Ser e dar afeto(s)

O neuropsicólogo espanhol Álvaro Bilbao, a propósito da reedição em Portugal do seu livro “O Cérebro da Criança explicado aos Pais” fala, nesta entrevista ao site sapo.pt de temas fulcrais tais como o amor, os limites, a atenção, os afetos, as escolhas, os abraços, o futuro. Das crianças e do mundo, isto é, de todos nós, pais, educadores, família, professores, amigos. Todos somos educadores, todos somos responsáveis uns pelos outros, grandes e pequenos. Na introdução do seu livro, o autor defende que “educar uma criança é uma grande responsabilidade e, provavelmente, o ato mais importante da vida de muitas pessoas”. Todos somos responsáveis uns pelos outros, pelo bem-estar uns dos outros, pelo crescimento não só físico, mas também espiritual das nossas crianças tendo em vista o seu desenvolvimento integral. Lutemos contra a indiferença que tantas vezes teima em dominar o nosso dia-a-dia e nos impede de fazermos do nosso presente um lugar de afetos. Quando deixamos de cuidar do(s) outro(s), estamos a condicionar o futuro de quem cresce connosco. Mas quando assumimos esse cuidado, somos todos responsáveis pela(s) vida(s) que crescem connosco.

Entrevista a Álvaro Bilbao

  • A pandemia trouxe ao contexto familiar, não excluindo as crianças, ansiedade e medo. Essas manifestações são transitórias ou deixarão marcas no futuro?

A ansiedade e o receio que terão experimentado algumas crianças, cujos pais viveram especialmente o medo e com precauções excessivas, poderão trazer problemas psicológicos no futuro, tais como uma maior vulnerabilidade à ansiedade. Um dos fatores que melhor prevê se uma pessoa em idade adulta voltará a sofrer de ansiedade, é se viveu anteriormente outros episódios de ansiedade. Esta é uma porta que, uma vez aberta, não volta a fechar-se. No entanto, estou bastante otimista, as crianças são resistentes e resilientes. Um bom trabalho dos pais, o regresso à normalidade, antevê que as crianças terão uma vida adulta tranquila. É verdade que nalguns casos estarão mais vulneráveis ao medo. Daí, penso que poderão aumentar ligeiramente os casos de transtornos que se manifestam entre os 12 e os 14 anos de idade, associados ao controlo e ao medo, como as perturbações obsessivo-compulsiva, as fobias e anorexia. Mas, julgo, serão poucos casos e que, na sua grande maioria estarão controlados.

  • Os confinamentos também trouxeram aspetos positivos na relação entre pais e filhos?

Creio que sim. Muitos pais contaram-me que o confinamento foi uma época dura mas bonita, porque passaram mais tempo com os seus filhos. Tomavam o pequeno-almoço juntos, cozinhavam juntos, faziam os trabalhos de casa com os filhos, divertiam-se com jogos de tabuleiro. Claro que não foi assim para todas as famílias. Sabemos que há casos terríveis, com maus-tratos sobre mulheres e crianças. Podemos imaginar o dia a dia de uma criança, ‘presa’ em casa, que sofre abusos sexuais de um progenitor.

  • O Álvaro Bilbao é pai. Que recordações tira dos confinamentos em família com os seus filhos?

Estou no grupo das pessoas para quem os confinamentos e a pandemia foram uma oportunidade de aproximação familiar. Antes, passava muitas horas no hospital, em consultas, assim como na escrita dos meus livros. O confinamento permitiu-me estar na companhia dos meus filhos, sem deixar de acompanhar os meus pacientes. Reduzi as horas de trabalho, fizemos jogos e vídeos em família e muitas conversas online com os avós.

  • Lemos no seu livro a frase: “a infância é o jardim em que vamos brincar quando formos adultos”. Existem manifestações do nosso cérebro infantil no nosso cérebro adulto?

Não consegue imaginar todas as coisas que fazemos em adultos que ficaram gravadas no nosso cérebro infantil. Por exemplo, nas consultas, acompanho adultos que apresentam preocupações associadas à falta de poder aquisitivo, como o medo de ficarem na pobreza, e que estão ligadas a questões das suas infâncias, por terem vivido em famílias com dificuldades económicas. O medo de subir num elevador pode vir de algo que vimos acontecer aos nossos pais nesse contexto. Os filhos de pacientes que, por exemplo, têm esquizofrenia, crescem com medo de padecer de doença mental. Há conflitos que surgem entre o ‘papá’ e a ‘mamã’ por quererem fazer as coisas tal como eram feitas nas casas da sua infância. Também encontramos aspetos positivos. Por exemplo se os nossos pais gostavam de fazer exercício, ou passar o fim de semana em família, também poderemos gostar.

  • Escreve que o nosso cérebro reúne até aos seis anos um potencial que nunca mais voltará a ter. Que potencial é este?

Durante os primeiros seis anos de vida, o nosso cérebro desenvolve infindáveis conexões que, podemos dizer, são como os pilares de uma casa. São fortes, mas também devemos permitir-lhes alguma flexibilidade. Mais tarde, criará no adulto umas fundações fortes. O cérebro das crianças, nestes primeiros anos, sedimenta estes pilares que lhe trarão maior ou menor confiança na vida futura, desenvolvimento da linguagem e bases para resolver problemas e tomar decisões. Há que dar à criança muito afeto – todo, será sempre pouco -, mas também há que começar a construir com a criança limites e normas. Depois do afeto e dos limites, o terceiro aspeto mais importante é dar atenção, tempo e responder às necessidades da criança de uma forma consistente. Se a criança tem fome, damos-lhe de comer; se tem sono pomo-la a dormir; se está preocupada, há que escutá-la; se tem medo, vamos protegê-la. No fundo, sentir-se segura a todo o momento e saber educar sem gritos ou ameaças.

  • Escutamos pouco os nossos filhos?

Como pais, muitas vezes não escutamos os nossos filhos. As crianças vão crescer com a ideia de que aquilo que dizem não é importante e, consequentemente, não se sentem importantes. A conversação é muito importante para as crianças entenderem as suas emoções e sentimentos, mas também para desenvolverem a memória, a concentração, a atenção e o vocabulário.

  • No seu livro utiliza a metáfora de que temos três cérebros em um para nos explicar as diferentes etapas de desenvolvimento e estruturas deste órgão. Que ‘cérebros’ são estes e como podem os pais com eles comunicar?

O cérebro humano desenvolveu-se ao longo de milhões de anos. Os diferentes passos dessa evolução ficaram refletidos na configuração do cérebro, com estruturas mais antigas e outras mais modernas.  Na metáfora que utilizo, o primeiro cérebro é o primitivo, o que herdamos dos nossos antepassados mais remotos, as criaturas que saíram dos oceanos e começaram a colonizar a Terra. Este cérebro primitivo satisfaz cinco necessidade básicas: o sono, a alimentação, a temperatura corporal, a proteção contra os perigos e, finalmente, a reprodução. Nas crianças mais pequenas esta última necessidade não está presente, embora haja manifestações como a sensação de enamoramento das crianças com a ‘mamã’. Mas não tem a ver com órgãos reprodutores, antes a nível emocional, pois é a mãe a pessoa que vemos como auxílio. As restantes quatro necessidades são importantes.  A criança tem de sentir que não terá fome ou frio, que pode descansar sempre que necessitar e que os pais a protegem de perigos como, por exemplo, de um cão que o quer morder; de um irmão que lhe quer pegar. Comunicamos com este cérebro através de ações, quando dizemos à criança que tem de ir para a cama dormir.

  • Qual é o segundo cérebro desta sua metáfora?

O emocional. A sua função básica é recordar aquelas coisas que nos fazem sentir bem e provir a nossa sobrevivência, ou o inverso, as coisas que nos fazem sentir mal, pondo em perigo essa sobrevivência. Comunicamos com este cérebro através da empatia, dizendo à criança palavras e frases que a façam sentir-se compreendida. No fundo, sentir que entendemos o que lhe está a acontecer. Em primeiro lugar, a criança sentirá que as suas emoções existem; em segundo, que são adequadas e, em terceiro, compreender-se-á a si mesma e que é alguém valioso. Desta forma, vai saber quais os amigos com quem se sente bem, as coisas de que mais gosta ou menos gosta. Muitos adultos não se compreendem a sim mesmos porque não tiveram, durante a sua infância, este aspeto emocional. Em vez de gritar com uma criança, há que perceber porque está zangada. Sempre que pomos palavras nas emoções, estamos a comunicar com o cérebro emocional. Por último, o terceiro cérebro, o racional ou superior, é aquele que contém a lógica, a memória, a razão e a consciência de nós mesmos. Todas essas funções racionais, estão acessíveis para comunicação através da palavra. Mas, há que entender que, quase sempre, quando uma criança expressa uma ideia, corre atrás de necessidades básicas. Se quer subir a uma árvore e pede uma cadeira, está a expressar a sua necessidade de ser mais forte e de que o pai ou a mãe a vejam.

  • Refere que educar é simplesmente apoiar a criança no desenvolvimento de seu cérebro. A fórmula é assim tão simples ou há muita complexidade escondida nessa ação?

Enquanto pais queremos ajudar os nossos filhos a que cresçam felizes, que tenham sucesso na vida, que se relacionem com o próximo. O segredo para tudo isto está em ajudá-los a ter um bom cérebro, ou seja, que os três cérebros que referi, o primitivo, o emocional e o racional cooperem. Isto é complexo, até para quem há muito pratica a neuropsicologia como eu. Todos os dias aprendo com os pais. No livro, procuro traduzir todos os conhecimentos de neurociência, de psicologia infantil de uma forma clara e simples.

  • Os seres humanos sempre usaram ferramentas. No seu livro apresenta-nos ferramentas úteis na educação da criança. Muitos pais quererão saber quais são essas ferramentas. Pode dar-nos dois ou três exemplos?

Sim. Uma das ferramentas é a empatia, ou seja, a ligação com a criança e o entendimento. É importante, pois muitos dos conflitos emocionais que há na família resolvem-se com a prática da empatia. Os pais que dominam a empatia e compreendem como esta é importante, estão a educar um futuro adulto que se ligará aos seus filhos de uma forma magnífica. Também é importante saber estabelecer limites, pois as crianças precisam deles. Sou adepto da educação pela positiva, mas também sou um defensor dos limites, mas sem extremismos. Há pessoas que são muito extremistas e que não gostam que se destaque o afeto, porque defendem uma educação rígida; outras que consideram que só deve haver amor. Algo que está provado cientificamente é que o cérebro precisa de muito amor e limites. As crianças devem ter o reconhecimento dos pais, aquilo a que chamo reforços. Não se pode confundir reforço com prémio, pois este é negativo. Por sua vez, com o reforço, em momentos-chave, a criança ganhará confiança. Por exemplo, no meu trabalho satisfaz-me quando um paciente me agradece. É reforço, não um prémio. Por último, temos tudo o que se relaciona com as alternativas aos castigos. Os castigos não são positivos no desenvolvimento da criança e há ferramentas alternativas, como a reparação de ações que magoaram outras pessoas ou danificaram objetos.

  • Atualmente, vemos muitas crianças diagnosticadas com défice de atenção. O Álvaro Bilbao é crítico em relação à prevalência deste diagnóstico. Porquê?

Porque temos de ser mais pacientes, entendermos melhor as necessidades da criança. Temos de entender que as crianças precisam de brincar, de se mexer. O défice de atenção só se transforma num problema se não permitir à criança ter uma vida normal. Se tivermos pais e professores pouco pacientes, a criança não pode fazer uma vida normal e terá transtorno. Se formos mais pacientes, se dermos à criança mais tempo para se comportar bem, o índice de diagnósticos de défice de atenção será menor. Os pais têm de saber como propiciar tranquilidade às crianças seja a impor-lhes limites, como já referi, e a saber acalmá-los. Nesse sentido, é também importante que as crianças não usem tantos ecrãs, que lhes subtraem a atenção e aumentam a sua impulsividade.

  • As crianças precisam de mais atenção e menos medicamentos psicotrópicos?

Sem qualquer dúvida. Muitos estudos dizem-nos, por exemplo, que o índice de melhoria [índice de eficácia] da depressão com medicação do tipo de inibidores seletivos da recaptação da serotonina, como o Prozac, é de 75%. Também sabemos que uma intervenção psicológica adequada reduz igualmente a depressão em 75%. Porque não praticamos mais a psicologia e menos a medicação? Porque esta é mais barata, mais cómoda e mais rápida para os sistemas de saúde, mas é menos positiva a longo prazo. Os pacientes que fazem psicoterapia correm menos risco de depressões a longo prazo. Fenómeno semelhante passa-se com as crianças. As que têm uma boa intervenção psicológica, por exemplo no défice de atenção e na ansiedade, correm um menor risco de terem problemas no futuro.

O próximo ano

Confio-Te, Senhor, o próximo ano.
Dá-nos sabedoria para apascentar os dias, paciência suficiente para suportar o que deve ser suportado, e um coração puro para acreditar.
Concede que saibamos colocar-nos em humilde relação com as grandes coisas de que a vida é feita.
Que nos sintamos como aprendizes e discípulos da revelação do teu amor que acontece no tempo.
Não nos deixes acomodar: que o conforto da estalagem nunca nos seduza mais do que a beleza da viagem;
que o conhecimento acumulado de ontem não nos dissuada de sairmos para contemplar o novo orvalho que brilha, hoje, nos prados;
que o nosso olhar não esteja fixo no dedo que aponta, mas naquela flor silenciosa que é a lua.
Em cada estação ensina-nos a tomar, a decifrar a noite inteira, não a escuridão mas uma estrela.
Ensina-nos a considerar que não é o mal, mas um traço de bondade, que melhor reflete um coração.
Ensina-nos a prestar atenção ao rebanho de nuvens para compreender que sempre, acima de nós que pisamos o chão, os céus ficam extasiados.
Ensina-nos a não querer ser senhores de nada nem de ninguém, mas sim peregrinos conscientes de que a história a que atracam é uma terra sagrada.
Para quem o quer ouvir, o vento do teu Espírito passa como um assobio primaveril anunciando o degelo.
A nossa existência nunca é tão bela como quando nos olhas, Senhor!

José Tolentino Mendonça

Deus tem um sonho

Quando ontem se anunciou a morte de Desmond Tutu, a nossa comunidade sentiu humanamente essa partida. Há muito que conhecemos este querido arcebispo. E podemos dizer que conhecemos porque partilhamos as mesmas palavras, as mesmas convicções, os mesmos sonhos. E o mesmo sentido de humor! Em 2005, num dos nossos retiros anuais na Casa da Torre (Soutelo) tivemos o privilégio de refletir acerca do seu extraordinário livro “Deus tem um sonho – uma visão de esperança para o nosso tempo”. Durante esse fim de semana, lemos, individualmente e em grupo, passagens deste mesmo livro e partilhamos ideias, conceitos, projetos, sonhos! Saímos desse retiro com a certeza de que cada um de nós era um elemento fundamental neste sonho de Deus para o mundo e que Deus também tinha um sonho para cada um de nós. Esta obra é um pequeno resumo dos vários textos que Desmond Tutu escreveu e com os quais pretende transmitir uma mensagem de esperança, de confiança, de fé e de alegria, mensagem esta pautada pelo seu conhecido humor. Desmond Tutu parte da sua experiência de provação para nos mostrar que todo esse sofrimento pode ser transformado e redimido e dar lugar à esperança e alegria. Este livro está há muito tempo indisponível nas nossas livrarias nacionais, o que é de lamentar, uma vez que é uma obra sempre atual, profética e deveria ser de leitura obrigatória. Pode ser que, com a sua morte, o voltem a publicar. Desmond Tuto está agora a viver o sonho de Deus numa outra dimensão, eterna e gloriosa, depois de ter vivido o sonho de Deus neste mundo terreno e depois de nos ter mostrado que é possível fazermos parte deste sonho. “Como partilhamos o amor de Deus com os nossos irmãos e irmãs, os outros filhos de Deus, não há tirano que nos possa resistir, nenhuma opressão que não possa ser saciada, nenhuma ferida que não possa ser curada, nenhum ódio que não possa ser convertido em amor, nenhum sonho que não se possa realizar.” (Desmond Tutu)

Eis um pequeno excerto do livro “Deus tem um sonho – Uma visão de esperança para o nosso mundo.

Segundo a fé cristã, quando caímos nas garras do diabo e estávamos escravizados pelo pecado, Deus escolheu Maria, uma jovem de uma pequena aldeia, para ser a mãe do Seu filho. Ele enviou um arcanjo para a visitar. Na minha visão isto aconteceu assim:

Truz, truz.

“Entre.”

“…Maria?”

“Sim.”

“Maria, Deus gostaria que tu fosses a mãe do Seu filho.”

“O quê? Eu? Nesta aldeia nem sequer nos podemos coçar sem que toda agente saiba! Tu queres que eu seja uma mãe solteira? Eu sou uma rapariga decente, sabias? Lamento, tenta na porta ao lado.”

Se ela tivesse dito isto, estaríamos numa situação muito complicada. Misericordiosa e maravilhosamente, Maria disse: “Eis a serva do Senhor; que se faça tudo segundo a Sua Palavra.”. E o universo soltou um suspiro cósmico de alívio porque ela tornou possível que o nosso Salvador nascesse.

Maria era uma pobre adolescente na Galileia e lembra-nos que a transfiguração do nosso mundo provém mesmo dos mais improváveis lugares e pessoas. Tu és o indispensável agente da mudança. Não te deves intimidar pela magnitude da tarefa que tens à tua frente. A tua contribuição pode inspirar os outros, encorajar outros que são tímidos a erguer-se no meio do tumulto de distorção, propaganda e engano. A erguer-se pelos direitos humanos onde estes estão a ser violados impunemente. A erguer-se pela justiça, liberdade e amor, onde estes são pisados pela injustiça, opressão, ódio e crueldade; erguer-se pela dignidade humana e pela decência em alturas em que estes nos fazem desesperadamente falta.

Deus chama-nos para sermos seus parceiros, trabalhando para um novo tipo de sociedade em que as pessoas contem, onde as pessoas contem mais do que as coisas, mais do que os bens; onde a vida humana é, não apenas respeitada, mas efetivamente reverenciada; onde as pessoas estejam em segurança e não sofram o medo da fome, a ignorância, a doença; onde haja mais suavidade, mais atenção, mais partilha, mais compaixão, mais riso; onde haja paz e não guerra. A nossa parceria com Deus provém do facto de termos sido feitos à imagem de Deus. Cada ser humano é criado a partir dessa mesma imagem divina. E isto é incrível, uma espantosa asserção sobre os seres humanos.

Do nosso ponto de vista cristão, o nosso Deus é aquele que assumiu a nossa natureza humana. O nosso Deus disse: “Quando fizerdes isto a um dos mais pequenos, meus irmãos, estareis a fazê-lo a mim.” Não temos de andar por aí à procura de Deus. Não temos de perguntar, “Onde está Deus?” Cada um à tua volta – esse é Deus.

Deus do presépio

Silêncio, onde nascem as nossas vidas.

Silêncio da lua.

Silêncio do Sol.

Silencio de Deus.

Silêncio do Amor, silêncio da Beleza.

Silêncio da Liberdade, da Serenidade.

Silêncio da Felicidade, da Simplicidade.

Silêncio do Tempo.

Deus continua hoje a falar-nos como falou no presépio. Continua a dizer aos Homens que só no silêncio O podemos encontrar e nele o sentido da nossa vida. Quem não faz silêncio, não encontra nada. Apenas encontra aquilo que o barulho da sociedade dá: o dinheiro, as correrias, o poder, as influências, as grandezas materiais que quanto mais crescem mais esvaziam o Homem.

Deus do silêncio.

Deus do Presépio, faz que o teu silêncio domine a nossa vida. Que eu possa sempre encontrar o teu silêncio. O silêncio da Eternidade. O imortal silêncio. O silêncio onde Tu me falas. O silêncio da noite calma, da noite em que Tu te fazes Homem e vens habitar entre nós. Do teu presépio chega-nos esta mensagem: o silêncio da simplicidade. Esta manjedoura é onde deve nascer todo o Homem. E encontrar-se no silêncio de Deus.

Lovely Christmas

Texto de Frederico Lourenço, publicado a 18 de dezembro de 2021 no seu Facebook

Natal 2021

Chega aquela época do ano em que, de novo, dou por mim a pensar no romance “Brideshead Revisited” de Evelyn Waugh e na conversa entre Charles e Sebastian sobre a fé.

Charles afirma-se  não-crente e exprime a sua estranheza perante o facto de o amigo acreditar na lenda do Natal (com Reis Magos e burrinho junto da manjedoura). Diz Charles: “but my dear Sebastian, you can’t seriously believe it all… I mean about Christmas and the star and the three kings and the ox and the ass”. Ao que Sebastian responde: “oh yes, I believe that. It’s a lovely idea”.

Hoje terminámos mais um semestre de aulas na Universidade de Coimbra; e aproximamo-nos do fim de mais um ano de pandemia. Dou-me conta de que a “lovely idea” do Natal é mais precisa do que nunca: porque é capaz de consolar pessoas religiosas e pessoas sem nenhuma religião.

Na verdade, não preciso de acreditar que o menino deitado na manjedoura é filho de Deus para reconhecer a espantosa beleza da IDEIA de que o filho de Deus pudesse estar deitado num estábulo de animais, calmamente observado por um burro e por um boi.

No romance de Evelyn Waugh, Charles indigna-se (carinhosamente, claro) com Sebastian, retorquindo que não se pode justificar a fé religiosa com base na “beleza” da ideia do Natal. “But you can’t believe things because they’re a lovely idea”, remata.

Sebastian, impávido, responde: “but I do. That’s how I believe”.

A lenda do Natal na mitologia cristã tem o seu reverso, que – longe de ser “lovely” – é tragicamente ilustrativo da condição humana. Se o facto de o filho de Deus não ter vindo ao mundo num esplendoroso palácio da terra (mas sim na palha de um estábulo) sugere a mais requintada das verdades poéticas, já o massacre dos inocentes ordenado por Herodes faz soar uma nota amargamente realista, visto que genocídios e massacres pautam desde sempre a história da humanidade.

Deus decidiu vir ao mundo? Então o mundo é isto: é um lugar assolado por guerras e pandemias, onde um bebé recém nascido não só não tem abrigo condigno como está imediatamente na iminência de ser morto à nascença. Mais tarde, nesse mesmo menino já crescido, cuspir-lhe-ão em cima. Troçarão dele, arrancar-lhe-ão a roupa, fustigá-lo-ão de forma cruel, crucificá-lo-ão. Este “Deus” não veio ao mundo para ser recebido como Deus, mas como um marginal, um criminoso, um “pobre de Cristo”.

Sinceramente, continuo a não saber se acredito em Deus – embora me pareça cada vez mais que a mensagem de Jesus (tenha ele sido quem possa ter sido) é o maior presente que a humanidade até hoje recebeu.

E se há “lovely idea” alguma vez imaginada por alguém – esqueçamos a maldade inextirpável do ser humano, o cadastro horrendo da história da humanidade e este mundo (criado por Deus?) de pestes negras, de gripes espanholas e de coronavírus – essa ideia linda tem de ser o Natal.

No fundo, Sebastian tinha razão. A capacidade humana para ver e criar beleza é a grande redenção. E nesta ideia, sim, é possível acreditar.

Ensaísta, tradutor, ficcionista e poeta, Frederico Lourenço nasceu em Lisboa, em 1963, e é atualmente professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Foi docente, entre 1989 e 2009, da Universidade de Lisboa, onde se licenciou em Línguas e Literaturas Clássicas (1988) e se doutorou em Literatura Grega (1999) com uma tese sobre Eurípides. Além da Ilíada, traduziu também a Odisseia de Homero, tragédias de Sófocles e de Eurípides, e peças de Goethe, Schiller e Arthur Schnitzler. Em 2016 iniciou na Quetzal a publicação dos seis volumes da sua tradução da Bíblia — que lhe valeu o Prémio Pessoa —, em 2019 publicou uma Nova Gramática do Latim e, em 2020, Poesia Grega de Hesíodo a Teócrito — edição bilingue em grego e português.

O Cristianismo precisa da imaginação

Artigo de José Tolentino Mendonça in E, a Revista do Expresso, de 13.11.2021

Uma das canções icónicas do século XX é ‘Imagine’, de John Lennon. Foi primeiramente publicada num álbum de 1971, já depois do fim da carreira dos Beatles. Creio que todos nos recordamos dos seus versos iniciais, escritos por Yoko Ono: “Imagine there’s no heaven/ It’s easy if you try”. Ora, refletindo sobre o número crescente daqueles que na Europa se declaram sem religião, o teólogo inglês Timothy Radcliffe escolhe partir dessa canção. E diz: sim, há que reconhecer que é mais fácil do que supúnhamos imaginar a superação ou a substituição práticas da gramática do religioso, considerado hoje antiquado como uma máquina de escrever. Ele narra, por exemplo, centenas de conversas com avós e pais embaraçados, que se culpabilizam por não conseguirem transmitir o sentimento religioso às novas gerações, para quem essa linguagem aparece frequentemente desativada, desprovida de significado. É como se o cristianismo pertencesse a outro mundo e a sua expressão acontecesse numa estranha língua desconhecida. E não nasceu ontem este fosso, que a modernidade tem vindo a acelerar, e que se esconde debaixo desse heterogéneo e complexo chapéu chamado “secularização”.

Radcliffe é um dos mais estimulantes pensadores cristãos da atualidade, professor em Oxford, já mestre geral da Ordem Dominicana, e acaba de ver traduzido em Portugal um texto seu imprescindível: “A Arte de Viver Em Deus. A Imaginação Cristã Para Elevar o Real” (Edições Paulinas, 2021). O título em português soa um bocado explicativo. O inglês vai direto ao assunto: “Alive in God. A Christian Imagination”. E é esse o estilo convincente de Radcliffe.

Uma das coisas em que insiste é que hoje muitos se distanciam do cristianismo, porque simplesmente o consideram de um aborrecimento total, divorciado da existência que conhecem, distante das questões que os habitam, com pouco a dizer sobre as lutas, esperanças e alegrias onde, em concreto, se movem. É como se o cristianismo contemporâneo falhasse aí, na capacidade de tocar a realidade das pessoas. Esta crise é, na verdade, uma crise da imaginação, porque é esta que nos permite entrar no mundo de alguém e compreendê-lo a partir de dentro. Por isso, o autor escreve que o maior obstáculo ao cristianismo não é o ateísmo secular, mas a pobreza simbólica, a perda de profundidade do olhar, o achatamento da realidade produzido pela banalidade que, entretanto, se globalizou. Mas há também um mea culpa que o cristianismo precisa de assumir, pois uma das suas tentações correntes é o escapismo providencialista, escusando-se ao confronto com a complexidade, o risco e a crueza da experiência que viver representa. Em vez dessa fuga, sugere Radcliffe, necessitamos de testemunhas “que nos abram, com honestidade, à complexidade da experiência humana, do enamoramento ou dos dilemas morais. Então, com olhos novos, perceberemos que é precisamente aí que podemos procurar Deus”.

A transmissão do religioso precisa de superar este défice de imaginação. Um caminho possível é acolher o contributo desses mestres da imaginação, verdadeiros especialistas em Humanidade, que são os escritores, os artistas e os criadores. E dá o exemplo de Charles Dickens: “Dickens tem uma capacidade extraordinária de ler o coração humano. Compreende como é fácil errar e ver-se metido em sarilhos. Quando leio os seus romances, sinto-me a crescer humanamente, como alguém que entende o coração e a mente do homem”. E acrescenta: “Se me torno verdadeiramente humano, então estou mais apto a encontrar Cristo, que é o mais humano de todos.”

Caminho sinodal

A propósito do Sínodo que se inicia e que pretende ser uma oportunidade de promover a comunhão, a participação e a missão em Igreja em tempos de necessárias mudanças e novas oportunidades para construir, acima de tudo, a comunidade humana e cristã, sugerimos este artigo do cardeal José Tolentino Mendonça.

Artigo de José Tolentino Mendonça in E, a Revista do Expresso, de 16.10.2021

Está em curso uma experiência nova no catolicismo: neste 17 de outubro, em todas as dioceses do mundo, em simultâneo, inaugura-se um caminho sinodal. Na verdade, é o início de um processo em três etapas, que se desenvolverão entre outubro de 2021 e outubro de 2023: a primeira será diocesana, a segunda organizar-se-á por continentes e a culminar ocorrerá aquela do sínodo da Igreja universal. O tema é o mesmo nas três etapas: “Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”.

A palavra grega synodos é composta por dois termos: a preposição syn, que significa com, conjuntamente; e o substantivo hodos, que se traduz como caminho. O sínodo seria assim um caminho percorrido em conjunto. Ora, se isso é alguma coisa inerente à natureza da própria comunidade eclesial (por exemplo, a voz autorizada de São João Crisóstomo dizia que Igreja e sínodo são expressões equivalentes), a verdade é que a dinâmica sinodal pretende ser também um passo em frente, abrindo um amplo e inovador processo de escuta, participação e discernimento sobre o presente e o futuro.

A instituição contemporânea do sínodo deve a sua origem à redescoberta da dimensão colegial operada pelo Concílio Vaticano II. De facto, foi na reta final do Concílio que o Papa Paulo VI criou o “sínodo dos bispos”, cuja primeira assembleia decorreu em 1967. Se daí em diante todos os papas valorizaram o recurso ao sínodo (João Paulo II convocou dezena e meia, Bento XVI cinco), Francisco tem-se mostrado particularmente envolvido na intensificação da sinodalidade. Para compreender esta especial aposta do Pontífice, a sua biografia pode ser útil, pois os episcopados da América Latina destacam-se precisamente pelo ritmo sinodal que adotaram e que as importantes assembleias-gerais de Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007) documentam com vivacidade. Por exemplo, o então arcebispo de Buenos Aires, de nome Jorge Bergoglio, presidiu à comissão de redação do documento final de Aparecida, e isso realçou a sua visibilidade no contexto da Igreja.

Desde o início do seu pontificado, o Papa tem sublinhado com profecia e realismo dois elementos: o primeiro é que o caminho sinodal deve plasmar melhor a forma de ser Igreja neste terceiro milénio; o segundo é que — e são suas as palavras — “caminhar conjuntamente (leigos, pastores, bispo de Roma) é um conceito simples de verbalizar mas não tão fácil de colocar em prática”. Os obstáculos foram resumidos recentemente por Francisco como um aviso à navegação: existe o risco do formalismo (patente na tentação de construir um evento de fachada em vez de inaugurar instrumentos e estruturas de diálogo que relancem a participação dos leigos); o risco do intelectualismo (que reduziria o sínodo a uma espécie de grupo de trabalho especializado, descolado da realidade e das preocupações concretas); e o risco do imobilismo (que repete de forma estafada, como desculpa, o “sempre foi assim”).

Mas, a par dos obstáculos, há também reais oportunidades que se abrem. O caminho sinodal pode tornar a Igreja uma comunidade de escuta e de vizinhança, capaz de espelhar a participação, a inclusão e o cuidado, deixando-se converter ela própria pelo estilo de Deus. Isto tem mais hipóteses de acontecer, acredita Francisco, se a Igreja não for ocasionalmente sinodal, mas aceitar caminhar para uma Igreja estruturalmente sinodal. E uma citação que este mês de outubro tem reaparecido é a de Yves Congar, um dos teólogos-chave do Concílio Vaticano II: “Não precisamos de uma outra Igreja, mas de uma Igreja diferente.”

Mensagem do Papa Francisco para a XXXVI Jornada Mundial da Juventude (21.11.2021)

“Levanta-te! Eu te constituo testemunha do que viste!” (cf. At 26, 16)

Queridos jovens,

Gostaria de tomar-vos pela mão, mais uma vez, para continuarmos juntos na peregrinação espiritual que nos conduz rumo à Jornada Mundial da Juventude de Lisboa em 2023.

No ano passado, pouco antes de se propagar a pandemia, assinava a mensagem cujo tema era «Jovem, Eu te digo, levanta-te!» (cf. Lc 7, 14). Na sua providência, o Senhor já queria preparar-nos para o desafio duríssimo que estávamos para viver.

O mundo inteiro teve de defrontar-se com o sofrimento causado pela perda de tantos entes queridos e pelo isolamento social. A emergência sanitária impediu também a vós jovens – por natureza projetados para o exterior – de sair para irdes à escola, à universidade, ao trabalho, para vos encontrardes…. Vistes-vos em situações difíceis, que não estáveis acostumados a gerir. Aqueles que estavam menos preparados e desprovidos de apoio sentiram-se desorientados. Em muitos casos, surgiram problemas familiares, bem como desemprego, depressão, solidão e vícios; para não falar do stresse acumulado, das tensões e explosões de raiva, do aumento da violência.

Mas, graças a Deus, este não é o único lado da moeda. Se a provação pôs a descoberto as nossas fragilidades, fez emergir também as nossas virtudes, nomeadamente a predisposição à solidariedade. Em toda a parte, vimos tantas pessoas, incluindo muitos jovens, a lutar pela vida, semear esperança, defender a liberdade e a justiça, ser artífices de paz e construtores de pontes.

Quando cai um jovem, de certo modo cai a humanidade. Mas também é verdade que, quando um jovem se levanta, é como se o mundo inteiro se levantasse. Queridos jovens, que grande potencialidade tendes nas vossas mãos! Que força trazeis nos vossos corações!

Por isso, hoje, Deus diz a cada um de vós mais uma vez: «Levanta-te!» Espero de todo o coração que esta mensagem ajude a preparar-nos para tempos novos, para uma página nova na história da humanidade. Mas não há possibilidades de recomeçar sem vós, queridos jovens. Para levantar-se, o mundo precisa da vossa força, do vosso entusiasmo, da vossa paixão. É neste sentido que gostaria de meditar, juntamente convosco, sobre o trecho dos Atos dos Apóstolos onde Jesus diz a Paulo: «Levanta-te! Constituo-te testemunha do que viste» (cf. At 26, 16).

Paulo, testemunha diante do rei

O versículo que serve de inspiração ao tema do Dia Mundial da Juventude de 2021 encontra-se no testemunho de Paulo diante do rei Agripa, no tempo em que estava detido na prisão. Outrora inimigo e perseguidor dos cristãos, agora é julgado precisamente pela sua fé em Cristo. À distância de vinte e cinco anos dos factos, o Apóstolo conta a sua história e o episódio fundamental do seu encontro com Cristo.

Paulo confessa que, no passado, perseguira os cristãos, até que um dia, quando ia a Damasco para prender alguns deles, uma luz «mais brilhante do que o Sol» o envolveu, a ele e aos seus companheiros de viagem (cf. At 26, 13), mas só ele ouviu «uma voz»: falou-lhe Jesus, chamando-o pelo nome.

«Saulo, Saulo!»

Aprofundemos, juntos, o acontecimento. Ao chamá-lo pelo nome, o Senhor faz saber a Saulo que o conhece pessoalmente. É como se lhe dissesse: «Sei quem és, sei o que estás a tramar, mas, não obstante isso, é precisamente a ti que estou a falar». Pronuncia o seu nome duas vezes, querendo significar uma vocação especial e muito importante, como fizera com Moisés (cf. Ex 3, 4) e com Samuel (cf. 1 Sam 3, 10). Caindo por terra, Saulo reconhece que é testemunha duma manifestação divina, duma revelação vigorosa, que o transtorna mas sem o aniquilar; pelo contrário, interpela-o usando o nome.

Com efeito, só muda a vida um encontro pessoal, não anónimo, com Cristo. Jesus mostra que conhece bem Saulo, que «o conhece intimamente». Embora Saulo seja um perseguidor, embora haja ódio no seu coração contra os cristãos, Jesus sabe que isso se fica a dever à ignorância e quer manifestar nele a sua misericórdia. Será precisamente esta graça, este amor imerecido e incondicional, a luz que transformará radicalmente a vida de Saulo.

«Quem és tu, Senhor?»

Perante esta presença misteriosa que o chama pelo nome, Saulo pergunta: «Quem és tu, Senhor?» (At 26, 15). Trata-se duma questão extremamente importante, e todos nós mais cedo ou mais tarde na vida a devemos colocar. Não basta ter ouvido outros a falarem de Cristo; é necessário falar com Ele pessoalmente. No fundo, rezar é isto. É falar diretamente com Jesus, embora porventura tenhamos o coração ainda em desordem, a cabeça cheia de dúvidas ou mesmo de desprezo por Cristo e pelos cristãos. Faço votos de que cada jovem chegue, do fundo do coração, a fazer esta pergunta: «Quem és tu, Senhor?».

Não podemos presumir que todos conheçam Jesus, mesmo na era da internet. A pergunta que muitas pessoas dirigem a Jesus e à Igreja é precisamente esta: «Quem és?». Em toda a narrativa da vocação de São Paulo, esta é a única vez que ele fala. E, à sua pergunta, o Senhor responde prontamente: «Eu sou Jesus a quem tu persegues» (26, 15).

«Eu sou Jesus a quem tu persegues!»

Através desta resposta, o Senhor Jesus revela um grande mistério a Saulo: que Ele Se identifica com a Igreja, com os cristãos. Até então Saulo não vira nada de Cristo, senão os fiéis que metera na prisão (cf. At 26, 10), dando o próprio assentimento à sua condenação à morte (26, 10). E vira como os cristãos respondiam ao mal com o bem, ao ódio com o amor, aceitando as injustiças, as violências, as calúnias e as perseguições suportadas pelo nome de Cristo. Assim, bem vistas as coisas, de algum modo Saulo – sem o saber – tinha encontrado Cristo: encontrara-O nos cristãos.

Quantas vezes ouvimos dizer: «Jesus sim, a Igreja não», como se um pudesse ser alternativa à outra. Não se pode conhecer Jesus, se não se conhece a Igreja. Só se pode conhecer Jesus por meio dos irmãos e irmãs da sua comunidade. Ninguém pode dizer-se plenamente cristão, se não viver a dimensão eclesial da fé.

«É duro para ti recalcitrar contra o aguilhão»

Estas são as palavras que o Senhor dirige a Saulo, depois que ele caiu por terra. Mas é como se, já desde algum tempo, lhe estivesse a falar misteriosamente procurando atraí-lo para Si, e Saulo resistisse. A mesma suave «repreensão», dirige-a Nosso Senhor a cada jovem que se mantém afastado: «Até quando fugirás de Mim? Porque é que não sentes que te estou a chamar? Estou à espera do teu regresso». À semelhança do que sucedeu ao profeta Jeremias, às vezes dizemos: «Não pensarei mais n’Ele!?» (Jr 20, 9). Mas, no coração de cada um, há como que um fogo ardente: embora nos esforcemos por contê-lo, não conseguimos porque é mais forte do que nós.

O Senhor escolhe alguém que até O persegue, completamente hostil a Ele e aos seus. Mas, para Deus, não há pessoa que seja irrecuperável. Através do encontro pessoal com Ele, é sempre possível recomeçar. Ninguém está fora do alcance da graça e da misericórdia de Deus. De ninguém se pode dizer: Está demasiado longe… É demasiado tarde… Quantos jovens sentem a paixão de se opor e ir contra corrente, mas trazem escondida no coração a necessidade de se comprometer, de amar com todas as suas forças, de se identificar com uma missão! No jovem Saulo, Jesus vê exatamente isto.

Reconhecer a própria cegueira

Podemos imaginar que, antes do encontro com Cristo, Saulo estivesse de certo modo «cheio de si», considerando-se «grande» pela sua integridade moral, o seu zelo, as suas origens, a sua cultura. Seguramente estava convencido da justeza da sua posição. Mas, quando o Senhor se lhe revela, é «lançado por terra» e fica cego. De repente, descobre que não é capaz, física e espiritualmente, de ver. As suas certezas vacilam. No íntimo, sente que aquilo que o animava com tanta paixão, ou seja, o zelo de eliminar os cristãos, estava completamente errado. Dá-se conta de não ser o detentor absoluto da verdade; antes pelo contrário, está bem longe dela. E, juntamente com as suas certezas, cai também a sua «grandeza». De repente, descobre-se perdido, frágil, «pequeno».

Esta humildade – consciência da própria limitação – é fundamental. Quem pensa que sabe tudo sobre si mesmo, os outros e até sobre as verdades religiosas, terá dificuldade em encontrar Cristo. Tendo ficado cego, Saulo perdeu os seus pontos de referência. Ficando sozinho na escuridão, para ele as únicas coisas claras são a luz que viu e a voz que ouviu. Que paradoxo! Precisamente quando uma pessoa reconhece estar cega, começa a ver…

Depois da fulguração na estrada de Damasco, Saulo preferirá ser chamado Paulo, que significa «pequeno». Não se trata dum pseudónimo nem dum «nome de arte» (tão usado hoje mesmo entre as pessoas comuns): o encontro com Cristo fê-lo sentir-se verdadeiramente assim, derrubando o muro que o impedia de se conhecer com toda a verdade. De si mesmo afirma: «É que eu sou o menor dos apóstolos, nem sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus» (1 Cor 15, 9).

Santa Teresa de Lisieux gostava de repetir, como aliás outros santos, que a humildade é a verdade. Hoje em dia muitas «histórias» condimentam os nossos dias, principalmente nas redes sociais, muitas vezes criadas habilmente com muitas filmagens, telecâmaras, variados cenários. Procuram-se cada vez mais as luzes da ribalta, sabiamente orientadas, para poder mostrar aos «amigos» e seguidores uma imagem de si mesmo que às vezes não reflete a própria verdade. Cristo, meridiana luz, vem iluminar-nos devolvendo-nos a nossa autenticidade, libertando-nos de todas as máscaras. Mostra-nos claramente o que somos, porque nos ama tal como somos.

Mudar de perspetiva

A conversão de Paulo não é um voltar para trás, mas abrir-se para uma perspetiva totalmente nova. Com efeito, ele continua o caminho para Damasco, mas já não é o mesmo de antes; é uma pessoa diversa (cf. At 22, 10). É possível converter-se e renovar-se na vida ordinária, realizando as coisas que costumamos fazer, mas com o coração transformado e com motivações diferentes. Neste caso, Jesus pede expressamente a Paulo que vá até Damasco, para onde se dirigia. Paulo obedece, mas agora a finalidade e a perspetiva da sua viagem mudaram radicalmente. A partir de agora, verá a realidade com olhos novos: antes, eram os olhos do perseguidor justiceiro; a partir de agora, serão os do discípulo testemunha. Em Damasco, Ananias batiza-o e introdu-lo na comunidade cristã. No silêncio e na oração, Paulo aprofundará a sua experiência e a nova identidade que o Senhor Jesus lhe deu.

Não dispersar a força e a paixão dos jovens

A atitude de Paulo, antes do encontro com Jesus ressuscitado, não nos é muito estranha. Quanta força e paixão vivem também nos vossos corações, queridos jovens! Mas, se a escuridão ao vosso redor e dentro de vós mesmos vos impedir de ver corretamente, correis o risco de perder-vos em batalhas sem sentido, e até de vos tornardes violentos. E, infelizmente, as primeiras vítimas sereis vós mesmos e aqueles que estão mais próximo de vós. Há também o perigo de lutar por causas que, originalmente, defendem valores justos, mas, levadas ao extremo, tornam-se ideologias destrutivas. Quantos jovens hoje, talvez impelidos pelas suas próprias convicções políticas ou religiosas, acabam por se tornar instrumentos de violência e destruição na vida de muitos! Alguns, que já nasceram rodeados dos meios digitais, encontram o novo campo de batalha no ambiente virtual e nas redes sociais, recorrendo sem escrúpulos à arma de falsas notícias para espalhar venenos e demolir os seus adversários.

Quando o Senhor irrompe na vida de Paulo, não anula a sua personalidade, não cancela o seu zelo e paixão, mas usa os seus dotes para fazer dele o grande evangelizador até aos confins da terra.

Apóstolo dos gentios

Em seguida, Paulo será conhecido como «o apóstolo dos gentios»; ele, que fora um fariseu escrupulosamente observante da Lei! Aqui está outro paradoxo: o Senhor deposita a sua confiança precisamente naquele que O perseguia. À semelhança de Paulo, cada um de nós pode ouvir no fundo do coração esta voz que lhe diz: «Confio em ti. Conheço a tua história e tomo-a nas minhas mãos juntamente contigo. Apesar de muitas vezes teres estado contra Mim, escolho-te e torno-te minha testemunha». A lógica divina pode fazer do pior perseguidor uma grande testemunha.

O discípulo de Cristo é chamado a ser «luz do mundo» (Mt 5, 14). Paulo tem de testemunhar o que viu, mas agora está cego. Estamos de novo perante um paradoxo! Mas, precisamente através desta sua experiência pessoal, Paulo poderá identificar-se com aqueles a quem o Senhor o envia. Com efeito, é constituído testemunha «para lhes abrir os olhos e fazê-los passar das trevas à luz» (At 26, 18).

«Levanta-te e testemunha!»

Ao abraçar a vida nova que nos é dada no Batismo, recebemos também uma missão do Senhor: «Serás minha testemunha». É uma missão que pede a nossa dedicação e faz mudar a vida.

Hoje, o convite de Cristo a Paulo é dirigido a cada um e cada uma de vós, jovens: Levanta-te! Não podes ficar por terra a «lamentar-te com pena de ti mesmo»; há uma missão que te espera! Também tu podes ser testemunha das obras que Jesus começou a realizar em ti. Por isso, em nome de Cristo, eu te digo:

– Levanta-te e testemunha a tua experiência de cego que encontrou a luz, viu o bem e a beleza de Deus em si mesmo, nos outros e na comunhão da Igreja que vence toda a solidão.

– Levanta-te e testemunha o amor e o respeito que se podem estabelecer nas relações humanas, na vida familiar, no diálogo entre pais e filhos, entre jovens e idosos.

– Levanta-te e defende a justiça social, a verdade e a retidão, os direitos humanos, os perseguidos, os pobres e vulneráveis, aqueles que não têm voz na sociedade, os imigrantes.

– Levanta-te e testemunha o novo olhar que te faz ver a criação com olhos cheios de maravilha, te faz reconhecer a Terra como a nossa casa comum e te dá a coragem de defender a ecologia integral.

– Levanta-te e testemunha que as existências fracassadas podem ser reconstruídas, as pessoas já mortas no espírito podem ressuscitar, as pessoas escravizadas podem voltar a ser livres, os corações oprimidos pela tristeza podem reencontrar a esperança.

– Levanta-te e testemunha com alegria que Cristo vive! Espalha a sua mensagem de amor e salvação entre os teus coetâneos, na escola, na universidade, no trabalho, no mundo digital, por todo o lado.

O Senhor, a Igreja e o Papa confiam em vós e constituem-vos testemunhas junto de muitos outros jovens que encontrais pelos «caminhos de Damasco» do nosso tempo. Não vos esqueçais: «Se uma pessoa experimentou verdadeiramente o amor de Deus que o salva, não precisa de muito tempo de preparação para sair a anunciá-lo, não pode esperar que lhe deem muitas lições ou longas instruções. Cada cristão é missionário na medida em que se encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 120).

Levantai-vos e celebrai a JMJ nas Igrejas Particulares!

Renovo a todos vós, jovens do mundo inteiro, o convite a tomar parte nesta peregrinação espiritual que nos levará à celebração da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa no ano de 2023. O próximo encontro, porém, é nas vossas Igrejas Particulares, nas várias dioceses e eparquias da terra, onde, na Solenidade de Cristo Rei, será celebrado – a nível local – o Dia Mundial da Juventude de 2021.

Espero que todos nós possamos viver estas etapas como verdadeiros peregrinos e não como «turistas da fé»! Abramo-nos às surpresas de Deus, que quer fazer resplandecer a sua luz sobre o nosso caminho. Abramo-nos à escuta da sua voz, inclusive através dos nossos irmãos e irmãs. Assim ajudar-nos-emos uns aos outros a levantar-nos juntos e, neste difícil momento histórico, tornar-nos-emos profetas de tempos novos, cheios de esperança! A Bem-Aventurada Virgem Maria interceda por nós.

Roma, São João de Latrão, na Festa da Exaltação da Santa Cruz, 14 de setembro de 2021.

Um caminho a percorrer

Uma reflexão escrita pela teóloga Nancy Small a propósito da tão comentada passagem da Carta de São Paulo aos Efésios, proclamada na eucaristia do passado domingo, e que nos leva a partilhar a necessidade de percorrer um novo caminho na descoberta, no entendimento e no acolhimento da sociedade do nosso tempo. Igualmente importante é sempre o diálogo entre diferentes opiniões e, acima de tudo, que este diálogo seja sempre construído tendo por base o amor, a aceitação e a vontade de entender o outro, não deixando espaço para a crítica sem fundamento e não descontextualizando as palavras que são proferidas.

Depois de proclamar a instrução de S. Paulo para nos revestirmos «de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência» na sua carta aos Colossenses, o leitor leu: «Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor» (Colossenses 3, 18).

Há anos que ouço essas palavras proclamadas numa igreja. Desta vez, a mensagem pareceu ainda mais ofensiva do que no passado. Durante meses, ouvimos uma série de mulheres a falar sobre assédio sexual, abuso e condutas impróprias às mãos de homens poderosos. Também ouvimos as mulheres a dizer «acabou o tempo», o que significa que chegou o momento em que esses comportamentos já não são tolerados e as mulheres deixaram de ficar em silêncio. Ouvir uma leitura das Escrituras que apoia a submissão das mulheres neste contexto parecia seriamente errado.

O dicionário define «submeter» como «pôr debaixo de», «tornar dependente», «sujeitar; obrigar; subjugar». Instruir as esposas a serem submissas aos seus maridos perpetua a ideia de que as mulheres devem ser obedientes aos homens e contribui para uma cultura do domínio masculino. Este tipo de pensamento abre uma caixa de Pandora para a subjugação das mulheres numa escala mais ampla. Com efeito, se as mulheres são consideradas inferiores ao seu parceiro no casamento, certamente serão tratadas como inferiores na sociedade em geral.

As palavras de S. Paulo foram escritas num tempo em que as mulheres eram consideradas inferiores aos homens. Mas os tempos mudaram. Porque é que, hoje em dia, a Igreja católica ainda proclama leituras das Escrituras que suportam um entendimento das mulheres como submissas? Se se ler todo o terceiro capítulo da carta aos Colossenses, observar-se-á que contém instruções para os escravos, dizendo: «Escravos, obedeçam em tudo aos vossos mestres humanos» (3, 22). Não ouvimos esta parte proclamada no ambão porque não está incluída no lecionário. Se a ouvíssemos, reconheceríamos que a leitura está desatualizada. Poderíamos objetar ao percebermos que a Igreja estaria a aceitar a escravidão quando se proclamasse um trecho da Escritura que diz aos escravos como se hão de comportar.

Então por que é que o lecionário inclui partes das Escrituras sobre esposas que também estão desatualizadas e são objetáveis? A submissão das mulheres no contexto do casamento é inconsistente com o ensino da Igreja e a prática pastoral. O Catecismo da Igreja católica refere-se ao casamento como uma parceria entre um homem e uma mulher e fala de amor mútuo (1602, 1604). A bênção nupcial lida durante o sacramento do Matrimónio reza: «Confie nela o coração do seu marido, honrando-a como companheira igual em dignidade». O Papa Francisco desenvolve ainda mais esta mensagem de amor mútuo. Na sua exortação apostólica Amoris laetitia refere-se ao amor conjugal como «uma união que tem todas as características duma boa amizade: busca do bem do outro, reciprocidade, intimidade, ternura, estabilidade e uma semelhança entre os amigos que se vai construindo com a vida partilhada». No casamento «partilha-se tudo (…) sempre no mútuo respeito». Escreve Francisco: «O amor confia, deixa em liberdade, renuncia a controlar tudo, a possuir, a dominar. Esta liberdade, que possibilita espaços de autonomia, (…) consente que a relação se enriqueça».

Neste género de amor não há lugar para a submissão. A compreensão que o Papa tem do amor como uma força que não controla, possui ou domina é uma mensagem extremamente necessária na Igreja e na sociedade hoje. Este género de amor no contexto do casamento apoia a igualdade entre os cônjuges e encoraja o crescimento individualmente e em conjunto. Este género de amor que enriquece e expande os relacionamentos promove a cura e assegura o poder de transformar.

Temos um longo caminho a percorrer para mudar a nossa cultura de uma perspetiva em que a má conduta sexual contra as mulheres é generalizada e tolerada para uma cultura em que as mulheres são tratadas com dignidade e respeito. A Igreja tem um papel importante a desempenhar na realização desta transformação. Podemos dar um passo simples e no entanto substancial nessa direção ao simplesmente não proclamar textos da Escritura que submetem as mulheres. Melhor ainda, vamos remover esses textos dos nossos lecionários.