III Semana da Quaresma

Domingo (dia 19)

A vida silenciosa

Senhor,

a velocidade com que vivemos impede-nos de viver. Damos por nós ofegantes, fazendo por fazer, atropelados por agendas e jornadas. As coisas acontecem depressa demais, ninguém parece ter certeza de nada, nem de si mesmo. Passamos pelas coisas sem as habitar, falamos com os outros sem os ouvir, juntamos informações que nunca chegamos a aprofundar. Tudo transita num galope ruidoso e efémero.

Ensina-nos o contrário disso, Senhor. Ensina-nos, Senhor, o aqui e o agora da escuta e da presença. Faz-nos reaprender o inteiro, o intacto, o verdadeiro, o afável, o fiel, o atento, o confiado. Faz-nos compreender que tal não só é possível como é o dom que nos está a ser oferecido nesta hora.

Que ousemos assim transcender o nosso cálculo estreito; escolher mais vezes a vida silenciosa; valorizar encontros, gestos que sejam sementeiras, afetos onde se desenha a surpresa da misericórdia.

José Tolentino Mendonça in “Rezar de olhos abertos”

Segunda-feira (dia 20)

Deus caminha connosco

Como renovar uma vida interior, descobrindo e redescobrindo sempre de novo a relação pessoal com Deus? Há em todos nós uma sede de infinito. Deus criou-nos com este desejo de absoluto.

Se, por vezes, caminhamos de noite ou atravessamos um deserto, não o fazemos para seguir um ideal; como crentes, seguimos uma pessoa: Cristo. Não estamos sozinhos; Ele vai à nossa frente. Segui-lo implica um combate interior, com decisões a tomar, com fidelidades de toda uma vida. Neste combate, não nos apoiamos sobre as nossas próprias forças, mas abandonamo-nos à sua presença. O caminho não está traçado antecipadamente; implica também acolher surpresas, criar com o inesperado. E Deus não se cansa de retomar o caminho connosco.

Irmão Alois de Taizé in “Ousar acreditar – a celebração da fé em Taizé”

Terça-feira (dia 21)

Gestos de compaixão

Senhor, nosso Deus,

revelastes-nos que, em cada pobre que está nu, preso, sedento, sois Vós que nos apareceis, e sois Vós que nós acolhemos, visitamos, vestimos e damos de beber: «Era peregrino e recolhestes-Me, estava nu e destes-Me que vestir, adoeci e visitastes-Me, estive na prisão e fostes ter comigo» (Mt 25, 35-36). Mistério do vosso encontro com a nossa humanidade! Assim vindes ter com cada homem! Ninguém está excluído deste encontro, se aceitar ser homem de compaixão.

Nós Vos apresentamos, como uma oferta santa, todos os gestos de bondade, hospitalidade e dedicação que dia a dia são feitos neste mundo. Dignai-Vos reconhecê-los como a verdade da nossa humanidade, que fala mais alto que todos os gestos de rejeição e de ódio. Dignai-Vos abençoar os homens e as mulheres de compaixão que Vos dão glória, mesmo que não saibam ainda pronunciar o vosso nome.

Anne-Marie Pelletier in “Via sacra no Coliseu de Roma, 2017 – textos e meditações”

Quarta-feira (dia 22)

Onde Tu estás

Senhor,

quando estava inquieto, acalmaste os meus tormentos.

Quando estava cansado, ofereceste-me repouso.

Quando estava só, trouxeste-me amor.

Quando era pequeno, ensinaste-me a ler.

Quando não tinha casa, abriste as tuas portas.

Ferido no combate, curaste as minhas feridas.

Quando buscava a bondade, estendeste-me a mão.

Quando era insultado e humilhado, levaste a minha cruz.

Quando estava preocupado, partilhaste a minha tristeza.

E quando estava feliz, partilhaste a minha alegria.

Madre Teresa de Calcutá in “Oração: frescura de uma fonte”

Quinta-feira (dia 23)

Luz acesa

Sentes-te envolvido pelo incompreensível? Quando a noite se adensa, o seu amor é um fogo. Cabe-te a ti olhar essa luz acesa na obscuridade, até que a aurora comece a despontar e o dia a nascer no teu coração.

Passagem inesperada do amor de Deus, o Espírito Santo atravessa cada ser humano como um clarão durante a noite. Por essa misteriosa presença, o Ressuscitado revigora-te. Encarregando-se de tudo, mesmo na difícil provação, Ele toma sobre si a tua dificuldade.

Só mais tarde, por vezes muito tempo depois, compreenderás: a abundância dos seus dons nunca falta. E dirás: “Não me ardia o coração quando Ele me falava?”.

Irmão Roger de Taizé in “As fontes de Taizé”

Sexta-feira (dia 23)

É tudo amor

A Cruz de Jesus é a Palavra com que Deus respondeu ao mal do mundo. Às vezes parece-nos que Deus não responde ao mal, que permanece calado. Na realidade, Deus falou, respondeu, e a sua resposta é a Cruz de Cristo: uma Palavra que é amor, misericórdia, perdão. É também julgamento: Deus julga amando-nos. Se acolho o seu amor, estou salvo; se o recuso, estou condenado, não por Ele, mas por mim mesmo, porque Deus não condena, Ele unicamente ama e salva.

A palavra da Cruz é também a resposta dos cristãos ao mal que continua a agir em nós e ao nosso redor. Os cristãos devem responder ao mal com o bem, tomando sobre si a cruz, como Jesus. Continuemos esta Via-Sacra na vida de todos os dias. Caminhemos juntos pela senda da Cruz, caminhemos levando no coração esta Palavra de amor e de perdão. Caminhemos esperando a Ressurreição de Jesus, que tanto nos ama. É tudo amor!

Papa Francisco  in “Via sacra no Coliseu de Roma, 2013 – textos e meditações”

Sábado (dia 24)

O caminho da liberdade

Senhor,

faz-nos trilhar o caminho da liberdade.

Ajuda-nos a ver, nestes pesados braços fatigados, imprevistas asas.

Nos obstáculos mais hirtos, desafios que nos modelam.

Nos nossos limites de hoje, as portas que devemos transpor amanhã.

Recorda-nos, em cada dia, que estamos prometidos à imensidão e à transparência.

Há uma arte de ser que fica muitas vezes ignorada: que nós a descubramos, humildes, mas também vibrantes, acreditando-nos amados e, por isso, capazes de uma plenitude feliz.

Que o sentido da aventura interior se sobreponha ao nosso modo sonâmbulo e assustado. E, depois de termos pedido o pão, que tenhamos a sabedoria de pedir ainda o desejo e o espanto.

José Tolentino Mendonça in “Rezar de olhos abertos”