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De que serve a poesia num curso de Medicina?

João Luís Barreto Guimarães

João Luís Barreto Guimarães, médico de cirurgia reconstrutiva e poeta, em entrevista à VISÃO.

Além de médico, João Luís Barreto Guimarães, quase a completar 54 anos, é um poeta premiado (venceu recentemente o Willow Run Poetry Book Award pelo livro Mediterrâneo). Neste momento, revê provas da tradução que fez dos poemas de Margaret Atwood, encomenda da Bertrand. Em setembro, dará aulas de poesia no mestrado em Medicina do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), abertas também a alunos de outras faculdades e à sociedade civil. Quando recebeu o convite, aceitou imediatamente, porque quer levar novos mundos à relação do médico com o doente.

Como surgiu esta ideia de integrar a poesia num curso de Medicina?

Estão a renovar os curricula dos cursos médicos, integrando a cadeira de Introdução à Poesia e também uma de música, igualmente opcional. É interessante proporcionar aos alunos uma visão holística, ainda mais numa faculdade que se orgulha de ter Abel Salazar como patrono e que responde pelo mote “um médico que só sabe de medicina nem medicina sabe”. Vamos falar do que acontece num poema, como se lê um poema contemporâneo e da vivência dos alunos sobre o tema de cada poema, na esperança de que possa contribuir para desenvolver o lado mais empático e humanista que é suposto o médico ter com o doente. Um poema é sempre uma visão pessoal de quem o escreve, corresponde a um momento de entrega intelectual à descrição de uma experiência. Rilke dizia que os poemas são experiências. E estes alunos, na relação futura médico/doente, terão sempre uma barreira entre o que perguntam e o que os doentes decidem responder. O médico pode não fazer as perguntas certas e, portanto, não extrair a informação toda. E o doente pode não querer dar a resposta completa. A relação médico/doente vai progredir conforme a compatibilidade e a abertura que venha a desenvolver-se.

O que é que os poemas nos dão?

São autênticas janelas para a alma de quem os escreveu. Haverá poetas que tiveram a doença descrita ou passaram por aquele estado de alma ou que estão a escrever sobre familiares ou amigos que viveram aquelas situações. É muito interessante acrescentar esta temática àqueles futuros médicos e como que lhes desvelar e abrir um mundo escrito num momento de intimidade, sem quaisquer filtros, que correspondeu ao momento da criação poética de cada um dos autores.

Ou seja, a poesia não nos salva, mas humaniza-nos?

Wislawa Szymborska, poeta polaca e Nobel da Literatura 1996, diz: a poesia não pode evitar o sofrimento, mas pode acompanhar o processo de sofrimento. A poesia pode ou não salvar, dependendo de quem receciona o poema. Um poema que é escrito faz o seu caminho. Paul Celan também dizia que o poema é como uma mensagem numa garrafa que está a caminho de alguém. É possível saber quem o escreveu, mas não é possível saber quem e de que forma o vai rececionar. Cada um lê um poema com a sua imaginação e, fundamentalmente, com a sua experiência.

Um poema não é, então, para entender. É só para sentir?

Pode ser para sentir e para tentar entender a experiência de quem o escreveu. O desejo do poeta é escrever um poema que provoque uma resposta no leitor, qualquer que ela seja. Até pode ser escrito para provocar repulsa. Mas ele não tem maneira de adivinhar que tipo de resposta cada leitor vai ter. Assim como eu não tenho possibilidade de saber que tipo de resposta cada aluno vai ter a cada um daqueles poemas. Até pode ser de indiferença. Mas podem também ser poemas que inscrevem profundamente para a vida.

Que autores vai selecionar?

Na primeira aula, vamos começar com um poeta da casa: Jorge Sousa Braga, médico de obstetrícia e ginecologia no Hospital de Santo António. Depois, conversaremos sobre um poema de Wislawa Szymborska, outro de Simon Armitage [poeta britânico] e ainda outro de Robert Frost [poeta americano, que ganhou quatro prémios Pulitzer]. Falaremos de vários autores portugueses, mas vamos percorrer também o cânone europeu e americano.

Selecionando sempre poemas que falem de doença?

Não. Selecionando sempre de acordo com o que me interessa conversar sobre a oficina do poema. Por exemplo, os quatro poemas da primeira aula surgem como exemplos de um poema lírico, um narrativo, um dramático e um didático. Há dois níveis que ocorrem paralelamente: por um lado, os instrumentos da oficina de um poema contemporâneo; por outro, a medicina e a experiência médica da doença, da vida, da morte. Concretamente, um fala sobre uma síndrome psiquiátrica; outro, de um efeito farmacológico; outro, de um trauma cirúrgico; e outro, de um momento no bloco operatório. Vou tentar cumprir os dois objetivos: um, que me interessa mais enquanto poeta, que é dar a entender como se lê um poema contemporâneo e o que está a acontecer quando o lemos; e outro, que é desenvolver a empatia e o humanismo naqueles alunos de Medicina.

Os autores serão sempre médicos?

Não. Até há alguma graça na escrita de assuntos médicos por não médicos. Poemas em que se fala da pulsação de uma veia, em vez de ser de uma artéria. Coisas engraçadas que, não tendo uma verdade científica, têm uma verdade poética.

Há alguma razão particular para que a poesia se junte à medicina?

Posso falar da minha experiência cirúrgica e da escrita. O poema que gosto de escrever desenvolve-se numa página só, é muito concentrado, económico, elíptico, emoldurado com espaço branco, esculpido conforme a tensão e a velocidade que quero imprimir e o modo como quero surpreender o leitor com a linha seguinte. O poema final resulta numa certa escultura de som. Gasto bastante tempo na revisão, há um limpar de excesso, de gorduras, para que o poema fique seco. Cirurgicamente, o paralelo é que, em vez de ser feito com uma caneta, é feito com um bisturi. Concorrer para uma certa harmonia, não exatamente perfeita ou simétrica, passa também por esse eliminar do excesso. Fazemos isto no nosso quotidiano, escolhemos excluindo.

No ato cirúrgico, passam-lhe pela cabeça ideias para poemas?

Não exatamente. Mas estou recetivo a que elas cheguem. É muito interessante olhar à nossa volta e tentar destapar, perceber que sentidos ocultos podem transportar as coisas, a Natureza, os objetos. Por exemplo, estamos aqui num café, na foz do Douro, olho lá para fora e lembro-me de um verso de Billy Collins, poeta americano, que diz que a foz é o sítio onde o rio perde o nome para o mar. Joan Margarit, poeta catalão, fala da beleza de joias falsas que têm os semáforos. O poeta faz este jogo de comparar coisas e transferir uma característica de um objeto para outro, de uma situação para outra ou de uma emoção para outra.

A poesia é um mero jogo?

Há quem diga que é uma religião. Para mim, é o sítio onde a vida se mistura com o pensamento. E dou primazia ao pensamento, não pretendo que os meus poemas sejam peças sentimentais. Gostava que fossem momentos de inteleção, gosto que se relacionem com o leitor através da inteligência, da ironia, da crítica – que façam como que um flirt com o leitor, através da inteligência. Mas mais até do que a inteligência. Seamus Heaney, Nobel da Literatura 1995, tem uma expressão a propósito da poesia de Keats, poeta romântico inglês. Diz: “to school the intelligence and make it a soul.” Ou seja, educar a inteligência e fazer dela uma alma. A inteligência, em si, não é suficiente. Os ataques às Torres Gémeas, utilizar um veículo que era uma bomba para produzir aquela destruição é um ato maquiavelicamente inteligente. Mas transformar a inteligência numa alma já é algo diferente, porque a alma implica um conceito benigno. E a inteligência pode ser colocada à solta, benigna ou malignamente. Daí que esta questão da alma nos remeta para a compaixão e empatia que é suposto acontecer nas relações humanas.

O que viveu no hospital durante a pandemia trouxe-lhe novas confrontações no sentido poético?

O curioso do processo criativo é que não é tão controlável quanto se possa imaginar. Não sei avaliar, hoje, qual a dimensão com que a pandemia poderá ou não vir a surgir nos meus poemas. Não me parece assunto particularmente poético. Não irei escrever um livro sobre a pandemia. Os poemas do próximo livro poderão estar contaminados de alusões ao que se segue à pandemia. Ao regresso à vida, à forma como nós, seres humanos, vamos olhar para as coisas, com um olhar não tão cansado e iniciático. Interessante no confinamento foi olharmos para as avenidas e para as fachadas das casas com uma clareza que não é possível num dia de trânsito. Somos suscitados pelo movimento dos objetos mais imediatos e, normalmente, não vemos o que está atrás e que é o cenário da nossa vida. Acredito que, agora, este regresso ao movimento, ao quotidiano e à realidade vai permitir-nos ter um olhar e um entusiasmo novos. Pelo menos para algumas pessoas, será como que renascer para a vida.

Há quem o considere um escritor das cenas do quotidiano. É o louvor das pequenas coisas?

É, é aquilo que é essencial na vida. São os detalhes, é captar os pequenos absurdos do nosso quotidiano, as feridas, os elementos aberrantes, aquilo que sai fora da esquadria. Depois, agrada-me passar desse extrato mais concreto, desse referente, desse substantivo, para uma coisa maior. Não começar da generalização para o detalhe, mas partir do detalhe para uma coisa maior. Gosto deste movimento do pequeno para o grande, partir do grão de areia para a praia inteira, fazer da particularidade a universalidade. É isso que um poeta tenta atingir: a experiência universal. E que o leitor percecione como a sua própria experiência, não tendo sido ele a escrever. E diga: “É exatamente isto.”

Quais são as grandes questões do nosso tempo?

As de sempre. A vida, a morte, o amor, a religião, Deus… Deus é um tema que me interessa muito. Perceber como me comportei relativamente à existência de Deus e à presença da fé na minha vida. O meu livro A parte pelo Todo (2009) acompanha o processo de luto pela morte do meu pai. No poema Um carro para Eugeniu Cercavschi, há um verso terrível que diz: “Deus e o meu pai morreram no mesmo dia.” Pensar a minha relação com a religião, a presença de Deus ou qualquer coisa mística ou de divina no quotidiano interessa-me. Gosto de citar um verso de Robert Lowell, poeta americano: “Deus não existe e Maria é sua mãe.” Ou seja, a razão diz que Deus não existe, mas o lado emotivo mostra que é possível que exista. É o caminho que muitos fazem, sobretudo a partir de determinada idade, quando perdem o primeiro familiar que lhes é próximo. É quando começam a pensar no que acontece depois.

Quem é o sr. Lopes que aparece nos seus poemas?

É um indivíduo mediano e mesquinho, que está a meio do sistema, depende de alguém, mas tem um conjunto de pessoas que dependem dele e, através da forma como beneficia ou prejudica os seus subalternos, é capaz de condicionar a capacidade e o desempenho de cada um. Não tem mérito para estar na função, foi colocado ali por influência de alguém. Desempenha um determinado papel e, depois, reúne um conjunto de indivíduos que lhe são mais favoráveis e constituem um escudo para se perpetuar naquela posição. Não é um exclusivo da sociedade portuguesa, mas é um arquétipo muito frequente nas repartições, nos serviços e departamentos da estrutura da sociedade. E, à medida que vamos subindo nos diversos níveis de poder, encontramos este nível de incompetência, do qual todos dependemos.

A vida de um hospital ressente-se muito disso?

A vida de um hospital está cheia de senhores Lopes.

“Se não temos paz interior dificilmente podemos contruir paz social”

Pablo D’Ors é padre, escritor e consultor do Conselho Pontifício da Cultura por nomeação do Papa Francisco. O espanhol esteve em Portugal para apresentar O Amigo do Deserto, publicado em 2005, mas que só agora chegou a Portugal, pela mão da Quetzal. Pelo caminho, deu a conhecer a associação que criou e onde o silêncio impera.

Bárbara Wong (texto) e Pedro Fazeres (fotografia) 8.dezembro.2019, PÚBLICO

Esteve em Lisboa para apresentar o romance O Amigo do Deserto, que escreveu há 14 anos, mas que só agora chega a Portugal, através da Quetzal. Por cá, A Biografia do Silêncio — ​que em Espanha foi um bestseller e vendeu mais de 150 mil exemplares — e Sendino Está a Morrer foram publicados pela Paulinas Editora. 

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Pablo D’​Ors estudou nos EUA e na Alemanha, onde foi discípulo do monge beneditino e teólogo alemão Elmar Salmann (1948-). Foi ordenado sacerdote em 1991 e esteve em missão nas Honduras, assim como na Europa de Leste. Apologista do silêncio e da meditação, tem como mestres o eremita francês Charles de Foucauld (1858-1916), que refere no seu livro, onde o protagonista sente uma atracção pelo deserto, viajando até ao Sara, reencontrando-se por lá; o escritor e monge trapista francês Thomas Merton (1915-1968) e o jesuíta húngaro Franz Jalics (1927-), autor de livros sobre contemplação e espiritualidade. 

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Anos depois de ter escrito O Amigo do Deserto, em 2014, criou a associação Amigos do Deserto, que tem como objectivo a meditação. Não é preciso ser consagrado ou católico para fazer parte desta rede — que em Espanha reúne cerca de meio milhar de pessoas —, mas sim estar interessado na experiência interior que é o silêncio. Embora não acredite que o Papa conheça a sua experiência, tem a convicção de que o silêncio pode mudar o mundo.

Sacerdote, escritor, fundador da associação Amigos do Deserto. Quem é Pablo D’​Ors?
Gostaria de ser um homem do deserto e um homem da amizade.

Porquê?
Quando falo de deserto, falo de interioridade. E quando refiro a amizade, falo de comunhão, capacidade de sentir os outros mais próximos. Houve um tempo que me identificava muito com o arquétipo do sacerdote e do escritor, que são muito distintos, mas que têm afinidades: a experiência estética e a estática; a poética e a mística; todas estão profundamente ligadas. Mas hoje poderia não ser escritor nem sacerdote e a minha essência permaneceria intacta. 

O que significa?
Quero dizer que escrever e ser pastor da Igreja não deixam de ser expressões, mas o essencial é a experiência vital. Por isso, eu quero ser um homem do deserto e um homem da amizade.

Porquê este livro com o mesmo nome que a associação?
Não escrevemos o que vivemos, mas o que vamos viver. Com isto quero dizer que a literatura não é tanto uma memória, mas uma profecia. Quando escrevi este livro, não sabia que ia fundar uma associação [em 2014], nem que me ia dedicar de maneira tão completa à meditação. De algum modo, este livro foi como um presságio do que viria a acontecer mais tarde. Por exemplo, no livro escrevo sobre a dificuldade em entrar para a associação e, na vida real, houve muitas pessoas que quiseram entrar [nos Amigos do Deserto] e não conseguiram porque houve uma explosão e não era possível dar resposta a toda a gente. Nessa altura, percebi que havia muita gente interessada no silêncio. Foi uma feliz casualidade, que é mais do que isso, é uma feliz causalidade. Quando os livros nascem de dentro, têm mesmo de nascer, porque há uma grande confluência entre a literatura e a vida.

É autobiográfico?
Digo sempre que é autofictício, quer dizer que há a novela épica do indivíduo, em que o protagonista não sou eu, mas ele e todas as personagens secundárias são o alter ego do escritor. Este trabalha com a memória, com a imaginação. Recordamos o que vivemos, vimos, pensámos, sentimos; e recriamos, enfabulamos… Há um lado autofictício, pois o protagonista chama-se Pavel e eu sou Pablo. Mas isso acontece com todos os meus livros, pondo-me na pele de uma mulher ou de uma pessoa muito diferente de mim. [O escritor] Milan Kundera, que admiro e leio sempre, diz que a novela é uma exploração da identidade com egos imaginários.

O que é a associação Amigos do Deserto e como funciona?
É uma rede aberta de meditadores, isto é, de pessoas interessadas na experiência interior do silêncio, que é comummente conhecida como meditação. Para fazer parte da rede, é preciso fazer um retiro de iniciação: um fim-de-semana intensivo em que o método ou a maneira de meditar é ensinado. Essencialmente, consiste num trabalho corporal de relaxamento, um trabalho mental de concentração e espiritual de contemplação. Aqueles que desejam continuar são integrados nos nossos grupos de prática semanal, a que chamamos “seminários silenciosos”. Estamos convencidos de que, neste mundo barulhento, esse exercício de encontro consigo mesmo é enormemente transformador.

Depois de O Amigo do Deserto, escreveu A Biografia do Silêncio, que é um ensaio sobre meditação, a associação é uma consequência desses dois livros?
A associação foi criada porque muitos leitores de A Biografia do Silêncio queriam pôr em prática os ensinamentos desse pequeno livro. Nesse — que foi um verdadeiro milagre editorial, com mais de 150 mil leitores desde a sua publicação em 2012 —, conto a minha experiência, as dificuldades em ficar em silêncio e quietude, as minhas descobertas diárias, os benefícios que me trouxeram… Pouco a pouco, depois de uma década e meia de perseverança, cheguei à conclusão de que poucas coisas ajudam tanto a conhecermo-nos a nós mesmos como nos sentarmos em silêncio para ouvir e ver o que somos.

A meditação católica é diferente da budista?
As formas são diferentes em todas as tradições religiosas, mas o pano de fundo é o mesmo. Normalmente, ilustro essa pergunta com o que chamo “metáfora da montanha”. Cada religião sobe ao topo da montanha por uma encosta. E as encostas são diferentes umas das outras: uma tem neve, outra é árida, outra tem vegetação exuberante; mas, lá em cima, onde o ar é mais puro, todos conhecemos todos. E isso é evidente pela enorme afinidade que existe entre os diferentes textos místicos de todas as tradições da sabedoria. As palavras podem aspirar, no máximo, a gerar afinidade intelectual ou sentimental. O silêncio, por outro lado, dá-nos algo ainda mais bonito e profundo: a comunhão espiritual.

O silêncio alcança-se através da oração e da palavra?
Silêncio e palavra são os dois lados da mesma moeda, o que significa que não são realidades opostas, mas precisamente complementares. Há silêncio para ouvir a palavra, e a palavra verdadeira sempre se abre para um silêncio maior. Não podemos ir para o que somos sem o que somos: não é possível entrar no nosso silêncio interior sem palavras, pois somos palavra. Em muitas tradições meditativas, e, é claro, na cristã, a palavra usada na meditação é conhecida como jaculatório ou mantra, que ajuda ao recolhimento. Normalmente, no nosso interior, reina uma grande confusão, mas uma única palavra é suficiente para nos curar, para nos purificar de tanta conversa e barulho mental. A meditação de que falo é a que no cristianismo é conhecida como uma “oração do coração”.

Os Amigos do Deserto são sucessores dos grandes místicos espanhóis como Teresa de Ávila e João da Cruz?
Não propriamente. Sentimo-nos herdeiros, ainda que modestamente, das hesicastas. O hesicasmo era uma corrente espiritual da Igreja Ortodoxa que, entre os séculos V a IX, praticou a oração da quietude para alcançar a paz interior e a presença de Deus.

A meditação pode mudar o mundo?
Não vejo uma maneira melhor. Ninguém pode dar o que não tem. Se não temos paz interior, dificilmente podemos construir paz social ou externa. Mudar o mundo é um objectivo muito ambicioso. Se realmente nos mudássemos, perceberíamos o enorme poder que isso também significa socialmente. De que outra forma explicar que um homem envolto em panos, chamado Gandhi, foi capaz de expulsar o império britânico de seu país, sozinho?

Como pode um escritor, um homem da palavra, ser apologista do silêncio?
Porque a palavra não existiria sem o silêncio que a precede, a segue e a sustenta. Porque o silêncio não é simplesmente ausência de barulho, mas de ego. Porque se lê em silêncio e o silêncio é necessário para se poder falar e ser escutado. Nunca imaginei que me iria converter, através da palavra, num apologista do silêncio. É um destino infinitamente mais belo do que eu alguma vez poderia ter imaginado. Foi o próprio silêncio que me conduziu a esta missão. E dou graças por ter sabido recebê-la e por estar entregue a ela.

“muito poder e pouco amor”

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“A Cúria é um dos cancros da Igreja”

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Christiana Martins, Expresso 3.agosto.2019

Polémico, desassombrado, Anselmo Borges não se cansa de defender a ideia de uma Igreja mais próxima das origens e aberta a todos. Confrontado com a partida dos monges da Cartuxa de Évora, lamenta o desaparecimento de um espaço de silêncio em Portugal.

Num texto, afirmou que a Igreja tem dupla identidade e foi capaz de gerar Francisco de Assis e Torquemada. Atualmente está mais próxima de Assis ou da Inquisição?

Essa pergunta nem deveria sequer poder ser feita. Se a Igreja quiser ser de Jesus, só pode ser de Assis. A Igreja deve ser o sentido último da existência: Deus enquanto amor. O evangelho é uma notícia boa e a inquisição não é uma boa notícia.

Esta semana foi divulgado que os monges Cartuxos vão sair de Portugal. Saem porque são poucos. É um reflexo da falta de vocações? Com eles parte um espaço de silêncio?

É uma das crises maiores do nosso tempo, marcado pelo ruído, a pressa e por uma razão instrumental. Temos uma profunda crise de valores porque no meio do tsunami de informações vivemos cada vez mais na exterioridade de nós. Corremos o risco da alienação. Já não vamos ao mais íntimo nem apreciamos o silêncio nem o encontro com o mistério a que chamamos Deus, e que está no mais profundo de nós, a voz da consciência. A Cartuxa era um apelo ao silêncio. Com a partida deles fica um vazio, próprio do nosso modo de estar no mundo.

Deixamos de perceber aquela missão de recolhimento?

Não compreendemos mais a utilidade do inútil. O ser humano ascendeu a ser homem, de forma distinta de todos os animais, quando pela primeira vez um rapaz foi à procura de uma flor — que dá perfume sem porquê — para oferecer a quem amava. Para que serve este gesto? Quanto custa? Mas isso é que é o melhor da humanidade: o gratuito. Hoje tudo se vende. É preciso voltar ao Evangelho: não podeis servir a Deus e ao dinheiro, compreendido como um ídolo. E a saída dos monges é sinal desta profunda crise de humanidade.

É também sinal da falta de vocações? Em outubro realiza-se o Sínodo da Amazónia, onde há quem espere uma autorização para a ordenação de homens casados nas regiões mais remotas do planeta. Qual a sua expectativa?

Desde o início do Pontificado de Francisco que tenho anunciado a minha convicção de que vamos assistir, ainda com este Papa, à ordenação de homens casados. E estou convicto de que acontecerá no Sínodo para a Amazónia.

Esta é uma questão que levanta muitas objeções na Igreja e o argumento invocado é que esta exceção poderia ser aceitável em regiões isoladas. O Alentejo, com a falta de vocações, não pode ser considerado uma região remota? Ou é a própria Igreja que se tornou remota dos seus fiéis?

A Igreja está afastada do evangelho. Quando digo Igreja, refiro-me à oficial. Não é preciso reformar a Igreja, mas sim recriá-la, voltar ao projeto inicial. No princípio acreditou-se em Jesus vivente. Foi crucificado porque enfrentou o templo e os sacerdotes da altura. Morreu como um blasfemo e subversivo social e político. Muitos acreditaram na sua mensagem e formaram comunidades de fé e de vida. “Vede como eles se amam”, diziam os pagãos quando olhavam para essas primeiras comunidades. Jesus não deixou sacerdotes; deixou comunidades. Daí a pergunta: porque é que uma mulher cristã não pode presidir à eucaristia, desde que escolhida pela comunidade? Um padre ser casado? E por tempo determinado? O problema da Igreja é esta gigantesca estrutura piramidal com muito poder e pouco amor.

O problema da Igreja é a Cúria?

É um dos cancros da Igreja. É responsável por mais ateus do que Karl Marx, Nietzsche e Freud juntos. A Inquisição, a condenação de Galileu, de Darwin, a misoginia…

Este ano, entre quatro padres ordenados, um era cego. Mas nenhuma mulher. Faz sentido?

Não. Que comunidades temos nós que não são capazes de organizar os seus próprios ministérios? Na Igreja primitiva, os coordenadores não eram impostos de fora, emergiam da própria comunidade. Jesus não queria sacrifícios, mas justiça e misericórdia. Foi sacerdote, mas não no sentido da vítima oferecida a Deus para que este aplaque a sua ira e se reconcilie com a humanidade. Foi sacerdote, como todos os cristãos, no sentido do oferecimento da vida a Deus e uns aos outros. Seja na política, na gestão… Esse é o verdadeiro sacerdócio do Novo Testamento. Deus não precisa de vítimas.

Não receia pelo Sínodo no Brasil atual?

Estou convicto de que vai haver conflitualidade. Há demasiados interesses económicos envolvidos. O Sínodo não vai tocar apenas nos problemas da Igreja, mas também terá uma dimensão ecológica e de preservação dos direitos dos indígenas, temas caros ao Papa Francisco. É mais um ato de coragem do Papa a favor da humanidade.

Portugal deveria ter um papel de destaque neste Sínodo?

Não só Portugal, como também os países de língua oficial portuguesa.