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O Cristianismo precisa da imaginação

Artigo de José Tolentino Mendonça in E, a Revista do Expresso, de 13.11.2021

Uma das canções icónicas do século XX é ‘Imagine’, de John Lennon. Foi primeiramente publicada num álbum de 1971, já depois do fim da carreira dos Beatles. Creio que todos nos recordamos dos seus versos iniciais, escritos por Yoko Ono: “Imagine there’s no heaven/ It’s easy if you try”. Ora, refletindo sobre o número crescente daqueles que na Europa se declaram sem religião, o teólogo inglês Timothy Radcliffe escolhe partir dessa canção. E diz: sim, há que reconhecer que é mais fácil do que supúnhamos imaginar a superação ou a substituição práticas da gramática do religioso, considerado hoje antiquado como uma máquina de escrever. Ele narra, por exemplo, centenas de conversas com avós e pais embaraçados, que se culpabilizam por não conseguirem transmitir o sentimento religioso às novas gerações, para quem essa linguagem aparece frequentemente desativada, desprovida de significado. É como se o cristianismo pertencesse a outro mundo e a sua expressão acontecesse numa estranha língua desconhecida. E não nasceu ontem este fosso, que a modernidade tem vindo a acelerar, e que se esconde debaixo desse heterogéneo e complexo chapéu chamado “secularização”.

Radcliffe é um dos mais estimulantes pensadores cristãos da atualidade, professor em Oxford, já mestre geral da Ordem Dominicana, e acaba de ver traduzido em Portugal um texto seu imprescindível: “A Arte de Viver Em Deus. A Imaginação Cristã Para Elevar o Real” (Edições Paulinas, 2021). O título em português soa um bocado explicativo. O inglês vai direto ao assunto: “Alive in God. A Christian Imagination”. E é esse o estilo convincente de Radcliffe.

Uma das coisas em que insiste é que hoje muitos se distanciam do cristianismo, porque simplesmente o consideram de um aborrecimento total, divorciado da existência que conhecem, distante das questões que os habitam, com pouco a dizer sobre as lutas, esperanças e alegrias onde, em concreto, se movem. É como se o cristianismo contemporâneo falhasse aí, na capacidade de tocar a realidade das pessoas. Esta crise é, na verdade, uma crise da imaginação, porque é esta que nos permite entrar no mundo de alguém e compreendê-lo a partir de dentro. Por isso, o autor escreve que o maior obstáculo ao cristianismo não é o ateísmo secular, mas a pobreza simbólica, a perda de profundidade do olhar, o achatamento da realidade produzido pela banalidade que, entretanto, se globalizou. Mas há também um mea culpa que o cristianismo precisa de assumir, pois uma das suas tentações correntes é o escapismo providencialista, escusando-se ao confronto com a complexidade, o risco e a crueza da experiência que viver representa. Em vez dessa fuga, sugere Radcliffe, necessitamos de testemunhas “que nos abram, com honestidade, à complexidade da experiência humana, do enamoramento ou dos dilemas morais. Então, com olhos novos, perceberemos que é precisamente aí que podemos procurar Deus”.

A transmissão do religioso precisa de superar este défice de imaginação. Um caminho possível é acolher o contributo desses mestres da imaginação, verdadeiros especialistas em Humanidade, que são os escritores, os artistas e os criadores. E dá o exemplo de Charles Dickens: “Dickens tem uma capacidade extraordinária de ler o coração humano. Compreende como é fácil errar e ver-se metido em sarilhos. Quando leio os seus romances, sinto-me a crescer humanamente, como alguém que entende o coração e a mente do homem”. E acrescenta: “Se me torno verdadeiramente humano, então estou mais apto a encontrar Cristo, que é o mais humano de todos.”

Caminho sinodal

A propósito do Sínodo que se inicia e que pretende ser uma oportunidade de promover a comunhão, a participação e a missão em Igreja em tempos de necessárias mudanças e novas oportunidades para construir, acima de tudo, a comunidade humana e cristã, sugerimos este artigo do cardeal José Tolentino Mendonça.

Artigo de José Tolentino Mendonça in E, a Revista do Expresso, de 16.10.2021

Está em curso uma experiência nova no catolicismo: neste 17 de outubro, em todas as dioceses do mundo, em simultâneo, inaugura-se um caminho sinodal. Na verdade, é o início de um processo em três etapas, que se desenvolverão entre outubro de 2021 e outubro de 2023: a primeira será diocesana, a segunda organizar-se-á por continentes e a culminar ocorrerá aquela do sínodo da Igreja universal. O tema é o mesmo nas três etapas: “Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”.

A palavra grega synodos é composta por dois termos: a preposição syn, que significa com, conjuntamente; e o substantivo hodos, que se traduz como caminho. O sínodo seria assim um caminho percorrido em conjunto. Ora, se isso é alguma coisa inerente à natureza da própria comunidade eclesial (por exemplo, a voz autorizada de São João Crisóstomo dizia que Igreja e sínodo são expressões equivalentes), a verdade é que a dinâmica sinodal pretende ser também um passo em frente, abrindo um amplo e inovador processo de escuta, participação e discernimento sobre o presente e o futuro.

A instituição contemporânea do sínodo deve a sua origem à redescoberta da dimensão colegial operada pelo Concílio Vaticano II. De facto, foi na reta final do Concílio que o Papa Paulo VI criou o “sínodo dos bispos”, cuja primeira assembleia decorreu em 1967. Se daí em diante todos os papas valorizaram o recurso ao sínodo (João Paulo II convocou dezena e meia, Bento XVI cinco), Francisco tem-se mostrado particularmente envolvido na intensificação da sinodalidade. Para compreender esta especial aposta do Pontífice, a sua biografia pode ser útil, pois os episcopados da América Latina destacam-se precisamente pelo ritmo sinodal que adotaram e que as importantes assembleias-gerais de Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007) documentam com vivacidade. Por exemplo, o então arcebispo de Buenos Aires, de nome Jorge Bergoglio, presidiu à comissão de redação do documento final de Aparecida, e isso realçou a sua visibilidade no contexto da Igreja.

Desde o início do seu pontificado, o Papa tem sublinhado com profecia e realismo dois elementos: o primeiro é que o caminho sinodal deve plasmar melhor a forma de ser Igreja neste terceiro milénio; o segundo é que — e são suas as palavras — “caminhar conjuntamente (leigos, pastores, bispo de Roma) é um conceito simples de verbalizar mas não tão fácil de colocar em prática”. Os obstáculos foram resumidos recentemente por Francisco como um aviso à navegação: existe o risco do formalismo (patente na tentação de construir um evento de fachada em vez de inaugurar instrumentos e estruturas de diálogo que relancem a participação dos leigos); o risco do intelectualismo (que reduziria o sínodo a uma espécie de grupo de trabalho especializado, descolado da realidade e das preocupações concretas); e o risco do imobilismo (que repete de forma estafada, como desculpa, o “sempre foi assim”).

Mas, a par dos obstáculos, há também reais oportunidades que se abrem. O caminho sinodal pode tornar a Igreja uma comunidade de escuta e de vizinhança, capaz de espelhar a participação, a inclusão e o cuidado, deixando-se converter ela própria pelo estilo de Deus. Isto tem mais hipóteses de acontecer, acredita Francisco, se a Igreja não for ocasionalmente sinodal, mas aceitar caminhar para uma Igreja estruturalmente sinodal. E uma citação que este mês de outubro tem reaparecido é a de Yves Congar, um dos teólogos-chave do Concílio Vaticano II: “Não precisamos de uma outra Igreja, mas de uma Igreja diferente.”