De que serve a poesia num curso de Medicina?

João Luís Barreto Guimarães

João Luís Barreto Guimarães, médico de cirurgia reconstrutiva e poeta, em entrevista à VISÃO.

Além de médico, João Luís Barreto Guimarães, quase a completar 54 anos, é um poeta premiado (venceu recentemente o Willow Run Poetry Book Award pelo livro Mediterrâneo). Neste momento, revê provas da tradução que fez dos poemas de Margaret Atwood, encomenda da Bertrand. Em setembro, dará aulas de poesia no mestrado em Medicina do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), abertas também a alunos de outras faculdades e à sociedade civil. Quando recebeu o convite, aceitou imediatamente, porque quer levar novos mundos à relação do médico com o doente.

Como surgiu esta ideia de integrar a poesia num curso de Medicina?

Estão a renovar os curricula dos cursos médicos, integrando a cadeira de Introdução à Poesia e também uma de música, igualmente opcional. É interessante proporcionar aos alunos uma visão holística, ainda mais numa faculdade que se orgulha de ter Abel Salazar como patrono e que responde pelo mote “um médico que só sabe de medicina nem medicina sabe”. Vamos falar do que acontece num poema, como se lê um poema contemporâneo e da vivência dos alunos sobre o tema de cada poema, na esperança de que possa contribuir para desenvolver o lado mais empático e humanista que é suposto o médico ter com o doente. Um poema é sempre uma visão pessoal de quem o escreve, corresponde a um momento de entrega intelectual à descrição de uma experiência. Rilke dizia que os poemas são experiências. E estes alunos, na relação futura médico/doente, terão sempre uma barreira entre o que perguntam e o que os doentes decidem responder. O médico pode não fazer as perguntas certas e, portanto, não extrair a informação toda. E o doente pode não querer dar a resposta completa. A relação médico/doente vai progredir conforme a compatibilidade e a abertura que venha a desenvolver-se.

O que é que os poemas nos dão?

São autênticas janelas para a alma de quem os escreveu. Haverá poetas que tiveram a doença descrita ou passaram por aquele estado de alma ou que estão a escrever sobre familiares ou amigos que viveram aquelas situações. É muito interessante acrescentar esta temática àqueles futuros médicos e como que lhes desvelar e abrir um mundo escrito num momento de intimidade, sem quaisquer filtros, que correspondeu ao momento da criação poética de cada um dos autores.

Ou seja, a poesia não nos salva, mas humaniza-nos?

Wislawa Szymborska, poeta polaca e Nobel da Literatura 1996, diz: a poesia não pode evitar o sofrimento, mas pode acompanhar o processo de sofrimento. A poesia pode ou não salvar, dependendo de quem receciona o poema. Um poema que é escrito faz o seu caminho. Paul Celan também dizia que o poema é como uma mensagem numa garrafa que está a caminho de alguém. É possível saber quem o escreveu, mas não é possível saber quem e de que forma o vai rececionar. Cada um lê um poema com a sua imaginação e, fundamentalmente, com a sua experiência.

Um poema não é, então, para entender. É só para sentir?

Pode ser para sentir e para tentar entender a experiência de quem o escreveu. O desejo do poeta é escrever um poema que provoque uma resposta no leitor, qualquer que ela seja. Até pode ser escrito para provocar repulsa. Mas ele não tem maneira de adivinhar que tipo de resposta cada leitor vai ter. Assim como eu não tenho possibilidade de saber que tipo de resposta cada aluno vai ter a cada um daqueles poemas. Até pode ser de indiferença. Mas podem também ser poemas que inscrevem profundamente para a vida.

Que autores vai selecionar?

Na primeira aula, vamos começar com um poeta da casa: Jorge Sousa Braga, médico de obstetrícia e ginecologia no Hospital de Santo António. Depois, conversaremos sobre um poema de Wislawa Szymborska, outro de Simon Armitage [poeta britânico] e ainda outro de Robert Frost [poeta americano, que ganhou quatro prémios Pulitzer]. Falaremos de vários autores portugueses, mas vamos percorrer também o cânone europeu e americano.

Selecionando sempre poemas que falem de doença?

Não. Selecionando sempre de acordo com o que me interessa conversar sobre a oficina do poema. Por exemplo, os quatro poemas da primeira aula surgem como exemplos de um poema lírico, um narrativo, um dramático e um didático. Há dois níveis que ocorrem paralelamente: por um lado, os instrumentos da oficina de um poema contemporâneo; por outro, a medicina e a experiência médica da doença, da vida, da morte. Concretamente, um fala sobre uma síndrome psiquiátrica; outro, de um efeito farmacológico; outro, de um trauma cirúrgico; e outro, de um momento no bloco operatório. Vou tentar cumprir os dois objetivos: um, que me interessa mais enquanto poeta, que é dar a entender como se lê um poema contemporâneo e o que está a acontecer quando o lemos; e outro, que é desenvolver a empatia e o humanismo naqueles alunos de Medicina.

Os autores serão sempre médicos?

Não. Até há alguma graça na escrita de assuntos médicos por não médicos. Poemas em que se fala da pulsação de uma veia, em vez de ser de uma artéria. Coisas engraçadas que, não tendo uma verdade científica, têm uma verdade poética.

Há alguma razão particular para que a poesia se junte à medicina?

Posso falar da minha experiência cirúrgica e da escrita. O poema que gosto de escrever desenvolve-se numa página só, é muito concentrado, económico, elíptico, emoldurado com espaço branco, esculpido conforme a tensão e a velocidade que quero imprimir e o modo como quero surpreender o leitor com a linha seguinte. O poema final resulta numa certa escultura de som. Gasto bastante tempo na revisão, há um limpar de excesso, de gorduras, para que o poema fique seco. Cirurgicamente, o paralelo é que, em vez de ser feito com uma caneta, é feito com um bisturi. Concorrer para uma certa harmonia, não exatamente perfeita ou simétrica, passa também por esse eliminar do excesso. Fazemos isto no nosso quotidiano, escolhemos excluindo.

No ato cirúrgico, passam-lhe pela cabeça ideias para poemas?

Não exatamente. Mas estou recetivo a que elas cheguem. É muito interessante olhar à nossa volta e tentar destapar, perceber que sentidos ocultos podem transportar as coisas, a Natureza, os objetos. Por exemplo, estamos aqui num café, na foz do Douro, olho lá para fora e lembro-me de um verso de Billy Collins, poeta americano, que diz que a foz é o sítio onde o rio perde o nome para o mar. Joan Margarit, poeta catalão, fala da beleza de joias falsas que têm os semáforos. O poeta faz este jogo de comparar coisas e transferir uma característica de um objeto para outro, de uma situação para outra ou de uma emoção para outra.

A poesia é um mero jogo?

Há quem diga que é uma religião. Para mim, é o sítio onde a vida se mistura com o pensamento. E dou primazia ao pensamento, não pretendo que os meus poemas sejam peças sentimentais. Gostava que fossem momentos de inteleção, gosto que se relacionem com o leitor através da inteligência, da ironia, da crítica – que façam como que um flirt com o leitor, através da inteligência. Mas mais até do que a inteligência. Seamus Heaney, Nobel da Literatura 1995, tem uma expressão a propósito da poesia de Keats, poeta romântico inglês. Diz: “to school the intelligence and make it a soul.” Ou seja, educar a inteligência e fazer dela uma alma. A inteligência, em si, não é suficiente. Os ataques às Torres Gémeas, utilizar um veículo que era uma bomba para produzir aquela destruição é um ato maquiavelicamente inteligente. Mas transformar a inteligência numa alma já é algo diferente, porque a alma implica um conceito benigno. E a inteligência pode ser colocada à solta, benigna ou malignamente. Daí que esta questão da alma nos remeta para a compaixão e empatia que é suposto acontecer nas relações humanas.

O que viveu no hospital durante a pandemia trouxe-lhe novas confrontações no sentido poético?

O curioso do processo criativo é que não é tão controlável quanto se possa imaginar. Não sei avaliar, hoje, qual a dimensão com que a pandemia poderá ou não vir a surgir nos meus poemas. Não me parece assunto particularmente poético. Não irei escrever um livro sobre a pandemia. Os poemas do próximo livro poderão estar contaminados de alusões ao que se segue à pandemia. Ao regresso à vida, à forma como nós, seres humanos, vamos olhar para as coisas, com um olhar não tão cansado e iniciático. Interessante no confinamento foi olharmos para as avenidas e para as fachadas das casas com uma clareza que não é possível num dia de trânsito. Somos suscitados pelo movimento dos objetos mais imediatos e, normalmente, não vemos o que está atrás e que é o cenário da nossa vida. Acredito que, agora, este regresso ao movimento, ao quotidiano e à realidade vai permitir-nos ter um olhar e um entusiasmo novos. Pelo menos para algumas pessoas, será como que renascer para a vida.

Há quem o considere um escritor das cenas do quotidiano. É o louvor das pequenas coisas?

É, é aquilo que é essencial na vida. São os detalhes, é captar os pequenos absurdos do nosso quotidiano, as feridas, os elementos aberrantes, aquilo que sai fora da esquadria. Depois, agrada-me passar desse extrato mais concreto, desse referente, desse substantivo, para uma coisa maior. Não começar da generalização para o detalhe, mas partir do detalhe para uma coisa maior. Gosto deste movimento do pequeno para o grande, partir do grão de areia para a praia inteira, fazer da particularidade a universalidade. É isso que um poeta tenta atingir: a experiência universal. E que o leitor percecione como a sua própria experiência, não tendo sido ele a escrever. E diga: “É exatamente isto.”

Quais são as grandes questões do nosso tempo?

As de sempre. A vida, a morte, o amor, a religião, Deus… Deus é um tema que me interessa muito. Perceber como me comportei relativamente à existência de Deus e à presença da fé na minha vida. O meu livro A parte pelo Todo (2009) acompanha o processo de luto pela morte do meu pai. No poema Um carro para Eugeniu Cercavschi, há um verso terrível que diz: “Deus e o meu pai morreram no mesmo dia.” Pensar a minha relação com a religião, a presença de Deus ou qualquer coisa mística ou de divina no quotidiano interessa-me. Gosto de citar um verso de Robert Lowell, poeta americano: “Deus não existe e Maria é sua mãe.” Ou seja, a razão diz que Deus não existe, mas o lado emotivo mostra que é possível que exista. É o caminho que muitos fazem, sobretudo a partir de determinada idade, quando perdem o primeiro familiar que lhes é próximo. É quando começam a pensar no que acontece depois.

Quem é o sr. Lopes que aparece nos seus poemas?

É um indivíduo mediano e mesquinho, que está a meio do sistema, depende de alguém, mas tem um conjunto de pessoas que dependem dele e, através da forma como beneficia ou prejudica os seus subalternos, é capaz de condicionar a capacidade e o desempenho de cada um. Não tem mérito para estar na função, foi colocado ali por influência de alguém. Desempenha um determinado papel e, depois, reúne um conjunto de indivíduos que lhe são mais favoráveis e constituem um escudo para se perpetuar naquela posição. Não é um exclusivo da sociedade portuguesa, mas é um arquétipo muito frequente nas repartições, nos serviços e departamentos da estrutura da sociedade. E, à medida que vamos subindo nos diversos níveis de poder, encontramos este nível de incompetência, do qual todos dependemos.

A vida de um hospital ressente-se muito disso?

A vida de um hospital está cheia de senhores Lopes.

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