Filmes

Filme “Vivo”, da Sony Pictures Animation, disponível na Netflix

Filme sugerido por Sofia Brito

“Vivo” é um filme de animação musical que traz para a tela as culturas cubana e latino-americana, numa explosão de cores e de ritmos. O contraste não só cultural, mas também geracional que se propicia pelo encontro improvável entre as várias personagens, cria o tipo de tensão que nos faz pensar na diversidade, na integração e no diálogo. Essa tensão que acrescenta ao nosso mundo interior, em vez de o restringir.

A personagem principal, de seu nome Vivo, é um animal que poucos conhecerão: um quincaju, um mamífero habitante da floresta tropical. Mas o pequeno Vivo não mora na floresta – mora, sim, com o seu grande amigo Andrés. A sua linguagem comum é a música, assim como o seu sustento. Todos os dias vão para uma praça da bela cidade de Havana, onde partilham o seu ritmo único com os transeuntes. Diferentes não só na sua espécie, estes amigos trazem também percursos de vida diferentes para a mesa: enquanto Andrés, já na sua velhice, tinha uma vida repleta de música antes do seu primeiro encontro, Vivo era pouco mais do que um bebé, deslocado do seu habitat natural. Este ponto é muito importante para compreendermos o contributo deste filme para as nossas viagens pessoais.

A narrativa começa por se desenrolar em redor de um grande desafio. Andrés, na sua avançada idade, é confrontado com uma das escolhas que marcou e moldou o seu caminho de vida. E a atitude que lhe descobrimos nesse momento é, também ela, marcante: Andrés enfrenta esse momento com alegria, com esperança, com entusiasmo. Claro que também encontra a dúvida, questionando-se acerca da sua decisão e de como o caminho poderia ter sido diferente. Mas está pronto a abraçar a mudança e a novidade para chegar ao reencontro e para dizer, finalmente, o que ficou por dizer.

É curioso pensarmos nesta atitude quando, tantas vezes e tão erradamente, associamos a velhice a conformismo e resistência à mudança. Uma coisa não é inerente à outra, e é isso mesmo que Andrés nos mostra. Que não é a idade, não é a bagagem repleta de vivências que torna a viagem pesada. É tão só a forma como a carregamos. E tanto mais percebemos isto, quando nos confrontamos com a atitude oposta do jovem Vivo: Vivo não quer ouvir falar de nenhuma aventura! Reage de forma rezingona e acomodada; a última coisa que quer é abdicar da sua rotina confortável, e chega mesmo a questionar o amigo: “para quê?”.

Nós que temos a sorte de partilhar a língua-mãe com Fernando Pessoa sabemos a resposta –“tudo vale a pena”… E Andrés tem, de facto, uma alma gigante. Vivo também se irá desenvolver ao confrontar-se com outros desafios que a vida tem para lhe colocar, mas naquele momento, é ainda um jovem muito marcado pela perda do seu primeiro lar. O avassalador medo do desconhecido, a profunda solidão que enfrentou ao ser largado no meio da cidade, cheia de perigos e coisas pouco familiares, moram ainda consigo. Não quer arriscar e entendemo-lo! Finalmente está seguro. É o grande confronto da vida: escolhemos e aceitamos viver, apesar dos riscos que a vida acarreta?

Vivo vai descobrir que sim, que viver vale a pena. Que existe um milhão de respostas ao seu “para quê”. Vai descobrir que tem mais recursos dentro de si do que achava possível. A sua atitude desconfiada vai derreter-se perante o insuperável chamamento da vida, da amizade e do companheirismo.

Quis partilhar esta reflexão porque vejo que a vida é tantas vezes isto! O desafio volta a repetir-se, a perda parece vir bater-nos à porta de novo. Perguntamo-nos imediatamente, “para quê isto?”. E algures encontramos a resposta: que a vida continua a puxar-nos em diante, a levar-nos para o centro da aventura, a mostrar-nos que existe mais além do perigo e do desconhecido. Existe mais dentro de nós do que apenas medo e luto. Que temos os recursos para encontrar novos caminhos, para construir novas amizades e para cumprir a missão que se impõe: viver!