Março 2022

Viver

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“E estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós.” (da 1.ª Carta de Pedro 3, 15)

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Encontramo-nos perante mais um inegável desafio. Se há dois anos começávamos então a enfrentar o vírus pandémico que nos sujeitou a um indesejável isolamento e a uma interrogação permanente acerca do nosso bem estar comum, eis-nos agora perante a turbulência e a inquietude que a violência mundial nos traz. Estes “vírus” que nos assolam surgem de um instante para o outro, atrapalham as nossas certezas e incomodam aquilo que é o nosso futuro. “A vida muda num instante. Num dia normal.” é a frase que a escritora Joan Didion vai repetindo ao longo do seu extraordinário livro “O ano do pensamento mágico”. Também ela teve de enfrentar a morte num dia em que esta não estava nos seus planos. Tudo decorre com a normalidade a que sempre nos habituamos e tudo acontece sem nunca nos habituarmos a que aconteça. E tudo acontece numa normalidade a que nem sempre damos valor, ou prestamos atenção ou até mesmo agradecemos. Depois, num “dia normal”, eis que tudo muda. E nós somos obrigados a mudar também. E a questionar.

Quando somos confrontados com estes abalos, a vida exige de cada um de nós uma resposta, uma ação. A vida não é indiferença. A vida é movimento, busca, construção. E a reação de cada um de nós é inevitavelmente diferente, ou não fossemos nós seres também diferentes. Perante esta guerra a acontecer, gente há que quer lutar pelo seu país e está a defendê-lo, recusando boleias de salvação; outros escolhem ir para as ruas físicas e sociais gritar a indignação e assumir como lema de vida comum a solidariedade entre os povos; outros ainda arregaçam as mangas e enchem de bens os camiões que partem em direção ao sofrimento atroz; outros exercem a sua diplomacia para tentar quebrar o castelo de gelo e de ódio onde os poderosos vivem. E o Papa convocou para amanhã, Quarta-Feira de Cinzas, uma jornada de oração e de jejum em união com aqueles que sofrem. Todos nos movimentamos. Todos somos movimentados. Todos temos esta(s) escolha(s). Somos seres com os outros e para os outros. Isto é ser humanidade. É pormo-nos a caminho. É fazermos caminho.

Como posso eu ajudar? O que posso eu fazer? Enquanto cristã, o que me move e comove ao viver este momento mundial? Eu encontro parte da minha ação também na oração, no silêncio que me leva à reflexão, na comunhão de energia e positividade com quem sofre e com quem precisa de sentir conforto. Perante este ambiente de agressão e violência, podemos e devemos unir os nossos pensamentos, a nossa energia, as nossas forças para que aqueles que efetivamente têm poder de decisão e ação possam sentir esta onda de amor, positividade, confiança. É o nosso contributo enquanto parte desta humanidade cristã. Estar em oração é estarmos em partilha de espírito. É procurarmos a força, a energia, a presença de um Deus que é Amor e que dá tanta liberdade ao Homem ao ponto de ele poder escolher livremente a morte. Estar em oração é estarmos em união para que dessa união  todo o universo sinta que só a paz vale a pena. E aqui, como tantas vezes se diz, a fé salva-nos na medida em que nos faz acreditar que há sempre futuro, há sempre esperança, há sempre um sempre que nos salva. Só nesta confiança – que se vai trabalhando dia a dia, que avança, mas tantas vezes também recua – seremos artesãos de paz. Seremos luz para os que estão ao nosso lado. Seremos paz nos nossos contextos sociais.

Como posso fazer mais? Como posso ser mais? Estar em oração não nos dá as respostas que o mundo quer ouvir. Mas estarmos em oração uns com os outros também nos ajuda a serenarmos os nossos corações, a encontrarmos força para seguirmos em tranquilidade, a darmos razões das nossas esperanças. O desespero não deve ser a marca de um cristão. Quem acredita na Vida, não pode morrer em vida, não pode deixar que o medo seja superior à força interior que Deus deposita em cada um de nós. Aqueles que sofrem precisam da nossa esperança, precisam do nosso testemunho, precisam de acreditar que há mais vida, mais amor, mais certeza. Que há mais. Sempre mais. E, acima de tudo e apesar de tudo, estarmos juntos em oração é agradecer sempre o dom da nossa vida, o estarmos vivos aqui e agora, o podermos cantar, sentir e vivermos juntos este amor de Deus.

Deixemos a ingratidão de lado. Eliminemos a indiferença dos nossos dias. Escolhamos ser sempre pessoas agradecidas, de coração aberto e olhar disponível para o bem comum e para a beleza. Que não seja necessário o impacto de uma guerra, a chegada de uma doença, a presença de uma morte ou a ausência de um presente para nos apercebermos que, afinal, somos felizes (já somos felizes!) com muito pouco. E que esse muito pouco é sempre tanto. E é tudo. Aproveitemos cada dia que nos é dado para vivermos verdadeiramente e genuinamente. Que nenhum dia nos encontre por viver. Que nenhum momento nos apanhe distraídos ou desinteressados. Não nos detenhamos nos obstáculos ou nos limites que nos impomos tantas vezes. Não nos deixemos vencer pelas desculpas banais da falta de tempo, de oportunidade, de horário. Ousemos viver. Por cada um de nós e pelos outros, particularmente por quem já não o pode fazer devido a tantas circunstâncias infelizes. Sejamos paz. Sejamos luz. Sejamos caminho.