Arquivo da categoria: Jorge

Um texto de gratidão

Um texto de gratidão. A todos, por todos e para todos. O que vivemos esta semana contrastou com as intempéries climatéricas que têm assolado o nosso país. Enquanto no exterior temos enfrentado vento e chuva, no interior da nossa Comunidade fomos alegria e partilha. Como tantas vezes temos dito, este contraste não acontece por acaso. Uma vida com significado não é uma vida ao acaso, ela acontece para ser olhada e acontecida em nós e assim assumida na sua totalidade. Numa semana de memórias e de saudade, de percalços e de ausências, escolhemos não habitar nessa zona de perda e dar o salto, simultaneamente confiante e imprevisível, que nos leva ao outro lado, ao espaço da alegria, da dor que é trabalhada para dar fruto, da comunhão de vida com quem connosco caminha.

No dia 1 de novembro, lembramos a vida do Jorge nas nossas vidas numa festa que, para nós cristãos, é a maior de todas – a Eucaristia. A festa que o Jorge gostaria que lhe fizéssemos! A festa do encontro, da partilha, das palavras cantadas, da música tocada, dos abraços e dos braços no ar, na igreja que foi o seu coração durante a sua vida toda. Este é nosso lugar de pertença, de crescimento, de doação. “Esta é a geração dos que procuram a vossa face, Senhor”, cantávamos nesse dia no salmo, uma das mais belas músicas feitas pelo Jorge. Esta geração somos nós, os que seguimos. Aceitando os obstáculos e dando as mãos para os enfrentar, cantando e rindo quando tantas vezes as lágrimas nos caem. Que alegria sermos esta geração que caminha em comunidade, tal como sempre foi o desejo do Jorge!

Na quinta-feira, celebramos o 2.º aniversário do “Encontro em TI”, a nossa oração comunitária mensal na Igreja Matriz. Um sonho nosso antigo, este o de levar a nossa forma de orar para a comunidade e, assim, rezarmos juntos com a música, as palavras, o silêncio. No final, levamos esta partilha para a volta da mesa com quem, numa noite ventosa, se juntou a nós. E que convívio tão genuíno, tão simples e tão agradável, como é tudo aquilo que verdadeiramente importa!

Este é um texto de profunda gratidão. Como diria o Jorge, esta semana foi “uma riqueza”! Obrigada a vós que caminhais connosco nesta Estrada Clara! Seguimos juntos!

Celebramos a VIDA!

Hoje celebramos a VIDA do Jorge, não a morte. Festejemos e cantemos! Se possível, dancemos também e abracemo-nos em risos cheios da alegria que nasce de quem se sabe irmão. O Jorge é festa em nós e hoje somos nós essa festa que ele continua a fazer nas nossas vidas. Por isso, hoje celebramos!

Celebramos a vida do Jorge quando continuamos a ensaiar, a querer colocar as nossas vozes no sítio correto, a confiar que cada Eucaristia cantada se multiplica em Amor doado.

Celebramos a vida do Jorge quando pelas nossas palavras e gestos anunciamos um Deus que nos ama e nos faz ser aquela luz que ilumina a escuridão e que dela nos salva.

Celebramos a vida do Jorge quando continuamos a fazer das nossas fragilidades força, das nossas lágrimas risos, dos nossos medos coragem.

Celebramos a vida do Jorge quando somos mais do que os horários, do que as carreiras, do que as desculpas usadas para não estar, não ir, não fazer.

Celebramos a vida do Jorge quando o conjugamos neste tempo presente que é o indicativo de um caminho comunitário de uma vida orante e pensante.

Celebramos a vida do Jorge quando nos continuamos a juntar em volta da mesa para comermos juntos, para partilharmos histórias, para sonharmos projetos.

Celebramos a vida do Jorge quando somos casa uns para os outros, quando continuamos a conversar durante horas sobre o que nos inquieta e nos incomoda, quando pertencemos à vida uns dos outros.

Celebramos a vida do Jorge quando continuamos a escolher a confiança e o acolhimento mesmo quando são opções tão desafiantes.

Celebramos a vida do Jorge porque ele está vivo! Vivo em mim, em ti! É esta a nossa escolha, mais forte do que qualquer morte, mais poderosa do que qualquer dor, mais vitoriosa do que qualquer separação.

Por isso, hoje há festa! Vamos rir e dizer aquelas piadas nossas e tão cheias do que somos. Afinemos as guitarras, preparemos as vozes, usemos roupas bonitas, dancemos e batamos palmas. A festa que o Jorge queria que lhe fizéssemos é aquela que celebramos juntos como comunidade orante. Aquela festa que foi a sua vida toda durante mais de trinta anos, na sua paróquia. Então, venham celebrar connosco! Hoje, às 19h, na Matriz! Viva o Jorge!

Ana

Música, viagens e estrelas

Viagens pela JMJ, Lisboa 2013

As JMJs são música e canções. Por Lisboa, espalharam-se palcos onde muitos grupos cristãos levaram as suas melodias, testemunhando a fé através da arte. E o hino destas JMJ cantado a tantas vozes, com as palavras e a música perfeitas, motivando cada um a partir ao encontro da VIDA.

Nesta dimensão musical da JMJ, partilho aqui dois momentos especiais, que foram para nós sinais da certeza de que o Amor que vivemos nesta dimensão terrena é eterno.

Na cerimónia de acolhimento ao Papa, quando os símbolos das JMJ eram levados ao palco, o @tiagobettencourt cantou a “Viagem”. Uma canção poderosa, de caminho, de aceitação das partidas, de esperança de reencontros numa voz com sabor a casa. Um hino à eternidade! E nada é um acaso! Dias antes, publicávamos, como de costume no nosso site, o texto da reflexão mensal. Eu já tinha um texto meu preparado, mas algo me lembrou que o Jorge tinha escrito, já em 2008, um texto intitulado “Viagem” sobre o simbolismo da viagem que é a Vida. Uma vez que dali a dias partiríamos para Lisboa, entendi ser uma recordação bonita colocar as palavras dele a acompanharem-nos no caminho. E assim foi! Por isso, quando dias depois ouvimos esta canção “Viagem” naquele ambiente de luz, logo os nossos corações se encheram de comoção pois acreditamos que as nossas energias se ligam e se fundem e a presença de quem amamos faz-se sempre inexplicavelmente presente e continua viva em nós.

Na vigília com o Papa, ninguém ficou indiferente quando a doce @carminho cantou “Estrela”. Quando a vimos naquele palco magistral, numa noite tão cheia e tão serena, o nosso coração voltou a encher-se de alegria, aquela alegria que só brota de quem entende que a vida acontece nestes detalhes aparentemente insignificantes, mas que são tudo. E isto porque esta música “Estrela” tem sido a nossa companhia nestes dois últimos anos no “Encontro em TI”, o nosso momento de oração mensal na Igreja da nossa paróquia, esse que foi um projeto antigo e muito desejado pelo Jorge.

A música. Nós. A vida a dar-nos sinais. E ele, com Ele, a falar-nos através das músicas. E sempre connosco, a olhar-nos. Que felizes somos!

Ana

Reflexão para o mês de agosto de 2023

Viagem

Texto de Jorge Ferreira, Comunidade Estrada Clara (este texto foi escrito pelo Jorge em julho de 2008)

Cada um de nós tem de fazer da sua vida uma viagem. E, muitas vezes, para nos descobrirmos e nos conhecermos, há momentos em que esta viagem tem de ser feita na solidão, na relação connosco próprios. Sabemos que para cada pessoa há uma viagem distinta a fazer, um caminho distinto a percorrer. A pessoas diferentes correspondem viagens e caminhos diferentes. Não podemos ter a vida que os outros têm nem eles podem ter a nossa. Somos únicos. Ninguém pode escolher por nós nem nós por os outros. A escolha é sempre nossa. Muitas vezes cedemos à tentação de nos deixarmos ir na corrente, de sermos cópias do que outros já são. Comportamo-nos como os outros para mais facilmente nos sentirmos aceites e não sermos alvo fácil da avaliação dos outros que, quase sempre, é atroz.

Percorrer esta vida sem respeitar quem eu sou significa não andar, não evoluir, estar parado. Parece-me que todos experimentam, numa ou noutra vez, ser diferente dos outros. Uns têm sucesso, evoluem e distinguem-se. Mas à maior parte das pessoas acontece não ter muito êxito na primeira experiência e desistem porque pensavam que se pode obter tudo logo na primeira investida. “É a vida!”, “Não se pode seguir os sonhos!”, “Tens de ser realista.”, “Esse curso não tem saída nenhuma!”, “Não percas tempo com o teu grupo de jovens, agora tens de ter uma vida séria.”, são apenas alguns exemplos ditos por quem passou a pertencer à maioria, à normalidade. Por aqueles que se inscrevem no clube Dia-a-dia, procuram outros iguais a eles, gritam pelo mesmo clube, passam a gostar de coisas que não gostavam, comem o que nem sonhavam existir e olham para as vidas dos outros como meta a alcançar, idolatrando-as. As suas próprias vidas começam a desaparecer. Vivem, mas não vivem. Entre festas e comida, empregos e carreiras, férias e filhos, lá vão andando e cumprem apenas os requisitos mínimos, esquecendo-se da dádiva de uma Vida maior.

Por isso, é-se diferente quando se decide caminhar, quando decidimos saber mais e melhor. É-se diferente quando aceitamos que não podemos ter tudo, mas o que temos, podemos capitalizar em energias renovadoras. É-se diferente quando aceitamos que não podemos ser como os outros, mas podemos valorizar os recursos que temos e começar daí. E ser diferente implica também aceitar que a nossa viagem, em certos momentos, pode ter de ser feita, muitas vezes, no silêncio e na solidão. Sim, sozinhos. Porque num dado momento podemos ter de perder um amigo que não escolheu o mesmo curso que eu, mas eu tenho de continuar. Ou porque não há ninguém que queira fazer comigo uma dieta para me dar força, mas eu tenho de a fazer. Ou porque ninguém quer ir passear comigo, mas posso ir eu. Estudar é um ato solitário. A solidão não é uma morte, mas um estado por vezes necessário ao ato do crescimento. E é deste tipo de solidão que todos fogem. Solidão que nos ensina a refletir e ser responsável. Ter medo deste tipo de solidão implica a pouca reflexão e leva à prática de atos instintivos. A solidão pode ser um momento de redirecionar a nossa vida. Abraão e Moisés ouviram Deus falar-lhes na solidão. Os relatos bíblicos apresentam-nos, cada um deles, em tempos diferentes, na busca de um sentido para a vida, refletindo sobre o seu verdadeiro significado. Abraão, na sua solidão, descobre que Deus não pode estar sujeito às disposições religiosas locais, mas que, a existir, deve ser imenso e estar em toda a parte e ser Um e único para todos os homens. Moisés, na sua solidão, descobre que Deus lhe confia uma missão, a de libertar os seus irmãos que sofrem no Egipto. E descobre que não pode ficar indiferente a esse chamamento. Verdadeiros milagres da solidão. Verdadeiros milagres para a história e para cada um de nós. A ação criadora tem origem na solidão, na quietude. Muitas decisões e mudanças nascem nestes momentos. É certo que o homem é um ser social e com os outros se realiza, mas o que acontece àquela vida que nunca para para refletir e ponderar? O que acontece a uma vida que não tem momentos calmos de contemplação? O que acontece a uma vida que não contempla o sagrado?

Gosto particularmente dos dias a seguir às festas. A seguir ao Natal, a seguir à Páscoa, a seguir às festas do futebol, às festas populares, ao S. Pedro, a seguir às férias. Gosto porque sinto que a vida continua indiferente às festas e enfeites dos homens. Festas, muitas vezes, vividas sem sentido, vividas só para o exterior, para mostrar que se está alegre e feliz. Numa sociedade cheia de barulho e apelos ruidosos, precisamos de encontrar um equilíbrio que nos dê serenidade, que nos faça por a render os nossos dons. Onde está o quadro que foi pintado no meio duma multidão? Onde está o livro que foi escrito no meio do barulho? Onde está a música escrita no meio de uma festa? Não existem. Onde estão as vidas feitas só de barulhos, de shoppings, de modas, de ídolos? Estão vazias.

É no silêncio que tantas vezes descobrimos os maiores significados da nossa vida. Tantos, que há coisas que nem sabemos revelar aos outros. Tão particular o que descobrimos, tão íntima a vivência que, por vezes, não conseguimos partilhar. E guardamos para nós. Ou para dizer noutra ocasião. E crescemos nesse momento. O silêncio não é um buraco onde tudo desaparece. É uma oportunidade de crescimento. O silêncio e a interioridade obrigam-nos a enfrentar e resolver os problemas que temos.

Nas nossas viagens, depois do entusiasmo inicial, depois de cantarmos, depois de conversarmos, de rirmos bem alto, há momentos em que todos se calam e se acalmam e simplesmente pensam. Momentos quietos, mas nos quais ninguém dorme. Momentos em que todos olham pela janela. Momentos em que vemos os pinheiros a andar para trás. E nós para a frente. A natureza tem este poder: o de chamar cada um de nós para aquela solidão preenchida, para o silêncio, para a interioridade, para esse lugar único onde cada um de nós consegue descobrir verdadeiramente quem é. Aquela tal viagem. A viagem.

O Jorge faz anos!

O Jorge faz anos. Ele é toda a teimosia encarnada num metro e oitenta de altura, as gargalhadas vivas e duradouras espalhadas num corpo sempre moreno, o rosto barbudo e sério a encarar, com respeito, a grandiosidade da vida que acontece.

O Jorge faz anos. Ele é a música plena que envolve, as palavras cantadas e partilhadas em tantas e tantas vozes diferentes, a inquietação constante pelas notas a descobrir em cada canção.

O Jorge faz anos. Ele é a sensibilidade de um abraço forte que é sempre casa que acolhe, a ousadia de viver constantemente em alturas que ninguém suporta, a sorte grande deste encontro eterno que é o nosso.

O Jorge faz anos. Ele é caminho desafiante por entre subidas às altas montanhas e descidas até às águas frescas, uma conversa longa em altas horas, uma evangelização atrativa sem medos nem hesitações.

O Jorge faz anos. Ele é o verbo ir e seguir sem olhar para trás, o encantamento do silêncio no meio do ruído e da agitação, a procura incessante das estrelas mais brilhantes nas noites frias em São João.

O Jorge faz anos. Ele é a exigência de uma vida com sentido, a negação das futilidades ocas, a mão que se estende para que caminhemos à descoberta de quem somos.

O Jorge faz anos. Ele é o ataque de riso incontrolável nas nossas tantas viagens de carro, a psicologia humana e empática espiritualizada, todos os tantos livros aconchegados nas nossas estantes.

O Jorge faz anos. Ele é o azul de todas as roupas, as caminhadas pensativas dos entardeceres de Verão, as plantas que vivem em vasos mil.

O Jorge faz anos. Ele é o canto das crianças nas festas grandes das comunhões da Paróquia, as danças alegres dos nossos musicais nos palcos, os poemas profundos e interpelantes do seu querido Torga.

O Jorge faz anos. E hoje é um dia feliz. Muito feliz. Um dia de saudades inquietantes, mas de muito amor sereno a transbordar. Sempre. Sempre o amor que nos juntou, que se multiplica e que nos continua a levar por esta nossa Estrada Clara. Por tudo isto, seguimos. O maior presente deste aniversário fomos nós que o recebemos! Então, agora, é tempo de preparar a festa! Vamos! Viva a Vida! A Vida toda para toda a Vida!

Ana

No primeiro dia…

Reflexão para o mês de novembro de 2022

Vaidade das riquezas

Texto de Jorge Ferreira, Comunidade Estrada Clara (este texto foi escrito pelo Jorge em novembro de 2008)

“O homem que vive na opulência não permanecerá. Esta é a sorte dos que confiam em si mesmos. Não te preocupes, se alguém enriquece, se aumenta a fortuna da sua casa. Quando morrer, nada levará consigo; a sua fortuna não há-de acompanhá-lo.”  Salmo 49

Em tempo de crise, as palavras proféticas da Bíblia gritam-nos com mais força. Crise que não é uma doença nem uma catástrofe natural diante das quais somos quase impotentes, mas uma crise provocada por homens. Homens que sem escrúpulos fazem mal aos seus semelhantes. Há dias, na SIC Notícias, um comentador dizia que a irresponsabilidade dos especuladores da bolsa estava ao nível da irresponsabilidade de Hitler, Mao Tse ou Pol Pot. Homens estes que queriam ter mais dinheiro e mais poder, mais dinheiro e mais lucro, mais lucro e mais dinheiro, mais dinheiro e mais dinheiro. Perderam. E com eles todos. E ao que parece todo o mundo, em efeito dominó, como dizem os economistas.

Penso que toda esta busca incessante e incansável que se faz pelo dinheiro é uma ideia confusa que se generalizou em todas as pessoas de que o dinheiro traz felicidade ou nos põe perto dela. Querer ter mais dinheiro é normal e saudável. Querer ter muito dinheiro, acumular riqueza, possuir tudo à volta até onde o olhar alcança é doença. A árvore do fruto proibido do Éden lembra-nos isso: não nos é dado ter tudo nem saber tudo. O homem não soube ver quão maravilhoso era tudo à volta e preferiu aquele fruto. Hoje faz-se o mesmo. A felicidade não vem de termos mais dinheiro, mas vem na medida em que nos realizamos. Não valemos pelo que temos dentro dos bolsos, mas pelo que temos dentro da cabeça. Somos felizes na medida em que percebemos o que se passa à nossa volta, na medida em que compreendemos os nossos irmãos, os nossos amigos, o mundo, o cosmos. Não se chega a este conhecimento preocupados em ganhar dinheiro nem a pensar no carro que vamos comprar amanhã. A felicidade é um estado sereno. Quieto. Calmo. A felicidade não faz barulho. Não é um mero divertimento. É um estado interior. Parece-me que a felicidade estará ao nível daquilo a Abraham Maslow chama de autorrealização. Na teoria da hierarquia das necessidades humanas que ele apresenta em forma de pirâmide com cinco níveis, a autorrealização é o nível mais elevado e “depende da realização e cumprimentos máximos dos nossos potenciais, talentos e capacidades. Se uma pessoa não estiver autorrealizada, ficará impaciente, frustrada e descontente”. Assim estava o Jovem rico que Jesus encontrou um dia. Apesar da sua grande fortuna e de cumprir todos os mandamentos, como dizia, sentia-se insatisfeito. Jesus disse-lhe como deveria alcançar a felicidade, mas ele não foi capaz de a encontrar “porque possuía muitos bens”. Diz-nos também Maslow que “independentemente das nossas ocupações e interesses podemos maximizar as habilidades pessoais e atingir o desenvolvimento completo da personalidade. A autorrealização não é limitada a celebridades intelectuais e criativas, como os músicos, artistas, astrofísicos. O importante é desenvolver os seus próprios potenciais no mais alto nível possível, qualquer que seja a missão escolhida”. Uma das diversas condições para que possamos sentirmo-nos realizados que mais aprecio é esta: “Estar livre de restrições impostas pela sociedade e por nós mesmos”. Quais são as restrições que a sociedade nos impõe? Como é que eu me livro destas restrições? Como é que eu descubro que tenho uma vontade, um gosto, uma ideia se estou obcecado pela moda, pela fama, pelas tecnologias, pelo dinheiro, pelo bem-estar material? E já agora: o que é que me faz rir? Rio-me com aquilo que os outros se riem? O que é que de mim quero mostrar aos outros? O que é que os outros vêm em mim? Conhecermo-nos e pensarmo-nos chama a felicidade a nós. Ter um telemóvel que a sociedade nos impõe não chama. Nas Forças de Assinatura de Martin Seligman não é mencionado o dinheiro, ter muito ou pouco. Pelo contrário ter muito dinheiro é normalmente sinal de muitas preocupações. “A boa vida consiste em obter a felicidade através da utilização das suas forças de assinatura nos principais domínios da vida. Uma vida com significado adiciona mais um componente: utilizar estas mesmas forças para promover o conhecimento, o poder ou a bondade.”(Martim Seligman). A descoberta das nossas forças e a sua utilização no dia-a-dia pressupõem estarmos livres de restrições, regras e modelos que nada têm a ver connosco, nada nos acrescentam e nada valem. Maslow diz que a autorrealização exige coragem. Eu digo que é preciso coragem para, por vezes, tomarmos certas decisões, tais como abandonarmos um curso que não nos interessa, um(a) namorado(a) que não nos completa, a comida que nos faz mal, o telemóvel, as modas, as manias, as mentiras, a cama, a televisão, o trânsito, o computador se preciso for para sermos nós mesmos, para sermos felizes. “O processo de autorrealização exige esforço, disciplina e autocontrole. Assim, para muitas pessoas pode parecer mais fácil e seguro aceitar a vida como ela é, em vez de procurar novos desafios. As pessoas realizadas testam-se a si mesmas constantemente, abandonando rotinas seguras, comportamentos e atitudes familiares”. (Maslow)

 “Estou interessada em fazer filmes que desafiem as pessoas a ser protagonistas das suas próprias vidas.” disse Susan Sarandon há dias de passagem por Lisboa. Ela descobriu que todos podemos conduzir e nossa vida. Ela não acha que só os artistas ou pessoas com dinheiro o podem fazer. Por fim, podemos especular se os especuladores da bolsa que especularam demais e com o dinheiro dos outros se sentirão felizes e realizados. Ou especulados!

“Uma vida cheia de significado é aquela que se junta a algo maior do que nós” (Martim Seligman)

Eu sei

Lembramos hoje a partida do Jorge. Um dia agridoce, um misto de gratidão e dor. Não sei porque é que o Jorge morreu. Com tantos projetos por concretizar. Com metade da vida por viver. Com tantas pessoas que o queriam continuar a amar. Com tantas músicas por fazer e tantas conversas para ter. Com tanto ainda para nos rirmos juntos. Não sei porque é que o Jorge morreu. Mas sei o mais importante! Sei bem porque é que o Jorge viveu. Viveu para nos anunciar que é possível uma vida diferente. Viveu para nos fazer cantar mais e melhor. Viveu para nos mostrar um modo livre, sereno e pleno de acreditar num Deus que é só Amor. Viveu para que a música fosse para nós um meio de anunciar que somos feitos de infinito. Viveu para nos encorajar a saltar em lagoas frias, para aprendermos a contemplar as estrelas e para descobrirmos que há sempre caminhos novos a seguir. Viveu para nos fazer escolher a melhor parte, aquela que só quem vê com o coração conhece bem. Viveu para nos unir numa comunidade orante e pensante. Viveu para nos confrontar com os medos que atrapalham a nossa essência e para nos mostrar que somos muito mais felizes quando nos despojamos do nosso egoísmo e nos focamos uns nos outros. Viveu para desconstruir as nossas ideias pré-concebidas em relação a tantos temas da vida que nos impedem de sermos mais pessoas. Viveu para nos desinstalar da apatia e daquelas vidas que são futilidade e vazias de divindade. O Jorge viveu para nós. Foi a sua escolha. E para sermos nós, agora, nos nossos dias, a continuar este caminho há muito iniciado. Por isso, o que nos tem acontecido, nestes dois últimos anos, também tem sido, como o Jorge diria, “uma riqueza”! Mesmo que não seja como idealizamos, mesmo que seja diferente do que julgávamos que iria ser. Um caminho claro, bonito, edificante porque ele, agora com Ele, caminha à nossa frente. E, afinal, tem sido tudo como sempre foi! O Jorge continua a ser o primeiro, aquele que ia e vai sempre à frente. “Como é, vindes ou não?”, perguntava ele tantas vezes. Sim, Jorge, nós vamos! Nós seguimos aqui, juntos e com tanta gente boa a caminhar connosco nesta Estrada Clara até que, um dia, nos encontraremos juntos num abraço amigo!

Ana

Nasces hoje mais uma vez!

Nascemos e jamais morreremos!

O meu mantra diário, especialmente nos dias, digamos, mais desafiadores. Nos dias em que as lembranças se tornam mais fortes, em que as memórias aparecem abruptamente, em que a dor de ti diz presente. Desafiadora tem sido a vida! O fazer de cada dia uma escolha de gratidão. Jorge, o que tua vida nos pede é isto, viver! Aproveitar cada partilha, fazer diferente, pensar no infinito. Cuidar de quem está à nossa volta. Escolher fazer um caminho que não é sinónimo de facilidade. E nós fomos privilegiados por caminharmos contigo. E continuamos a sê-lo por seguirmos juntos neste mesmo caminho, neste projeto de vida, nesta nossa Estrada Clara. E assim tu continuas a nascer nas músicas, nos livros, nos nossos gestos, nos olhares, nos silêncios. Nessa dimensão eterna onde tu estás, continuas a olhar por cada um de nós. Tanto de belo nos tem acontecido, só pode ser por influência tua. Tantas experiências bonitas temos vivido, tantas palavras edificadoras têm vindo ao nosso encontro, tantos abraços fortes nos têm oferecido. Só podes ser tu. Tantas novidades luminosas, tantos encontros a surgirem, tanta energia boa a multiplicar-se. És tu! Aqui! É por isso que quando em mim há a luta entre a tristeza de não te ter em casa à minha espera (“Luísa, Luisinha, você já veio?”) e a alegria de ter construído contigo a minha vida, procuro sempre que só a esperança prevaleça. A esperança de fazer de cada dia um reflexo do tanto que aprendi contigo. A esperança de que esta Comunidade Estrada Clara faça a diferença e seja um projeto de vida maior do que nós próprios. A esperança de que, num dia (muito distante, ainda há muito para fazer e aprender aqui!) quando nos encontrarmos, não haverá mais esta dor. Só paz. Muita, muita luz. E o tempo eterno. Risos de aleluia intermináveis. Abraços demorados. O silêncio. As pulseiras nos braços e os anéis. E o azul, sempre o azul. O arrozinho joia! As conversas longas sobre a essência da vida ou máquinas de lavar. Muita música em tonalidades altíssimas. As tuas plantinhas. Um banco em madeira. Os passeios de fim de tarde. Um campo para cultivar. E o teu bolo de “cinoira”. Parabéns a ti, Jorge! Nasces hoje mais uma vez!

Uma Força que nos leva

Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

O jornalista Luís Osório publicou, no seu mural de Facebook, um texto sobre o acidente que vitimou, no sábado passado, alguns dos ocupantes de um autocarro que seguia na A1 a caminho de Fátima. Não é um texto sobre as circunstâncias ou os porquês do acidente. Não é um texto sobre a finitude da vida humana ou sobre a efemeridade da nossa passagem terrena. Não é um texto sobre morte. É antes uma reflexão sobre como no meio da morte a vida continua a fluir, sobre como é possível viver a Força quando tudo à nossa volta parece ruir. É ainda um texto sobre a Páscoa, sobre passagem de testemunho. É um hino de ação de graças. É um quadro para o qual devemos olhar sempre que o nosso egoísmo nos vence, sempre que a indiferença nos ataca, sempre que nos esquecemos dos outros. É um apelo a não nos deixarmos derrotar pelo pessimismo, pela ingratidão, pela rabugice que estão sempre à espreita para nos fazer cair na tentação de sermos menos humanos. Por isso, este texto do jornalista Luís Osório é sobre a vida que vence sempre a morte, sobre fortaleza que nos preenche quando a fraqueza nos quer dominar nos momentos sombrios.

Quando a Lara partilhou este texto no nosso grupo, entendi-o tão claramente como se já o conhecesse. Emocionei-me. Pela visão que revela. Pelos sentimentos partilhados. Pelas memórias que me trouxe. Quem já viveu as partidas de quem se ama, entenderá certamente esta Força que, naqueles momentos mais dolorosos, nos acolhe e nos faz caminhar e ser consolo e abrigo para quem está perto de nós. E foi exatamente esta Força que eu experimentei no momento em que o Jorge morreu e que se estendeu nos dias seguintes com tantas manifestações de amor e de vida. Senti-me invadida por uma força tão intensa, tão visceral, tão profunda que me impelia a cuidar de quem estava à minha volta e a levar Vida, sempre a Vida a quem precisava. Há quem chame a esta força um instinto de sobrevivência, uma fuga à realidade. Mas para quem acredita, esta Força sentida e vivida tem um nome – Deus. Uma Força que ainda hoje me arrepia sempre que a sinto e que me leva a querer ser sempre Luz. Uma Força que me(nos) leva a continuar a caminhar nesta Estrada Clara. Não podemos evitar a dor da morte e o sofrimento naturalmente inerente a estas tragédias. Mas podemos confiar. Acreditar. O Amor não morre. Vive em cada um de nós que o aceitamos. Vive quando escolhemos ser Luz! E assim brilhamos, brilham as nossas obras, brilha o nosso Deus! Como Luís Osório afirma no seu texto: “em cada lugar improvável pode existir um farol para nos iluminar. Um farol que nos obrigue a ser todos os dias um bocadinho melhores.” Possamos nós ser esse farol. Sempre. Não deixemos que a nossa Luz se apague. Escolhamos o Bem. A vida. Em cada dia. Hoje.

POSTAL DO DIA, um texto do jornalista Luís Osório, retirado do seu Facebook

A caminho de Fátima, e a meio de um terço, o herói não estava na camioneta

1.

A camioneta ia a caminho de Fátima. Na manhã do último sábado o tempo ameaçava felicidade e as pessoas estavam, também por isso, descontraídas e de farnel posto. Comidas e bebidas para que o dia não fosse apenas de fé e orações, mas também de “mesa” farta. Todos acordaram de madrugada. De terras pequenas do concelho de Guimarães acomodaram-se no autocarro do senhor António. Com casa posta no Airão de Santa Maria fazia questão de ser ele a conduzir a vizinhança. Às 9 e meia da manhã já estavam na Mealhada. Cantaram canções da Igreja. E seguiram as preces da Dona Emília Castro. Todos a adoravam. Todos a ouviam. Todos sentiam que ela, de alguma maneira, era o passaporte para melhor serem ouvidos por Deus. Emília era uma excelente pessoa. Preocupada, ativa. Ajudava na paróquia, ajudava os vizinhos, liderava o coro de Figueiredo, era catequista e o seu marido António, bombeiro há mais de 30 anos.

2.

Uns minutos antes do pneu dianteiro rebentar, Emília levantara-se, pegara no microfone e começara a rezar o terço. Estavam a rezar as palavras mágicas quando tudo aconteceu. Emília foi cuspida com o embate. António, condutor da camioneta, também morreu. Assim como um vizinho de Emília, o senhor Alberto Soares, que ia à frente por causa dos enjoos. Com quase 80 anos já não tinha cabedal para aguentar sem o mínimo de conforto.

3.

Um dia pensarei convosco sobre os que morrem a caminho de algum lugar onde julgam que tudo se iluminará. Num minuto a cabeça enevoada com o “Bem” e no outro minuto a morte a chegar trágica e fúnebre.

Mas hoje quero falar-vos do que me impressionou.  Se tiverem mais trinta segundos, eu conto-vos. Pouco tempo após o acidente os bombeiros das Taipas foram avisados do desastre. O bombeiro António Silva, marido de Emília, meteu-se ao caminho com os seus companheiros – e a meio do percurso, a poucos quilómetros da Bairrada, recebeu a informação de que a sua mulher, mãe dos seus três filhos, tinha morrido. António seguiu caminho e naqueles curtos minutos chorou uma parte da vida que perdera. Não sabemos se telefonou a alguém, não sabemos também por quem foi abraçado, se gritou ou não, não sabemos e pouco ou nada importa.

4.

O que sabemos, o que nos dizem os relatos, é que António ao chegar ao lugar da tragédia foi ajudar quem precisava. A sua mulher estava morta com um lençol por cima, mas ele cumpriu a sua missão com os feridos, com os que estavam em choque, com quem precisava.

Sabem…

Eu costumo muitas e muitas vezes falar do grande mistério que é o “Bem”. Nós nunca desconfiamos do “Mal”, mas do “Bem” a primeira coisa que fazemos é desconfiar.

Mas há pessoas maravilhosas. Há pessoas de uma coragem e verticalidade a toda a prova. Há pessoas que são heróis, mas que ninguém conhece. Talvez no nosso prédio. Talvez na aldeia mais recôndita. Talvez no lugar mais escarpado. E no lugar de Figueiredo, concelho de Guimarães, terra com pouco mais de 400 habitantes, há também um herói. Chama-se António, é bombeiro há 30 anos e tem três filhos, um deles menor. Era casado com Emília, a mulher que rezava o terço e liderava o coro. O homem que hoje abraçamos merece que dele não nos esqueçamos. Eu não me esquecerei que em cada lugar improvável pode existir um farol para nos iluminar. Um farol que nos obrigue a ser todos os dias um bocadinho melhores.

Deus do presépio

Silêncio, onde nascem as nossas vidas.

Silêncio da lua.

Silêncio do Sol.

Silencio de Deus.

Silêncio do Amor, silêncio da Beleza.

Silêncio da Liberdade, da Serenidade.

Silêncio da Felicidade, da Simplicidade.

Silêncio do Tempo.

Deus continua hoje a falar-nos como falou no presépio. Continua a dizer aos Homens que só no silêncio O podemos encontrar e nele o sentido da nossa vida. Quem não faz silêncio, não encontra nada. Apenas encontra aquilo que o barulho da sociedade dá: o dinheiro, as correrias, o poder, as influências, as grandezas materiais que quanto mais crescem mais esvaziam o Homem.

Deus do silêncio.

Deus do Presépio, faz que o teu silêncio domine a nossa vida. Que eu possa sempre encontrar o teu silêncio. O silêncio da Eternidade. O imortal silêncio. O silêncio onde Tu me falas. O silêncio da noite calma, da noite em que Tu te fazes Homem e vens habitar entre nós. Do teu presépio chega-nos esta mensagem: o silêncio da simplicidade. Esta manjedoura é onde deve nascer todo o Homem. E encontrar-se no silêncio de Deus.