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O Deus de Nick Cave

Georgiana Houghton – The Love of God

O músico Nick Cave, mundialmente reconhecido pelo seu estatuto de estrela musical, é muito mais que isso. Nos últimos anos, a escrita toma-lhe parte da vida diária e, desde setembro de 2018, no blogue em que mantém correspondência com os seus fãs (The Red Hand Files – https://www.theredhandfiles.com/), o músico responde a uma série de questões que lhe vão colocando acerca de variados temas que vão desde a música até ao gosto pelos animais, ou sobre a pandemia, religião e assuntos políticos. Das mais bizarras ou desconcertantes, íntimas e poéticas, às mais banais e previsíveis, todas as perguntas que lhe são colocadas têm uma resposta que nos é próxima. Num tom eloquente e sensível, o artista responde através da vida, num diálogo direto com as próprias vidas de quem o escuta/lê. São textos de uma beleza pura, real, quotidiana que nos tocam onde precisamos sentir. São cartas que são para todos e para cada um de nós individualmente. São um foco de espiritualidade e de alguém que nos diz que “assumi, por razões de sobrevivência, um compromisso com a natureza incerta do mundo. É aqui que o meu coração está.” Podem subscrever a newsletter deste blogue de Nick Cave e assim receber estas cartas de vida. Aqui, transcrevemos uma dessas cartas, na qual o músico responde à eterna, mas sempre nova questão: “O que é Deus?”.

Na sua opinião, o que é Deus?

Cara Sue,

Deus é amor, e é por isso que tenho dificuldade em me relacionar com a posição ateísta. Cada um de nós, mesmo os mais resistentes espiritualmente, anseia pelo amor, quer o realizemos ou não. E este anseio chama-nos para sempre em direção ao seu objetivo – que devemos amar cada amor. Temos de nos amar uns aos outros. E sobretudo penso que o fazemos – ou vivemos muito perto da ideia, porque quase não há distância entre um sentimento de neutralidade em relação ao mundo e um amor crucial por ele, quase não há distância alguma. Tudo o que é necessário para passar da indiferença ao amor é ter os nossos corações partidos. O coração despedaça-se e o mundo explode à nossa frente como uma revelação.

Não há um problema do mal. Há apenas um problema do bem. Porque é que um mundo que é tão frequentemente cruel, insiste em ser belo, em ser bom? Por que é necessária uma devastação para que o mundo revele a sua verdadeira natureza espiritual? Não sei a resposta a isto, mas sei que existe uma espécie de potencialidade logo após um trauma. Suspeito que o trauma é o fogo purificador através do qual encontramos verdadeiramente o bem no mundo.

Todos os dias rezo para o silêncio. Rezo a todos eles. A todos eles que não estão aqui. Neste vazio, derramo todo o meu desejo e necessidade, e com o tempo esta ausência torna-se potente e viva e ativada com uma promessa. Esta promessa que se senta dentro do silêncio é suficientemente bela. Esta promessa, neste momento, é suficientemente espantosa. Esta promessa, neste preciso momento, é Deus suficiente. Esta promessa, neste preciso momento, é o máximo que podemos suportar.

Com amor,

Nick

Uma Força que nos leva

Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

O jornalista Luís Osório publicou, no seu mural de Facebook, um texto sobre o acidente que vitimou, no sábado passado, alguns dos ocupantes de um autocarro que seguia na A1 a caminho de Fátima. Não é um texto sobre as circunstâncias ou os porquês do acidente. Não é um texto sobre a finitude da vida humana ou sobre a efemeridade da nossa passagem terrena. Não é um texto sobre morte. É antes uma reflexão sobre como no meio da morte a vida continua a fluir, sobre como é possível viver a Força quando tudo à nossa volta parece ruir. É ainda um texto sobre a Páscoa, sobre passagem de testemunho. É um hino de ação de graças. É um quadro para o qual devemos olhar sempre que o nosso egoísmo nos vence, sempre que a indiferença nos ataca, sempre que nos esquecemos dos outros. É um apelo a não nos deixarmos derrotar pelo pessimismo, pela ingratidão, pela rabugice que estão sempre à espreita para nos fazer cair na tentação de sermos menos humanos. Por isso, este texto do jornalista Luís Osório é sobre a vida que vence sempre a morte, sobre fortaleza que nos preenche quando a fraqueza nos quer dominar nos momentos sombrios.

Quando a Lara partilhou este texto no nosso grupo, entendi-o tão claramente como se já o conhecesse. Emocionei-me. Pela visão que revela. Pelos sentimentos partilhados. Pelas memórias que me trouxe. Quem já viveu as partidas de quem se ama, entenderá certamente esta Força que, naqueles momentos mais dolorosos, nos acolhe e nos faz caminhar e ser consolo e abrigo para quem está perto de nós. E foi exatamente esta Força que eu experimentei no momento em que o Jorge morreu e que se estendeu nos dias seguintes com tantas manifestações de amor e de vida. Senti-me invadida por uma força tão intensa, tão visceral, tão profunda que me impelia a cuidar de quem estava à minha volta e a levar Vida, sempre a Vida a quem precisava. Há quem chame a esta força um instinto de sobrevivência, uma fuga à realidade. Mas para quem acredita, esta Força sentida e vivida tem um nome – Deus. Uma Força que ainda hoje me arrepia sempre que a sinto e que me leva a querer ser sempre Luz. Uma Força que me(nos) leva a continuar a caminhar nesta Estrada Clara. Não podemos evitar a dor da morte e o sofrimento naturalmente inerente a estas tragédias. Mas podemos confiar. Acreditar. O Amor não morre. Vive em cada um de nós que o aceitamos. Vive quando escolhemos ser Luz! E assim brilhamos, brilham as nossas obras, brilha o nosso Deus! Como Luís Osório afirma no seu texto: “em cada lugar improvável pode existir um farol para nos iluminar. Um farol que nos obrigue a ser todos os dias um bocadinho melhores.” Possamos nós ser esse farol. Sempre. Não deixemos que a nossa Luz se apague. Escolhamos o Bem. A vida. Em cada dia. Hoje.

POSTAL DO DIA, um texto do jornalista Luís Osório, retirado do seu Facebook

A caminho de Fátima, e a meio de um terço, o herói não estava na camioneta

1.

A camioneta ia a caminho de Fátima. Na manhã do último sábado o tempo ameaçava felicidade e as pessoas estavam, também por isso, descontraídas e de farnel posto. Comidas e bebidas para que o dia não fosse apenas de fé e orações, mas também de “mesa” farta. Todos acordaram de madrugada. De terras pequenas do concelho de Guimarães acomodaram-se no autocarro do senhor António. Com casa posta no Airão de Santa Maria fazia questão de ser ele a conduzir a vizinhança. Às 9 e meia da manhã já estavam na Mealhada. Cantaram canções da Igreja. E seguiram as preces da Dona Emília Castro. Todos a adoravam. Todos a ouviam. Todos sentiam que ela, de alguma maneira, era o passaporte para melhor serem ouvidos por Deus. Emília era uma excelente pessoa. Preocupada, ativa. Ajudava na paróquia, ajudava os vizinhos, liderava o coro de Figueiredo, era catequista e o seu marido António, bombeiro há mais de 30 anos.

2.

Uns minutos antes do pneu dianteiro rebentar, Emília levantara-se, pegara no microfone e começara a rezar o terço. Estavam a rezar as palavras mágicas quando tudo aconteceu. Emília foi cuspida com o embate. António, condutor da camioneta, também morreu. Assim como um vizinho de Emília, o senhor Alberto Soares, que ia à frente por causa dos enjoos. Com quase 80 anos já não tinha cabedal para aguentar sem o mínimo de conforto.

3.

Um dia pensarei convosco sobre os que morrem a caminho de algum lugar onde julgam que tudo se iluminará. Num minuto a cabeça enevoada com o “Bem” e no outro minuto a morte a chegar trágica e fúnebre.

Mas hoje quero falar-vos do que me impressionou.  Se tiverem mais trinta segundos, eu conto-vos. Pouco tempo após o acidente os bombeiros das Taipas foram avisados do desastre. O bombeiro António Silva, marido de Emília, meteu-se ao caminho com os seus companheiros – e a meio do percurso, a poucos quilómetros da Bairrada, recebeu a informação de que a sua mulher, mãe dos seus três filhos, tinha morrido. António seguiu caminho e naqueles curtos minutos chorou uma parte da vida que perdera. Não sabemos se telefonou a alguém, não sabemos também por quem foi abraçado, se gritou ou não, não sabemos e pouco ou nada importa.

4.

O que sabemos, o que nos dizem os relatos, é que António ao chegar ao lugar da tragédia foi ajudar quem precisava. A sua mulher estava morta com um lençol por cima, mas ele cumpriu a sua missão com os feridos, com os que estavam em choque, com quem precisava.

Sabem…

Eu costumo muitas e muitas vezes falar do grande mistério que é o “Bem”. Nós nunca desconfiamos do “Mal”, mas do “Bem” a primeira coisa que fazemos é desconfiar.

Mas há pessoas maravilhosas. Há pessoas de uma coragem e verticalidade a toda a prova. Há pessoas que são heróis, mas que ninguém conhece. Talvez no nosso prédio. Talvez na aldeia mais recôndita. Talvez no lugar mais escarpado. E no lugar de Figueiredo, concelho de Guimarães, terra com pouco mais de 400 habitantes, há também um herói. Chama-se António, é bombeiro há 30 anos e tem três filhos, um deles menor. Era casado com Emília, a mulher que rezava o terço e liderava o coro. O homem que hoje abraçamos merece que dele não nos esqueçamos. Eu não me esquecerei que em cada lugar improvável pode existir um farol para nos iluminar. Um farol que nos obrigue a ser todos os dias um bocadinho melhores.

No primeiro dia…

A partir de uma frase/citação/pensamento, a Comunidade Estrada Clara propõe, no primeiro dia de cada mês, um texto de reflexão como ponto de partida para a partilha comunitária e para o desenvolvimento espiritual e social de cada um de nós.

Reflexão para o mês de março de 2022

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“E estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós.” (da 1.ª Carta de Pedro 3, 15)

Encontramo-nos perante mais um inegável desafio. Se há dois anos começávamos então a enfrentar o vírus pandémico que nos sujeitou a um indesejável isolamento e a uma interrogação permanente acerca do nosso bem estar comum, eis-nos agora perante a turbulência e a inquietude que a violência mundial nos traz. Estes “vírus” que nos assolam surgem de um instante para o outro, atrapalham as nossas certezas e incomodam aquilo que é o nosso futuro. “A vida muda num instante. Num dia normal.” é a frase que a escritora Joan Didion vai repetindo ao longo do seu extraordinário livro “O ano do pensamento mágico”. Também ela teve de enfrentar a morte num dia em que esta não estava nos seus planos. Tudo decorre com a normalidade a que sempre nos habituamos e tudo acontece sem nunca nos habituarmos a que aconteça. E tudo acontece numa normalidade a que nem sempre damos valor, ou prestamos atenção ou até mesmo agradecemos. Depois, num “dia normal”, eis que tudo muda. E nós somos obrigados a mudar também. E a questionar.

Quando somos confrontados com estes abalos, a vida exige de cada um de nós uma resposta, uma ação. A vida não é indiferença. A vida é movimento, busca, construção. E a reação de cada um de nós é inevitavelmente diferente, ou não fossemos nós seres também diferentes. Perante esta guerra a acontecer, gente há que quer lutar pelo seu país e está a defendê-lo, recusando boleias de salvação; outros escolhem ir para as ruas físicas e sociais gritar a indignação e assumir como lema de vida comum a solidariedade entre os povos; outros ainda arregaçam as mangas e enchem de bens os camiões que partem em direção ao sofrimento atroz; outros exercem a sua diplomacia para tentar quebrar o castelo de gelo e de ódio onde os poderosos vivem. E o Papa convocou para amanhã, Quarta-Feira de Cinzas, uma jornada de oração e de jejum em união com aqueles que sofrem. Todos nos movimentamos. Todos somos movimentados. Todos temos esta(s) escolha(s). Somos seres com os outros e para os outros. Isto é ser humanidade. É pormo-nos a caminho. É fazermos caminho.

Como posso eu ajudar? O que posso eu fazer? Enquanto cristã, o que me move e comove ao viver este momento mundial? Eu encontro parte da minha ação também na oração, no silêncio que me leva à reflexão, na comunhão de energia e positividade com quem sofre e com quem precisa de sentir conforto. Perante este ambiente de agressão e violência, podemos e devemos unir os nossos pensamentos, a nossa energia, as nossas forças para que aqueles que efetivamente têm poder de decisão e ação possam sentir esta onda de amor, positividade, confiança. É o nosso contributo enquanto parte desta humanidade cristã. Estar em oração é estarmos em partilha de espírito. É procurarmos a força, a energia, a presença de um Deus que é Amor e que dá tanta liberdade ao Homem ao ponto de ele poder escolher livremente a morte. Estar em oração é estarmos em união para que dessa união  todo o universo sinta que só a paz vale a pena. E aqui, como tantas vezes se diz, a fé salva-nos na medida em que nos faz acreditar que há sempre futuro, há sempre esperança, há sempre um sempre que nos salva. Só nesta confiança – que se vai trabalhando dia a dia, que avança, mas tantas vezes também recua – seremos artesãos de paz. Seremos luz para os que estão ao nosso lado. Seremos paz nos nossos contextos sociais.

Como posso fazer mais? Como posso ser mais? Estar em oração não nos dá as respostas que o mundo quer ouvir. Mas estarmos em oração uns com os outros também nos ajuda a serenarmos os nossos corações, a encontrarmos força para seguirmos em tranquilidade, a darmos razões das nossas esperanças. O desespero não deve ser a marca de um cristão. Quem acredita na Vida, não pode morrer em vida, não pode deixar que o medo seja superior à força interior que Deus deposita em cada um de nós. Aqueles que sofrem precisam da nossa esperança, precisam do nosso testemunho, precisam de acreditar que há mais vida, mais amor, mais certeza. Que há mais. Sempre mais. E, acima de tudo e apesar de tudo, estarmos juntos em oração é agradecer sempre o dom da nossa vida, o estarmos vivos aqui e agora, o podermos cantar, sentir e vivermos juntos este amor de Deus.

Deixemos a ingratidão de lado. Eliminemos a indiferença dos nossos dias. Escolhamos ser sempre pessoas agradecidas, de coração aberto e olhar disponível para o bem comum e para a beleza. Que não seja necessário o impacto de uma guerra, a chegada de uma doença, a presença de uma morte ou a ausência de um presente para nos apercebermos que, afinal, somos felizes (já somos felizes!) com muito pouco. E que esse muito pouco é sempre tanto. E é tudo. Aproveitemos cada dia que nos é dado para vivermos verdadeiramente e genuinamente. Que nenhum dia nos encontre por viver. Que nenhum momento nos apanhe distraídos ou desinteressados. Não nos detenhamos nos obstáculos ou nos limites que nos impomos tantas vezes. Não nos deixemos vencer pelas desculpas banais da falta de tempo, de oportunidade, de horário. Ousemos viver. Por cada um de nós e pelos outros, particularmente por quem já não o pode fazer devido a tantas circunstâncias infelizes. Sejamos paz. Sejamos luz. Sejamos caminho.

Um caminho a percorrer

Uma reflexão escrita pela teóloga Nancy Small a propósito da tão comentada passagem da Carta de São Paulo aos Efésios, proclamada na eucaristia do passado domingo, e que nos leva a partilhar a necessidade de percorrer um novo caminho na descoberta, no entendimento e no acolhimento da sociedade do nosso tempo. Igualmente importante é sempre o diálogo entre diferentes opiniões e, acima de tudo, que este diálogo seja sempre construído tendo por base o amor, a aceitação e a vontade de entender o outro, não deixando espaço para a crítica sem fundamento e não descontextualizando as palavras que são proferidas.

Depois de proclamar a instrução de S. Paulo para nos revestirmos «de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência» na sua carta aos Colossenses, o leitor leu: «Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor» (Colossenses 3, 18).

Há anos que ouço essas palavras proclamadas numa igreja. Desta vez, a mensagem pareceu ainda mais ofensiva do que no passado. Durante meses, ouvimos uma série de mulheres a falar sobre assédio sexual, abuso e condutas impróprias às mãos de homens poderosos. Também ouvimos as mulheres a dizer «acabou o tempo», o que significa que chegou o momento em que esses comportamentos já não são tolerados e as mulheres deixaram de ficar em silêncio. Ouvir uma leitura das Escrituras que apoia a submissão das mulheres neste contexto parecia seriamente errado.

O dicionário define «submeter» como «pôr debaixo de», «tornar dependente», «sujeitar; obrigar; subjugar». Instruir as esposas a serem submissas aos seus maridos perpetua a ideia de que as mulheres devem ser obedientes aos homens e contribui para uma cultura do domínio masculino. Este tipo de pensamento abre uma caixa de Pandora para a subjugação das mulheres numa escala mais ampla. Com efeito, se as mulheres são consideradas inferiores ao seu parceiro no casamento, certamente serão tratadas como inferiores na sociedade em geral.

As palavras de S. Paulo foram escritas num tempo em que as mulheres eram consideradas inferiores aos homens. Mas os tempos mudaram. Porque é que, hoje em dia, a Igreja católica ainda proclama leituras das Escrituras que suportam um entendimento das mulheres como submissas? Se se ler todo o terceiro capítulo da carta aos Colossenses, observar-se-á que contém instruções para os escravos, dizendo: «Escravos, obedeçam em tudo aos vossos mestres humanos» (3, 22). Não ouvimos esta parte proclamada no ambão porque não está incluída no lecionário. Se a ouvíssemos, reconheceríamos que a leitura está desatualizada. Poderíamos objetar ao percebermos que a Igreja estaria a aceitar a escravidão quando se proclamasse um trecho da Escritura que diz aos escravos como se hão de comportar.

Então por que é que o lecionário inclui partes das Escrituras sobre esposas que também estão desatualizadas e são objetáveis? A submissão das mulheres no contexto do casamento é inconsistente com o ensino da Igreja e a prática pastoral. O Catecismo da Igreja católica refere-se ao casamento como uma parceria entre um homem e uma mulher e fala de amor mútuo (1602, 1604). A bênção nupcial lida durante o sacramento do Matrimónio reza: «Confie nela o coração do seu marido, honrando-a como companheira igual em dignidade». O Papa Francisco desenvolve ainda mais esta mensagem de amor mútuo. Na sua exortação apostólica Amoris laetitia refere-se ao amor conjugal como «uma união que tem todas as características duma boa amizade: busca do bem do outro, reciprocidade, intimidade, ternura, estabilidade e uma semelhança entre os amigos que se vai construindo com a vida partilhada». No casamento «partilha-se tudo (…) sempre no mútuo respeito». Escreve Francisco: «O amor confia, deixa em liberdade, renuncia a controlar tudo, a possuir, a dominar. Esta liberdade, que possibilita espaços de autonomia, (…) consente que a relação se enriqueça».

Neste género de amor não há lugar para a submissão. A compreensão que o Papa tem do amor como uma força que não controla, possui ou domina é uma mensagem extremamente necessária na Igreja e na sociedade hoje. Este género de amor no contexto do casamento apoia a igualdade entre os cônjuges e encoraja o crescimento individualmente e em conjunto. Este género de amor que enriquece e expande os relacionamentos promove a cura e assegura o poder de transformar.

Temos um longo caminho a percorrer para mudar a nossa cultura de uma perspetiva em que a má conduta sexual contra as mulheres é generalizada e tolerada para uma cultura em que as mulheres são tratadas com dignidade e respeito. A Igreja tem um papel importante a desempenhar na realização desta transformação. Podemos dar um passo simples e no entanto substancial nessa direção ao simplesmente não proclamar textos da Escritura que submetem as mulheres. Melhor ainda, vamos remover esses textos dos nossos lecionários.

Quanta alegria nos é possível?

«Na plenitude da alegria pascal, exultam os homens por toda a terra…»: durante os cinquentas dias entre a vigília pascal e o Pentecostes, o prefácio da oração eucarística da missa convida-nos diariamente a viver a alegria da ressurreição. Uma alegria universal que deveria envolver toda a humanidade. «Alegrai-vos e exultai», exortava-nos o papa Francisco há três anos, ao citar as palavras de Jesus dirigidas «a quantos são perseguidos ou humilhados por causa dele» (“Gaudete et exsultate”, 1). toda a liturgia é um convite constante a fazer festa: do “Exsultet” da grande vigília ao canto do “Regina coeli”.

Podemos perguntar-nos se em tudo isto não há retórica a mais. O que é esta «plenitude da alegria que canta o prefácio? Quanta alegria é possível verdadeiramente experimentar «neste vale de lágrimas»? Qual é a felicidade a que podemos realisticamente aspirar nas contradições da vida? A humanidade que deveria exultar sobre toda a Terra continua ferida e sofredora. As catástrofes naturais continuam a acontecer, e para populações inteiras as carestias não são uma recordação do passado. As guerras recomeçam sempre, apesar do empenho de muitos construtores de paz. Os acidentes nas estradas acontecem e os casamentos falham. O mal não cessa de morder a carne dos mais frágeis, nas formas mais diversas, mas também não poupa ricos e poderosos. É possível, é lícito a alegria nestas condições? Não se trata de uma alegria falsa, forçada, ou que no máximo abrange apenas poucos momentos da vida ou um restrito número de afortunados?

Sim, ainda não está tudo bem, mas a alegria cristã não é um sonho para gente iludida. Estamos nas mãos de Deus. Sempre. «Alegra-se o meu coração e exulta a minha alma: (…) porque não abandonarás a minha vida nos infernos…». Eis a fonte da verdadeira alegria pascal, a viver em plenitude.

A alegria cristã existe, e é autêntica. Precisamos dela precisamente para enfrentar os compromissos e os cansaços da vida, como ensinava às suas irmãs Santa Teresa de Calcutá. Mas não é uma alegria excessiva, impudente, agressiva. Não solicita manifestações eufóricas e intemperantes. Manifesta-se na luz dos olhos, mas brota e permanece no íntimo. É alegria incontida, mas moderada. É inebriamento sóbrio e espiritual. É uma felicidade visível, mas nunca ostentada. Não suscita a inveja dos sofredores: antes, consola-os e contagia-os. A alegria cristã não é cega diante das dores da vida. Não é otimismo obstinado e obtuso, nem voluntária autoilusão. Não se contenta com um pensamento cor-de-rosa perante o persistente mal de viver. O ano passado ouvimos repetir, como um mantra, «correrá tudo bem», e nas redes sociais partilhavam-se fotografias coloridas e tolas. Tentativas miseramente fracassadas de exorcizar o medo. Não correu tudo bem. Muitas pessoas adoeceram e muitas morreram. Muitíssimas sofreram pesadíssimos danos económicos. E ainda não acabou. Os males do mundo não são apenas a pandemia.

Contudo, tudo isto não prejudica a verdadeira alegria cristã. Podemos, devemos, continuar a entoar o aleluia pascal. Porque, como cantava Leonard Cohen, «love is not a victory march: it’s a cold and it’s a broken “Halleluja”». A exultação pascal é filha do amor, e o amor, quando verdadeiro, não é uma marcha triunfal. Ainda não, por agora. O amor é empastado de felicidade e de sacrifício, em simultâneo, incindivelmente. O tempo da História é ainda o tempo de um aleluia muitas vezes «frio e despedaçado». Um aleluia firmemente desejado, consciente, ferido pelas provações da vida, e todavia pleno de confiança, porque animado por uma esperança invencível. Porque é um fio estendido entre a certeza histórica da ressurreição de Jesus e a espera escatológica da nossa ressurreição. A alegria cristã radica-se no “já” do acontecimento pascal – o túmulo vazio – e estende-se até ao «não ainda» das bodas do Cordeiro. Aquele túmulo vazio é profecia da Jerusalém celeste, quando finalmente «all shall will be well, and all manner of thing shal be well», como Juliana de Norwich ouviu dizer-lhe do Senhor Jesus.

Sim, ainda não está tudo bem, mas a alegria cristã não é um sonho para gente iludida. Estamos nas mãos de Deus. Sempre. «Alegra-se o meu coração e exulta a minha alma: (…) porque não abandonarás a minha vida nos infernos…» (Salmo 15). Eis a fonte da verdadeira alegria pascal, a viver em plenitude. Esta certeza de fé torna possível e lícito cantar o aleluia também nos claros-escuros do presente. Melhor: não só é lícito, como é «nosso dever, é nossa salvação».

Filippo Morlacchi in L’Osservatore Romano

O nosso tempo não é o de Deus

«Houve um tempo – conta a história – em que, se uma pessoa perdesse uma diligência, não havia problema. Esperava pela próxima, que chegaria seis meses depois. Mas, no nosso tempo (diz a piada), as pessoas têm um colapso se perdem a entrada numa secção duma porta giratória.» Esta história merece ser tomada em consideração. O problema é que, devido à aceleração da nossa sociedade, muitas vezes, não nos apercebemos que a vida é muito mais do que velocidade – especialmente a vida espiritual.

A vida espiritual é um processo de crescimento para a maturidade, com um erro, um esforço mal sucedido de cada vez, até que, finalmente, nos damos conta que um erro espiritual é coisa que não existe. Basta que aprendamos com os erros para os transformar a todos em ganho.

A oração e um espírito orante ajudam-nos a compreender que o processo é tão importante, para a qualidade de vida, quanto a produtividade. A maneira como encaramos a vida é tão importante para o seu resultado final como aquilo que fazemos enquanto vivemos. O facto é que muito poucas coisas podem, realmente, ser forçadas antes do seu tempo. O amor não pode ser forçado. O crescimento não pode ser forçado. A compreensão não pode ser forçada. A aceitação não pode ser forçada. Tal como o nascimento, essas coisas germinam na escuridão até chegarem ao amadurecimento – quer delas, quer nosso.

Conseguir apreciar a diferença entre o nosso tempo e o tempo de Deus é essencial para nos tornarmos pessoas espirituais. O tempo de Deus é o que nos prepara para funcionarmos bem no nosso tempo.

É fácil, por exemplo, ser-se «espiritual», quando nada nos desencoraja nem testa o nosso ânimo, nem põe à prova os nossos corações. Mas é precisamente a experiência do desencorajamento, nos nossos esforços, que nos pode fortalecer o suficiente para lidarmos bem com aquilo que esperamos, seja o que for. Testar os nossos espíritos – ter que verificar os nossos impulsos, uma e outra vez – ensina-nos, finalmente, a controlar a nossa ira ou a abafar a nossa inveja. É a dor da perda que nos ensina que nada se perde realmente; simplesmente, tem de ser encontrado de outras formas.

Viver a vida de Deus significa aprender a «forrar-nos de paciência», como diziam os antigos. Significa aprender a esperar que todas as nossas necessidades sejam respondidas no tempo de Deus – e, de certa forma, que todos os nossos desejos sejam satisfeitos; de certa forma, que todas as nossas esperanças sejam preenchidas; de certa forma, embora não necessariamente da maneira como nós próprios teríamos feito.

Preparem-se, preparem-se, preparem-se. E depois esperem. No tempo de Deus, a sua vontade será feita.

Joan Chittister
In O sopro da vida interior, ed. Paulinas

Joan Chittister é uma freira beneditina norte-americana e um nome incontornável no campo da espiritualidade cristã.

Joan Chittister (26.abril.1936) é uma freira beneditina norte-americana, teóloga e oradora e um nome incontornável no campo da espiritualidade cristã. https://www.joanchittister.org/

O sentido da vida. Quem sou?

Anselmo Borges, padre e professor de Filosofia

A presente crise, gigantesca, deveria ser uma oportunidade para pôr de modo mais profundo a questão decisiva do sentido da vida. Sentido tem a ver com viagem, direção, meta. Nas estradas, encontramos placas em seta a indicar o caminho para alcançar um destino. Agora, até programamos o GPS que nos levará lá.

Qual é o sentido da vida e a sua meta? Num primeiro momento, a resposta parece clara: a vida é um milagre e o seu sentido é ela mesma. O sentido está nela, no viver plenamente, na criatividade do dar e receber, em plena e total inter-relação.

Mas em nós a vida torna-se consciente. O ser humano é autoconsciente, consciente de si mesmo e, por causa da neotenia – ao contrário dos outros animais, não vimos já feitos ao mundo, mas por fazer, sendo a nossa missão fazermo-nos a nós mesmos, uns com os outros -, a questão do sentido da vida torna-se uma questão pessoal, essencial e inevitável. Não é uma questão adjacente, que se possa pôr ou não. Ela é constitutiva: ser ser humano é levar consigo esta questão: quem somos?, donde vimos?, para onde vamos?, que devemos fazer?, que sentido dar à existência?

Somos uns com os outros e frente aos outros, mas cada um de nós vive-se a si mesmo como presença de si a si mesmo como um eu único: eu sou eu e não outro. Coincidimos, portanto, connosco, mas, por outro lado, experienciamo-nos como ainda não plenamente idênticos: somos nós mesmos e somos chamados a ser nós mesmos; num apelo constante a fazermo-nos, estamos ainda a caminho de nos tornarmos nós mesmos. Lá está a tarefa paradoxal que nos pertence, segundo Píndaro: “Torna-te no que és.”

Precisamente deste paradoxo de sermos e ainda não sermos adequada e plenamente surge a nossa inquietação radical e a pergunta que nos constitui: afinal, o que somos?, quem somos? Uma vez que estamos essencialmente voltados para o futuro, temos de dizer: eu venho de um passado e sou também resultado desse passado, vivo-me no presente, mas eu ainda não sou plenamente, eu ainda não sou o que serei. Cá está, portanto, a pergunta – e o ser humano é radicalmente perguntante, porque é perguntado -, a pergunta radical e ineliminável: então o que é que eu sou e quem sou? E esta pergunta não pode deixar de colocar a pergunta pelo sentido da vida, pois está em conexão com ela: só no processo do viver e do ir-me fazendo poderei ir sabendo quem sou.

Mas fazer-me a caminho de quê? Qual é o sentido? Lá estão as inapagáveis perguntas de Immanuel Kant: “Que posso saber? Que devo fazer? O que é que me é permitido esperar?” E continua: se pudéssemos responder a estas três perguntas, encontraríamos resposta para a quarta, a decisiva: “O que é o Homem?” Afinal, o que somos e quem somos?

O animal, cuja vida é assegurada por instintos, não faz perguntas. O Homem, porque é autoconsciente, inacabado e livre, precisa de saber em que sentido deve orientar a sua existência e quer saber quem é.

Entre todos os seres da Terra, só o Homem é livre – Kant sugeriu que a liberdade é o divino em nós – e, assim, moral e responsável, só ele tem capacidade de racionalidade abstrata, de autoposse, de opção, só ele se sabe sujeito de obrigações morais para lá dos instintos, só ele pode rir e sorrir, só ele é animal simbólico e simbolizante, só ele pode amar, saber e saber que sabe, só ele é capaz de autoconsciência, de linguagem duplamente articulada, de sentido do passado e do futuro, de promessas, de criação e contemplação da beleza, de descida à sua intimidade e subjetividade pessoal, só ele sabe que é mortal e gasta tempo com os mortos e rituais funerários e espera para lá da morte, só ele pergunta e fá-lo ilimitadamente, só ele cria instituições jurídicas, só ele tem de se confrontar com a questão da transcendência e do Infinito… Precisamente este conjunto de notas mostra que o ser humano é qualitativa e essencialmente distinto dos outros animais, a diferença não é apenas de grau, mas essencial.

Impõe-se agora perguntar: para que tenha as capacidades que tem e faça tudo o que faz, qual é a sua constituição metafísica? Tem de haver um factor X que está na base de todas estas capacidades. Tradicionalmente, chamou-se-lhe alma. Dada a dificuldade, se não impossibilidade, de pensar hoje o dualismo corpo-alma, compreender o Homem para lá desse dualismo, sem cair no monismo idealista nem no reducionismo materialista mecanicista ou biologista, constitui tarefa ingente para a Filosofia.

As investigações etológicas, bioquímicas, da genética, das neurociências constituem hoje talvez o maior desafio alguma vez lançado a uma conceção verdadeiramente humanista e espiritualista do Homem, por causa da tentação de reduzir o humano a uma explicação no quadro exclusivo do zoológico e bioquímico. De qualquer forma, ao Homem reflexivo impor-se-á sempre a subjetividade própria: por mais que objetive de si, o sujeito humano deparará sempre com o inobjetivável, já que a condição de possibilidade de se conhecer objetivando-se é ele mesmo enquanto sujeito irredutível. Na reflexão, o Homem é o sujeito e o objeto do conhecimento: sujeito que se conhece como objeto, mas sem se reduzir a objeto. Enquanto sujeito transcenderá, portanto, continuamente a explicação das ciências objetivantes. Para aclarar um pouco a dificuldade do tema, costumo dizer: eu não posso ir à janela ver-me a passar na rua.

Quem sou eu? Não sou coisa. O Homem não é mero objeto. Aí está o enigma, o mistério e a dignidade de um eu a caminho.

Stille Nacht

Em 1816, nasceu a canção de Natal “Silent Night”. Contam as histórias que na vila de Oberndorf na Áustria, o padre Joseph Mohr, preocupado com a possibilidade de uma noite de Natal sem música, porque os ratos tinham roído os foles do órgão da igreja, procurou um instrumento que pudesse substituir o antigo. Nas suas pesquisas, começou a imaginar como teria sido a noite em Belém. Fez anotações e pediu ao músico Franz Gruber que lhes desse uma melodia. A nova canção foi assim composta originalmente para guitarra. Esta é a mais famosa canção de Natal em todo o mundo. É cantada em todos os lugares onde se celebra o Natal. Os seus autores não imaginavam que a sua canção composta numa aldeia perdida da Áustria daria a volta ao mundo em menos de 200 anos e ficasse para sempre como um símbolo musical do Natal. Musicalmente até tem uma estrutura pobre, anda à volta da tónica e dominante, I, IV e V grau. Por ser assim, ao longo dos anos, enriqueceram-na com vozes e orquestrações, como o provam as diversas versões para coro desta canção. É cantada tanto pelas crianças das escolas como pelos poderosos cantores líricos. Está traduzida em todas as línguas que celebram o Natal. Em francês, tomou o doce nome “Douce Nuit”, em inglês o calmo “Silent Night”, em espanhol a divertida e querida “Noche de Paz”, em português “Noite Feliz” que quer dizer noite feliz, em latim “Sancta Nox” e, já agora, em checo “Tichá Noc”. E em zulu, pronto, “Busuk obuhl”. No original chama-se “Stille Nacht”. “Nacht” é noite e “Stille” quer dizer quieto, calmo, tranquilo, silencioso, calado. O verbo alemão “Stillen” quer dizer sossegar, saciar, amamentar. Não pensou mal o padre Joseph ao tentar imaginar o que se teria passado naquela noite em que Jesus nasceu. Foi, com toda a certeza, uma noite serena, uma noite de paz. Um início revelador.

Um dos significados que encontro no Natal é este: o do silêncio. O silêncio onde o Homem se encontra com Deus e descobre o sentido da sua vida. O silêncio onde cada um de nós se torna mais elevado. Como a sociedade dá pouco valor ao silêncio e fala demais, acaba por perder a sua orientação. É curioso que as curas modernas para os stresses diários, umas mais eficazes do que outras, sejam todas operadas em silêncio. Ele é o yoga, o tai-chi, o pilates, a aromoterapia, a musicoterapia, os exercícios de respiração e relaxamento, as massagens, as aulas de flexibilidade, de corpo e mente e outras modalidades. Não percebe o executante que uma grande parte do sucesso destas terapias vem do tempo que, por vias delas, acaba por dedicar ao silêncio e ao encontro consigo mesmo. E sente-se melhor no fim daquela hora.

Tudo o que é belo vem do silêncio. Não se constrói nada de valor e duradouro no meio do barulho e da inquietação. É necessário sensibilizar o nosso corpo para além daquilo que os nossos sentidos nos mostram. É necessário a todos ver a beleza, a proporção, o limite e o abstrato. Procurar o que existe no silêncio. Nós também somos feitos do ar que respiramos, do silêncio das flores a crescerem, do silêncio de uma obra de arte, do silêncio de uma oração, do silêncio do sol e da lua, do eterno. A felicidade, a satisfação e a alegria que todos procuram não estão no mesmo plano do dinheiro, do poder, das vaidades, dos carros, das casas e da doutorice. Estão no plano do silêncio, da quietude, da serenidade. É necessário perceber que as vidas que crescem em silêncio são diferentes das outras. Os que entendem isto são felizes mais cedo.

                                                                          Jorge, Natal de 2008

Na vila de Oberndorf há atualmente uma capela “Capela Noite Feliz”, em cujos vitrais há a imagem dos criadores da canção. Esta capela tem lugar para 20 pessoas, porém, atualmente, a Missa do Galo é celebrada ao ar livre para 7 mil fiéis, além da visita de 1600 turistas no mês de dezembro.

As festas

Valter Hugo Mãe, 21.dezembro.2020,
Jornal de Notícias

Sei bem que não estarei com as minhas pessoas nas festas, mas quero acima de tudo que tenhamos uma infinidade de anos para nos voltarmos a juntar. Resisto bem à distância imposta agora porque sinto que a companhia incide na convicção da pertença. Pertencermos genuinamente a alguém e alguém nos pertencer é não sermos sozinhos. Ao contrário, por mais rodeados de gente que estejamos, sem essa ideia de sermos inelutavelmente uma dimensão intrínseca do outro seguimos sós. Farei das festas a celebração desta companhia, a de saber que as minhas pessoas me justificam sempre a vida, quer nos vejamos mais ou menos, quer nos falemos mais ou menos. Cada coisa que faço ou conquisto é uma alegria que me cobre e as cobre. Quer nos vejamos, falemos ou não.

Amenizo a ansiedade pela lúcida alegria de saber que estamos de saúde e nos continuamos a amar. E vamos dispor a refeição na mesa como se nos imitássemos uns aos outros. Sabemos os nossos costumes, manias e melindres, sabemos das ínfimas especificidades, e será fácil pressentirmos a algazarra. Temos a voz de cada um como património íntimo, ouviremos o que nos parecer urgente e responderemos com gratidão. Por todo o tempo que a vida me der no Mundo onde estão também aqueles que amo, eu praticarei a gratidão.

Por mais que nos devamos defender da pena da pandemia e da derrocada económica, o começo de toda a ajuda estará em mantermos pontos de luz como ofício de esperança. Não há sentido naqueles que não esperam nada, os que desistiram de qualquer hipótese para futuro. Quando me sentar à mesa, mais sozinho do que em outras festas, colocarei diante de mim esse desafio sincero, do amor à esperança, minha forma de lutar vai ser a de homenagear cada ausente com a ideia de que quero resistir e quero obrigar a resistir. Haverá futuro. Tenhamos sempre um compromisso com ir lá ver como estaremos ainda juntos por essa alegria de nos continuarmos a pertencer.

Este ano, a minha mãe dispôs lembranças e algumas peças que decoram os cantos das estantes em jeito de presépio de pessoas e viagens. Não é imperioso que decalque o nascimento de Cristo. De algum modo, tudo se celebra agora, como se tudo fosse de nascer agora. Gosto que esteja a pequena estatueta de Jorge Amado, ou a ovelha que a minha amiga Lourdes Pereira me trouxe de Mallorca. Gosto que esteja o São Bento e a pequena romã que comprei na Grécia. Pelas pessoas e pelos lugares, a minha mãe inventou um presépio onde se amam todas as pessoas e todos os lugares. Se isso não for o melhor que alguma fé poderia fazer por nós, então já não entendo nada. Por todo o tempo das festas, o presépio perfeito da minha mãe é uma lição. Honra quem somos e promete não esquecer.

Quando servirmos o bacalhau, lembraremos. Faremos votos para que todos encontrem a mesma paz, apontem à mesma esperança, mantenham-se saudáveis por modo de amar.

Os refugiados estão nos textos do Natal

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Paulo Rangel, PÚBLICO 24.dezembro.2019

A condição de refugiado está radicada e gravada no código genético do cristianismo, na “história de vida” de Jesus.

1. O tempo de Natal é (ou era) por excelência o tempo das narrações dos chamados evangelhos da infância (Mateus e Lucas). Aquelas histórias, já de si não históricas, eram largamente recriadas e acrescentadas no imaginário popular e no encantamento infantil. Hoje, véspera de Natal, em plena crise global de refugiados, vale a pena voltar a esses textos fundacionais e tentar perscrutar quão além vão da tradição e da imaginação e quão fundo interpelam crentes e não crentes.

2. Evoquemos a propósito o Evangelho de Mateus (Mateus 2:13-23), quando relata a ida de Jesus, Maria e José para o Egipto, fugindo à perseguição do rei Herodes. Não há como esconder ou desvalorizar: Jesus e a sua família foram verdadeiros refugiados; não migrantes, mas sim refugiados. Jesus, seu pai e sua mãe tiveram de se refugiar no Egipto por serem o alvo de uma perseguição e estarem em risco de morte. Parece certo, nas esparsas linhas do texto, que a notícia de que tinha nascido o Messias foi vista por Herodes como uma ameaça política, uma ameaça à sua legitimidade enquanto rei dos Judeus. Daí que tenha mandado matar todos os primogénitos até à idade de dois anos. Convergem, pois, aqui as dimensões política e religiosa: Jesus foi o alvo – o alvo directo – de uma perseguição político-religiosa, que obrigou a sua família a refugiar-se. Nesta narração, encontramos ainda uma última menção, assaz relevante para o tema. Efectivamente, quando José decidiu voltar a Israel, pretendia ir para a Judeia, mas, porque aí reinava Arquelau, filho de Herodes, resolveu afinal instalar-se em Nazaré, na Galileia. Pois bem, mais uma vez, a sua escolha não foi livre; foi politicamente motivada. A condição de refugiado está, portanto, radicada e gravada no código genético do cristianismo, na “história de vida” de Jesus.

3. Sabemos bem que os Evangelhos da infância, seja em Mateus, seja em Lucas, se inscrevem na tradição literária do “Midrash”, bastante comum na escrita hebraica. Não se cura, ao invés do que o público crente e não crente geralmente supõe, de um relato histórico, susceptível de suporte factual e documental. Não há nele qualquer preocupação de “fazer história”. Existe isso sim o desígnio de “fazer pedagogia”, de fazer uma narração exemplar, de contar “uma” história – de contar uma história, com todo o potencial heurístico inerente.

O episódio da fuga de Jesus para o Egipto apresenta Jesus como o novo Moisés, Aquele que refaz o caminho antes feito pelo povo de Israel. Há até um paralelo expresso com Moisés na saga da “morte dos inocentes”. Recordando episódios que hoje são menos retidos: o Faraó tinha ordenado a morte de todas as crianças judias, exigindo às parteiras que as matassem. Como estas acabaram por não o fazer, ordenou então que as crianças fossem lançadas ao rio. Com o intuito de o salvar, a mãe de Moisés põe-no no rio Nilo, mas dentro de um cesto. A irmã de Moisés vai alertar a irmã do Faraó para a necessidade de encontrar alguém disponível para amamentar a criança, indicando como ama a própria mãe de Moisés. É bom de ver que, na passagem de Mateus, Herodes assume a figura do Faraó e Jesus surge como o novo Moisés. O desígnio da narrativa é evidente: Jesus é o novo Moisés, o novo libertador do povo de Israel.

4. Não é, portanto, apenas o Novo Testamento que nos oferece uma história de migração e de refúgio; é outrossim o Antigo Testamento, que, de resto, nos apresenta múltiplas situações de perseguição, degredo e servidão do povo hebreu. A história deste povo – todos o sabemos – é uma história constante de fuga e migração. Neste contexto, vale a pena chamar a atenção para o versículo 22 do capítulo 2 do Livro do Êxodo, em que se diz, a respeito da mulher de Moisés: “Ela deu à luz um menino, a quem Moisés pôs o nome de Gerson dizendo ‘Sou emigrante em terra estrangeira’.” Ora, o nome Gerson significa peregrino, “de passagem”, alguém que é hóspede, que não está na sua terra. Tudo isto demonstra que há na cultura judaico-cristã um estatuto próprio para o migrante, para o estranho, o estrangeiro. Se Jesus foi um autêntico refugiado, Moisés será talvez um migrante de segunda geração (já nasceu no Egipto).

5. Em suma, há na Bíblia um fundamento próprio, uma fonte directa, para o acolhimento dos refugiados e dos migrantes. O acolhimento do estrangeiro, do que teve de deixar a sua terra é, pois, um carisma judaico-cristão. Não se compreende, por isso, a estranheza e desconforto com que tantos vêem o apoio incondicional que o Papa Francisco dá aos refugiados. E muito menos se compreende o ataque que, na política italiana, Salvini e os seus seguidores – que invocam fervorosamente os valores do cristianismo – fazem ao Papa Francisco. É uma ferida aberta por causa da questão migratória e pela posição firme da Igreja que, incondicionalmente, está ao lado e do lado dos migrantes e dos refugiados.

Quando pensamos no estatuto do migrante ou refugiado, não estamos a falar numa decorrência pura e simples do mandamento do amor ao próximo – embora essa simples inferência fosse mais do que suficiente. A verdade é que há fundamento específico e literal para fazer do acolhimento dos migrantes e refugiados uma causa primeira daqueles que se revêem na matriz cristã. Este fundamento não é apenas cristão, mas judaico-cristão. Não é, aliás, por simples casualidade, que, a propósito da saga do povo hebreu, falamos na diáspora. Os judeus, por natureza, estavam fora da sua terra. Há, assim, um mandato a partir dos textos sagrados para cuidar dos refugiados, dos deslocados, dos migrantes, dos que estão em fragilidade porque estão fora do seu ambiente natural. Neste sentido, a ideia de acolhimento, de hospitalidade, de asilo, de auxílio e de integração pertencem ao núcleo mais genuíno dos valores cristãos. A liturgia do Natal também serve para o recordar, para o trazer de novo ao coração.