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Caminho sinodal

A propósito do Sínodo que se inicia e que pretende ser uma oportunidade de promover a comunhão, a participação e a missão em Igreja em tempos de necessárias mudanças e novas oportunidades para construir, acima de tudo, a comunidade humana e cristã, sugerimos este artigo do cardeal José Tolentino Mendonça.

Artigo de José Tolentino Mendonça in E, a Revista do Expresso, de 16.10.2021

Está em curso uma experiência nova no catolicismo: neste 17 de outubro, em todas as dioceses do mundo, em simultâneo, inaugura-se um caminho sinodal. Na verdade, é o início de um processo em três etapas, que se desenvolverão entre outubro de 2021 e outubro de 2023: a primeira será diocesana, a segunda organizar-se-á por continentes e a culminar ocorrerá aquela do sínodo da Igreja universal. O tema é o mesmo nas três etapas: “Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”.

A palavra grega synodos é composta por dois termos: a preposição syn, que significa com, conjuntamente; e o substantivo hodos, que se traduz como caminho. O sínodo seria assim um caminho percorrido em conjunto. Ora, se isso é alguma coisa inerente à natureza da própria comunidade eclesial (por exemplo, a voz autorizada de São João Crisóstomo dizia que Igreja e sínodo são expressões equivalentes), a verdade é que a dinâmica sinodal pretende ser também um passo em frente, abrindo um amplo e inovador processo de escuta, participação e discernimento sobre o presente e o futuro.

A instituição contemporânea do sínodo deve a sua origem à redescoberta da dimensão colegial operada pelo Concílio Vaticano II. De facto, foi na reta final do Concílio que o Papa Paulo VI criou o “sínodo dos bispos”, cuja primeira assembleia decorreu em 1967. Se daí em diante todos os papas valorizaram o recurso ao sínodo (João Paulo II convocou dezena e meia, Bento XVI cinco), Francisco tem-se mostrado particularmente envolvido na intensificação da sinodalidade. Para compreender esta especial aposta do Pontífice, a sua biografia pode ser útil, pois os episcopados da América Latina destacam-se precisamente pelo ritmo sinodal que adotaram e que as importantes assembleias-gerais de Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007) documentam com vivacidade. Por exemplo, o então arcebispo de Buenos Aires, de nome Jorge Bergoglio, presidiu à comissão de redação do documento final de Aparecida, e isso realçou a sua visibilidade no contexto da Igreja.

Desde o início do seu pontificado, o Papa tem sublinhado com profecia e realismo dois elementos: o primeiro é que o caminho sinodal deve plasmar melhor a forma de ser Igreja neste terceiro milénio; o segundo é que — e são suas as palavras — “caminhar conjuntamente (leigos, pastores, bispo de Roma) é um conceito simples de verbalizar mas não tão fácil de colocar em prática”. Os obstáculos foram resumidos recentemente por Francisco como um aviso à navegação: existe o risco do formalismo (patente na tentação de construir um evento de fachada em vez de inaugurar instrumentos e estruturas de diálogo que relancem a participação dos leigos); o risco do intelectualismo (que reduziria o sínodo a uma espécie de grupo de trabalho especializado, descolado da realidade e das preocupações concretas); e o risco do imobilismo (que repete de forma estafada, como desculpa, o “sempre foi assim”).

Mas, a par dos obstáculos, há também reais oportunidades que se abrem. O caminho sinodal pode tornar a Igreja uma comunidade de escuta e de vizinhança, capaz de espelhar a participação, a inclusão e o cuidado, deixando-se converter ela própria pelo estilo de Deus. Isto tem mais hipóteses de acontecer, acredita Francisco, se a Igreja não for ocasionalmente sinodal, mas aceitar caminhar para uma Igreja estruturalmente sinodal. E uma citação que este mês de outubro tem reaparecido é a de Yves Congar, um dos teólogos-chave do Concílio Vaticano II: “Não precisamos de uma outra Igreja, mas de uma Igreja diferente.”

Um caminho a percorrer

Uma reflexão escrita pela teóloga Nancy Small a propósito da tão comentada passagem da Carta de São Paulo aos Efésios, proclamada na eucaristia do passado domingo, e que nos leva a partilhar a necessidade de percorrer um novo caminho na descoberta, no entendimento e no acolhimento da sociedade do nosso tempo. Igualmente importante é sempre o diálogo entre diferentes opiniões e, acima de tudo, que este diálogo seja sempre construído tendo por base o amor, a aceitação e a vontade de entender o outro, não deixando espaço para a crítica sem fundamento e não descontextualizando as palavras que são proferidas.

Depois de proclamar a instrução de S. Paulo para nos revestirmos «de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência» na sua carta aos Colossenses, o leitor leu: «Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor» (Colossenses 3, 18).

Há anos que ouço essas palavras proclamadas numa igreja. Desta vez, a mensagem pareceu ainda mais ofensiva do que no passado. Durante meses, ouvimos uma série de mulheres a falar sobre assédio sexual, abuso e condutas impróprias às mãos de homens poderosos. Também ouvimos as mulheres a dizer «acabou o tempo», o que significa que chegou o momento em que esses comportamentos já não são tolerados e as mulheres deixaram de ficar em silêncio. Ouvir uma leitura das Escrituras que apoia a submissão das mulheres neste contexto parecia seriamente errado.

O dicionário define «submeter» como «pôr debaixo de», «tornar dependente», «sujeitar; obrigar; subjugar». Instruir as esposas a serem submissas aos seus maridos perpetua a ideia de que as mulheres devem ser obedientes aos homens e contribui para uma cultura do domínio masculino. Este tipo de pensamento abre uma caixa de Pandora para a subjugação das mulheres numa escala mais ampla. Com efeito, se as mulheres são consideradas inferiores ao seu parceiro no casamento, certamente serão tratadas como inferiores na sociedade em geral.

As palavras de S. Paulo foram escritas num tempo em que as mulheres eram consideradas inferiores aos homens. Mas os tempos mudaram. Porque é que, hoje em dia, a Igreja católica ainda proclama leituras das Escrituras que suportam um entendimento das mulheres como submissas? Se se ler todo o terceiro capítulo da carta aos Colossenses, observar-se-á que contém instruções para os escravos, dizendo: «Escravos, obedeçam em tudo aos vossos mestres humanos» (3, 22). Não ouvimos esta parte proclamada no ambão porque não está incluída no lecionário. Se a ouvíssemos, reconheceríamos que a leitura está desatualizada. Poderíamos objetar ao percebermos que a Igreja estaria a aceitar a escravidão quando se proclamasse um trecho da Escritura que diz aos escravos como se hão de comportar.

Então por que é que o lecionário inclui partes das Escrituras sobre esposas que também estão desatualizadas e são objetáveis? A submissão das mulheres no contexto do casamento é inconsistente com o ensino da Igreja e a prática pastoral. O Catecismo da Igreja católica refere-se ao casamento como uma parceria entre um homem e uma mulher e fala de amor mútuo (1602, 1604). A bênção nupcial lida durante o sacramento do Matrimónio reza: «Confie nela o coração do seu marido, honrando-a como companheira igual em dignidade». O Papa Francisco desenvolve ainda mais esta mensagem de amor mútuo. Na sua exortação apostólica Amoris laetitia refere-se ao amor conjugal como «uma união que tem todas as características duma boa amizade: busca do bem do outro, reciprocidade, intimidade, ternura, estabilidade e uma semelhança entre os amigos que se vai construindo com a vida partilhada». No casamento «partilha-se tudo (…) sempre no mútuo respeito». Escreve Francisco: «O amor confia, deixa em liberdade, renuncia a controlar tudo, a possuir, a dominar. Esta liberdade, que possibilita espaços de autonomia, (…) consente que a relação se enriqueça».

Neste género de amor não há lugar para a submissão. A compreensão que o Papa tem do amor como uma força que não controla, possui ou domina é uma mensagem extremamente necessária na Igreja e na sociedade hoje. Este género de amor no contexto do casamento apoia a igualdade entre os cônjuges e encoraja o crescimento individualmente e em conjunto. Este género de amor que enriquece e expande os relacionamentos promove a cura e assegura o poder de transformar.

Temos um longo caminho a percorrer para mudar a nossa cultura de uma perspetiva em que a má conduta sexual contra as mulheres é generalizada e tolerada para uma cultura em que as mulheres são tratadas com dignidade e respeito. A Igreja tem um papel importante a desempenhar na realização desta transformação. Podemos dar um passo simples e no entanto substancial nessa direção ao simplesmente não proclamar textos da Escritura que submetem as mulheres. Melhor ainda, vamos remover esses textos dos nossos lecionários.

Uma espécie de milagre

José Tolentino Mendonça, E, Expresso, 17.12.2016

Frederico Lourenço é uma espécie de milagre. E continua a sê-lo depois de recordarmos a geografia familiar donde provém: filho de M.S. Lourenço, um dos intelectuais portugueses mais excêntricos e fascinantes da última metade do nosso século XX; afilhado dileto de João Bénard da Costa; crescido entre uma tribo de criadores, melómanos de ouvido absoluto, curiosos vorazes e viajados; maturado nessa elite culta de espíritos disponíveis, inclinados para improváveis aventuras de
liberdade, com um balanço constante e apaixonado entre artes, mística e política. Um berço desses tanto pode gerar genialidade como inaptidão completa. Frederico Lourenço é um lídimo herdeiro, claro, mas é também, como se pode imaginar, um admirável lutador, um self-made man, umsobrevivente.

Frederico Lourenço é uma espécie de milagre no contexto português. Pense-se no que ele teve de contrariar para entregar-se a empresas tão desproporcionadas, na ambição e no brilho, empresas no fundo tão humílimas e necessárias, como traduzir sem perder o fôlego o cancioneiro homérico, uma parte da lírica grega e agora adentrar-se no mare magnum
que é o repositório bíblico. E realizar isso nas condições possíveis em Portugal, onde a erosão de uma área disciplinar fundamental como a dos estudos clássicos parece um desastre em vias de consumar-se. Certamente é fantástico aquilo que António Barreto sublinhou em nome do júri do Prémio Pessoa que agora lhe foi atribuído, e de que ele é inteiramente merecedor: “Frederico Lourenço é responsável por um fenómeno raro: tornou a ‘Odisseia’ e a ‘Ilíada’ best-sellers entre nós.” Mas como se faria outra justiça ao trabalho do nosso miglior fabbro se, por exemplo, as edições dessas obras pudessem ser ao mesmo tempo best-sellers e bilingues como noutras paragens? Ninguém como Frederico Lourenço lamenta que “a língua de Homero, Platão e do Novo Testamento se tenha tornado, em Portugal, aquilo que em três mil anos de história nunca chegou verdadeiramente a ser: uma língua morta”. Contudo, ele não desiste. Dá o seu melhor. Dá-nos chão. Amplia-nos. Transcende-nos.

Frederico Lourenço é, para quem quiser ver, um milagre em sentido absoluto. Em “Presenças Reais. As Artes do Sentido” (Presença, 1993), George Steiner propõe um território utópico: em vez da cidade dos comentadores, que nos curto-circuitam na tagarelice e na obsidiante espetacularidade, deveria antes emergir “uma cidade de pintores, poetas, compositores, coreógrafos, uma cidade de arte, de música ou de dança, tanto no espaço público como nas universidades”. Uma sociedade de intérpretes, de protagonistas que atravessam o ordálio de fogo da experiência, mais do que o grémio de críticos e analistas que se mantêm sempre a salvo. Ora, como lembra Steiner mais adiante, se a alguma arte se pode chamar interpretação é à tradução, inclusive na sua etimologia. E concretiza: “Não há estudo crítico da inspiração e dos limites do barroco que possa competir com as traduções do castelhano de São João da Cruz feitas por Roy Campbell. Nem nenhuma crítica literária poderá educar o nosso ouvido interior para as transmutações da música do sentido da língua inglesa melhor do que o faz a leitura das sucessivas versões de Homero nas traduções de Chapman, Hobbes, Cowper, Pope, Shelley, T. E. Lawrence e Cristopher Logue.” O que devemos a Frederico Lourenço? Apetece responder com as palavras que aqui George Steiner coloca à nossa disposição: ele educa o nosso ouvido interior para as transmutações da música do sentido. É nessa linha que se deve ler a explicação que Frederico Lourenço dá do seu mester em “Grécia Revisitada” (Cotovia, 2004): “Quando me perguntam a profissão e eu digo ‘professor de grego’, a reação é invariável: ‘Isto serve para quê?’ Houve tempos em que dei por mim a responder “não serve para nada”. Mas agora estou absolutamente convicto da seguinte resposta: ‘Serve para tudo.’” Continuar a ler Uma espécie de milagre