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Nasces hoje mais uma vez!

Nascemos e jamais morreremos!

O meu mantra diário, especialmente nos dias, digamos, mais desafiadores. Nos dias em que as lembranças se tornam mais fortes, em que as memórias aparecem abruptamente, em que a dor de ti diz presente. Desafiadora tem sido a vida! O fazer de cada dia uma escolha de gratidão. Jorge, o que tua vida nos pede é isto, viver! Aproveitar cada partilha, fazer diferente, pensar no infinito. Cuidar de quem está à nossa volta. Escolher fazer um caminho que não é sinónimo de facilidade. E nós fomos privilegiados por caminharmos contigo. E continuamos a sê-lo por seguirmos juntos neste mesmo caminho, neste projeto de vida, nesta nossa Estrada Clara. E assim tu continuas a nascer nas músicas, nos livros, nos nossos gestos, nos olhares, nos silêncios. Nessa dimensão eterna onde tu estás, continuas a olhar por cada um de nós. Tanto de belo nos tem acontecido, só pode ser por influência tua. Tantas experiências bonitas temos vivido, tantas palavras edificadoras têm vindo ao nosso encontro, tantos abraços fortes nos têm oferecido. Só podes ser tu. Tantas novidades luminosas, tantos encontros a surgirem, tanta energia boa a multiplicar-se. És tu! Aqui! É por isso que quando em mim há a luta entre a tristeza de não te ter em casa à minha espera (“Luísa, Luisinha, você já veio?”) e a alegria de ter construído contigo a minha vida, procuro sempre que só a esperança prevaleça. A esperança de fazer de cada dia um reflexo do tanto que aprendi contigo. A esperança de que esta Comunidade Estrada Clara faça a diferença e seja um projeto de vida maior do que nós próprios. A esperança de que, num dia (muito distante, ainda há muito para fazer e aprender aqui!) quando nos encontrarmos, não haverá mais esta dor. Só paz. Muita, muita luz. E o tempo eterno. Risos de aleluia intermináveis. Abraços demorados. O silêncio. As pulseiras nos braços e os anéis. E o azul, sempre o azul. O arrozinho joia! As conversas longas sobre a essência da vida ou máquinas de lavar. Muita música em tonalidades altíssimas. As tuas plantinhas. Um banco em madeira. Os passeios de fim de tarde. Um campo para cultivar. E o teu bolo de “cinoira”. Parabéns a ti, Jorge! Nasces hoje mais uma vez!

O Deus de Nick Cave

Georgiana Houghton – The Love of God

O músico Nick Cave, mundialmente reconhecido pelo seu estatuto de estrela musical, é muito mais que isso. Nos últimos anos, a escrita toma-lhe parte da vida diária e, desde setembro de 2018, no blogue em que mantém correspondência com os seus fãs (The Red Hand Files – https://www.theredhandfiles.com/), o músico responde a uma série de questões que lhe vão colocando acerca de variados temas que vão desde a música até ao gosto pelos animais, ou sobre a pandemia, religião e assuntos políticos. Das mais bizarras ou desconcertantes, íntimas e poéticas, às mais banais e previsíveis, todas as perguntas que lhe são colocadas têm uma resposta que nos é próxima. Num tom eloquente e sensível, o artista responde através da vida, num diálogo direto com as próprias vidas de quem o escuta/lê. São textos de uma beleza pura, real, quotidiana que nos tocam onde precisamos sentir. São cartas que são para todos e para cada um de nós individualmente. São um foco de espiritualidade e de alguém que nos diz que “assumi, por razões de sobrevivência, um compromisso com a natureza incerta do mundo. É aqui que o meu coração está.” Podem subscrever a newsletter deste blogue de Nick Cave e assim receber estas cartas de vida. Aqui, transcrevemos uma dessas cartas, na qual o músico responde à eterna, mas sempre nova questão: “O que é Deus?”.

Na sua opinião, o que é Deus?

Cara Sue,

Deus é amor, e é por isso que tenho dificuldade em me relacionar com a posição ateísta. Cada um de nós, mesmo os mais resistentes espiritualmente, anseia pelo amor, quer o realizemos ou não. E este anseio chama-nos para sempre em direção ao seu objetivo – que devemos amar cada amor. Temos de nos amar uns aos outros. E sobretudo penso que o fazemos – ou vivemos muito perto da ideia, porque quase não há distância entre um sentimento de neutralidade em relação ao mundo e um amor crucial por ele, quase não há distância alguma. Tudo o que é necessário para passar da indiferença ao amor é ter os nossos corações partidos. O coração despedaça-se e o mundo explode à nossa frente como uma revelação.

Não há um problema do mal. Há apenas um problema do bem. Porque é que um mundo que é tão frequentemente cruel, insiste em ser belo, em ser bom? Por que é necessária uma devastação para que o mundo revele a sua verdadeira natureza espiritual? Não sei a resposta a isto, mas sei que existe uma espécie de potencialidade logo após um trauma. Suspeito que o trauma é o fogo purificador através do qual encontramos verdadeiramente o bem no mundo.

Todos os dias rezo para o silêncio. Rezo a todos eles. A todos eles que não estão aqui. Neste vazio, derramo todo o meu desejo e necessidade, e com o tempo esta ausência torna-se potente e viva e ativada com uma promessa. Esta promessa que se senta dentro do silêncio é suficientemente bela. Esta promessa, neste momento, é suficientemente espantosa. Esta promessa, neste preciso momento, é Deus suficiente. Esta promessa, neste preciso momento, é o máximo que podemos suportar.

Com amor,

Nick

No primeiro dia…

Reflexão para o mês de Junho de 2022

Guardar o que é bom

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Examinai tudo. Guardai o que é bom. Afastai-vos de toda a espécie de mal.” (da 1.ª Carta de São Paulo aos Tessalonicenses 5, 21-22)

A primeira carta que São Paulo escreve aos Tessalonicenses é um hino à comunidade cristã. É um texto belíssimo no qual são apresentados os fundamentos para uma vida plena: a alegria, a gratidão e a vida em comum. Desta carta de São Paulo, considerada um dos mais antigos documentos do Novo Testamento, escolhi, para a reflexão deste mês, estas três simples frases: “Examinai tudo. Guardai o que é bom. Afastai-vos de toda a espécie de mal.”

“Examinai tudo.” Um cristão é, por excelência, um observador, aquele que olha a vida, que contempla, como tão sabiamente definiu Ricardo Reis, este espetáculo do mundo do qual faz parte desde o primeiro dia, desde que foi sonhado e amado por Deus criador. Um cristão não se encerra no seu “eu”, não se fecha no seu condomínio privado, não se abstrai da vida. Um cristão vive no mundo, encara as suas maravilhas, mas também enfrenta os seus desastres. Daí a importância de examinar tudo, como nos exorta São Paulo. Ver tudo, conhecer, observar. Contemplar. Querer ver. Recusar-se a viver de forma indiferente, desinteressada ou abstraída. O ser humano é um ser social. Somos pessoas porque o somos com os outros e com o Outro. Quando São Paulo evidencia a importância de examinar tudo, está também a enfatizar a nossa autoanálise, o nosso conhecimento interior, a nossa descoberta pessoal. Por isso, que nunca percamos esta vontade de descobrir, esta ânsia de procurar e, sobretudo, este desejo luminoso de nos maravilharmos com e pela vida.

“Guardai o que é bom.” Gravar em nós a serenidade dos momentos simples. Guardar tudo em Deus significa, para nós crentes, entregar-lhe o que somos, o que experimentamos, o que vivemos. O que sentimos e também tudo o que não compreendemos. E não deixar a vida à mercê do medo, da angústia, do desânimo. Deixar que Deus habite em nós e nos preencha com o dom da gratidão, da simplicidade, da harmonia. Nos textos bíblicos, esta atitude de “guardar o que é bom” surge referenciada em diversas ocasiões significativas. Também Maria foi guardando no seu coração tudo o que observava em relação ao crescimento do seu filho (Lc 2,19). Pratiquemos, pois, este princípio, o de conservar o que é bom, o que edifica, o que nos eleva. Deixemo-nos levar pela bondade, pela beleza que existe. E há tanta! Tanta! Que os nossos olhos se abram a essa mesma beleza. Não nos fechemos ao belo. Cuidemos do nosso coração que é o nosso tesouro. Com o coração amamos, perdoamos, vivemos. Um coração cheio de dureza não é sensível à beleza, não se apercebe daqueles que estão à sua volta. É um coração vazio. É um coração que não partilha e que, assim, não se pode multiplicar. Devemos cultivar os bons sentimentos, aqueles que nos edificam. Procurar experiências significativas. Os pais devem dar aos filhos tempo, abraços e risos. Contemplar a natureza, ouvir uma música, escutar o silêncio do fim do dia, ler um livro, conversar, partilhar vida. Tudo isto contribuiu para enchermos o nosso coração de bondade. Para sermos bondade.

Este conselho de São Paulo para guardarmos só o que é bom parece ser fácil de seguir. No entanto, enquanto espécie humana (ainda não somos só seres divinos!) tendemos para guardarmos, quase a ferro e fogo, as recordações mais tristes e dolorosas. A psicologia explica este fenómeno pelo facto de que uma experiência traumática é muito mais importante para a nossa sobrevivência enquanto espécie do que a memória de algo agradável. Em conversas que surgem, aqui e acolá, acontece muitas vezes ouvirmos mais histórias de tristezas do que de alegrias. É precisamente contra isto que devemos lutar, dizer não, fazer um esforço para nos focarmos naquilo que é positivo e bom. Todos nós já passamos pela experiência do mal, do sofrimento, da dor. Há um verso de Miguel Torga que o Jorge lembrava algumas vezes para nos chamar a atenção para uma tentação perigosa. “Aos poucos, a vida vai-nos tirando a vontade de cantar.” Isto sempre provocou em mim um arrepio de medo quase paralisante. Sempre me questionei como seria possível alguém perder a vontade de cantar. E cantar, neste contexto, significa o maravilhar-se com a vida, o continuar a caminhar, o fazer sonhar. E hoje compreendo que este verso é um alerta para todos nós, os viventes. À medida que a vida vai avançando e com ela trazendo alegrias e tristezas, há uma tendência generalizada para se privilegiar o negativo, o lado sombrio. Recordamos, muitas mais vezes os problemas que vivemos do que as soluções que encontramos. Vamos acumulando deceções e amarguras e os dias ficam por viver na sua plenitude. Sem nos apercebermos, deixamos de cantar, de procurar e de sentir a alegria de estarmos vivos, presentes, juntos. Deixamos de ler um livro porque achamos que já não temos tempo, deixamos de rir com vontade porque somos as ditas pessoas sérias, deixamos até de ir à missa porque isso agora já não se encaixa no meu perfil de jovem-adulto-promissor-com-uma-carreira-brilhante-e-ligeiramente-ateu-só-porque-sim, deixamos de nos deitar na relva a olhar o céu porque isso agora é uma perda de tempo, deixamos de… E, assim, a vida vai-nos embrutecendo sem nos darmos conta. As experiências de dor existem e, é certo, não podemos fingir que elas não aconteceram. No entanto, é imperativo, para podermos seguir viagem, para avançarmos, colocarmos à nossa frente aquilo que temos guardado de bom. Seguir vivendo sem esses pesos que nos atrapalham o andar. É um processo fácil? Não, não é. Mas é a atitude necessária para continuar a viver. E, sobretudo, para sermos Luz para os outros. Para sermos caminho. Não deixemos que a morte nos aconteça antes do tempo. Cuidemos do nosso coração. Guardemos o que é bom, puro, simples, doce.

“Afastai-vos de toda a espécie de mal.” O mal chama sempre a atenção, é poderoso, gere emoções e provoca reações bem mais visíveis. Ninguém está ou é imune ao mal. E o mal já não é aquele ser diabólico, de risinho maquiavélico, causador de medos e de gritos estridentes. Esta caricatura já não representa os nossos dias. Pelo contrário, o mal apresenta-se hoje com uma bela figura, sedutora, repleta de promessas felizes e de imediata concretização. São Paulo pede-nos que não tenhamos medo de dizer não ao que nos faz mal, a tudo aquilo que obscurece o nosso entendimento. Rejeitemos imagens, ideias, percursos, opções que não nos fazem bem, que nos fazem ser menos do que a plenitude que cada um de nós, enquanto filho de Deus, deve assumir. Procuremos o bem. Procuremos as estrelas que há milhares de anos continuam a ser um presente para nós. Procuremos um abraço amigo naqueles que caminham ao nosso lado. Procuremos aquela canção que temos guardada no nosso coração. Procuremos este Deus que nos espera sempre de braços abertos. Guardemos tudo o que é bom. E assim seremos Luz. E assim seremos Páscoa. E assim seremos caminho. Aleluia!

Uma Força que nos leva

Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

O jornalista Luís Osório publicou, no seu mural de Facebook, um texto sobre o acidente que vitimou, no sábado passado, alguns dos ocupantes de um autocarro que seguia na A1 a caminho de Fátima. Não é um texto sobre as circunstâncias ou os porquês do acidente. Não é um texto sobre a finitude da vida humana ou sobre a efemeridade da nossa passagem terrena. Não é um texto sobre morte. É antes uma reflexão sobre como no meio da morte a vida continua a fluir, sobre como é possível viver a Força quando tudo à nossa volta parece ruir. É ainda um texto sobre a Páscoa, sobre passagem de testemunho. É um hino de ação de graças. É um quadro para o qual devemos olhar sempre que o nosso egoísmo nos vence, sempre que a indiferença nos ataca, sempre que nos esquecemos dos outros. É um apelo a não nos deixarmos derrotar pelo pessimismo, pela ingratidão, pela rabugice que estão sempre à espreita para nos fazer cair na tentação de sermos menos humanos. Por isso, este texto do jornalista Luís Osório é sobre a vida que vence sempre a morte, sobre fortaleza que nos preenche quando a fraqueza nos quer dominar nos momentos sombrios.

Quando a Lara partilhou este texto no nosso grupo, entendi-o tão claramente como se já o conhecesse. Emocionei-me. Pela visão que revela. Pelos sentimentos partilhados. Pelas memórias que me trouxe. Quem já viveu as partidas de quem se ama, entenderá certamente esta Força que, naqueles momentos mais dolorosos, nos acolhe e nos faz caminhar e ser consolo e abrigo para quem está perto de nós. E foi exatamente esta Força que eu experimentei no momento em que o Jorge morreu e que se estendeu nos dias seguintes com tantas manifestações de amor e de vida. Senti-me invadida por uma força tão intensa, tão visceral, tão profunda que me impelia a cuidar de quem estava à minha volta e a levar Vida, sempre a Vida a quem precisava. Há quem chame a esta força um instinto de sobrevivência, uma fuga à realidade. Mas para quem acredita, esta Força sentida e vivida tem um nome – Deus. Uma Força que ainda hoje me arrepia sempre que a sinto e que me leva a querer ser sempre Luz. Uma Força que me(nos) leva a continuar a caminhar nesta Estrada Clara. Não podemos evitar a dor da morte e o sofrimento naturalmente inerente a estas tragédias. Mas podemos confiar. Acreditar. O Amor não morre. Vive em cada um de nós que o aceitamos. Vive quando escolhemos ser Luz! E assim brilhamos, brilham as nossas obras, brilha o nosso Deus! Como Luís Osório afirma no seu texto: “em cada lugar improvável pode existir um farol para nos iluminar. Um farol que nos obrigue a ser todos os dias um bocadinho melhores.” Possamos nós ser esse farol. Sempre. Não deixemos que a nossa Luz se apague. Escolhamos o Bem. A vida. Em cada dia. Hoje.

POSTAL DO DIA, um texto do jornalista Luís Osório, retirado do seu Facebook

A caminho de Fátima, e a meio de um terço, o herói não estava na camioneta

1.

A camioneta ia a caminho de Fátima. Na manhã do último sábado o tempo ameaçava felicidade e as pessoas estavam, também por isso, descontraídas e de farnel posto. Comidas e bebidas para que o dia não fosse apenas de fé e orações, mas também de “mesa” farta. Todos acordaram de madrugada. De terras pequenas do concelho de Guimarães acomodaram-se no autocarro do senhor António. Com casa posta no Airão de Santa Maria fazia questão de ser ele a conduzir a vizinhança. Às 9 e meia da manhã já estavam na Mealhada. Cantaram canções da Igreja. E seguiram as preces da Dona Emília Castro. Todos a adoravam. Todos a ouviam. Todos sentiam que ela, de alguma maneira, era o passaporte para melhor serem ouvidos por Deus. Emília era uma excelente pessoa. Preocupada, ativa. Ajudava na paróquia, ajudava os vizinhos, liderava o coro de Figueiredo, era catequista e o seu marido António, bombeiro há mais de 30 anos.

2.

Uns minutos antes do pneu dianteiro rebentar, Emília levantara-se, pegara no microfone e começara a rezar o terço. Estavam a rezar as palavras mágicas quando tudo aconteceu. Emília foi cuspida com o embate. António, condutor da camioneta, também morreu. Assim como um vizinho de Emília, o senhor Alberto Soares, que ia à frente por causa dos enjoos. Com quase 80 anos já não tinha cabedal para aguentar sem o mínimo de conforto.

3.

Um dia pensarei convosco sobre os que morrem a caminho de algum lugar onde julgam que tudo se iluminará. Num minuto a cabeça enevoada com o “Bem” e no outro minuto a morte a chegar trágica e fúnebre.

Mas hoje quero falar-vos do que me impressionou.  Se tiverem mais trinta segundos, eu conto-vos. Pouco tempo após o acidente os bombeiros das Taipas foram avisados do desastre. O bombeiro António Silva, marido de Emília, meteu-se ao caminho com os seus companheiros – e a meio do percurso, a poucos quilómetros da Bairrada, recebeu a informação de que a sua mulher, mãe dos seus três filhos, tinha morrido. António seguiu caminho e naqueles curtos minutos chorou uma parte da vida que perdera. Não sabemos se telefonou a alguém, não sabemos também por quem foi abraçado, se gritou ou não, não sabemos e pouco ou nada importa.

4.

O que sabemos, o que nos dizem os relatos, é que António ao chegar ao lugar da tragédia foi ajudar quem precisava. A sua mulher estava morta com um lençol por cima, mas ele cumpriu a sua missão com os feridos, com os que estavam em choque, com quem precisava.

Sabem…

Eu costumo muitas e muitas vezes falar do grande mistério que é o “Bem”. Nós nunca desconfiamos do “Mal”, mas do “Bem” a primeira coisa que fazemos é desconfiar.

Mas há pessoas maravilhosas. Há pessoas de uma coragem e verticalidade a toda a prova. Há pessoas que são heróis, mas que ninguém conhece. Talvez no nosso prédio. Talvez na aldeia mais recôndita. Talvez no lugar mais escarpado. E no lugar de Figueiredo, concelho de Guimarães, terra com pouco mais de 400 habitantes, há também um herói. Chama-se António, é bombeiro há 30 anos e tem três filhos, um deles menor. Era casado com Emília, a mulher que rezava o terço e liderava o coro. O homem que hoje abraçamos merece que dele não nos esqueçamos. Eu não me esquecerei que em cada lugar improvável pode existir um farol para nos iluminar. Um farol que nos obrigue a ser todos os dias um bocadinho melhores.

No primeiro dia…

Reflexão para o mês de Maio de 2022

Ver com o coração

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: ele viu e acreditou.” (Jo 20, 8)

Vivemos ainda por estes dias um tempo de festa, o tempo pascal, o tempo que nos diz que a vida não tem fim, que o futuro espera-nos, que a esperança vem até nós para fazer caminho connosco. No domingo de Páscoa, a liturgia do dia recordou-nos a narrativa dessa manhã maior, a manhã inaugural da nossa fé, a manhã da também sempre nossa Ressurreição. Sim, a Ressurreição é de cada um de nós, porque é sempre o momento em que eu decido deixar para trás tudo aquilo que me limita e inicio um novo caminho. Sim, a Ressurreição faz de mim uma nova criatura, faz-me nascer de novo, faz-me passar da morte para a vida.

A Ressurreição de Jesus é o maior acontecimento da vida cristã. O que distingue a Ressurreição de outros eventos históricos é o facto de este mesmo acontecimento só poder ser visto e vivido com os olhos da fé. Ninguém põe em causa o nascimento de Jesus nem a existência história desta figura maior. O seu “modus operandi” marcado por mensagens de amor, solidariedade e igualdade fez história não só no seu tempo, mas sobretudo nos tempos seguintes. A sua morte foi comprovada e semelhante à de outros daquela época. Mas, quando se refere a sua Ressurreição, as dúvidas aparecem e não se encontram factos concretos que possam comprovar plenamente este acontecimento. E isto é assim porque a Ressurreição só pode ser lida numa dimensão de mistério, só pode ser vivida na medida do Amor. Esta é a grande exigência cristã. Acreditar no que não é certo, acreditar no que parece ser estranho, acreditar no que não está lá.

A Ressurreição de Jesus não é explicável, não é factual. A Ressurreição de Jesus só se torna visível quando decidimos que queremos ver, que desejamos acreditar, que ousamos contemplar o que o terreno não nos oferece. Este acontecimento maior daquela manhã de Páscoa é o abraço que eu dou ao mistério do indescritível, é o meu desafio, enquanto cristã, que me impele a escolher viver esta dimensão maior e tão contrária a um mundo que só exige certezas e provas irrefutáveis.

Na narrativa do Evangelho de João, há dois verbos que compõem o acontecimento da Ressurreição: ver e acreditar. João refere que o discípulo amigo de Jesus, aquele que chega primeiro ao sepulcro, vê o espaço vazio e acredita. O discípulo vê o vazio, vê o nada, vê o que não lá está. E isso é tudo! O discípulo não viu nada, ou melhor, viu o nada que, afinal, é o Tudo. Viu um sepulcro vazio, mas cheio de uma morte vencida. Viu o invisível, mas o que se pode sentir. Viu o que não se pode contabilizar, porque viu o Amor e o Amor não tem medida. E, então, pode acreditar. Acreditou. Compreendeu. Ele quis ver para além das aparências, daquilo que era óbvio. Escolheu ver com os olhos da fé e, assim, foi capaz de ver mais, perceber mais, viver mais, experimentar mais.

A postura do discípulo no Evangelho de João mostra-nos que uma atitude de disponibilidade é essencial para a nossa caminhada na construção da nossa fé. A fé capacita-nos a entender o que está para além da nossa compreensão humana e, por isso mesmo, limitada. Precisamos de ver com os olhos do coração aquilo que a razão não alcança. Precisamos de ver com o coração para além das aparências, para além do material. De nada nos serve dizer que acreditamos se apenas nos deixamos levar pelo que é apenas concreto. A doce obra “O Principezinho” recorda-nos sempre que “o essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração”. Sim, só quando nos dispomos a querer ver com os olhos do coração é que o Amor se torna visível, é que a Vida se torna eterna. E assim acreditamos.

Naquele domingo maior, os discípulos e as mulheres viram muito mais que um sepulcro vazio. Os seus olhos encheram-se de uma sabedoria eterna e perceberam que Ele não está, estando. Eles viram os seus sinais porque assim se permitiram a deixar ver. Eles deixaram de lado os seus preconceitos, as suas reservas, os seus medos. Confiaram. Abriram os seus olhos e os seus corações ao que lhes estava a acontecer. Mesmo sem terem respostas dadas pela racionalidade, fizeram uma escolha: quiseram ver! E assim acreditaram. E assim lhes foi dado um mundo novo! Também nós somos, todos os dias, chamados a fazer esta escolha: a de querer ver com o coração. A Ressurreição de Jesus só se torna acontecimento visível para nós quando escolhemos acreditar que Ele continua vivo hoje. Nós podemos ser essa Ressurreição quando nos comprometemos, nos nossos contextos de vida, a sermos as suas testemunhas. Quando fazemos de cada gesto nosso um gesto de Ressurreição, de proclamação de vida nova, de triunfo de um Amor que nos salva.  

A experiência da Páscoa anuncia-nos que é possível acreditar quando eu escolho ver, quando eu me permito contemplar a vida com o coração, quando eu não deixo que a indiferença ou a dureza da vida me dominem. Aquele cego em Jericó pediu a Jesus, “Senhor, que eu veja”. Que seja também este o nosso pedido. Senhor, que eu veja a tua luz nos meus caminhos. Que eu acredite sem reservas. Que eu abra espaço para o indizível. Que eu seja Páscoa em cada um dos meus dias. Que eu te queira ver sempre. Que eu procure permanentemente a beleza e a harmonia, a serenidade e o infinito. Que os meus olhos digam que tu ressuscitaste por mim, para mim. Que eu dance ao sabor da minha fé, tantas vezes frágil, mas que é sempre caminho que me leva a ti. Aleluia! Eu vejo. Eu acredito.

Hoje é Páscoa!

Hoje é Páscoa!

Hoje é Páscoa porque decido acreditar que aquele túmulo, onde tantas vezes teimo em colocar os meus projetos, está vazio, já não existe.

Hoje é Páscoa porque veio este novo dia claro e eu não quero mais deixar que a noite me domine, que os medos me revistam, que a morte tenha a palavra final.

Hoje é Páscoa porque escolho estar disponível para ouvir o que os meus irmãos têm para me contar acerca de um Homem Novo que das leis da morte se libertou e que para sempre vive em cada um de nós.

Hoje é Páscoa porque sei que quero viver a esperança de um dia novo, de um dia luminoso, de um dia inteiro, mesmo quando esse mesmo dia me parece, tantas vezes, impossível de viver.

Hoje é Páscoa porque vou correr juntamente com aquelas mulheres e com elas anunciar que há um mundo novo que começa quando a nossa vida é movimento, é ação, é caminho.

Hoje é Páscoa porque não quero mais estar indiferente à vida que me rodeia, à Luz que eu posso ser para os outros, ao serviço que eu posso prestar a quem precisa.

Hoje é Páscoa porque vou deixar para trás tudo aquilo que não faz de mim um Filho de um Deus maior e me impede de viver a minha dimensão divina.

Hoje é Páscoa porque quero usar todas as palavras criadas e inventadas para anunciar ao Mundo que há uma vida que não morre, que há um Amor que nos transcende, que há uma certeza eterna.

Hoje é Páscoa porque desejo sonhar, projetar, imaginar como posso fazer de cada um dos meus dias um lugar teu.

Hoje é Páscoa porque Tu me ofereces o dom da liberdade, a oportunidade de Te escolher e de fazer de Ti todo o meu coração.

Hoje é Páscoa porque quero abrir a janela alta dos recomeços, a porta ampla das possibilidades, a varanda longa das escolhas verdadeiras e profundas.

Hoje é Páscoa porque quero viver-Te em comunidade, em comunhão com os meus, em abraços apertados e demorados, em beijos e risos de aleluia eterna.

Hoje é Páscoa porque a minha voz só quer cantar para Ti, só quer anunciar a Tua Eternidade, só quer proclamar todas as tuas maravilhas.

Hoje é Páscoa porque quero gritar bem alto que Tu não morreste, que Tu não morrerás.

Hoje é Páscoa porque hoje, com a Tua Ressurreição, me dizes que há um lugar onde Tu, um dia, me esperas para juntos fazermos, para sempre, a Tua grande festa.

Hoje é Páscoa! Aleluia! Jesus ressuscitou!

Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara, Páscoa 2022

Amar com a finalidade única de amar

Texto de Frederico Lourenço, publicado a 15 de abril de 2022 no seu Facebook

Sexta-feira Santa 2022

Já passei fases mais crentes e fases menos crentes: mas, mesmo no período da minha vida em que em afastei mais do cristianismo, a Sexta-feira Santa nunca foi um dia como outro qualquer. É um dia sagrado para mim: um dia diferente de todos os dias do ano. Os meus pensamentos, claro está, estão colados ao homem que pregaram na cruz há quase 2000 anos; homem que, independentemente de tudo e de todos e para lá de religiões e de igrejas, rege e orienta a minha vida interior.

Hoje penso nas razões que o levaram àquele lugar de execução. Penso no bem que ele fez na curta vida que teve. Penso no bem que continua a fazer a todos nós que nos interessamos por saber quem ele foi. E penso, como sempre, que o mundo seria tão diferente se todos puséssemos, de facto, em prática a sua mensagem de amor e de paz.

Mas o amor não é fácil; e a paz, muito menos. Tanto o amor como a paz exigem confrontos intransigentes connosco mesmos; exigem confrontos incómodos com os outros. Não é por acaso que o homem que trouxe a lei do amor também disse que viera para trazer a espada: a espada que corta a direito em tudo o que é hipocrisia e mentira. É cortante exigirmos a verdade a nós mesmos; já para não falar de a exigirmos aos outros.

Jesus foi crucificado na década de 30 do século I. No início da década de 30 do século I a.C., um poeta que escreveu sobre uma nova era de paz que estaria para vir (e sobre um jovem que morreu e subiu ao céu) interrogou-se sobre o amor. No latim de Vergílio, a frase diz-nos «quis enim modus adsit amori?» (Bucólica 2.68), o que pode significar «que medida haveria para o amor?» ou «que limite haveria para o amor?»

Pergunta a que o homem pregado na cruz teria dado resposta segura: não existe medida nem limite para o amor.

No entanto, essa é a resposta de alguém que é tido como Deus encarnado. A pergunta, vista da perspectiva humana, é mais difícil: para nós, humanos, a palavra latina «modus» aponta para a dificuldade humana em amar. «Que jeito haveria para o amor?» Ou então: «Será que o amor tem jeito?»

Como amar o próximo como a mim mesmo? Como praticar o amor para com pessoas que me desagradam, que me suscitam censura, tédio e repúdio? E, mais difícil ainda: como praticar, em toda a verdade, o amor para com as pessoas que eu amo de verdade?

O homem que foi pregado na cruz, numa sexta-feira que nunca iremos esquecer, disse: «Nisto se reconhecerão todos que sois meus discípulos, se amor tiverdes entre vós» (João 13:35).

Amor que é a sua própria finalidade, como se vê na mais extraordinária duplicação de uma frase final em toda a literatura grega: «dou-vos um novo mandamento, PARA QUE vos ameis uns aos outros, tal como eu vos amei, PARA QUE também vós vos ameis uns aos outros» (João 13:34).

Amar com a finalidade única de amar. Só e mais nada.

No primeiro dia…

Reflexão para o mês de abril de 2022

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Pusemos a nossa esperança no Deus Vivo” (da 1.ª Carta a Timóteo 4,10)

A primeira carta que São Paulo escreve a Timóteo é dirigida a este jovem pastor que, apesar da sua idade e da sua pouca experiência, está como responsável da comunidade em Éfeso. Ao longo da carta, Paulo pede a Timóteo que se mantenha firme na fé e que desempenhe sempre com coragem, fidelidade e determinação a tarefa para a qual foi escolhido. Paulo, ao aconselhar o jovem Timóteo, traça um perfil interessante daquele que se diz ser seguidor de Jesus Cristo, acabando por definir tudo aquilo que pode ser considerado relevante para um cristão autêntico. Paulo entende que aquele que professa a vida cristã deve ser modelo para os outros na fé, no amor e na esperança. Se bem que outra atitude não deveríamos esperar de verdadeiros cristãos, por vezes parece que nem sempre é assim tão fácil encontramos a personificação destes modelos e esses valores em cada um de nós. Paulo aconselha Timóteo a ser perseverante e firme, a não desistir nem desanimar, pois só assim poderá ultrapassar os seus limites e conhecer novas forças e novos alentos. Assim, o verdadeiro seguidor de Cristo será sempre aquele que conhecendo as suas capacidades, os seus talentos e o seu carisma os põe a render e a dar fruto, indo ao encontro dos outros. Paulo também pede a Timóteo para que este se dedique à leitura e ao ensino e que cuide dele próprio para assim poder ser luz para os outros e caminho de salvação. Por último, Paulo pede a Timóteo para este ter esperança e acreditar no Deus vivo.

As palavras de Paulo a Timóteo atravessam os séculos e chegam até nós. É uma ideia interessante esta, a de colocarmos a nossa esperança num Deus…vivo! Parece ser uma afirmação redundante e pouco propositada, mas… Por vezes, dizemos acreditar neste Deus, mas parece que nos esquecemos que Ele continua vivo hoje, na nossa realidade, nas nossas casas, nos livros que lemos, nas escolas e nos empregos, nos passeios e nas conversas, nos caminhos que percorremos. Este Deus – vivo! – não é apenas um Deus que um dia veio até nós e fez coisas maravilhosas e extraordinárias e depois morreu, deixando como herança as suas palavras e as suas ideias e tendo depois sido proclamado herói e assim adquirido uma legião de seguidores. É muito mais que isso! É um Deus que continua vivo hoje! E a nossa esperança deve ser sempre colocada naquilo que não morre, no que não tem fim, naquilo que perdura.

A esperança deve ser uma palavra querida e obrigatória para todos aqueles que se dizem cristãos. É impossível dizermo-nos cristãos e não sermos capazes de verdadeiramente sentir e concretizar no dia-a-dia a existência dessa força, dessa esperança maior que nós próprios e que nos faz acreditar profundamente na imensidão e na eternidade das nossas vidas. Os primeiros cristãos souberam viver esta e nesta esperança. Num ambiente marcado por perseguições, medos e injustiças, a esperança daqueles homens foi sempre tão forte, tão firme e tão persistente que foram capazes de manter vivo aquele Deus no qual acreditavam. Depois de terem experimentado a novidade da mensagem de Jesus, era-lhes impossível não falar dela e não podiam deixar de anunciar que este seu Deus continuava vivo e era para todo o sempre imortal. Naquele contexto, era-lhes pedido que manifestassem a sua fé através das suas vidas, indo muitas vezes até ao limite. Na nossa sociedade ocidental atual, somos chamados a viver esta nossa fé de uma forma exigente e adequada à nossa própria realidade e ao nosso tempo. Como cristãos do mundo de hoje, de uma sociedade ultra e mega tecnológica, de um tempo moderno e universal, devemos ousar e anunciar este Deus vivo! Não nos devemos deixar contagiar por aqueles para quem Deus só aparece nos maus momentos, para quem a crise fala mais alto que a esperança, para quem Deus não pode nunca ser motivo de uma infinita alegria. Somos responsáveis por manter vivo este Deus através de vidas verdadeiramente vivas e cheias de significado. Devemos ser sempre os primeiros a acreditar e a confiar e a saber falar de esperança. Como cristãos autênticos, não podemos proclamar um Deus morto, sofrido, apenas e só quaresmal. Nem podemos apenas limitar Deus a um mero protetor naquelas horas mais tristes. Devemos procurar sempre que as nossas atitudes e ações sejam um reflexo do nosso acreditar num Deus que vence a morte. Sempre. Todos os dias. Ao depositarmos a nossa esperança num Deus infinito, estamos a enraizar a nossa vida na certeza profunda da absoluta imortalidade. Confiar totalmente num Deus vivo leva-nos a acreditar que não podemos deixar que o medo, o desânimo e o desespero nos dominem. E este acreditar e esta confiança dependem de nós próprios, da nossa vontade e do nosso desejo. São as escolhas que escolhemos fazer.

António Alçada Baptista, um homem que soube compreender como a imortalidade vive no coração de cada homem, dizia que “Deus deve ter em nós uma presença permanente. Ter Cristo em nós, sempre acordado, é uma presença vital.” Acreditar num Deus vivo é isto mesmo, é fazer com que Ele esteja sempre acordado dentro de nós. Só assim a mensagem de Jesus continua a ser atual e transformadora, só assim poderemos ser cristãos autênticos, com vidas acordadas e ativas, capazes de mudar e de fazer crescer o nosso pequeno mundo e tornar mais despertos os mundos daqueles que estão perto de nós. Só assim podermos celebrar a Páscoa todos os dias. Só assim é Páscoa todos os dias. Acreditar num Deus vivo desafia-nos constantemente a evitar tudo aquilo que é terreno, superficial e desnecessário e a crescer e a evoluir, a descobrir forças em nós, a estarmos atentos aos outros e a sermos mais criativos. A sermos Luz. Sempre Luz! A sermos Páscoa!

No primeiro dia…

A partir de uma frase/citação/pensamento, a Comunidade Estrada Clara propõe, no primeiro dia de cada mês, um texto de reflexão como ponto de partida para a partilha comunitária e para o desenvolvimento espiritual e social de cada um de nós.

Reflexão para o mês de março de 2022

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“E estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós.” (da 1.ª Carta de Pedro 3, 15)

Encontramo-nos perante mais um inegável desafio. Se há dois anos começávamos então a enfrentar o vírus pandémico que nos sujeitou a um indesejável isolamento e a uma interrogação permanente acerca do nosso bem estar comum, eis-nos agora perante a turbulência e a inquietude que a violência mundial nos traz. Estes “vírus” que nos assolam surgem de um instante para o outro, atrapalham as nossas certezas e incomodam aquilo que é o nosso futuro. “A vida muda num instante. Num dia normal.” é a frase que a escritora Joan Didion vai repetindo ao longo do seu extraordinário livro “O ano do pensamento mágico”. Também ela teve de enfrentar a morte num dia em que esta não estava nos seus planos. Tudo decorre com a normalidade a que sempre nos habituamos e tudo acontece sem nunca nos habituarmos a que aconteça. E tudo acontece numa normalidade a que nem sempre damos valor, ou prestamos atenção ou até mesmo agradecemos. Depois, num “dia normal”, eis que tudo muda. E nós somos obrigados a mudar também. E a questionar.

Quando somos confrontados com estes abalos, a vida exige de cada um de nós uma resposta, uma ação. A vida não é indiferença. A vida é movimento, busca, construção. E a reação de cada um de nós é inevitavelmente diferente, ou não fossemos nós seres também diferentes. Perante esta guerra a acontecer, gente há que quer lutar pelo seu país e está a defendê-lo, recusando boleias de salvação; outros escolhem ir para as ruas físicas e sociais gritar a indignação e assumir como lema de vida comum a solidariedade entre os povos; outros ainda arregaçam as mangas e enchem de bens os camiões que partem em direção ao sofrimento atroz; outros exercem a sua diplomacia para tentar quebrar o castelo de gelo e de ódio onde os poderosos vivem. E o Papa convocou para amanhã, Quarta-Feira de Cinzas, uma jornada de oração e de jejum em união com aqueles que sofrem. Todos nos movimentamos. Todos somos movimentados. Todos temos esta(s) escolha(s). Somos seres com os outros e para os outros. Isto é ser humanidade. É pormo-nos a caminho. É fazermos caminho.

Como posso eu ajudar? O que posso eu fazer? Enquanto cristã, o que me move e comove ao viver este momento mundial? Eu encontro parte da minha ação também na oração, no silêncio que me leva à reflexão, na comunhão de energia e positividade com quem sofre e com quem precisa de sentir conforto. Perante este ambiente de agressão e violência, podemos e devemos unir os nossos pensamentos, a nossa energia, as nossas forças para que aqueles que efetivamente têm poder de decisão e ação possam sentir esta onda de amor, positividade, confiança. É o nosso contributo enquanto parte desta humanidade cristã. Estar em oração é estarmos em partilha de espírito. É procurarmos a força, a energia, a presença de um Deus que é Amor e que dá tanta liberdade ao Homem ao ponto de ele poder escolher livremente a morte. Estar em oração é estarmos em união para que dessa união  todo o universo sinta que só a paz vale a pena. E aqui, como tantas vezes se diz, a fé salva-nos na medida em que nos faz acreditar que há sempre futuro, há sempre esperança, há sempre um sempre que nos salva. Só nesta confiança – que se vai trabalhando dia a dia, que avança, mas tantas vezes também recua – seremos artesãos de paz. Seremos luz para os que estão ao nosso lado. Seremos paz nos nossos contextos sociais.

Como posso fazer mais? Como posso ser mais? Estar em oração não nos dá as respostas que o mundo quer ouvir. Mas estarmos em oração uns com os outros também nos ajuda a serenarmos os nossos corações, a encontrarmos força para seguirmos em tranquilidade, a darmos razões das nossas esperanças. O desespero não deve ser a marca de um cristão. Quem acredita na Vida, não pode morrer em vida, não pode deixar que o medo seja superior à força interior que Deus deposita em cada um de nós. Aqueles que sofrem precisam da nossa esperança, precisam do nosso testemunho, precisam de acreditar que há mais vida, mais amor, mais certeza. Que há mais. Sempre mais. E, acima de tudo e apesar de tudo, estarmos juntos em oração é agradecer sempre o dom da nossa vida, o estarmos vivos aqui e agora, o podermos cantar, sentir e vivermos juntos este amor de Deus.

Deixemos a ingratidão de lado. Eliminemos a indiferença dos nossos dias. Escolhamos ser sempre pessoas agradecidas, de coração aberto e olhar disponível para o bem comum e para a beleza. Que não seja necessário o impacto de uma guerra, a chegada de uma doença, a presença de uma morte ou a ausência de um presente para nos apercebermos que, afinal, somos felizes (já somos felizes!) com muito pouco. E que esse muito pouco é sempre tanto. E é tudo. Aproveitemos cada dia que nos é dado para vivermos verdadeiramente e genuinamente. Que nenhum dia nos encontre por viver. Que nenhum momento nos apanhe distraídos ou desinteressados. Não nos detenhamos nos obstáculos ou nos limites que nos impomos tantas vezes. Não nos deixemos vencer pelas desculpas banais da falta de tempo, de oportunidade, de horário. Ousemos viver. Por cada um de nós e pelos outros, particularmente por quem já não o pode fazer devido a tantas circunstâncias infelizes. Sejamos paz. Sejamos luz. Sejamos caminho.

Ser católico hoje

O que significa “católico” hoje? Para responder, devemos antes de tudo perguntar-nos: o que entendemos com “hoje”? “Hoje”, isto é, o tempo do cristianismo dividido. A divisão não diz respeito principalmente à separação entre as Igrejas, mas no interior delas. Hoje, ou seja, um tempo em que a credibilidade da Igreja atravessa uma das maiores crises.

Os escândalos dos abusos sexuais, psicológicos e eclesiásticos recentemente descobertos desempenham no nosso tempo um papel semelhante ao das indulgências que provocou a Reforma. Aquilo que inicialmente parecia um fenómeno marginal, mostra hoje – como então – problemas muito mais profundos, isto é, as disfunções do sistema: as relações entre Igreja e poder, clero e leigos e muitos outros. A situação da Igreja católica hoje é muito semelhante à da existente pouco antes da Reforma.

“Hoje”, isto é, um momento em que a Igreja se encontra perante uma grande tarefa: a passagem da forma atual à futura, rumo ao caminho sinodal.

O caminho sinodal não é apenas um caminho para a reforma, mas um caminho de reforma. Também aqui o percurso coincide com a meta. Os cristãos hoje, como ao início da sua história, devem ser “pessoas em caminho”. Jesus disse de si: Eu sou a via. A existência cristã é uma sequela, isto é, um movimento. Ao longo das veredas tortuosas do mundo de hoje procuramos as peugadas de Jesus, na polifonia do nosso tempo a voz de Jesus. Precisamos da arte do discernimento espiritual.

  1. Contra uma ideologização do cristianismo

Todos nós, cristãos, acreditamos numa Igreja una, santa, apostólica e universal. O que significa “católico”? É uma das notas características da Igreja. Uma comunidade de crentes que deixasse de tender para a catolicidade, para a abertura universal, perderia a sua identidade e autenticidade cristã.

Entre unidade, santidade, apostolicidade e catolicidade há uma conexão interna e uma compenetração, uma pericorese. O enfraquecimento de um destes quatro pilares da identidade da Igreja significa o enfraquecimento dos outros.

Unidade: unidade orgânica na diversidade. Santidade: consagração a Deus e pertença a Deus. Apostolicidade: fidelidade à missão e à Tradição apostólica. E catolicidade: universalidade, visão de conjunto, abertura: estas são as características principais da Igreja.

São carismas que a Igreja recebeu do Senhor da história e da Igreja como dom e tarefa para o seu caminho ao longo da história. São carismas, sementes de graça que, para crescer, precisam de um terreno favorável. São – juntamente com os outros carismas importantes – sementes da vida de Deus; nelas e através delas age e cresce a “dynamis” de Deus, o movimento do Espírito vivificante de Deus, que plasma, une, guia, torna a sanar e transforma a comunidade dos crentes.

Este movimento de crescimento e de maturação ocorre na história e finaliza-se no culminar escatológico do processo histórico. Só neste ponto ómega, no “eschaton”, aparecerão em toda a sua plenitude a unidade, a santidade, a apostolicidade e a catolicidade da Igreja.

No seio da história, a Igreja é “Communio viatorum”, um povo a caminho, que ainda não chegou ao destino. O desenvolvimento da Igreja não é uma estrada de sentido único, a teologia cristã da história difere das escatologias intramundanas. A nossa experiência em relação àqueles que prometeram o Paraíso na Terra e fizeram da Terra um inferno obriga-nos a manter uma distância crítica em relação às ideologias e às utopias políticas. É tarefa profética da Igreja relativizar toda a forma de idolatria, de relativizar a absolutização daquilo que é relativo.

Para nos distanciarmos da escatologia intramundana das ideologias seculares e das promessas do Paraíso na Terra, precisamos de uma certa “escatologia negativa”, análoga à “teologia negativa”. Compreender e descrever plenamente o “futuro absoluto”, a meta escatológica da história supera as nossas capacidades. Por isso, nenhuma situação da sociedade e do Estado, nenhuma forma de Igreja, nenhuma forma do nosso conhecimento teológico pode ser considerada perfeita e definitiva, como sendo o fim da história; em nenhum momento da nossa viagem podemos dizer: alto, é tão belo!

A Igreja tem a obrigação de exercer este serviço profético de “dessacralização” não só em relação às ideologias seculares, como o comunismo ou o nacionalismo, mas também contra as tentativas de ideologizar o cristianismo e desfigurar, assim, a sua vida.

Precisamos de uma “distinção escatológica”: de uma constante distinção entre a “ecclesia militans”, a Igreja aqui sobre a Terra, e a “ecclesia triumphans”, a Igreja glorificada no Céu. Se a “ecclesia militans” terrestre começa a considerar-se como “ecclesia triumphans”, como a forma perfeita da Igreja, comete o pecado do triunfalismo. Se a “ecclesia militans”, a Igreja militante, cessa de lutar contra a tentação do triunfalismo, torna-se um instrumento da religião militante; combate os outros e os não-conformistas presentes nas suas fileiras. Algo de semelhante aconteceu no islão com o conceito de “jihad”.

Uma das manifestações do triunfalismo é o clericalismo: aqueles que estavam destinados ao humilde serviço da comunidade tornam-se uma “classe dirigente”; um governo sacro (hierarquia) que reivindica o monopólio da verdade.

Sobretudo nos nossos dias confrontamo-nos com as consequências do abuso de poder e de autoridade na Igreja. O papa Francisco diagnosticou justamente o clericalismo como uma das principais causas dos atos de abuso, um clima de relações malsãs nas quais coisas do género eram possíveis. A nossa eclesiologia, a autocompreensão da Igreja, precisa do princípio da “kenosis”, do dom de si; o caminho sinodal deve ser um caminho de humildade que cura.

Como já foi dito, o caminho da Igreja na história não é uma estrada de sentido único, mas um drama de luta contínua entre graça e pecado. O drama da Páscoa continua na história da Igreja. Nós partilhamos não só a luz da manhã de Páscoa, mas também as trevas do Getsémani e do Calvário. Na vida da Igreja, nas suas crises e sofrimentos, nas suas feridas, continua também o sofrimento de Cristo, é uma “passio continua”. Não só no caminho espiritual de cada crente, mas também na história da Igreja houve sempre «noites escuras da fé».

Nas noites obscuras coletivas da história do mundo e da Igreja, precisamos da paciência da esperança para vencer a tentação do desespero, esta «doença que conduz à morte».

Muitas coisas – incluindo muitas formas de Igreja e formas imaturas de fé – têm de morrer. A ressurreição não é um regresso àquilo que era antes, mas uma mudança radical. Cristo ressuscitado chega aos seus amigos como um peregrino desconhecido.

Não só os sacramentos e as pregações da Igreja, mas também e sobretudo as expressões quotidianas da fé, esperança e caridade dos fiéis constituem o espaço da ressurreição em que se cumpre a “resurrectio continua”. Da mesma maneira são lugares de teofania: Deus está presente no mundo na fé, na esperança e no amor dos crentes. Também eles exprimem o carácter sacramental da Igreja, também eles fazem parte da liturgia em sentido mais amplo, também eles são o lugar em que Cristo ressuscitado vive e age.

O que significa a catolicidade da Igreja? É a sua abertura à vinda de Cristo ressuscitado, desconhecido, surpreendente. O Cristo ressuscitado é “semper maior”, sempre maior do que o que imaginámos até agora. Entra através das portas fechadas dos nossos medos, das nossas ideias limitadas, das definições dogmáticas, dos conceitos e das categorias.

Catolicismo hoje significa universalidade e ecumenismo em sentido mais amplo e profundo. O convite do Concílio Vaticano II ao diálogo ecuménico com as outras Igrejas cristãs, com os crentes de outras religiões e com os fautores do humanismo ateu foi o primeiro passo neste caminho. Contribuiu para libertar a catolicidade da Igreja do beco sem saída do “catolicismo”, do particularismo confessional, da redução a uma das “visões do mundo”.

Para esta deformação da Igreja contribuiu a sua estratégia defensiva e apologética após os dois grandes cismas, a estratégia de defesa contra o protestantismo e depois a defesa contra a cultura moderna, na sequência da cisão entre a teologia neoescolástica e o pensamento científico, filosófico e político do século XIX.

2. A Igreja deve distanciar-se de um catolicismo de guerras culturais

No caminho sinodal rumo a uma catolicidade credível, devemos libertar-nos de “um catolicismo” entendido como convulsa contracultura e instrumentos de guerras culturais. Além disso, a Igreja deve resistir constantemente à tentação do narcisismo coletivo, do egoísmo e da autorreferencialidade. Devemos estender o princípio da sinodalidade, o caminho de busca feito em conjunto às nossas relações com as pessoas de outras religiões e com quem não tem credo religioso. Para o cristianismo, esta autotranscendência não é uma perda de identidade, mas a atuação do mistério central do cristianismo, da mudança pascal.

Em vez de fazer proselitismo, deveremos cultivar uma cultura de acompanhamento e de diálogo, na qual se possa compreender não só a fé dos outros, mas também a nossa de maneira nova. A religião de amanhã deveria ser um “re-legere”, uma “releitura”, uma nova leitura, um novo repensamento, uma nova hermenêutica.

Catolicismo ecuménico hoje significa a coragem da autotranscendência da Igreja, de auto transcendência do cristianismo. Esta autotranscendência – superação das próprias fronteiras institucionais e mentais para com os outros – não é uma perda da identidade do cristianismo, antes uma atuação do mistério central do cristianismo, a mudança pascal.

Na véspera da sua eleição para pontífice, o cardeal Jorge Mario Bergoglio citou as palavras de Jesus: «Estou à porta e bato»; mas acrescentou que hoje Jesus bate de dentro da Igreja e quer sair, em particular para todos os pobres, os marginalizados e os feridos do nosso mundo, e nós devemos segui-lo. Mas devemos também avizinhar-nos de todos aqueles que estão em busca espiritual, não como detentores de toda a verdade, mas como aqueles que desejam caminhar junto a eles no respeito recíproco.

Um passo importante no caminho da catolicidade ecuménica foi a decisão do Concílio Vaticano II de utilizar o conceito de “subsistit in” para indicar a relação entre a Igreja de Cristo na sua plenitude escatológica e a Igreja católica no seu caminho na história. Segundo o cardeal Walter Kasper, isto implica duas importantes garantias.

Primeiro: nesta Igreja católica experimentável, existente aqui e agora, subsiste a Igreja de Cristo, essa misteriosa Esposa de Cristo, cuja plena glória e beleza se revelarão somente no horizonte escatológico na eternidade. Segundo: que esta Igreja católica romana não «ocupa todo o espaço» da Igreja de Cristo, de tal maneira que há um lugar legítimo par as outras Igrejas cristãs e para os carismas que Deus livremente dá para além das fronteiras visíveis da Igreja.

Analogamente, poder-se-ia talvez dizer que a verdade, que é o próprio Deus, existe na doutrina do Magistério, sem todavia esgotar em nenhum momento da história a plenitude do mistério de Deus. A afirmação que a doutrina oficial da Igreja apresenta a revelação de Deus de modo autêntico e em medida suficiente para a salvação, e que não se deve esperar qualquer outra revelação não significa seguramente que a Igreja pronuncie um interdito sobre posteriores ações do Espírito Santo.

Há ainda espaço para a livre efusão do Espírito que guia gradualmente os discípulos de Cristo à plenitude da verdade até ao fim da história. O ponto, no entanto, é que a abertura a novos dons do Espírito não significa perder de modo lastimoso e frívolo o respeito pela importância e irrevocabilidade do tesouro dos dons precedentes do mesmo Espírito; Jesus elogiou a sabedoria do dono de casa que extrai para fora do seu tesouro coisas novas e coisas velhas.

Também na fé da singular pessoa do cristão ou na de um determinado grupo de cristãos (por exemplo, uma escola teológica) vive a fé de toda a Igreja, a plenitude do ensinamento cristão; mas a fé e o conhecimento de um singular cristão ou de um determinado grupo cristão tem sempre os seus limites humanos (históricos, culturais, linguísticos e psicológicos) que o tornam incapaz de colher toda a fé da Igreja na sua plenitude. Por isso, também os crentes singulares e as singulares escolas de fé e espiritualidade precisam da Igreja no seu conjunto e, naturalmente, do seu Magistério, para se completarem e, eventualmente, corrigirem.

O crente singular participa na fé da Igreja na medida em que as suas capacidades pessoais permitem encarnar o tesouro da fé na sua compreensão, no seu pensamento e na sua ação. Já S. Tomás de Aquino ensinava, a propósito da fé implícita, que nenhum crente pode colher tudo o que a Igreja crê, mas que apenas uma parte dela é “explicitamente” compreendida e acolhida.

Aquele que acredita possui uma “participação implícita” naquilo que está para além da sua compreensão e conhecimento através do ato de confiança em Deus e na sua revelação, e , naturalmente, também na Igreja que apresenta essa revelação. Este conhecimento deveria conduzir à humildade e a reconhecer a necessidade da comunicação e do diálogo na Igreja.

Além disso, a fé cristã nunca preenche totalmente (provavelmente nem sequer nos santos e nos místicos) todo o espaço ada alma humana, a parte consciente e inconsciente da psique. Neste sentido, compreendo a afirmação do Card. Jean Daniélou segundo a qual «um cristão é sempre parcialmente um pagão batizado».

Certamente, o Batismo tem o carácter de sinal indelével (“signum indelebile”) e de participação real no corpo místico de Cristo, mas a graça do Batismo pera dinamicamente no ser humano e confere-lhe um crescimento e uma maturação na fé, enquanto o ser humano abre a ela o espaço da sua liberdade a todos os níveis da sua existência.

Se a fé da Igreja subsiste (“subsistit in”) na vida espiritual do crente, a ciência religiosa recebida não preenche todavia todo o espaço da sua vida espiritual, e então permanece no seu espírito e no seu coração um lugar legítimo de indagação sobre interrogações críticas e dúvidas sinceras. É salutar para ele perguntar-se humildemente se o seu caminho de fé é autêntico, se é fiel à tradição, mas também sobre como Deus o guia na sua consciência. Por isso, o destinatário final das suas interrogações não pode ser só a autoridade eclesiástica, mas o próprio Deus, presente no santuário da sua consciência, Deus que lhe fala não só nos ensinamentos da Igreja, mas também nos sinais dos tempos e nos acontecimentos da sua própria vida.

O dom da fé, que lhe é transmitido através da educação ou do influxo do ambiente, ou obtido como fruto de uma busca pessoal, é sempre um dom incomensuravelmente precioso da graça de Deus, mas igualmente preciosa é essa «inquietação do coração humano» de que fala Santo Agostinho. Esta inquietação não permite acomodar-se a uma certa forma de fé acolhida ou alcançada, mas é sempre busca e desejo de ir além. Também as interrogações críticas, as dúvidas e as crises de fé podem imprimir impulsos preciosos neste caminho.

Também eles podem ser considerados como um dom de Deus, como uma “graça adjuvante”. O Espírito de Deus não só ilumina a razão do ser humano, mas age também como “intuição” no profundo do seu inconsciente, e esta consciência é preciosa para refletir sobre a “fé dos não-crentes”; também as pessoas que não foram alcançadas pelo anúncio da Igreja, ou não o receberam de uma forma tal que o possam aceitar honestamente, podem ter uma certa intuição da fé. O diálogo de fé da Igreja com esta “fé intuitiva” de pessoas longínquas da Igreja pode ser útil para ambas as partes.

3. Não se deter nas formas habituais

«Deus é maior que os nossos corações», afirma S. Paulo. Mas o “nosso coração” é maior do que aquilo que a nossa razão, as nossas “convicções religiosas”, os nossos atos de fé conscientes e reflexos, as nossas “profissões de fé” sabem de Deus. Na tradição agostiniana, Blaise Pascal, em particular, conhecia aquela “razão do coração” (“raison”), de que a razão (“ragion pura”) não sabe nada. Mas devemos estar atentos para não limitar o conceito bíblico, agostininano e pascaliano do coração à única “emotividade”.

C.G. Jung sustentava que a componente consciente e racional da nossa psique é como uma minúscula parte de um icebergue que emerge do mar; a parte maior e mais importante está no inconsciente, não só pessoal mas também no “inconsciente coletivo”. É aí que nascem as ideias, as inspirações, as razões ocultas do nosso agir. Talvez se possa dizer que a psicologia do profundo descreve com outras palavras ou numa outra perspetiva a experiência dos místicos, segundo a qual «a alma não tem fundo»: a profundidade do ser humano é compenetrada pela profundidade que chamamos Deus, como lemos nas palavras do salmo «o abismo chama o abismo» (42, 8).

Quando Deus, que é «maior que o nosso coração», entra na nossa vida, alarga ao infinito a profundidade e a abertura do nosso ser, que nós simbolicamente chamamos coração. Em nós acontece algo de mais significativo e maior de quanto podemos “compreender” e “esgotar” com as nossas práticas religiosas normais.

Por isso, é importante não permanecer no ponto em que estamos, não ficarmos satisfeitos com a forma habitual, mas continuar a procurar, mesmo quando a busca é acompanhada de crises e emergem interrogações difíceis que vão para além das respostas características oferecidas pela tradição.

À medida que a nossa fé amadurece na nossa história pessoal e na história da Igreja, cresce e desenvolve-se também a catolicidade da Igreja. «Somos desde já filhos de Deus. Mas o que seremos ainda não foi revelado» (1 João 3, 2).

Tomáš Halík
In Settimana News
Trad.: Rui Jorge Martins