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Laços de família

Reflexão para o mês de fevereiro de 2024

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

 “Todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (do Evangelho segundo São Mateus 12, 50)

A qualidade da fotografia que acompanha este texto é inversamente proporcional à alegria e ao amor que fizeram com que ela acontecesse. Onde muitos poderão ver uma imagem muito pouco cuidada para ser exposta em redes públicas, eu vejo uma memória feliz de um encontro com a família à qual tenho a graça imensa de poder chamar de minha. Por isso, este é um texto de profunda gratidão. Pela minha vida vivida no meio de uma irmandade luminosa, pelo Amor com que amo e sou amada, pela alegria de acreditar num Deus que torna possível cada dia com que me vai presenteando. Pelos momentos felizes que me fazem rir e cantar e pelos momentos dolorosos em que me descubro capaz de ser forte no meio das minhas tantas fragilidades e onde sei que nunca estou sozinha. Este é também um texto de agradecimento imenso. Por estar rodeada de uma comunidade que personifica a presença do meu Deus e me faz acreditar que é o Amor que nos impede de cair na indiferença e na futilidade. Este é ainda um texto de reconhecimento. Por poder usar as palavras para construir propostas de caminhos, por viver em confiança plena com quem vai comigo, por partilhar esta dimensão espiritual comunitária e vivê-la em comunhão.

Nesta fotografia que convosco partilho está uma parte da família de Deus. Sim, nós somos família. Em Deus e por Deus. Pertencemos uns aos outros e comprometemo-nos a ser quem somos uns com os outros. Todo aquele com quem compartilhamos o nosso crescimento faz família connosco. Uns há já muitos anos, outros mais recentemente, mas todos escolhemos fazermo-nos família. E vamos partilhando vida, acontecimentos, histórias, horários, eventos. Fazemo-nos presentes no presente de cada dia nosso. E assim vamos sendo o resultado de tudo o que cada um de nós é. Somos esta família porque Deus nos uniu e nos chamou a ser. E nós tivemos a graça feliz de podermos, em determinado momento das nossas vidas, estarmos disponíveis para perceber esse chamamento. Nas nossas escolhas feitas, fomo-nos pondo assim no caminho uns dos outros. Ao que uns chamam acasos ou coincidências da vida, nós chamamos sinais da presença de Deus. Um Deus que se fez presente num convite para um encontro de catequese, numa vontade de ir cantar para um coro, numa curiosidade em participar num grupo da paróquia, num desejo de prosseguir uma caminhada espiritual, num chamamento depois de participar numa Eucaristia. E assim nos fomos encontrando na nossa Estrada Clara.

Ser família de Deus é aceitar viver em encontro, encontro este que ultrapassa fórmulas, papéis, funções. Ser família de Deus é falar a linguagem da irmandade, da cumplicidade, da relação. Ser família de Deus é acreditar que somos abraçados, que somos escutados, que a nossa história importa, que a nossa vida é conhecida e amada, seja qual for a sua circunstância. Ser família de Deus é saber que Ele vem ao nosso encontro e nos procura. Ser família de Deus é colocar os talentos que recebemos ao serviço do(s) Outro(s) e vê-los a serem multiplicados e fecundos. Ser família de Deus é deixarmo-nos cuidar e sermos também cuidadores tantas vezes do corpo e muitas vezes da alma.

Nem sempre é fácil pertencer a uma família destas. É exigente, baseia-se numa mensagem que nem sempre é aceite e não nos protege das montanhas-russas da vida. Por vezes, aparecem as dúvidas, as tempestades, as incertezas. Mas também e muitas mais vezes aparecem a vontade de seguir viagem de mãos dadas, a alegria incalculável de uma gargalhada partilhada, o abraço reconfortante que sabe sempre a casa quente e acolhedora. O lugar onde Ele está. O lugar onde nós queremos estar. A relação com os outros também faz parte da descoberta que vamos fazendo de nós próprios, interpela-nos, questiona-nos, faz-nos agir na construção de quem somos.

“Todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe». Foi esta a resposta dada por Jesus à pergunta que Ele próprio lançou sobre quem seriam a sua mãe e os seus irmãos. A leitura desta passagem do Evangelho pode causar uma certa estranheza a quem a lê na diagonal ou desconhece o seu contexto. É óbvio que Jesus não nega os seus familiares, pois tal não seria concebível na cultura judaica na qual ele próprio se inseria. Também não pretende levantar nenhuma dúvida no que concerne às relações de consanguinidade de Jesus. O que esta passagem nos mostra é, na realidade, algo bem mais simples, mas simultaneamente grandioso. O que as palavras de Jesus revelam é a grande graça que o Cristianismo nos oferece de nos reconhecermos a todos como irmãos. De facto, não há Cristianismo sem irmandade, não há história da salvação sem comunidade. Quem se afirma cristão vive com um coração permanentemente alargado e com a disponibilidade para amar sempre ativada. Jesus nasceu para nós e com Ele nasceu também a nossa condição de irmãos seus. Esta é uma das grandes maravilhas que o Cristianismo nos oferece – a de podermos viver em irmandade, em relação, em comunidade com o(s) Outro(s).

Não há Cristianismo sem relação. Não há um Nós sem um Tu e Eu. Não há Igreja sem as pequenas comunidades que a constituem. Não há espiritualidade sem ação. O coração de um Cristão estende-se, alarga-se, amplia-se para viver com os que são seus irmãos na fé, numa partilha de amor, de dádiva, de entendimento. O Cristão é, por excelência, o peregrino do encontro, a personalização de um abraço que acolhe, a mão sempre estendida para ajudar.

Jesus faz-nos irmãos ao revelar-nos o quão amados nós somos pelos irmãos que Ele colocou nas nossas estradas. Somos irmãos na medida em que, todos os dias, somos aqueles que vão a caminho, em peregrinação, uns com os outros. Que possamos escolher, em cada dia, sermos Evangelhos vivos, sermos lugares de esperança e de acolhimentos, sermos Amor.

Coisas novas

Reflexão para o mês de janeiro de 2024

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas.” (do Livro do Apocalipse 21, 5) 

Um ano novo que começa é sempre uma oportunidade para revermos tudo o que fizemos e para nos projetarmos num futuro próximo. O primeiro dia do ano desperta em praticamente todas as pessoas o desejo de um recomeço, de uma novidade, de um caminho, de uma folha em branco pronta para ser escrita. Para quem é cristão, esta oportunidade de novos recomeços está sempre disponível. É o próprio Deus que o confirma quando, por meio dos profetas e dos próprio Jesus Cristo, nos garante que há sempre tempo e espaço para renascermos, para nos erguermos, para seguirmos em frente. Confiando a Deus a nossa vida, com as nossas dúvidas e medos, com as nossas dores e abalos, temos a certeza de que Ele tudo fará para o nosso bem, mesmo que, muitas e tantas vezes, não tenhamos a capacidade necessária para compreender tudo o que nos acontece. E é precisamente quando não compreendemos, quando não encontramos respostas, quando nos sentimos perdidos, que devemos deixar fluir a confiança e viver da e na fé. Viver o invisível. Viver o que não calculamos. Viver o que ultrapassa o nosso entendimento. É aqui, neste viver confiante, que Deus está, naquele tempo e naquele espaço que nós não conseguimos atravessar sozinhos. Ele está connosco. Escolheu ser um de nós e um connosco na nossa humanidade, nas nossas fragilidades e inseguranças. Um Deus que se fez humano para que a nossa humanidade se faça divina.

Há dias escrevia para uma amiga – que está a atravessar uma etapa difícil – que a vida é uma montanha-russa na qual todos viajamos. Uma montanha-russa cheia de desafios, de subidas e descidas, enfeitada com gritos de alegria e de medo, de momentos aparentemente calmos e outros de grande agitação. Todos seguimos nessa montanha-russa. Uns preferem nem vê-la e nela seguem de olhos fechados para nada verem, nem o que é bonito nem o que é mais assustador. Outros enfrentam-na de olhos bem abertos, não querendo perder nada do que lhes é dado viver. Outros ainda oscilam entre manter os olhos abertos ou fechá-los quando o medo é maior. Todos nós adotamos estratégias diferentes para enfrentar tudo aquilo que nos acontece. Porém, há algo significativo que todos temos em comum. Ninguém viaja nesta montanha-russa sozinho. Ninguém. Vamos juntos, partilhando estas emoções, os risos e as lágrimas, dando as mãos, abraçando, segurando o coração uns dos outros. E este é o maior tesouro que Deus nos oferece: o de podermos fazer esta viagem acompanhados, sustentados pelo amor de quem está connosco, seguros na confiança que a irmandade nos traz. É por isto que as coisas novas que Deus anuncia acontecem. Porque acreditamos uns nos outros. Porque seguimos nesta viagem acompanhados. Porque somos o lugar onde Deus habita e assim o anunciamos a quem quer percorrer este caminho connosco.

O maior desafio para um cristão é precisamente o acontecimento da morte. Porque somos humanos, porque não compreendemos tudo, porque não conhecemos tudo, temos dificuldade em aceitar a morte. A nossa e a de quem amamos. Temos sobretudo dificuldade em continuar a viver para lá da morte, da separação, do afastamento. Mas, precisamente porque somos cristãos e nos é dada a graça de confiar e de acreditar, sabemos que esta vida continua para quem cá fica e continua também para quem vive já na Eternidade da Terra Prometida, naquele tempo e lugar onde todos, todos, todos viveremos juntos. E esta vida continua sempre que nós acreditamos que ela possa continuar, sempre que investimos no caminho que se constrói dia-a-dia, sempre que confiamos naquilo que não vemos.

“Eu faço novas todas as coisas.”, promete-nos Deus. A nossa vida é toda ela uma promessa. Vivida na confiança em Deus, a nossa vida não está isenta de sofrimento, mas está protegida pelo Amor que não tem fim. Vivida na entrega a Deus, a nossa vida é mais esperançosa, mais eterna, mais vida! “Eu faço novas todas as coisas.”, continua o Senhor a dizer-nos. É interessante perceber que esta sua mensagem está no tempo verbal do presente do Indicativo. Deus não nos diz que fará novas todas as coisas, mas que, neste nosso tempo e neste nosso lugar, estas novas coisas já estão por Ele a serem feitas e a acontecer para cada um de nós. O nosso Deus é o Deus das novidades, das surpresas. A nossa fé reside precisamente nisto. Em confiar que estas novidades são transformadoras. Em acreditar que o que Deus nos dá de novo é o novo que nós precisamos que nos seja dado.

A fotografia que acompanha este texto é um registo do momento final da Eucaristia do dia 1 de novembro, a festa de Todos os Santos, a data em que celebramos a viagem do Jorge connosco e agradecemos a sua vida entre nós e também a nossa vida uns com os outros. Uma fotografia espontânea, desfocada e sem filtros porque a vida é isto mesmo e a alegria genuína não precisa de ser enfeitada, glamorosa ou programada artificialmente. Nós somos estes. Os que acreditam que é possível continuar a caminhar. Os que querem continuar juntos de lágrimas nos olhos, mas com muitas mais gargalhadas para partilhar. Os que confiam que mesmo não conhecendo todas as respostas, sabem que a irmandade é a solução para todas as questões importantes. Os que escolheram pertencer uns aos outros e crescer uns com os outros. Por tudo isto, somos gratos porque já descobrimos que a Vida é sempre mais forte do que qualquer morte, porque acreditamos que a alegria multiplicada é o ingrediente fundamental para continuar a seguir viagem, porque escolhemos sermos cristãos uns com os outros numa comunidade orante e pensante.

Que este novo Ano que nos é dado nos encontre totalmente disponíveis para o espanto. Que este novo Ano que nos é oferecido nos encontre preparados para olhar cada dia com gratidão, com fé, com confiança. Que este novo Ano que nos é presenteado nos encontre em caminho, no caminho para a Terra Prometida. Que este novo Ano seja o tempo e o espaço que eu possibilito para me aproximar mais do que é essencial. Que este novo Ano me encontre de braços preparados para acolher os meus irmãos, de mãos estendidas para os segurar, de olhos abertos para ver a maravilha maravilhosa que é a vida em comunidade, na comunidade e pela comunidade.

Alegrai-vos!

Reflexão para o mês de dezembro de 2023

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo o digo: alegrai-vos!” (Carta aos Filipenses 4,4)

Estas palavras de São Paulo pertencem às chamadas cartas do cativeiro, isto é, cartas por ele escritas quando foi prisioneiro em Roma. A realidade vivida por São Paulo quando escreve à comunidade em Filipos não seria aparentemente compatível com a alegria que ele tantas vezes repete ao longo da missiva. Preso e torturado no cárcere romano, Paulo escreve as que foram consideradas as suas mais esperançosas e profundas cartas. Como é isto possível? Como se encontra tamanha alegria em contextos como estes tão difíceis e obscuros? Que radicalidade é esta que nos indica uma alegria maior? Para quê nos devemos nós alegrar?

Nunca em tantos lugares e tempos se falou tanto de alegria. A alegria surge como uma exigência a viver, é destaque nas redes sociais, é um imperativo sinónimo de sucesso. Vemo-nos a chegar à época natalícia e a palavra alegria não só redobra o seu uso como também a sua necessidade de exigência. Que alegria é esta com que nos deparamos? Ao refletirmos nela, concluímos que esta alegria que o mundo nos apresenta é um sentimento que faz depender totalmente a sua existência das circunstâncias e do estado de espírito de cada um. Por isso, é efémera, é volátil, é frágil. Porém, também faz parte de nós e também a devemos viver, claro! Quem, por exemplo, não vibrou de alegria que se multiplicou por um país inteiro quando todos nos vimos a ganhar a Eurovisão? Esta alegria existe e é humana. Mas Jesus apresenta-nos uma outra forma de existir em alegria. A questão reside em como podemos viver uma alegria sem prazo, sem data de validade, sem dependências externa. E a resposta só a encontramos – se abrirmos o nosso coração e o nosso entendimento – à mensagem de Jesus Cristo, ao seu modo de viver e de nos fazer viver. A alegria constitutiva da experiência cristã é única. Não é uma alegria que dependa de êxitos e sucessos financeiros e sociais nem de conquistas profissionais. É uma alegria assente na certeza de uma eternidade, de uma mensagem libertadora, de uma presença de amor. Não está sujeita à satisfação de uma sensação imediata ou à busca de um prazer nem é comparável.

“Aos cristãos é pedida a arte de fazer a alegria”, interpela-nos o Cardeal José Tolentino Mendonça. Esta arte da alegria é processo, é decisão, é caminho. Buscar a alegria, procurá-la, cultivá-la é uma tarefa árdua a ser cumprida todos os dias. É exigente e, tantas vezes, hercúlea e nem sempre a encontramos com facilidade. Obviamente todos nós estamos sujeitos a mudanças de humor, a irritações, a fúrias e desentendimentos. Todos nós somos atingidos por problemas e dores. Todos nós temos o direito de chorar, de nos sentirmos tristes, de nos questionarmos. Por isso, é também importante criarmos em nós esse espaço de sentir para deixar fluir o que dolorosamente experimentamos. Só assim possibilitamos, também, a abertura à alegria, que é a base firme que está em nós, apesar de todas as circunstâncias. A alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas da vida, por vezes tão duras. Adapta-se e transforma-se, mas permanece sempre pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados por um Deus que nos espera. Esta é a maior riqueza de quem se diz cristão. A de sabermos e confiarmos que fomos criados para esta alegria. Mesmo quando é difícil vivê-la e assumi-la por inteiro. A alegria de um cristão não provém da ingenuidade ou da incapacidade para ver e assumir aquilo que é trágico. Esta alegria cristã que nos é dada é aquela alegria que se vive “apesar de tudo” e também “a partir de tudo”, inclusive do que lhe seria, normalmente, contrário. A penúltima palavra pode ser a da experiência da dor, mas a última palavra é sempre a da alegria que nos resgata. Por isso, é possível no meio do caos experimentar a bênção da alegria, pois é ela que nos salva de sucumbir à desgraça, à dor, à desolação. É possível encontrar a alegria mesmo nas circunstâncias mais cruéis e difíceis, precisamente porque essa mesma alegria salvadora vem de Deus, de um Deus que é tudo em nós e que é promessa de Terra Prometida.

“A alegria é a coisa mais séria do mundo”, disse-nos Almada Negreiros com toda a razão. Ser alegre é viver em profundidade, é escolher a luz que nasce do escuro, a certeza que vem das dúvidas. Ser alegre implica a gestão das nossas expectativas, necessidades, idealizações. A alegria é dom, mas também é tarefa, investimento, escolha. A alegria é simplicidade, é atenção, é leveza, é gratidão. A alegria é artesanal porque é construção, é processo de corta e cose e volta a cortar e a coser. A alegria multiplica-se quando é vivida em comunidade, quando se partilha, quando se testemunha. A alegria faz-nos maiores porque nos faz ser com os outros. Não pode haver alegria sem o(s) Outro(s). A nossa vida é um oceano de emoções, de paisagens tranquilas e de acontecimentos tumultuosos. O fundamental é viajarmos nesse oceano acompanhados pelas pessoas certas, aquelas que nos acrescentam, que nos elevam, que nos constroem. Há uma alegria serena que se vive entre quem é irmão, entre quem fala a mesma linguagem, entre quem cresce em comunidade. Uma alegria que se experimenta a partir da confiança no outro que me acolhe, sem preconceitos, sem julgamentos, sem ataques. Uma alegria profunda porque partilha vivências que só são possíveis quando os corações se decidem encontrar e fazer caminho. Uma alegria que nos salva da morte porque nos permite olhar para a vida de outra forma, olhar para o que somos e com quem somos com um coração agradecido. Por isso, em relação à grandiosidade da vida, nós temos de nos deixar invadir por uma alegria eterna, uma alegria plena, mesmo quando a pequenez das pequenas coisas dessa mesma vida nos parece derrubar.

“Não se trata de levar uma alegria passageira, uma alegria do momento, trata-se de levar uma alegria que crie raízes.” (Papa Francisco, discurso na vigília JMJ Lisboa 2023) Uma alegria que crie raízes é aquela que nos sustem, que nos mantém erguidos mesmo quando tudo nos parece derrubar. Uma alegria enraizada na certeza de que se escolhermos o caminho do Amor, tudo suportaremos. Uma alegria que nos fixa ao que realmente importa, que transforma a dor em luz, que nos faz viver e ser de outra forma. Uma alegria que não é algo que nos acontece, mas que somos nós a acontecer porque, na nossa profundidade, está aquela semente de amor que Deus nos dá.

“Alegrai-vos” deve ser o nosso mantra para todos os dias. A alegria é um ato de resistência e, consequentemente, de fé, pois nos leva a acreditar na eternidade para a qual todos somos chamados. Que saibamos continuar a fazer caminho com esta alegria que nos vem da confiança num Deus que vive sempre connosco. Que as nossas palavras, os nossos gestos, as nossas escolhas reflitam sempre esta alegria que vem de Deus e de nos sabermos escolhidos para uma Vida sempre maior que nós próprios.

P.S. A acompanhar este texto está uma das fotografias mais reveladoras desta alegria que brota entre corações que se amam e se doam profundamente ao(s) Outro(s). Meu irmão, minha irmã! Que benção a nossa!

Uma geração em caminho

Reflexão para o mês de novembro de 2023

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Esta é a geração dos que procuram a vossa face, Senhor” (Salmo 24)

A fotografia que acompanha este texto tem quase vinte anos e retrata uma das partes do nosso musical “Jesus é Vida!”. Na primeira parte deste musical, um grupo de jovens junta-se para fazer um trabalho para a escola acerca da figura de Jesus Cristo. Entre pensamentos e opiniões, músicas e danças, perguntas e respostas, esta primeira parte encerrava com a conclusão a que aquele grupo chegou: Jesus foi muito mais do que uma figura histórica relevante e é Ele que continua a ser aquele que nos faz caminhar, navegar, seguir nesta viagem que é a vida toda de todos os dias. Vinte anos passados, esta figura de Jesus continua a provocar a mesma procura, a mesma inquietação, o mesmo desejo de conhecimento. E muitos jovens daquele grupo, agora já mais adultos, continuam, em comunidade, a percorrer uma Estrada Clara de descoberta e de procura…

Num dos dias litúrgicos mais luminosos do ano, a Solenidade de Todos os Santos, cantávamos, com o salmista, “Esta é a geração dos que procuram vossa face, Senhor.” Dei por mim a pensar nesta geração a que o salmista faz alusão, a esta geração que procura encontrar o seu maior tesouro – Deus! Sempre essa grande questão da Humanidade! A procura de Deus. A palavra que mais grita neste salmo é esta, a da geração. Da geração que procura, que vai em busca, que quer descobrir. Não uma geração estática, parada, imóvel. Mas uma geração que caminha, que faz caminho, que se projeta no futuro a partir do presente. Que assume certezas e dúvidas, respostas e perguntas. Que carrega medos e dores, alegrias e euforias. Uma geração que se levanta e vai. Uma geração que não desiste, mas insiste em ser, em ir, em fazer. Esta é a nossa geração. Estes somos nós. Com as nossas luzes e sombras, qualidades e defeitos. Filhos amados de um Deus que é Amor e que, por isso, é por nós procurado. Muitas vezes, não lhe sabemos dar um nome, uma identificação. Sabemo-nos à procura, mas receamos dizer que é Deus quem nós buscamos. Mas Ele está à nossa espera. É Ele que é a nossa espera, o nosso tesouro, a pérola encontrada.  

No salmo, o autor não se refere à geração como sendo acabada, terminada, que procurou e encontrou o que queria. Pelo contrário, ele faz referência à geração que continua a procurar, a viver. Porque a vida é este processo inacabado, de formação, de construção, de corta e volta a coser, de avanços e recuos. Cada um de nós é este processo. Único. Original. Com o seu modo próprio de olhar, de rir, de falar. Somos o que seremos, dizia o professor Costa Santos no Curso Teológico-Pastoral que frequentámos. Somos o que seremos porque nada está terminado, fechado, encerrado. A última palavra não é a nossa. Nós estamos a ser. Nas nossas escolhas e opções. Somos em liberdade. Deus não nos impõe nada. Deus apenas propõe. Um caminho, uma via, uma estrada.

Há um paradoxo no caminho sugerido por Jesus Cristo: só nos podemos encontrar a caminho quando confiamos naquilo que não vemos, naquilo que desconhecemos. O Cristianismo não é uma apólice de seguro, não nos faz imunes à tristeza e ao sofrimento, não nos garante uma vida despreocupada e imune a bloqueios. Mas o Cristianismo dá-nos a garantia de que há um Deus que me ama, independentemente das minhas fragilidades, das minhas dúvidas, dos meus abismos. E quanto mais eu me aproximo deste Deus, quanto mais eu me disponho a conhecê-lo, quanto mais eu o procuro, mais eu me sinto seguro, tranquilo, amparado. E sigo caminho. E este caminho é muito mais completo quando é feito em conjunto, em comunidade. O salmista não menciona o “Eu” que procura a face de Deus, mas sim toda uma geração, uma família, uma comunidade que caminha. Seguir Jesus Cristo não é um percurso solitário. Seguir Jesus Cristo é escolher viver o nós, os outros, na comunidade. Por isso, ser cristão é uma tarefa, simultaneamente, exigente e libertadora, bela e dorida. Somos cristãos porque o somos com os outros. E isto implica confiança e entrega, disponibilidade e acolhimento.

Um dos obstáculos que nos impede de querer pertencer a esta geração que procura é a necessidade que humanamente temos de mapas, guias, orientações concretas que nos salvem da imprevisibilidade e das casualidades. Desejamos, em maior ou menor grau, um manual de instruções para todos os acontecimentos da vida, horários que nos salvem do que não sabemos, orientações que nos protejam do que não vemos. Mas a vida é tudo menos estanque. A vida é movimento que nos põe em movimento, é dança incontrolável que nos leva nas asas do vento, é desafio a ser abraçado e resolvido.

Outro destes obstáculos é o orgulho, a auto-suficiência. Julgamo-nos tantas vezes superiores à vida, senhores dominadores dos acontecimentos, mestres de planos traçados e intransigentes. Achamos que não precisamos de aprender a olhar a vida com humildade e serenidade e acabamos por deixar que a vida nos aconteça muitas vezes ao acaso. Recusamo-nos a olhar o que nos é dado viver com a alegria das pequenas coisas, com a beleza dos detalhes escondidos, com o coração a bater no ritmo da irmandade. Usamos a desculpa da falta de tempo quando o erro está no uso que fazemos desse tempo que nos é dado.

A Igreja é constituída por homens e mulheres em caminho, na vida de todos os dias, que escolhem não desistir, não ceder, não parar. Que trazem consigo as quedas, mas também a alegria da elevação. Que se abandonam nas redes da confiança que se fortalecem entre quem se sente e é irmão no Amor. Que tantas vezes se afastam da própria Igreja, mas que, mais tarde, a ela voltam para retomar este caminho interrompido e continuar a procura desejada.

Somos esta geração. Jovens e adultos. Hoje. Com etapas vividas, percorridas, atravessadas. A geração variada, múltipla que segue o caminho. Que é viajante, nómada, enamorada. Que é peregrina. Que sonha e desespera. Que acredita e questiona. Que não sabe onde vai chegar, mas sabe com quem caminha. Que valoriza a procura, o processo mais do que o resultado ou a conclusão. Que não se deixa cristalizar ou instalar no defeito, no egoísmo, no individualismo. Que pode partir de diferentes pontos, mas que se encontra na busca pela essencialidade. Que aceita fazer viagem na lógica do provisório, do incerto, do imperfeito. É uma geração em movimento, em trânsito repleto de encontros e reencontros. Porque, ao estar em procura, esta geração está a ser, a fazer-se, a acontecer-se. E isto é o que verdadeiramente importa! Todos os anos, ouvimos o salmista louvar esta geração. Daqui por muitos anos, o salmista continuará a exaltar esta mesma geração que será a do tempo futuro. Isto é a magnificência de Deus, que nos encontra a todos no sítio certo, no tempo desejado, no caminho vivido. Que saibamos continuar a fazer estrada juntos, entrelaçados em abraços de alegria, em risos de comunhão, em cânticos de festa. De mãos dadas e a caminho. Com Ele, por Ele e para Ele.

Dias, relógios e vidas

Reflexão para o mês de outubro de 2023

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Ensinai-nos a contar os nossos dias para chegarmos à sabedoria do coração.” (Salmo 90)

Por estes dias, ao “arrumar” fotografias que tenho no computador, deparei-me com esta que o Jorge nos tirou, a mim e à Sofia, em 2014, no final de um agosto cheio de luz, num cafezinho muito acolhedor, na bela cidade francesa de Cluny, depois de uma viagem de 24h em autocarro até Taizé. O Jorge gostava muito de relógios. Temos vários e variados relógios em várias e variadas divisões da nossa casa porque ele apreciava a estética, a beleza, a história que os relógios espelhavam. Demorei-me nesta fotografia que foi tirada só por causa daquela parede enfeitada (as duas moças acima mencionadas foram só um pretexto, claro!). Mergulhei nas memórias bonitas que ela me trouxe e deixei-me ficar a pensar em relógios, em tempo, em épocas. Naquele mistério que o tempo traz consigo. Nas perguntas que os dias nos fazem e no tempo que nem sempre é suficiente para as ouvir. No que significa correr atrás de um tempo, deixar um tempo passar ou até fugir de um tempo.

No salmo 90, atribuído a Moisés, num dos versículos mais bonitos que conheço, o salmista pede a Deus que o ensine a contar os seus dias para poder atingir a sabedoria do coração. Este “contar” os dias nada tem a ver com ter os dias contados ou com a aritmética matemática. Contar os dias é saber dar-lhes significado, relevância. Aprender a contar os nossos dias é descobrir que a nossa história pessoal está dentro de uma história maior, a história da Salvação, a história de um povo que caminha rumo a um Deus que o espera sempre e para sempre. Contar os nossos dias é também um modo de confiar. A fé é sobretudo isto, escolher a confiança na vida, no presente, no que nos é dado. Confiança na adversidade daqueles dias frágeis, mas sempre abraçados por Deus. Contar os nossos dias é aprender a reconhecer a presença de uma Força que nos sustém e que nos acompanha no nosso quotidiano, fazendo-nos olhar para a vida com um significado maior, um propósito de infinito. Quem aprende a viver a sabedoria que vem de Deus, tudo avalia à luz da eternidade, da intemporalidade, do infinito. A salvação está aqui, na possibilidade que nos é dada a cada dia de ver de modo diferente, de fazer de modo diferente, de ser de modo diferente.

O tempo de Deus não é o nosso tempo, ouvimos tantas vezes dizer. E isto é assim porque o tempo de Deus não se mede em relógios, em horas marcadas, em agendamentos. Ser cristão é ter uma relação diferente com o tempo. Para o cristão, o tempo não é uma crueldade nem um impedimento. O tempo não pode ser a desculpa que se arranja para se desinvestir naquilo que verdadeiramente importa – a vida plena, em comunidade familiar, a vida com os outros no Outro. Durante estes anos temos ouvido muitas destas desculpas que limitam o acesso a uma vida maior, a experiências significativas. “Quando tiver carro, eu vou à Oração.”, “Quando acabar esta formação que estou a fazer, eu apareço nos ensaios.”, “Quando estiver de férias vou convosco ao encontro de Verão.” E o carro vem, a formação termina, chegam as férias, mas o desinvestimento naquilo que, aparentemente, parece não dar lucro, nem visibilidade, nem créditos continua… E aquela pessoa que podia, mais à frente, encontrar um propósito maior para a sua existência, perde essa oportunidade de se conhecer mais. E os seus dias passam a valer menos porque se resumem a cumprir ordens ou a fazê-las cumprir, a amealhar ordenados, a agendar atividades numa corrida desenfreada para chegar a uma meta numa competição de egoísmos crónicos. E essa pessoa vive só a relacionar-se em função de uma troca, de um ganho, não sabendo viver o Amor gratuito, dado sem ser por nada.

Enchemos, tantas vezes, os dias de preocupações, de azáfamas, de agitações como se fossemos nós os senhores dominadores da nossa vida. Gastamos tanto de nós e do nosso tempo num tempo que muito pouco ou nada nos dá. A vida é tão frágil, tão efémera. Por isso, é simultaneamente tão preciosa, tão única. Não a desperdicemos em cálculos, em ressentimentos, em egoísmos. Não contemos os nossos dias de forma vaga, indiferente, desinteressada. Que nenhum dia nos encontre por viver de forma autêntica.

A vida é mais, sempre mais, mais que os dias gastos em acumulações de trabalho, mais do que os esforços feitos para se atingir uma perfeição, mais do que o mero acumular de graus académicos ou estatutos sociais. O cardeal José Tolentino Mendonça, no seu livro “A mística do instante”, recorda-nos que “é quando percebemos que a vida é mais que deixamos de viver tão preocupados com o mínimo, tão prisioneiros dos pormenores ridículos que nos escravizam.” E alerta-nos para algo que em nós é recorrente: “Carregamos a vida de coisas, indispensáveis e, sobretudo, dispensáveis, tralha impura que nos prende. E depois, às tantas, estamos seguros, estáveis, garantidos, mas já não estamos, já não somos, porque hipotecamos a nossa verdade fundamental a todas as preocupações.” Entristecem-me aquelas pessoas para quem o tempo só tem valor monetário e financeiro. Aquelas pessoas que muito pouco ou mesmo nada fazem de forma gratuita e que não conhecem o que está para além do que é comercializável. Que gerem as suas vidas em função do “o que é que vou ganhar com isso”. Que fazem escolhas tendo por base o que é calculável. Que não são sensíveis a um simples saber estar sem se estar a obter um lucro qualquer com isso. Que não compreendem para que serve a poesia. Que acham uma perda de tempo perder tempo com uma caminhada para se admirar o nascer do sol. Que não se conseguem rir das situações mais simples e, sobretudo, deles próprios. Que até são capazes de oferecer muitos presentes no Natal e nos aniversários, mas que não conseguem saber dar-se aos outros. E que, sem o saberem, estão a perder a vida…

Quando entrego os meus dias, quando os abro à vontade de Deus, quando me deixo invadir pela beleza que é sempre o presente no presente, então assim acontece a multiplicação do meu tempo, do amor, da vida que quando é vida é sempre em abundância. Ser cristão é ser de um tempo sem princípio nem fim. Um tempo que é sempre doação, sempre dádiva, sempre dom. Um tempo qualitativo, epifânico, regenerador.

O Jorge gostava muito de relógios. Também gostava muito da música “Clocks” dos Coldplay e tocava-a frequentemente no piano. Mas o que ele mais gostava era de poder gastar as horas dos seus dias em ser um genuíno cristão de acolhimento, de esperança, de alegria. A vida dele pode, para nós, ter tido poucos dias, mas o tanto que ele nos deixou dá-nos a certeza de que esses seus dias foram vividos com a tal sabedoria necessária, com o desprendimento que nos liberta e com o coração sempre cheio daquela eternidade que nos salva e que é única. É por isso que todos os dias eu agradeço esta doação da vida do Jorge e sou feliz por saber que continuamos a fazer comunidade com quem caminha connosco e a encher os nossos dias de vida para os outros. Sempre. Agradeçamos a Deus a nossa entrega de cada dia, especialmente naqueles dias difíceis, duros, adversos. Peçamos a Deus esta sabedoria necessária para continuarmos a ser caminho, ajudando-nos a confiar e a viver uma existência cada vez mais autêntica. Que Ele nos torne atentos, disponíveis, ricos em dádiva de vida.

Reflexão para o mês de setembro de 2023

Velha Infância

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Ele chamou um menino, colocou-o no meio deles e disse: «Em verdade vos digo: Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu.” (do Evangelho de São Mateus 18, 2-3)

Jesus responde à interpelação dos seus discípulos que estavam muito preocupados acerca de quem, de entre eles, seria considerado o maior, o melhor, o mais importante. Estavam tão cheios de eles próprios e tão inquietos acerca do lugar principal que seria dado a alguém que nem se aperceberam que a pergunta que fazem a Jesus estava cheia de orgulho, desejo de poder e hierarquias. A resposta que Jesus lhes dá é avassaladoramente simples ao dizer-lhes que só entrarão no Reino de Deus se se tornarem como as crianças. Nesta resposta há duas dimensões importantes: a condição de se ser criança e a referência ao Reino de Deus. Ser como as crianças é dar espaço ao que sentimos, ao que vivemos, ao que vem até nós, sem julgamentos nem preconceitos. Esta sugestão que Jesus nos faz nada tem a ver com a infantilidade ou com a imaturidade. Jesus pede-nos que sejamos como as crianças, pois estas estão abertas às suas emoções, sem usarem máscaras, sem se desculparem com medos, sem utilizarem receios. À humanidade de hoje Jesus continua a dizer que todos devemos permanecer como crianças no sentido de que é a simplicidade a chave que nos abre os olhos do entendimento, que desbloqueia preconceitos, que amplia horizontes. Ser crianças na arte do espanto, na arte de se alegrar com o que genuinamente importa.

Então, para sermos grandes temos de ser pequenos. E o que é isto de sermos pequenos? Somos pequenos quando nos deixamos envolver pela beleza, pela simplicidade. Quando nos deixamos fascinar pela vida e não nos deixamos manipular pelos porquês, pelas pedras, pelos obstáculos. Quando olhamos para a vida abraçando as dúvidas, as dores, as interrogações, persistindo e continuando caminho. Quando nos deixamos guiar pela sensibilidade, pela atenção, pela comoção. Quando aos olhos do mundo, muitas vezes, não cumprimos os requisitos de excelência, de sucesso, de carreirismo, mas acedemos àquela sabedoria maior que só pertence ao coração.

Jesus sugere-nos que permaneçamos pequenos para sermos cada vez maiores no espanto, na admiração, na entrega. Para que os nossos olhos continuem carregados de alegria e de simplicidade. Para não ficarmos doentes por carregarmos tantos “ismos” que a idade adulta parece acarretar – o pessimismo, o adultismo, o egoísmo, o individualismo, o materialismo, etc.

Só assumindo esta condição de crianças, poderemos aceder, compreender e viver o Reino de Deus. Este Reino anunciado por Jesus só se torna visível e concretizável quando nos permitimos a nós próprios querer vê-lo. E para ver este Reino temos de usar o coração e a vontade de querer vê-lo. Podemos usar a razão para tratarmos da questão de Deus, mas para termos uma relação pessoal com Ele precisamos de vivê-la e vê-la com o coração. Para conhecermos este Deus que nos ama é imprescindível deixarmo-nos comover, envolver, querer fazer parte. Deixar de lado os preconceitos, as reservas, os medos. Confiar. Ir. Contemplar a vida com o coração. Procurar permanentemente a beleza e a harmonia. Deixar que os nossos olhos sejam sensíveis à beleza que existe. Sermos pessoas maravilhadas, encantadas, rendidas à beleza da simplicidade, confiantes na harmonia, ou seja, sermos como as crianças são.

Nos Evangelhos, Jesus recorre, com frequência, à importância que deve ter preservarmos a essencialidade de sermos crianças. De facto, não há nada que tenha mais valor do que o olhar puro, o olhar de criança, o olhar de espanto. A riqueza a desejar não reside nem numas luxuosas férias nas Maldivas, nem nos carros ultramodernos, nem nas importantíssimas posições de chefia. Nada. Tudo isso passa, tudo é efémero, tudo se constrói e destrói. A  riqueza maior, a que nos salva, está no dom de nos envolvermos, na capacidade de nos comovermos, na propensão para sentirmos, na aptidão para estarmos atentos aos outros. Um olhar embrutecido impede-nos de saber contemplar a beleza da vida, de saber ver o que realmente importa, de conseguir escolher o que vale verdadeiramente mais. É muito fácil deixarmos que o nosso olhar se prenda na tristeza, no desânimo, na indiferença. É muito fácil tornarmo-nos as tais pessoas muito sisudas que ainda ontem mergulhavam em risos felizes nas lagoas em Caminha e hoje se deixam dominar por agendas repletas de compromissos muito sérios que lhes roubam tempo para fazer algo tão simples como olhar para as estrelas ou emocionar-se com um poema que é recitado. É muito fácil seguirmos esta corrente dos meros cumpridores de horários, das pessoas muito sérias, cheias de preocupações excessivas, de estatutos a exibir e que acham uma pobreza e um retrocesso existencial o deixarem-se envolver nas emoções e serem simples, como o são as crianças.

É por tudo isto que ser Cristão é uma verdadeira loucura aos olhos de um mundo que nos exige sucessos, conquistas, materialismos. É por isso que ver o Reino de Deus neste nosso mundo é uma tarefa que só se proporciona a quem realmente se dispõe e se propõe a vê-lo, com os olhos do coração, com a simplicidade das crianças, com a alegria que brota de quem encontra um feliz tesouro, a Eternidade do presente. E este Reino reservado aos simples é concretizável também na medida em que eu me deixo envolver naquilo que é a minha própria vida. Eu ligo-me emocionalmente aos outros através das experiências que vivemos em conjunto. Viver esta JMJ fez-me voltar a confirmar esta necessidade de envolvência e, sobretudo, de nos deixarmos envolver. Ou seja, de não sermos indiferentes à Vida e deixarmo-nos ser e estar em irmandade. O jornalista eufórico que gritou de alegria ao ver o Papa passar. Os jovens vindos do outro lado do mundo a cantar e a ser alegria nas múltiplas ruas de uma Lisboa jovem. As famílias que seguiram tudo e todos pela televisão. Os amigos que carregaram a cadeira do jovem Lourenço para que ele conseguisse ver o Papa. Exemplos tão bonitos do que é ser pequeno. É tão simples quando não nos permitimos ser complicados. É um mundo novo que é possível construir com tão pouco e, ao mesmo tempo, com tanto.

Ser como as crianças. Voltar à infância e recuperar o espanto, a admiração, a curiosidade, a busca. Numa entrevista dada à jornalista Anabela Mota Ribeiro, o Cardeal José Tolentino Mendonça chama a atenção para a importância de retomar essa arte do espanto: “A infância é uma máquina de espanto. Já todos passamos por essa máquina, mas é bom que a conservemos.” É imprescindível acolhermos a disponibilidade para aprender, para descobrir, para ver, para ouvir, para deixar-se encantar e olhar mais longe. A abertura é a condição do espanto. Permanecer em espanto toda a vida e deixar-se conduzir pela simplicidade foi a resposta que Jesus deu à interpelação dos seus discípulos. Busquemos nós, em cada dia, este grande tesouro da simplicidade. Larguemos os pesos da apatia, da indiferença, da superioridade, do materialismo. Saibamos cultivar aquela alegria das crianças com os olhos cheios de espanto e de gratidão pela vida. Escolhamos a pequenez grande que reside na beleza que nos rodeia e que, tantas vezes, não se mede em cálculos e valores. Abracemos a felicidade que a simples vida em comunidade de vidas nos traz e nos enche de significados. E que possamos ser sempre como as crianças para, juntos, vivermos esse Reino prometido.

Terá o Papa Francisco lido os nossos textos?

Viagens pela JMJ, Lisboa 2023

Com um sorriso, esta pergunta surgia-nos à medida que ouvíamos as intervenções do Papa Francisco nesta JMJ Lisboa. De facto, quase tudo o que o Papa foi dizendo em jeito de observação, orientação e esclarecimento já por nós foi sendo escrito nas nossas reflexões mensais ao longo destes quase dois anos. É claro que o Papa Francisco não acompanha o nosso site. Como se explica, então, este “plágio” de muitas das nossas reflexões nos seus discursos nesta JMJ? A resposta é muito evidente. Conhecendo e partilhando a mensagem de Jesus Cristo, vivendo conscientemente o Cristianismo, estando atentos ao mundo que nos rodeia, estando disponíveis para o acolhimento e para a presença do Outro nos outros e escolhendo viver cada dia com as suas alegrias e tristezas, os seus desafios e assombros, de facto, só poderíamos usar todos a mesma linguagem, as mesmas palavras, as mesmas afirmações, não importando muito se somos uns simples leigos da vinha do Senhor ou um admirável Papa. Tudo o que o Papa Francisco foi partilhando na JMJ reflete claramente tudo o que nós também já pensamos, vivemos e acreditamos desde há muito tempo. Por isso, que bom sentir que estamos em sintonia! Que felizes somos ao vermos os nossos pensamentos nas palavras do Papa! Que alegria está em nós ao nos reconhecermos plenamente em tudo o que foi partilhado pelo Papa! Para quem anda mais afastado da Igreja, para quem está mais distraído, para quem não conhece o que este Papa vem dizendo há anos, tudo o que ele disse poderá soar a inovação, modernização, mudança de paradigma e até alguma contradição com a ideologia da Igreja. Contudo, tudo o que o Papa foi anunciando na JMJ não é novidade para quem vive a e em Igreja, pois é tudo o que Jesus Cristo já havia dito há mais de dois mil anos. Cabe-nos agora, nos nossos contextos e realidades, atualizar e continuar a praticar o que foi e tem sido dito.

Assim, partilhamos aqui algumas das frases proferidas pelo Papa Francisco durante a JMJ em paralelo com algumas das nossas frases dos textos de reflexão mensal.

Ana

Reflexão para o mês de agosto de 2023

Viagem

Texto de Jorge Ferreira, Comunidade Estrada Clara (este texto foi escrito pelo Jorge em julho de 2008)

Cada um de nós tem de fazer da sua vida uma viagem. E, muitas vezes, para nos descobrirmos e nos conhecermos, há momentos em que esta viagem tem de ser feita na solidão, na relação connosco próprios. Sabemos que para cada pessoa há uma viagem distinta a fazer, um caminho distinto a percorrer. A pessoas diferentes correspondem viagens e caminhos diferentes. Não podemos ter a vida que os outros têm nem eles podem ter a nossa. Somos únicos. Ninguém pode escolher por nós nem nós por os outros. A escolha é sempre nossa. Muitas vezes cedemos à tentação de nos deixarmos ir na corrente, de sermos cópias do que outros já são. Comportamo-nos como os outros para mais facilmente nos sentirmos aceites e não sermos alvo fácil da avaliação dos outros que, quase sempre, é atroz.

Percorrer esta vida sem respeitar quem eu sou significa não andar, não evoluir, estar parado. Parece-me que todos experimentam, numa ou noutra vez, ser diferente dos outros. Uns têm sucesso, evoluem e distinguem-se. Mas à maior parte das pessoas acontece não ter muito êxito na primeira experiência e desistem porque pensavam que se pode obter tudo logo na primeira investida. “É a vida!”, “Não se pode seguir os sonhos!”, “Tens de ser realista.”, “Esse curso não tem saída nenhuma!”, “Não percas tempo com o teu grupo de jovens, agora tens de ter uma vida séria.”, são apenas alguns exemplos ditos por quem passou a pertencer à maioria, à normalidade. Por aqueles que se inscrevem no clube Dia-a-dia, procuram outros iguais a eles, gritam pelo mesmo clube, passam a gostar de coisas que não gostavam, comem o que nem sonhavam existir e olham para as vidas dos outros como meta a alcançar, idolatrando-as. As suas próprias vidas começam a desaparecer. Vivem, mas não vivem. Entre festas e comida, empregos e carreiras, férias e filhos, lá vão andando e cumprem apenas os requisitos mínimos, esquecendo-se da dádiva de uma Vida maior.

Por isso, é-se diferente quando se decide caminhar, quando decidimos saber mais e melhor. É-se diferente quando aceitamos que não podemos ter tudo, mas o que temos, podemos capitalizar em energias renovadoras. É-se diferente quando aceitamos que não podemos ser como os outros, mas podemos valorizar os recursos que temos e começar daí. E ser diferente implica também aceitar que a nossa viagem, em certos momentos, pode ter de ser feita, muitas vezes, no silêncio e na solidão. Sim, sozinhos. Porque num dado momento podemos ter de perder um amigo que não escolheu o mesmo curso que eu, mas eu tenho de continuar. Ou porque não há ninguém que queira fazer comigo uma dieta para me dar força, mas eu tenho de a fazer. Ou porque ninguém quer ir passear comigo, mas posso ir eu. Estudar é um ato solitário. A solidão não é uma morte, mas um estado por vezes necessário ao ato do crescimento. E é deste tipo de solidão que todos fogem. Solidão que nos ensina a refletir e ser responsável. Ter medo deste tipo de solidão implica a pouca reflexão e leva à prática de atos instintivos. A solidão pode ser um momento de redirecionar a nossa vida. Abraão e Moisés ouviram Deus falar-lhes na solidão. Os relatos bíblicos apresentam-nos, cada um deles, em tempos diferentes, na busca de um sentido para a vida, refletindo sobre o seu verdadeiro significado. Abraão, na sua solidão, descobre que Deus não pode estar sujeito às disposições religiosas locais, mas que, a existir, deve ser imenso e estar em toda a parte e ser Um e único para todos os homens. Moisés, na sua solidão, descobre que Deus lhe confia uma missão, a de libertar os seus irmãos que sofrem no Egipto. E descobre que não pode ficar indiferente a esse chamamento. Verdadeiros milagres da solidão. Verdadeiros milagres para a história e para cada um de nós. A ação criadora tem origem na solidão, na quietude. Muitas decisões e mudanças nascem nestes momentos. É certo que o homem é um ser social e com os outros se realiza, mas o que acontece àquela vida que nunca para para refletir e ponderar? O que acontece a uma vida que não tem momentos calmos de contemplação? O que acontece a uma vida que não contempla o sagrado?

Gosto particularmente dos dias a seguir às festas. A seguir ao Natal, a seguir à Páscoa, a seguir às festas do futebol, às festas populares, ao S. Pedro, a seguir às férias. Gosto porque sinto que a vida continua indiferente às festas e enfeites dos homens. Festas, muitas vezes, vividas sem sentido, vividas só para o exterior, para mostrar que se está alegre e feliz. Numa sociedade cheia de barulho e apelos ruidosos, precisamos de encontrar um equilíbrio que nos dê serenidade, que nos faça por a render os nossos dons. Onde está o quadro que foi pintado no meio duma multidão? Onde está o livro que foi escrito no meio do barulho? Onde está a música escrita no meio de uma festa? Não existem. Onde estão as vidas feitas só de barulhos, de shoppings, de modas, de ídolos? Estão vazias.

É no silêncio que tantas vezes descobrimos os maiores significados da nossa vida. Tantos, que há coisas que nem sabemos revelar aos outros. Tão particular o que descobrimos, tão íntima a vivência que, por vezes, não conseguimos partilhar. E guardamos para nós. Ou para dizer noutra ocasião. E crescemos nesse momento. O silêncio não é um buraco onde tudo desaparece. É uma oportunidade de crescimento. O silêncio e a interioridade obrigam-nos a enfrentar e resolver os problemas que temos.

Nas nossas viagens, depois do entusiasmo inicial, depois de cantarmos, depois de conversarmos, de rirmos bem alto, há momentos em que todos se calam e se acalmam e simplesmente pensam. Momentos quietos, mas nos quais ninguém dorme. Momentos em que todos olham pela janela. Momentos em que vemos os pinheiros a andar para trás. E nós para a frente. A natureza tem este poder: o de chamar cada um de nós para aquela solidão preenchida, para o silêncio, para a interioridade, para esse lugar único onde cada um de nós consegue descobrir verdadeiramente quem é. Aquela tal viagem. A viagem.

Reflexão para o mês de julho de 2023

Um tesouro terás

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

Vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro nos céus.” (do Evangelho de São Mateus, Mt 19, 21)

A passagem tão conhecida do jovem rico é a história de uma inquietação, de uma procura, de um desejo em busca de uma resposta, de uma insatisfação. É a narrativa de um homem que tudo tinha, mas que não era livre, precisamente porque estava totalmente preso àquilo que possuía, isto é, ele era dominado por aquilo que tinha. E aquilo que possuía, por si só, não era mau, mas impedia-o de se dar, de estar atento aos outros, de se multiplicar, de compreender a totalidade da vida e de aceder ao significado último da transcendência. Este jovem tinha tudo. Segurança financeira, posicionamento social, reconhecimento entre os pares. Ainda assim, havia algo que lhe faltava. E ele foi à procura. Foi ter com Jesus. Precisava de sarar aquele seu vazio existencial.

A inquietação deste jovem é também a nossa inquietação. Ele possuía todos os meios necessários para viver, mas não tinha encontrado os propósitos necessários para viver. Ele tinha com o que viver, mas não tinha pelo que viver. Aquilo que ele possuía também nós tantas vezes possuímos, não a riqueza material, mas sobretudo outras riquezas terrenas que carregamos no nosso coração e que nos impedem de darmos espaço ao que realmente importa. Aquele jovem sentia que algo lhe faltava. Cumpria todas as obrigações, respeitava todas as leis, seguia todos os preceitos. Mas algo lhe faltava. E num ato de coragem e de ousadia, vai ter com Jesus e questiona-o: “O que me falta ainda?”. Há aqui um grito de ajuda, um pedido de orientação e um reconhecimento de Jesus como pessoa de sabedoria. Então, Jesus diz-lhe algo que não voltou a repetir a ninguém: “Vai, vende tudo o que tens e distribui o teu dinheiro pelos pobres.” A Jesus não lhe interessava a riqueza material do jovem. A Jesus interessava-lhe conseguir mostrar ao jovem que a sua vida, da forma com ele a vivia naquele momento, estava limitada apenas ao material, à posse e que, no seu coração, faltava-lhe espaço para Deus e, consequentemente, para os outros. Jesus não condenou a riqueza do jovem; Jesus mostrou-lhe que para aceder à verdadeira riqueza, seria necessário deixar o que não interessava para trás. As palavras de Jesus revelam ao jovem que a sua vida estava totalmente preenchida com a efemeridade e, por conseguinte, ele sentia que algo lhe faltava.

A resposta que Jesus dá à interpelação do jovem é um hino à dádiva e à liberdade, não é uma condenação nem um julgamento. Jesus começa por dizer-lhe: “Vai, vende tudo o que tens”, isto é, desprende-te, torna-te livre, rejeita o que te diminui. E imediatamente a seguir, Jesus afirma: “Dá o que tens aos pobres e terás um tesouro no céu”, isto é, coloca a tua vida, os teus dons ao serviço dos outros, torna-te espaço de acolhimento, lugar de empatia, abraço de comunhão. Pratica a gratidão, a atenção para com os teus irmãos, dá-te em palavras, em gestos, em canções. Prepara o futuro com quem precisa de ti, constrói caminhos de partilha, encontra-te na relação. Só assim a vida é verdadeiramente vida. Só assim alcançaremos a vida eterna. Só assim compreenderemos o tesouro que nos aguarda. O que não se dá, perde-se. A vida partilhada, a comunidade, a dádiva são as grandes lições que Jesus nos deixou. Cada um de nós é sempre chamado a ser mais na relação que constrói com os outros. Ninguém é pessoa sozinho. Ninguém é cristão sozinho. Somos o que somos na relação, na entrega, no desprendimento de nós próprios.

Esta interpelação de Jesus ao jovem rico é de uma atualidade inegável. A propósito desta passagem do Evangelho de Mateus, diz-nos o Cardeal Tolentino: “Para eu escolher uma coisa tenho de deixar outras, não posso levar tudo. A vida espiritual não é um grande carro de mudanças, é uma bicicleta. O homem e a mulher espiritual andam de bicicleta, não andam de camião a querer levar tudo atrás de si. Nós temos de carregar connosco aquilo que cabe numa bicicleta, a vida mínima, o essencial.” A experiência da dádiva está condicionada por uma série de prisões que nós colocamos a nós próprios e que nos impedem, tantas vezes, de sermos livres. A própria sociedade, marcada pelo consumo e pelo défice ao nível da espiritualidade, rejeita este modelo de serviço, de oferta, de dom que Jesus nos propõe. Esta radicalidade saudável que Jesus nos urge a seguir é posta em causa pelas normas sociais e por uma sociedade que proclama, tantas vezes, a vitória do egoísmo acima do bem comum, deturpando aquilo que deveriam ser as nossas escolhas significativas. Não deveria ser mais fácil dizer sim a uma proposta de trabalho que fará de nós diretores de uma empresa do que dizer sim a um convite para um simples ensaio para animar uma missa. Não deveria ser mais aceitável possuir o último modelo de telemóvel do que usar uma parte desse dinheiro gasto para pagar a inscrição de um jovem nas Jornadas. Não deveria ser mais admissível faltar às aulas porque no dia anterior tivemos uma festa que acabou na discoteca do que faltar às aulas porque no dia anterior a nossa paróquia promoveu um Lausperene de 24 horas e o meu grupo foi o responsável pela atividade noturna. Não deveria ser mais percetível ficar mais de uma hora numa fila numa loja para comprar um produto exclusivo da moda recente do que estar quinze minutos em silêncio e em meditação. Não deveria ser mais compreensível emigrar para o estrangeiro para se trabalhar do que ir para aqueles países tão carentes de África para ajudar quem precisa. Não deveria ser mais claro gastar dias de férias para meu único proveito do que usar alguns desses dias para acompanhar os jovens num retiro ou num campo de férias. Não deveria ser mais óbvio obter “gostos” nas redes sociais com a publicação de textos de empoderamento e facilitismos do que com este texto que agora vos escrevo.

Há tanto que se perde nestas escolhas muito pouco comunitárias que se fazem. E há tanto que se ganha quando contrariamos a corrente de uma sociedade que promove apenas a satisfação individual, que valoriza o “eu” em detrimento do “nós”. O irmão Roger dizia, com toda a sua sabedoria, na última carta que deixou escrita, que nada de duradouro se constrói na facilidade. O papa Bento XVI também nos alertava de que o entusiasmo inicial é sempre o mais fácil. O Papa Francisco outra coisa não faz a não ser despertar a Humanidade para o cuidado com o tesouro que é a vida de cada um de nós. E com as escolhas que fazemos. Em cada dia.

A juventude é o espaço privilegiado do questionamento. Neste contexto, convoco aqui os nossos acantonamentos em São João d’ Arga, Caminha, uma das experiências mais gratificantes que pudemos viver e que pudemos proporcionar aos adolescentes e jovens que connosco vinham. Uma semana, sempre com uma média de 20 jovens juntamente com os seus animadores, num mosteiro degradado, sem luz elétrica, sem comodidades, mas rodeados de uma paisagem magnifica e brindados com um céu estrelado todas as noites. Nessa semana, havia lugar e tempo para conversas, para tarefas caseiras, para partilhas, para jogos, para passeios, para mergulhos nas lagoas, para orações, para refeições deliciosas, para trabalhos manuais. Nessa semana, os jovens viviam na simplicidade, desligados dos telemóveis, das distrações citadinas, das roupas da moda, dos jogos da playstation, dos horários repletos de escola, explicações e desportos. Havia espaço e tempo para se descobrirem, para fazerem o exercício de estarem consigo mesmos e com os outros, porque ninguém é pessoa sozinho. Penso muitas vezes que o jovem rico teria sido feliz com uma experiência destas, ele que tinha tudo e, ao mesmo tempo, tudo lhe faltava.

A mensagem de Jesus Cristo não nos vem aplanar o caminho, mas vem nos ajudar a compreender quando esse nosso caminho não é assim tão plano. A mensagem de Jesus Cristo não nos vem libertar das dúvidas, mas vem trazer-nos a serenidade necessária para as aceitarmos. A mensagem de Jesus Cristo não nos cura as doenças do corpo, mas cura-nos as doenças da alma. Os Evangelhos nada nos dizem se, tempos mais tarde, aquele jovem teria voltado. Se teria refletido acerca daquilo que Jesus lhe disse. Se teria até mudado de vida. Esta passagem do jovem rico mostra-nos que amar as coisas é uma capacidade humana, mas amar a Humanidade é um dom divino. E é sempre nossa a vontade e a decisão de querer viver com sentido, com coragem, construindo o futuro e dando futuro. Depende de mim, de ti, das minhas e das tuas escolhas. Cada um de nós é responsável por enfrentar, nos nossos contextos, o egoísmo, a indiferença, o materialismo que a sociedade nos quer impor. Que saibamos escolher sempre o Amor, sem cálculos nem provas. Que saibamos guardar o nosso coração para o que é amável, luminoso, maior. Que saibamos anunciar a gratidão, a esperança, a comunhão. Termino com as palavras sábias do nosso sempre querido Vergílio Ferreira: “O amor acrescenta-nos com o que amarmos. O ódio diminui-nos. Se amares o universo, serás do tamanho dele.”

Reflexão para o mês de junho de 2023

A ti, Esperança…

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

Confia no Senhor, põe nele a tua esperança” (Salmo 37)

Para o padre Avelino, para a Rute e para a Sofia. Abraço-vos com este texto.

A semana passada foi dura, terrena, perturbadora. Um meu amado irmão de coração recebeu a dolorosa notícia da partida do Pai para a Eternidade. Uma estimada irmã na nossa comunidade soube que o Pai está a viver os seus últimos dias terrenos. Uma outra querida amiga está a viver uma situação difícil causada pela descoberta recente da doença da Mãe. Eu, que me julgava já doutorada em sofrimento e morte, senti-me abalada por estes acontecimentos. Há uma identificação e empatia imediatas. Encontro nas palavras destes meus amigos tantas das minhas próprias palavras. Vejo nos seus gestos de dor aqueles que foram os meus próprios gestos. Nas suas lágrimas o meu choro. Nas suas incompreensões as minhas questões. Nas suas dúvidas as minhas incertezas.

O sofrimento daqueles que amamos é, sem dúvida, a maior das nossas provações. A nossa resiliência, a nossa esperança, as nossas crenças são colocadas à prova. Vivemos a impotência, a incompreensão, a injustiça. Não é fácil passarmos a habitar em circunstâncias cruas e dolorosas e a ter de reconstruir projetos que até então julgávamos inabaláveis. Não se fica a mesma pessoa depois de experimentarmos a doença e a morte de quem amamos. Deixamos de saber como se contam os dias, os meses e os anos a partir de então, durante algum tempo passa-se a viver numa dimensão paralela, passamos a conviver com medicamentos e receitas, as tarefas práticas do dia-a-dia não se importam com a nossa vontade de quietude e passa-se a olhar para o mundo com um sentimento de desapego e de efemeridade. Mas é precisamente neste buraco negro de dor que Deus aparece para nos levantar. Parece contraditório, mas se nesses momentos de maior dor procurarmos este Deus que nos ama, acabamos por sentir uma força que é claramente inexplicável aos olhos humanos. No meio da morte, a vida é sempre mais. Sempre! Mais forte, mais soberana, mais dominante.  A vida continua a fluir e é possível viver esta força de Deus mesmo quando tudo à nossa volta parece ruir. Parece ser algo paradoxal, mas esses tempos duros que atravessamos vão permitir a reconstrução de quem seremos. O cuidado, a atenção, as preocupações reescrevem a nossa história de Amor.

Por isso, ter fé num Deus não nos liberta de preocupações, não nos poupa a situações difíceis, não nos aplana o caminho. Acreditar num Deus não nos resolve todas as questões, não nos livra das incertezas, não nos torna imunes ao sofrimento. Para quê então acreditar? Eu acredito porque seria inconcebível uma vida que fosse por si só limitada a um tempo e a um espaço. Eu acredito porque o Amor que sinto por aqueles que são meus é demasiado grande para não poder ser eterno e perdurar para além da morte. Eu acredito porque Deus continua a revelar-se de cada vez que eu o procuro nas palavras, na criação, na música, no encontro, na empatia, no espanto, na descoberta. Eu acredito porque, pela ressurreição de um Deus vivo, eu sei que Ele me espera numa Eternidade feliz. Eu acredito porque todo o sofrimento, dor e incompreensão que todos nós vivemos não têm a última palavra. Eu acredito porque só é possível viver assim.

O confronto com a finitude (nossa e dos outros) também nos impele a viver mais, a agradecer mais, a ser mais. A viver o presente que é o presente de cada dia. A bendizer o passado e a projetar o futuro. A não lamentar o que aconteceu e a não criar expetativas futuras ilusórias. Viver o presente do presente. Não podemos evitar a dor da morte e o sofrimento naturalmente inerente a estas tragédias. Mas podemos confiar. Acreditar. O Amor não morre. Vive em cada um de nós que o aceitamos. Vive quando escolhemos ser Luz!

Quem ama, sente. Chora. Entristece-se. Vive a dor dura e crua. Questiona-se. Mas quem ama, também acredita. Mesmo quando nada se vê. Quem se deixa levar pelo Amor, vê tudo. Porque o Amor vence tudo o que é limitado, confuso, incongruente. Porque o Amor é sempre mais forte do que todas as nossas incompreensões, interrogações, frustrações. Por isso, não nos deixemos ficar no desespero, na tristeza, na apatia. “O desânimo, o cansaço, a fatalidade, a desesperança, a desistência, isso não pode triunfar no teu coração” (Cardeal José Tolentino Mendonça in Homilia na Vigília Pascal). Ser cristão é confiar que, mesmo nas situações mais dramáticas da nossa existência, nós nunca estamos sozinhos. E confiar implica sempre querer ver o que não se vê para então se poder ver.

A dor não se ultrapassa porque não se trata de nenhum campeonato. A dor não se vence porque não se trata de nenhuma luta. Não há aqui um processo de vencedores nem vencido. A dor atravessa-se porque faz caminho connosco. A dor enfrenta-se porque a colocamos à nossa frente para poder transformá-la. Guardar rancores, lutos, sofrimentos durante muito tempo só tem como resultado um coração pesado, amargurado, duro. A dor acontece para ser reconstruída em algo maior, sereno, apaziguador. E embora seja um processo difícil, é um acontecimento possível e necessário para nos salvar. Só assim a dor nos salva, se lhe atribuirmos um significado que nos projete no futuro, que nos faça viver.

Como cristãos que somos temos de assumir o que somos, a nossa essência, a nossa identidade, o entendimento da vida enquanto passagem para uma vida maior. Como cristãos que somos, procuremos em nós essa esperança que nos faz seguir viagem por mais conturbadas que as circunstâncias possam ser. Como cristãos que somos, entreguemo-nos nas mãos e no coração de um Deus que só nos quer bem. Como cristãos que somos, sejamos ousados em testemunhar que só podemos viver a e na esperança! A esperança cristã não é um sentimento infantil, momentâneo, automático naquele sentido em que se diz, em qualquer circunstância e tantas vezes de forma leviana, “vai correr tudo bem”. A esperança não ignora o enigma e o absurdo da existência, mas antes integra em si a própria desesperança. A esperança cristã é a certeza de que, aconteça o que acontecer, há um Deus que nos acompanha e que, por isso, a vida que nos é dada viver é sempre maior! A esperança cristã entra, muitas vezes, em contradição com a realidade que nos rodeia porque a própria mensagem de Jesus Cristo é fonte de contradição para um mundo que se apresenta como terreno, limitado, egoísta, calculista e esquemático. A esperança cristã é um encorajamento dirigido a cada um de nós no meio das adversidades. É um desafio a transcendermos a nossa própria existência e a abrirmo-nos ao cuidado de Deus. Somos peregrinos de mãos vazias, mas de olhos erguidos para o Alto, vivendo esta esperança que nos libertará das nossas dúvidas, medos, ansiedades. A esperança cristã não se baseia em garantias, mas exige dos cristãos uma verdadeira radicalidade.

Ser cristão é exigente porque sou chamado a trabalhar-me, a ir por caminhos por onde a maioria não vai, a ver com outros olhos uma realidade tantas vezes árdua e incompreensível. Mas ser cristão também é termos consciência do privilégio que é vivermos uma dor acompanhada por um Deus que nos abraça. Não somos fruto do acaso. Não somos acidentes de percurso. Não somos percalços da natureza. Somos, desde toda a eternidade, seres únicos na sua individualidade e amados por Deus. Tudo o que somos, o que escolhemos, o que nos acontece, o que experimentamos, o que rejeitamos, o que aceitamos faz parte da nossa identidade, da nossa história. O modo como eu lido com o que me acontece é o que me constrói. Por isso, como cristão, quero escolher ver e viver com esperança. Como cristão quero encontrar Deus nos momentos bons e menos bons da minha existência. Deus precisa do nosso testemunho de cristãos nas nossas circunstâncias mais desafiadoras, mais rigorosas, mais exigentes. É nesses momentos que Ele está mais presente e é, muitas vezes, aí que o podemos anunciar ao mundo com mais verdade, com mais plenitude, com mais concretude. Nos meses seguintes à morte do Jorge, enquanto eu e a minha comunidade nos íamos reconstruindo numa existência nova, numa das minhas meditações, surgiu-me a seguinte frase, que, hoje, muito a uso como oração diária: “Senhor, não sei o que me espera, mas sei que Tu me esperas sempre naquilo que eu não esperava.” Entreguemos a Deus tudo o que somos. Viver a esperança cristã não é não ter medo ou não o sentir. É antes aceitar essas dores e colocá-las nas mãos de Deus. E esperar contra toda a esperança, como nos diz São Paulo numa das suas Cartas. O Filho de Deus fez-se Homem para nos acompanhar em tudo, até mesmo nas nossas sombras e medos. Na sua morte na cruz está toda a dor que cada um de nós experimenta. Não estamos sozinhos. Mesmo na mais profunda das tristezas, há sempre aquela Luz que não se apaga. Essa Luz tem um nome – Jesus. Essa Luz tem um rosto – os nossos próximos (família, amigos, comunidade). Essa Luz tem uma força intensa – a do Amor. Essa Luz tem uma duração plena – a da Eternidade. “Confia no Senhor, põe nele a tua esperança”.