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Ser e dar afeto(s)

O neuropsicólogo espanhol Álvaro Bilbao, a propósito da reedição em Portugal do seu livro “O Cérebro da Criança explicado aos Pais” fala, nesta entrevista ao site sapo.pt de temas fulcrais tais como o amor, os limites, a atenção, os afetos, as escolhas, os abraços, o futuro. Das crianças e do mundo, isto é, de todos nós, pais, educadores, família, professores, amigos. Todos somos educadores, todos somos responsáveis uns pelos outros, grandes e pequenos. Na introdução do seu livro, o autor defende que “educar uma criança é uma grande responsabilidade e, provavelmente, o ato mais importante da vida de muitas pessoas”. Todos somos responsáveis uns pelos outros, pelo bem-estar uns dos outros, pelo crescimento não só físico, mas também espiritual das nossas crianças tendo em vista o seu desenvolvimento integral. Lutemos contra a indiferença que tantas vezes teima em dominar o nosso dia-a-dia e nos impede de fazermos do nosso presente um lugar de afetos. Quando deixamos de cuidar do(s) outro(s), estamos a condicionar o futuro de quem cresce connosco. Mas quando assumimos esse cuidado, somos todos responsáveis pela(s) vida(s) que crescem connosco.

Entrevista a Álvaro Bilbao

  • A pandemia trouxe ao contexto familiar, não excluindo as crianças, ansiedade e medo. Essas manifestações são transitórias ou deixarão marcas no futuro?

A ansiedade e o receio que terão experimentado algumas crianças, cujos pais viveram especialmente o medo e com precauções excessivas, poderão trazer problemas psicológicos no futuro, tais como uma maior vulnerabilidade à ansiedade. Um dos fatores que melhor prevê se uma pessoa em idade adulta voltará a sofrer de ansiedade, é se viveu anteriormente outros episódios de ansiedade. Esta é uma porta que, uma vez aberta, não volta a fechar-se. No entanto, estou bastante otimista, as crianças são resistentes e resilientes. Um bom trabalho dos pais, o regresso à normalidade, antevê que as crianças terão uma vida adulta tranquila. É verdade que nalguns casos estarão mais vulneráveis ao medo. Daí, penso que poderão aumentar ligeiramente os casos de transtornos que se manifestam entre os 12 e os 14 anos de idade, associados ao controlo e ao medo, como as perturbações obsessivo-compulsiva, as fobias e anorexia. Mas, julgo, serão poucos casos e que, na sua grande maioria estarão controlados.

  • Os confinamentos também trouxeram aspetos positivos na relação entre pais e filhos?

Creio que sim. Muitos pais contaram-me que o confinamento foi uma época dura mas bonita, porque passaram mais tempo com os seus filhos. Tomavam o pequeno-almoço juntos, cozinhavam juntos, faziam os trabalhos de casa com os filhos, divertiam-se com jogos de tabuleiro. Claro que não foi assim para todas as famílias. Sabemos que há casos terríveis, com maus-tratos sobre mulheres e crianças. Podemos imaginar o dia a dia de uma criança, ‘presa’ em casa, que sofre abusos sexuais de um progenitor.

  • O Álvaro Bilbao é pai. Que recordações tira dos confinamentos em família com os seus filhos?

Estou no grupo das pessoas para quem os confinamentos e a pandemia foram uma oportunidade de aproximação familiar. Antes, passava muitas horas no hospital, em consultas, assim como na escrita dos meus livros. O confinamento permitiu-me estar na companhia dos meus filhos, sem deixar de acompanhar os meus pacientes. Reduzi as horas de trabalho, fizemos jogos e vídeos em família e muitas conversas online com os avós.

  • Lemos no seu livro a frase: “a infância é o jardim em que vamos brincar quando formos adultos”. Existem manifestações do nosso cérebro infantil no nosso cérebro adulto?

Não consegue imaginar todas as coisas que fazemos em adultos que ficaram gravadas no nosso cérebro infantil. Por exemplo, nas consultas, acompanho adultos que apresentam preocupações associadas à falta de poder aquisitivo, como o medo de ficarem na pobreza, e que estão ligadas a questões das suas infâncias, por terem vivido em famílias com dificuldades económicas. O medo de subir num elevador pode vir de algo que vimos acontecer aos nossos pais nesse contexto. Os filhos de pacientes que, por exemplo, têm esquizofrenia, crescem com medo de padecer de doença mental. Há conflitos que surgem entre o ‘papá’ e a ‘mamã’ por quererem fazer as coisas tal como eram feitas nas casas da sua infância. Também encontramos aspetos positivos. Por exemplo se os nossos pais gostavam de fazer exercício, ou passar o fim de semana em família, também poderemos gostar.

  • Escreve que o nosso cérebro reúne até aos seis anos um potencial que nunca mais voltará a ter. Que potencial é este?

Durante os primeiros seis anos de vida, o nosso cérebro desenvolve infindáveis conexões que, podemos dizer, são como os pilares de uma casa. São fortes, mas também devemos permitir-lhes alguma flexibilidade. Mais tarde, criará no adulto umas fundações fortes. O cérebro das crianças, nestes primeiros anos, sedimenta estes pilares que lhe trarão maior ou menor confiança na vida futura, desenvolvimento da linguagem e bases para resolver problemas e tomar decisões. Há que dar à criança muito afeto – todo, será sempre pouco -, mas também há que começar a construir com a criança limites e normas. Depois do afeto e dos limites, o terceiro aspeto mais importante é dar atenção, tempo e responder às necessidades da criança de uma forma consistente. Se a criança tem fome, damos-lhe de comer; se tem sono pomo-la a dormir; se está preocupada, há que escutá-la; se tem medo, vamos protegê-la. No fundo, sentir-se segura a todo o momento e saber educar sem gritos ou ameaças.

  • Escutamos pouco os nossos filhos?

Como pais, muitas vezes não escutamos os nossos filhos. As crianças vão crescer com a ideia de que aquilo que dizem não é importante e, consequentemente, não se sentem importantes. A conversação é muito importante para as crianças entenderem as suas emoções e sentimentos, mas também para desenvolverem a memória, a concentração, a atenção e o vocabulário.

  • No seu livro utiliza a metáfora de que temos três cérebros em um para nos explicar as diferentes etapas de desenvolvimento e estruturas deste órgão. Que ‘cérebros’ são estes e como podem os pais com eles comunicar?

O cérebro humano desenvolveu-se ao longo de milhões de anos. Os diferentes passos dessa evolução ficaram refletidos na configuração do cérebro, com estruturas mais antigas e outras mais modernas.  Na metáfora que utilizo, o primeiro cérebro é o primitivo, o que herdamos dos nossos antepassados mais remotos, as criaturas que saíram dos oceanos e começaram a colonizar a Terra. Este cérebro primitivo satisfaz cinco necessidade básicas: o sono, a alimentação, a temperatura corporal, a proteção contra os perigos e, finalmente, a reprodução. Nas crianças mais pequenas esta última necessidade não está presente, embora haja manifestações como a sensação de enamoramento das crianças com a ‘mamã’. Mas não tem a ver com órgãos reprodutores, antes a nível emocional, pois é a mãe a pessoa que vemos como auxílio. As restantes quatro necessidades são importantes.  A criança tem de sentir que não terá fome ou frio, que pode descansar sempre que necessitar e que os pais a protegem de perigos como, por exemplo, de um cão que o quer morder; de um irmão que lhe quer pegar. Comunicamos com este cérebro através de ações, quando dizemos à criança que tem de ir para a cama dormir.

  • Qual é o segundo cérebro desta sua metáfora?

O emocional. A sua função básica é recordar aquelas coisas que nos fazem sentir bem e provir a nossa sobrevivência, ou o inverso, as coisas que nos fazem sentir mal, pondo em perigo essa sobrevivência. Comunicamos com este cérebro através da empatia, dizendo à criança palavras e frases que a façam sentir-se compreendida. No fundo, sentir que entendemos o que lhe está a acontecer. Em primeiro lugar, a criança sentirá que as suas emoções existem; em segundo, que são adequadas e, em terceiro, compreender-se-á a si mesma e que é alguém valioso. Desta forma, vai saber quais os amigos com quem se sente bem, as coisas de que mais gosta ou menos gosta. Muitos adultos não se compreendem a sim mesmos porque não tiveram, durante a sua infância, este aspeto emocional. Em vez de gritar com uma criança, há que perceber porque está zangada. Sempre que pomos palavras nas emoções, estamos a comunicar com o cérebro emocional. Por último, o terceiro cérebro, o racional ou superior, é aquele que contém a lógica, a memória, a razão e a consciência de nós mesmos. Todas essas funções racionais, estão acessíveis para comunicação através da palavra. Mas, há que entender que, quase sempre, quando uma criança expressa uma ideia, corre atrás de necessidades básicas. Se quer subir a uma árvore e pede uma cadeira, está a expressar a sua necessidade de ser mais forte e de que o pai ou a mãe a vejam.

  • Refere que educar é simplesmente apoiar a criança no desenvolvimento de seu cérebro. A fórmula é assim tão simples ou há muita complexidade escondida nessa ação?

Enquanto pais queremos ajudar os nossos filhos a que cresçam felizes, que tenham sucesso na vida, que se relacionem com o próximo. O segredo para tudo isto está em ajudá-los a ter um bom cérebro, ou seja, que os três cérebros que referi, o primitivo, o emocional e o racional cooperem. Isto é complexo, até para quem há muito pratica a neuropsicologia como eu. Todos os dias aprendo com os pais. No livro, procuro traduzir todos os conhecimentos de neurociência, de psicologia infantil de uma forma clara e simples.

  • Os seres humanos sempre usaram ferramentas. No seu livro apresenta-nos ferramentas úteis na educação da criança. Muitos pais quererão saber quais são essas ferramentas. Pode dar-nos dois ou três exemplos?

Sim. Uma das ferramentas é a empatia, ou seja, a ligação com a criança e o entendimento. É importante, pois muitos dos conflitos emocionais que há na família resolvem-se com a prática da empatia. Os pais que dominam a empatia e compreendem como esta é importante, estão a educar um futuro adulto que se ligará aos seus filhos de uma forma magnífica. Também é importante saber estabelecer limites, pois as crianças precisam deles. Sou adepto da educação pela positiva, mas também sou um defensor dos limites, mas sem extremismos. Há pessoas que são muito extremistas e que não gostam que se destaque o afeto, porque defendem uma educação rígida; outras que consideram que só deve haver amor. Algo que está provado cientificamente é que o cérebro precisa de muito amor e limites. As crianças devem ter o reconhecimento dos pais, aquilo a que chamo reforços. Não se pode confundir reforço com prémio, pois este é negativo. Por sua vez, com o reforço, em momentos-chave, a criança ganhará confiança. Por exemplo, no meu trabalho satisfaz-me quando um paciente me agradece. É reforço, não um prémio. Por último, temos tudo o que se relaciona com as alternativas aos castigos. Os castigos não são positivos no desenvolvimento da criança e há ferramentas alternativas, como a reparação de ações que magoaram outras pessoas ou danificaram objetos.

  • Atualmente, vemos muitas crianças diagnosticadas com défice de atenção. O Álvaro Bilbao é crítico em relação à prevalência deste diagnóstico. Porquê?

Porque temos de ser mais pacientes, entendermos melhor as necessidades da criança. Temos de entender que as crianças precisam de brincar, de se mexer. O défice de atenção só se transforma num problema se não permitir à criança ter uma vida normal. Se tivermos pais e professores pouco pacientes, a criança não pode fazer uma vida normal e terá transtorno. Se formos mais pacientes, se dermos à criança mais tempo para se comportar bem, o índice de diagnósticos de défice de atenção será menor. Os pais têm de saber como propiciar tranquilidade às crianças seja a impor-lhes limites, como já referi, e a saber acalmá-los. Nesse sentido, é também importante que as crianças não usem tantos ecrãs, que lhes subtraem a atenção e aumentam a sua impulsividade.

  • As crianças precisam de mais atenção e menos medicamentos psicotrópicos?

Sem qualquer dúvida. Muitos estudos dizem-nos, por exemplo, que o índice de melhoria [índice de eficácia] da depressão com medicação do tipo de inibidores seletivos da recaptação da serotonina, como o Prozac, é de 75%. Também sabemos que uma intervenção psicológica adequada reduz igualmente a depressão em 75%. Porque não praticamos mais a psicologia e menos a medicação? Porque esta é mais barata, mais cómoda e mais rápida para os sistemas de saúde, mas é menos positiva a longo prazo. Os pacientes que fazem psicoterapia correm menos risco de depressões a longo prazo. Fenómeno semelhante passa-se com as crianças. As que têm uma boa intervenção psicológica, por exemplo no défice de atenção e na ansiedade, correm um menor risco de terem problemas no futuro.

Dar espaço à alegria

Vivemos tempos difíceis, cinzentos, com o medo sempre à espreita. Ao mesmo tempo somos permanentemente bombardeados com conselhos para “Pensar positivo”, “Não atrair más energias” e “Ver o lado bom do que de mal nos acontece”. Não é fácil e muitas vezes não é sequer possível ou aconselhável. As situações difíceis obrigam a que nos adaptemos e o “pessimismo adaptativo” de que alguns psicólogos falam e que nos leva a imaginar os piores cenários, delinear planos B e C pode ser útil para acomodarmos as mudanças e perdas necessárias. Pode, também, fortalecer-nos porque já nos adiantámos às dificuldades da situação e já demos os passos necessários, as ações que dependem de nós para lidar com ela.

Especificamente em relação à pandemia, a mensagem que alguns life coaches ou gurus da autoajuda divulgam com o objetivo de ajudar pessoas em dificuldades é: “Ver esta situação como uma oportunidade”, ou até mesmo como uma “Mensagem do Universo para que alteremos os nossos comportamentos”. Esta mensagem, por mais bem-intencionada que seja, é culpabilizadora, seja pela intenção do Universo ou pela invalidação da pessoa em sofrimento. A imposição do pensamento positivo muitas vezes chega ao ponto de corresponsabilizar a pessoa pela situação que está a viver porque ela “atraiu energia negativa” ou está “num pensamento de escassez em vez de abundância”. Nada nesta mensagem é empático ou apoiante porque começa por negar a perspetiva do outro e as emoções que ele está a sentir.  Pelo contrário, culpabiliza e deixa a pessoa menos apta até a fazer mudanças que lhe permitiriam melhorar a sua realidade.

Sem dúvida que muitas pessoas estão a fazer ajustes decorrentes desta situação que vão no sentido de uma melhoria da sua qualidade de vida e de um melhor equilíbrio entre as várias áreas da sua vida e os seus vários papéis, mas quem estiver a viver estas situações como uma oportunidade não precisa de apoio ou nem estará em dificuldades. Por outro lado, quem está em sofrimento precisa de um apoio empático que começa por dar a devida dimensão aos medos, perdas e ameaças que a pessoa possa estar a viver. Perante ameaças reais, não precisamos só de pensamentos positivos, precisamos de uma visão global e realista da nossa realidade.

O medo, a raiva e a tristeza, emoções menos populares do que a alegria, também são adaptativas. O medo mobiliza-nos para a nossa proteção, a raiva dá-nos energia para enfrentar o desconhecido e esforçarmo-nos pelo que queremos e a tristeza ajuda-nos a aceitar o que não podemos mudar, reorganizando a nossa perspetiva sobre eventos de vida e permitindo deixar ir, avançar e voltar a estar no presente. Todos estes movimentos impulsionados por estas emoções, ainda que cruciais, desgastam-nos, consomem energia e, por isso, é preciso dar espaço a uma outra emoção que nos retempera, que nos energiza e que nos sabe bem, a alegria. E quanto mais difíceis são os desafios mais precisamos de nos apoiar e de nos compensar. Ou seja, em alturas de maior dureza, também os momentos de prazer e conforto precisam de aumentar. Por isso, em psicoterapia, insistimos em estimular estes momentos. E fazemos perguntas neste sentido, perguntas que sugiro que faça agora também a si próprio:

  • O que é que o faz sentir-se alegre?
  • Quando é que perde a noção do tempo?
  • Quando é que está tão embrenhado ou divertido que se esquece temporariamente do que o preocupa?
  • Quando é que se diverte?
  • O que é que o faz rir?

Quase toda a gente consegue identificar momentos destes, que podem ser a fazer um desporto, jardinagem, ouvir um podcast, ler um livro, ver um programa de televisão que considere interessante ou jantar com amigos.

A seguir, perguntamos há quanto tempo não faz o que acabou de descrever. Muitas vezes, a pessoa já nem sabe se o programa ainda existe ou qual a última vez que tal aconteceu. E aqui é que nos podemos ajudar. Deixámos de poder fazer muitas coisas de que gostávamos. Mas não deixámos de poder fazer tudo e sobretudo não deixámos de poder procurar a alegria e o prazer em novas atividades. Todos sabemos que quando a realidade aperta, as prioridades vão para as obrigações, deixando a diversão de ter espaço na nossa rotina. Só que todos nós temos limites e uma reserva finita de força anímica.

Quanto mais se gasta, mais temos de repor. Por isso, é importante dar espaço à alegria na nossa vida, numa procura ativa para a encontrar. Não na ilusão de que uma vida boa se consegue negando e ignorando os desafios e dificuldades que se nos apresentam, mas mobilizando o nosso esforço também para o que nos nutre e para o que nos faz sentir bem.

Ana Moniz (Aveiro 1976). Licenciou-se em Psicologia, ramo de Psicoterapia e Aconselhamento pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa. Especializou-se em psicoterapia cognitivo-comportamental e coaching executivo. Tem trabalhado como psicoterapeuta de adolescentes e adultos em contexto privado e é formadora de áreas comportamentais e coach de executivos em contexto empresarial. Autora do livro: “Este livro não é para fracos: como agir com coragem está ao alcance de todos.”

Não há nada que cure tanto quanto o amor…

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Catarina Pires, Diário de Noticias 3.fevereiro.2020

“Compreenda o seu cérebro, gira as suas emoções, melhore a sua vida.” À primeira vista, o subtítulo do livro Como Fazer para Acontecerem Coisas Boas (Ed. Planeta), da psiquiatra espanhola Marian Rojas Estapé, pode parecer apenas mais um chavão de livro de autoajuda. Mas não é. É mesmo isso que este livro ajuda a fazer, se o lermos com atenção. Psicoterapia para ter à mesa de cabeceira. Entrevistámos a autora, que estará na próxima semana em Portugal a promover o seu livro, para perceber como as emoções e os pensamentos influenciam a saúde física e mental – e descobrir o que fazer para acontecerem coisas boas.

Marian Rojas Estapé. A psiquiatra espanhola, filha do psiquiatra Enrique Rojas, lançou recentemente em

Hoje vivemos uma espécie de ditadura da felicidade. Temos pouca paciência para pessoas tristes, como se dependesse apenas de cada um estar bem. O sofrimento não faz parte da vida?
Não conheço ninguém que não sofra algum tipo de dor. Em maior ou menor grau, todos travam uma batalha na vida. A dor é uma escola de força. Quando a aceitamos de maneira “saudável”, ganhamos um domínio interior importante e fundamental para a vida. Isso tem valor humano e espiritual, enriquece a inteligência, leva-nos a perceber o significado da nossa vida, das nossas convicções mais profundas e ajuda-nos a aceitar as nossas limitações. Após um período de sofrimento, uma pessoa aproxima-se da alma dos outros e aprende a ser feliz.

E a felicidade é o quê, afinal?
A felicidade não se define, experimenta-se. Trata-se de encontrar um equilíbrio entre o que se deseja alcançar e o que se vai alcançando. Uma ideia importante é que a felicidade não é o que lhe acontece, mas a forma como interpreta o que lhe acontece. Depende do seu olhar perante a realidade. Consiste em relacionar-se de maneira saudável e equilibrada com o presente, superando as feridas do passado e olhando para o futuro com esperança. Não pode ter demasiadas expectativas se quiser ser feliz porque, na realidade, a vida tem uma componente de dor e sofrimento inegável, e é a nossa atitude que faz a diferença e determina se somos pessoas felizes ou infelizes.

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Apresenta o amor como o antídoto do sofrimento. É o que basta?
O que marca a vida é o amor pelos outros, não apenas o amor romântico, de casal. É a coisa mais importante na vida e o único antídoto para o sofrimento. É a resposta para tudo. Não há nada na história que cure e proteja tanto quanto o amor. Existe um estudo muito importante de Harvard que mostra que o parâmetro que mais condiciona as pessoas a envelhecer saudáveis e felizes é o amor. A solidão (involuntária) mata, sentir-se sozinho mata, a solidão tem um efeito na saúde equivalente ao do tabaco. É uma pena que tenhamos de dar uma base científica às coisas mais óbvias para que as pessoas acreditem nelas. Mas, sim, é preciso voltar ao amor. E isto é medicina, não é pseudociência. O que acontece é que vivemos numa sociedade em que deitamos fora o que está estragado, em vez de o consertar. Também o amor. A esse respeito, teríamos muito a aprender com os nossos pais e avós.

No seu livro explica como o stress – o cortisol – e as emoções afetam a saúde. Podemos considerar a depressão uma doença inflamatória do cérebro? Como é que a má gestão das emoções pode afetar a saúde física e ser mesmo um fator de risco para o desenvolvimento de cancro?
Muitos dos distúrbios que afetam a sociedade do século XXI estão relacionados com a forma como encaramos o ambiente e as pessoas que nos rodeiam e as dificuldades que nos surgem. Os estados de alerta e o stress permanentes fazem-nos produzir e libertar cortisol, a “hormona do stress”, que de forma crónica induz alterações no corpo: a nível gastrointestinal e neurológico, distúrbios da tiroide, enfraquecimento do sistema imunológico, morte de neurónios no hipocampo (área do cérebro responsável pela memória e pela aprendizagem), cansaço, tristeza, apatia e um grande etcétera. Segundo a Universidade de Harvard, 60% a 80% das doenças que sofremos têm uma relação direta com emoções tóxicas.

Então, como gerir melhor as emoções para prevenir esses problemas?
Gosto de dar algumas ideias práticas que penso que são muito úteis:

1.ª – Conhecer-se. Concentrar-se nas suas virtudes, quem não se conhece não se compreende nem se aceita, por isso não pode superar-se e melhorar;

2.ª – Evitar o excesso de autocrítica e exigência. Fugir do perfeccionismo excessivo, pois o perfeccionista é o eterno insatisfeito. Cuidado com o autoboicote. Para o controlar é essencial aprender a dominar a voz interior. Grandes treinadores de ténis estudaram estas questões: num jogo, se os adversários tiverem o mesmo nível, ganha quem tiver um maior autodomínio. Isto é bem explicado por Timothy Gallwey no seu livro The Inner Game.

3.ª – Estabelecer metas e objetivos. Gosto de dizer “sonhe grande, aja pequeno”. Não tenha medo de deixar o seu coração voar, mas faça um plano de ação e delineie uma estratégia. Não fique apenas pelo sonho. Aja em conformidade. É fundamental ser realista nos objetivos que se estabelece. Dizia Séneca: “Não há vento favorável para quem não sabe para onde vai.” Se perdermos de vista os nossos sonhos e objetivos, tornamo-nos escravos do imediato. No ano passado, foi publicado um artigo interessante a este respeito. Pessoas com um objetivo ou propósito na vida têm menor risco de sofrerem de doenças cardiovasculares e de morrerem destas;

4.ª – Trabalhar a vontade. A vontade é a capacidade de adiar a recompensa. Isto adquire-se com treino, tratando de fortalecer um sistema de controlo inteligente. É a força superior da mente que nos permite alcançar um objetivo, não de maneira impulsiva mas cerebral;

5.ª – Melhorar a assertividade. Trata-se de encontrar um meio-termo entre aceitar que os outros decidam tudo por nós e não sermos capazes de ter um pensamento objetivo e respeitar as ideias dos outros. “Eu digo sim quando quero dizer não; quando digo não, sinto-me culpado.”;

6.ª – Treinar a inteligência emocional. Isto significa entender e expressar as minhas emoções, entender e empatizar com as emoções dos outros e controlar as emoções e a impulsividade.

7.ª – Educar o otimismo. É possível. Qualquer situação pode ser vista em modo problema ou em modo solução. Há que mudar a linguagem e começar a usar palavras que evoquem entusiasmo, alegria, esperança. Rejeitar as palavras tóxicas que nos anulam e alteram a irrigação sanguínea. O otimismo apela à esperança e à paixão e isso tem um efeito direto no cérebro e na neuroplasticidade. Observou-se que em pessoas que praticam otimismo produz-se uma neurogénese: células-tronco convertem-se em neurónios em três semanas e migram para o hipocampo.

A ansiedade e a depressão são as doenças do século. A primeira tem que ver com o medo do futuro, a segunda com a não superação dos problemas e das culpas do passado. Como ultrapassar uma e outra?
Transformamo-nos no que pensamos. A mente tem um impacto muito importante no nosso organismo. O medo é inevitável, mas o sofrimento que este produz é opcional. Os medos curam-se aprendendo a aproveitar a vida, olhando para o futuro com esperança e vivendo o presente de maneira equilibrada e compassiva.

Porque é que é importante aprender a perdoar (os outros e a nós)? Libertar a raiva e não aceitar tudo não é também importante?
Saber perdoar-nos é importante para seguir em frente. O neurocientista Richard Davidson, fundador e presidente do Centro para Mentes Saudáveis, encontrou-se uma vez com o Dalai Lama, que lhe perguntou por que é que todos os investigadores da psique se dedicavam a estudar o stress, a ansiedade e a depressão e ninguém prestava atenção à bondade, à compaixão, à empatia, ao perdão… Desde então, Davidson centrou-se na bondade como base de um cérebro saudável. O meu pai [o psiquiatra Enrique Rojas] tem uma frase que uso muito em terapia: “Saber olhar – como vejo, como observo, como julgo – é saber amar”. Trabalhar a forma como olhamos os outros influencia positivamente a saúde. Para o perdão é a chave: um coração ressentido não pode ser feliz.

A culpa é o sentimento mais improdutivo? Que papel desempenha e como apaziguá-la?
O sentimento de culpa não ajuda, não a faz crescer, não tira a dor nem a angústia, é uma emoção tóxica que impede de seguir em frente. Pode vir de si (dos seus medos, bloqueios ou limitações) e de fora (como os outros a fazem sentir-se).

“A realidade muda quando altera a maneira de pensar”, diz no seu livro. De que forma o que pensamos influencia o que vivemos?
A felicidade depende da atitude que temos em relação à vida. Essa atitude tem muito que ver – como já referi – com a voz interior. Por um lado, parece-me fundamental ter sentido de humor, às vezes levamo-nos demasiado a sério! E, acima de tudo, uma ideia-chave: 90% das coisas que nos preocupam nunca acontecem. Todas as emoções são precedidas pelo pensamento, às vezes exagerado ou distorcido, portanto, os pensamentos devem ser educados. Outra ideia que considero essencial para melhorar a nossa vida no século XXI é aprender a descansar. O ser humano não está desenhado para viver sempre em modo de alerta ou sobrevivência, há que aprender a desligar.

Pessoas tóxicas. Eis uma espécie que cada vez está mais presente nas nossas vidas. Como detetá-las? E como neutralizá-las?
Existem de todos os tipos: de instáveis e ciumentos a paranoicos, imaturos ou neuróticos. Têm a capacidade de nos desestabilizar, às vezes em segundos. Muitas vezes somos nós quem permite que pessoas tóxicas, egoístas, imaturas, insensíveis ou orgulhosas entrem no nosso círculo mais próximo. Eles instalam-se nas nossas vidas, opinando e avaliando constantemente as nossas ações e palavras. A chave para não ficarmos intoxicados está na atitude e na maneira de os combater. Há que conseguir que não invadam nosso mundo interior e não anulem nossa capacidade de tomar decisões. É preciso um exercício intenso para evitar que sejamos dominados pelo seu veneno. São os chamados “vampiros emocionais”, pela sua capacidade de absorção psicológica, invadindo tempo, pensamentos e emoções. Aqueles que se deixam invadir por personalidades tóxicas podem acabar com sintomatologia ansiosa-depressiva, sentimentos de culpa, de dependência e uma consequente repercussão na autoestima.

A necessidade de se sentir em controlo é uma das principais causas de ansiedade (e produção de cortisol). É possível uma personalidade ansiosa libertar-se desse medo? Como?
Essa busca constante pelo controlo leva-nos a não apreciar as coisas boas que estão a acontecer connosco, a esquecer o momento presente, obcecados que estamos com o futuro. A ansiedade é a febre da mente e da alma, avisa-nos de que o ambiente é hostil, que há algo que não estamos a gerir bem e que temos de mudar alguma coisa. Se a pessoa souber o que se passa consigo, se entende como o cérebro funciona, compreenderá mais facilmente porque é que o seu organismo está cada vez mais doente. A mente e o corpo não distinguem o real do imaginário, e se alguém vive constantemente em alerta, fica doente.

Se conseguirmos ser a “Melhor Versão de Nós Próprios” conseguimos que aconteçam coisas boas, diz no seu livro. O que é preciso fazer para isso?
Nesta vida, existem três tipos de pessoas: os que fazem as coisas acontecer, os que olham para as coisas que acontecem e os que se perguntam o que aconteceu. As chaves para ser a melhor versão de si mesmo estão no conhecimento, é preciso saber, estudar, para… internalizá-lo. Luís Pasteur disse que “a sorte favorece a mente preparada”. Portanto, treinar, conhecer-se, saber aquilo que se quer e de que se gosta é muito importante. O talento, a vontade, a ordem, a perseverança também contam… Ou seja, é essencial ter isso exercitado no nosso comportamento. Depois vem o projeto de vida. Quem não sabe o que quer não pode ser feliz. E tudo isso multiplicado por paixão, que melhora tudo. A paixão é o que nos ilumina.

Ciberpsicologia

Ciberpsicologia: quando a vida online se sobrepõe à vida real

Mauro Paulino, Expresso 21.maio.2019

No passado dia 17 celebrou-se o Dia Mundial da Internet, também conhecido como Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade de Informação. A data foi estabelecida pela Organização das Nações Unidas, em janeiro de 2006, com vista a promover a inclusão digital e a reflexão sobre as potencialidades e desafios das novas tecnologias na vida dos cidadãos. A Psicologia, enquanto ciência que estuda o comportamento e os processos mentais dos indivíduos, não poderia ficar indiferente a esta realidade, que implica alterações significativas na vida das pessoas. Não só na forma como comunicam e acedem à informação, como também nas suas interações com os outros, os seus comportamentos, valores e atitudes e até mesmo nos seus estilos de vida.

Está então criada a necessidade para uma área emergente e inovadora, designadamente a Ciberpsicologia, a qual se foca no interesse e investigação da interação entre o indivíduo, a sociedade e a tecnologia, tendo em conta as vantagens e as desvantagens para o desenvolvimento humano, ao nível individual, relacional, ocupacional, grupal e organizacional.

Neste âmbito surgem também questões relacionadas com protocolos de investigação, intervenções psicológicas online, uso de jogos na prática terapêutica, eHealt, mHealth e intervenção em diversas áreas, como a oncologia, a reabilitação, a obesidade, o luto, entre outras. Esta área ganha ainda mais relevância numa fase em que se discute e trabalha interdisciplinarmente no domínio da inteligência artificial.

É, por isso, importante partilhar com o leitor resultados de investigações que nos devem fazer ponderar, em termos pessoais, mas também educacionais, a relação que temos com os computadores, com a World Wide Web, com os telemóveis e outros pequenos dispositivos multifunções. Ainda em abril deste ano, a Organização Mundial de Saúde desaconselhou a exposição das crianças com menos de dois anos a ecrãs e entre os dois e os quatro anos que fosse limitada até uma hora diária, sabendo nós que, muitas vezes, esses ecrãs estão ligados a plataformas digitais para vídeos ou jogos.

Neste sentido, as potencialidades da utilização da internet, ainda que inquestionáveis, podem dar lugar a efeitos negativos na vida das pessoas, sobretudo quando existe uma sobreposição da vida online com a vida real. Tendemos a não dar a importância suficiente ao facto de que o uso da Internet e do smartphone têm características comuns às adições de substâncias, como sintomas de privação, usar o smartphone para lidar com sintomas de ansiedade, depressão e stresse sem enfrentar os problemas reais, falta de sono, interferência na realização de tarefas, perturbações nas relações face a face, perda da noção do tempo e, por vezes, mesmo dores nos pulsos e na nuca, constituindo um fator de risco para uma perturbação musculoesquelética a longo prazo.

As interações nas redes sociais através da partilha de vídeos, realização de diretos, troca de comentários, publicações de textos e/ou imagens podem provocar nos seus utilizadores a perceção ilusória da realidade dentro da interação virtual. E quanto maior é o grau em que se embarca nesta ilusão, maior é a tendência para o comportamento problemático e aditivo. Uma série de estudos tem demonstrado que há um risco de a comunicação online causar sentimentos de solidão, mesmo em quem não terá razões objetivas para se sentir só, assim como em pessoas com relacionamento amoroso, com ambiente familiar positivo e até com tempo para socializar face a face.

É importante que se perceba que a comunicação online carece da riqueza sensorial e do feedback corporal de que o cérebro humano necessita para gerar as reações fisiológicas que nos permitem sentirmo-nos em verdadeira conexão social. Por outras palavras, a comunicação online é sempre superficial e não substitui a interação face a face. Assim, ao não se beneficiar da riqueza das interações presenciais, a comunicação online contribui significativamente para gerar sentimentos de solidão. A tentativa de ultrapassar essa solidão com recurso às redes sociais conduz ao risco de se instalar um círculo vicioso de adição. Como se não bastasse, a utilização persistente do smartphone demonstrou ter um impacto negativo na qualidade das relações amorosas, com presumíveis efeitos negativos na sexualidade.

Merece igualmente reflexão o facto de que a constante necessidade de publicação e de interação virtual estar também diretamente associada a uma procura de validação social em likes e em outras expressões afirmativas online. Para além de essas manifestações não anularem os sentimentos de solidão, contribuem para o surgimento de inveja, um sentimento facilmente desencadeado pelas redes sociais, como mostram vários estudos.

As selfies, uma das tendências mais populares entre os utilizadores das tecnologias e das redes sociais, aparecem associadas ao liking relacional na rede. Uma investigação demonstrou que as pessoas retratadas nas selfies foram julgadas como menos atrativas socialmente, menos dignas de confiança e mais narcisistas do que as retratadas em fotografias tiradas por outrem.

A falta de atenção é também um efeito observável em quem digita no seu smartphone, mas as consequências vão mais além. A investigação apontou que a mera presença visível do smartphone, ligado no silêncio e sem ser manuseado, prejudica a capacidade de execução de tarefas e de resolução de problemas. Tal parece acontecer devido ao esforço subconsciente para inibir o desejo de utilização do aparelho, o que consome recursos atencionais. Por sua vez, quando o smartphone foi colocado noutra divisão, o desempenho cognitivo melhorou consideravelmente. Quando foi colocado no bolso, o desempenho melhorou um pouco, porém não tanto como quando foi colocado noutra sala. Curiosamente, os participantes nas investigações afirmaram que não estavam a pensar no smartphone, o que demonstra que a interferência não é consciente. Já pensou como o seu filho estuda? Ou o que sucede durante as aulas?

A Internet, apesar de poder ser um lugar fascinante e atrativo, pode também constituir-se como um desconhecido repleto de perigos relativamente invisíveis. Razão pela qual é preciso estar-se sensibilizado para a subversão da utilização dos meios cibernéticos para finalidades criminais, como sucede no cyberbullying, na difusão de pornografia infantil ou aliciamento de menores para condutas sexualizadas, como recorrentemente é noticiado.

Somam-se ainda os desafios virais perigosos partilhados, essencialmente, entre a população mais jovem, ou mesmo infantil. Numa coleção em que assumo funções de diretor, publicámos, neste mês de maio, um livro dedicado à Intervenção em Ciberpsicologia, coordenado por Ivone Patrão e Isabel Leal, o qual resume mais de 20 desafios perigosos online que podem provocar lesões graves ou mesmo a morte.

Exige-se claramente uma psicoeducação digital, quer em crianças e adolescentes, quer em população adulta, dado o importante repto que representa para as escolas, professores, alunos, familiares e, de forma mais abrangente, todos aqueles com responsabilidades políticas, sociais ou educativas. Neste mundo tecnológico em transformação constante, é inegável o papel e o contributo da ciência psicológica, em particular da ciberpsicologia.

Dia Internacional da Felicidade

Marta Gonçalves e Joana Beleza, Expresso 20.março.2019

“Não são os outros que fazem a felicidade, somos nós. Mas são os momentos em que estamos com os outros que nos fazem felizes”, explica ao Expresso Cristina Quadros, presidente da Delegação Regional do Centro da Ordem dos Psicólogos Portugueses e também uma das organizadoras da conferência “Bem-Estar: O que diz a Ciência sobre a felicidade?”. “Isto não quer dizer que o que fazemos aos outros não contribui para a felicidade deles. Claro que a atenção que damos, a gentileza ou a gratidão contribuem. Não são processos isolados, estão todos em ligados. Somos seres sociais e só podemos ser felizes com os outros. No entanto não são os outros que nos fazem felizes.”

Da forma mais resumida possível: é o momento que provoca felicidade. “Na felicidade ninguém é inocente”, diz a psicóloga, e “é terrível se estivermos à espera que os outros nos façam felizes”. É “uma dependência horrível”.

A fórmula da felicidade

50% é hereditário.

40% é de cada um de nós.

10% é do contexto em que estamos inseridos.

A fórmula é apresentada pela investigadora da Universidade da Califórnia (EUA) Sonia Lyubomirsky, que assim define a felicidade: “É a experiência da alegria, do bem-estar e do contentamento combinado com uma vida sentida como boa, com significado e propósito”. A hereditariedade está, logicamente, relacionada com questões genéticas e com o ambiente em que nascemos e crescemos. “Se uma criança cresce num ambiente feliz tem mais probabilidade de ser feliz do que uma criança que cresce num ambiente em que isso não acontece”, aponta Cristina Quadros. Os 40% da nossa responsabilidade estão ligados ao que fazemos diariamente, enquanto os pequenos 10% das circunstâncias – “que às vezes tanto peso damos” – têm que ver com o país onde nascemos, o género, se somos ricos ou pobres, saudáveis ou doentes.

Embora a neurociência explique cientificamente a felicidade – que implica a libertação de endorfinas e da hormona da ocitocina -, o que nos provoca essa sensação é subjetivo. “Está relacionado com as nossas vivências.” O momento. E é também por isso que ao longo da vida aquilo que nos faz felizes muda.

“Um bebé consegue entreter-se com uma coisa a que não damos qualquer valor: um papel ou fio”, exemplifica Cristina Quadros. “A noção de bem-estar tem que ver com as emoções positivas e também com a novidade: se comer um pedaço de chocolate pode ser uma emoção muito positiva, embora comer muitos pedaços de chocolate pode já não o ser, porque se repete e normaliza.”

E as crianças são mais felizes que os adultos? “Tomara que fosse assim.” Por norma, têm o conceito do bem material menos presente e por isso não fazem depender a felicidade de coisas externas. A casa e a família chega-lhes. “No entanto, a criança só está bem quando as pessoas à sua volta estão bem e tranquilas. Em Portugal isso está difícil, as famílias estão stressadíssimas. E quem não está tranquilo não pode ser feliz”, sublinha Cristina Quadros.

A felicidade és tu

– O que é para ti a felicidade? – pergunta a mãe, Salomé.

– Tu – responde a filha, Laura.

Os mais novos indicam sempre a família ou atividades feitas em família como os seus momentos mais felizes. Porquê? Porque hoje ter tempo para estar com aqueles de que mais gostamos é quase uma raridade, diz Cristina Quadros.

“Neste momento há uma coisa que as crianças não têm: tempo de qualidade para brincar com os pais”, aponta a psicóloga. “Nas consultas tenho muitas crianças que me dizem que os pais não brincam com eles e, por um lado, é por isso que valorizam tanto e associam esses momentos à felicidade. A família é também sítio de conforto, em que sentem alegria, segurança. Mesmo os miúdos mais velhos acabam por dizer que é na família que mora a felicidade.”

A felicidade, defende a psicóloga, não é algo do momento. Isso são as emoções. A felicidade é constante no tempo, é a noção de que a vida vale a pena ser vivida. “Andamos pouco atentos a percebermos as pequenas coisas fantásticas que temos todos os dias. Ser feliz nos dias bons não custa nada. O que custa – e é importante cultivarmos isto – é manter o bem estar continuado para podermos lidar com as adversidades.”

Os portugueses estão entre os mais infelizes da Europa. Segundo o “World Hapiness Report”, Portugal está 79º lugar numa lista com 156 países que é liderada por Finlândia, Noruega e Dinamarca. Estamos atrás de México, Honduras, Líbia e Paquistão. O relatório toma em consideração indicadores como a longevidade, o bem-estar, mas também as desigualdades e a pegada ecológica.

“Hoje somos bombardeados com a ideia de que a felicidade se compra. Corremos o risco de acabar convencidos de que vem numa garrafa ou numa embalagem. Os rankings valem o que valem, mas Portugal não está bem e nós sabemos disso… A quantidade de baixas médicas que existem por questões psiquiátricas e de ansiedade, o número de medicamentos que se toma no nosso país…”, lamenta Cristina Quadros, lembrando que fatores como a prática desportiva e a alimentação cuidada, entre outros, são importantes para se estar bem. “Ser feliz dá muito trabalho”.

No entanto, Cristina Quadros vê hoje um ponto de mudança: os jovens estão menos presos aos bens materiais, deixaram de se preocupar em ter casa ou carro, querem viajar e viver.

“Não precisa de estar tudo bem para sermos felizes.”

Auto-sabotagem… ou o medo do desconhecido?

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Joana Simão Valério, psicóloga clínica

psicologia.pt, claramente.pt

Nem sempre o caminho que tomamos nos conduz ao lugar desejado. E, por mais tentativas levadas a cabo, repete-se o resultado de insucesso.

Provavelmente os acontecimentos de vida, as circunstâncias, a interferência de terceiros, ou mesmo decisões pouco ponderadas, poderão ter contribuído para a instalação da situação atual. Mas também as nossas condutas, inconscientes, ou seja, os nossos padrões comportamentais repetitivos, poderão igualmente estar a condicionar o nosso sucesso. A isto chamamos auto-sabotagem, enquanto um processo sustentado em crenças internas limitadoras construídas ao longo da vida e enraizadas na estrutura mental, que levam a pessoa a adotar comportamentos repetitivos que lhe são prejudiciais. Geralmente, este é um processo inconsciente, sendo frequente a projeção da responsabilidade ou da culpa no exterior.

A existência destas crenças negativas e limitantes em relação ao próprio estão associadas a uma auto-imagem e a uma auto-estima negativas. Esta voz interna negativa pode ter várias traduções, nomeadamente: “eu não consigo fazer nada bem” “eu não mereço ser feliz”, “acabo por perder todas as pessoas que amo”, entre muitas outras. Independentemente da crença limitante, ela pode acabar por condicionar a ação, dada a necessidade do sujeito em confirmar e reafirmar a sua crença a partir do resultado daquele acontecimento. E se é verdade que o resultado do auto-boicote vem reforçar os sentimentos de tristeza e desesperança, por outro lado permite a permanência numa zona de conforto que é familiar e previsível, apesar de limitante e desagradável.

Poderão ser exemplos de auto-sabotagem, aquela pessoa que já reprovou várias vezes no exame de condução, ou a outra que já tentou por várias vezes fazer dieta mas a meio do processo, desiste e retoma os hábitos alimentares antigos e pouco saudáveis. Estas e outras situações, podem representar desafios que colocam em causa a identidade do próprio (a perceção que tem de si) e as suas crenças, pelo que inúmeras resistências são levantadas. Conduzir, para alguém com um funcionamento muito dependente, pode representar o medo de tomar as rédeas da sua vida e decidir o caminho que quer seguir. A reprovação repetida no exame de condução pode representar uma forma de fuga e de evitamento a uma situação nova e desconhecida, de maior autonomia, que desperta medo e desconforto.

Auscultar e observar os padrões comportamentais que se repetem e as emoções associadas a situações desconfortáveis, são procedimentos essenciais para começar a proceder a pequenas mudanças. Tomar consciência destes processos inconscientes é um dos primeiros caminhos para romper com a auto sabotagem e assumir a direção por uma vida mais harmoniosa. No sentido de promover o auto-conhecimento e a orientação da  vida de acordo com o que é desejável, importa saber responder às seguintes perguntas.

“O que é que eu quero para mim?”

“Como é que me quero sentir no futuro?”

“Quais são os meus objetivos?” (Os sentimentais, profissionais, de relacionamento, financeiros, e outros…)

Desfazer crenças negativas que levam à auto-sabotagem, ter um auto-conhecimento profundo, tolerar a frustração e ser persistente perante as adversidades, são aspetos que contribuem para o desenvolvimento do potencial e das habilidades de cada um.

As nossas experiências de vida não nos definem e muito menos nos rotulam. Muitas vezes vivemos colados a esses rótulos que acreditamos definirem a nossa identidade, consubstanciados nessas “falsas verdades”, quando a verdade é que a nossa plasticidade, capacidade de readaptação e potencial criativo são enormes e possibilitam estar em constante aprendizagem e transformação.

Ousemos então aceitar esse desafio constante chamado vida!

Autorretrato

Carlo Strenger, O medo da insignificância

Aceitar passivamente  as próprias limitações faz com que se passe da repugnância por si mesmo à aceitação de si mesmo. Em todo o caso, nunca vi exemplos deste tipo a não ser na meia-idade ou em pessoas mais velhas. A verdadeira mudança exige algo como uma compreensão metafísica sobre o que significa ser livre, como Jaspers salientou repetidamente. A liberdade a que me refiro é revelada de forma impressionante nos autorretratos de Rembrant. Pintou o seu próprio retrato durante toda a vida e os seus mais de noventa autorretratos abrangeram mais de quatro décadas da sua carreira. Como afirmaram os historiadores de arte, os autorretratos de Rembrant funcionaram como marcos de uma parte da sua vida, porém, quando atingiu os cinquenta anos, transformou-se numa espécie de autoanálise. Nessa altura tinha já vivido a ascensão em direção à fama e a queda em desgraça e tinha sido banido dos círculos sociais. Nos seus últimos autorretratos vemo-lo frequentemente muito desmazelado, as marcas da idade são muito visíveis, o seu olhar, de alguma maneira desconfiado, é o olhar de um homem que conhece as agruras da vida e furou o véu da ilusão. Não obstante, os quadros não são desagradáveis nem pessimistas. Pelo contrário, emanam ainda uma luminosidade e uma beleza fascinante. Não são deprimentes, induzindo antes um estado de contemplação e de prazer. Muitas vezes, é fácil esquecer que estes quadros são criações que exigiram uma actividade morosa. Rembrant precisou de se contemplar a si próprio de uma forma distanciada e objetiva, enquanto decidia como elaborar os quadros. Afinal, o objetivo mais importante da pintura no século XVIII seguramente, era a criação de beleza.

Ao entregar-se à tela, Rembrant combinou a lucidez do autoconhecimento e da percepção de si próprio com a obra de arte que iria continuar a ser testada durante séculos. Enquanto se mostrava como era realmente, Rembrant também levou a sua arte ao seu máximo expoente: a grande mestria da luz e da cor e o seu talento para a composição. Ao retratar incansavelmente a sua imagem, ele exprimiu e afirmou a sua identidade como artista magistral.

A aceitação de si mesmo, tal como é expressa nos autorretratos de Rembrant, não é uma sujeição passiva à realidade. É uma expressão ativa da capacidade da mente para ver, compreender e dar forma à sua compreensão numa criação com valor. Sugiro que lhe chamemos aceitação ativa de si mesmo. É ativa por duas razões. Primeiro que tudo, a mente não é um recetáculo passivo ou um espelho da realidade. Tem de construir as representações ativamente. O processo de pintar um autorratrato realça drasticamente esta criação complexa. A segunda razão para a minha sugestão terminológica é o facto de o resultado da aceitação ativa de si mesmo não ser equivalente a aceitar simplesmente aquilo que somos. É aceitar o chamamento existencial para sermos o que podemos ser e, como tal o início da transformação de nós próprios. Requer que se faça o trabalho árduo que Friedrich Nietzsche sintetizou em A Gaia Ciência como dar estilo ao nosso carácter: abranger claramente com o nosso olhar as nossas forças e fraquezas e transformar as nossas vidas numa criação coerente.

Um coach chamado Inácio

Laurinda Alves, Observador 1.agosto.2017

William James, médico e filósofo norte americano, professor de fisiologia, anatomia e filosofia em Harvard, e um dos fundadores da psicologia moderna disse que poucas pessoas utilizam mais de 10% de todo o seu potencial ao longo da vida. William James, ligado ao pragmatismo e considerado o ‘pai da psicologia americana’, morreu em 1910 depois de ter sido muito confrontado e desafiado em vida, mas continua a ser citado e dado como referência. É interessante voltar a esta sua teoria pois ela aplica-se a um potencial de largo espectro: competências intelectuais, físicas, artísticas e até religiosas, pois toda a experiência humana tem uma dimensão espiritual.

Da maneira como nos relacionamos connosco próprios e uns com os outros, à forma como integramos e sistematizamos os conhecimentos de todas as naturezas e áreas do saber, aparentemente continuamos a funcionar muito aquém das nossas capacidades. Teoricamente temos dons e talentos que podem permanecer ocultos, por desvendar, ao longo de toda a nossa existência. De acordo com William James, isso também se deve a uma ‘psico-patologia da média’, uma espécie de doença da ‘normalidade’ que nos leva a ficarmos facilmente satisfeitos com a mediania, ou com tudo aquilo que nos soe a padrão ou estatística. Na sua óptica aceitamos mais naturalmente o que nos parece ‘normal’ do que aquilo que exige outros recursos que habitualmente não usamos e nem sempre identificamos em nós.

Claro que tudo isto é discutível palavra por palavra e linha por linha, mas é interessante como ponto de partida para focar no grande salto para fora da normalidade que todas as pessoas de génio e com rasgo deram, dão e continuarão a dar ao longo dos séculos. Há 500 anos ninguém falava em escuta activa e, muito menos, em exercícios espirituais ou no discernimento do dia a dia, para dar três grandes exemplos existenciais-espirituais. A normalidade ditava caminhos mais previsíveis e porventura mais condicionados, mas graças a pessoas que escaparam aos cânones, esta terminologia vingou. Mais importante do que ter vingado, é terem existido pessoas capazes de cunhar novas linguagens que nos continuam a interpelar muitos séculos depois.

Inácio de Loyola foi uma destas pessoas. Muito antes de ter sido considerado santo, o basco vaidoso e galante, o cavaleiro sedutor e conquistador, revelou uma capacidade invulgar de ser e fazer diferente. Tão vaidoso era, que ao ver-se defeituoso de uma perna após um ferimento grave no campo da Batalha de Pamplona, em 1521, exigiu que lhe voltassem a partir o osso a sangue-frio para que ele pudesse colar sem defeito. Nessa altura, a sua personalidade já se destacava claramente por ser diferente da mediania, mas ainda se construia a partir de um código de valores cavalheirescos. Só mais tarde, depois da sua conversão no quarto onde convalescia dessa dolorosa operação, e ao longo de toda a sua peregrinação pela vida, é que Inácio haveria de revelar a sua capacidade de usar e estimular muitos outros a usarem muito mais do que 10% do seu potencial, por assim dizer.

Há 500 anos existiam mestres e professores, mas o conceito de coach era absolutamente desconhecido. Curiosamente, Inácio de Loyola foi ao mesmo tempo um grande mestre, um extraordinário professor e um fabuloso coach. Ensinou a ouvir, ouvir, ouvir sem a tentação de dar conselhos, pistas infalíveis, ou fórmulas definitivas. O seu método sempre foi o de ajudar a descobrir caminhos e a desocultar dons e talentos para que cada um pudesse encontrar em si mesmo a capacidade de escutar. De se ouvir a si, de escutar os outros e de sentir a acção do espírito.

Inácio de Loyola apontou para caminhos de liberdade que começavam sempre pela liberdade interior que permite sermos quem somos, independentemente da mediania, sem tentações estatísticas e sem medo de não corresponder às expectativas dos outros. Mais, sem outras pressões para além daquelas que são ditadas pela consciência. Uma consciência formada para aspirar ao maior bem, ao lendário ‘mais e melhor’ que acabou por se converter no seu lema de vida. O “magis” que ainda hoje inspira legiões de homens e mulheres apostados em fazer bem o Bem.

Inácio foi um buscador incansável que ajudou e continua a ajudar os mais racionais e, porventura mais cépticos, a encontrarem caminhos de evolução pessoal e elevação espiritual. Como? Dando critérios de discernimento e ensinando uma atenção especial às ‘moções interiores’, atribuindo nomes e conferindo sentido ao que sentimos. Desolação e consolação são conceitos inacianos, de certa forma inaugurados por ele, na medida em que nos ensinou a perceber o que nos desola e nos consola, independentemente de serem alegrias ou tristezas. Inácio de Loyola compreendeu muito cedo a complexidade psicológica de cada ser humano e soube sempre respeitar a identidade de cada um, dando ferramentas de conhecimento próprio e de Deus.

Tal como os melhores coaches da actualidade, Inácio ajudou-nos a separar águas e a perceber que a consolação e a desolação não são ditadas por circunstâncias externas e, muito menos, dependem de bens absolutos como a riqueza ou a saúde, o reconhecimento dos outros, o prestígio ou o poder. Muito pelo contrário, podemos estar a atravessar grandes desertos ou a sobreviver em meio de tempestades mantendo o espírito consolado pela simples razão de sabermos dar sentido àquilo que nos acontece, por termos a certeza de não estarmos sozinhos e por sabermos que há sempre luz depois da escuridão.

Os budistas falam da impermanência, mas Inácio falava de Deus e traduzia por palavras simples e concretas os ensinamentos de Jesus. De tal maneira foi real e concreto que contagiou primeiro um pequeno grupo de amigos, depois um círculo alargado de companheiros que, mais tarde, se transformaram na Companhia de Jesus, hoje em dia a ordem religiosa masculina mais numerosa na Igreja Católica.

Quinhentos anos depois, num tempo em que Deus continua a ser uma palavra difícil e muitos crentes são perseguidos e aniquilados, Inácio de Loyola continua muito à frente do tempo inspirando leigos e religiosos num caminho de descoberta de si mesmos em relação com os outros, com o mundo à sua volta e com tudo aquilo que os transcende.

Milhares e milhares de crentes atestam a vitalidade do pensamento e acção do fundador da Companhia de Jesus ao celebrarem o dia de Santo Inácio, enchendo igrejas por todo o mundo. Esta segunda-feira a igreja de São Roque em Lisboa – a primeira Igreja de jesuítas em Portugal e uma das primeiras no mundo – estava a transbordar de gente apostada em tentar fazer mais e melhor, precisando certamente de usar mais do que os lendários 10% do seu potencial espiritual e relacional.

Compaixão

Clara Soares, jornalista e psicóloga, Visão, 28.maio.2017

James poderia ter sido apenas mais um miúdo pobre, com fome, condenado a crescer numa família disfuncional e a viver à margem até final dos seus dias numa pequena aldeia da Califórnia. Tinha 12 anos quando entrou numa loja de magia. A misteriosa mulher que o atendeu foi o seu porto de abrigo: durante um mês e meio, ensinou-lhe “truques” que lhe mudariam a vida. Meio século depois, o prestigiado neurocirurgião dedica-lhe o livro Dentro da Loja Mágica (Lua de Papel, 230 págs, €14,90).

Nesta obra, o médico explica como superou a adversidade e alcançou o sonho de vencer na vida através de técnicas milenares – relaxando o corpo, acalmando a mente, visualizando o que desejava. James teve tudo – tornou-se milionário – e quase tudo perdeu, na bolha das dot.com. Restavam-lhe ações de uma empresa que valiam 30 milhões de euros, aplicadas num fundo universitário. Apesar de ter dívidas de 3 milhões de euros, Doty decidiu doar todas essas ações ao fundo, aplicando a quarta técnica que a tal mulher misteriosa lhe ensinara: abrir o coração. Hoje, continua a acreditar que a generosidade e a compaixão transformam o mundo. Decidiu fundar o Centro de Investigação e Educação da Compaixão e Altruísmo (CCARE), apoiado pelo Dalai Lama. Aos 61 anos, James vive cada dia como se fosse único. Porque é mesmo.

  • Dorme pouco por natureza?

Por norma, costumo precisar de quatro a seis horas. Mas, se estiver realmente muito cansado, sou pessoa para dormir 12 horas seguidas. Outras vezes opto por fazer uma pequena sesta.

  • É raro encontrar médicos e investigadores que tenham um discurso próximo do místico.

Se pensarmos no que nos torna humanos, seja através da religião, da cultura ou da sociedade, chegamos sempre à compaixão. Deve haver uma razão para isso. Como cientista, sou ateu. Não acredito num Deus que olha por mim nem que existe algo mais para além do presente. Tal não impede que haja uma maioria a acreditar nisso, nem que eu reconheça a beleza da vida e a capacidade para amar e cuidar que as pessoas têm. Fascina-me como os líderes filosóficos e religiosos estão disponíveis para motivar as pessoas a serem melhores. Os budistas, por exemplo, usam técnicas validadas pela ciência para melhorar a saúde física e mental.

  • Diz que o coração é um órgão inteligente. Quer explicar isso um pouco melhor?

Começa a provar-se cientificamente o que diziam os líderes espirituais: a ligação entre a mente e o coração, que está ligado ao nervo vago, situado entre a base da cabeça e o tronco cerebral. Estes dois órgãos comunicam entre si através do sistema nervoso autónomo, que é formado por dois sistemas, o simpático e o parassimpático. Continuar a ler Compaixão

A beleza da vulnerabilidade

Ana Luísa de Castro Oliveira, psicóloga, psicologia.pt

Estamos constantemente sujeitos a situações que implicam um maior ou menor grau de vulnerabilidade, e por vezes colocamo-nos noutras tantas que nos deixam ainda mais vulneráveis. A vulnerabilidade é, assim, como que uma condição inerente à nossa condição humana, e, mesmo assim, achamos que podemos fugir dela.

Porquê?!? Porque não queremos estar vulneráveis. Porque, geralmente (e não erradamente), associamos a vulnerabilidade ao medo, a ter dúvidas, a estar em risco, exposto. Mas porque também associamos a vulnerabilidade a fraqueza, a angústia e sofrimento… coisas que não queremos sentir.

Nos seus estudos, Brené Brown foi percebendo que, muitas vezes, face à vulnerabilidade, tendemos a tentar “adormecê-la” em nós. E é aqui que alerta para o facto de não ser possível “adormecermos” selectivamente as emoções, ou seja, não nos é possível escolher não sentir as coisas “más”, sem que estejamos a negligenciar também outras emoções e afectos prazerosos. Ao tentarmos afastar-nos de sentimentos fortes como a vulnerabilidade, a dor, a vergonha, o sofrimento, a desilusão, estamos também a adormecer em nós a possibilidade de sentir alegria, gratidão, felicidade… o que nos leva, invariavelmente, a sentirmo-nos ainda mais infelizes, o que por sua vez nos faz sentir vulneráveis, gerando-se um ciclo vicioso.

Ao analisar as respostas às entrevistas que foi realizando, Brené Brown confirmou que, se por um lado, a vulnerabilidade é o centro da vergonha e do medo, também é (espantem-se alguns) fonte de alegria, da empatia, de amor, do sentimento de pertença. E percebeu que as pessoas que se sentiam merecedoras desse amor e desse sentido de pertença (por oposição àquelas que se questionam constantemente se serão suficientemente boas para o merecer) tinham em comum quatro características: Coragem (de serem imperfeitas), Compaixão (com elas mesmas primeiro, e depois com os outros), Afinidade (estavam dispostas a abdicar de quem achavam que deveriam ser, para serem, de uma forma autêntica, quem realmente eram, o que é indispensável para a afinidade), e Vulnerabilidade.

Estas pessoas falavam da vulnerabilidade como sendo necessária (mas nem por isso mais confortável ou menos dolorosa) e mostravam-se dispostas a fazer algo para o qual não houvesse quaisquer garantias, para dizerem “amo-te” primeiro, para respirar fundo enquanto aguardavam o telefonema do médico depois de um exame delicado, estavam dispostas (e consideravam fundamental) a investir numa relação, que podia ou não resultar. Abraçavam completamente a vulnerabilidade, acreditando que o que as torna vulneráveis as torna também bonitas.