No primeiro dia…

Reflexão para o mês de outubro de 2022

The sky is the limit

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às coisas da terra.” (da Carta aos Colossences 3, 2)

Há alguns anos, numa entrevista dada ao jornal “Público”, o cardeal Tolentino Mendonça afirmou: “Não conseguimos encontrar sentido na vida com os olhos colados aos sapatos. Precisamos de infinito, nem que seja de um fragmento de infinito.” Guardei sempre como um sinal de alerta pessoal estas suas palavras e, quando leio esta passagem da carta de São Paulo aos Colossenses que serve de ponto de partida para a nossa reflexão mensal, relembro a minha promessa de procurar sempre esse fragmento de infinito que se encontra no alto, naquilo que é elevado.

Os anos passaram, mas estas afirmações do nosso cardeal poeta maior continuam a ser atuais. De facto, vivemos demasiadamente com os pés no chão, a olhar o lugar que pisamos, os sítios que percorremos. Infelizmente, esta é uma tendência muito nossa, muito humana, a de viver com os olhos no chão, naquilo que é pequenino, no que é limitado. Entendemos, muitas vezes, as nossas ações como sendo de curto alcance, de estreiteza de vistas, de finitudes já estabelecidas. Tudo isto tolda-nos e impede-nos de encontrar o que está mais além, o que de mais infinito temos para alcançar e viver.

Quando percorremos as ruas das cidades, no frenesim do nosso dia-a-dia, o habitual é mesmo este, o de nos vermos apressados, agitados, caminhantes de olhos colados aos sapatos. Ou então de olhos colados aos nossos gadgets digitais que nos alienam para um mundo virtual e, por isso, romanticamente distante, ausente e irreal. Com tanto a acontecer à nossa volta, por que razão serão os nossos sapatos a receber o privilégio do nosso olhar? Com tanto a observar e a contemplar diante dos nossos olhos, por que motivo damos primazia ao chão?

Há uma sede inegável de infinito, o ser humano é, por natureza, um ser insatisfeito com a mediocridade do dia-a-dia, do que já é sabido e conhecido, do que não é agradável. O homem tende para a busca e esta procura não se esgota no horizonte dos nossos sapatos. A condição humana é a condição de peregrino, caminhante. O nosso olhar pede-nos mais, a nossa vida quer levar-nos para bem mais longe. Procurar as “coisas do alto” não é fugir da realidade, mas antes encontrar aqueles ideais que não acabam: a justiça, a verdade, a paz, a solidariedade. Buscar as “coisas do alto” não é sinónimo de uma vida poupada a problemas e questões, mas antes a escolha de uma vida real, concreta, com os seus trabalhos e desafios sem, contudo, perder a dimensão espiritual, elevada, infinita que nos vem de um Deus maior. Afeiçoar-nos às “coisas do alto” é priorizar o que realmente importa, é dar valor ao que não tem fim.

Todos sabemos que a vida terrena é efémera. Por isso, as “coisas da terra” serão sempre zonas de conforto que, de forma limitada, nos oferecem esse conforto e certezas. As “coisas da terra” dão-nos alegria e satisfação, mas serão sempre limitadas pela sua finitude. Devemos, por isso, aproveitá-las e vivê-las, realizando através delas a nossa vocação, mas sempre com o olhar no infinito que nos é oferecido por Deus. E só com um olhar mais amplo, conseguiremos ver melhor o terreno, aceitar o quotidiano e vivê-lo com serenidade. Olhar para o alto amplia a nossa capacidade de espanto, a nossa criatividade, o nosso desejo de edificar, de construir. A maior das graças é a de conseguir ver o nosso quotidiano a partir de Deus, é pensar a vida e as suas circunstâncias e contrariedades a partir do nosso entendimento de filhos de um Pai que nos ama infinitamente. A decisão é sempre minha. Eu posso escolher construir o meu dia na certeza de que a vida é mais. Eu posso decidir deixar de ter os meus olhos baixos sobre os problemas e as dificuldades que me aprisionam e limitam. Eu posso optar por levantar os meus olhos para a Luz e ser também eu uma luz. Quando eu escolho viver as “coisas do Alto”, as “coisas da terra” ganham outra dimensão, outra explicação, outra elevação. É no meu dia-a-dia que eu sou chamada a ser um sinal de Deus, a viver a minha condição de filha de Deus, a construir o meu caminho. É no meio do mundo que eu sou criatura amada de Deus. Mas para o ser em toda a plenitude, tenho de continuar a olhar para o Alto, para Aquele que não tem fim. A história humana está cheia de exemplos de homens e mulheres que escolheram, no meio de nós, viver nas alturas e para as alturas. Um desses exemplos é o de Chiara Lubich que procurou sempre um Ideal que não morresse, que não tivesse fim. E ela encontrou-o quando se deixou encontrar por Jesus.

Viver o infinito é fazer acontecer a sua procura. Olhar o infinito é caminhar de olhos abertos, cheios de esperança, daquela esperança que cansa de tanto esperar, mas que existe por isso mesmo. Por isso, não vivamos com os olhos colados aos sapatos. Não vivamos com o nosso pensamento colado em nós próprios, no nosso egoísmo, nas nossas autoproclamadas defesas. Não finjamos que o melhor de nós não chama por nós. Não nos percamos nas autoestradas da vida que com facilidade e rapidez nos levam para qualquer lado, mas que nos impedem de contemplar com tempo, com espanto e com atenção a simplicidade dos caminhos longos. Não fixemos os nossos olhos no fim da linha porque podemos estar a cancelar o seu início. Sigamos o conselho de São Paulo e tenhamos as “coisas do alto” como as nossas guias. Que a partir desta busca pelas “coisas do alto” saibamos perspetivar as “coisas da terra”, num diálogo infinito olhando a nossa vida concreta de um modo largo, amplo, maior. E assentemos os nossos pés nas estrelas, nessa Estrela Maior que é Jesus, aquele que soube viver as “coisas da terra” olhando sempre “as coisas do alto”.

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