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Quem não arde não vive

cardeal Gianfranco Ravasi, Avvenire

«Diante do crucifixo de uma igreja/ uma vela acesa derrete-se do amor e da fé./ Dá toda a luz, todo o calor que possui,/ sem pensar se o fogo a extingue e reduz a pouco e pouco./ Quem não arde, não vive./ Como é bela a chama de um amor que consome,/ contanto que a fé permaneça sempre assim!/ Eu olho e penso. Treme a chama, a cera cola e o pavio fumega.»

Talvez lá fora se ouça o rumor de uma cidade do litoral repleta de veraneantes, ou se aprecie o plácido silêncio da montanha, ou as ruas desertas e sobreaquecidas de uma grande cidade. Abres a porta de uma igreja e eis, na penumbra, o tremeluzir das velas votivas. Avanças e nesse oásis de quietude sentas-te diante desse lume. É este o quadro que o poeta Trilussa delineia num dos seus não raros poemas religiosos ou espirituais. Sabiamente ele entretece amor e fé, que se fundem na cera daquela candeia que lentamente se derrete. E formula esse princípio basilar da vida autêntica, não só espiritual: «Quem não arde, não vive». Para se ser luz e calor, é preciso consumir-se. Se, ao contrário, preferes conservar-te, talvez te mantenhas longamente, talvez consigas acumular um belo pé-de-meia de coisas e de dinheiro, mas tornas-te uma pedra fria, uma vela extinta, uma semente murcha. A lei evangélica do perder para encontrar, do dar para ser feliz, da morte pela vida é difícil de abraçar, e todavia é o único caminho que permite, inclusive a nós, ter uma vida transfigurada. Como a de Cristo na Transfiguração, esplêndido na sua luz que rasga o gelo e a treva.

tradução de Rui Jorge Martins, Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura 

Humor

«Com frequência somos demasiado áridos, indiferentes e desinteressados, e em vez de transmitir fraternidade, transmitimos mau humor, insensibilidade e egoísmo. E com mau humor, insensibilidade e egoísmo não se pode fazer crescer a Igreja», afirmou o papa em 2013.

Poucos dias antes do Natal do ano seguinte, no encontro com os cardeais e colaboradores da Cúria Romana, Francisco integrou no «catálogo» das enfermidades da estrutura da Santa Sé a «doença da cara fúnebre, ou seja, das pessoas rudes e amargas que consideram que, para se ser sério, é preciso pintar o rosto de melancolia, de severidade e tratar os outros – sobretudo aqueles considerados inferiores – com rigidez, dureza e arrogância».

«Um coração cheio de Deus é um coração feliz que irradia e contagia com a alegria todos aqueles que estão ao seu redor: disso nos damos conta imediatamente! Assim, não percamos aquele espírito jubiloso, bem-humorado e até auto-irónico, que faz de nós pessoas amáveis, mesmo nas situações difíceis. Quanto bem nos faz uma boa dose de são humorismo», declarou.

Como “receita” para essa maleita, o papa prescreveu a oração de S. Tomás More – que afirmou rezar todos os dias -, onde se lê: «Dai-me, Senhor, o sentido do bom humor. Concedei-me a graça de compreender uma brincadeira para descobrir na vida um pouco de alegria e partilhá-la também com os outros». Provavelmente inspirado por estas palavras, e também por uma homilia que Francisco proferiu poucos meses depois de ser eleito, em maio de 2013, dizendo que «os cristãos melancólicos» têm «cara de vinagre», D. Juan del Río, arcebispo castrense de Espanha, propõe um «decálogo para viver a alegria de ser cristão»:

«1. O Evangelho cativa pelo sorriso e o gozo do discípulo missionário.
2. O humor faz-nos humildes e recorda o pouco que somos nesta vida.
3. O bom carácter facilita deixarmo-nos surpreender por Deus a cada dia.
4. O humor fomenta as boas relações e reduz os conflitos.
5. Sem vivacidade de ânimo perdemos perspetiva e escapam-se muitas coisas.
6. O riso, o engenho, é uma arma contra o orgulho dos poderosos.
7. Sorrir é bom para o corpo e alma, atrai e dá serenidade.
8. A hospitalidade pede: acolhimento gozoso, sorriso franco e doses de humor.
9. Estar contente abre a mente e o coração para a oração e a ação.
10. A alegria cristã é corajosa diante das dificuldades e mesmo diante do martírio».

fonte: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

Felicidade

Fabrice Hadjadj, Avvenire

Êxtase ou interioridade? Relâmpago ou panela ao lume? Quando falamos de felicidade, a ideia que dela temos associa-se a dois tipos de imagem que correspondem a dois modos opostos de nos relacionarmos com o tempo.

O primeiro tipo é o da vida intensa: inesperadamente, eis-nos surpreendidos, deslumbrados, de boca aberta. O segundo é o da vida serena: estamos abrigados, na calma, num banho de doçura. Naquele é a fratura; neste a maturação. Naquele, o instante; neste, a duração.

Esta separação das nossas visões felizes entre o relâmpago e o céu azul, o acontecimento e a harmonia, o sublime e o agradável, divide também a nossa aproximação à beleza.

Uns experimentam-na como uma fratura: a aparição de uma transeunte de corpo esplêndido que passeia no nosso coração. Outros percecionam-na como uma ascensão lenta mas irresistível: a superfície do mar na Grécia, calma e cintilante, mas cuja imensidão luminosa e tremeluzente vence pouco a pouco a nossa alma.

Assim acontece para a verdade: é visão ou caminho, véu que de uma vez se levanta ou diálogo que se prolonga? Para o trabalho: é sucesso rápido ou trabalho atento, eficácia imediata ou paciente recomeçar? Para a conversão: é Paulo ou Pedro, queda abrupta do cavalo ou continuar durante anos sempre a tropeçar?

Certo é que o nosso tempo está mais do lado da fulguração. Ela confunde facilmente o veloz e o vivaz, talvez por causa da aceleração tecnológica, da banda larga e da ligação quase instantânea que desencadeia o deslocamento vertical no ecrã que um instante antes era cinzento. Requerida pelo comboio de alta velocidade mas que impede a contemplação da paisagem.

É por isso que temos tanta dificuldade em agarrar o pensamento dos Antigos que cantavam a paz. Aos nossos olhos encadeados, a paz parece um sono; a sua harmonia uma inércia; a sua duração uma insipidez. Quando Santo Agostinho a define como a «tranquilidade da ordem», pensamos quase na morte, não decerto na felicidade.

O problema com a busca do intenso é que arruína a sensibilidade. As sensações nunca são suficientemente fortes. Começa-se com o parapente para passar ao salto com o elástico, a queda livre com paraquedas, o voo em “wingsuit” e por fim a queda livre sem paraquedas. O suicídio será sempre de intensidade extrema e sem retorno.

Não dou exemplos de tipo carnal, mas, evidentemente, seria necessário neste caso lembrar a violação e o homicídio. Infelizmente, também o assassínio em série acaba por se aborrecer: cortar uma mulher em pedaços, obstinadamente, excita-o tanto quanto descascar uma batata. Dá-se conta de que alguma coisa está errada. Que poderia ter ficado pela batata, se tivesse sido mais sensível, mais capaz de espanto.

É por isso que o gosto pela intensidade faz facilmente cair a sua lógica para jogar melhor nos contrastes. Coloca-se ao ritmo do caracol para ficar desconcertado pela velocidade da tartaruga. Permanece-se dias fechados na obscuridade para abrir repentinamente as portas e perceber um dia cinzento como uma formidável fulguração. Jejua-se três dias e, logo a seguir, nada é mais intenso, mais saboroso, nada dá mais prazer do que um bocado de pão duro. O ascetismo é o único método para viver um hedonismo que não se torna aceite.

Mantendo por muito tempo uma intensidade de vida muito baixa, na solidão, até o meio sorriso de uma senhora idosa pode parecer-nos como uma experiência de um poder extraordinário.

Compreende-se porque é que a questão da intensidade não é a única. A fé seria apenas um golpe de varinha mágica se tudo se decidisse assim, numa queda do cavalo. O amor seria somente ilusão e desilusão se se reduzisse ao orgasmo. A sua vocação e a sua prova estão precisamente em passar do êxtase ao interior, do relâmpago à panela ao lume.

Os românticos volúveis não deixarão de considerar esta passagem como um aburguesamento. É por isso que não conseguem entrar na profunda poesia do quotidiano.

Título original do artigo: «Essa procura de sensações que nos tira o quotidiano».

Tradução de: SNPC, publicado em 01.05.2017

Ter sede

pe. Vitor Gonçalves, pároco de S. Domingos – Lisboa, Voz da Verdade, 19.3.2017

“Disse-lhe Jesus:  «Dá-Me de beber».” Jo 4, 7

Damos tão pouco valor à água! Esquecemos facilmente o privilégio de abrir em casa uma torneira e ter água potável e abundante. Isso é inacessível ainda a milhões de pessoas, sendo causa direta da morte de 361 mil crianças por ano. Poços e fontes ainda estão na memória de muitos, e até na minha que muitas vezes bebi a água do chafariz do Largo da Eira. A água, bem comum e partilhado, é condição para a vida, e buscam-na incessantemente, em planetas distantes, os cientistas do espaço. Símbolo de tantas outras sedes que nem poços, nem fontes, conseguem saciar.

O poço-fonte de Jacob é hoje localizado no mosteiro ortodoxo de Bir Ya’qubl, na cidade de Nablus, na Cisjordânia. Assinalando o encontro de Jesus com a samaritana, lembra-nos como a simbologia do poço-fonte evoca também encontros nupciais em várias passagens da Bíblia. Não era comum ser junto à fonte que muitas vezes nasciam namoros e até casamentos? No diálogo com a samaritana, nas várias sedes e nas águas a receber e a dar, também saboreamos toda a envolvência do amor nupcial de Deus à humanidade que aquela mulher representa.

Não era necessário passar pela Samaria para ir da Judeia à Galileia. Seria até o caminho mais difícil e perigoso, mas Jesus não veio “passear” ao mundo, e sim encontrar-se connosco, nas periferias e desertos que vivemos. Não se vai à fonte ao meio-dia, à hora do sol a pique em que o calor é maior, a não ser que não se queira encontrar quem olha de soslaio ou insulta, como aquela mulher tão bem conhecia. São diferentes a sede da mulher e a de Jesus, e no fundo, são tão iguais. Jesus começa por pedir “água” que a mulher vinha buscar; mas o que deseja é dar “água viva” que a mulher acaba por pedir. A sede de Deus por nós sacia a nossa sede d’Ele. Esta sede humana que é também de verdade, de sermos amados mais do que podemos imaginar e perdoados mais do que julgaríamos possível. A verdade dos amores imperfeitos da samaritana não é obstáculo ao amor transformador que Jesus lhe oferece. E será com a fragilidade do seu testemunho, mas com o transbordar de alegria do coração, que ela irá interpelar aqueles que evitava, a virem também conhecer Jesus.

Ter sede de Deus leva-nos ao encontro. Felizes são os “que têm fome e sede de justiça” (Mt 5, 6) tinha Jesus dito na montanha das bem-aventuranças. Pois o perigo maior é a saciedade, o “estar farto” em que, também nós cristãos, podemos cair. Deixamos de ter sede da “água viva” que faz transbordar o coração e leva ao encontro de outros sedentos. É fácil acomodarmo-nos a riquezas de ouro e poder, de “pechisbeque” religioso e devocional, de ostentação não evangélica. Podemos esquecer a humildade de ter sede de Deus e da felicidade dos outros, e disfarçá-la com “bebidas” que parecem saciar. Que sede vai guiando os nossos passos?

Pedras Grandes

pe. Vitor Gonçalves, pároco de S. Domingos – Lisboa, Voz da Verdade, 26.1.2017

“Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo.” Mt 6, 33

Certamente alguns já escutaram a história das “pedras grandes primeiro”. Resumo-a: um especialista em gestão do tempo, numa conferência, começou por colocar algumas pedras do tamanho de um punho num frasco de boca larga até o encher. A assembleia concordou que estava cheio. Em seguida, colocou nele gravilha, que ocupou o espaço entre as pedras. Aí a assembleia já não foi tão unânime em dizer que o frasco tinha ficado cheio. Facto que apenas se confirmou quando o orador colocou, de seguida areia, e, por fim, água. Lição a reter? Se não pomos “as pedras grandes primeiro”, não as conseguimos pôr depois! Quais são as pedras grandes da nossa vida? O que pomos primeiro?

Jesus é suficientemente claro. O que os seus discípulos devem procurar em primeiro lugar é “o reino de Deus e a sua justiça”! Tudo mais vem depois, e Ele até diz que nos será dado. O dinheiro, os negócios, as coisas, comer, beber, vestir, divertir ocupam a maior parte do nosso tempo e do coração? Os ídolos do dinheiro e do poder, do luxo e da estravagância absorvem a nossa atenção (e devoção!) e escravizam-nos a uma inquietação doentia? A “cultura do bem estar”, o “fascínio do provisório”, a “economia da exclusão e da iniquidade”, como tem denunciado inúmeras vezes o Papa Francisco, ocupam o primeiro lugar em muitas das nossas atitudes egoístas?

Da teia dos cuidados e preocupações da vida que nos enredam quer libertar-nos Jesus. E apresenta-nos as aves do céu e os lírios do campo para propor a radical confiança em Deus. Que bom seria cruzarmos os braços e esperar que Deus nos satisfizesse as necessidades! Mas o que Jesus diz não é isso: Ele não nos demite do que podemos e devemos fazer, mas convida a estabelecer prioridades. Procurar o reino de Deus e a sua justiça é romper com os círculos viciosos do egoísmo e da ambição desmesurada, é recusar a ganância e o endeusamento dos bens, é recuperar a serenidade e a simplicidade, é valorizar a beleza dada e as pessoas. Quando “vendemos a alma” ao que ainda não temos e não partilhamos generosamente o que somos, a vida torna-se um inferno, e a inquietação faz-nos andar agitados como “baratas tontas”! É preciso recordar o que dizia o profeta Isaías de que Deus nunca nos esqueceria e gravou a nossa imagem nas palmas das suas mãos (cf. Is 49, 15-16).

Não é fácil o exercício de ver o que pomos primeiro. As máscaras de uma religiosidade acomodada são muitas. Os desejos de poder e abundância estão bem envernizados. A indiferença às desigualdades estabelece as convenientes distâncias. Bem irá insistir o Papa Francisco na mensagem para a Quaresma deste ano: “a raiz dos seus males [o rico] é não dar ouvidos à Palavra de Deus; isto levou-o a deixar de amar a Deus e, consequentemente, a desprezar o próximo.” Estamos dispostos a rever o que tem primeiro lugar em nós?

Os ditadores

indiceuhviugD. Nuno Brás, bispo auxiliar de Lisboa, A Voz da Verdade

Não consigo entender os ditadores. A história está cheia dos seus nomes, descrevendo-os habitualmente como homens sanguinários. E se sobre eles faz algum juízo positivo é por causa do império que construíram, a ferro e fogo, com sangue e opressão, nos anos em que estiveram à frente dos destinos dos povos, com os problemas que daí surgiram para todos.

Julgaram-se salvadores; pensaram que eram os únicos a saber resolver problemas, a indicar caminhos, a tomar resoluções. Mas todos foram derrubados. Sem excepção. Uns caíram devido a revoltas populares; outros por causa dos ódios que fizeram nascer à sua volta; outros por doença; outros porque, simplesmente, morreram. Pensaram fazer-se grandes e que o seu nome permaneceria para sempre. O poder humano é, de facto, uma espécie de droga que pode criar uma clara dependência naqueles que o exercem. Nunca lhes passou pela cabeça que mesmo os homens importantes, depois de mortos, são apagados da memória dos que vivem, no espaço de alguns anos. Deles ficará apenas o registo num livro, numa pedra, num resto de arqueologia.

Apenas Deus permanece. E isso relativiza todos os poderes humanos. Senhor do tempo e da história, Deus tudo governa com amor. S. João não hesita em dar uma definição de amor: “não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados” (1Jo 4,10). O próprio Deus, para nos mostrar quem é e para nos convidar a participar da Sua Vida, nos mostrou o caminho: fez-se o menor de todos, até à morte de cruz. Só aí o homem encontra o amor e a salvação. Só aí o poder faz sentido.

O Advento proclama, em cada ano que passa, a Verdade de Deus acima dos pensamentos, das vontades e das atitudes humanas. Não é a história que julga – que absolve ou condena – os ditadores ou qualquer ser humano. Ao recordar que o único poder que permanece é o do amor que se esquece de si mesmo – e que é o próprio Deus –, o Advento convida a olhar e a viver o poder que temos não como afirmação da vontade pessoal mas como serviço. No fundo, o Advento é já o começo do julgamento dos ditadores, grandes ou pequenos.

Cristo Rei

maxresdefaultpe. Vitor Gonçalves, pároco de S. Domingos – Lisboa, Voz da Verdade, 20.11.2016

“Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo.”Lc 23, 37

“Senhor, que eu possa trazer mais um!…” Esta é a prece de Desmond Doss, o protagonista de “O Herói de Hacksaw Ridge”, o novo filme de Mel Gibson, no meio da sangrenta batalha de Okinawa. Trata-se da história real deste objector de consciência que participou na II guerra mundial, sem pegar em nenhuma arma, e nessa batalha tratou e salvou 75 camaradas feridos tirando-os da frente de batalha. Foi o único soldado condecorado pelos Estados Unidos sem ter disparado um tiro e recusou até à sua morte (em 2006) que se fizessem filmes sobre ele. Mel Gibson, num retrato violentíssimo sobre a guerra, descreve o seu exemplo de fé e determinação: “Quero ir à guerra para salvar os que puder!” diz a dada altura do filme Desmond Moss.

Perante toda a espécie de violência nem sempre pensamos as nossas reações. Luta, fuga, medo, vergonha, desespero, indignação… tudo é possível. Sabemos que a natureza comporta violência: as estrelas explodem, os planetas colidem, há terramotos e vulcões, tempestades e secas, e tudo parece fazer parte da vida em transformação. Que bom termo-nos libertado das ideias (talvez alguns ainda não!) de deus ou deuses vingativos com os desvarios da humanidade, a enviar cataclismos da natureza como castigo. Assim foi o triste exemplo de um padre italiano que afirmou serem os recentes terremotos no centro de Itália um castigo de Deus pelas “ofensas à família e à dignidade do casamento, em particular através das uniões civis dos casais gay”. Isto sim é violência gratuita e ofensiva!

É indescritível a violência de qualquer guerra e ainda recentemente o filme português “Cartas da Guerra” de Ivo M. Ferreira, baseado na correspondência do escritor António Lobo Antunes com a sua mulher, a mostrou com dureza e beleza. Não podemos fechar os olhos a tantas violências bem próximas de todos, mas o que marca verdadeiramente a diferença é o desejo de “salvar quantos pudermos”. Tão oposto ao “salva-te a ti mesmo” que Jesus crucificado ouve por três vezes. Os chefes, os soldados e um malfeitor, na violência do calvário, são porta-vozes da tentação começada no deserto: viver para si e por si, ser o centro do mundo, usar todo o poder em proveito próprio. Mas Jesus vive com o Pai e o Espírito Santo, e o seu amor é transbordante; quer chegar a todos, a mais um…, mais um…, sempre mais um. Assim, na cruz, Jesus promete o Paraíso ao mais inesperado dos pedintes, o ladrão “que roubou o paraíso”, como comentou S. João Crisóstomo, acrescentando: “Ó admirável malfeitor! Viste um homem crucificado, e proclamaste-o Deus!”

Culminamos o Ano da Misericórdia na festa da realeza de Cristo, o Deus connosco a “entrar” em todas as “guerras” humanas para salvar todos, e sempre “mais um”. Este “um” é cada um de nós e também os que encontramos em perigo. Não esqueçamos a feliz imagem do Papa Francisco a comparar a Igreja a um “hospital de campanha”: “Essa é a missão da Igreja: curar as feridas do coração, abrir portas, libertar e dizer que Deus é bom, que perdoa tudo, que é Pai, é terno e nos espera sempre.” Quantos continuam sem ouvir isto?