O Deus de Nick Cave

Georgiana Houghton – The Love of God

O músico Nick Cave, mundialmente reconhecido pelo seu estatuto de estrela musical, é muito mais que isso. Nos últimos anos, a escrita toma-lhe parte da vida diária e, desde setembro de 2018, no blogue em que mantém correspondência com os seus fãs (The Red Hand Files – https://www.theredhandfiles.com/), o músico responde a uma série de questões que lhe vão colocando acerca de variados temas que vão desde a música até ao gosto pelos animais, ou sobre a pandemia, religião e assuntos políticos. Das mais bizarras ou desconcertantes, íntimas e poéticas, às mais banais e previsíveis, todas as perguntas que lhe são colocadas têm uma resposta que nos é próxima. Num tom eloquente e sensível, o artista responde através da vida, num diálogo direto com as próprias vidas de quem o escuta/lê. São textos de uma beleza pura, real, quotidiana que nos tocam onde precisamos sentir. São cartas que são para todos e para cada um de nós individualmente. São um foco de espiritualidade e de alguém que nos diz que “assumi, por razões de sobrevivência, um compromisso com a natureza incerta do mundo. É aqui que o meu coração está.” Podem subscrever a newsletter deste blogue de Nick Cave e assim receber estas cartas de vida. Aqui, transcrevemos uma dessas cartas, na qual o músico responde à eterna, mas sempre nova questão: “O que é Deus?”.

Na sua opinião, o que é Deus?

Cara Sue,

Deus é amor, e é por isso que tenho dificuldade em me relacionar com a posição ateísta. Cada um de nós, mesmo os mais resistentes espiritualmente, anseia pelo amor, quer o realizemos ou não. E este anseio chama-nos para sempre em direção ao seu objetivo – que devemos amar cada amor. Temos de nos amar uns aos outros. E sobretudo penso que o fazemos – ou vivemos muito perto da ideia, porque quase não há distância entre um sentimento de neutralidade em relação ao mundo e um amor crucial por ele, quase não há distância alguma. Tudo o que é necessário para passar da indiferença ao amor é ter os nossos corações partidos. O coração despedaça-se e o mundo explode à nossa frente como uma revelação.

Não há um problema do mal. Há apenas um problema do bem. Porque é que um mundo que é tão frequentemente cruel, insiste em ser belo, em ser bom? Por que é necessária uma devastação para que o mundo revele a sua verdadeira natureza espiritual? Não sei a resposta a isto, mas sei que existe uma espécie de potencialidade logo após um trauma. Suspeito que o trauma é o fogo purificador através do qual encontramos verdadeiramente o bem no mundo.

Todos os dias rezo para o silêncio. Rezo a todos eles. A todos eles que não estão aqui. Neste vazio, derramo todo o meu desejo e necessidade, e com o tempo esta ausência torna-se potente e viva e ativada com uma promessa. Esta promessa que se senta dentro do silêncio é suficientemente bela. Esta promessa, neste momento, é suficientemente espantosa. Esta promessa, neste preciso momento, é Deus suficiente. Esta promessa, neste preciso momento, é o máximo que podemos suportar.

Com amor,

Nick

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