Arquivo da categoria: Reflexão Mensal

No primeiro dia…

Reflexão para o mês de Junho de 2022

Guardar o que é bom

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Examinai tudo. Guardai o que é bom. Afastai-vos de toda a espécie de mal.” (da 1.ª Carta de São Paulo aos Tessalonicenses 5, 21-22)

A primeira carta que São Paulo escreve aos Tessalonicenses é um hino à comunidade cristã. É um texto belíssimo no qual são apresentados os fundamentos para uma vida plena: a alegria, a gratidão e a vida em comum. Desta carta de São Paulo, considerada um dos mais antigos documentos do Novo Testamento, escolhi, para a reflexão deste mês, estas três simples frases: “Examinai tudo. Guardai o que é bom. Afastai-vos de toda a espécie de mal.”

“Examinai tudo.” Um cristão é, por excelência, um observador, aquele que olha a vida, que contempla, como tão sabiamente definiu Ricardo Reis, este espetáculo do mundo do qual faz parte desde o primeiro dia, desde que foi sonhado e amado por Deus criador. Um cristão não se encerra no seu “eu”, não se fecha no seu condomínio privado, não se abstrai da vida. Um cristão vive no mundo, encara as suas maravilhas, mas também enfrenta os seus desastres. Daí a importância de examinar tudo, como nos exorta São Paulo. Ver tudo, conhecer, observar. Contemplar. Querer ver. Recusar-se a viver de forma indiferente, desinteressada ou abstraída. O ser humano é um ser social. Somos pessoas porque o somos com os outros e com o Outro. Quando São Paulo evidencia a importância de examinar tudo, está também a enfatizar a nossa autoanálise, o nosso conhecimento interior, a nossa descoberta pessoal. Por isso, que nunca percamos esta vontade de descobrir, esta ânsia de procurar e, sobretudo, este desejo luminoso de nos maravilharmos com e pela vida.

“Guardai o que é bom.” Gravar em nós a serenidade dos momentos simples. Guardar tudo em Deus significa, para nós crentes, entregar-lhe o que somos, o que experimentamos, o que vivemos. O que sentimos e também tudo o que não compreendemos. E não deixar a vida à mercê do medo, da angústia, do desânimo. Deixar que Deus habite em nós e nos preencha com o dom da gratidão, da simplicidade, da harmonia. Nos textos bíblicos, esta atitude de “guardar o que é bom” surge referenciada em diversas ocasiões significativas. Também Maria foi guardando no seu coração tudo o que observava em relação ao crescimento do seu filho (Lc 2,19). Pratiquemos, pois, este princípio, o de conservar o que é bom, o que edifica, o que nos eleva. Deixemo-nos levar pela bondade, pela beleza que existe. E há tanta! Tanta! Que os nossos olhos se abram a essa mesma beleza. Não nos fechemos ao belo. Cuidemos do nosso coração que é o nosso tesouro. Com o coração amamos, perdoamos, vivemos. Um coração cheio de dureza não é sensível à beleza, não se apercebe daqueles que estão à sua volta. É um coração vazio. É um coração que não partilha e que, assim, não se pode multiplicar. Devemos cultivar os bons sentimentos, aqueles que nos edificam. Procurar experiências significativas. Os pais devem dar aos filhos tempo, abraços e risos. Contemplar a natureza, ouvir uma música, escutar o silêncio do fim do dia, ler um livro, conversar, partilhar vida. Tudo isto contribuiu para enchermos o nosso coração de bondade. Para sermos bondade.

Este conselho de São Paulo para guardarmos só o que é bom parece ser fácil de seguir. No entanto, enquanto espécie humana (ainda não somos só seres divinos!) tendemos para guardarmos, quase a ferro e fogo, as recordações mais tristes e dolorosas. A psicologia explica este fenómeno pelo facto de que uma experiência traumática é muito mais importante para a nossa sobrevivência enquanto espécie do que a memória de algo agradável. Em conversas que surgem, aqui e acolá, acontece muitas vezes ouvirmos mais histórias de tristezas do que de alegrias. É precisamente contra isto que devemos lutar, dizer não, fazer um esforço para nos focarmos naquilo que é positivo e bom. Todos nós já passamos pela experiência do mal, do sofrimento, da dor. Há um verso de Miguel Torga que o Jorge lembrava algumas vezes para nos chamar a atenção para uma tentação perigosa. “Aos poucos, a vida vai-nos tirando a vontade de cantar.” Isto sempre provocou em mim um arrepio de medo quase paralisante. Sempre me questionei como seria possível alguém perder a vontade de cantar. E cantar, neste contexto, significa o maravilhar-se com a vida, o continuar a caminhar, o fazer sonhar. E hoje compreendo que este verso é um alerta para todos nós, os viventes. À medida que a vida vai avançando e com ela trazendo alegrias e tristezas, há uma tendência generalizada para se privilegiar o negativo, o lado sombrio. Recordamos, muitas mais vezes os problemas que vivemos do que as soluções que encontramos. Vamos acumulando deceções e amarguras e os dias ficam por viver na sua plenitude. Sem nos apercebermos, deixamos de cantar, de procurar e de sentir a alegria de estarmos vivos, presentes, juntos. Deixamos de ler um livro porque achamos que já não temos tempo, deixamos de rir com vontade porque somos as ditas pessoas sérias, deixamos até de ir à missa porque isso agora já não se encaixa no meu perfil de jovem-adulto-promissor-com-uma-carreira-brilhante-e-ligeiramente-ateu-só-porque-sim, deixamos de nos deitar na relva a olhar o céu porque isso agora é uma perda de tempo, deixamos de… E, assim, a vida vai-nos embrutecendo sem nos darmos conta. As experiências de dor existem e, é certo, não podemos fingir que elas não aconteceram. No entanto, é imperativo, para podermos seguir viagem, para avançarmos, colocarmos à nossa frente aquilo que temos guardado de bom. Seguir vivendo sem esses pesos que nos atrapalham o andar. É um processo fácil? Não, não é. Mas é a atitude necessária para continuar a viver. E, sobretudo, para sermos Luz para os outros. Para sermos caminho. Não deixemos que a morte nos aconteça antes do tempo. Cuidemos do nosso coração. Guardemos o que é bom, puro, simples, doce.

“Afastai-vos de toda a espécie de mal.” O mal chama sempre a atenção, é poderoso, gere emoções e provoca reações bem mais visíveis. Ninguém está ou é imune ao mal. E o mal já não é aquele ser diabólico, de risinho maquiavélico, causador de medos e de gritos estridentes. Esta caricatura já não representa os nossos dias. Pelo contrário, o mal apresenta-se hoje com uma bela figura, sedutora, repleta de promessas felizes e de imediata concretização. São Paulo pede-nos que não tenhamos medo de dizer não ao que nos faz mal, a tudo aquilo que obscurece o nosso entendimento. Rejeitemos imagens, ideias, percursos, opções que não nos fazem bem, que nos fazem ser menos do que a plenitude que cada um de nós, enquanto filho de Deus, deve assumir. Procuremos o bem. Procuremos as estrelas que há milhares de anos continuam a ser um presente para nós. Procuremos um abraço amigo naqueles que caminham ao nosso lado. Procuremos aquela canção que temos guardada no nosso coração. Procuremos este Deus que nos espera sempre de braços abertos. Guardemos tudo o que é bom. E assim seremos Luz. E assim seremos Páscoa. E assim seremos caminho. Aleluia!

No primeiro dia…

Reflexão para o mês de Maio de 2022

Ver com o coração

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: ele viu e acreditou.” (Jo 20, 8)

Vivemos ainda por estes dias um tempo de festa, o tempo pascal, o tempo que nos diz que a vida não tem fim, que o futuro espera-nos, que a esperança vem até nós para fazer caminho connosco. No domingo de Páscoa, a liturgia do dia recordou-nos a narrativa dessa manhã maior, a manhã inaugural da nossa fé, a manhã da também sempre nossa Ressurreição. Sim, a Ressurreição é de cada um de nós, porque é sempre o momento em que eu decido deixar para trás tudo aquilo que me limita e inicio um novo caminho. Sim, a Ressurreição faz de mim uma nova criatura, faz-me nascer de novo, faz-me passar da morte para a vida.

A Ressurreição de Jesus é o maior acontecimento da vida cristã. O que distingue a Ressurreição de outros eventos históricos é o facto de este mesmo acontecimento só poder ser visto e vivido com os olhos da fé. Ninguém põe em causa o nascimento de Jesus nem a existência história desta figura maior. O seu “modus operandi” marcado por mensagens de amor, solidariedade e igualdade fez história não só no seu tempo, mas sobretudo nos tempos seguintes. A sua morte foi comprovada e semelhante à de outros daquela época. Mas, quando se refere a sua Ressurreição, as dúvidas aparecem e não se encontram factos concretos que possam comprovar plenamente este acontecimento. E isto é assim porque a Ressurreição só pode ser lida numa dimensão de mistério, só pode ser vivida na medida do Amor. Esta é a grande exigência cristã. Acreditar no que não é certo, acreditar no que parece ser estranho, acreditar no que não está lá.

A Ressurreição de Jesus não é explicável, não é factual. A Ressurreição de Jesus só se torna visível quando decidimos que queremos ver, que desejamos acreditar, que ousamos contemplar o que o terreno não nos oferece. Este acontecimento maior daquela manhã de Páscoa é o abraço que eu dou ao mistério do indescritível, é o meu desafio, enquanto cristã, que me impele a escolher viver esta dimensão maior e tão contrária a um mundo que só exige certezas e provas irrefutáveis.

Na narrativa do Evangelho de João, há dois verbos que compõem o acontecimento da Ressurreição: ver e acreditar. João refere que o discípulo amigo de Jesus, aquele que chega primeiro ao sepulcro, vê o espaço vazio e acredita. O discípulo vê o vazio, vê o nada, vê o que não lá está. E isso é tudo! O discípulo não viu nada, ou melhor, viu o nada que, afinal, é o Tudo. Viu um sepulcro vazio, mas cheio de uma morte vencida. Viu o invisível, mas o que se pode sentir. Viu o que não se pode contabilizar, porque viu o Amor e o Amor não tem medida. E, então, pode acreditar. Acreditou. Compreendeu. Ele quis ver para além das aparências, daquilo que era óbvio. Escolheu ver com os olhos da fé e, assim, foi capaz de ver mais, perceber mais, viver mais, experimentar mais.

A postura do discípulo no Evangelho de João mostra-nos que uma atitude de disponibilidade é essencial para a nossa caminhada na construção da nossa fé. A fé capacita-nos a entender o que está para além da nossa compreensão humana e, por isso mesmo, limitada. Precisamos de ver com os olhos do coração aquilo que a razão não alcança. Precisamos de ver com o coração para além das aparências, para além do material. De nada nos serve dizer que acreditamos se apenas nos deixamos levar pelo que é apenas concreto. A doce obra “O Principezinho” recorda-nos sempre que “o essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração”. Sim, só quando nos dispomos a querer ver com os olhos do coração é que o Amor se torna visível, é que a Vida se torna eterna. E assim acreditamos.

Naquele domingo maior, os discípulos e as mulheres viram muito mais que um sepulcro vazio. Os seus olhos encheram-se de uma sabedoria eterna e perceberam que Ele não está, estando. Eles viram os seus sinais porque assim se permitiram a deixar ver. Eles deixaram de lado os seus preconceitos, as suas reservas, os seus medos. Confiaram. Abriram os seus olhos e os seus corações ao que lhes estava a acontecer. Mesmo sem terem respostas dadas pela racionalidade, fizeram uma escolha: quiseram ver! E assim acreditaram. E assim lhes foi dado um mundo novo! Também nós somos, todos os dias, chamados a fazer esta escolha: a de querer ver com o coração. A Ressurreição de Jesus só se torna acontecimento visível para nós quando escolhemos acreditar que Ele continua vivo hoje. Nós podemos ser essa Ressurreição quando nos comprometemos, nos nossos contextos de vida, a sermos as suas testemunhas. Quando fazemos de cada gesto nosso um gesto de Ressurreição, de proclamação de vida nova, de triunfo de um Amor que nos salva.  

A experiência da Páscoa anuncia-nos que é possível acreditar quando eu escolho ver, quando eu me permito contemplar a vida com o coração, quando eu não deixo que a indiferença ou a dureza da vida me dominem. Aquele cego em Jericó pediu a Jesus, “Senhor, que eu veja”. Que seja também este o nosso pedido. Senhor, que eu veja a tua luz nos meus caminhos. Que eu acredite sem reservas. Que eu abra espaço para o indizível. Que eu seja Páscoa em cada um dos meus dias. Que eu te queira ver sempre. Que eu procure permanentemente a beleza e a harmonia, a serenidade e o infinito. Que os meus olhos digam que tu ressuscitaste por mim, para mim. Que eu dance ao sabor da minha fé, tantas vezes frágil, mas que é sempre caminho que me leva a ti. Aleluia! Eu vejo. Eu acredito.

No primeiro dia…

Reflexão para o mês de abril de 2022

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Pusemos a nossa esperança no Deus Vivo” (da 1.ª Carta a Timóteo 4,10)

A primeira carta que São Paulo escreve a Timóteo é dirigida a este jovem pastor que, apesar da sua idade e da sua pouca experiência, está como responsável da comunidade em Éfeso. Ao longo da carta, Paulo pede a Timóteo que se mantenha firme na fé e que desempenhe sempre com coragem, fidelidade e determinação a tarefa para a qual foi escolhido. Paulo, ao aconselhar o jovem Timóteo, traça um perfil interessante daquele que se diz ser seguidor de Jesus Cristo, acabando por definir tudo aquilo que pode ser considerado relevante para um cristão autêntico. Paulo entende que aquele que professa a vida cristã deve ser modelo para os outros na fé, no amor e na esperança. Se bem que outra atitude não deveríamos esperar de verdadeiros cristãos, por vezes parece que nem sempre é assim tão fácil encontramos a personificação destes modelos e esses valores em cada um de nós. Paulo aconselha Timóteo a ser perseverante e firme, a não desistir nem desanimar, pois só assim poderá ultrapassar os seus limites e conhecer novas forças e novos alentos. Assim, o verdadeiro seguidor de Cristo será sempre aquele que conhecendo as suas capacidades, os seus talentos e o seu carisma os põe a render e a dar fruto, indo ao encontro dos outros. Paulo também pede a Timóteo para que este se dedique à leitura e ao ensino e que cuide dele próprio para assim poder ser luz para os outros e caminho de salvação. Por último, Paulo pede a Timóteo para este ter esperança e acreditar no Deus vivo.

As palavras de Paulo a Timóteo atravessam os séculos e chegam até nós. É uma ideia interessante esta, a de colocarmos a nossa esperança num Deus…vivo! Parece ser uma afirmação redundante e pouco propositada, mas… Por vezes, dizemos acreditar neste Deus, mas parece que nos esquecemos que Ele continua vivo hoje, na nossa realidade, nas nossas casas, nos livros que lemos, nas escolas e nos empregos, nos passeios e nas conversas, nos caminhos que percorremos. Este Deus – vivo! – não é apenas um Deus que um dia veio até nós e fez coisas maravilhosas e extraordinárias e depois morreu, deixando como herança as suas palavras e as suas ideias e tendo depois sido proclamado herói e assim adquirido uma legião de seguidores. É muito mais que isso! É um Deus que continua vivo hoje! E a nossa esperança deve ser sempre colocada naquilo que não morre, no que não tem fim, naquilo que perdura.

A esperança deve ser uma palavra querida e obrigatória para todos aqueles que se dizem cristãos. É impossível dizermo-nos cristãos e não sermos capazes de verdadeiramente sentir e concretizar no dia-a-dia a existência dessa força, dessa esperança maior que nós próprios e que nos faz acreditar profundamente na imensidão e na eternidade das nossas vidas. Os primeiros cristãos souberam viver esta e nesta esperança. Num ambiente marcado por perseguições, medos e injustiças, a esperança daqueles homens foi sempre tão forte, tão firme e tão persistente que foram capazes de manter vivo aquele Deus no qual acreditavam. Depois de terem experimentado a novidade da mensagem de Jesus, era-lhes impossível não falar dela e não podiam deixar de anunciar que este seu Deus continuava vivo e era para todo o sempre imortal. Naquele contexto, era-lhes pedido que manifestassem a sua fé através das suas vidas, indo muitas vezes até ao limite. Na nossa sociedade ocidental atual, somos chamados a viver esta nossa fé de uma forma exigente e adequada à nossa própria realidade e ao nosso tempo. Como cristãos do mundo de hoje, de uma sociedade ultra e mega tecnológica, de um tempo moderno e universal, devemos ousar e anunciar este Deus vivo! Não nos devemos deixar contagiar por aqueles para quem Deus só aparece nos maus momentos, para quem a crise fala mais alto que a esperança, para quem Deus não pode nunca ser motivo de uma infinita alegria. Somos responsáveis por manter vivo este Deus através de vidas verdadeiramente vivas e cheias de significado. Devemos ser sempre os primeiros a acreditar e a confiar e a saber falar de esperança. Como cristãos autênticos, não podemos proclamar um Deus morto, sofrido, apenas e só quaresmal. Nem podemos apenas limitar Deus a um mero protetor naquelas horas mais tristes. Devemos procurar sempre que as nossas atitudes e ações sejam um reflexo do nosso acreditar num Deus que vence a morte. Sempre. Todos os dias. Ao depositarmos a nossa esperança num Deus infinito, estamos a enraizar a nossa vida na certeza profunda da absoluta imortalidade. Confiar totalmente num Deus vivo leva-nos a acreditar que não podemos deixar que o medo, o desânimo e o desespero nos dominem. E este acreditar e esta confiança dependem de nós próprios, da nossa vontade e do nosso desejo. São as escolhas que escolhemos fazer.

António Alçada Baptista, um homem que soube compreender como a imortalidade vive no coração de cada homem, dizia que “Deus deve ter em nós uma presença permanente. Ter Cristo em nós, sempre acordado, é uma presença vital.” Acreditar num Deus vivo é isto mesmo, é fazer com que Ele esteja sempre acordado dentro de nós. Só assim a mensagem de Jesus continua a ser atual e transformadora, só assim poderemos ser cristãos autênticos, com vidas acordadas e ativas, capazes de mudar e de fazer crescer o nosso pequeno mundo e tornar mais despertos os mundos daqueles que estão perto de nós. Só assim podermos celebrar a Páscoa todos os dias. Só assim é Páscoa todos os dias. Acreditar num Deus vivo desafia-nos constantemente a evitar tudo aquilo que é terreno, superficial e desnecessário e a crescer e a evoluir, a descobrir forças em nós, a estarmos atentos aos outros e a sermos mais criativos. A sermos Luz. Sempre Luz! A sermos Páscoa!

No primeiro dia…

A partir de uma frase/citação/pensamento, a Comunidade Estrada Clara propõe, no primeiro dia de cada mês, um texto de reflexão como ponto de partida para a partilha comunitária e para o desenvolvimento espiritual e social de cada um de nós.

Reflexão para o mês de março de 2022

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“E estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós.” (da 1.ª Carta de Pedro 3, 15)

Encontramo-nos perante mais um inegável desafio. Se há dois anos começávamos então a enfrentar o vírus pandémico que nos sujeitou a um indesejável isolamento e a uma interrogação permanente acerca do nosso bem estar comum, eis-nos agora perante a turbulência e a inquietude que a violência mundial nos traz. Estes “vírus” que nos assolam surgem de um instante para o outro, atrapalham as nossas certezas e incomodam aquilo que é o nosso futuro. “A vida muda num instante. Num dia normal.” é a frase que a escritora Joan Didion vai repetindo ao longo do seu extraordinário livro “O ano do pensamento mágico”. Também ela teve de enfrentar a morte num dia em que esta não estava nos seus planos. Tudo decorre com a normalidade a que sempre nos habituamos e tudo acontece sem nunca nos habituarmos a que aconteça. E tudo acontece numa normalidade a que nem sempre damos valor, ou prestamos atenção ou até mesmo agradecemos. Depois, num “dia normal”, eis que tudo muda. E nós somos obrigados a mudar também. E a questionar.

Quando somos confrontados com estes abalos, a vida exige de cada um de nós uma resposta, uma ação. A vida não é indiferença. A vida é movimento, busca, construção. E a reação de cada um de nós é inevitavelmente diferente, ou não fossemos nós seres também diferentes. Perante esta guerra a acontecer, gente há que quer lutar pelo seu país e está a defendê-lo, recusando boleias de salvação; outros escolhem ir para as ruas físicas e sociais gritar a indignação e assumir como lema de vida comum a solidariedade entre os povos; outros ainda arregaçam as mangas e enchem de bens os camiões que partem em direção ao sofrimento atroz; outros exercem a sua diplomacia para tentar quebrar o castelo de gelo e de ódio onde os poderosos vivem. E o Papa convocou para amanhã, Quarta-Feira de Cinzas, uma jornada de oração e de jejum em união com aqueles que sofrem. Todos nos movimentamos. Todos somos movimentados. Todos temos esta(s) escolha(s). Somos seres com os outros e para os outros. Isto é ser humanidade. É pormo-nos a caminho. É fazermos caminho.

Como posso eu ajudar? O que posso eu fazer? Enquanto cristã, o que me move e comove ao viver este momento mundial? Eu encontro parte da minha ação também na oração, no silêncio que me leva à reflexão, na comunhão de energia e positividade com quem sofre e com quem precisa de sentir conforto. Perante este ambiente de agressão e violência, podemos e devemos unir os nossos pensamentos, a nossa energia, as nossas forças para que aqueles que efetivamente têm poder de decisão e ação possam sentir esta onda de amor, positividade, confiança. É o nosso contributo enquanto parte desta humanidade cristã. Estar em oração é estarmos em partilha de espírito. É procurarmos a força, a energia, a presença de um Deus que é Amor e que dá tanta liberdade ao Homem ao ponto de ele poder escolher livremente a morte. Estar em oração é estarmos em união para que dessa união  todo o universo sinta que só a paz vale a pena. E aqui, como tantas vezes se diz, a fé salva-nos na medida em que nos faz acreditar que há sempre futuro, há sempre esperança, há sempre um sempre que nos salva. Só nesta confiança – que se vai trabalhando dia a dia, que avança, mas tantas vezes também recua – seremos artesãos de paz. Seremos luz para os que estão ao nosso lado. Seremos paz nos nossos contextos sociais.

Como posso fazer mais? Como posso ser mais? Estar em oração não nos dá as respostas que o mundo quer ouvir. Mas estarmos em oração uns com os outros também nos ajuda a serenarmos os nossos corações, a encontrarmos força para seguirmos em tranquilidade, a darmos razões das nossas esperanças. O desespero não deve ser a marca de um cristão. Quem acredita na Vida, não pode morrer em vida, não pode deixar que o medo seja superior à força interior que Deus deposita em cada um de nós. Aqueles que sofrem precisam da nossa esperança, precisam do nosso testemunho, precisam de acreditar que há mais vida, mais amor, mais certeza. Que há mais. Sempre mais. E, acima de tudo e apesar de tudo, estarmos juntos em oração é agradecer sempre o dom da nossa vida, o estarmos vivos aqui e agora, o podermos cantar, sentir e vivermos juntos este amor de Deus.

Deixemos a ingratidão de lado. Eliminemos a indiferença dos nossos dias. Escolhamos ser sempre pessoas agradecidas, de coração aberto e olhar disponível para o bem comum e para a beleza. Que não seja necessário o impacto de uma guerra, a chegada de uma doença, a presença de uma morte ou a ausência de um presente para nos apercebermos que, afinal, somos felizes (já somos felizes!) com muito pouco. E que esse muito pouco é sempre tanto. E é tudo. Aproveitemos cada dia que nos é dado para vivermos verdadeiramente e genuinamente. Que nenhum dia nos encontre por viver. Que nenhum momento nos apanhe distraídos ou desinteressados. Não nos detenhamos nos obstáculos ou nos limites que nos impomos tantas vezes. Não nos deixemos vencer pelas desculpas banais da falta de tempo, de oportunidade, de horário. Ousemos viver. Por cada um de nós e pelos outros, particularmente por quem já não o pode fazer devido a tantas circunstâncias infelizes. Sejamos paz. Sejamos luz. Sejamos caminho.