No primeiro dia…

Reflexão para o mês de dezembro de 2022

Enquanto houver estrada para andar…

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’” (Evangelho segundo São Mateus – Mt 3, 3)

A época em que estamos a viver é sinónimo de azafama, de agitação, do “não deixes para ontem o que podes fazer hoje”. A sociedade grita-nos que o tempo urge para sermos os mais felizes, os mais ricos, os mais importantes. Há um lema que nos é imposto que é o de evitar derrotas e sermos sempre vencedores. A corrente da movimentação faz com que grande parte da sociedade viva a ansiedade de querer tudo, de experimentar tudo, de preencher todas as horas com atividades e ocupações que sejam sempre e só lucrativas. Pede-nos ainda que fujamos do sofrimento e que finjamos que a morte só acontece aos outros. Pouco espaço parece existir para a simplicidade, para o silêncio, para o gratuito. Alguém que esteja quieto a contemplar a vida é logo questionado se está triste. Tantos se espantam quando veem outros a escolher não correr atrás de carreiras cheias de sucesso e de dinheiro, mas que lhes roubam o tempo de estar consigo e com quem mais amam. Hoje vive-se sempre com pressa, com horários, com prazos, com objetivos só mundanos. Hoje o Homem vive como se fosse uma máquina feita para o sucesso. Vive para o lucro e com o lucro. Escolhe em função do resultado final que só pode ser um: ganhar.

É neste contexto que os cristãos aparecem, tantas vezes, como aqueles que poucos entendem, como aqueles que não sabem aproveitar a vida de acordo com os modelos que a sociedade quer impor. O cristão autêntico é aquele que, muitas vezes, anda na contra-corrente. A mensagem de Jesus Cristo é anti-pressa, anti-barulho, anti-lucro. É a mensagem de um Homem que veio ao Mundo anunciar que a Vida só é vida em abundância quando é vivida na simplicidade, na gratidão, no encontro. Sem trocas, sem contratos, sem lucros, sem lógicas de mercado. É um modo de viver que implica a maior das escolhas: amar. Só amar. No seu tempo, Jesus morreu porque a vida que anunciava era incompatível com a vida da sociedade em que escolheu viver. Hoje, Jesus continua a morrer de cada vez que os homens se recusam a escolher o amor, o outro, a comunidade. Por isso, precisamos tanto do Natal, precisamos que Jesus venha até nós e nos recorde que é sempre possível voltarmos a escolher o amor de novo. Por isso, precisamos todos de voltar a nascer com aquele menino em Belém para nos lembrarmos que a vida é simplicidade.

Acabamos de iniciar o tempo do Advento. O Advento surge como uma época de preparação. Enfeitam-se as casas, iluminam-se as ruas, cuidam-se das ementas natalícias, procuram-se as melhores ofertas, vemos os filmes familiares que a televisão nos proporciona, fazemos listas de tarefas para cumprir. Toda a sociedade se prepara para a grande festa natalícia. Nada pode falhar ou faltar. Há mais de dois mil anos, usando as palavras do profeta Isaías, João Batista anunciava que Deus precisava que os homens preparassem caminho, fizessem estrada, aplanassem as suas veredas. Mas este caminho que João Batista lembrava que todos temos de preparar não é a via das compras, da pressa, do imediato, do consumismo. É o meu caminho. É o teu caminho. É o caminho que nos leva à Vida Eterna, é o caminho que nos direciona para um Deus que insiste, todos os anos, em nascer em nós e para nós. É um caminho que traz tanto trabalho como leveza, que apresenta tantas dúvidas como certezas, que tem tantas curvas como retas, que é tão solitário como comunitário. Esse caminho é a minha Vida. É a tua Vida. E este caminho é sempre uma escolha, um trabalho que eu posso fazer, uma estrada para andar.

Deus vem para que nós possamos ser, para que a Humanidade tenha esse toque divino que nos eterniza. Por isso, cada um de nós é sempre o lugar onde Deus escolheu estar, a nossa estrada é o espaço onde Deus caminha connosco, a nossa vida é a manifestação de um Deus que nos nasce. Deus é connosco. Não estamos sozinhos. Mesmo quando não o queremos na nossa estrada, ele insiste em aparecer sob a forma de uma palavra que lemos, de um amigo que encontramos, de um abraço que recebemos, de uma música que cantamos. E assim Deus continua a visitar-nos através daquilo que nos é próximo. É por isto que se faz Natal.

“Ao lado do teu amigo, nenhum caminho será longo.” Este provérbio japonês, que serviu de título a um livro magnífico do Cardeal Tolentino, põe em evidência a essência comunitária do caminho. Quando caminhamos juntos, quando as nossas estradas são partilhadas, tudo fica mais simples, mais completo, mais fácil, mais suportável. Assim é Deus em nós. Acreditando na sua presença, sentindo o seu amor, vamos seguindo neste caminho que é a vida. Com Ele e por Ele, o nosso coração sente que a vida pode ser sempre mais, que a estrada segue, que os trilhos se desenham.

Por isso, nesta caminhada de Advento, reflito nas questões que se me impõem. Que caminho é este que eu quero preparar? A que me quero eu dedicar? Que estrada estou eu a construir? Com quem quero eu partilhar este meu caminho? Que obstáculos devo eu tentar retirar das minhas veredas? A vida é um conjunto de questões, de interrogações, de avanços e recuos. Só o Amor é inquestionável. E eu avanço na medida em que eu confio e assim vou caminhando. Sempre. Mais depressa ou mais lentamente. Eu sigo. Seguimos. Nesta estrada que escolhemos. Numa estrada clara.

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