Arquivo da categoria: Livros

A fé tem de dar que fazer

Homilia do Domingo XXXIV do Tempo Comum – Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

Queridos irmãos, queridas irmãs

Neste último domingo do ano litúrgico, Jesus deixa-nos com uma imagem. Uma imagem é um presente fantástico, porque uma imagem vale mil vezes mais do que um argumento ou uma elucubração. Uma imagem agarra-se ao coração e desprende-se aos poucos, não vem toda de uma vez. A imagem habita-nos, deixamo-nos habitar por ela. A imagem torna-se uma espécie de modelo, de tipologia interna, de paradigma de ação. Percebemos que aquela imagem é uma espécie de caminho que se vai abrindo para nós. No final deste ano litúrgico ficamos com uma imagem, uma imagem exigente e maravilhosa. Uma imagem que tem a ver com isto: com o falhar a vida ou o viver a vida plenamente.

O que é o suplício eterno? É o desgosto quando compreendermos que falhamos a vida, que a vida foi em vão, que a nossa construção, as nossas opções, aquilo que nos entusiasmou, nos apaixonou, nos cegou, nos ofuscou, afinal não era isso a vida. Afinal não era esse o modo verdadeiro de nos encontrarmos. Afinal, roubámos a vida e perdemos a grande oportunidade que é a vida. Uma oportunidade precária, frágil, que nós temos de agarrar. É um dom que nos é dado, que temos de agarrar e agarrá-lo no sentido da plenitude. E o que é a vida eterna? É ter vivido de tal maneira que se percebe que essa vida não acaba, é perceber que essa vida nos levou a uma plenitude, que essa vida se tornou fecunda, multiplicada, que essa vida não acabou quando nós acabamos, que essa vida continua, que essa vida é expressão da vida do próprio Deus. Por isso não é apenas uma existência, é uma vida eterna.

A imagem que hoje Jesus nos oferece, no Evangelho, é para dialogar com isto: o que é que estamos a fazer da vida? O que é que é importante para nós? De que maneira encontramos Jesus? Esta imagem é uma imagem de sobressalto porque quer os da direita, quer os da esquerda, chamam a Jesus por “Senhor”. Quer dizer: não é a fé que os distingue. A fé não basta. A fé não os distingue porque, para ambos, Jesus é o Senhor e ambos vivem na expectativa de Deus, ambos vivem a sua vida como lugar de espera de Deus. Mas há uma diferença: é que os da direita não ficaram apenas numa fé processada, numa fé que é confissão de uma verdade, de uma crença, de uma convicção, não ficaram apenas numa fé que é uma tradição recebida, que é um património inestimável. Mas, para usar a palavra de São João Paulo II, souberam mergulhar na fantasia da caridade. Souberam operar a misericórdia, traduzir a fé em misericórdia. De uma forma muito simples, a beleza desta imagem que Jesus nos confia, e a sua força, está também na sua simplicidade.

Nós não temos de quebrar a cabeça para encontrar Jesus. Não. É encontrá-lo pele com pele, é encontrá-lo corpo com corpo. Quando? Onde? Quando damos de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede, quando recolhemos os que não têm casa, os que são peregrinos, quando vestimos os que não têm roupa, quando visitamos os que estão doentes e quando temos compaixão dos prisioneiros ou quando depois sepultamos os mortos. Quer dizer, não é nada de extravagante ou de espetacular. É a expressão de uma humanidade. Estas regras que Jesus nos dá nem sequer são regras religiosas, são um código humano de conduta, o código humano de ser. Um ateu pode-se rever nestas obras de misericórdia. O que é que distingue então um crente, um cristão? É a surpresa de reconhecer que na pessoa do mais pequenino está o próprio Jesus.

Queridos irmãos, o final de um ano é o momento da síntese para perceber o que é que vale a pena e o que é que não vale a pena. Normalmente, fazemos esses balanços a 31 de dezembro. Mas, liturgicamente, fazemo-los nesta Festa de Cristo Rei. O critério para o balanço é este: é o critério do amor vivido, o critério do amor praticado, o critério deste contacto humano, desta relação humana que somos chamados a fazer com os mais pequeninos.

Isto quer dizer o quê? Que não é apenas com os nossos. Temos o dever de amar a família, os amigos, mas Jesus alarga e este indefinido Jesus não diz quem é. Não dizendo quem é está a dizer que são todos. Temos de ser capazes de chegar a Jesus através do agir e não ficarmos apenas a chamar Jesus “Senhor, Senhor”. Dominicalmente reunimo-nos aqui para dizer que Jesus é o Senhor das nossas vidas. E depois? E depois? Onde é que isso nos leva? O que é que fazemos com isso? O que é que isso nos torna?

Esta imagem que Jesus nos dá é uma imagem para nos dar que fazer. Porque a fé tem de dar que fazer. A fé tem de nos levar a esta saída de nós próprios para irmos ao encontro dos outros, nesse encontro de caridade e de amor, nesse encontro com o pobre, com o doente, com o preso, com a vítima, com o sem-abrigo, com aquele que passa necessidades de vária ordem. Estas obras de misericórdia têm uma leitura literal e é preciso não fugir para o símbolo, que é uma zona de conforto. Não, isto é literal. Mas ao mesmo tempo tem tantas dimensões humanas. O que é vestir o nu? É tanta coisa. Antes de tudo, é vestir, mesmo. Mas, depois, é tanta coisa. É dar-lhe o que ele precisa para ser, é colaborar nisso. E, reparem, Jesus não diz para sermos heróis, diz-nos para fazer. Não nos diz: “Tens de fazer 200.” Não. Faz. Faz.

Não há dúvida que, queridos irmãs e irmãos, o amor é uma grande escola, o amor é uma grande escola de vida. É no encontro que temos com os outros que celebramos a esperança da vida, que celebramos a ressurreição, que celebramos a certeza de que Ele está vivo no meio de nós.

Leonor Xavier apresentou aqui, na Capela do Rato, o último livro que escreveu: O passageiro clandestino. É um livro sobre a sua experiência do cancro, de ser portadora da doença do cancro. No fundo, todos nós, numa hora de fragilidade e de doença, sentimos a grande ameaça, o peso dessa ameaça. Mas o que é extraordinário no testemunho da Leonor é que ela aproveita essa condição para celebrar o encontro. Então leva-nos para dentro dos hospitais, das salas de espera, ao encontro com esses anónimos e a perceber como a coisa mais bela é esse encontro com pessoas com outra cultura, com outras idades, que vêm com outras questões, mas que no fundo são “o mais pequenino” naquela circunstância, e ser capaz de estabelecer uma relação de vida. No livro, percebemos que é isso que a salva. Porque depois é um mistério, acreditamos que a medicina faça o seu caminho, acreditamos na força de recuperação da própria vida; mas, como ela diz: “A doença é também uma iniciação” e uma iniciação à vida, a arte do encontro.

Penso que uma vez mais o que nos é pedido é isso. Não é aterrarmos nas nossas certezas, não é engordarmos com os nossos saberes, com os nossos conhecimentos. Isso tudo é muito importante. Mas, depois, podemos ter isso tudo e nunca o ter visto. Jesus tem isto: só se deixa ver na partilha do pão, quando quebramos o pão, para dar o pão aos outros. Isto é: só na vida que se quebra, só na vida que se parte e reparte é que Jesus se dá a ver; o resto nós não o vemos, podemos até sentir o entusiasmo, a paixão do conhecimento, isso também é uma via, mas é uma via insuficiente. A única via completa é a via do amor, é a via da relação, é a via da dádiva, é a via do encontro.

Queridos irmãs e irmãos, celebrar a realeza de Jesus é celebrar a realidade de Jesus. Jesus é real. Não é apenas uma ideia, não é uma herança do passado, não é um fantasma. Jesus é real, é real. E a realidade de Cristo é impressa no mundo através de nós. Jesus não quis fazer um monumento a si próprio, Jesus não quis fundar uma escola, uma tribo, quis juntar homens e mulheres que tivessem esta capacidade de ouvir quem tem fome, quem é peregrino, quem está despido, quem está doente, quem está na prisão. Esta é a via silenciosa do amor, da partilha, da entrega, que nos revela Jesus e nos dá o sentido profundo da bem-aventurança: “Vinde benditos de meu Pai, recebei em herança o reino que vos está prometido desde o princípio do mundo.”

Queridos irmãos, estas palavras são para nós. Não as percamos, não as percamos de vista numa vida embrulhada em nós e nas nossas coisas e coisinhas, que nos afasta da promessa de viver uma vida inteira, uma vida que valha a pena. A maior parte do tempo, aquilo que nos falta é precisamente isto, é dar, é vestir, é ir visitar, é ir ver, é falar, é isso que verdadeiramente nos falta.

Vamos celebrar esta Festa de Cristo Rei sentindo que Ele é o pastor das nossas vidas. Com esta imagem do julgamento final, Ele dá-nos um caminho, acende uma luz no nosso coração. Se hoje, ao escutarmos esta Palavra, uma luz se acendeu, no sentido de nos impelir à caridade, nos empurrar para o amor, para o encontro, para a dinâmica dos gestos, se isto nos empurrar, então quer dizer que esta imagem acordou, despertou em nós o rosto do próprio Jesus.

Solidão

Expresso | António Coimbra de Matos: “Não é fácil amar, mas é bom ...

António Coimbra de Matos, Vária. Existo porque fui amado, Climepsi Editores

Há dois tipos de solidão que é necessário bem discriminar: 1. a solidão objectiva, real e concreta, quando não estamos acompanhados externamente por alguém (o chamado objecto externo); e 2. a solidão subjectiva, interna, quando o espaço interior, psíquico, está vazio de pessoas significativas (os designados objectos internos)

A primeira caracteriza o desamparo ou depressão anaclítica; a segunda, o desânimo ou depressão introjectiva. Ao primeiro sujeito chamamos abandonado; ao segundo, abandónico. No primeiro caso há uma perda do objecto (pessoa significativa); no segundo, uma perda do amor do objecto.

Estar só externamente é triste, aborrecido e perigoso; mas estar só internamente, afectivamente – sem amor – é destruidor da auto-estima, inferiorizante. A solidão interna é muito mais gravosa.

Acresce que, no desenvolvimento e na vida, adquirimos, ou é bom que o consigamos, uma certa capacidade de estarmos sós objectivamente; porém, estarmos sós subjectivamente não seria uma capacidade mas uma anomalia.

Não é bom, todavia, estarmos concretamente sós, sendo, não obstante, bom termos capacidade de estarmos sós – não só porque é necessário para a autonomia, como também nos dá a possibilidade de escolhermos melhor o(s) parceiro(s).

Logo, solidão externa quanto baste; solidão interna o mínimo possível.

Estar realmente só por algum tempo pode ser uma benção; estar afectivamente só é um terrível infortúnio.

Ópera bufa

Resultado de imagem para Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves, Cenas da Vida Americana, Clube do Autor

Podemos fingir que não vemos. Podemos sempre fingir que não reparamos. Embora seja impossível não reparar. É um dos traços fortes do retrato humano e percebe-se claramente em pequenos pormenores mais do que nos grandes gestos. Falo da crueldade. Talvez porque somos a única espécie que apresenta este traço, visível num franzido da boca, num dedo espetado ou encarquilhado, numa ruga da testa, num olhar baixo, numa voz silenciosa. A crueldade gela os que não são cruéis e embriaga os admiradores. A crueldade sobrevive à morte dos seus portadores, como um vírus ou uma bactéria das que vivem há milhões de anos para se replicarem e sobreviverem ao planeta. Quando entramos os portões de Auschwitz ou caminhamos nas linhas de caminho de ferro de Birkenau, sentimos a crueldade, sentimos a mão de ferro na garganta. Uma crueldade cósmica, desnaturada, metafísica. Na vida de todos os dias, a crueldade é um exercício banal. Vemos as pessoas que a praticam e vemos os atos da sua consequência.

Resultado de imagem para cenas da vida americana

Podemos sempre fazer como Brunhilde Pomsel, a secretária de Joseph Goebbels, que morreu esta semana com 106 anos de idade. Brunhilde disse, numa raríssima confissão ao “Guardian” um ano antes de morrer (a propósito de um documentário, “A German Life”), que não tinha a consciência pesada. A família Goebbels era amorosa, particularmente a senhora Goebbels, tinham um cão amoroso, um Airedale (esta necessidade de nomear a raça do cão é interessante) e ela limitava-se a datilografar. Não sabia de nada, nunca soube de nada, e não guardava um vestígio de culpa ou remorso. “Depois da ascensão do partido nazi, o país estava como que enfeitiçado” e ela sabia que “qualquer idealismo poderia descambar num pescoço partido”. Melhor fingir que nada se passava. Quando Goebbels lhe deu para as mãos uma pasta recomendando que a pusesse no cofre e não olhasse, Brunhilde ficou contente pela confiança depositada. Não olhou. Era o processo de Sophie Scholl, uma ativista antinazi executada por alta traição em fevereiro de 1943 por distribuir panfletos de extrema-esquerda na Universidade de Munique. Educada no espartilho prussiano, Brunhilde sabia cumprir o seu dever. Apesar de ser um membro do partido nazi, paga pelos nazis, de trabalhar no coração do nazismo, nunca reparou em nada. Reparou, isso sim, nas unhas perfeitamente cuidadas de Goebbels. Reparou que a vida de uma amiga judia, Eva, se tornou insuportável depois da ascensão de Hitler. Eva desapareceu, mas tirando isso… isso e a manicura, Goebbels tinha uma manicura por dia, e era um bocado arrogante, tirando isso… A manicura ainda hoje lhe dava vontade de rir. Um exagero. De resto, Joseph Goebbels nada tinha de censurável. Quando o viu a falar de “guerra total” no famoso discurso do Sportpalast, admirou-se. Excessivo, não? Goebbels passara de “pessoa civilizada e séria”, um “homem de nobre elegância”, a um “anão a arengar”. Tirando isso… Em 1945, Brunhilde finalmente reparou que a vida mudara. Passou cinco anos em detenção, em várias prisões russas dentro e fora de Berlim, defendendo-se com a frase “eu sou apenas uma datilógrafa”. Décadas mais tarde, resolveu saber da sorte da desaparecida Eva. Morta em Auschwitz. Quem diria…

Pior do que a crueldade, sempre gratuita, é esta indiferença perante a crueldade. As pessoas que resolvem olhar para o lado, fugir com o rabo à seringa, pretendendo não ver. As pessoas que têm horror da resistência. Os facilitadores. Os cúmplices. Os assalariados. Os corrompidos. Os cobardes. Os amorais. Os neutros.

O que assusta em Trump não são as políticas de Trump. O que assusta é a crueldade, traço evidente para quem viu os episódios de “O Aprendiz” ou os primeiros debates contra os republicanos, quando ele não esperava ganhar. Quando descobriu uma aberta em Jeb Bush nunca mais o largou, como um mastim esfomeado a quem atiraram um bife. Vemos a crueldade dentro da auréola branca dos olhos pequeninos, no fungar enervado, na crispação furiosa do desapontamento. E vemo-la no triunfo, quando ela se torna corrupção e prepotência, vingança e soberba. Vemo-la quando ele sai do carro e avança para Obama deixando para trás a mulher, sem lhe abrir a porta ou esperar por ela. Caminha sempre na frente da família, a filha favorita ao lado, o filho pequeno na cauda. Vemo-la nas entrevistas e nas poses. Nos filmes e nos livros sobre ele, pagos ou não por ele. Vemo-la no dedinho autocrático, o bracinho biónico deste Dr. Strangelove. Vemo-la agora, perigosíssima, nestas ordens executivas feitas por medida. E vemo-la, suprema, no olhar maléfico do seu mentor, Steve Bannon, o novo senhor da Segurança Nacional americana. Bannon, o “leninista”, o “Darth Vader” (palavras dele) que gosta de soluções finais para os problemas nacionais e internacionais. O amante da força bruta e da guerra total, o homem que quer destruir o sistema. O ditador dos media. O Goebbels desta ópera bufa. Vemos a crueldade claramente vista. Podemos escolher não ver, como fazem Paul Ryan e Theresa May com olhos murchos. Podemos sempre não ver, mas custa-nos a alma.

2017

Há ciência no pecado

https://images.impresa.pt/expresso/2015-05-20-Cristina-Margato.jpg-3/1x1/mw-200

texto de Cristina Margato, E, Expresso

Até ao Papa Gregório I (590 a 604 d.C.) os pecados mortais eram dez. Ele conseguiu reduzi-los a sete. Foi dessa lista que hoje conhecemos que o neurobiólogo britânico Jack Lewis partiu para estudar a ciência que existe por detrás do pecado e escrever um livro. Apesar de ter crescido sem acreditar em Deus e até se considerar ateu, o neurobiólogo deu-se conta de que agia como um bom cristão: “Toda a vida resisti ativamente à influência do Cristia­nismo, mas um dia percebi que a minha moral, o sentido daquilo que considerava estar certo ou errado havia sido diretamente retirado do modelo cristão. Sem acreditar em Deus comportava-me como um bom cristão.”

Sabendo que a ciência não tem respostas para todas as questões, Jack Lewis começou a interessar-se pela forma como o cristianismo “estuda” há milénios o comportamento humano: “A ciência é muito mais recente nesta área. O comportamento humano só é estudado há décadas. Há na religião uma velha sabedoria, um conhecimento que resulta de uma coleção de observações feitas por diferentes pessoas, século após século, sobre o que podem ser as regras para uma boa ou uma má vida. Porquê então rejeitar esse conhecimento? Porquê deitar fora o bebé com a água do banho?”

https://images.impresa.pt/expresso/2019-08-20-jack-lewis-01_t-_idp.jpg/original/mw-1920

Foi nesta linha de pensamento que Jack Lewis olhou para os sete pecados mortais, definidos por São Gregório, e descobriu neles sete tipos de comportamento. O orgulho, a gula, a luxúria, a preguiça, a avareza, a inveja e a ira “constituem um bom sistema de categorias”, explica Lewis, num tom assertivo. Na opinião dele, os sete pecados mortais são mais do que regras para evitar o Inferno e ir para o Paraíso: “São regras para a vida.” Regras que evitam sofrimento, garantem cooperação, colaboração e boa convivência dentro de um grupo, mas também a saúde do indivíduo: “A ciência já conseguiu provar que uma pessoa isolada tem uma maior incidência de doenças cardiovasculares, cancro, doenças mentais, como depressão, ansiedade e outras desordens borderline, e logo é provável que vá morrer mais cedo.”

Wook.pt - A Ciência do Pecado

Em “A Ciência do Pecado” (Desassossego, 2019), o livro no qual Jack Lewis defende a clarividência dos sete pecados mortais e a sua importância para a boa saúde de quem os respeita, o neurobiólogo escrutina a literatura existente na área da neurociência, os estudos que registam a atividade cerebral sempre que está em causa um dos comportamentos associados a um dos sete pecados. Acaba por concluir que em quatro, destes sete pecados, é ativada sempre a mesma área do cérebro, aquela que está diretamente relacionada com a dor física e psicológica.

Em cada um dos pecados existem, contudo, componentes benignos e malignos: “Se tivessem sido completamente abolidos, é bastante possível que a nossa espécie nunca tivesse sobrevivido.” E dá exemplos: “O orgulho pode ter consequências saudáveis ou nocivas dependendo de como se manifesta em cada um dos indivíduos. Ser demasiado centrado em si mesmo irrita as outras pessoas, mas não ter orgulho naquilo que fazemos também pode causar problemas. Uma pitada de luxúria é claramente vital para a perpetuação da espécie, mas quando permitimos que a libido domine todas as nossas decisões pode causar grande sofrimento. A gula permitiu aos nossos antepassados caçadores-recoletores sobreviverem durante a escassez de alimentos, mas atualmente mata um número impressionante de pessoas…”

Jack Lewis acredita que o orgulho não foi colocado à cabeça por São Gregório por acaso. O orgulho “alimenta a chama” de outros pecados mortais, e pode levar à luxúria, à gula, à avareza, à ira e à inveja, reduzindo a possibilidade de “forjar relações íntimas, duradouras e cooperantes, com sucesso. (…) O problema é que o excesso de orgulho é já uma realidade, e corresponde a uma pandemia dos nossos dias, a do narcisismo: “O mundo está a tornar-se não apenas mais tolerante para com o exibicionismo obcecado, como parece mais sedento dele.” De acordo com Lewis, o número de pessoas com Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN), e logo com menos capacidade de sentir empatia, ou seja sentir o que os outros sentem, “tem vindo a aumentar firmemente nos Estados Unidos”. O que não é estranho, tendo em conta que há uma “normalização do narcisismo”, reiterada pelas redes sociais e pelos meios de comunicação social. “Não me parece que, em breve, possamos melhorar na área do narcisismo. O comportamento é altamente incentivado em todos os media, seja na televisão ou nas redes sociais, lugares onde os narcisistas obtêm mais sucesso, e onde são incentivados a comportarem-se como idiotas.” É provável que daqui a 20 anos a nossa tolerância para com o narcisismo seja total, alerta o neurobiólogo.

Também é interessante a relação que estabelece entre o consumo de sites pornográficos nos rapazes e a libido sexual: “Começam por provocar uma resposta de excitação sexual gradualmente menor; a seguir, esta diminuição desenvolve-se numa redução generalizada da libido e pode mesmo resultar na incapacidade de obter uma ereção.” A exposição a muita pornografia acaba por treinar os cérebros para produzirem apenas “respostas sexuais a estímulos supernormais, ou seja, mais intenso, mais chocante do que aquele que encontramos na vida normal”. Cria um efeito a que se começou a chamar “pornificação”, a uma cultura de “aceitação de domínio estereo­tipado do homem, assim como das práticas sexuais agressivas”. O que não é surpreendente, tendo em conta a natureza neuroplástica do cérebro: “Os ambientes em que passamos o nosso tempo moldam os cérebros e os cérebros desenvolvem capacidades de dar novas formas aos ambientes, que nos moldam ainda mais os cérebros, e assim sucessivamente.” Razão pela qual, Jack Lewis é um grande defensor da meditação, como instrumento para alterar processos mentais doentios que causam muito sofrimento ou do tratamento com drogas psicadélicas em ambientes clínicos.

Num estudo, citado por Lewis, quanto mais inveja uma pessoa sentia, “maior a atividade gerada na parte dorsal ou superior do córtex cingulado anterior dorsal (dACC)”, ou seja, a mesma área ativada por um narcisista sempre que experimenta a rejeição social”. E quanto mais invejosa era uma pessoa, menor era a sua inteligência emocional, menor também uma determinada área cerebral: “O estudo encontrou uma diferença significativa no tamanho de uma região do córtex pré-frontal dorsolateral (dlPFC) que fica mesmo junto à linha de cabelo da maior parte das pessoas, sobre a testa do lado direito. Quanto mais inveja a pessoa experimentava diariamente, consoante os resultados da pontuação da inveja tendencial, mais pequena era esta zona do dlPFC.” Lewis não se limita a analisar os pecados do ponto de vista da sua área científica. Está preocupado com a forma com estes pecados são utilizados todos os dias para produzirem lucro, na nossa sociedade, e bastante sofrimento em muitos indivíduos, além de uma economia que está a gerar escassez de recursos, e alterações climáticas que colocam a nossa sobrevivência em causa.

No final do livro, avança conclusões curiosas, perante as quais até o próprio Lewis se surpreendeu. À cabeça está o caso de o paracetamol ser tão eficaz a combater a dor psicológica quanto a dor física: “Nem queria acreditar quando li”, confessou ao Expresso. Mas também há uma outra conclusão relativa ao Botox: “As pessoas que colocam Botox na cara apresentam comportamentos menos agressivos, porque os músculos paralisam e deixam de conseguir imitar as caras zangadas dos outros. As injeções reduzem as ativações da amígdala quando são apresentadas a estas pessoas imagens com rostos zangados.”

Para Lewis, não há dúvida de que há alguma ciência nestas regras religio­sas, no sentido em que elas encerram em si sabedoria acumulada, e que uma vida que se relacione com os sete pecados mortais com moderação pode ser mais saudável não só para o indivíduo como para o grupo: “É importante recordar que o que importa é a qualidade das relações pessoais, não a quantidade.” E é por isso que o neurobiólogo não hesita: “Mesmo que não acreditemos em Deus, é melhor que tenhamos em mente estas sete regras, na medida em que isso irá aumentar a qualidade da nossa vida e a nossa possibilidade de sobrevivência. É preciso ir além da tentação. Olhar para nós periodicamente e tentar analisar o nosso comportamento para perceber qual destes tipos de comportamento pode estar desequilibrado.”

Religião e Espiritualidade

Anselmo Borges, Diário de Noticias 25.agosto.2019

1. Não haja dúvidas. A religião, concretamente na Europa, também entre nós, está em queda. O número de agnósticos e de ateus aumenta, para não falar na chamada “prática religiosa”, que desce a olhos vistos. O padre José Antonio Pagola escreveu recentemente um texto com o título “Depois de séculos de ‘imperialismo cristão’, os discípulos de Jesus têm de aprender a viver em minoria”.

Significa isto o triunfo do materialismo crasso ou o que está em causa é mesmo a religião institucional, mas não a espiritualidade? O que é facto é que tenho encontrado cada vez mais grupos interessados na espiritualidade e no aprofundamento da vida interior. Multiplicam-se esses grupos e também a bibliografia sobre o tema. Por exemplo, com sucesso escreveu recentemente o teólogo Francesc Torralba uma obra: La Interioridad Habitada, onde se pode ler: “A educação da interioridade não é, em caso algum, um luxo nem uma questão menor, pois tem como objectivo final o cuidar de si mesmo, e, para isso, desenvolver todas as potencialidades latentes no ser humano, como a memória, a imaginação, a vontade, a inteligência e a emotividade, mas também o fundo último do seu ser: a espiritualidade, admitindo que esta pode adquirir formas, expressões e modos muito diversos em virtude dos contextos educativos e dos momentos históricos. No modelo da interioridade habitada reconhecem-se dois magistérios: o exercício do mestre humano que fala e actua a partir de fora e o do mestre interior que habita lá no íntimo.”

Wook.pt - A Biografia do Silêncio

2. Hoje, quero referir-me concretamente a Pablo D’Ors, padre e escritor. Numa recente entrevista a José Manuel Vidal, director de ReligiónDigital, disse: “As formas tradicionais da Igreja não respondem à sensibilidade e à linguagem contemporâneas.” Numa outra entrevista, a La La Razón, declarou: “Boa parte do descrédito da Igreja deve-se a ela sucumbir ao ritualismo.” Pablo D’Ors publicou um livro célebre do qual se venderam já mais de 150 mil exemplares, com o título Biografia do Silêncio. E é o fundador da associação Amigos do Deserto, que conta com uma rede de meditadores com mais de 500 membros, porque, como afirmou: “Há uma ânsia espiritual muito grande nesta sociedade secularizada.” Deixo aí, a partir destas duas entrevistas, pensamentos que julgo ser urgente meditar.

Porque é que o livro teve tanto sucesso? “Uma das razões do êxito é precisamente a sua oportunidade. Surgiu num momento em que aumentava claramente o interesse pela meditação. O seu prestígio construiu-se sobre o desprestígio da religião. O facto de muitas pessoas terem abandonado as formas religiosas não quer dizer que a sua sede espiritual esteja saciada ou se tenha anulado. Persiste e é preciso procurar novas formas de a alimentar. A meditação é uma delas. Costumo dizer que a religião é o copo e a espiritualidade é o vinho, e o que nos sacia verdadeiramente é o vinho. A religião tem de estar ao serviço de suscitar a experiência espiritual, e nós, os cristãos, contentámo-nos com o copo. As formas, para ir ao fundo da questão, deixaram de ser formas para o conteúdo e encerraram-se em si mesmas. O mal não está no rito, mas no ritualismo. As pessoas não sentem que isso as alimente. A isto junta-se que a linguagem tanto verbal como gestual do cristianismo não responde à sensibilidade nem à cultura contemporânea.” Não podemos esquecer de que tão importantes como o património que recebemos, o Evangelho, são o homem e a mulher de hoje. Por isso, “a nossa fidelidade não é só ao Evangelho, é a este homem e a esta mulher de hoje. Se estivermos longe deles, dificilmente entramos em relação”. Impõe-se que se perceba que “as formas têm de estar ao serviço do fundo, e muitas vezes as formas perdem-nos, pois ficamos no formalismo e privamo-nos de ir ao núcleo da questão. Qual é a urgência fundamental para a Igreja de hoje? Uma renovação espiritual; que estejamos verdadeiramente no nosso centro”.

Para Pablo D’Ors, o silenciamento interior é uma necessidade de primeira ordem. “A meditação é uma prática de silenciamento e quietude. É um trabalho que se faz com o corpo e com a mente e cujo propósito fundamental é o autoconhecimento.” Quando muitas coisas exteriores se foram afundando, ele descobriu a aventura interior, que é um processo de higiene da mente e do coração: “Normalmente temos uma grande confusão intelectual e sentimental. Criámos uma cultura da exterioridade, representada fundamentalmente pelo telemóvel. Quanto maior conexão fora, menor conexão dentro. Perde-se a dimensão interior, porque a nossa cultura nos impulsiona e estimula para estar sempre fora.” Então, nas crises existenciais, as pessoas ficam desamparadas por dentro, pois nem sequer sabem se há “um dentro”. Por isso, “boa parte do êxito de muitas escolas de meditação radica nesta busca. Hoje, não falamos tanto de espiritualidade como de interioridade, que é o modo laico de dizer o mesmo”.

Precisamos de arrumar o nosso interior, para que haja mais espaço, pois, desse modo, distinguimos melhor. É como quando numa casa repleta de coisas começas a tirar o não necessário e começas a ver. Daí surge, paradoxalmente, o segundo fruto: a humildade. “Saber quem és, ter uma visão realista de ti mesmo, essa humildade, esse saber qual é o teu lugar, isso é o que te dá a paz interior.”

Pergunta-se se não há o perigo de estas correntes de espiritualidade serem um pouco individualistas, egocêntricas, ignorando a transformação do mundo. Responde: “Creio que a meditação autêntica não se afasta de Deus, mesmo que isso se não verbalize de maneira explícita. Quem verdadeiramente se conhece a si mesmo, mais cedo ou mais tarde, aponta para o mistério. Esse mistério poderá chamá-lo Deus ou não, mas Ele está lá. Em ti gerou-se uma atitude espiritual.” Quanto à denúncia e ao compromisso com a mudança das estruturas: sim, há o perigo de grupos espirituais caírem num espiritualismo desencarnado, mas a questão é de prioridades: “A justiça social, a denúncia, tudo isso, vem por acréscimo, é o fruto de estarmos centrados. Primeiro, vamos transformando a nossa própria vida. A oração, o nosso próprio espírito transforma-nos e, simultaneamente, vai transformando a vida à nossa volta, a vida familiar, a vida social, a vida do bairro. A vida da nação.”

Deve-se prescindir das religiões? De modo algum. “O mindfulness não é puramente laico, mesmo que os termos e as práticas se apresentem numa linguagem puramente secular. Isto é o que, modestamente, os Amigos do Deserto e eu queremos fazer com o cristianismo. Que seja uma tradução secular, para o mundo de hoje, da mensagem cristã. Para o Ocidente, a figura de Cristo é muito mais próxima do que a de Buda, e por isso o salto cultural que é preciso dar para ser meditador cristão é muito menor. Julgo que prescindir das religiões é um suicídio, porque isso significaria prescindir do nosso passado. Ora, quem prescinde do seu passado não sabe qual é o seu presente.” Não, não há o perigo de obsessão pelo “aqui e agora”. Porque “o sublinhado no presente não deveria fazer-nos perder de vista a importância do passado e do futuro. Recordar é passar a história pelo coração e ajuda-nos a compreender quem somos. Uma árvore sem raiz não se aguenta, o passado é a nossa raiz e é preciso cuidar dela. O mesmo digo do futuro. O homem não é sem projecção e projecto de si. A espiritualidade cristã sempre sublinhou o futuro, o horizonte, e a budista, o presente. Penso que estamos num tempo de síntese.”

A propósito, como se relacionam em Pablo D’Ors “o ego do escritor e o não ego do meditador?” “Devo dizer que para mim silêncio e palavra são duas faces da mesma moeda. O segredo da palavra é o silêncio e o do silêncio, a palavra. Uma palavra nasce matinal no coração do leitor na medida em que foi preparada no silêncio. Para que a palavra seja fecunda, tem de nascer do silêncio. Com o tempo, fui descobrindo que a minha dupla vocação, sacerdotal e literária, é a mesma.”

Então, não existe realmente o perigo maior, que consiste em ficar encerrado em si mesmo, no egocentrismo? “O ego (o eu), que não é outra coisa senão a tendência para auto-afirmar-se, é necessário para viver. Não se trata de matar o ego, mas de colocá-lo no seu lugar.” Por isso, quanto a escutar-se a si mesmo ou a escutar o outro, “é como perguntar o que é que é mais complicado: amar-se a si mesmo ou aos outros. É exactamente a mesma coisa. Por isso digo que a meditação é uma escola de escuta. Se aprenderes a escutar-te a ti mesmo poderás escutar os outros. Ninguém pode dar o que não tem.” Quanto ao egocentrismo: “Eu vejo-me agora a mim mesmo menos egocêntrico do que há uns anos. Mais magnânimo, com a alma maior. O critério para verificar que um caminho de meditação é autêntico é se te torna mais compassivo, mais justo e caritativo. Se o outro tem um papel mais importante na tua vida. A meditação corre o risco de perverter-te, se esquece a dimensão transcendente e se fica pela busca utilitarista de benefícios pessoais.”

O jornalista: “Chama-me a atenção que diga que é mais importante ser si mesmo do que alguém ‘bom’.” Pablo D’Ors: “Refiro-me a que o essencial é o indicativo da graça e não o imperativo moral. O decisivo para a construção de uma pessoa é experienciar o que é, e, na medida em que o fizer, comportar-se-á de uma maneira ou outra. Não temos de estar tão preocupados em ser bons, pela dimensão moral, como pela metafísica do ser. Sermos quem estamos chamados a ser. Se o formos, se na verdade fores tu, serás bom.” Objecção: “Haverá gente que seja ela mesma e seja egoísta.” Resposta: “Isso baseia-se numa visão do mundo, que é a minha, segundo a qual a luta entre a luz e a sombra não é paritária. O que há fundamentalmente é luz. Este ponto de partida não é subjectivo, é contrastável. Por exemplo, se contares quantos comboios descarrilaram hoje no mundo e quantos chegaram ao destino, verás que a imensa maioria chegou bem. Se fizermos o mesmo com tudo, vemos que o bem é significativamente mais. O que acontece é que os meios de comunicação social fazem-nos crer que o que existe é o mal, quando é o contrário. É como o céu e as nuvens: as nuvens podem tapar o céu, mas o que na realidade há é um céu. Estamos bem feitos.” Neste contexto, sobre a sua vocação: “Aos 18 anos. É como quando alguém se enamora e sabe que é a pessoa adequada quando a conhece. Foi uma experiência de encontro com o mistério, com a graça de Jesus Cristo. É uma sedução, um fascínio, um sentir que é o eixo vertebrador da tua vida, que lhe dá sentido, força. Foi a experiência do entusiasmo. Estar habitado pelos deuses, pelo espírito. A experiência de que havia algo substancial que tudo sustenta. Dessa experiência, a mais decisiva da minha vida, nunca duvidei.”

Qual é então o sentido da vida? “Redimir o mundo. Colocar luz onde há trevas, amor onde há desamor, esperança onde há inesperança e desespero, claridade na dúvida. Na medida em que fizermos isso, estamos bem e semeamos o bem.”

3. Está aí, bem à vista, a chave para entender a crise da religião e perceber a conversão de que a Igreja urgentemente precisa para ser o que Jesus quer. Ele passava noites na montanha a rezar e fez a experiência inexcedível do mistério de Deus como Abbá, Papá, querida Mamã. A consequência: amou a todos, por palavras e obras, a começar por aqueles e por aquelas que ninguém ama, porque Deus é o sentido último da existência, não caminhamos para o nada, porque Deus é Amor. Tomás Moro disse-o, numa síntese perfeita: “O fundamento da religião é o medo. O fundamento do cristianismo é o amor.”

A fé como risco

Luciano Manicardi, Viver uma fé adulta, Edições Paulinas

A fé é a grata rendição a Cristo, a resposta humana à humanidade divina de Jesus, o sim à vida vivida por Cristo, que também se torna forma da nossa vida; portanto, é um concreto criar espaço para Cristo na nossa existência, um fazer reinar o Espírito de Cristo nas relações e situações quotidianas. Tudo isto na convicção de que a existência de Cristo narra quem é Deus; que a vida de Cristo, vivida na obediência filial a Deus e na doação total aos irmãos até ao paradoxo do amor pelo inimigo, é o sentido último, humano e divino, do viver; e também convencidos de que a fé de Jesus, a que Ele próprio viveu em relação ao Pai, confiando-se a Ele como Abbá, mesmo nos momentos da cruz, quando continuou a confiar-se àquele que o abandonava, é a referência normativa do nosso crer, o seu paradigma.

Aqui percebemos uma aspecto importante da fé cristã: ela consiste num momento de progressiva (e sempre parcial) assimilação do sujeito crente ao sujeito crido (Jesus Cristo): a fé tem em si uma dinâmica pascal, é um ato de morte e ressurreição. A fé atualiza em nós a morte e a ressurreição e de Cristo. Deste ponto de vista, a fé é risco mortal e possibilidade impensada de vida. Risco mortal porque eu ponho a subsistência do meu ser e do meu viver (“Se não acreditardes, não subsistireis”: Is 7, 9) em que não vejo e de quem os outros deram testemunho (a fé revela aqui a sua dimensão eclesial-comunitária intrínseca); é risco porque este movimento exige a minha saída de mim mesmo e a perda de relevância do meu eu e das suas pretensões para viver no espaço do amor gratuito e preveniente de Deus. E talvez o grande risco da fé seja crer no amor. “Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele” (1Jo 4, 16), amor que Deus manifestou na vida, morte e ressurreição de Cristo.

Na sua raíz, a fé cristã é sempre crer no amor de Deus por nós. Portanto, o amor de Deus narrado por Cristo (Rm 5, 6-10), fundamento da nossa confiança e da nossa fidelidade, é , também e simultaneamente, fonte e objeto da nossa fé. É verdade que crer no amor de Deus é um risco, porque aqui o crente tem de enfrentar o enigma, a não evidência desse amor e, às vezes, também da confiança ou da fiabilidade daquele em quem põe a sua fé; mas, aqui, é também o germe da fé como possibilidade não pensada e não crível de vida, de renovação da vida. Nos momentos em que tudo vacila, a fé simplificada, a fé nua, a fé que crê contra toda a evidência, a fé que habita os infernos, torna-se o lugar da esperança.

Na sociedade atual que multiplica os sistemas de segurança e de previdência, que elabora métodos de precisão e de proteção para esconjurar as incertezas e os riscos do futuro, a fé comporta a dimensão do risco. Não é que a fé não conheça a dimensão da certeza, mas a certeza da fé é de uma ordem diferente da certeza do tipo racional. Pascal escreve: “Se não se devesse fazer nada, excepto por aquilo que está certo, não se deveria fazer nada pela religião, porque ela não é certa” (isto é , não está no mesmo comprimento de onda da certeza comum). O saber próprio da fé é o saber da confiança. Se o risco próprio da fé é inerente a este saber e a esta linguagem de confiança, então também parece inerente à fé e, por assim dizer, à sua própria prova. Assim, crer torna-se também um desafio que, hoje, o homem vive quotidianamente, num contexto que requer demonstrações e evidências e, como dizíamos, procura seguranças e quer evitar a incerteza.

Viver uma fé adulta, itinerário para um cristianismo credível, Edições Paulinas,

Luciano Manicardi é prior da comunidade monástica de Bose

Ser cristão!

Maria Clara Bingemer, Viver como crentes no mundo de mudança, Paulinas Editora

A fé cristã, hoje, já não acontece em contexto  homogeneamente cristão. Assim, supõe um novo sujeito dotado de uma nova consciência religiosa, que é importante assimilar e integrar ao conjunto do tecido eclesial. Já não seria mais nem a tradição, nem a herança, nem a continuidade de uma cultura banhada de cristianismo que determinaria o que é ser cristão. Trata-se mais de uma opção livre e que deve configurar-se na contramão de uma cultura que nem sempre entenderá os seus gestos e símbolos. No fundo, tratar-se-ia de dar de novo ao amor a primordialidade da cidadania dentro da comunidade que pretende e se dispõe a viver o facto cristão.

A fé cristã foi, desde os seus começos, uma fé no testemunho de outros. Os discípulos acreditaram em Jesus, no qual reconheceram e ao qual proclamaram Testemunha Fiel. As mulheres acreditaram que o túmulo não era o lugar daquele que estava vivo. Os Apóstolos, depois de certa relutância, acreditaram nas mulheres. E assim começou o caminho dessa proposta de vida que foi conquistando o mundo conhecido de então, assente apenas na palavra de alguns frágeis seres humanos que diziam: “Isto é verdade porque eu vi, eu experimentei. Dou testemunho e sou capaz de morrer por isso.”

A fé cristã, desde o início, é, portanto, uma fé de testemunhas, e não tanto de textos. Torna-se cada vez mais verdadeira e verificável a afirmação de que há que fazer uma teologia não de textos, mas de testemunhas. Fazendo apelo aos testemunhos de homens e mulheres que foram alcançados por Deus ao longo da história, torna-se mais evidente a diferença entre fé e religião, fé e instituição. Mais claro ainda, o que constitui a identidade mais profunda dos homens e mulheres de fé que somos chamados a ser e a ajudar outros a serem nesta difusa contemporaneidade em que vivemos. São esses e essas que nos mostram que a fé cristã ainda tem um papel a desempenhar hoje, desde que não perca a sua identidade no meio dos tempos nebulosos que vivemos.

Ser cristão hoje implica ter uma esperança estranha que se revela justamente quando parece que não há futuro e uma liberdade que culmina na doação da vida. O cristão ama tanto a vida – porque se encontrou em profundidade com Aquele que diz que é o caminho, a verdade e a vida – que está disposto a morrer por aquilo em que acredita. E é esta confiança corajosa e alegre que dá sentido ao seu testemunho.

O incrível do Cristianismo encontra-se na proximidade inédita entre Deus e o homem. Portanto, leva a humanidade a uma nova relação consigo mesma, que tem como imagem a comunidade ecuménica de Jesus Cristo.

Ser cristão hoje é viver e proclamar os valores constitutivos da proposta de Jesus, que são:

  • numa sociedade e cultura onde se espera que se odeiem os inimigos, o Cristianismo propõe o amor incondicional, mesmo aos inimigos. Ser cristão é experimentar que se é amado incondicionalmente, independentemente de méritos ou vitórias;
  • numa sociedade onde se responde ao mal com o mal e se busca a vingança, o Cristianismo propõe o perdão, a persistência no mesmo dom, quando não há razões para tal;
  • numa sociedade desigual e injusta, opressora, o Cristianismo propõe uma igualdade radical entre todos. Todos têm a mesma dignidade e merecem o mesmo respeito;
  • numa sociedade que glorifica o poder, o sucesso, o êxito, o Cristianismo propõe a humildade e o serviço como atitudes primordiais e necessárias;
  • numa sociedade onde as leis são simétricas e, portanto, muitas vezes desumanas, o Cristianismo propõe uma justiça que se transcende a si mesma e se torna caridade. Uma justiça não retributiva, mas restaurativa, que não dá ao outro o que merece, mas o que necessita;
  • numa sociedade onde todos buscam o melhor para si, ainda que devendo passar sobre os demais, o Cristianismo propõe a generosidade da partilha e da solidariedade sem limites, que está disposta mesmo a sofrer e a morrer pelos outros.

Tudo isto supõe uma fé em Deus que é mistério, que não é um Ser Supremo ou Substância Suprema, mas sim Espírito de criatividade neste universo. Um Deus em quem, por isso, a fé nunca é permanente e definitiva, mas continuamente procurada. Ser cristão é ser um buscador. Um cristão é um sujeito. Enquanto tal, está em constante crescimento e transformação, em processo permanente de chegar a ser. Portanto, como diz Felix Wilfred, “o “cristão” é um projeto e, obviamente, um projeto inacabado”. Ou ainda Karl Rahner: “Creio que ser cristão é a tarefa mais singela, mais simples e, ao mesmo tempo, aquele pesado jugo leve de que fala o Evangelho. Quando se carrega esse jugo, ele carrega-nos a nós mesmos e, quanto mais tempo vivamos, tanto mais pesado e mais leve chegará a ser. No final, só fica o mistério. Mas é o mistério de Jesus”.

Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio

A Arte

António Damásio, O Livro da Consciência

Se a necessidade de gerir a vida foi uma das razões para o aparecimento da música, da dança, da pintura e da escultura, a capacidade de melhorar a comunicação e a capacidade de organizar a vida social foram outros dois motivos fortes e conferiram às artes u m poder adicional de permanência. Feche o leitor os olhos por um instante e imagine os seres humanos de tempos remotos, talvez antes mesmo do aparecimento da linguagem, mas atentos e conscientes, já dotados de emoções e sentimentos, já com a noção do que é estar triste ou alegre, de estar em perigo ou de ter segurança e conforto, de desfrutar ganhos ou sofrer perdas; de sentir prazer ou dor. Agora imagine como teriam expressado esses estados dos quais já tinham noção. Talvez eles emitissem sons vocais significativos de perigo ou de saudação, de reunião, de alegria, de luto. Talvez emitissem sons melódicos ou até cantassem, dado que o sistema vocal humano constitui um instrumento musical. Ou, já agora, imagine-os a bater no peito, já que a cavidade torácica é um tambor natural. Imagine a percussão de um tambor como um dispositivo de concentração mental ou de organização social – uma batida para que se faça ordem; uma batida para pegar em armas – ou imagine soprar uma flauta primitiva feita de um osso como forma de encantamento mágico, de sedução, de consolo, de brincadeira. Ainda não é Mozart, e não é Tristão e Isolda, mas tinha-se encontrado uma nova forma de expressão. Sonhe um pouco mais.

Quando do nascimento de artes como a música, a dança e a pintura, terá havido provavelmente a intenção de comunicar aos outros informação sobre ameaças e oportunidades, sobre tristeza ou alegria, e sobre o modelar do comportamento social. No entanto, em paralelo com a comunicação, a arte teria também produzido uma compensação homeostática. Se assim não fosse, como teria prevalecido? E tudo isto antes mesmo da maravilhosa descoberta de que quando os seres humanos foram finalmente capazes de produzir palavras e de as unir em frases, nem todos os sons eram iguais. Os sons tinham acentos naturais e esses acentos podiam estabelecer relações temporais. Os acentos podiam criar ritmos, e certos ritmos davam origem a prazer. A poesia poderia assim começar e a técnica poética pôde eventualmente regressar às origens a acabar por contribuir para a prática da música e da dança. A arte apenas poderia surgir depois de os cérebros terem adquirido determinadas características mentais que muito provavelmente se estabeleceram no decurso de um longo período evolutivo, mais uma vez o Pleistoceno. Há muitos exemplos dessas características. Nelas se incluem a reação emotiva de prazer a certas formas e a certos pigmentos, presentes nos objetos naturais, mas também aplicáveis a objetos produzidos pelos seres humanos, bem como à decoração corporal; a reação de prazer a determinadas características dos sons e a certos tipos de organização sonora em relação ao timbre, ao tom e suas relações, bem como aos ritmos. O mesmo sucede quanto à reação emotiva a certos tipos de organização espacial e a paisagens que incluem panoramas vastos e a proximidade de água e de vegetação.

A arte pode ter tido o seu início como dispositivo homeostático para o artista e o destinatário, e como meio de comunicação. Mas posteriormente os usos tornaram-se muito variados, tanto do lado do artista como do lado da audiência. A arte tornou-se um meio privilegiado para a troca de informações factuais e emocionais que pareciam importantes para os indivíduos e para a sociedade, como o demonstram os primeiros poemas épicos, peças teatrais e esculturas. A arte também se tornou um meio de induzir emoções e sentimentos reconfortantes, algo em que a música se tem revelado inultrapassável ao longo dos tempos. Não menos importante, a arte tornou-se uma forma de explorar a nossa mente e a mente dos outros, uma forma de ensaiar aspetos específicos da vida, e um modo de exercitar juízos morais e ações morais. Em última análise, como a arte está profundamente enraizada na biologia e no corpo humano, mas pode elevar os seres humanos às mais altas cumeadas do pensamento e do sentimento, as artes tornaram-se numa via para o refinamento homeostático que os seres humanos acabaram por idealizar e ansiaram por alcançar, o equivalente biológico de uma dimensão espiritual nas questões humanas. Em resumo, a arte prevaleceu na evolução porque teve valor para a sobrevivência e porque contribuiu para o desenvolvimento do conceito de bem-estar. Ajudou a consolidar os grupos sociais e a promover a organização social; apoiou a comunicação; compensou os desequilíbrios emocionais causados pelo medo, pela raiva, pelo desejo e pela mágoa; e provavelmente abriu as portas ao longo processo de estabelecimento de memórias externas da vida cultural, tal como o indicam Chauvet e Lascaux. Já foi sugerido que a arte sobreviveu porque tornou os artistas mais atraentes e bem-sucedidos na atração de parceiros; basta-nos pensar em Picasso para sorrir e concordar. No entanto, a arte provavelmente teria prevalecido apenas com base no seu valor terapêutico.

É fácil de dizer que a arte é uma compensação inadequada para o sofrimento humano, para a felicidade não alcançada e para a inocência perdida. Mas é, apesar de tudo, uma compensação parcial para toda a espécie de calamidades com que nos defrontamos. É uma das mais espantosas oferendas da consciência aos seres humanos.

E qual será a derradeira oferenda da consciência à Humanidade? Talvez a capacidade de orientar o futuro nos mares da nossa imaginação, de levar a nau do eu a um porto seguro e produtivo. Esta suprema dádiva depende, mais uma vez, da intersecção do eu e da memória. A memória, temperada com o sentimento pessoal, é o que permite aos seres humanos imaginar tanto o bem-estar individual como o bem-estar de toda uma sociedade, e inventar formas e meios de alcançar e ampliar esse bem-estar. A memória é responsável pela colocação incessante do eu num aqui e agora evanescente, entre um passado plenamente vivido e um futuro antecipado, em movimento perpétuo entre o ontem que passou e o amanhã que é apenas uma possibilidade. O futuro puxa-nos para a frente, a partir de um ponto longínquo e quase invisível e, garante-nos a vontade de prosseguir a viagem, no presente. Talvez fosse isto que T. S. Eliot quis dizer quando escreveu:

“Tempo passado e tempo futuro

O que pode ter sido e o que foi

Apontam para um fim, que é sempre presente.”

 

António DAMÁSIO, 2010

O Livro da Consciência,

Temas e Debates – Circulo de leitores

Avancemos

indice-jkjkhhpe. Tomás Halík, O meu Deus é um Deus ferido

A nossa fé na ressurreição de Cristo baseia-se no depoimento e na atestação das testemunhas, em cuja fileira somos inseridos e convidados, mediante a fé e pela própria graça; tratou-se e trata-se, aqui, não de “testemunhas” oculares (não houve tais testemunhas para o evento da ressurreição), mas dos que estiveram prontos a testemunhar, com a sua vida, que Jesus não pertence apenas ao passado, e que também nós podemos relacionar-nos com Ele como nosso futuro, e que, em cada momento atual, podemos mostrar que também para nós, em nós e por meio de nós, Ele está presente no mundo e está vivo.indice-der

No entanto, possuímos este dom somente em “vasos de barro” – também a nossa fé permanece, ao mesmo tempo, como um acto humano, nosso, uma fé peregrina que, durante a nossa peregrinação neste mundo e neste corpo, nunca de todo se pode libertar da penumbra da dúvida, nunca se pode esquivar inteiramente às limitações da nossa razão, da nossa linguagem, da nossa experiência e das nossas representações.

Também o mais ardente amor e anseio deve, neste mundo, tal como o peito de Maria Madalena, ser advertido de que, pelo toque, não se arranca totalmente o véu do mistério para o guardar como objeto de posse. Assim como da claridade e do fulgor do monte Tabor o caminho imediatamente declinava e descia para o vale do quotidiano, até à treva do Getsémani, assim também o encontro com o Ressuscitado, mesmo se ele enche de alegria, não se pode “fixar” e alojar no remanso precioso e inestimável das certezas, entre as convicções firmes e as estimativas deste mundo. Ela é uma certeza de outra qualidade, mais profunda e, ao mesmo tempo, mais subtil e admirável, comparável com uma luz que se deve guardar e proteger num caminho ventoso para que não se apague; nem sequer se pode reter Jesus ressuscitado com a proposta de aqui fazermos “três tendas”. Ele está sempre a caminho, vai para o Pai, é o caminho para Ele – e quer que também nós não fiquemos entorpecidos, mas o acompanhemos e avancemos.dscf4717-1024x768