II Semana da Quaresma

Domingo (dia 12)

A bem-aventurança do quotidiano

Bem-aventurados os que estendem largos os gestos de misericórdia, pois a misericórdia os iluminará.

Bem-aventurados os que dão até ficarem de mãos vazias, pois Deus de novo as há de encher.

Bem-aventurados os que rompem com mansidão o muro de implacáveis certezas, pois são outros os caminhos da consolação.

Bem-aventurados os que sentem, pela justiça, fome e sede verdadeiras: não ficarão por saciar.

Bem-aventurados os que sabem o valor de um olhar puro, pois no confuso do mundo verão o próprio Deus.

Bem-aventurados os que quotidianamente se afadigam pela paz: isso torna os mortais filhos de Deus.

José Tolentino Mendonça in “Rezar de olhos abertos”

Segunda-feira (dia 13)

Morada de Luz

A dúvida, por vezes, é apenas o outro lado da fé. Na invisibilidade da sua presença, o Ressuscitado poderia dizer-te: “Sei que há dias cinzentos e opacos na tua vida. Conheço as tuas dificuldades e a tua pobreza, mas, apesar disso és abençoado, habitado por fontes vivas, fontes de fé escondidas no mais profundo de ti mesmo.”

A surpresa da presença de Jesus cria em ti uma morada de luz. Ela ilumina mesmo quando tudo parece envolto em obscuridade e brilha como brasas debaixo da cinza.

O simples desejo de Deus é já o começo da fé. Quando te abres à vida eterna, a confiança da fé começa e não tem mais fim.

Irmão Roger in “Oração: frescura de uma fonte”

Terça-feira (dia 14)

Gestos de misericórdia

Só o amor que se faz serviço e entrega conta para o coração de Deus. Seremos julgados pelo amor, não pelos ritos ou tradições. Quando o nosso tempo chegar ao fim, uma só palavra conta: o Amor. E isso ajuda-nos, já hoje, a viver com mais entusiasmo e verdade.

Olho para ti, Senhor Jesus, e vejo o rosto de todos os homens e mulheres meus irmãos a quem é negada uma vida digna de pessoas. Dá força ao meu amor por ti para que se torne amor pelos mais frágeis. Que a tua presença na minha vida me faça reencontrar a ternura de coração e a criatividade dos gestos de misericórdia.

Padre Rui Alberto in “Rezar na Quaresma”

Quarta-feira (dia 15)

Um coração forte e misericordioso

O sofrimento do próximo constitui um apelo à minha conversão, porque a necessidade do irmão recorda-me a fragilidade da minha vida, a minha dependência de Deus e dos irmãos. Se humildemente pedirmos a graça de Deus e aceitarmos os limites das nossas possibilidades, então confiaremos nas possibilidades infinitas que tem de reserva o amor de Deus. E poderemos resistir à tentação que nos leva a crer que podemos salvar-nos e salvar o mundo sozinhos.

Ter um coração misericordioso não significa ter um coração débil. Quem quer ser misericordioso precisa de um coração forte, firme, fechado ao tentador mas aberto a Deus; um coração que se deixe impregnar pelo Espírito e levar pelos caminhos do amor que conduzem aos irmãos e irmãs; no fundo, um coração pobre, isto é, que conhece as suas limitações e se gasta pelo outro.

Senhor, dá-nos um coração forte e misericordioso, vigilante e generoso, que não se deixa fechar em si mesmo nem cai na vertigem da globalização da indiferença.

Papa Francisco  in “Mensagem para a Quaresma de 2015”

Quinta-feira (dia 16)

Confiança renovada

Jesus, alegria dos nossos corações, o teu Evangelho assegura-nos que o Reino de Deus está no meio de nós. Abrem-se então em nós as portas da simplicidade.

Deus de toda a eternidade, tu sabes que a nossa linguagem humana pouco consegue exprimir a nossa espera de comunhão contigo. Mas tu concede-nos o dom de uma vida para ti. E surge a aurora de uma confiança renovada. Jesus, sê a nossa paz. Tu dizes-nos: “Não tenhas medo, eu estou contigo.”

Jesus, tu sabes que o ser humano procura a paz interior. A nossa alma pede-te: dá-nos a paz interior. E, na nossa escuridão, tu acendes o fogo do teu perdão e da tua compaixão. Esse fogo nunca se há de apagar.

Comunidade de Taizé

Sexta-feira (dia 17)

Cruzes gloriosas

Senhor,

fazei que, à luz da Cruz, símbolo da nossa fé, possamos aceitar os nossos sofrimentos e, iluminados pelo vosso amor, abraçar as nossas cruzes tornadas gloriosas pela vossa morte e ressurreição. Dai-nos a graça de olhar de frente as nossas vicissitudes e descobri nelas o vosso amor por nós.

Que cada um de nós seja tão humilde e forte que carregue a cruz de quem encontramos. Quando nos sentirmos sozinhos, fazei que possamos reconhecer na nossa estrada um Simão de Cirene que para e carrega sobre si o nosso fardo. Concedei-nos a graça de saber procurar o melhor em cada pessoa,
estar abertos a cada encontro, mesmo na diversidade. Peço-Vos que cada um de nós possa descobrir-se sempre ao vosso lado.

in “Via sacra no Coliseu de Roma, 2018 – textos e meditações”

Sábado (dia 18)

A força trémula

Faz-nos navegar, Senhor, na embarcação da alegria que deixámos, algures, escondida no meio dos ramos e da folhagem. Torna-nos disponíveis para as viagens longas, como são sempre as do coração: que viajemos no rasto do silêncio luminoso. Que viajemos na rota das palavras reencontradas, das conversas reveladoras, sem mapa preciso como o trajeto dos pássaros, de repente, felizes.

Que nenhum ressentimento ou mágoa desaperte o nó apertado que nos liga ao amor e à amizade. Ajuda-nos, antes, a acolher a força trémula e fortíssima da vida que perdura em nós como um chamamento incessante. Afasta-nos do tempo interrompido, opaco, onde experimentamos a negação de nós próprios e de ti. E que cada dia assinale a descoberta profunda de nós mesmos e dos outros, na certeza da tua presença nítida e radiosa.

José Tolentino Mendonça in “Rezar de olhos abertos”