Livros

O Jogo das Contas de Vidro, Hermann Hesse

Livro sugerido por Beatriz Cruz

“Existem muitas espécies e formas de vocação, porém, a essência e o sentido da experiência é sempre o mesmo: o que acorda a alma, a transforma ou exalta, é sempre que, em vez de sonhos e pressentimentos íntimos, de repente um apelo do exterior, um fragmento da realidade se impõe e age.” (in “O Jogo das Contas de Vidro”, Hermann Hesse)

O livro “O Jogo das Contas de Vidro” é essencialmente sobre vocação: o encontrar, o assumir, o viver sem medos, plenamente, com respeito, e acima de tudo com dignidade o chamamento que nos acorda para uma vida plena. E é também sobre a importância de questionar continuamente se o caminho que escolhemos fazer é fiel a essa vocação. Este caminho flui com naturalidade, embora não necessariamente com facilidade, não sendo isento de dúvidas, de percalços, de momentos de desânimo. Não há certezas absolutas. Uma escolha abre novas possibilidades que apenas surgem depois que essa escolha é feita. Há um sentido, mas o caminho é feito passo a passo. Sabemos para onde queremos ir, mas é a humildade, a confiança, o discernimento contínuo e a paciência que nos ajudam nas escolhas, contra medos, orgulhos, vaidades e teimosias. Hermann Hess chama-lhe “despertares”. E há realmente um acordar. De repente, algo faz tão completamente sentido que só podemos ir por aí.

A vocação implica um escrutínio contínuo, um pôr em causa, um questionar sem reservas. E isto acompanhado de uma clareza de espírito, de um ouvir e ponderar todos os argumentos, de uma ausência de preconceitos ou de ideias feitas. E, principalmente, nunca pensar que é demasiado tarde ou que somos demasiado velhos para recomeçar. A vida plena vem acompanhada de uma atenção, de uma disponibilidade, de equilíbrios e desequilíbrios que nos impelem para a frente e para cima.

À personagem Joseph Knecht foi apresentada muito cedo a oportunidade de viver a sua vocação. Caminhou por degraus, de “despertar” em “despertar”, evoluindo harmoniosamente, com empenho, disciplina, abnegação, ausência de “paixões”, desejos e facilitismos, até ao grau supremo de Magister Ludi. Vivendo plenamente aquilo em que acreditava, descobre um dia que essa vida se encontrava isolada da História, da realidade, numa autêntica “bolha” de perfeição. Sendo já de idade avançada e com uma vida de provas dadas, admite pôr em causa essa “perfeição” para abraçar uma realidade imperfeita mas inserida na História, na Humanidade, sem a proteção de que sempre havia usufruído. Castália, onde viveu quase toda a sua vida, estava inserida na História, no Mundo, protegida e mantida pelo Mundo, mas orgulhosamente isolada. Ao procurar a perfeição absoluta, desprezava tudo o que o não fosse. Isolada, pensava que se bastava a si própria e desdenhava quem lhe dava condições de assim poder existir. Contra uma vida perfeita, Knecht pondera escolher uma vida em busca da perfeição. Uma vida aberta à Humanidade e inserida na sua História. O final  da narrativa surpreende! E se pensam que ficam a saber a história com base nesta pequena partilha estão longe de imaginar a viagem que vão fazer quando o lerem. Vale a pena acompanhar Joseph Knecht ao longo do seu caminho.