Dias, relógios e vidas

Reflexão para o mês de outubro de 2023

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Ensinai-nos a contar os nossos dias para chegarmos à sabedoria do coração.” (Salmo 90)

Por estes dias, ao “arrumar” fotografias que tenho no computador, deparei-me com esta que o Jorge nos tirou, a mim e à Sofia, em 2014, no final de um agosto cheio de luz, num cafezinho muito acolhedor, na bela cidade francesa de Cluny, depois de uma viagem de 24h em autocarro até Taizé. O Jorge gostava muito de relógios. Temos vários e variados relógios em várias e variadas divisões da nossa casa porque ele apreciava a estética, a beleza, a história que os relógios espelhavam. Demorei-me nesta fotografia que foi tirada só por causa daquela parede enfeitada (as duas moças acima mencionadas foram só um pretexto, claro!). Mergulhei nas memórias bonitas que ela me trouxe e deixei-me ficar a pensar em relógios, em tempo, em épocas. Naquele mistério que o tempo traz consigo. Nas perguntas que os dias nos fazem e no tempo que nem sempre é suficiente para as ouvir. No que significa correr atrás de um tempo, deixar um tempo passar ou até fugir de um tempo.

No salmo 90, atribuído a Moisés, num dos versículos mais bonitos que conheço, o salmista pede a Deus que o ensine a contar os seus dias para poder atingir a sabedoria do coração. Este “contar” os dias nada tem a ver com ter os dias contados ou com a aritmética matemática. Contar os dias é saber dar-lhes significado, relevância. Aprender a contar os nossos dias é descobrir que a nossa história pessoal está dentro de uma história maior, a história da Salvação, a história de um povo que caminha rumo a um Deus que o espera sempre e para sempre. Contar os nossos dias é também um modo de confiar. A fé é sobretudo isto, escolher a confiança na vida, no presente, no que nos é dado. Confiança na adversidade daqueles dias frágeis, mas sempre abraçados por Deus. Contar os nossos dias é aprender a reconhecer a presença de uma Força que nos sustém e que nos acompanha no nosso quotidiano, fazendo-nos olhar para a vida com um significado maior, um propósito de infinito. Quem aprende a viver a sabedoria que vem de Deus, tudo avalia à luz da eternidade, da intemporalidade, do infinito. A salvação está aqui, na possibilidade que nos é dada a cada dia de ver de modo diferente, de fazer de modo diferente, de ser de modo diferente.

O tempo de Deus não é o nosso tempo, ouvimos tantas vezes dizer. E isto é assim porque o tempo de Deus não se mede em relógios, em horas marcadas, em agendamentos. Ser cristão é ter uma relação diferente com o tempo. Para o cristão, o tempo não é uma crueldade nem um impedimento. O tempo não pode ser a desculpa que se arranja para se desinvestir naquilo que verdadeiramente importa – a vida plena, em comunidade familiar, a vida com os outros no Outro. Durante estes anos temos ouvido muitas destas desculpas que limitam o acesso a uma vida maior, a experiências significativas. “Quando tiver carro, eu vou à Oração.”, “Quando acabar esta formação que estou a fazer, eu apareço nos ensaios.”, “Quando estiver de férias vou convosco ao encontro de Verão.” E o carro vem, a formação termina, chegam as férias, mas o desinvestimento naquilo que, aparentemente, parece não dar lucro, nem visibilidade, nem créditos continua… E aquela pessoa que podia, mais à frente, encontrar um propósito maior para a sua existência, perde essa oportunidade de se conhecer mais. E os seus dias passam a valer menos porque se resumem a cumprir ordens ou a fazê-las cumprir, a amealhar ordenados, a agendar atividades numa corrida desenfreada para chegar a uma meta numa competição de egoísmos crónicos. E essa pessoa vive só a relacionar-se em função de uma troca, de um ganho, não sabendo viver o Amor gratuito, dado sem ser por nada.

Enchemos, tantas vezes, os dias de preocupações, de azáfamas, de agitações como se fossemos nós os senhores dominadores da nossa vida. Gastamos tanto de nós e do nosso tempo num tempo que muito pouco ou nada nos dá. A vida é tão frágil, tão efémera. Por isso, é simultaneamente tão preciosa, tão única. Não a desperdicemos em cálculos, em ressentimentos, em egoísmos. Não contemos os nossos dias de forma vaga, indiferente, desinteressada. Que nenhum dia nos encontre por viver de forma autêntica.

A vida é mais, sempre mais, mais que os dias gastos em acumulações de trabalho, mais do que os esforços feitos para se atingir uma perfeição, mais do que o mero acumular de graus académicos ou estatutos sociais. O cardeal José Tolentino Mendonça, no seu livro “A mística do instante”, recorda-nos que “é quando percebemos que a vida é mais que deixamos de viver tão preocupados com o mínimo, tão prisioneiros dos pormenores ridículos que nos escravizam.” E alerta-nos para algo que em nós é recorrente: “Carregamos a vida de coisas, indispensáveis e, sobretudo, dispensáveis, tralha impura que nos prende. E depois, às tantas, estamos seguros, estáveis, garantidos, mas já não estamos, já não somos, porque hipotecamos a nossa verdade fundamental a todas as preocupações.” Entristecem-me aquelas pessoas para quem o tempo só tem valor monetário e financeiro. Aquelas pessoas que muito pouco ou mesmo nada fazem de forma gratuita e que não conhecem o que está para além do que é comercializável. Que gerem as suas vidas em função do “o que é que vou ganhar com isso”. Que fazem escolhas tendo por base o que é calculável. Que não são sensíveis a um simples saber estar sem se estar a obter um lucro qualquer com isso. Que não compreendem para que serve a poesia. Que acham uma perda de tempo perder tempo com uma caminhada para se admirar o nascer do sol. Que não se conseguem rir das situações mais simples e, sobretudo, deles próprios. Que até são capazes de oferecer muitos presentes no Natal e nos aniversários, mas que não conseguem saber dar-se aos outros. E que, sem o saberem, estão a perder a vida…

Quando entrego os meus dias, quando os abro à vontade de Deus, quando me deixo invadir pela beleza que é sempre o presente no presente, então assim acontece a multiplicação do meu tempo, do amor, da vida que quando é vida é sempre em abundância. Ser cristão é ser de um tempo sem princípio nem fim. Um tempo que é sempre doação, sempre dádiva, sempre dom. Um tempo qualitativo, epifânico, regenerador.

O Jorge gostava muito de relógios. Também gostava muito da música “Clocks” dos Coldplay e tocava-a frequentemente no piano. Mas o que ele mais gostava era de poder gastar as horas dos seus dias em ser um genuíno cristão de acolhimento, de esperança, de alegria. A vida dele pode, para nós, ter tido poucos dias, mas o tanto que ele nos deixou dá-nos a certeza de que esses seus dias foram vividos com a tal sabedoria necessária, com o desprendimento que nos liberta e com o coração sempre cheio daquela eternidade que nos salva e que é única. É por isso que todos os dias eu agradeço esta doação da vida do Jorge e sou feliz por saber que continuamos a fazer comunidade com quem caminha connosco e a encher os nossos dias de vida para os outros. Sempre. Agradeçamos a Deus a nossa entrega de cada dia, especialmente naqueles dias difíceis, duros, adversos. Peçamos a Deus esta sabedoria necessária para continuarmos a ser caminho, ajudando-nos a confiar e a viver uma existência cada vez mais autêntica. Que Ele nos torne atentos, disponíveis, ricos em dádiva de vida.

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