação, essa missão, a de ser casa, porto de abrigo, segurança. Enquanto cristãos, a nossa obrigação é a de acolher. Receber sempre. Sem entraves. Sem dúvidas. Sem julgamentos. Que não se assuma como cristão aquele que não abre a sua porta a quem é diferente, aquele que rejeita amar, aquele que julga e condena o que não conhece. A identidade crente constrói-se a partir da noção de hospitalidade enquanto marca fundamental do testemunho cristão.

Estamos num tempo de mudança, novos ventos se agitam, um novo olhar nos é pedido pela vida. São tempos desafiadores, mas simultaneamente de profunda reconstrução. Por isso, a Igreja deve ser o primeiro espaço onde se demonstra, acima de tudo, a hospitalidade para com a humanidade de hoje, para com o mundo moderno e as suas particularidades e contextos. O Cristianismo proclama uma nova forma de estar com os outros, uma cultura de proximidade, de união. Por isso, a hospitalidade reflete a vida da Igreja. Sem ela, a Igreja esvazia-se do seu significado fulcral: acolher e cuidar das pessoas e envolvê-las no mistério divino. Por meio da Igreja, Deus acolhe a humanidade e a humanidade acolhe Deus. A hospitalidade é assim um dos mais profundos gestos fraternos porque pressupõe o acolhimento e a valorização do ser humano na sua individualidade. Viver a hospitalidade é cuidar do outro na sua plena integralidade. A Igreja só pode ser um lugar de acolhimento, sendo os cristãos esses mesmos instrumentos que agem na Igreja, acolhendo, cuidando, lutando contra os individualismos, os egoísmos, os preconceitos. Mais do que nunca, hoje, a hospitalidade é um grande desafio. Por vezes, julgamo-nos pessoas de acolhimento, mas basta uma situação em que os nossos pré-conceitos surgem e colocam logo em causa essa mesma hospitalidade. Tantas vezes habita em nós a indiferença para com o sofrimento do outro. Outras tantas vezes cedemos à tentação do julgamento fácil e imediato. E muitas outras vezes deixamo-nos levar pela nossa vontade em impor aos outros regras, negociações e trocas.

Ninguém se pode tornar cristão para si mesmo. Nós somos cristãos com os outros. A Igreja, enquanto casa de hospitalidade, não se pode isolar, é preciso que se construa em comunhão com a Humanidade, que demonstre, através dos seus membros, a essencialidade da mensagem salvífica de Jesus. Ao longo desta última década, o Papa Francisco tem proclamado a necessidade de uma Igreja relacional e acolhedora e não uma Igreja feita de crentes que julgam e ostracizam, deturpando a essencialidade da mensagem de Jesus. Enquanto Cristãos, a nossa missão é a de acolher, cuidar, abraçar, salvar. A hospitalidade cristã derruba os muros da ingratidão, da indiferença, da distância.

O monge Thomas Merton afirmou que “aquilo que devemos fazer hoje não é tanto falar de Cristo, mas deixar que Ele viva em nós, de tal modo que as pessoas possam encontrá-lo ao sentir como vive em nós.” Esta é a nossa missão enquanto cristãos viventes na nossa sociedade. Sabermos ser casa para este Deus que nos ama e levar o seu Amor aos outros através da nossa vida, das nossas escolhas, dos nossos caminhos. Deus acredita em cada um de nós. Ele quer ficar connosco, quer ser a nossa casa. Deixemo-nos invadir pelo seu Amor. Façamos da sua casa a nossa casa. Desçamos das árvores que nos isolam do mundo, deixemos os preconceitos e os julgamentos inúteis e acolhamos este Deus que quer ser tudo em nós. Assim seremos casa. Assim seremos Luz.

Na Igreja há lugar para todos

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO NA SOLENIDADE DOS APÓSTOLOS PEDRO E PAULO

Basílica de São Pedro, quarta-feira, 29 de junho de 2022

Revive, hoje, na Liturgia da Igreja o testemunho dos dois grandes Apóstolos Pedro e Paulo. O primeiro, que o rei Herodes metera na prisão, ouve o anjo do Senhor dizer-lhe: «Ergue-te depressa» (At 12, 7); o segundo, resumindo toda a sua vida e apostolado, diz: «combati a boa batalha» (2 Tm 4, 7). Tendo diante dos olhos estes dois aspetos – erguer-se depressa e combater a boa batalha –, perguntemo-nos que podem eles sugerir à Comunidade Cristã de hoje, empenhada no processo sinodal em curso.

Antes de mais nada, os Atos dos Apóstolos falam-nos da noite em que Pedro foi libertado das correntes da prisão; um anjo do Senhor tocou-lhe o lado enquanto dormia, despertou-o e disse: «Ergue-te depressa!» (12, 7). Desperta-o e pede-lhe para se erguer. Esta cena evoca a Páscoa, porque aqui encontramos dois verbos usados nas narrações da ressurreição: despertar e erguer-se. Significa que o anjo despertou Pedro do sono da morte e o impeliu a erguer-se, isto é, a ressurgir, a sair para a luz, a deixar-se conduzir pelo Senhor para superar o limiar de todas as portas fechadas (cf. At 12, 10). É uma imagem significativa para a Igreja. Também nós, como discípulos do Senhor e como Comunidade Cristã, somos chamados a erguer-nos depressa para entrar no dinamismo da ressurreição e deixar-nos conduzir pelo Senhor ao longo dos caminhos que Ele nos quiser indicar.

Sentimos ainda tantas resistências interiores que não nos deixam pôr em marcha. Tantas resistências! Às vezes, como Igreja, somos dominados pela preguiça e preferimos ficar sentados a contemplar as poucas coisas seguras que possuímos, em vez de nos erguermos a fim de lançar o olhar para horizontes novos, para o mar alto. Muitas vezes estamos acorrentados como Pedro no cárcere do ramerrão, assustados pelas mudanças e presos à corrente das nossas habitudes. Mas, assim, cai-se na mediocridade espiritual, corre-se o risco de «ir sobrevivendo» mesmo na vida pastoral, esmorece o entusiasmo da missão e, em vez de ser sinal de vitalidade e criatividade, a impressão que se dá é de tibieza e inércia. Então, como escrevia Padre Henri de Lubac, a grande corrente de novidade e de vida, que é o Evangelho nas nossas mãos, torna-se uma fé que «cai no formalismo e na habitude, (…) religião de cerimónias e devoções, de ornamentos e vulgares consolações (…). Cristianismo clerical, cristianismo formalista, cristianismo mortiço e endurecido» (O drama do humanismo ateu. O homem diante de Deus, Milão 2017, 103-104).

O Sínodo, que estamos a celebrar, chama-nos a ser uma Igreja que se ergue em pé, não dobrada sobre si mesma, capaz de olhar mais além, de sair das suas prisões para ir ao encontro do mundo, com a coragem de abrir portas. Naquela mesma noite, insidiava outra tentação (cf. At 12, 12-17): aquela jovem assustada, em vez de abrir a porta, volta para trás contando algo que, para os presentes, só podia ser obra da sua fantasia. Abramos as portas. É o Senhor que chama. Não sejamos como Rode que voltara para trás…

Uma Igreja sem correntes nem muros, onde cada qual se possa sentir acolhido e acompanhado, onde se cultive a arte da escuta, do diálogo, da participação, sob a única autoridade do Espírito Santo. Uma Igreja livre e humilde, que «se ergue depressa», que não adia, não acumula atrasos face aos desafios de hoje, não se demora nos recintos sagrados, mas deixa-se animar pela paixão do anúncio do Evangelho e pelo desejo de chegar a todos, e a todos acolher. Não esqueçamos esta palavra: todos. Todos! Ide pelas encruzilhadas e trazei todos, cegos, surdos, coxos, doentes, justos, pecadores: todos, todos! Esta palavra do Senhor deve ressoar… ressoar na mente e no coração: todos! Na Igreja, há lugar para todos. E muitas vezes tornamo-nos uma Igreja de portas abertas, mas para despedir as pessoas, para condenar as pessoas. Ontem dizia-me um de vós: «Para a Igreja, este não é o tempo dos despedimentos, mas o tempo do acolhimento». «Não vieram ao banquete…» – Ide pelas encruzilhadas. Todos, todos! «Mas são pecadores!» – Todos.

Depois, a segunda Leitura propôs-nos as palavras de Paulo que, repassando toda a sua vida, afirma: «combati a boa batalha» (2 Tm 4, 7). O Apóstolo refere-se às inúmeras situações, às vezes marcadas pela perseguição e a tribulação, em que não se poupou a anunciar o Evangelho de Jesus. Agora, no final da vida, vê que, na história, está ainda em curso uma grande «batalha», porque muitos não estão dispostos a acolher Jesus, preferindo correr atrás dos seus próprios interesses e doutros mestres mais condescendentes, mais facilitadores, mais conformes à nossa vontade. Paulo enfrentou o seu combate e, agora que terminou a corrida, pede a Timóteo e aos irmãos da comunidade para continuarem esta obra com a vigilância, o anúncio, o ensino; enfim, cada um cumpra a missão que lhe foi confiada e faça a própria parte.

É uma Palavra de vida, também para nós, despertando a consciência de que, na Igreja, cada um é chamado a ser discípulo-missionário e a prestar a sua contribuição. Aqui vêm-me ao pensamento duas perguntas. A primeira: Que posso fazer eu pela Igreja? Não lamentar-me da Igreja, mas empenhar-me em prol da Igreja. Participar com paixão e humildade: com paixão, porque não devemos ficar espectadores passivos; com humildade, porque envolver-se na comunidade nunca deve significar ocupar o centro do palco, nem sentir-se o melhor impedindo aos outros de se aproximarem. Igreja em processo sinodal significa isto: todos participam, mas ninguém no lugar dos outros ou acima dos outros. Não há cristãos de primeira e segunda classe; mas todos, todos são chamados.

Entretanto participar significa também continuar aquela «boa batalha» de que fala Paulo. Trata-se realmente duma «batalha», porque o anúncio do Evangelho não é neutral – por favor! Que o Senhor nos livre de destilar o Evangelho para o tornar neutral: o Evangelho não é água destilada –, não deixa as coisas como estão, não aceita a cedência às lógicas do mundo, mas acende o fogo do Reino de Deus lá onde, ao contrário, reinam os mecanismos humanos do poder, do mal, da violência, da corrupção, da injustiça, da marginalização. Desde que Jesus Cristo ressuscitou, agindo como linha divisória da história, «começou uma grande batalha entre a vida e a morte, entre esperança e desespero, entre resignação ao pior e luta pelo melhor, uma batalha que não conhecerá tréguas até à derrota definitiva de todas as forças do ódio e da destruição» (C. M. Martini, Homilia na Páscoa da Ressurreição, 04/IV/1999).

Vimos a primeira pergunta; agora a segunda: Que podemos fazer juntos, como Igreja, para tornar o mundo em que vivemos mais humano, mais justo, mais solidário, mais aberto a Deus e à fraternidade entre os homens? Certamente não devemos fechar-nos nos nossos círculos eclesiais nem perder-nos em certas discussões estéreis. Cuidado para não cairdes no clericalismo; o clericalismo é uma perversão. O ministro que se faz clerical adotando atitudes clericais, embocou um caminho errado; pior ainda são os leigos clericalizados. Estejamos atentos a esta perversão que é o clericalismo. Ajudemo-nos a ser fermento na massa do mundo. Juntos, podemos e devemos fazer gestos cuidadores a bem da vida humana, da tutela da criação, da dignidade do trabalho, dos problemas das famílias, da condição dos idosos e de quantos se veem abandonados, rejeitados e desprezados. Enfim, ser uma Igreja que promove a cultura do cuidado, da ternura, a compaixão pelos frágeis e a luta contra toda a forma de degradação, incluindo a das nossas cidades e dos lugares que frequentamos, para resplandecer na vida de cada um a alegria do Evangelho: esta é a nossa «batalha», este é o nosso desafio. As tentações para ficar no passado são muitas; a tentação da nostalgia que nos faz olhar para outros tempos como sendo melhores. Por favor, não caiamos no saudosismo, neste saudosismo de Igreja que está na moda hoje.

Irmãos e irmãs, hoje, segundo uma bela tradição, benzi os Pálios para os Arcebispos Metropolitas recém-nomeados, muitos dos quais participam na nossa celebração. Em comunhão com Pedro, são chamados a «erguer-se depressa», não dormir, para ser sentinelas vigilantes do rebanho. Levanta-te para «combater a boa batalha», nunca sozinhos, mas com todo o santo Povo fiel de Deus. E como bons pastores devem estar à frente do povo, no meio do povo e atrás do povo, mas sempre com o santo povo fiel de Deus, porque fazem parte do santo povo fiel de Deus. De coração, saúdo a Delegação do Patriarcado Ecuménico, enviada pelo querido irmão Bartolomeu. Obrigado! Obrigado pela vossa presença e pela mensagem de Bartolomeu! Obrigado! Obrigado por caminhar juntos, porque, só juntos, podemos ser semente de Evangelho e testemunhas de fraternidade.

Pedro e Paulo intercedam por nós, intercedam pela cidade de Roma, intercedam pela Igreja e pelo mundo inteiro. Amén.

Descubro em Ti – 09.07.22 (Junqueira, Vila do Conde)

No dia 9 de julho, a Comunidade Estrada Clara orientou um encontro “Descubro em Ti” para os jovens do 10.º ano das paróquias de Navais (Póvoa de Varzim) e da Junqueira (Vila do Conde). Em preparação para o sacramento do Crisma, estes jovens trabalharam a temática das suas capacidades a partir da Parábola dos Talentos. Durante a manhã de sábado, houve lugar para um momento de oração, para a dinamização do tema “Deus investe em nós – a parábola dos Talentos” e para um tempo de reflexão individual acerca das seguintes questões: o que consideras mais desafiador nesta parábola; que bens são estes que Deus nos confia; de que forma esta parábola te pode ajudar a compreender o que Deus espera de ti; que riscos tens de correr quando colocas os teus dons a render. Depois do almoço partilhado, houve espaço para a música, com um ensaio de cânticos para a Eucaristia vespertina. Durante a tarde, a partir do tema “Cada um de nós tem um tesouro para partilhar – viver a Parábola dos Talentos hoje”, os jovens formaram pequenos grupos onde abordaram os seguintes pontos de reflexão: como posso eu descobrir os meus talentos; que dificuldades me impedem de pôr as minhas capacidades a render; como posso eu colocar os meus dons ao serviço da Igreja (na minha comunidade paroquial, no meu grupo). Depois, em grande grupo, todos partilharam as suas reflexões, destacando a importância de conhecermos bem quem nós somos, de não guardarmos para nós os nossos talentos e da responsabilidade que todos têm nas suas comunidades cristãs. O dia terminou com a celebração da Eucaristia, animada pela Comunidade Estrada Clara e pelos jovens, na igreja paroquial da Junqueira. A Comunidade Estrada Clara agradece, com muita gratidão, o convite feito pelo padre Delfim Afonso assim como a preciosa colaboração dos animadores dos dois grupos de jovens, Simão e Gonçalo. Que juntos façamos um caminho de Luz, de descoberta e de alegria n’Aquele que é tudo em nós!

Workshop

Workshoop de Trabalhos Manuais sugerido por Beatriz Cruz

 Tenho uma amiga que organizou, o ano passado, pela primeira vez, um festival de lavores, a “Lavorada”, onde se apresentaram diversas artes manuais e se conversou sobre o seu papel na nossa vida. Falou-se de bordado, de tricot, de crochet, enfim, daquelas artes que alguns de nós aprenderam com os seus pais ou avós, e outros estão agora a descobrir em tutoriais da internet ou em workshops que se multiplicam.

Este ano ela repetiu a experiência. O ano passado não consegui ir, mas este ano fui. Inscrevi-me no workshop “Iniciação ao tricot”. Não sei nada de tricot… Nunca sonhei fazer tricot…. Fui eu, e uma série de pessoas também decididas a desvendar universos desconhecidos. O ambiente era familiar, e reinava um misto de entusiasmo, boa disposição, curiosidade e muita alegria. Depois de alguma luta com as agulhas, lá fomos acertando na posição das mãos e nos pontos, e o tempo passou rapidamente, entre risos, dúvidas e esclarecimentos, repetições e entusiasmo ao ver surgir alguma coisa que se assemelhava a um trabalho de tricot. Penso que os que estavam naquele espaço tão bonito que é o jardim da Biblioteca Rocha Peixoto, aproveitaram cada momento desse dia maravilhoso. O entusiasmo pela arte aprendida manteve-se ao longo do dia, e não foram poucos os que continuaram a obra começada, mesmo depois de terminado o workshop.

Já passaram uns dias e dou por mim a revisitar esses momentos. É engraçado como uma coisa tão simples, que necessita apenas de duas agulhas, um novelo, e um pouco de paciência, possa ter tanto impacto na minha vida. E esse impacto vai desde uma acrescida autoconfiança, uma alegria serena que me acompanha ainda hoje, uma vontade de aprofundar a arte iniciada, e uma profunda gratidão pela oportunidade que me foi concedida de participar num projeto tão bonito. E ensinou-me a não rejeitar à partida novos desafios. A ultrapassar medos, inseguranças, comodismo e preguiça. Tantos desculpas para ficar parada…

Ao longo dos últimos anos tenho comprovado a importância das artes manuais. Sendo uma pessoa ansiosa, descobri que me acalmavam. A cadência dos movimentos repetidos trazia-me serenidade, paz e lucidez. Descobri, também, que me ensinavam a ser paciente, uma vez que estes projetos, quando bem escolhidos, demoram tempo. Por vezes muito tempo. Mas uma vez terminados, a satisfação que obtemos não se compara a nenhuma outra. Aprendemos a adiar a satisfação, porque vale a pena. Aprendemos a projetar-nos no futuro, porque os resultados demoram a aparecer, e isso ensina-nos a esperança. E ajuda-nos a criar ligações no nosso cérebro, a despertar neurónios, a mantê-lo ativo, inquisidor, enfim, a adiar a degenerescência mental. Isto está largamente documentado e não é difícil comprová-lo.

Vale a pena experimentar coisas novas ou dar uma nova oportunidade a experiências antigas que não correram muito bem. Não devemos ser rígidos nas certezas que guardamos. Lembro-me de, em pequena, não me terem entusiasmado as tentativas da minha mãe para me ensinar a bordar. Pode-se dizer que fui ativamente “do contra”. Em relação ao crochet consegui, inclusive, arrancar a cabeça a uma agulha nas minhas tentativas de aprendizagem. E recordo uma barra em ponto de cruz que as Irmãs me tentaram ensinar no Colégio e que trouxe de lá inacabada. Enfim, tinha a certeza de que esse tipo de trabalhos não era para mim. Descobri-me, nos últimos anos, com uma postura diferente. Mas isso apenas de deveu a ter dado uma nova oportunidade aos trabalhos manuais. A ter aceitado desconstruir memórias antigas. A ter reavaliado e reorientado as minhas ideias e os meus sentimentos. A não ter dado espaço à rigidez, às ideias feitas. A ter moderado a minha teimosia. Para isto tive a ajuda de amigos mais teimosos do que eu. E mais clarividentes.

 Acho interessante a curiosidade atual pelos trabalhos manuais. A criatividade na atualização de artes tão antigas. E acho interessante como essa curiosidade acompanha uma crescente curiosidade espiritual. Há uma sede de Deus que se revela na procura de Yoga, de retiros espirituais, na meditação, na procura de locais onde se alcance o bem-estar físico e/ou espiritual, na procura do belo. E este Deus pode ser encontrado também através dos trabalhos manuais.

O Homem é por natureza insatisfeito. Procura o Absoluto. Procura Deus, mesmo não tendo noção disso, e encontra-O sendo co-criador, criador com Deus. Toda a arte manual é uma criação, e o Homem realiza-se na criação, por mais simples que seja. E os trabalhos manuais são uma forma muito simples de sermos criadores, com todo o bem que isso nos traz, a nível físico, mental e espiritual. No ato de criação encontramos Deus, mesmo quando não temos consciência disso. Tornamo-nos mais próximos de Deus pois criamos com Ele. E o lugar do Homem é com Deus, em Deus, pois é Deus que ele procura.

No primeiro dia…

Reflexão para o mês de julho de 2022

Chama-me pelo meu nome

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“E agora, eis o que diz o Senhor, o que te criou, ó Jacob, o que te formou, ó Israel: “Nada temas, porque Eu te resgatei, e te chamei pelo teu nome.” (do 2.º Livro de Isaías 43, 1)

Somos conhecidos pelo nosso nome. É a nossa primeira identificação, é nossa primeira definição. Somos o nome que nos deram, que para nós escolheram, que para nós desejaram que assim fosse. Apresentamo-nos com um nome que reúne, numa tão simples palavra, tudo aquilo que somos, expressamos, pensamos, vivemos. Ao longo dos anos, este nosso nome carrega uma história, emoções, experiências, alegrias e tristezas, descobertas e caminhos. Somos o nome que nos é. No Batismo, quando os nossos pais e padrinhos anunciam o nosso nome, este também passa a ser uma propriedade sagrada, um nome que passa a ter uma alma. O nome é um elemento de individualização da pessoa na sociedade. Quer o apreciemos ou não, ele é o nosso património. O nosso nome próprio está relacionado com a nossa realidade pessoal e com a nossa identidade responsável, livre, criativa, identidade esta que vai sendo elaborada ao longo da nossa história pessoal. No nome de cada ser humano está tudo aquilo que nós somos. O nome é sempre a pessoa e interessar-se por saber o nome de alguém é procurar conhecer esse alguém. O nome é a porta de entrada de cada história particular. Quando um nome é invocado, ele traz consigo tudo o que a pessoa é, tudo o que ela significa, tudo o que ela simboliza. Há nomes que nos trazem alegria, saudade, que atualizam propósitos, que despertam compromissos, que reavivam sentimentos.

Também no universo bíblico, o nome de cada interveniente na história da salvação significa aquilo que torna cada pessoa única. São muitos os relatos dos chamamentos que Deus faz. É Deus quem toma a iniciativa e chama cada um dos seus pelo nome. O nome encerra assim toda a essência da pessoa e, ao mesmo tempo, todo o mistério da sua relação única e exclusiva com Deus. Deus chama-nos pelo nosso nome. O Senhor chamou Moisés pelo nome (Ex 3, 4), chamou Samuel pelo nome (1 Sm 3, 4). No livro de Isaías, sabemos que este chamamento vem desde o início da nossa criação: “Quando ainda estava no ventre materno, o Senhor chamou-me, quando ainda estava no seio da minha mãe, pronunciou o meu nome.” (Is 49, 1). Até as estrelas são conhecidas por Deus pelo seu nome: “Ele fixa o número das estrelas e chama a cada uma pelo seu nome.” (Sl 147, 4). Nos Evangelhos, acompanhamos o chamamento que Jesus faz a cada um dos seus discípulos, chamando-os pelo seu nome e dando a cada um a missão de colaborar na construção do seu reino de amor e de paz. No Evangelho segundo São João, no relato da parábola da ovelha perdida, ficamos a saber que o Bom Pastor chama as suas ovelhas cada uma pelo seu nome. Assim, há uma importância individual e única que nos é dada e que devemos assumir e na qual devemos acreditar.

E em cada dia, Deus continua a chamar-nos também a nós, nos nossos contextos, nas nossas rotinas, nas nossas escolhas. Deus chama pelo nosso nome. E Ele conhece mais do que o nosso nome. Ele conhece os nossos pensamentos, desejos, vontades, medos, alegrias. Ele conhece tudo em nós. Ter um nome significa que somos chamados, que há uma vocação à qual respondemos. E dentro das nossas possibilidades, da nossa originalidade, dos nossos limites e competências, somos chamados por Deus a concretizar essa mesma vocação, a dar um propósito e um significado à nossa existência. A sermos mais, a mostrarmos que somos filhos de um Deus que nos ama e que quer que escolhamos ser felizes. Sim, a escolha é nossa. Sempre nossa. Só nossa. Deus conhece-nos, sabe quem nós somos, mas criou-nos para a liberdade, para sermos nós a decidirmos o que queremos. Ele faz de nós seres de liberdade para que possamos escolher. Deus não nos impõe nada. Deus não nos obriga a nada. Deus não nos castiga nem se vingará de nós se não O quisermos escutar. Deus é amor. Deus é espera. Sou eu quem O escolhe. A dinâmica da nossa relação com Deus passa através da nossa história, dos nossos avanços e recuos, das nossas dúvidas e certezas, das nossas perguntas. Quando Deus nos chama para fazermos parte do seu projeto de amor, está a dar um significado novo ao nosso nome, ao nosso património existencial. Somos sempre chamados. É isso o que significa ter um nome. É ter dignidade, é ser um pedaço de infinito, é sermos únicos e sermos também imagem de Deus. Responder ao chamamento de Deus, nos dias de hoje, é assumir o nosso papel como filhos de Deus, é materializá-lo nas nossas escolhas diárias, é atualizar a sua mensagem de esperança e de amor nos nossos dias, é trazer para a minha rotina os gestos de Jesus, é abraçar a vida com coragem, é olhar quem me rodeia com compaixão, é escrever com as nossas atitudes os nossos novos evangelhos, é cantar eternos aleluias. E sabermos sempre que somos livres para construir o(s) sonho(s) que Deus tem para nós.

Deus continua a chamar-nos hoje. A todos. E chama-nos pelo nosso nome. Pela nossa identidade. Conhece-nos e privilegia a nossa individualidade. Não somos um aglomerado, um número. Somos ímpares. Somos únicos para Deus que nos ama precisamente por sermos irrepetíveis. O nosso nome é a nossa intimidade que é conhecida por Deus que é tudo em nós. Mesmo quando não O vemos, não O sentimos, não O desejamos. Ele faz-se presente e chama-nos a uma vida maior, plena, fecunda. Vem sempre ao nosso encontro mesmo quando não nos apercebemos disso. Por vezes, este nosso Deus chama-nos através de alguém que vem ao nosso encontro, outras vezes diz o nosso nome por meio de um acontecimento triste, muitas outras vezes interpela-nos através de uma canção que acabamos de ouvir, e tantas outras vezes, o nosso nome é dito pela natureza que estamos a contemplar. De muitos modos, Deus continua a chamar por nós. De forma criativa, atual, amorosa, Deus não desiste de nós. Quer nos dar uma vida nova, com significado, liberta da biologia redutora de todos os seres vivos. E este chamamento que Deus nos faz é plenamente concretizável – assim o aceitemos que seja – em qualquer contexto da nossa vida familiar, social, profissional, cívica. Podemos ser essas testemunhas de Deus nos momentos mais simples e com os recursos mais acessíveis que possuímos. Para isso só precisamos de escutar com o nosso coração o nosso nome. Aquele nome que Deus nos chama. E, sem medo e sem reservas, usemos a nossa vida para que o sonho de Deus se concretize através de nós. São Tomás de Aquino dizia que “cada pessoa é uma expressão singular de Deus.” Assim, cada um de nós sinta esta graça e esta responsabilidade de sermos esta singularidade de Deus nas nossas vidas.  E assim seremos Luz. E assim seremos Paz. E assim seremos Páscoa!

Nasces hoje mais uma vez!

Nascemos e jamais morreremos!

O meu mantra diário, especialmente nos dias, digamos, mais desafiadores. Nos dias em que as lembranças se tornam mais fortes, em que as memórias aparecem abruptamente, em que a dor de ti diz presente. Desafiadora tem sido a vida! O fazer de cada dia uma escolha de gratidão. Jorge, o que tua vida nos pede é isto, viver! Aproveitar cada partilha, fazer diferente, pensar no infinito. Cuidar de quem está à nossa volta. Escolher fazer um caminho que não é sinónimo de facilidade. E nós fomos privilegiados por caminharmos contigo. E continuamos a sê-lo por seguirmos juntos neste mesmo caminho, neste projeto de vida, nesta nossa Estrada Clara. E assim tu continuas a nascer nas músicas, nos livros, nos nossos gestos, nos olhares, nos silêncios. Nessa dimensão eterna onde tu estás, continuas a olhar por cada um de nós. Tanto de belo nos tem acontecido, só pode ser por influência tua. Tantas experiências bonitas temos vivido, tantas palavras edificadoras têm vindo ao nosso encontro, tantos abraços fortes nos têm oferecido. Só podes ser tu. Tantas novidades luminosas, tantos encontros a surgirem, tanta energia boa a multiplicar-se. És tu! Aqui! É por isso que quando em mim há a luta entre a tristeza de não te ter em casa à minha espera (“Luísa, Luisinha, você já veio?”) e a alegria de ter construído contigo a minha vida, procuro sempre que só a esperança prevaleça. A esperança de fazer de cada dia um reflexo do tanto que aprendi contigo. A esperança de que esta Comunidade Estrada Clara faça a diferença e seja um projeto de vida maior do que nós próprios. A esperança de que, num dia (muito distante, ainda há muito para fazer e aprender aqui!) quando nos encontrarmos, não haverá mais esta dor. Só paz. Muita, muita luz. E o tempo eterno. Risos de aleluia intermináveis. Abraços demorados. O silêncio. As pulseiras nos braços e os anéis. E o azul, sempre o azul. O arrozinho joia! As conversas longas sobre a essência da vida ou máquinas de lavar. Muita música em tonalidades altíssimas. As tuas plantinhas. Um banco em madeira. Os passeios de fim de tarde. Um campo para cultivar. E o teu bolo de “cinoira”. Parabéns a ti, Jorge! Nasces hoje mais uma vez!

O Deus de Nick Cave

Georgiana Houghton – The Love of God

O músico Nick Cave, mundialmente reconhecido pelo seu estatuto de estrela musical, é muito mais que isso. Nos últimos anos, a escrita toma-lhe parte da vida diária e, desde setembro de 2018, no blogue em que mantém correspondência com os seus fãs (The Red Hand Files – https://www.theredhandfiles.com/), o músico responde a uma série de questões que lhe vão colocando acerca de variados temas que vão desde a música até ao gosto pelos animais, ou sobre a pandemia, religião e assuntos políticos. Das mais bizarras ou desconcertantes, íntimas e poéticas, às mais banais e previsíveis, todas as perguntas que lhe são colocadas têm uma resposta que nos é próxima. Num tom eloquente e sensível, o artista responde através da vida, num diálogo direto com as próprias vidas de quem o escuta/lê. São textos de uma beleza pura, real, quotidiana que nos tocam onde precisamos sentir. São cartas que são para todos e para cada um de nós individualmente. São um foco de espiritualidade e de alguém que nos diz que “assumi, por razões de sobrevivência, um compromisso com a natureza incerta do mundo. É aqui que o meu coração está.” Podem subscrever a newsletter deste blogue de Nick Cave e assim receber estas cartas de vida. Aqui, transcrevemos uma dessas cartas, na qual o músico responde à eterna, mas sempre nova questão: “O que é Deus?”.

Na sua opinião, o que é Deus?

Cara Sue,

Deus é amor, e é por isso que tenho dificuldade em me relacionar com a posição ateísta. Cada um de nós, mesmo os mais resistentes espiritualmente, anseia pelo amor, quer o realizemos ou não. E este anseio chama-nos para sempre em direção ao seu objetivo – que devemos amar cada amor. Temos de nos amar uns aos outros. E sobretudo penso que o fazemos – ou vivemos muito perto da ideia, porque quase não há distância entre um sentimento de neutralidade em relação ao mundo e um amor crucial por ele, quase não há distância alguma. Tudo o que é necessário para passar da indiferença ao amor é ter os nossos corações partidos. O coração despedaça-se e o mundo explode à nossa frente como uma revelação.

Não há um problema do mal. Há apenas um problema do bem. Porque é que um mundo que é tão frequentemente cruel, insiste em ser belo, em ser bom? Por que é necessária uma devastação para que o mundo revele a sua verdadeira natureza espiritual? Não sei a resposta a isto, mas sei que existe uma espécie de potencialidade logo após um trauma. Suspeito que o trauma é o fogo purificador através do qual encontramos verdadeiramente o bem no mundo.

Todos os dias rezo para o silêncio. Rezo a todos eles. A todos eles que não estão aqui. Neste vazio, derramo todo o meu desejo e necessidade, e com o tempo esta ausência torna-se potente e viva e ativada com uma promessa. Esta promessa que se senta dentro do silêncio é suficientemente bela. Esta promessa, neste momento, é suficientemente espantosa. Esta promessa, neste preciso momento, é Deus suficiente. Esta promessa, neste preciso momento, é o máximo que podemos suportar.

Com amor,

Nick

No primeiro dia…

Reflexão para o mês de Junho de 2022

Guardar o que é bom

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Examinai tudo. Guardai o que é bom. Afastai-vos de toda a espécie de mal.” (da 1.ª Carta de São Paulo aos Tessalonicenses 5, 21-22)

A primeira carta que São Paulo escreve aos Tessalonicenses é um hino à comunidade cristã. É um texto belíssimo no qual são apresentados os fundamentos para uma vida plena: a alegria, a gratidão e a vida em comum. Desta carta de São Paulo, considerada um dos mais antigos documentos do Novo Testamento, escolhi, para a reflexão deste mês, estas três simples frases: “Examinai tudo. Guardai o que é bom. Afastai-vos de toda a espécie de mal.”

“Examinai tudo.” Um cristão é, por excelência, um observador, aquele que olha a vida, que contempla, como tão sabiamente definiu Ricardo Reis, este espetáculo do mundo do qual faz parte desde o primeiro dia, desde que foi sonhado e amado por Deus criador. Um cristão não se encerra no seu “eu”, não se fecha no seu condomínio privado, não se abstrai da vida. Um cristão vive no mundo, encara as suas maravilhas, mas também enfrenta os seus desastres. Daí a importância de examinar tudo, como nos exorta São Paulo. Ver tudo, conhecer, observar. Contemplar. Querer ver. Recusar-se a viver de forma indiferente, desinteressada ou abstraída. O ser humano é um ser social. Somos pessoas porque o somos com os outros e com o Outro. Quando São Paulo evidencia a importância de examinar tudo, está também a enfatizar a nossa autoanálise, o nosso conhecimento interior, a nossa descoberta pessoal. Por isso, que nunca percamos esta vontade de descobrir, esta ânsia de procurar e, sobretudo, este desejo luminoso de nos maravilharmos com e pela vida.

“Guardai o que é bom.” Gravar em nós a serenidade dos momentos simples. Guardar tudo em Deus significa, para nós crentes, entregar-lhe o que somos, o que experimentamos, o que vivemos. O que sentimos e também tudo o que não compreendemos. E não deixar a vida à mercê do medo, da angústia, do desânimo. Deixar que Deus habite em nós e nos preencha com o dom da gratidão, da simplicidade, da harmonia. Nos textos bíblicos, esta atitude de “guardar o que é bom” surge referenciada em diversas ocasiões significativas. Também Maria foi guardando no seu coração tudo o que observava em relação ao crescimento do seu filho (Lc 2,19). Pratiquemos, pois, este princípio, o de conservar o que é bom, o que edifica, o que nos eleva. Deixemo-nos levar pela bondade, pela beleza que existe. E há tanta! Tanta! Que os nossos olhos se abram a essa mesma beleza. Não nos fechemos ao belo. Cuidemos do nosso coração que é o nosso tesouro. Com o coração amamos, perdoamos, vivemos. Um coração cheio de dureza não é sensível à beleza, não se apercebe daqueles que estão à sua volta. É um coração vazio. É um coração que não partilha e que, assim, não se pode multiplicar. Devemos cultivar os bons sentimentos, aqueles que nos edificam. Procurar experiências significativas. Os pais devem dar aos filhos tempo, abraços e risos. Contemplar a natureza, ouvir uma música, escutar o silêncio do fim do dia, ler um livro, conversar, partilhar vida. Tudo isto contribuiu para enchermos o nosso coração de bondade. Para sermos bondade.

Este conselho de São Paulo para guardarmos só o que é bom parece ser fácil de seguir. No entanto, enquanto espécie humana (ainda não somos só seres divinos!) tendemos para guardarmos, quase a ferro e fogo, as recordações mais tristes e dolorosas. A psicologia explica este fenómeno pelo facto de que uma experiência traumática é muito mais importante para a nossa sobrevivência enquanto espécie do que a memória de algo agradável. Em conversas que surgem, aqui e acolá, acontece muitas vezes ouvirmos mais histórias de tristezas do que de alegrias. É precisamente contra isto que devemos lutar, dizer não, fazer um esforço para nos focarmos naquilo que é positivo e bom. Todos nós já passamos pela experiência do mal, do sofrimento, da dor. Há um verso de Miguel Torga que o Jorge lembrava algumas vezes para nos chamar a atenção para uma tentação perigosa. “Aos poucos, a vida vai-nos tirando a vontade de cantar.” Isto sempre provocou em mim um arrepio de medo quase paralisante. Sempre me questionei como seria possível alguém perder a vontade de cantar. E cantar, neste contexto, significa o maravilhar-se com a vida, o continuar a caminhar, o fazer sonhar. E hoje compreendo que este verso é um alerta para todos nós, os viventes. À medida que a vida vai avançando e com ela trazendo alegrias e tristezas, há uma tendência generalizada para se privilegiar o negativo, o lado sombrio. Recordamos, muitas mais vezes os problemas que vivemos do que as soluções que encontramos. Vamos acumulando deceções e amarguras e os dias ficam por viver na sua plenitude. Sem nos apercebermos, deixamos de cantar, de procurar e de sentir a alegria de estarmos vivos, presentes, juntos. Deixamos de ler um livro porque achamos que já não temos tempo, deixamos de rir com vontade porque somos as ditas pessoas sérias, deixamos até de ir à missa porque isso agora já não se encaixa no meu perfil de jovem-adulto-promissor-com-uma-carreira-brilhante-e-ligeiramente-ateu-só-porque-sim, deixamos de nos deitar na relva a olhar o céu porque isso agora é uma perda de tempo, deixamos de… E, assim, a vida vai-nos embrutecendo sem nos darmos conta. As experiências de dor existem e, é certo, não podemos fingir que elas não aconteceram. No entanto, é imperativo, para podermos seguir viagem, para avançarmos, colocarmos à nossa frente aquilo que temos guardado de bom. Seguir vivendo sem esses pesos que nos atrapalham o andar. É um processo fácil? Não, não é. Mas é a atitude necessária para continuar a viver. E, sobretudo, para sermos Luz para os outros. Para sermos caminho. Não deixemos que a morte nos aconteça antes do tempo. Cuidemos do nosso coração. Guardemos o que é bom, puro, simples, doce.

“Afastai-vos de toda a espécie de mal.” O mal chama sempre a atenção, é poderoso, gere emoções e provoca reações bem mais visíveis. Ninguém está ou é imune ao mal. E o mal já não é aquele ser diabólico, de risinho maquiavélico, causador de medos e de gritos estridentes. Esta caricatura já não representa os nossos dias. Pelo contrário, o mal apresenta-se hoje com uma bela figura, sedutora, repleta de promessas felizes e de imediata concretização. São Paulo pede-nos que não tenhamos medo de dizer não ao que nos faz mal, a tudo aquilo que obscurece o nosso entendimento. Rejeitemos imagens, ideias, percursos, opções que não nos fazem bem, que nos fazem ser menos do que a plenitude que cada um de nós, enquanto filho de Deus, deve assumir. Procuremos o bem. Procuremos as estrelas que há milhares de anos continuam a ser um presente para nós. Procuremos um abraço amigo naqueles que caminham ao nosso lado. Procuremos aquela canção que temos guardada no nosso coração. Procuremos este Deus que nos espera sempre de braços abertos. Guardemos tudo o que é bom. E assim seremos Luz. E assim seremos Páscoa. E assim seremos caminho. Aleluia!

Uma Força que nos leva

Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

O jornalista Luís Osório publicou, no seu mural de Facebook, um texto sobre o acidente que vitimou, no sábado passado, alguns dos ocupantes de um autocarro que seguia na A1 a caminho de Fátima. Não é um texto sobre as circunstâncias ou os porquês do acidente. Não é um texto sobre a finitude da vida humana ou sobre a efemeridade da nossa passagem terrena. Não é um texto sobre morte. É antes uma reflexão sobre como no meio da morte a vida continua a fluir, sobre como é possível viver a Força quando tudo à nossa volta parece ruir. É ainda um texto sobre a Páscoa, sobre passagem de testemunho. É um hino de ação de graças. É um quadro para o qual devemos olhar sempre que o nosso egoísmo nos vence, sempre que a indiferença nos ataca, sempre que nos esquecemos dos outros. É um apelo a não nos deixarmos derrotar pelo pessimismo, pela ingratidão, pela rabugice que estão sempre à espreita para nos fazer cair na tentação de sermos menos humanos. Por isso, este texto do jornalista Luís Osório é sobre a vida que vence sempre a morte, sobre fortaleza que nos preenche quando a fraqueza nos quer dominar nos momentos sombrios.

Quando a Lara partilhou este texto no nosso grupo, entendi-o tão claramente como se já o conhecesse. Emocionei-me. Pela visão que revela. Pelos sentimentos partilhados. Pelas memórias que me trouxe. Quem já viveu as partidas de quem se ama, entenderá certamente esta Força que, naqueles momentos mais dolorosos, nos acolhe e nos faz caminhar e ser consolo e abrigo para quem está perto de nós. E foi exatamente esta Força que eu experimentei no momento em que o Jorge morreu e que se estendeu nos dias seguintes com tantas manifestações de amor e de vida. Senti-me invadida por uma força tão intensa, tão visceral, tão profunda que me impelia a cuidar de quem estava à minha volta e a levar Vida, sempre a Vida a quem precisava. Há quem chame a esta força um instinto de sobrevivência, uma fuga à realidade. Mas para quem acredita, esta Força sentida e vivida tem um nome – Deus. Uma Força que ainda hoje me arrepia sempre que a sinto e que me leva a querer ser sempre Luz. Uma Força que me(nos) leva a continuar a caminhar nesta Estrada Clara. Não podemos evitar a dor da morte e o sofrimento naturalmente inerente a estas tragédias. Mas podemos confiar. Acreditar. O Amor não morre. Vive em cada um de nós que o aceitamos. Vive quando escolhemos ser Luz! E assim brilhamos, brilham as nossas obras, brilha o nosso Deus! Como Luís Osório afirma no seu texto: “em cada lugar improvável pode existir um farol para nos iluminar. Um farol que nos obrigue a ser todos os dias um bocadinho melhores.” Possamos nós ser esse farol. Sempre. Não deixemos que a nossa Luz se apague. Escolhamos o Bem. A vida. Em cada dia. Hoje.

POSTAL DO DIA, um texto do jornalista Luís Osório, retirado do seu Facebook

A caminho de Fátima, e a meio de um terço, o herói não estava na camioneta

1.

A camioneta ia a caminho de Fátima. Na manhã do último sábado o tempo ameaçava felicidade e as pessoas estavam, também por isso, descontraídas e de farnel posto. Comidas e bebidas para que o dia não fosse apenas de fé e orações, mas também de “mesa” farta. Todos acordaram de madrugada. De terras pequenas do concelho de Guimarães acomodaram-se no autocarro do senhor António. Com casa posta no Airão de Santa Maria fazia questão de ser ele a conduzir a vizinhança. Às 9 e meia da manhã já estavam na Mealhada. Cantaram canções da Igreja. E seguiram as preces da Dona Emília Castro. Todos a adoravam. Todos a ouviam. Todos sentiam que ela, de alguma maneira, era o passaporte para melhor serem ouvidos por Deus. Emília era uma excelente pessoa. Preocupada, ativa. Ajudava na paróquia, ajudava os vizinhos, liderava o coro de Figueiredo, era catequista e o seu marido António, bombeiro há mais de 30 anos.

2.

Uns minutos antes do pneu dianteiro rebentar, Emília levantara-se, pegara no microfone e começara a rezar o terço. Estavam a rezar as palavras mágicas quando tudo aconteceu. Emília foi cuspida com o embate. António, condutor da camioneta, também morreu. Assim como um vizinho de Emília, o senhor Alberto Soares, que ia à frente por causa dos enjoos. Com quase 80 anos já não tinha cabedal para aguentar sem o mínimo de conforto.

3.

Um dia pensarei convosco sobre os que morrem a caminho de algum lugar onde julgam que tudo se iluminará. Num minuto a cabeça enevoada com o “Bem” e no outro minuto a morte a chegar trágica e fúnebre.

Mas hoje quero falar-vos do que me impressionou.  Se tiverem mais trinta segundos, eu conto-vos. Pouco tempo após o acidente os bombeiros das Taipas foram avisados do desastre. O bombeiro António Silva, marido de Emília, meteu-se ao caminho com os seus companheiros – e a meio do percurso, a poucos quilómetros da Bairrada, recebeu a informação de que a sua mulher, mãe dos seus três filhos, tinha morrido. António seguiu caminho e naqueles curtos minutos chorou uma parte da vida que perdera. Não sabemos se telefonou a alguém, não sabemos também por quem foi abraçado, se gritou ou não, não sabemos e pouco ou nada importa.

4.

O que sabemos, o que nos dizem os relatos, é que António ao chegar ao lugar da tragédia foi ajudar quem precisava. A sua mulher estava morta com um lençol por cima, mas ele cumpriu a sua missão com os feridos, com os que estavam em choque, com quem precisava.

Sabem…

Eu costumo muitas e muitas vezes falar do grande mistério que é o “Bem”. Nós nunca desconfiamos do “Mal”, mas do “Bem” a primeira coisa que fazemos é desconfiar.

Mas há pessoas maravilhosas. Há pessoas de uma coragem e verticalidade a toda a prova. Há pessoas que são heróis, mas que ninguém conhece. Talvez no nosso prédio. Talvez na aldeia mais recôndita. Talvez no lugar mais escarpado. E no lugar de Figueiredo, concelho de Guimarães, terra com pouco mais de 400 habitantes, há também um herói. Chama-se António, é bombeiro há 30 anos e tem três filhos, um deles menor. Era casado com Emília, a mulher que rezava o terço e liderava o coro. O homem que hoje abraçamos merece que dele não nos esqueçamos. Eu não me esquecerei que em cada lugar improvável pode existir um farol para nos iluminar. Um farol que nos obrigue a ser todos os dias um bocadinho melhores.

No primeiro dia…

Reflexão para o mês de Maio de 2022

Ver com o coração

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: ele viu e acreditou.” (Jo 20, 8)

Vivemos ainda por estes dias um tempo de festa, o tempo pascal, o tempo que nos diz que a vida não tem fim, que o futuro espera-nos, que a esperança vem até nós para fazer caminho connosco. No domingo de Páscoa, a liturgia do dia recordou-nos a narrativa dessa manhã maior, a manhã inaugural da nossa fé, a manhã da também sempre nossa Ressurreição. Sim, a Ressurreição é de cada um de nós, porque é sempre o momento em que eu decido deixar para trás tudo aquilo que me limita e inicio um novo caminho. Sim, a Ressurreição faz de mim uma nova criatura, faz-me nascer de novo, faz-me passar da morte para a vida.

A Ressurreição de Jesus é o maior acontecimento da vida cristã. O que distingue a Ressurreição de outros eventos históricos é o facto de este mesmo acontecimento só poder ser visto e vivido com os olhos da fé. Ninguém põe em causa o nascimento de Jesus nem a existência história desta figura maior. O seu “modus operandi” marcado por mensagens de amor, solidariedade e igualdade fez história não só no seu tempo, mas sobretudo nos tempos seguintes. A sua morte foi comprovada e semelhante à de outros daquela época. Mas, quando se refere a sua Ressurreição, as dúvidas aparecem e não se encontram factos concretos que possam comprovar plenamente este acontecimento. E isto é assim porque a Ressurreição só pode ser lida numa dimensão de mistério, só pode ser vivida na medida do Amor. Esta é a grande exigência cristã. Acreditar no que não é certo, acreditar no que parece ser estranho, acreditar no que não está lá.

A Ressurreição de Jesus não é explicável, não é factual. A Ressurreição de Jesus só se torna visível quando decidimos que queremos ver, que desejamos acreditar, que ousamos contemplar o que o terreno não nos oferece. Este acontecimento maior daquela manhã de Páscoa é o abraço que eu dou ao mistério do indescritível, é o meu desafio, enquanto cristã, que me impele a escolher viver esta dimensão maior e tão contrária a um mundo que só exige certezas e provas irrefutáveis.

Na narrativa do Evangelho de João, há dois verbos que compõem o acontecimento da Ressurreição: ver e acreditar. João refere que o discípulo amigo de Jesus, aquele que chega primeiro ao sepulcro, vê o espaço vazio e acredita. O discípulo vê o vazio, vê o nada, vê o que não lá está. E isso é tudo! O discípulo não viu nada, ou melhor, viu o nada que, afinal, é o Tudo. Viu um sepulcro vazio, mas cheio de uma morte vencida. Viu o invisível, mas o que se pode sentir. Viu o que não se pode contabilizar, porque viu o Amor e o Amor não tem medida. E, então, pode acreditar. Acreditou. Compreendeu. Ele quis ver para além das aparências, daquilo que era óbvio. Escolheu ver com os olhos da fé e, assim, foi capaz de ver mais, perceber mais, viver mais, experimentar mais.

A postura do discípulo no Evangelho de João mostra-nos que uma atitude de disponibilidade é essencial para a nossa caminhada na construção da nossa fé. A fé capacita-nos a entender o que está para além da nossa compreensão humana e, por isso mesmo, limitada. Precisamos de ver com os olhos do coração aquilo que a razão não alcança. Precisamos de ver com o coração para além das aparências, para além do material. De nada nos serve dizer que acreditamos se apenas nos deixamos levar pelo que é apenas concreto. A doce obra “O Principezinho” recorda-nos sempre que “o essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração”. Sim, só quando nos dispomos a querer ver com os olhos do coração é que o Amor se torna visível, é que a Vida se torna eterna. E assim acreditamos.

Naquele domingo maior, os discípulos e as mulheres viram muito mais que um sepulcro vazio. Os seus olhos encheram-se de uma sabedoria eterna e perceberam que Ele não está, estando. Eles viram os seus sinais porque assim se permitiram a deixar ver. Eles deixaram de lado os seus preconceitos, as suas reservas, os seus medos. Confiaram. Abriram os seus olhos e os seus corações ao que lhes estava a acontecer. Mesmo sem terem respostas dadas pela racionalidade, fizeram uma escolha: quiseram ver! E assim acreditaram. E assim lhes foi dado um mundo novo! Também nós somos, todos os dias, chamados a fazer esta escolha: a de querer ver com o coração. A Ressurreição de Jesus só se torna acontecimento visível para nós quando escolhemos acreditar que Ele continua vivo hoje. Nós podemos ser essa Ressurreição quando nos comprometemos, nos nossos contextos de vida, a sermos as suas testemunhas. Quando fazemos de cada gesto nosso um gesto de Ressurreição, de proclamação de vida nova, de triunfo de um Amor que nos salva.  

A experiência da Páscoa anuncia-nos que é possível acreditar quando eu escolho ver, quando eu me permito contemplar a vida com o coração, quando eu não deixo que a indiferença ou a dureza da vida me dominem. Aquele cego em Jericó pediu a Jesus, “Senhor, que eu veja”. Que seja também este o nosso pedido. Senhor, que eu veja a tua luz nos meus caminhos. Que eu acredite sem reservas. Que eu abra espaço para o indizível. Que eu seja Páscoa em cada um dos meus dias. Que eu te queira ver sempre. Que eu procure permanentemente a beleza e a harmonia, a serenidade e o infinito. Que os meus olhos digam que tu ressuscitaste por mim, para mim. Que eu dance ao sabor da minha fé, tantas vezes frágil, mas que é sempre caminho que me leva a ti. Aleluia! Eu vejo. Eu acredito.