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Um caminho a percorrer

Uma reflexão escrita pela teóloga Nancy Small a propósito da tão comentada passagem da Carta de São Paulo aos Efésios, proclamada na eucaristia do passado domingo, e que nos leva a partilhar a necessidade de percorrer um novo caminho na descoberta, no entendimento e no acolhimento da sociedade do nosso tempo. Igualmente importante é sempre o diálogo entre diferentes opiniões e, acima de tudo, que este diálogo seja sempre construído tendo por base o amor, a aceitação e a vontade de entender o outro, não deixando espaço para a crítica sem fundamento e não descontextualizando as palavras que são proferidas.

Depois de proclamar a instrução de S. Paulo para nos revestirmos «de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência» na sua carta aos Colossenses, o leitor leu: «Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor» (Colossenses 3, 18).

Há anos que ouço essas palavras proclamadas numa igreja. Desta vez, a mensagem pareceu ainda mais ofensiva do que no passado. Durante meses, ouvimos uma série de mulheres a falar sobre assédio sexual, abuso e condutas impróprias às mãos de homens poderosos. Também ouvimos as mulheres a dizer «acabou o tempo», o que significa que chegou o momento em que esses comportamentos já não são tolerados e as mulheres deixaram de ficar em silêncio. Ouvir uma leitura das Escrituras que apoia a submissão das mulheres neste contexto parecia seriamente errado.

O dicionário define «submeter» como «pôr debaixo de», «tornar dependente», «sujeitar; obrigar; subjugar». Instruir as esposas a serem submissas aos seus maridos perpetua a ideia de que as mulheres devem ser obedientes aos homens e contribui para uma cultura do domínio masculino. Este tipo de pensamento abre uma caixa de Pandora para a subjugação das mulheres numa escala mais ampla. Com efeito, se as mulheres são consideradas inferiores ao seu parceiro no casamento, certamente serão tratadas como inferiores na sociedade em geral.

As palavras de S. Paulo foram escritas num tempo em que as mulheres eram consideradas inferiores aos homens. Mas os tempos mudaram. Porque é que, hoje em dia, a Igreja católica ainda proclama leituras das Escrituras que suportam um entendimento das mulheres como submissas? Se se ler todo o terceiro capítulo da carta aos Colossenses, observar-se-á que contém instruções para os escravos, dizendo: «Escravos, obedeçam em tudo aos vossos mestres humanos» (3, 22). Não ouvimos esta parte proclamada no ambão porque não está incluída no lecionário. Se a ouvíssemos, reconheceríamos que a leitura está desatualizada. Poderíamos objetar ao percebermos que a Igreja estaria a aceitar a escravidão quando se proclamasse um trecho da Escritura que diz aos escravos como se hão de comportar.

Então por que é que o lecionário inclui partes das Escrituras sobre esposas que também estão desatualizadas e são objetáveis? A submissão das mulheres no contexto do casamento é inconsistente com o ensino da Igreja e a prática pastoral. O Catecismo da Igreja católica refere-se ao casamento como uma parceria entre um homem e uma mulher e fala de amor mútuo (1602, 1604). A bênção nupcial lida durante o sacramento do Matrimónio reza: «Confie nela o coração do seu marido, honrando-a como companheira igual em dignidade». O Papa Francisco desenvolve ainda mais esta mensagem de amor mútuo. Na sua exortação apostólica Amoris laetitia refere-se ao amor conjugal como «uma união que tem todas as características duma boa amizade: busca do bem do outro, reciprocidade, intimidade, ternura, estabilidade e uma semelhança entre os amigos que se vai construindo com a vida partilhada». No casamento «partilha-se tudo (…) sempre no mútuo respeito». Escreve Francisco: «O amor confia, deixa em liberdade, renuncia a controlar tudo, a possuir, a dominar. Esta liberdade, que possibilita espaços de autonomia, (…) consente que a relação se enriqueça».

Neste género de amor não há lugar para a submissão. A compreensão que o Papa tem do amor como uma força que não controla, possui ou domina é uma mensagem extremamente necessária na Igreja e na sociedade hoje. Este género de amor no contexto do casamento apoia a igualdade entre os cônjuges e encoraja o crescimento individualmente e em conjunto. Este género de amor que enriquece e expande os relacionamentos promove a cura e assegura o poder de transformar.

Temos um longo caminho a percorrer para mudar a nossa cultura de uma perspetiva em que a má conduta sexual contra as mulheres é generalizada e tolerada para uma cultura em que as mulheres são tratadas com dignidade e respeito. A Igreja tem um papel importante a desempenhar na realização desta transformação. Podemos dar um passo simples e no entanto substancial nessa direção ao simplesmente não proclamar textos da Escritura que submetem as mulheres. Melhor ainda, vamos remover esses textos dos nossos lecionários.

Quanta alegria nos é possível?

«Na plenitude da alegria pascal, exultam os homens por toda a terra…»: durante os cinquentas dias entre a vigília pascal e o Pentecostes, o prefácio da oração eucarística da missa convida-nos diariamente a viver a alegria da ressurreição. Uma alegria universal que deveria envolver toda a humanidade. «Alegrai-vos e exultai», exortava-nos o papa Francisco há três anos, ao citar as palavras de Jesus dirigidas «a quantos são perseguidos ou humilhados por causa dele» (“Gaudete et exsultate”, 1). toda a liturgia é um convite constante a fazer festa: do “Exsultet” da grande vigília ao canto do “Regina coeli”.

Podemos perguntar-nos se em tudo isto não há retórica a mais. O que é esta «plenitude da alegria que canta o prefácio? Quanta alegria é possível verdadeiramente experimentar «neste vale de lágrimas»? Qual é a felicidade a que podemos realisticamente aspirar nas contradições da vida? A humanidade que deveria exultar sobre toda a Terra continua ferida e sofredora. As catástrofes naturais continuam a acontecer, e para populações inteiras as carestias não são uma recordação do passado. As guerras recomeçam sempre, apesar do empenho de muitos construtores de paz. Os acidentes nas estradas acontecem e os casamentos falham. O mal não cessa de morder a carne dos mais frágeis, nas formas mais diversas, mas também não poupa ricos e poderosos. É possível, é lícito a alegria nestas condições? Não se trata de uma alegria falsa, forçada, ou que no máximo abrange apenas poucos momentos da vida ou um restrito número de afortunados?

Sim, ainda não está tudo bem, mas a alegria cristã não é um sonho para gente iludida. Estamos nas mãos de Deus. Sempre. «Alegra-se o meu coração e exulta a minha alma: (…) porque não abandonarás a minha vida nos infernos…». Eis a fonte da verdadeira alegria pascal, a viver em plenitude.

A alegria cristã existe, e é autêntica. Precisamos dela precisamente para enfrentar os compromissos e os cansaços da vida, como ensinava às suas irmãs Santa Teresa de Calcutá. Mas não é uma alegria excessiva, impudente, agressiva. Não solicita manifestações eufóricas e intemperantes. Manifesta-se na luz dos olhos, mas brota e permanece no íntimo. É alegria incontida, mas moderada. É inebriamento sóbrio e espiritual. É uma felicidade visível, mas nunca ostentada. Não suscita a inveja dos sofredores: antes, consola-os e contagia-os. A alegria cristã não é cega diante das dores da vida. Não é otimismo obstinado e obtuso, nem voluntária autoilusão. Não se contenta com um pensamento cor-de-rosa perante o persistente mal de viver. O ano passado ouvimos repetir, como um mantra, «correrá tudo bem», e nas redes sociais partilhavam-se fotografias coloridas e tolas. Tentativas miseramente fracassadas de exorcizar o medo. Não correu tudo bem. Muitas pessoas adoeceram e muitas morreram. Muitíssimas sofreram pesadíssimos danos económicos. E ainda não acabou. Os males do mundo não são apenas a pandemia.

Contudo, tudo isto não prejudica a verdadeira alegria cristã. Podemos, devemos, continuar a entoar o aleluia pascal. Porque, como cantava Leonard Cohen, «love is not a victory march: it’s a cold and it’s a broken “Halleluja”». A exultação pascal é filha do amor, e o amor, quando verdadeiro, não é uma marcha triunfal. Ainda não, por agora. O amor é empastado de felicidade e de sacrifício, em simultâneo, incindivelmente. O tempo da História é ainda o tempo de um aleluia muitas vezes «frio e despedaçado». Um aleluia firmemente desejado, consciente, ferido pelas provações da vida, e todavia pleno de confiança, porque animado por uma esperança invencível. Porque é um fio estendido entre a certeza histórica da ressurreição de Jesus e a espera escatológica da nossa ressurreição. A alegria cristã radica-se no “já” do acontecimento pascal – o túmulo vazio – e estende-se até ao «não ainda» das bodas do Cordeiro. Aquele túmulo vazio é profecia da Jerusalém celeste, quando finalmente «all shall will be well, and all manner of thing shal be well», como Juliana de Norwich ouviu dizer-lhe do Senhor Jesus.

Sim, ainda não está tudo bem, mas a alegria cristã não é um sonho para gente iludida. Estamos nas mãos de Deus. Sempre. «Alegra-se o meu coração e exulta a minha alma: (…) porque não abandonarás a minha vida nos infernos…» (Salmo 15). Eis a fonte da verdadeira alegria pascal, a viver em plenitude. Esta certeza de fé torna possível e lícito cantar o aleluia também nos claros-escuros do presente. Melhor: não só é lícito, como é «nosso dever, é nossa salvação».

Filippo Morlacchi in L’Osservatore Romano

O nosso tempo não é o de Deus

«Houve um tempo – conta a história – em que, se uma pessoa perdesse uma diligência, não havia problema. Esperava pela próxima, que chegaria seis meses depois. Mas, no nosso tempo (diz a piada), as pessoas têm um colapso se perdem a entrada numa secção duma porta giratória.» Esta história merece ser tomada em consideração. O problema é que, devido à aceleração da nossa sociedade, muitas vezes, não nos apercebemos que a vida é muito mais do que velocidade – especialmente a vida espiritual.

A vida espiritual é um processo de crescimento para a maturidade, com um erro, um esforço mal sucedido de cada vez, até que, finalmente, nos damos conta que um erro espiritual é coisa que não existe. Basta que aprendamos com os erros para os transformar a todos em ganho.

A oração e um espírito orante ajudam-nos a compreender que o processo é tão importante, para a qualidade de vida, quanto a produtividade. A maneira como encaramos a vida é tão importante para o seu resultado final como aquilo que fazemos enquanto vivemos. O facto é que muito poucas coisas podem, realmente, ser forçadas antes do seu tempo. O amor não pode ser forçado. O crescimento não pode ser forçado. A compreensão não pode ser forçada. A aceitação não pode ser forçada. Tal como o nascimento, essas coisas germinam na escuridão até chegarem ao amadurecimento – quer delas, quer nosso.

Conseguir apreciar a diferença entre o nosso tempo e o tempo de Deus é essencial para nos tornarmos pessoas espirituais. O tempo de Deus é o que nos prepara para funcionarmos bem no nosso tempo.

É fácil, por exemplo, ser-se «espiritual», quando nada nos desencoraja nem testa o nosso ânimo, nem põe à prova os nossos corações. Mas é precisamente a experiência do desencorajamento, nos nossos esforços, que nos pode fortalecer o suficiente para lidarmos bem com aquilo que esperamos, seja o que for. Testar os nossos espíritos – ter que verificar os nossos impulsos, uma e outra vez – ensina-nos, finalmente, a controlar a nossa ira ou a abafar a nossa inveja. É a dor da perda que nos ensina que nada se perde realmente; simplesmente, tem de ser encontrado de outras formas.

Viver a vida de Deus significa aprender a «forrar-nos de paciência», como diziam os antigos. Significa aprender a esperar que todas as nossas necessidades sejam respondidas no tempo de Deus – e, de certa forma, que todos os nossos desejos sejam satisfeitos; de certa forma, que todas as nossas esperanças sejam preenchidas; de certa forma, embora não necessariamente da maneira como nós próprios teríamos feito.

Preparem-se, preparem-se, preparem-se. E depois esperem. No tempo de Deus, a sua vontade será feita.

Joan Chittister
In O sopro da vida interior, ed. Paulinas

Joan Chittister é uma freira beneditina norte-americana e um nome incontornável no campo da espiritualidade cristã.

Joan Chittister (26.abril.1936) é uma freira beneditina norte-americana, teóloga e oradora e um nome incontornável no campo da espiritualidade cristã. https://www.joanchittister.org/

O sentido da vida. Quem sou?

Anselmo Borges, padre e professor de Filosofia

A presente crise, gigantesca, deveria ser uma oportunidade para pôr de modo mais profundo a questão decisiva do sentido da vida. Sentido tem a ver com viagem, direção, meta. Nas estradas, encontramos placas em seta a indicar o caminho para alcançar um destino. Agora, até programamos o GPS que nos levará lá.

Qual é o sentido da vida e a sua meta? Num primeiro momento, a resposta parece clara: a vida é um milagre e o seu sentido é ela mesma. O sentido está nela, no viver plenamente, na criatividade do dar e receber, em plena e total inter-relação.

Mas em nós a vida torna-se consciente. O ser humano é autoconsciente, consciente de si mesmo e, por causa da neotenia – ao contrário dos outros animais, não vimos já feitos ao mundo, mas por fazer, sendo a nossa missão fazermo-nos a nós mesmos, uns com os outros -, a questão do sentido da vida torna-se uma questão pessoal, essencial e inevitável. Não é uma questão adjacente, que se possa pôr ou não. Ela é constitutiva: ser ser humano é levar consigo esta questão: quem somos?, donde vimos?, para onde vamos?, que devemos fazer?, que sentido dar à existência?

Somos uns com os outros e frente aos outros, mas cada um de nós vive-se a si mesmo como presença de si a si mesmo como um eu único: eu sou eu e não outro. Coincidimos, portanto, connosco, mas, por outro lado, experienciamo-nos como ainda não plenamente idênticos: somos nós mesmos e somos chamados a ser nós mesmos; num apelo constante a fazermo-nos, estamos ainda a caminho de nos tornarmos nós mesmos. Lá está a tarefa paradoxal que nos pertence, segundo Píndaro: “Torna-te no que és.”

Precisamente deste paradoxo de sermos e ainda não sermos adequada e plenamente surge a nossa inquietação radical e a pergunta que nos constitui: afinal, o que somos?, quem somos? Uma vez que estamos essencialmente voltados para o futuro, temos de dizer: eu venho de um passado e sou também resultado desse passado, vivo-me no presente, mas eu ainda não sou plenamente, eu ainda não sou o que serei. Cá está, portanto, a pergunta – e o ser humano é radicalmente perguntante, porque é perguntado -, a pergunta radical e ineliminável: então o que é que eu sou e quem sou? E esta pergunta não pode deixar de colocar a pergunta pelo sentido da vida, pois está em conexão com ela: só no processo do viver e do ir-me fazendo poderei ir sabendo quem sou.

Mas fazer-me a caminho de quê? Qual é o sentido? Lá estão as inapagáveis perguntas de Immanuel Kant: “Que posso saber? Que devo fazer? O que é que me é permitido esperar?” E continua: se pudéssemos responder a estas três perguntas, encontraríamos resposta para a quarta, a decisiva: “O que é o Homem?” Afinal, o que somos e quem somos?

O animal, cuja vida é assegurada por instintos, não faz perguntas. O Homem, porque é autoconsciente, inacabado e livre, precisa de saber em que sentido deve orientar a sua existência e quer saber quem é.

Entre todos os seres da Terra, só o Homem é livre – Kant sugeriu que a liberdade é o divino em nós – e, assim, moral e responsável, só ele tem capacidade de racionalidade abstrata, de autoposse, de opção, só ele se sabe sujeito de obrigações morais para lá dos instintos, só ele pode rir e sorrir, só ele é animal simbólico e simbolizante, só ele pode amar, saber e saber que sabe, só ele é capaz de autoconsciência, de linguagem duplamente articulada, de sentido do passado e do futuro, de promessas, de criação e contemplação da beleza, de descida à sua intimidade e subjetividade pessoal, só ele sabe que é mortal e gasta tempo com os mortos e rituais funerários e espera para lá da morte, só ele pergunta e fá-lo ilimitadamente, só ele cria instituições jurídicas, só ele tem de se confrontar com a questão da transcendência e do Infinito… Precisamente este conjunto de notas mostra que o ser humano é qualitativa e essencialmente distinto dos outros animais, a diferença não é apenas de grau, mas essencial.

Impõe-se agora perguntar: para que tenha as capacidades que tem e faça tudo o que faz, qual é a sua constituição metafísica? Tem de haver um factor X que está na base de todas estas capacidades. Tradicionalmente, chamou-se-lhe alma. Dada a dificuldade, se não impossibilidade, de pensar hoje o dualismo corpo-alma, compreender o Homem para lá desse dualismo, sem cair no monismo idealista nem no reducionismo materialista mecanicista ou biologista, constitui tarefa ingente para a Filosofia.

As investigações etológicas, bioquímicas, da genética, das neurociências constituem hoje talvez o maior desafio alguma vez lançado a uma conceção verdadeiramente humanista e espiritualista do Homem, por causa da tentação de reduzir o humano a uma explicação no quadro exclusivo do zoológico e bioquímico. De qualquer forma, ao Homem reflexivo impor-se-á sempre a subjetividade própria: por mais que objetive de si, o sujeito humano deparará sempre com o inobjetivável, já que a condição de possibilidade de se conhecer objetivando-se é ele mesmo enquanto sujeito irredutível. Na reflexão, o Homem é o sujeito e o objeto do conhecimento: sujeito que se conhece como objeto, mas sem se reduzir a objeto. Enquanto sujeito transcenderá, portanto, continuamente a explicação das ciências objetivantes. Para aclarar um pouco a dificuldade do tema, costumo dizer: eu não posso ir à janela ver-me a passar na rua.

Quem sou eu? Não sou coisa. O Homem não é mero objeto. Aí está o enigma, o mistério e a dignidade de um eu a caminho.

Stille Nacht

Em 1816, nasceu a canção de Natal “Silent Night”. Contam as histórias que na vila de Oberndorf na Áustria, o padre Joseph Mohr, preocupado com a possibilidade de uma noite de Natal sem música, porque os ratos tinham roído os foles do órgão da igreja, procurou um instrumento que pudesse substituir o antigo. Nas suas pesquisas, começou a imaginar como teria sido a noite em Belém. Fez anotações e pediu ao músico Franz Gruber que lhes desse uma melodia. A nova canção foi assim composta originalmente para guitarra. Esta é a mais famosa canção de Natal em todo o mundo. É cantada em todos os lugares onde se celebra o Natal. Os seus autores não imaginavam que a sua canção composta numa aldeia perdida da Áustria daria a volta ao mundo em menos de 200 anos e ficasse para sempre como um símbolo musical do Natal. Musicalmente até tem uma estrutura pobre, anda à volta da tónica e dominante, I, IV e V grau. Por ser assim, ao longo dos anos, enriqueceram-na com vozes e orquestrações, como o provam as diversas versões para coro desta canção. É cantada tanto pelas crianças das escolas como pelos poderosos cantores líricos. Está traduzida em todas as línguas que celebram o Natal. Em francês, tomou o doce nome “Douce Nuit”, em inglês o calmo “Silent Night”, em espanhol a divertida e querida “Noche de Paz”, em português “Noite Feliz” que quer dizer noite feliz, em latim “Sancta Nox” e, já agora, em checo “Tichá Noc”. E em zulu, pronto, “Busuk obuhl”. No original chama-se “Stille Nacht”. “Nacht” é noite e “Stille” quer dizer quieto, calmo, tranquilo, silencioso, calado. O verbo alemão “Stillen” quer dizer sossegar, saciar, amamentar. Não pensou mal o padre Joseph ao tentar imaginar o que se teria passado naquela noite em que Jesus nasceu. Foi, com toda a certeza, uma noite serena, uma noite de paz. Um início revelador.

Um dos significados que encontro no Natal é este: o do silêncio. O silêncio onde o Homem se encontra com Deus e descobre o sentido da sua vida. O silêncio onde cada um de nós se torna mais elevado. Como a sociedade dá pouco valor ao silêncio e fala demais, acaba por perder a sua orientação. É curioso que as curas modernas para os stresses diários, umas mais eficazes do que outras, sejam todas operadas em silêncio. Ele é o yoga, o tai-chi, o pilates, a aromoterapia, a musicoterapia, os exercícios de respiração e relaxamento, as massagens, as aulas de flexibilidade, de corpo e mente e outras modalidades. Não percebe o executante que uma grande parte do sucesso destas terapias vem do tempo que, por vias delas, acaba por dedicar ao silêncio e ao encontro consigo mesmo. E sente-se melhor no fim daquela hora.

Tudo o que é belo vem do silêncio. Não se constrói nada de valor e duradouro no meio do barulho e da inquietação. É necessário sensibilizar o nosso corpo para além daquilo que os nossos sentidos nos mostram. É necessário a todos ver a beleza, a proporção, o limite e o abstrato. Procurar o que existe no silêncio. Nós também somos feitos do ar que respiramos, do silêncio das flores a crescerem, do silêncio de uma obra de arte, do silêncio de uma oração, do silêncio do sol e da lua, do eterno. A felicidade, a satisfação e a alegria que todos procuram não estão no mesmo plano do dinheiro, do poder, das vaidades, dos carros, das casas e da doutorice. Estão no plano do silêncio, da quietude, da serenidade. É necessário perceber que as vidas que crescem em silêncio são diferentes das outras. Os que entendem isto são felizes mais cedo.

                                                                          Jorge, Natal de 2008

Na vila de Oberndorf há atualmente uma capela “Capela Noite Feliz”, em cujos vitrais há a imagem dos criadores da canção. Esta capela tem lugar para 20 pessoas, porém, atualmente, a Missa do Galo é celebrada ao ar livre para 7 mil fiéis, além da visita de 1600 turistas no mês de dezembro.

As festas

Valter Hugo Mãe, 21.dezembro.2020,
Jornal de Notícias

Sei bem que não estarei com as minhas pessoas nas festas, mas quero acima de tudo que tenhamos uma infinidade de anos para nos voltarmos a juntar. Resisto bem à distância imposta agora porque sinto que a companhia incide na convicção da pertença. Pertencermos genuinamente a alguém e alguém nos pertencer é não sermos sozinhos. Ao contrário, por mais rodeados de gente que estejamos, sem essa ideia de sermos inelutavelmente uma dimensão intrínseca do outro seguimos sós. Farei das festas a celebração desta companhia, a de saber que as minhas pessoas me justificam sempre a vida, quer nos vejamos mais ou menos, quer nos falemos mais ou menos. Cada coisa que faço ou conquisto é uma alegria que me cobre e as cobre. Quer nos vejamos, falemos ou não.

Amenizo a ansiedade pela lúcida alegria de saber que estamos de saúde e nos continuamos a amar. E vamos dispor a refeição na mesa como se nos imitássemos uns aos outros. Sabemos os nossos costumes, manias e melindres, sabemos das ínfimas especificidades, e será fácil pressentirmos a algazarra. Temos a voz de cada um como património íntimo, ouviremos o que nos parecer urgente e responderemos com gratidão. Por todo o tempo que a vida me der no Mundo onde estão também aqueles que amo, eu praticarei a gratidão.

Por mais que nos devamos defender da pena da pandemia e da derrocada económica, o começo de toda a ajuda estará em mantermos pontos de luz como ofício de esperança. Não há sentido naqueles que não esperam nada, os que desistiram de qualquer hipótese para futuro. Quando me sentar à mesa, mais sozinho do que em outras festas, colocarei diante de mim esse desafio sincero, do amor à esperança, minha forma de lutar vai ser a de homenagear cada ausente com a ideia de que quero resistir e quero obrigar a resistir. Haverá futuro. Tenhamos sempre um compromisso com ir lá ver como estaremos ainda juntos por essa alegria de nos continuarmos a pertencer.

Este ano, a minha mãe dispôs lembranças e algumas peças que decoram os cantos das estantes em jeito de presépio de pessoas e viagens. Não é imperioso que decalque o nascimento de Cristo. De algum modo, tudo se celebra agora, como se tudo fosse de nascer agora. Gosto que esteja a pequena estatueta de Jorge Amado, ou a ovelha que a minha amiga Lourdes Pereira me trouxe de Mallorca. Gosto que esteja o São Bento e a pequena romã que comprei na Grécia. Pelas pessoas e pelos lugares, a minha mãe inventou um presépio onde se amam todas as pessoas e todos os lugares. Se isso não for o melhor que alguma fé poderia fazer por nós, então já não entendo nada. Por todo o tempo das festas, o presépio perfeito da minha mãe é uma lição. Honra quem somos e promete não esquecer.

Quando servirmos o bacalhau, lembraremos. Faremos votos para que todos encontrem a mesma paz, apontem à mesma esperança, mantenham-se saudáveis por modo de amar.

Os refugiados estão nos textos do Natal

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Paulo Rangel, PÚBLICO 24.dezembro.2019

A condição de refugiado está radicada e gravada no código genético do cristianismo, na “história de vida” de Jesus.

1. O tempo de Natal é (ou era) por excelência o tempo das narrações dos chamados evangelhos da infância (Mateus e Lucas). Aquelas histórias, já de si não históricas, eram largamente recriadas e acrescentadas no imaginário popular e no encantamento infantil. Hoje, véspera de Natal, em plena crise global de refugiados, vale a pena voltar a esses textos fundacionais e tentar perscrutar quão além vão da tradição e da imaginação e quão fundo interpelam crentes e não crentes.

2. Evoquemos a propósito o Evangelho de Mateus (Mateus 2:13-23), quando relata a ida de Jesus, Maria e José para o Egipto, fugindo à perseguição do rei Herodes. Não há como esconder ou desvalorizar: Jesus e a sua família foram verdadeiros refugiados; não migrantes, mas sim refugiados. Jesus, seu pai e sua mãe tiveram de se refugiar no Egipto por serem o alvo de uma perseguição e estarem em risco de morte. Parece certo, nas esparsas linhas do texto, que a notícia de que tinha nascido o Messias foi vista por Herodes como uma ameaça política, uma ameaça à sua legitimidade enquanto rei dos Judeus. Daí que tenha mandado matar todos os primogénitos até à idade de dois anos. Convergem, pois, aqui as dimensões política e religiosa: Jesus foi o alvo – o alvo directo – de uma perseguição político-religiosa, que obrigou a sua família a refugiar-se. Nesta narração, encontramos ainda uma última menção, assaz relevante para o tema. Efectivamente, quando José decidiu voltar a Israel, pretendia ir para a Judeia, mas, porque aí reinava Arquelau, filho de Herodes, resolveu afinal instalar-se em Nazaré, na Galileia. Pois bem, mais uma vez, a sua escolha não foi livre; foi politicamente motivada. A condição de refugiado está, portanto, radicada e gravada no código genético do cristianismo, na “história de vida” de Jesus.

3. Sabemos bem que os Evangelhos da infância, seja em Mateus, seja em Lucas, se inscrevem na tradição literária do “Midrash”, bastante comum na escrita hebraica. Não se cura, ao invés do que o público crente e não crente geralmente supõe, de um relato histórico, susceptível de suporte factual e documental. Não há nele qualquer preocupação de “fazer história”. Existe isso sim o desígnio de “fazer pedagogia”, de fazer uma narração exemplar, de contar “uma” história – de contar uma história, com todo o potencial heurístico inerente.

O episódio da fuga de Jesus para o Egipto apresenta Jesus como o novo Moisés, Aquele que refaz o caminho antes feito pelo povo de Israel. Há até um paralelo expresso com Moisés na saga da “morte dos inocentes”. Recordando episódios que hoje são menos retidos: o Faraó tinha ordenado a morte de todas as crianças judias, exigindo às parteiras que as matassem. Como estas acabaram por não o fazer, ordenou então que as crianças fossem lançadas ao rio. Com o intuito de o salvar, a mãe de Moisés põe-no no rio Nilo, mas dentro de um cesto. A irmã de Moisés vai alertar a irmã do Faraó para a necessidade de encontrar alguém disponível para amamentar a criança, indicando como ama a própria mãe de Moisés. É bom de ver que, na passagem de Mateus, Herodes assume a figura do Faraó e Jesus surge como o novo Moisés. O desígnio da narrativa é evidente: Jesus é o novo Moisés, o novo libertador do povo de Israel.

4. Não é, portanto, apenas o Novo Testamento que nos oferece uma história de migração e de refúgio; é outrossim o Antigo Testamento, que, de resto, nos apresenta múltiplas situações de perseguição, degredo e servidão do povo hebreu. A história deste povo – todos o sabemos – é uma história constante de fuga e migração. Neste contexto, vale a pena chamar a atenção para o versículo 22 do capítulo 2 do Livro do Êxodo, em que se diz, a respeito da mulher de Moisés: “Ela deu à luz um menino, a quem Moisés pôs o nome de Gerson dizendo ‘Sou emigrante em terra estrangeira’.” Ora, o nome Gerson significa peregrino, “de passagem”, alguém que é hóspede, que não está na sua terra. Tudo isto demonstra que há na cultura judaico-cristã um estatuto próprio para o migrante, para o estranho, o estrangeiro. Se Jesus foi um autêntico refugiado, Moisés será talvez um migrante de segunda geração (já nasceu no Egipto).

5. Em suma, há na Bíblia um fundamento próprio, uma fonte directa, para o acolhimento dos refugiados e dos migrantes. O acolhimento do estrangeiro, do que teve de deixar a sua terra é, pois, um carisma judaico-cristão. Não se compreende, por isso, a estranheza e desconforto com que tantos vêem o apoio incondicional que o Papa Francisco dá aos refugiados. E muito menos se compreende o ataque que, na política italiana, Salvini e os seus seguidores – que invocam fervorosamente os valores do cristianismo – fazem ao Papa Francisco. É uma ferida aberta por causa da questão migratória e pela posição firme da Igreja que, incondicionalmente, está ao lado e do lado dos migrantes e dos refugiados.

Quando pensamos no estatuto do migrante ou refugiado, não estamos a falar numa decorrência pura e simples do mandamento do amor ao próximo – embora essa simples inferência fosse mais do que suficiente. A verdade é que há fundamento específico e literal para fazer do acolhimento dos migrantes e refugiados uma causa primeira daqueles que se revêem na matriz cristã. Este fundamento não é apenas cristão, mas judaico-cristão. Não é, aliás, por simples casualidade, que, a propósito da saga do povo hebreu, falamos na diáspora. Os judeus, por natureza, estavam fora da sua terra. Há, assim, um mandato a partir dos textos sagrados para cuidar dos refugiados, dos deslocados, dos migrantes, dos que estão em fragilidade porque estão fora do seu ambiente natural. Neste sentido, a ideia de acolhimento, de hospitalidade, de asilo, de auxílio e de integração pertencem ao núcleo mais genuíno dos valores cristãos. A liturgia do Natal também serve para o recordar, para o trazer de novo ao coração.

Chuva

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Valter Hugo Mãe, Jornal de Notícias 22.dezembro.2019

Íamos de galochas para a escola e lamentávamos os guarda-chuvas que perigavam no vento. Raros de nós tinham impermeáveis, chegávamos a deitar mão de sacos de plástico mas, à entrada da escola primária, ensopados, éramos um só lamento e a normalidade absoluta.

A sala aquecia com um mísero fogão a lenha, perto do qual deixávamos casacos e camisolas, às vezes os cadernos. Secávamos a roupa interior no corpo, brancos pijamas, enquanto tremíamos e medíamos a fúria do tempo pelas vidraças, ouvindo sobre matemática e palavras com mais de três sílabas. O temporal era o inverno inteiro.

Nunca me passaria pela cabeça, então, que alguém quisesse dar nome à chuva. Sabíamos bem do que se fazia dezembro ou janeiro. O fim de janeiro era o pior do ano, o monstruoso frio, a humidade, o vento que deitava sempre abaixo as árvores mais sozinhas. Àquilo tudo, tudo junto, chamávamos apenas inverno. Demorava meses e podia aparecer na televisão por haver acidentes de carros e voarem telhas das casas mais velhas. A televisão lamentava muito o azar e a pobreza, que pareciam inevitáveis. Falhava muito a luz elétrica. Algumas cidades adormeciam às velas, era frequente. Toda a gente guardava velas e fósforos. Nós tínhamo-las em cada canto para o susto de ficarmos às escuras constantemente. Refilávamos abreviados porque íamos dormir sem sono, muito mal conformados.

Os estrangeiros puseram-nos agora a dar nomes à chuva. Vem a Elsa ou o Fabien, como se alguém chegasse com o imenso tamanho do céu, se abatesse por toda a parte e tivesse culpa. A contemporaneidade é tão feita de um espírito ofendido que nem o inverno passa como antes. Passa acusado.

Prometeram, contudo, que vamos ter um Natal em sossego. Acalmará a intempérie e usaremos os nomes do costume, como se chovesse ou ventasse sem necessidade de acusações. Talvez aí nos deva arrepiar o peito, onde verdadeiramente importa medir a invernia. É o que me impressiona no Natal: essa oportunidade de nos avaliarmos e, em consciência, decidir melhor para depois. Isso mesmo vos desejo. Uma chuva sem nome, sem culpados, apenas a bravura de resistirmos no bom senso e na poderosa cordialidade. Não esqueçamos nunca que a mais preciosa conquista do Mundo é a paz. Boas-festas. Um muito bom Natal a todos.

Religião e Espiritualidade

Anselmo Borges, Diário de Noticias 25.agosto.2019

1. Não haja dúvidas. A religião, concretamente na Europa, também entre nós, está em queda. O número de agnósticos e de ateus aumenta, para não falar na chamada “prática religiosa”, que desce a olhos vistos. O padre José Antonio Pagola escreveu recentemente um texto com o título “Depois de séculos de ‘imperialismo cristão’, os discípulos de Jesus têm de aprender a viver em minoria”.

Significa isto o triunfo do materialismo crasso ou o que está em causa é mesmo a religião institucional, mas não a espiritualidade? O que é facto é que tenho encontrado cada vez mais grupos interessados na espiritualidade e no aprofundamento da vida interior. Multiplicam-se esses grupos e também a bibliografia sobre o tema. Por exemplo, com sucesso escreveu recentemente o teólogo Francesc Torralba uma obra: La Interioridad Habitada, onde se pode ler: “A educação da interioridade não é, em caso algum, um luxo nem uma questão menor, pois tem como objectivo final o cuidar de si mesmo, e, para isso, desenvolver todas as potencialidades latentes no ser humano, como a memória, a imaginação, a vontade, a inteligência e a emotividade, mas também o fundo último do seu ser: a espiritualidade, admitindo que esta pode adquirir formas, expressões e modos muito diversos em virtude dos contextos educativos e dos momentos históricos. No modelo da interioridade habitada reconhecem-se dois magistérios: o exercício do mestre humano que fala e actua a partir de fora e o do mestre interior que habita lá no íntimo.”

Wook.pt - A Biografia do Silêncio

2. Hoje, quero referir-me concretamente a Pablo D’Ors, padre e escritor. Numa recente entrevista a José Manuel Vidal, director de ReligiónDigital, disse: “As formas tradicionais da Igreja não respondem à sensibilidade e à linguagem contemporâneas.” Numa outra entrevista, a La La Razón, declarou: “Boa parte do descrédito da Igreja deve-se a ela sucumbir ao ritualismo.” Pablo D’Ors publicou um livro célebre do qual se venderam já mais de 150 mil exemplares, com o título Biografia do Silêncio. E é o fundador da associação Amigos do Deserto, que conta com uma rede de meditadores com mais de 500 membros, porque, como afirmou: “Há uma ânsia espiritual muito grande nesta sociedade secularizada.” Deixo aí, a partir destas duas entrevistas, pensamentos que julgo ser urgente meditar.

Porque é que o livro teve tanto sucesso? “Uma das razões do êxito é precisamente a sua oportunidade. Surgiu num momento em que aumentava claramente o interesse pela meditação. O seu prestígio construiu-se sobre o desprestígio da religião. O facto de muitas pessoas terem abandonado as formas religiosas não quer dizer que a sua sede espiritual esteja saciada ou se tenha anulado. Persiste e é preciso procurar novas formas de a alimentar. A meditação é uma delas. Costumo dizer que a religião é o copo e a espiritualidade é o vinho, e o que nos sacia verdadeiramente é o vinho. A religião tem de estar ao serviço de suscitar a experiência espiritual, e nós, os cristãos, contentámo-nos com o copo. As formas, para ir ao fundo da questão, deixaram de ser formas para o conteúdo e encerraram-se em si mesmas. O mal não está no rito, mas no ritualismo. As pessoas não sentem que isso as alimente. A isto junta-se que a linguagem tanto verbal como gestual do cristianismo não responde à sensibilidade nem à cultura contemporânea.” Não podemos esquecer de que tão importantes como o património que recebemos, o Evangelho, são o homem e a mulher de hoje. Por isso, “a nossa fidelidade não é só ao Evangelho, é a este homem e a esta mulher de hoje. Se estivermos longe deles, dificilmente entramos em relação”. Impõe-se que se perceba que “as formas têm de estar ao serviço do fundo, e muitas vezes as formas perdem-nos, pois ficamos no formalismo e privamo-nos de ir ao núcleo da questão. Qual é a urgência fundamental para a Igreja de hoje? Uma renovação espiritual; que estejamos verdadeiramente no nosso centro”.

Para Pablo D’Ors, o silenciamento interior é uma necessidade de primeira ordem. “A meditação é uma prática de silenciamento e quietude. É um trabalho que se faz com o corpo e com a mente e cujo propósito fundamental é o autoconhecimento.” Quando muitas coisas exteriores se foram afundando, ele descobriu a aventura interior, que é um processo de higiene da mente e do coração: “Normalmente temos uma grande confusão intelectual e sentimental. Criámos uma cultura da exterioridade, representada fundamentalmente pelo telemóvel. Quanto maior conexão fora, menor conexão dentro. Perde-se a dimensão interior, porque a nossa cultura nos impulsiona e estimula para estar sempre fora.” Então, nas crises existenciais, as pessoas ficam desamparadas por dentro, pois nem sequer sabem se há “um dentro”. Por isso, “boa parte do êxito de muitas escolas de meditação radica nesta busca. Hoje, não falamos tanto de espiritualidade como de interioridade, que é o modo laico de dizer o mesmo”.

Precisamos de arrumar o nosso interior, para que haja mais espaço, pois, desse modo, distinguimos melhor. É como quando numa casa repleta de coisas começas a tirar o não necessário e começas a ver. Daí surge, paradoxalmente, o segundo fruto: a humildade. “Saber quem és, ter uma visão realista de ti mesmo, essa humildade, esse saber qual é o teu lugar, isso é o que te dá a paz interior.”

Pergunta-se se não há o perigo de estas correntes de espiritualidade serem um pouco individualistas, egocêntricas, ignorando a transformação do mundo. Responde: “Creio que a meditação autêntica não se afasta de Deus, mesmo que isso se não verbalize de maneira explícita. Quem verdadeiramente se conhece a si mesmo, mais cedo ou mais tarde, aponta para o mistério. Esse mistério poderá chamá-lo Deus ou não, mas Ele está lá. Em ti gerou-se uma atitude espiritual.” Quanto à denúncia e ao compromisso com a mudança das estruturas: sim, há o perigo de grupos espirituais caírem num espiritualismo desencarnado, mas a questão é de prioridades: “A justiça social, a denúncia, tudo isso, vem por acréscimo, é o fruto de estarmos centrados. Primeiro, vamos transformando a nossa própria vida. A oração, o nosso próprio espírito transforma-nos e, simultaneamente, vai transformando a vida à nossa volta, a vida familiar, a vida social, a vida do bairro. A vida da nação.”

Deve-se prescindir das religiões? De modo algum. “O mindfulness não é puramente laico, mesmo que os termos e as práticas se apresentem numa linguagem puramente secular. Isto é o que, modestamente, os Amigos do Deserto e eu queremos fazer com o cristianismo. Que seja uma tradução secular, para o mundo de hoje, da mensagem cristã. Para o Ocidente, a figura de Cristo é muito mais próxima do que a de Buda, e por isso o salto cultural que é preciso dar para ser meditador cristão é muito menor. Julgo que prescindir das religiões é um suicídio, porque isso significaria prescindir do nosso passado. Ora, quem prescinde do seu passado não sabe qual é o seu presente.” Não, não há o perigo de obsessão pelo “aqui e agora”. Porque “o sublinhado no presente não deveria fazer-nos perder de vista a importância do passado e do futuro. Recordar é passar a história pelo coração e ajuda-nos a compreender quem somos. Uma árvore sem raiz não se aguenta, o passado é a nossa raiz e é preciso cuidar dela. O mesmo digo do futuro. O homem não é sem projecção e projecto de si. A espiritualidade cristã sempre sublinhou o futuro, o horizonte, e a budista, o presente. Penso que estamos num tempo de síntese.”

A propósito, como se relacionam em Pablo D’Ors “o ego do escritor e o não ego do meditador?” “Devo dizer que para mim silêncio e palavra são duas faces da mesma moeda. O segredo da palavra é o silêncio e o do silêncio, a palavra. Uma palavra nasce matinal no coração do leitor na medida em que foi preparada no silêncio. Para que a palavra seja fecunda, tem de nascer do silêncio. Com o tempo, fui descobrindo que a minha dupla vocação, sacerdotal e literária, é a mesma.”

Então, não existe realmente o perigo maior, que consiste em ficar encerrado em si mesmo, no egocentrismo? “O ego (o eu), que não é outra coisa senão a tendência para auto-afirmar-se, é necessário para viver. Não se trata de matar o ego, mas de colocá-lo no seu lugar.” Por isso, quanto a escutar-se a si mesmo ou a escutar o outro, “é como perguntar o que é que é mais complicado: amar-se a si mesmo ou aos outros. É exactamente a mesma coisa. Por isso digo que a meditação é uma escola de escuta. Se aprenderes a escutar-te a ti mesmo poderás escutar os outros. Ninguém pode dar o que não tem.” Quanto ao egocentrismo: “Eu vejo-me agora a mim mesmo menos egocêntrico do que há uns anos. Mais magnânimo, com a alma maior. O critério para verificar que um caminho de meditação é autêntico é se te torna mais compassivo, mais justo e caritativo. Se o outro tem um papel mais importante na tua vida. A meditação corre o risco de perverter-te, se esquece a dimensão transcendente e se fica pela busca utilitarista de benefícios pessoais.”

O jornalista: “Chama-me a atenção que diga que é mais importante ser si mesmo do que alguém ‘bom’.” Pablo D’Ors: “Refiro-me a que o essencial é o indicativo da graça e não o imperativo moral. O decisivo para a construção de uma pessoa é experienciar o que é, e, na medida em que o fizer, comportar-se-á de uma maneira ou outra. Não temos de estar tão preocupados em ser bons, pela dimensão moral, como pela metafísica do ser. Sermos quem estamos chamados a ser. Se o formos, se na verdade fores tu, serás bom.” Objecção: “Haverá gente que seja ela mesma e seja egoísta.” Resposta: “Isso baseia-se numa visão do mundo, que é a minha, segundo a qual a luta entre a luz e a sombra não é paritária. O que há fundamentalmente é luz. Este ponto de partida não é subjectivo, é contrastável. Por exemplo, se contares quantos comboios descarrilaram hoje no mundo e quantos chegaram ao destino, verás que a imensa maioria chegou bem. Se fizermos o mesmo com tudo, vemos que o bem é significativamente mais. O que acontece é que os meios de comunicação social fazem-nos crer que o que existe é o mal, quando é o contrário. É como o céu e as nuvens: as nuvens podem tapar o céu, mas o que na realidade há é um céu. Estamos bem feitos.” Neste contexto, sobre a sua vocação: “Aos 18 anos. É como quando alguém se enamora e sabe que é a pessoa adequada quando a conhece. Foi uma experiência de encontro com o mistério, com a graça de Jesus Cristo. É uma sedução, um fascínio, um sentir que é o eixo vertebrador da tua vida, que lhe dá sentido, força. Foi a experiência do entusiasmo. Estar habitado pelos deuses, pelo espírito. A experiência de que havia algo substancial que tudo sustenta. Dessa experiência, a mais decisiva da minha vida, nunca duvidei.”

Qual é então o sentido da vida? “Redimir o mundo. Colocar luz onde há trevas, amor onde há desamor, esperança onde há inesperança e desespero, claridade na dúvida. Na medida em que fizermos isso, estamos bem e semeamos o bem.”

3. Está aí, bem à vista, a chave para entender a crise da religião e perceber a conversão de que a Igreja urgentemente precisa para ser o que Jesus quer. Ele passava noites na montanha a rezar e fez a experiência inexcedível do mistério de Deus como Abbá, Papá, querida Mamã. A consequência: amou a todos, por palavras e obras, a começar por aqueles e por aquelas que ninguém ama, porque Deus é o sentido último da existência, não caminhamos para o nada, porque Deus é Amor. Tomás Moro disse-o, numa síntese perfeita: “O fundamento da religião é o medo. O fundamento do cristianismo é o amor.”

Elogio do inútil

Anselmo Borges, Diário de Notícias 11.agosto.2019

1. Vivemos num tempo com algumas características deletérias. Por exemplo, não penso que seja muito favorável assistirmos em restaurantes a famílias inteiras a dedar num smartphone: o pai, a mãe, os filhos…, que quase se esquecem de comer e sem palavra uns com os outros. É bom estar informado, mas neste dedar constante perde-se o contacto autêntico da e com a família, esse estar presente aos outros mais próximos. E, com o tsunami das informações, incluindo as fakenews, fica-se sujeito ao engano, à confusão, e corre-se o risco de se estar a criar personalidades fragmentadas, alienadas, interiormente desestruturadas. E, ao contrário do que se pensa, dentro da conexão universal através das redes sociais, sofrendo uma imensa solidão.

A nossa sociedade é também avassalada pelo ruído e pela pressa. Toda a gente corre, sempre com a vertigem da pressa – para onde?, poder-se-ia perguntar. Para longe de si. Quando é que alguém está autenticamente consigo, sem narcisismo, evidentemente? E o ruído atordoador? Quem é que ainda consegue ouvir o silêncio e aquilo que só no silêncio se pode ouvir? A voz da consciência, a orientação para o sentido da vida, Deus? Quem se lembra do dito famoso de Calderón de la Barca, que escreveu que “o idioma de Deus é o silêncio”?

Parece que esta situação vem de longe. O dramaturgo Eugène Ionesco, já em 1961, se lhe referiu numa conferência, com estas palavras: “Vejam como as pessoas correm atarefadas pelas ruas. Não olham para a direita nem para a esquerda, preocupadas, de olhos fixos no chão, como cães. Caminham a direito, mas sempre sem olhar em frente, pois seguem maquinalmente um percurso já bem conhecido. Em todas as grandes cidades do mundo, é assim que acontece. O homem moderno, universal, é o homem atarefado, que não tem tempo, que é escravo da necessidade, que não compreende que uma coisa possa não ser útil; que não compreende sequer que, na realidade, o útil pode ser um peso inútil, opressivo. Se não se compreende a utilidade do inútil e a inutilidade do útil, não se compreende a arte; e um país onde não se compreende a arte é um país de escravos ou de autómatos, um país de pessoas infelizes, de pessoas que não riem nem sorriem, um país sem espírito; onde não há humor, não há riso, há raiva e ódio.” No mesmo sentido, chamando a atenção para “as ameaças que pesam sobre uma humanidade que não tem tempo para reflectir”, Ítalo Calvino escreveu: “Essas pessoas atarefadas, ansiosas, que perseguem um objectivo que não é um objectivo humano ou que é apenas uma miragem, podem de repente, ao ouvir o som de uma qualquer trombeta ou o chamamento de algum louco ou demónio, deixar-se arrastar por um fanatismo populista.”

2. Chegámos, deste modo, cavando mais fundo, à raiz da desorientação deste nosso tempo. Ela encontra-se na mercantilização de tudo, em função do lucro, na subordinação à lógica dos mercados. Afinal, como observou agudamente o filósofo Giorgio Agamben, “Deus não morreu. Tornou-se Dinheiro”. E Jesus já tinha prevenido: “Não podeis servir a Deus e a Dinheiro” (com maiúscula, como se fosse um nome próprio, um deus, Mammôn, em aramaico, a língua materna de Jesus). Como escreveu Nuccio Ordine, com a lógica do lucro, grande parte da Humanidade perdeu o direito de ter direitos, multidões morrem de fome; “transformando os homens em mercadoria e em dinheiro, este perverso mecanismo económico gerou um monstro, sem pátria e sem piedade, que acabará por negar também às gerações futuras qualquer forma de esperança”.

A citação recebo-a emprestada de Nuccio Ordine no seu livro A Utilidade do Inútil, um manifesto a favor do “inútil”. De facto, com a mercantilização de tudo e quando só vale o útil, o que serve na lógica do lucro, o que é eficaz e produtivo, a razão técnica e calculadora, tem sentido perguntar: o que vale a poesia, a grande literatura, a música, o saber pelo saber, as humanidades? É claro que neste universo utilitarista, “um martelo vale mais do que uma sinfonia, uma faca mais do que um poema, uma chave inglesa mais do que um quadro, porque é fácil perceber a eficácia de um utensílio e cada vez mais difícil compreender para que servem a música, a literatura, a arte”.

Com a financeirização especulativa da economia, só ficam as leis cínicas do mercado e a aparente omnipotência do dinheiro. E a própria política fica reduzida a negócio(s). Já Rousseau tinha observado no seu tempo: “Os antigos políticos falavam sem descanso de costumes e de virtudes; os nossos não falam senão de comércio e de dinheiro”, como se tudo o que não dá lucro fosse supérfluo ou até perigoso. Mas, então, no quadro da lógica economicista do lucro, tem sentido perguntar: porque é que nos queixamos da teia infindável da corrupção?

Martin Heidegger chamou vigorosamente a atenção para os perigos do monopólio da razão técnica, instrumental. Porque a técnica não pensa, apenas calcula. E aí temos nós a razão que apenas se interessa pelo que se mede e calcula, pela quantidade, ignorando a qualidade. Mas, então, quem somos e o que é que somos, na abertura constitutiva à Transcendência? Pensando apenas nas “finalidades técnicas” e no “para que serve?”, pergunta-se: onde está a beleza de um pôr do Sol, para que serve a ternura de um beijo, o florir de um sorriso de criança, a honra, a dignidade, o pensamento crítico, a gratuidade, a filosofia, o estudo das Humanidades, o mistério do Ser e de se ser? Tudo isso é inútil? No entanto, como disse o biofísico e filósofo Pierre Lecomte du Noüy, “na escala dos seres, só o Homem executa actos inúteis”, acrescentando dois psicoterapeutas, Miguel Benasayag e Gérard Schmidt, que “a utilidade do inútil é a utilidade da vida, da criação, do amor”. No seu livro A Cerimónia do Chá (1906), o japonês Kakuzo Okakura intuiu que a passagem do bruto ao humano se deu com a descoberta do inútil: “O homem primitivo superou a sua condição de bruto ao oferecer a primeira grinalda à sua namorada. Elevando-se acima das necessidades naturais primitivas, tornou-se humano. Quando percebeu o uso que se podia fazer do inútil, o homem fez a sua entrada no reino da arte.” Kant apresentou o belo como o que agrada desinteressadamente; o belo tem a sua finalidade em si mesmo, não é para outra coisa, é “uma finalidade sem fim”.

Frente à desertificação galopante do espírito, impõe-se voltar à aparente inutilidade do “inútil”, ao “fascinante esplendor do inútil”, na expressão de George Steiner, que tem a ver com os valores irrenunciáveis da cultura e da educação livre, da grande música, da arte, do estudo dos clássicos e da filosofia, da dignidade livre e da liberdade na dignidade, do pensar crítico. Concluo, com Nuccio Ordine: “Se deixarmos morrer o gratuito, se renunciarmos à força geradora do inútil, se ouvirmos unicamente este canto das sereias que nos impele a procurar o lucro, só seremos capazes de produzir uma colectividade enferma e desmemoriada que, confusa, acabará por perder o sentido de si mesma e da vida.” E uma previsão que dá que pensar: cerca de um terço dos portugueses pode vir a ter perturbações de ansiedade. Um facto: está a aumentar o consumo de ansiolíticos, antidepressivos… Sem pôr em questão a imensa dívida para com a razão tecnocientífica, impõe