IV Semana da Quaresma

Domingo (dia 26)

O trilho da confiança

Faz-nos trilhar, Senhor, a estrada da confiança.

Dá-nos um coração capaz de amar serenamente aquilo que somos ou que não somos, aquilo que sonhámos ou as coisas que não escolhemos e que, contudo, fazem parte da nossa vida.

Ensina-nos a devolver a todos os teus filhos e a todas as criaturas a extraordinária bondade com que nos amas. Não permitas que o nosso espírito se feche no medo ou no ressentimento: ensina-nos que é possível olhar a noite, não para dizer que pesa em todo o lugar o escuro, mas que a qualquer momento uma luz se levantará.

Dá-nos a ousadia de criar e recriar continuamente, mesmo partindo daquilo que não é ideal nem perfeito. E, quando nos sentirmos mais frágeis ou sobrecarregados, que recebamos com igual confiança a nossa vida como um dom e cada dia como um dia de Deus.

José Tolentino Mendonça in “Rezar de olhos abertos”

Segunda-feira (dia 27)

A nossa oração

Jesus Cristo,

eleva-se no nosso coração uma voz interior e essa voz é já a nossa oração. Mesmo que os nossos lábios guardem silêncio, o nosso coração escuta-te, escuta a tua palavra. Surpreendemo-nos, por vezes, ao saber que tu estás em nós, como presença misteriosa. E tu, o Ressuscitado, dizes a cada um de nós: “Abandona-te simplesmente à vida do meu Espírito que mora em ti. A tua pequena fé é suficiente. Nunca te abandonei, nunca.”

Tu, Jesus Cristo, luz interior, vieste para que, através de ti, o Ressuscitado, toda a criatura humana seja salva, reconciliada. E quando o amor que perdoa se torna como uma brasa dentro do próprio ser, o coração, mesmo sofrido, pode recomeçar a viver.

Irmão Roger de Taizé in “Oração: frescura de uma fonte”

Terça-feira (dia 28)

Ser Luz

Jesus,

ajuda-nos a espalhar o teu perfume onde quer que vamos.

Inunda as nossas almas do teu Espírito e da tua vida.

Possui todo o nosso ser de forma tão completa que as nossas vidas sejam um reflexo da tua.

Resplandece através de nós e permanece em nós de tal modo que cada pessoa que encontremos possa ver a tua presença em nós. Que eles possam levantar os olhos e apenas ver-te a ti.

Fica connosco e, como tu, seremos uma luz para os outros. Essa luz que não vem de nós próprios, só vem de ti. Serás tu que, através de nós, brilharás sobre os outros.

Que nós possamos louvar-te do modo que tu preferes, irradiando sobre aqueles que nos rodeiam.

Que falemos de ti, não por palavras, mas pelo nosso exemplo, pela força contagiosa, pela influência cativante do que nós fazemos, pela plenitude evidente do amor que está nos nossos corações.

Madre Teresa de Calcutá in “Oração: frescura de uma fonte”

Quarta-feira (dia 29)

Coragem de olhar

Senhor,

a todos nos pedes a coragem do desafio. A coragem de saber ver e agir, individualmente e como comunidade. Só juntando as nossas pobrezas é que estas poderão tornar-se uma grande riqueza, capaz de mudar a mentalidade e aliviar os sofrimentos da humanidade. O pobre, o estrangeiro, o diferente são irmãos a acolher e ajudar. Não são um problema, mas um recurso precioso para as nossas cidadelas blindadas, onde o bem-estar e o consumo não aliviam o crescente cansaço e fadiga.

Senhor,

ensina-nos a possuir o teu olhar; aquele olhar de acolhimento e misericórdia, com que vês os nossos limites e os nossos medos.

Ajuda-nos a ver assim as divergências de ideias, costumes e perspetivas.

Ajuda a reconhecermo-nos como parte da mesma humanidade e a fazermo-nos promotores de novos e ousados caminhos de acolhimento da pessoa diferente, para juntos criarmos comunidade, família, paróquia e sociedade civil.

Eugenia Bonetti in “Via sacra no Coliseu de Roma, 2019 – textos e meditações”

Quinta-feira (dia 30)

Jesus, minha alegria

Louvado sejas, Jesus Cristo.

Através de ti, Deus acolhe e ilumina a nossa vida. Em ti, irradia a sua compaixão por todos os homens de todas as nações. Tu tornas-te próximo dos que estão longe de Deus. Dás sentido à nossa frágil existência. Quando olhamos para a tua luz, ela torna-se, aos poucos, mais interior dentro de nós e assim podemos dizer-te: Jesus, minha alegria, minha esperança e minha vida.

Jesus Cristo, tu trazes a todos os homens o perdão, a compaixão de Deus sem limites. A tua presença une-nos numa única comunhão. Se partilharmos o que temos com os que não têm o suficiente, o nosso coração abre-se e tu vens acender em nós o fogo do teu amor.

Irmão Alois de Taizé in “Ousar acreditar – a celebração da fé em Taizé”

Sexta-feira (dia 31)

Caminho para a Ressurreição

Senhor,

Imprime nos nossos corações sentimentos de fé, esperança e caridade.

Ajuda-nos a transformar a nossa conversão feita de palavras, em conversão de vida e de obras.

Ajuda-nos a guardar em nós uma recordação viva do teu Rosto, para que nunca nos esqueçamos do altíssimo preço que pagaste para nos libertar.

Jesus crucificado,

reforça em nós a fé, que não ceda diante das tentações;

reaviva em nós a esperança, que não se perca seguindo as seduções do mundo; conserva em nós a caridade que não se deixe enganar pela corrupção e pela mundanidade.

Ensina-nos que a Cruz é caminho para a Ressurreição.

Ensina-nos que a sexta-feira santa é caminho para a Páscoa da luz;

ensina-nos que Deus nunca esquece nenhum dos seus filhos e nunca se cansa de nos perdoar e abraçar com a sua misericórdia infinita.

Mas ensina-nos também a não nos cansarmos de pedir perdão e crer na misericórdia sem limites do Pai.

Papa Francisco  in “Via sacra no Coliseu de Roma, 2015 – textos e meditações”

Sábado (dia 32)

Todos os dias a vida recomeça

É bom saber, Senhor, que todos os dias a vida recomeça. A força criadora da vida não se empalidece no labirinto dos afazeres, nem a destroem a turbulência de certas geografias ou a áspera penumbra de algumas horas.

A vida, a nossa vida, mesmo frágil e trémula, é soberana.

Investida do teu amor, ela pode sempre refazer-se, transfigurar-se, vestir-se de música súbita.

Tocada por esse amor, ela é capaz de ser mais do que o rangido das coisas, mais do que esta porção de cinza caída de repente, mais do que o conhecimento detalhado da tristeza que nos deixa acordados noite fora ou do que a expectativa confusa que nos exila do fulgor, entregues à nossa difícil ciência.

A vida parece-se à dança, humilde e fantástica, que os pássaros desenham como dom no desamparo dos céus – coisas para sabermos antes de todas as aprendizagens.

José Tolentino Mendonça in “Rezar de olhos abertos”