Oitava do Natal

Segunda-feira – Natal do Senhor

Silêncio

Silêncio, onde nascem as nossas vidas.

Silêncio da lua.

Silêncio do Sol.

Silencio de Deus.

Silêncio do Amor, silêncio da Beleza.

Silêncio da Liberdade, da Serenidade.

Silêncio da Felicidade, da Simplicidade.

Silêncio do Tempo.

Deus continua hoje a falar-nos como falou no presépio. Continua a dizer aos Homens que só no silêncio O podemos encontrar e nele o sentido da nossa vida. Quem não faz silêncio, não encontra nada. Apenas encontra aquilo que o barulho da sociedade dá: o dinheiro, as correrias, o poder, as influências, as grandezas materiais que quanto mais crescem mais esvaziam o Homem.

Deus do silêncio.

Deus do Presépio, faz que o teu silêncio domine a nossa vida. Que eu possa sempre encontrar o teu silêncio. O silêncio da Eternidade. O imortal silêncio. O silêncio onde Tu me falas. O silêncio da noite calma, da noite em que Tu te fazes Homem e vens habitar entre nós. Do teu presépio chega-nos esta mensagem: o silêncio da simplicidade. Esta manjedoura é onde deve nascer todo o Homem. E encontrar-se no silêncio de Deus.

Jorge, Comunidade Estrada Clara

Terça-feira

Desejo de Natal

«No termo da estrada não está a estrada, mas a meta. No termo da escalada não está a escalada, mas o cume. No termo da noite não está a noite, mas a aurora. No termo do inverno não está o inverno, mas a primavera. No termo da morte não está a morte, mas a vida. No termo da humanidade não está o homem, mas o Homem-Deus. No termo do Advento não está o Advento, mas o Natal. A espera não deve desfazer-se numa inquietude infinita.»

Como em cada ano, o Natal regressa para indicar-nos que há uma meta no nosso caminho. Recorda-no-lo com estas simples palavras, dedicadas à «espiritualidade da estada», Joseph Folliet (1903-1972), um francês comprometido com o mundo do trabalho, com os direitos calcados, com a solidariedade, e que se tornou sacerdote aos 65 anos.

O frenesim contemporâneo criou uma espécie de insatisfação permanente: quanto mais se tem, mais se quer. É por isso que nunca se conhece um ponto de chegada e um propósito preciso e definitivo, mas vagabundeia-se sem meta.

O Natal é precisamente o sinal de um porto de chegada, é quase o indicador de uma meta que ainda não se alcançou mas que é certa, e, como diz Folliet, não tem no centro um homem, mas o Homem-Deus. E não só porque Cristo emerge, mas também porque todas as criaturas humanas são chamadas a ser filhas de Deus, de modo que «Deus seja tudo em todos» (I Coríntios 15,28).

Aliás, Paulo ousará imaginar um ponto final, no qual toda a criação será redimida, fruindo da mesma liberdade e da mesma alegria dos filhos de Deus. «No termo da morte não está a morte, mas a vida.» É este o desejo de Natal para cada pessoa, sobretudo para quem está desencorajado e desiludido.

Cardeal Gianfranco Ravasi in “Avvenire”

Quarta-feira

Em cada dia ternura, santidade e luz

Prólogo de S. João (1,1-18): Evangelho imenso, voo de águia que nos impede pensamentos rasteiros, que rasga uma brecha para o eterno: para o «no princípio» (no princípio era o Verbo) e para o «sempre». E assegura-nos que uma maré imensa bate nos promontórios da nossa existência (e o Verbo fez-se carne), que somos alcançados por uma corrente que nos alimenta, que nunca desaparecerá, que na nossa vida há uma força maior que nós. Que um fragmento de “Logos”, de Verbo, acampou em cada carne, há algo de Deus em cada ser humano.

Em cada vida há santidade e luz. E ninguém poderá voltar a dizer: aqui acaba a Terra, aqui começa o Céu, porque Terra e Céu se abraçaram. E ninguém poderá dizer: aqui acaba o ser humano, aqui começa Deus, porque Criador e criatura se abraçaram, e em Jesus recém-nascido homem e Deus são uma coisa só.

«Jesus é a narração da ternura do Pai» (“A alegria do Evangelho”, papa Francisco), por isso penso que a tradução, livre mas verdadeira, dos primeiros versículos do Evangelho de João pode soar aproximadamente assim: «No princípio era a ternura, e a ternura estava junto de Deus, e a ternura era Deus … e a ternura fez-se carne, e acampou no meio de nós». O grande milagre é que Deus já não plasma o ser humano com pó do solo, do exterior, como foi no princípio, mas faz-se Ele próprio, ternamente, pó plasmado, criança de Belém. A quantos o acolheram deu o poder… Notemos a palavra: o poder, não só a possibilidade ou a oportunidade de se tornarem filhos, mas um poder, uma energia, uma vitalidade, uma potência de humanidade capaz de ultrapassar os seus limites.

Na ternura era a vida, e a vida era a luz dos seres humanos. Uma coisa enorme: a própria vida é luz. A vida vista como uma grande parábola que narra Deus; um Evangelho que nos ensina a surpreender parábolas na vida. Dá-nos a consciência de que nós próprios somos parábolas, ícones de Deus. Que quem tem a sabedoria do viver, tem a sabedoria de Deus. Do Natal, de onde o infinitamente grande se faz infinitamente pequeno, os cristãos começam a contar os anos, a recontar a história. Este é o nó vivo do tempo, que marca um antes e um depois. Em torno a ele dançam os séculos e toda a minha vida.

Ermes Ronchi in “Avvenire”

Quinta-feira

Humildade

A mensagem dos Evangelhos é clara: o nascimento de Jesus é um acontecimento universal que diz respeito a todos os homens. Só a humildade é o caminho que nos conduz a Deus e, ao mesmo tempo, precisamente porque nos conduz a Ele, leva-nos também ao essencial da vida, ao seu verdadeiro significado, à razão mais fiável pela qual vale a pena viver a vida. Só a humildade nos abre à experiência da verdade, da alegria genuína, do conhecimento que conta. Sem humildade, estamos “desligados”, somos excluídos da compreensão de Deus, da compreensão de nós mesmos. É preciso ser humilde para nos compreendermos a nós mesmos, e mais ainda para compreender Deus. Os Magos podiam ter sido grandes de acordo com a lógica do mundo, mas tornam-se pequenos, humildes, e por esta mesma razão conseguem encontrar Jesus e reconhecê-lo. Aceitam a humildade de procurar, de se pôr a caminho, de perguntar, de arriscar…

Cada homem, no íntimo do seu coração, é chamado a procurar Deus: todos nós, temos aquela inquietação e o nosso trabalho consiste em não apagar aquela inquietação, mas deixá-la crescer, pois é a inquietação de procurar Deus; e, com a sua própria graça, pode encontrá-lo.

Queridos irmãos e irmãs, gostaria de convidar todos os homens e mulheres a ir à gruta de Belém para adorar o Filho de Deus feito homem. Cada um de nós se aproxime do presépio que tem em casa ou na igreja, ou noutro lugar, e procure fazer um ato de adoração, intimamente: “Creio que tu és Deus, que este menino é Deus. Por favor, concede-me a graça da humildade para poder compreender isto”.

Esta é a razão da nossa alegria: fomos amados, fomos procurados, o Senhor procura-nos para nos encontrar, para nos amar ainda mais. Este é o motivo da alegria: saber que fomos amados sem qualquer mérito, somos sempre precedidos por Deus no amor, um amor tão concreto que se tornou carne e veio habitar entre nós, naquele Menino que vemos no presépio. Este amor tem um nome e um rosto: Jesus é o nome e o rosto do amor que é o fundamento da nossa alegria.

Papa Francisco in “Audiência Geral (22.12.21)”

Sexta-feira

Somos herdeiros e futurantes

O Natal, mesmo que alguns já se não lembrem disso, é o aniversário natalício de Jesus Cristo. Sobre ele deixou escrito Ernst Bloch: Jesus agiu como um homem “pura e simplesmente bom, algo que ainda não tinha acontecido”. Anunciou um Deus próximo, de amor, um Deus amoroso e amável, e o seu Reino: o Reino de Deus, reino da liberdade, da justiça, do amor, da fraternidade, da paz, da igualdade de todos diante de Deus e diante dos homens, o Reino da realização plena de toda a esperança.

Também por isso, nos dias à volta do Natal, apesar de todos os horrores que nos abalam até à raiz de nós, sentimo-nos mais humanos, mais solidários, o amor é mais vasto, a esperança é maior. E lá está Bloch: “onde há esperança há religião”.

O Advento continua. Ainda é Advento, pois ainda não chegou plenamente o que esperamos. É preciso relembrar que, na bela expressão de Helena Buescu, “somos herdeiros e futurantes”. Advento é uma palavra que vem do latim e significa vinda, chegada: em sentido religioso, é a chegada, a vinda de Deus: Ele veio e mostrou-se em Jesus, Ele vem, Ele virá. Somos herdeiros, pois estamos enraizados no passado e vivemos no presente, sempre futurantes enquanto esperamos, alicerçados numa esperança sem limites, pela realização de todos os nossos sonhos, “sonhos acordados”, sublinhava Bloch.

Padre Anselmo Borges in “dn.pt (17.12.2022)”

Sábado

Esperamos, mas nunca sozinhos

O tempo corre inexoravelmente, outro ano passou, e eis que um novo começa, ao qual quase sempre ligamos expetativas e esperanças; mas sobretudo voltamos a dirigir ao ano que começa aquilo que devíamos fazer e que ainda não fizemos. Também estes propósitos dependem das etapas da vida que vivemos, porque com o passar dos anos impõe-se cada vez mais diante de nós o princípio da realidade.

É assim que o passar do tempo nos oprime, «deixámos de ter tempo», repetimos muitas vezes, também por causa da ditadura dos tempos da técnica e da informática, e acabamos por deixar de viver no tempo, mas na aceleração do tempo. Habitar o tempo significa, ao contrário, habitar aquilo que vivemos, reencontrar o sentido da duração, dar-se tempo para olhar para trás, para a frente, e portanto para considerar com sabedoria o presente, assumindo a realidade. Numa palavra, somos chamados a fazer do tempo o lugar, o espaço da vida. É então que, finalmente, o tempo se manifesta como o sentido da vida.

Trata-se, portanto, de combater a alienação ao ídolo do tempo que nos domina: não só na forma do “não ter tempo”, mas – como se diz com superficialidade – na convicção de que «tempo é dinheiro», gerador simbólico de todos os valores, e que por isso deixou de ser meio, mas finalidade que determina as necessidades e a produção para as satisfazer.

A sabedoria afirma: «Aprende a contar os teus dias, e o teu coração discernirá a sabedoria». Sim, é-nos pedido que contemos os dias, procurando responder à primeira pergunta presente no grande códice da Bíblia: «Ó homem, onde estás?». Onde estás no teu caminho de humanização, onde estás na relação com os outros, onde te colocas na sociedade humana? Só o facto de se estar vivo é uma bênção, é por isso que estamos agradecidos ao mundo, porque a coisa mais importante na vida é a própria vida. O fim do ano é, por isso, a hora para dizer: ao passado, obrigado; ao futuro, sim. E que a troca de votos não seja um gesto formal e supersticioso, mas que nos conduza a assumir uma responsabilidade.

Enzo Bianchi in “Avvenire”