I Semana da Quaresma

Domingo (dia 5)

Da mansidão

Faz-nos trilhar, Senhor, a estrada da mansidão.

Ajuda-nos a contrariar a ferocidade do tempo, fora e dentro de nós.

Que a tua paz seja a fonte secreta que tudo irriga, inspira e sustenta. Tudo provenha dessa paz sem vencidos nem vencedores; dessa paz que acalma as ameaças e os cercos implacáveis; dessa paz pronunciada ao mesmo tempo com o máximo de firmeza e o máximo de doçura.

Dá-nos mansidão nas palavras que tão facilmente perdem o sentido da humildade.

Dá-nos mansidão nos gestos que tão facilmente se fazem mecânicos e duros.

Dá-nos mansidão nos propósitos, que a competição empurra para uma agressividade sempre mais cortante.

Que o nosso coração não se pareça a uma arena inconciliável, mas se reconheça sim na mansidão das paisagens reconciliadas, aprendendo a lição dos pequenos cursos de água que, quase sem rumor, fazem florir a terra.

José Tolentino Mendonça in “Rezar de olhos abertos”

Segunda-feira (dia 6)

Presença

Senhor, pode acontecer que pareças estar longe. Será que a confiança da fé consiste em dizer “sim” ao amor de Deus, apesar de haver em nós um silêncio profundo? A fé é como um impulso de confiança mil vezes retomado ao longo da nossa vida.

Mesmo quando não a sentimos, a presença misteriosa de Cristo nunca desaparece. Pode haver em nós uma impressão de ausência, mas há antes de tudo a possibilidade de nos maravilharmos diante da sua contínua presença.

Quando as nossas inquietações conseguem afastar-nos da confiança da fé, interrogamo-nos: será que me tornei incrédulo? Não. Trata-se apenas de brechas de incredulidade e nada mais.

O Evangelho convida-nos a confiar sempre de novo em Cristo e, com Ele, fazer crescer em nós uma vida de contemplação. Cristo diz a cada pessoa estas palavras do Evangelho: “Procura! Procura e encontrarás.”

Irmão Roger in “Deus só pode amar”

Terça-feira (dia 7)

O Vosso Rosto

Senhor,

dai-nos a inquietação do coração que procura sem cessar o vosso rosto.

Protegei-nos do obscurecimento do coração que vê apenas a superfície das coisas.

Concedei-nos aquela generosidade e pureza de coração que nos tornam capazes de ver a vossa presença no mundo, a vossa luz sempre dominante.

Quando não formos capazes de realizar grandes coisas, dai-nos a coragem de uma bondade humilde. Imprimi o vosso rosto nos nossos corações, para vos podermos encontrar e mostrar ao mundo a vossa imagem. Ajudai-nos a crer em Vós e a seguir-Vos precisamente na hora da escuridão e da privação.

Cardeal Joseph Ratzinger  in “Via sacra no Coliseu de Roma, 2005 – textos e meditações”

Quarta-feira (dia 8)

Rezar o vazio

Senhor,

Ensina-nos a rezar este vazio.

O vazio daquela idosa que passa o dia inteiro com o rosto contra o vidro da janela. O vazio do refugiado que vê a sua esperança negada por um carimbo.

O vazio do jovem diante de um futuro que escapa, como um pensamento distante.
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O vazio que nos alcança como um aviso de despejo da vida autêntica.

O vazio dos encontros e das conversas de que precisaríamos agora.

O vazio que os amigos percebem.

O vazio das risadas.

O vazio de todos os abraços não dados. O vazio da proximidade proibida.
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O vazio em que não te vemos.

Cardeal José Tolentino Mendonça in “Avvenire”

Quinta-feira (dia 9)

Paz de coração

Contigo, Jesus Cristo, avançamos das trevas à luz. Ao procurar aquilo que esperas de nós, a nossa vida abre-se ao Espírito Santo. Ele leva-nos a compreender aquilo em que nem ousávamos esperar.

Deus de paz, tu não queres para nós uma inquietude persistente, mas um humilde arrependimento de coração, um impulso de confiança que nos permite entregar-te tudo aquilo que somos. E, na luz interior do teu amor, pouco a pouco, descobrimos a paz do coração.

Comunidade de Taizé

Sexta-feira (dia 10)

Olhar a cruz

Fixemos bem aquele homem crucificado entre a terra e o céu, contemplemo-lo com um olhar mais profundo, e descobriremos que a Cruz não é o sinal da vitória da morte, do pecado, do mal, mas o sinal luminoso do amor, mais ainda, da imensidão do amor de Deus, daquilo que não teríamos jamais  podido pedir, imaginar ou esperar. Deus debruçou-Se sobre nós até chegar ao ângulo mais escuro da nossa vida, para nos estender a mão e atrair-nos a Si, levar-nos até Ele.

A Cruz fala-nos do amor supremo de Deus e convida-nos a renovar, hoje, a nossa fé na força deste amor, a crer que em cada situação da nossa vida, da história, do mundo, Deus é capaz de vencer a morte, o pecado, o mal, e dar-nos uma vida nova, ressuscitada. Na morte do Filho de Deus na cruz, há o gérmen de uma nova esperança de vida, como o grão de trigo que morre no seio da terra.

Fixemos o nosso olhar em Jesus Crucificado e peçamos, rezando: Iluminai, Senhor, o nosso coração, para Vos podermos seguir pelo caminho da Cruz; fazei morrer em nós o «homem velho», ligado ao egoísmo, ao mal, ao pecado, e tornai-nos «homens novos», mulheres e homens santos, transformados e animados pelo vosso amor.

Papa Bento XVI  in “Via sacra no Coliseu de Roma, 2011 – textos e meditações”

Sábado (dia 11)

A vida indecifrável

Talvez, Senhor, tudo parta daqui: deste sentimento irremovível de que a vida é mais. É mais bela e feia, mais justa e injusta, mais positiva e negativa, mais poderosa e frágil, mais ampla e miniatural do que aquilo que eu posso controlar, com os instrumentos que normalmente estão ao meu dispor: a vontade, a razão ou o desejo.

A vida é sempre mais. O seu turbilhão ou a sua marcha lenta; a sua inquietude ou o seu estado inerme, apagado; a sua pulsão vital declarada, quase estonteante, e, ao mesmo tempo, a sua discrição que me obriga a aplicar bem o ouvido se a quiser captar.

A vida é maior. E, por isso, tantas vezes, perante a grandiosidade da vida sinto o fascínio e o estilhaço, sinto uma espantosa empatia e um medo que paralisa, pois ela ultrapassa-me, foge-me a cada instante, resiste-me indecifrável. Ajuda-me, Senhor, a ser humilde perante a vida, pois é mais aquilo que desconhecemos do que aquilo sobre o qual podemos falar. Dá-me a capacidade de abraçar a vida quando ela não for exatamente aquilo que eu previ.

José Tolentino Mendonça in “Rezar de olhos abertos”