Falar para CRER – 7.º Encontro

Ficam aqui os registos do 7.º encontro “Falar para CRER”, organizado pela paróquia da Matriz em colaboração com a Comunidade Estrada Clara. Este encontro aconteceu no dia 8 de novembro e o tema foi “Uma conversa a caminho de Emaús”, um texto do frei dominicano Timothy Radcliffe, responsável pelas meditações do retiro dos participantes na XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Esta meditação de Timothy Radcliffe focou-se, essencialmente, na ideia do Cristão que é encontrado e vai ao encontro, num caminho marcado por avanços e recuos, mas sempre em construção e revelação. Neste encontro, assumimos o risco das relações, mas também a alegria e a gratidão que nascem nos corações de quem faz um caminho comum, apesar das diferenças. Neste encontro com os outros nossos irmãos, não pode faltar o ingrediente principal – a confiança. A confiança no amor que me é dado, a confiança no caminho que percorremos juntos, a confiança nas palavras que nos são dadas. Depois de trabalharmos este texto em grande grupo, foi em grande grupo que continuamos a refletir, a partir de duas questões: como posso ir eu ao encontro dos meus irmãos/minhas irmãs na comunidade paroquial e fazer um caminho de diálogo com a minha comunidade; que dinâmicas podem ser concretizadas no grupo a que pertenço para que todos se sintam mais escutados. Uma vez mais, estas partilhas, desta vez num ambiente mais íntimo, foram muito ricas, mesmo que se tenham apresentado perspetivas diferentes. Isto é a grandeza da vida sinodal que a Igreja experimenta: a procura incessante de um caminho onde possamos seguir juntos, levando os nossos contextos, as nossas histórias, os nossos projetos.

Recordamos que estes encontros “Falar para CRER” estão sempre abertos a todos os agentes da Pastoral (Catequistas, Jovens, Conselho Paroquial, Leitores, Grupos Corais, etc.) das comunidades paroquiais. Não é necessária inscrição, basta aparecer.

𝐏𝐫ó𝐱𝐢𝐦𝐨 𝐄𝐧𝐜𝐨𝐧𝐭𝐫𝐨 “𝐅𝐚𝐥𝐚𝐫 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐂𝐑𝐄𝐑 – 𝐄𝐝𝐢çã𝐨 𝐄𝐬𝐩𝐞𝐜𝐢𝐚𝐥 𝐍𝐚𝐭𝐚𝐥” – 𝟐𝟎 𝐝𝐞 𝐝𝐞𝐳𝐞𝐦𝐛𝐫𝐨 𝐝𝐞 𝟐𝟎𝟐𝟑 (𝟒.ª 𝐟𝐞𝐢𝐫𝐚), à𝐬 𝟐𝟏𝐡𝟑𝟎, 𝐧𝐨 𝐒𝐚𝐥ã𝐨 𝐏𝐚𝐫𝐨𝐪𝐮𝐢𝐚𝐥 𝐝𝐚 𝐌𝐚𝐭𝐫𝐢𝐳 -𝐏ó𝐯𝐨𝐚 𝐝𝐞 𝐕𝐚𝐫𝐳𝐢𝐦

Um peregrino da Esperança

Em vésperas do seu aniversário, José Tolentino Mendonça é reconhecido com o Prémio Pessoa, distinção notável atribuída por ilustres figuras da contemporaneidade cultural nacional. Alegramo-nos com esta atribuição não porque o padre Tolentino necessitasse deste prémio, mas sim porque a visibilidade deste galardão permitirá que tantos que ainda não o conhecem o possam agora visitar nos seus livros, discursos, orações e descobrir este “tesouro escondido”.

Embora não o saiba, o padre Tolentino é, para a Comunidade Estrada Clara, um dos nossos melhores amigos. Temos a certeza que, tal como nós, muitos também o têm assim guardado no coração. A sua vida cruza-se com as nossas estradas como sempre se cruzam aqueles que partilham o mesmo sentido de vida. Foi graças a um professor meu de Literatura que conheci este “jovem poeta madeirense” que, na altura, publicara as suas primeiras composições. Comecei por ler intensamente o poeta, só descobrindo mais tarde que ele também era padre, precisamente quando andávamos em busca do tal material temático para explorar nos nossos grupos de adolescentes e jovens. Que epifania foi para nós! Que graça encontrarmos alguém que dá Vida à Palavra e faz da Palavra Vida!

E, depois, há aquilo que para nós são sinais de Luz. Em 1998, ano em que entrei na universidade, o padre Tolentino venceu o seu primeiro prémio de poesia. A sua ordenação episcopal foi a 28 de julho, dia do aniversário da nossa mana Lara e do nosso companheiro musical, o Rochinha. O Papa Francisco fez do bispo Tolentino cardeal a 5 de outubro de 2019, uma data especial para nós, pois foi a última vez que cantamos e tocamos com o Jorge na nossa igreja, na celebração das bodas de ouro dos seus pais.

Quem mergulha nas palavras do padre Tolentino nunca mais deseja voltar ao superficial. Quem se deixa envolver pelo seu modo simples e profundo de ler a vida como dom, nunca mais se deixa contaminar pela ingratidão e pela futilidade. Quem faz dos seus livros guias de peregrinação, nunca mais deixa de ver a vida como uma estrada clara.

Obrigada, padre Tolentino.

Gratidão também à página @comodissetolentino por trazer às redes sociais as palavras de vida deste padre poeta!

Ana

Estradas Partilhadas – Encontro 2

“Estradas Partilhadas”, os nossos encontros mensais de formação, de partilha, de relação.

No passado dia 12 de novembro, alguns elementos da nossa Comunidade juntaram-se para refletirmos juntos desta vez a partir de um pequeno texto do Cardeal José Tolentino Mendonça, intitulado “A rotina não basta ao coração do Homem”. Este texto foi escolhido e posto em comum pela nossa querida Diana e durante cerca de duas horas fizemos partilha de vida, de experiências, de dúvidas, de certezas, de projetos. Através de quem somos e do que nos estamos a construir a cada instante, fomos redescobrindo os desafios que a vida com as suas rotinas e imprevisibilidades nos vai colocando e o modo como cada um de nós é chamado a lidar e a trabalhar com esses mesmos desafios. Não encontramos respostas científicas para o tema em questão, mas com as vivências partilhadas por cada um encontramos propostas de olhar a vida com mais entusiasmo, mais respeito, mais abertura ao que vai acontecendo. Foi mais um encontro cheio de palavras, de risos, de seriedade entre pessoas que escolheram dedicar uma simples tarde de domingo a estarem umas com as outras num diálogo fraterno, numa rede de confiança, numa busca pela luz que todos nós trazemos cá dentro e que ilumina as nossas também presentes fragilidades e escuridões.

“Estradas Partilhadas”, o nosso espaço para termos espaço para vivermos com tempo o tempo que trazemos em nós, para como comunidade fortalecermos em nós uma dimensão orante e pensante e assim promovermos a atenção e a escuta ao(s) Outro(s).

“Estradas Partilhadas”, os nossos domingos de gratidão, os nossos primeiros dias da semana, os nossos caminhos para chegar a casa, à Terra Prometida.

Este mês, já em breve, voltaremos a estar juntos para falar e partilhar VIDA. Sempre!

Obrigada, Irmão Alois!

Na véspera do início do Advento, durante a oração da noite em Taizé, o irmão Alois vai transmitir a sua responsabilidade de prior ao irmão Matthew. Durante 18 anos, o irmão Alois assumiu a orientação da Comunidade de Taizé, tendo-o feito num contexto particularmente difícil após a trágica morte do irmão Roger. Como ele afirmou numa entrevista recente, os primeiros tempos enquanto prior foram uma grande aventura, uma vez que ninguém sabia como iria continuar a ser a Comunidade após a morte do seu fundador. Esses tempos, nas suas palavras, foram de grande unidade entre todos, o que permitiu que a construção comunitária continuasse a ser o que é, um espaço de espiritualidade, de descoberta interior, de oração.

Ao longo destes 18 anos, o irmão Alois soube por em prática as palavras do Evangelho. Todos os anos, nas já habituais cartas que servem de reflexão para os encontros de verão em Taizé, o irmão Alois colocou a tónica sempre na confiança que nos permite avançar, caminhar, seguir ao encontro e à descoberta de um Deus que é amor, é casa, é abraço. Ao longo destes 18 anos, pudemos partilhar alguns encontros com o irmão Alois: em Taizé estivemos em 2006, 2009, 2014, 2017; participamos na Peregrinação de Confiança sobre a Terra em 2005, em Milão, e em 2012, em Roma. Neste último encontro, no final de uma das orações, alguns de nós tiveram o privilégio de ser abençoados pelo irmão Alois, naquele seu gesto sempre doce e sereno. Vejam as fotografias 😊

Obrigada, irmão Alois, não só por estes 18 anos, mas por uma vida inteira de entrega, de partilha, de comunidade. Pelas palavras e pela simplicidade. Pela comunidade. Pela vida. Continuaremos a rezar juntos!

“Nas circunstâncias atuais, também nós podemos escolher a confiança. Somos livres para discernir, no nosso mundo, uma luz com origem noutro lugar. Mesmo quando estamos a passar por uma provação, mesmo quando Deus parece não responder ao nosso clamor, essa luz já está a nascer como a estrela da manhã nos nossos corações.”

“Sozinhos não podemos acreditar, é inimaginável. Mas juntos podemos ouvir o inacreditável, que Maria e depois os apóstolos anunciaram no dia de Páscoa: Cristo está vivo!

Alegrai-vos!

Reflexão para o mês de dezembro de 2023

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo o digo: alegrai-vos!” (Carta aos Filipenses 4,4)

Estas palavras de São Paulo pertencem às chamadas cartas do cativeiro, isto é, cartas por ele escritas quando foi prisioneiro em Roma. A realidade vivida por São Paulo quando escreve à comunidade em Filipos não seria aparentemente compatível com a alegria que ele tantas vezes repete ao longo da missiva. Preso e torturado no cárcere romano, Paulo escreve as que foram consideradas as suas mais esperançosas e profundas cartas. Como é isto possível? Como se encontra tamanha alegria em contextos como estes tão difíceis e obscuros? Que radicalidade é esta que nos indica uma alegria maior? Para quê nos devemos nós alegrar?

Nunca em tantos lugares e tempos se falou tanto de alegria. A alegria surge como uma exigência a viver, é destaque nas redes sociais, é um imperativo sinónimo de sucesso. Vemo-nos a chegar à época natalícia e a palavra alegria não só redobra o seu uso como também a sua necessidade de exigência. Que alegria é esta com que nos deparamos? Ao refletirmos nela, concluímos que esta alegria que o mundo nos apresenta é um sentimento que faz depender totalmente a sua existência das circunstâncias e do estado de espírito de cada um. Por isso, é efémera, é volátil, é frágil. Porém, também faz parte de nós e também a devemos viver, claro! Quem, por exemplo, não vibrou de alegria que se multiplicou por um país inteiro quando todos nos vimos a ganhar a Eurovisão? Esta alegria existe e é humana. Mas Jesus apresenta-nos uma outra forma de existir em alegria. A questão reside em como podemos viver uma alegria sem prazo, sem data de validade, sem dependências externa. E a resposta só a encontramos – se abrirmos o nosso coração e o nosso entendimento – à mensagem de Jesus Cristo, ao seu modo de viver e de nos fazer viver. A alegria constitutiva da experiência cristã é única. Não é uma alegria que dependa de êxitos e sucessos financeiros e sociais nem de conquistas profissionais. É uma alegria assente na certeza de uma eternidade, de uma mensagem libertadora, de uma presença de amor. Não está sujeita à satisfação de uma sensação imediata ou à busca de um prazer nem é comparável.

“Aos cristãos é pedida a arte de fazer a alegria”, interpela-nos o Cardeal José Tolentino Mendonça. Esta arte da alegria é processo, é decisão, é caminho. Buscar a alegria, procurá-la, cultivá-la é uma tarefa árdua a ser cumprida todos os dias. É exigente e, tantas vezes, hercúlea e nem sempre a encontramos com facilidade. Obviamente todos nós estamos sujeitos a mudanças de humor, a irritações, a fúrias e desentendimentos. Todos nós somos atingidos por problemas e dores. Todos nós temos o direito de chorar, de nos sentirmos tristes, de nos questionarmos. Por isso, é também importante criarmos em nós esse espaço de sentir para deixar fluir o que dolorosamente experimentamos. Só assim possibilitamos, também, a abertura à alegria, que é a base firme que está em nós, apesar de todas as circunstâncias. A alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas da vida, por vezes tão duras. Adapta-se e transforma-se, mas permanece sempre pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados por um Deus que nos espera. Esta é a maior riqueza de quem se diz cristão. A de sabermos e confiarmos que fomos criados para esta alegria. Mesmo quando é difícil vivê-la e assumi-la por inteiro. A alegria de um cristão não provém da ingenuidade ou da incapacidade para ver e assumir aquilo que é trágico. Esta alegria cristã que nos é dada é aquela alegria que se vive “apesar de tudo” e também “a partir de tudo”, inclusive do que lhe seria, normalmente, contrário. A penúltima palavra pode ser a da experiência da dor, mas a última palavra é sempre a da alegria que nos resgata. Por isso, é possível no meio do caos experimentar a bênção da alegria, pois é ela que nos salva de sucumbir à desgraça, à dor, à desolação. É possível encontrar a alegria mesmo nas circunstâncias mais cruéis e difíceis, precisamente porque essa mesma alegria salvadora vem de Deus, de um Deus que é tudo em nós e que é promessa de Terra Prometida.

“A alegria é a coisa mais séria do mundo”, disse-nos Almada Negreiros com toda a razão. Ser alegre é viver em profundidade, é escolher a luz que nasce do escuro, a certeza que vem das dúvidas. Ser alegre implica a gestão das nossas expectativas, necessidades, idealizações. A alegria é dom, mas também é tarefa, investimento, escolha. A alegria é simplicidade, é atenção, é leveza, é gratidão. A alegria é artesanal porque é construção, é processo de corta e cose e volta a cortar e a coser. A alegria multiplica-se quando é vivida em comunidade, quando se partilha, quando se testemunha. A alegria faz-nos maiores porque nos faz ser com os outros. Não pode haver alegria sem o(s) Outro(s). A nossa vida é um oceano de emoções, de paisagens tranquilas e de acontecimentos tumultuosos. O fundamental é viajarmos nesse oceano acompanhados pelas pessoas certas, aquelas que nos acrescentam, que nos elevam, que nos constroem. Há uma alegria serena que se vive entre quem é irmão, entre quem fala a mesma linguagem, entre quem cresce em comunidade. Uma alegria que se experimenta a partir da confiança no outro que me acolhe, sem preconceitos, sem julgamentos, sem ataques. Uma alegria profunda porque partilha vivências que só são possíveis quando os corações se decidem encontrar e fazer caminho. Uma alegria que nos salva da morte porque nos permite olhar para a vida de outra forma, olhar para o que somos e com quem somos com um coração agradecido. Por isso, em relação à grandiosidade da vida, nós temos de nos deixar invadir por uma alegria eterna, uma alegria plena, mesmo quando a pequenez das pequenas coisas dessa mesma vida nos parece derrubar.

“Não se trata de levar uma alegria passageira, uma alegria do momento, trata-se de levar uma alegria que crie raízes.” (Papa Francisco, discurso na vigília JMJ Lisboa 2023) Uma alegria que crie raízes é aquela que nos sustem, que nos mantém erguidos mesmo quando tudo nos parece derrubar. Uma alegria enraizada na certeza de que se escolhermos o caminho do Amor, tudo suportaremos. Uma alegria que nos fixa ao que realmente importa, que transforma a dor em luz, que nos faz viver e ser de outra forma. Uma alegria que não é algo que nos acontece, mas que somos nós a acontecer porque, na nossa profundidade, está aquela semente de amor que Deus nos dá.

“Alegrai-vos” deve ser o nosso mantra para todos os dias. A alegria é um ato de resistência e, consequentemente, de fé, pois nos leva a acreditar na eternidade para a qual todos somos chamados. Que saibamos continuar a fazer caminho com esta alegria que nos vem da confiança num Deus que vive sempre connosco. Que as nossas palavras, os nossos gestos, as nossas escolhas reflitam sempre esta alegria que vem de Deus e de nos sabermos escolhidos para uma Vida sempre maior que nós próprios.

P.S. A acompanhar este texto está uma das fotografias mais reveladoras desta alegria que brota entre corações que se amam e se doam profundamente ao(s) Outro(s). Meu irmão, minha irmã! Que benção a nossa!

Ainda sobre as JMJ em Lisboa e algo mais…

Este domingo celebramos o 38.º Dia Mundial da Juventude. Ainda ressoam, nos corações de todos, os ecos da experiência da JMJ Lisboa em forma de imagens, textos, testemunhos de quem participou e que invadem neste fim de semana as redes sociais. A este propósito, e de um modo diferente, publicamos um testemunho do nosso André, um dos nossos irmãos nesta Comunidade Estrada Clara, num texto que reflete uma outra visão tão bonita de um Deus que se deixa experimentar por cada um de nós quando abrimos o nosso coração à VIDA!

𝗔𝗶𝗻𝗱𝗮 𝘀𝗼𝗯𝗿𝗲 𝗮𝘀 𝗝𝗠𝗝 𝗲𝗺 𝗟𝗶𝘀𝗯𝗼𝗮 𝗲 𝗮𝗹𝗴𝗼 𝗺𝗮𝗶𝘀 – texto de André Oliveira, Comunidade Estrada Clara

“Este ano não tive oportunidade de participar nas Jornadas apesar de elas até serem no que agora chamo de minha cidade. Em 2011, ter tido a oportunidade de ter ido a Madrid às Jornadas foi, sem dúvida, uma das melhores experiências que tive. Lembro-me de ficar arrebatado com a atmosfera que é de ter milhões de pessoas a viver e sentir o mesmo Amor. Poderá parecer engraçado, mas até uma simples chuva num descampado era um momento de alegria (para os que estavam presentes lembrar-se-ão da dança da chuva para ver se acalmava a tempestade).

Este ano, ouvi, várias vezes pela televisão, a pergunta “O que esperam das Jornadas”. Penso que não se pode esperar nada, mas tudo ao mesmo tempo. As Jornadas foram muito mais do que os ensinamentos nas paróquias, as orações nas igrejas, as missas, as visitas a museus e passeios pela cidade e os momentos de silêncio. Tudo momentos que nos acalentam e impulsionam para celebrar a nossa Fé.

Mas este ano não participei por opção e porque a vida me trouxe uma forma nova de viver o Amor de Cristo. Acredito que existam várias fases da nossa vivência com Deus. Umas mais entusiastas em que o exponente máximo será provavelmente as Jornadas, mas existe uma outra fase onde é a vivência com um novo ser que nos faz acreditar mais no Amor. A simplicidade de ter um bebé nos braços a adormecer enche-nos de tal forma de Amor que é inexplicável. Tal como muitos jovens encontram um novo entusiasmo quando vão às Jornadas, eu encontrei agora com a minha filha.”

Sara

Ela sabe.

A Sara. Um ser de luz que sem saber é parte da nossa vida. Por isso, hoje, estamos tristes, carregados de perguntas difíceis, dominados pela impotência, frágeis perante a dureza de uma partida tão prematura.

A Sara. Um ser de luz que sem saber foi nossa parceira na dinamização dos nossos primeiros grupos de catequese para adolescentes. Quando iniciamos esta atividade na nossa paróquia, muito pouco ou quase nada existia que nos pudesse servir de base de trabalho. As sugestões dos catecismos estavam desfasadas da realidade dos jovens, a Internet não estava acessível como hoje em dia e nós éramos dos poucos animadores a trabalhar com adolescentes. Já nessa altura sabíamos que era fundamental trazer o mundo, a sociedade, os ambientes em que os adolescentes vivem, os seus gostos e vontades para o grupo cristão. Durante os primeiros anos, fomos “salvos” pela música e pelas palavras da Sara. Com as suas canções preparamos temas, fizemos grupos de partilha, falamos do que é isto de ser cristão, abrimos novos horizontes, guiamos os jovens para a beleza. Um dos temas preferidos dos adolescentes era o das escolhas que trabalhávamos a partir de uma das canções da Sara, precisamente chamada “Escolhas”. Os primeiros momentos de oração que os nossos adolescentes viveram foram com a canção “Eu sei”, escrita pela Sara e inspirada no salmo 139. Anos mais tarde, o Jorge também fez uma das suas músicas mais luminosas a partir deste mesmo salmo. O primeiro CD com as músicas originais da Sara, o “Mi Ma Bô”, foi a genuína banda sonora dos dias felizes, simples, cheios de vida, de abraços e de gratidão dos nossos encontros de verão em Caminha.

A Sara. Um ser de luz que sem saber é a personificação da parábola dos talentos, precisamente o Evangelho deste domingo (nada é por acaso…). A Sara. A quem muito foi dado e que muito soube dar, doar, multiplicar. Que fez das fragilidades força, dos obstáculos trampolins, das incertezas hinos de vida.

A Sara. Afinal, ela sabe. Sempre soube. Mais do que qualquer um de nós. Ela sabe que a luz é mais forte que as sombras e a eternidade está na música que damos. Ela sabe que a beleza está onde o amor é irmandade.

Obrigada, Sara!

Uma geração em caminho

Reflexão para o mês de novembro de 2023

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Esta é a geração dos que procuram a vossa face, Senhor” (Salmo 24)

A fotografia que acompanha este texto tem quase vinte anos e retrata uma das partes do nosso musical “Jesus é Vida!”. Na primeira parte deste musical, um grupo de jovens junta-se para fazer um trabalho para a escola acerca da figura de Jesus Cristo. Entre pensamentos e opiniões, músicas e danças, perguntas e respostas, esta primeira parte encerrava com a conclusão a que aquele grupo chegou: Jesus foi muito mais do que uma figura histórica relevante e é Ele que continua a ser aquele que nos faz caminhar, navegar, seguir nesta viagem que é a vida toda de todos os dias. Vinte anos passados, esta figura de Jesus continua a provocar a mesma procura, a mesma inquietação, o mesmo desejo de conhecimento. E muitos jovens daquele grupo, agora já mais adultos, continuam, em comunidade, a percorrer uma Estrada Clara de descoberta e de procura…

Num dos dias litúrgicos mais luminosos do ano, a Solenidade de Todos os Santos, cantávamos, com o salmista, “Esta é a geração dos que procuram vossa face, Senhor.” Dei por mim a pensar nesta geração a que o salmista faz alusão, a esta geração que procura encontrar o seu maior tesouro – Deus! Sempre essa grande questão da Humanidade! A procura de Deus. A palavra que mais grita neste salmo é esta, a da geração. Da geração que procura, que vai em busca, que quer descobrir. Não uma geração estática, parada, imóvel. Mas uma geração que caminha, que faz caminho, que se projeta no futuro a partir do presente. Que assume certezas e dúvidas, respostas e perguntas. Que carrega medos e dores, alegrias e euforias. Uma geração que se levanta e vai. Uma geração que não desiste, mas insiste em ser, em ir, em fazer. Esta é a nossa geração. Estes somos nós. Com as nossas luzes e sombras, qualidades e defeitos. Filhos amados de um Deus que é Amor e que, por isso, é por nós procurado. Muitas vezes, não lhe sabemos dar um nome, uma identificação. Sabemo-nos à procura, mas receamos dizer que é Deus quem nós buscamos. Mas Ele está à nossa espera. É Ele que é a nossa espera, o nosso tesouro, a pérola encontrada.  

No salmo, o autor não se refere à geração como sendo acabada, terminada, que procurou e encontrou o que queria. Pelo contrário, ele faz referência à geração que continua a procurar, a viver. Porque a vida é este processo inacabado, de formação, de construção, de corta e volta a coser, de avanços e recuos. Cada um de nós é este processo. Único. Original. Com o seu modo próprio de olhar, de rir, de falar. Somos o que seremos, dizia o professor Costa Santos no Curso Teológico-Pastoral que frequentámos. Somos o que seremos porque nada está terminado, fechado, encerrado. A última palavra não é a nossa. Nós estamos a ser. Nas nossas escolhas e opções. Somos em liberdade. Deus não nos impõe nada. Deus apenas propõe. Um caminho, uma via, uma estrada.

Há um paradoxo no caminho sugerido por Jesus Cristo: só nos podemos encontrar a caminho quando confiamos naquilo que não vemos, naquilo que desconhecemos. O Cristianismo não é uma apólice de seguro, não nos faz imunes à tristeza e ao sofrimento, não nos garante uma vida despreocupada e imune a bloqueios. Mas o Cristianismo dá-nos a garantia de que há um Deus que me ama, independentemente das minhas fragilidades, das minhas dúvidas, dos meus abismos. E quanto mais eu me aproximo deste Deus, quanto mais eu me disponho a conhecê-lo, quanto mais eu o procuro, mais eu me sinto seguro, tranquilo, amparado. E sigo caminho. E este caminho é muito mais completo quando é feito em conjunto, em comunidade. O salmista não menciona o “Eu” que procura a face de Deus, mas sim toda uma geração, uma família, uma comunidade que caminha. Seguir Jesus Cristo não é um percurso solitário. Seguir Jesus Cristo é escolher viver o nós, os outros, na comunidade. Por isso, ser cristão é uma tarefa, simultaneamente, exigente e libertadora, bela e dorida. Somos cristãos porque o somos com os outros. E isto implica confiança e entrega, disponibilidade e acolhimento.

Um dos obstáculos que nos impede de querer pertencer a esta geração que procura é a necessidade que humanamente temos de mapas, guias, orientações concretas que nos salvem da imprevisibilidade e das casualidades. Desejamos, em maior ou menor grau, um manual de instruções para todos os acontecimentos da vida, horários que nos salvem do que não sabemos, orientações que nos protejam do que não vemos. Mas a vida é tudo menos estanque. A vida é movimento que nos põe em movimento, é dança incontrolável que nos leva nas asas do vento, é desafio a ser abraçado e resolvido.

Outro destes obstáculos é o orgulho, a auto-suficiência. Julgamo-nos tantas vezes superiores à vida, senhores dominadores dos acontecimentos, mestres de planos traçados e intransigentes. Achamos que não precisamos de aprender a olhar a vida com humildade e serenidade e acabamos por deixar que a vida nos aconteça muitas vezes ao acaso. Recusamo-nos a olhar o que nos é dado viver com a alegria das pequenas coisas, com a beleza dos detalhes escondidos, com o coração a bater no ritmo da irmandade. Usamos a desculpa da falta de tempo quando o erro está no uso que fazemos desse tempo que nos é dado.

A Igreja é constituída por homens e mulheres em caminho, na vida de todos os dias, que escolhem não desistir, não ceder, não parar. Que trazem consigo as quedas, mas também a alegria da elevação. Que se abandonam nas redes da confiança que se fortalecem entre quem se sente e é irmão no Amor. Que tantas vezes se afastam da própria Igreja, mas que, mais tarde, a ela voltam para retomar este caminho interrompido e continuar a procura desejada.

Somos esta geração. Jovens e adultos. Hoje. Com etapas vividas, percorridas, atravessadas. A geração variada, múltipla que segue o caminho. Que é viajante, nómada, enamorada. Que é peregrina. Que sonha e desespera. Que acredita e questiona. Que não sabe onde vai chegar, mas sabe com quem caminha. Que valoriza a procura, o processo mais do que o resultado ou a conclusão. Que não se deixa cristalizar ou instalar no defeito, no egoísmo, no individualismo. Que pode partir de diferentes pontos, mas que se encontra na busca pela essencialidade. Que aceita fazer viagem na lógica do provisório, do incerto, do imperfeito. É uma geração em movimento, em trânsito repleto de encontros e reencontros. Porque, ao estar em procura, esta geração está a ser, a fazer-se, a acontecer-se. E isto é o que verdadeiramente importa! Todos os anos, ouvimos o salmista louvar esta geração. Daqui por muitos anos, o salmista continuará a exaltar esta mesma geração que será a do tempo futuro. Isto é a magnificência de Deus, que nos encontra a todos no sítio certo, no tempo desejado, no caminho vivido. Que saibamos continuar a fazer estrada juntos, entrelaçados em abraços de alegria, em risos de comunhão, em cânticos de festa. De mãos dadas e a caminho. Com Ele, por Ele e para Ele.

Um texto de gratidão

Um texto de gratidão. A todos, por todos e para todos. O que vivemos esta semana contrastou com as intempéries climatéricas que têm assolado o nosso país. Enquanto no exterior temos enfrentado vento e chuva, no interior da nossa Comunidade fomos alegria e partilha. Como tantas vezes temos dito, este contraste não acontece por acaso. Uma vida com significado não é uma vida ao acaso, ela acontece para ser olhada e acontecida em nós e assim assumida na sua totalidade. Numa semana de memórias e de saudade, de percalços e de ausências, escolhemos não habitar nessa zona de perda e dar o salto, simultaneamente confiante e imprevisível, que nos leva ao outro lado, ao espaço da alegria, da dor que é trabalhada para dar fruto, da comunhão de vida com quem connosco caminha.

No dia 1 de novembro, lembramos a vida do Jorge nas nossas vidas numa festa que, para nós cristãos, é a maior de todas – a Eucaristia. A festa que o Jorge gostaria que lhe fizéssemos! A festa do encontro, da partilha, das palavras cantadas, da música tocada, dos abraços e dos braços no ar, na igreja que foi o seu coração durante a sua vida toda. Este é nosso lugar de pertença, de crescimento, de doação. “Esta é a geração dos que procuram a vossa face, Senhor”, cantávamos nesse dia no salmo, uma das mais belas músicas feitas pelo Jorge. Esta geração somos nós, os que seguimos. Aceitando os obstáculos e dando as mãos para os enfrentar, cantando e rindo quando tantas vezes as lágrimas nos caem. Que alegria sermos esta geração que caminha em comunidade, tal como sempre foi o desejo do Jorge!

Na quinta-feira, celebramos o 2.º aniversário do “Encontro em TI”, a nossa oração comunitária mensal na Igreja Matriz. Um sonho nosso antigo, este o de levar a nossa forma de orar para a comunidade e, assim, rezarmos juntos com a música, as palavras, o silêncio. No final, levamos esta partilha para a volta da mesa com quem, numa noite ventosa, se juntou a nós. E que convívio tão genuíno, tão simples e tão agradável, como é tudo aquilo que verdadeiramente importa!

Este é um texto de profunda gratidão. Como diria o Jorge, esta semana foi “uma riqueza”! Obrigada a vós que caminhais connosco nesta Estrada Clara! Seguimos juntos!

Celebramos a VIDA!

Hoje celebramos a VIDA do Jorge, não a morte. Festejemos e cantemos! Se possível, dancemos também e abracemo-nos em risos cheios da alegria que nasce de quem se sabe irmão. O Jorge é festa em nós e hoje somos nós essa festa que ele continua a fazer nas nossas vidas. Por isso, hoje celebramos!

Celebramos a vida do Jorge quando continuamos a ensaiar, a querer colocar as nossas vozes no sítio correto, a confiar que cada Eucaristia cantada se multiplica em Amor doado.

Celebramos a vida do Jorge quando pelas nossas palavras e gestos anunciamos um Deus que nos ama e nos faz ser aquela luz que ilumina a escuridão e que dela nos salva.

Celebramos a vida do Jorge quando continuamos a fazer das nossas fragilidades força, das nossas lágrimas risos, dos nossos medos coragem.

Celebramos a vida do Jorge quando somos mais do que os horários, do que as carreiras, do que as desculpas usadas para não estar, não ir, não fazer.

Celebramos a vida do Jorge quando o conjugamos neste tempo presente que é o indicativo de um caminho comunitário de uma vida orante e pensante.

Celebramos a vida do Jorge quando nos continuamos a juntar em volta da mesa para comermos juntos, para partilharmos histórias, para sonharmos projetos.

Celebramos a vida do Jorge quando somos casa uns para os outros, quando continuamos a conversar durante horas sobre o que nos inquieta e nos incomoda, quando pertencemos à vida uns dos outros.

Celebramos a vida do Jorge quando continuamos a escolher a confiança e o acolhimento mesmo quando são opções tão desafiantes.

Celebramos a vida do Jorge porque ele está vivo! Vivo em mim, em ti! É esta a nossa escolha, mais forte do que qualquer morte, mais poderosa do que qualquer dor, mais vitoriosa do que qualquer separação.

Por isso, hoje há festa! Vamos rir e dizer aquelas piadas nossas e tão cheias do que somos. Afinemos as guitarras, preparemos as vozes, usemos roupas bonitas, dancemos e batamos palmas. A festa que o Jorge queria que lhe fizéssemos é aquela que celebramos juntos como comunidade orante. Aquela festa que foi a sua vida toda durante mais de trinta anos, na sua paróquia. Então, venham celebrar connosco! Hoje, às 19h, na Matriz! Viva o Jorge!

Ana