We’re off to see the wizard…

José Tolentino Mendonça, E, Expresso, 17.junho.2017

A aventura de não ir a parte nenhuma

Creio que levamos uma grande parte da vida a funcionar como nessa parábola que é “O Feiticeiro de Oz”. Vivemos aspirados por ciclones ou a desejar sê-lo; queremos voar para longe do sítio onde estamos; qualquer mapa que folheemos aparece-nos cheio de promessas encantadas; a felicidade define-se como um lugar que alcançaremos além do arco-íris. A vida comum assemelha-se a um inglório arrastar-se com sapatos de ferro, enquanto rebrilha nos nossos sonhos um extraordinário e levíssimo calçado de rubi. Sentimo-nos emparedados por um quotidiano que asfixia, quando poderíamos estar a trilhar um caminho de tijolos tão amarelos como o sol, na direção da cidade que refulge, e não do regresso previsível ao lugar cinzento que nos abriga. Desta maneira, o primeiro sinónimo que encontramos para a palavra aventura é evasão. E colocamos em cima dessa carta o nosso ouro.

Depois, demoradamente, à custa dos desencontros, passos em falso ou de tempo gasto com outras escutas, aprendemos o que a pequena Dorothy de “O Feiticeiro de Oz” conclui: “Se voltar a procurar os anseios do meu coração, não irei procurá-los além do meu quintal. Se não estiverem lá é porque realmente nunca foram meus.” A moral da história não é propriamente a dissuasão da viagem. É importante que os nossos olhos tenham contemplado tudo aquilo que lhes coube contemplar. E, como recomenda o poema “Ítaca”, de Constantino Kavafis, temos, de facto, de peregrinar a muitas cidades numa rota desejavelmente longa, vivida com euforia, contactando com empórios e sábios, arrematando mercadorias belas, madrepérolas e corais, âmbares e essências que fiquem, para sempre, a perfumar a vida. Mas as verdadeiras viagens são aquelas que nos entusiasmam e iniciam no regresso a nós próprios, sem o qual a viagem é só dispersão e em vez de conhecimento, um amontoar ruidoso e desconexo de experiências em vez de sabedoria. Não nos aconteça aquilo que vem ilustrado num velho relato islâmico: era uma vez um homem que tendo perdido a chave de casa, algures dentro do quarto, foi no entanto para a rua procurar a chave perdida, porque lá havia mais luz. Um dos maiores viajantes da literatura ocidental é Henry David Thoreau e os seus mais de vinte livros, muitos escritos numa solitária cabana nas margens do lago Walden, repetem o mesmo: a vida só tem sentido se for vivida de uma forma deliberada; e não importa por onde viajes ou quanta distância os teus passos alcançaram: a única coisa verdadeiramente importante é saberes quão vivo estás.

Uma vez ensinaram-me um provérbio que se repete na região de Quioto, no Japão. Diz o seguinte: “Não te limites a fazer coisas. Senta-te.” Na sua concisão esconde um programa exigente e cheio de possibilidades. Creio que nessa linha vai também o aforisma filosófico de Pascal: “Toda a infelicidade do ser humano nasce de um simples facto: não conseguir ficar quieto no seu quarto.” É claro que o quarto não é apenas o quarto, mesmo se muitas vezes não é mau começar por aí.

O verão sobrecarrega de atividade as agências de viagens, as redes sociais bombardeiam-nos com sugestões mirabolantes, as autoestradas e aeroportos bloqueiam-se com a nossa sofreguidão, os “ciclones” que fantasiamos durante o ano atiram-nos para paragens que supostamente cumpririam uma função compensatória ou supletiva em relação à vida ordinária. Há, porém, cada vez menos quem nos ajude a abraçar uma aventura só nossa, uma maravilhosa aventura necessária: a aventura de não ir a parte nenhuma.

Passemos à outra margem

José Tolentino Mendonça in “Avvenire”

O tempo constitui fundamentalmente uma espécie de coreografia interior. Dir-se-ia que a própria vida nos solicita a que a escutemos de um outro modo. É com este imperativo que cada um de nós é chamado a confrontar-se: a irresistível necessidade de reencontrar a vida na sua forma pura. Por exemplo: se a linha azul do mar nos seduz tanto, é também porque esta imensidão nos recorda o nosso verdadeiro horizonte; se subimos às altas montanhas, é porque na visão clara de cima se alcança do real, nessa visão luminosa e sem cesuras reconhecemos uma parte importante de um apelo mais íntimo; se vamos à procura de outras cidades (e, nessas cidades, de uma imagem, de um fragmento de beleza, de um não sei quê…), é também porque estamos em busca de uma geografia interior; se simplesmente nos concedemos uma experiência do tempo dilatada (refeições tomadas sem pressa, conversas que se prolongam, visitas e encontros), é porque a gratuidade, e só essa, nos dá o sabor prolongado da própria existência.

Tomemos esse verbo cunhado por Rainer Maria Rilke que diz: «Espero o verão como quem espera uma outra vida». Este verso não nos projeta para fora de nós, antes inicia-nos na arte da imersão interior. Verdadeiramente durante os longos invernos do tempo não é uma vida estranha e fantasiosa aquela que devemos esperar (e para a qual trabalhar!), mas uma vida que realmente nos pertença. É de um verão assim que Rilke fala, e que pode coincidir com qualquer estação: uma necessária oportunidade para nos imergirmos mais a fundo, mais dentro, mais alto, aceitando o risco de colher a vida integralmente e dela nos espantarmos. Na escassez e na plenitude, na dolorosa imprevisibilidade como na sabedoria confiante. Pensemos na proposta que, mais de uma vez, Jesus faz aos discípulos: «Passemos à outra margem» (Marcos 4, 35). Passar à outra margem não significa necessariamente a transferência para outro lugar, diferente daquele em que nos encontramos.

Às vezes, tudo o que nos é preciso é habitar a vida de um outro modo. É simplesmente caminhar com um outro passo nas estradas que já percorremos a cada dia. É abrir a janela quotidiana, mas lentamente, nas consciência de que estamos a abrir. É reaprender uma outra qualidade para uma quotidianidade talvez demasiado abandonada às rotinas e aos seus automatismos. É, no fundo, saborear o gosto das coisas mais simples. Podemos fazer uma viagem inesquecível, fascinados pelo sabor do instante presente, pela contemplação da paisagem que nos é mais próxima, da sabedoria de uma conversa, do silêncio de um livro que já temos entre as mãos. Pensemos no que escreve Marcel Proust: «Talvez não haja na nossa infância dias que tenhamos vivido tão plenamente como aqueles que passámos com um livro predileto». Que desafio, esta noção de «dias plenamente vividos», e como nos é necessário avizinharmo-nos dela! «Passemos à outra margem.» As viagens não são só exteriores. Não é simplesmente na cartografia do mundo que o homem viaja. Fazer uma deslocação comporta uma mudança de posição, uma maturação do olhar, abertura ao novo, uma adaptação a realidades e linguagens, um confronto, um diálogo, inquietante ou encantado, que necessariamente deixa impressões muito profundas. A experiência da viagem é experiência da fronteira e de novos espaços, de que o homem tem necessidade para ser ele próprio. «Passemos à outra margem.»

A viagem é uma etapa fundamental na descoberta e na construção de nós mesmos e do mundo. É a nossa consciência que caminha, descobre cada detalhe do mundo e tudo olha de novo como se fosse a primeira vez. A viagem é uma espécie de motor desse olhar novo. Por isso é capaz de introduzir na nossa vida e nos seus esquemas, na sua organização, elementos sempre inéditos que podem operar essa recontextualização radical que, com um vocabulário cristão, chamamos “conversão”. Muitas mudanças de paradigma epocais (também eclesiais) tiveram a ver precisamente com a aceitação de um olhar viajante sobre o nosso mundo habitual e as suas convenções. O escritor Bruce Chatwin utiliza, a esse respeito, a expressão «alternativa nómada», expressão secularizada mas que pode bem ser reconduzida ao campo teológico e bíblico.

Abraão é um errante. Moisés descobre a sua vocação e missão como mandato de itinerância. Muitos dos profetas de Israel, de Elias a Jonas, viveram como exilados e proscritos. Jesus não tinha onde pousar a cabeça e habitava, dando-lhe sentido, um trânsito permanente. Os seus discípulos são convidados aos quatros cantos da Terra. O cristianismo define-se assim através de uma extraterritorialidade simbólica, sem cidade e sem morada, que permite a fenda, a abertura à revelação de um sentido maior. «Passemos à outra margem», propõe-nos Jesus.

 Trad.: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura , Publicado em 06.06.2017

Compaixão

Clara Soares, jornalista e psicóloga, Visão, 28.maio.2017

James poderia ter sido apenas mais um miúdo pobre, com fome, condenado a crescer numa família disfuncional e a viver à margem até final dos seus dias numa pequena aldeia da Califórnia. Tinha 12 anos quando entrou numa loja de magia. A misteriosa mulher que o atendeu foi o seu porto de abrigo: durante um mês e meio, ensinou-lhe “truques” que lhe mudariam a vida. Meio século depois, o prestigiado neurocirurgião dedica-lhe o livro Dentro da Loja Mágica (Lua de Papel, 230 págs, €14,90).

Nesta obra, o médico explica como superou a adversidade e alcançou o sonho de vencer na vida através de técnicas milenares – relaxando o corpo, acalmando a mente, visualizando o que desejava. James teve tudo – tornou-se milionário – e quase tudo perdeu, na bolha das dot.com. Restavam-lhe ações de uma empresa que valiam 30 milhões de euros, aplicadas num fundo universitário. Apesar de ter dívidas de 3 milhões de euros, Doty decidiu doar todas essas ações ao fundo, aplicando a quarta técnica que a tal mulher misteriosa lhe ensinara: abrir o coração. Hoje, continua a acreditar que a generosidade e a compaixão transformam o mundo. Decidiu fundar o Centro de Investigação e Educação da Compaixão e Altruísmo (CCARE), apoiado pelo Dalai Lama. Aos 61 anos, James vive cada dia como se fosse único. Porque é mesmo.

  • Dorme pouco por natureza?

Por norma, costumo precisar de quatro a seis horas. Mas, se estiver realmente muito cansado, sou pessoa para dormir 12 horas seguidas. Outras vezes opto por fazer uma pequena sesta.

  • É raro encontrar médicos e investigadores que tenham um discurso próximo do místico.

Se pensarmos no que nos torna humanos, seja através da religião, da cultura ou da sociedade, chegamos sempre à compaixão. Deve haver uma razão para isso. Como cientista, sou ateu. Não acredito num Deus que olha por mim nem que existe algo mais para além do presente. Tal não impede que haja uma maioria a acreditar nisso, nem que eu reconheça a beleza da vida e a capacidade para amar e cuidar que as pessoas têm. Fascina-me como os líderes filosóficos e religiosos estão disponíveis para motivar as pessoas a serem melhores. Os budistas, por exemplo, usam técnicas validadas pela ciência para melhorar a saúde física e mental.

  • Diz que o coração é um órgão inteligente. Quer explicar isso um pouco melhor?

Começa a provar-se cientificamente o que diziam os líderes espirituais: a ligação entre a mente e o coração, que está ligado ao nervo vago, situado entre a base da cabeça e o tronco cerebral. Estes dois órgãos comunicam entre si através do sistema nervoso autónomo, que é formado por dois sistemas, o simpático e o parassimpático. Continuar a ler Compaixão

Humor

«Com frequência somos demasiado áridos, indiferentes e desinteressados, e em vez de transmitir fraternidade, transmitimos mau humor, insensibilidade e egoísmo. E com mau humor, insensibilidade e egoísmo não se pode fazer crescer a Igreja», afirmou o papa em 2013.

Poucos dias antes do Natal do ano seguinte, no encontro com os cardeais e colaboradores da Cúria Romana, Francisco integrou no «catálogo» das enfermidades da estrutura da Santa Sé a «doença da cara fúnebre, ou seja, das pessoas rudes e amargas que consideram que, para se ser sério, é preciso pintar o rosto de melancolia, de severidade e tratar os outros – sobretudo aqueles considerados inferiores – com rigidez, dureza e arrogância».

«Um coração cheio de Deus é um coração feliz que irradia e contagia com a alegria todos aqueles que estão ao seu redor: disso nos damos conta imediatamente! Assim, não percamos aquele espírito jubiloso, bem-humorado e até auto-irónico, que faz de nós pessoas amáveis, mesmo nas situações difíceis. Quanto bem nos faz uma boa dose de são humorismo», declarou.

Como “receita” para essa maleita, o papa prescreveu a oração de S. Tomás More – que afirmou rezar todos os dias -, onde se lê: «Dai-me, Senhor, o sentido do bom humor. Concedei-me a graça de compreender uma brincadeira para descobrir na vida um pouco de alegria e partilhá-la também com os outros». Provavelmente inspirado por estas palavras, e também por uma homilia que Francisco proferiu poucos meses depois de ser eleito, em maio de 2013, dizendo que «os cristãos melancólicos» têm «cara de vinagre», D. Juan del Río, arcebispo castrense de Espanha, propõe um «decálogo para viver a alegria de ser cristão»:

«1. O Evangelho cativa pelo sorriso e o gozo do discípulo missionário.
2. O humor faz-nos humildes e recorda o pouco que somos nesta vida.
3. O bom carácter facilita deixarmo-nos surpreender por Deus a cada dia.
4. O humor fomenta as boas relações e reduz os conflitos.
5. Sem vivacidade de ânimo perdemos perspetiva e escapam-se muitas coisas.
6. O riso, o engenho, é uma arma contra o orgulho dos poderosos.
7. Sorrir é bom para o corpo e alma, atrai e dá serenidade.
8. A hospitalidade pede: acolhimento gozoso, sorriso franco e doses de humor.
9. Estar contente abre a mente e o coração para a oração e a ação.
10. A alegria cristã é corajosa diante das dificuldades e mesmo diante do martírio».

fonte: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

A beleza da vulnerabilidade

Ana Luísa de Castro Oliveira, psicóloga, psicologia.pt

Estamos constantemente sujeitos a situações que implicam um maior ou menor grau de vulnerabilidade, e por vezes colocamo-nos noutras tantas que nos deixam ainda mais vulneráveis. A vulnerabilidade é, assim, como que uma condição inerente à nossa condição humana, e, mesmo assim, achamos que podemos fugir dela.

Porquê?!? Porque não queremos estar vulneráveis. Porque, geralmente (e não erradamente), associamos a vulnerabilidade ao medo, a ter dúvidas, a estar em risco, exposto. Mas porque também associamos a vulnerabilidade a fraqueza, a angústia e sofrimento… coisas que não queremos sentir.

Nos seus estudos, Brené Brown foi percebendo que, muitas vezes, face à vulnerabilidade, tendemos a tentar “adormecê-la” em nós. E é aqui que alerta para o facto de não ser possível “adormecermos” selectivamente as emoções, ou seja, não nos é possível escolher não sentir as coisas “más”, sem que estejamos a negligenciar também outras emoções e afectos prazerosos. Ao tentarmos afastar-nos de sentimentos fortes como a vulnerabilidade, a dor, a vergonha, o sofrimento, a desilusão, estamos também a adormecer em nós a possibilidade de sentir alegria, gratidão, felicidade… o que nos leva, invariavelmente, a sentirmo-nos ainda mais infelizes, o que por sua vez nos faz sentir vulneráveis, gerando-se um ciclo vicioso.

Ao analisar as respostas às entrevistas que foi realizando, Brené Brown confirmou que, se por um lado, a vulnerabilidade é o centro da vergonha e do medo, também é (espantem-se alguns) fonte de alegria, da empatia, de amor, do sentimento de pertença. E percebeu que as pessoas que se sentiam merecedoras desse amor e desse sentido de pertença (por oposição àquelas que se questionam constantemente se serão suficientemente boas para o merecer) tinham em comum quatro características: Coragem (de serem imperfeitas), Compaixão (com elas mesmas primeiro, e depois com os outros), Afinidade (estavam dispostas a abdicar de quem achavam que deveriam ser, para serem, de uma forma autêntica, quem realmente eram, o que é indispensável para a afinidade), e Vulnerabilidade.

Estas pessoas falavam da vulnerabilidade como sendo necessária (mas nem por isso mais confortável ou menos dolorosa) e mostravam-se dispostas a fazer algo para o qual não houvesse quaisquer garantias, para dizerem “amo-te” primeiro, para respirar fundo enquanto aguardavam o telefonema do médico depois de um exame delicado, estavam dispostas (e consideravam fundamental) a investir numa relação, que podia ou não resultar. Abraçavam completamente a vulnerabilidade, acreditando que o que as torna vulneráveis as torna também bonitas.

Do bom uso do fracasso

José Tolentino Mendonça, E, Expresso, 29.abril.2017

Como chegamos a ser o que somos? Por um trabalho longo e paciente, que decorre entre muita incerteza. E vem-me à cabeça o exemplo de Cézanne. Oseu pai, um próspero banqueiro de província, opunha-se a que o filho seguisse a vocação de pintor, pois considerava que isso colocaria em causa o seu futuro e o negócio familiar. Diga-se que o próprio Cézanne hesitava também. Perguntava-se a si mesmo se teria o talento necessário. Valeria a pena arriscar tudo o que era naquele caminho? Para satisfazer o pai, conclui o bacharelato e estuda Direito, mas sem abandonar dentro de si o seu sonho. O romancista Émile Zola, um seu amigo de infância, protesta com Cézanne contra tanta indecisão e pressiona-o para que vá viver para Paris. Cézanne acaba por aceder e ir ao seu encontro. Mas ao fim de uns meses é recusado na Escola de Belas Artes. Os académicos parisienses acham-no um colorista exagerado e pouco promissor. A verdade é que não o entendiam. Regressa então à Provença, devastado por aquela reviravolta, e recomeça a trabalhar no banco do pai. Dá que pensar esta história, e a forma contraditória que toma o caminho de um artista que revolucionou a pintura moderna. Por alguma razão é com ele que a pintura deixa de ser histórica para se tornar pessoal e íntima, centrada na batalha solitária do artista com a própria obra.

Há aquela misteriosa frase de T. S. Eliot: “Por vezes, ser um homem fracassado é em si mesmo uma vocação”. Pensamos pouco nisto: que papel na vocação de cada um de nós está reservado ao fracasso? Um dos livros mais extraordinários do cânone ocidental é consensualmente “Moby Dick”, de Herman Melville. O escritor escreveu-o aos trinta anos e foi um fracasso de tal ordem que ele se viu obrigado a pôr fim às suas expectativas literárias. “Moby Dick” foi declarado ilegível. Tinha uma arquitetura narrativa estranhíssima: tanto era uma aventura marítima, como um relato científico sobre baleias ou um tratado metafísico transbordante de pormenores e erudição. Mesmo para os leitores ingleses parecia uma floresta impenetrável, pois descrevia com um vocabulário rigoroso, assumidamente técnico, cada uma das partes de um barco e de toda a vida náutica. Não admira que os leitores, exasperados, se afastassem. E, contudo, nessa imensa catedral de palavras que é o romance “Moby Dick”, Melville reconfigurava a própria existência da linguagem e construía uma radical demanda interior. Aconteceu com ele o que frequentemente acontece connosco: a sua obra-prima começou por ser o seu maior fracasso.

“Estás a ouvir? — perguntou o principezinho. — Acordámos o poço e ele pôs-se a cantar…”. Não se espera que existam poços num deserto. O pequeno herói de Saint-Exupéry garante, porém, que “o que torna belo um deserto é que ele esconde um poço em algum lugar”. Resmungamos com a vida. Falta-lhe alguma coisa, nunca nada é perfeito, nada está acabado ou resolvido. É como se estivéssemos a jogar um jogo insolúvel: se temos o poço, falta-nos a corda; se temos a corda, falta-nos o balde; se temos a corda, o balde e o poço, falta-nos a força de ir até ao fundo da nascente buscar a água que nos dessedente. “O Principezinho” declara que não nos falta nada. Cada um de nós tem tudo o que precisa para experimentar a alegria. Não é um problema de conhecimento, é uma questão de olhar. Olharmos para o que somos e para o que nos rodeia com um coração simples, capaz de perceber o dom que nos habita. Pois, se encostarmos o ouvido até mesmo junto das nossas maiores derrotas compreenderemos que a nossa vida canta!

“Fátima”

Daniel Oliveira, Expresso Diário, 4.maio.2017

Um dia que os historiadores queiram compreender os vários países de que somos feitos deverão, entre muitas coisas, ver os filmes de João Canijo. Depois de “Sangue do meu Sangue”, “Fátima” consegue continuar a viajar pelas periferias do Web Summit e das startups com que nos enganamos para nos integrarmos numa ilusão de modernidade sem povo nem cultura. Em “Fátima”, como em quase tudo o que Canijo faz, não há nem o romantismo do intelectual urbano enfadado, nem o desrespeito anedótico do “kitsch”. Apenas e só a esmagadora honestidade de mergulhar na vida das pessoas sem outra vontade que não seja a de a ver e compreender. Na realidade, o filme oferece-nos, como ficção, uma aproximação muito mais rigorosa à realidade do que qualquer reportagem que alguma vez tenha lido sobre as peregrinações a Fátima. E isto resulta da forma como Canijo e os atores com que trabalha preparam os filmes. E, claro, do talento esmagador de Rita Blanco, Anabela Moreira e aquelas 11 mulheres.

Não sei se “Fátima” é um filme sobre mulheres ou sobre o arreigado catolicismo nacional. Talvez seja sobre as duas coisas, porque as duas se confundem totalmente, como a relevância primeira do culto mariano comprova – para a fé popular da maioria dos católicos Nossa Senhora é quase mais importante do que Jesus. O filme é seguramente sobre Portugal.

Continuando tão ateu como sempre fui, há poucas coisas no meu olhar sobre o mundo e sobre Portugal que tenham mudado tanto, desde a minha juventude até hoje, como a minha relação com a religião. O que, curiosamente, contraria o meu percurso político da esquerda comunista – que, graças à sua implantação popular sempre abordou com muita cautela o fenómeno religioso – para uma esquerda mais libertária. Da irritação racionalista contra as superstições e a alienação passei para uma tolerância quase solidária com a resiliência da fé comunitária à selvajaria individualista e aculturada dos nossos tempos. Poderá dizer-se que fiquei mais conservador, mas prefiro pensar que fui ganhando uma maior compreensão da natureza humana – os conservadores dirão, claro está, que é a mesma coisa. A evolução não é apenas ou especialmente ideológica, é existencial. Uma coisa que, infelizmente, nunca se pode passar para as próximas gerações. O fascínio pelo novo é sempre mais forte para quem quer, com toda a legitimidade, mudar o mundo dos pés à cabeça. Atirando fora o bebé com a água do banho, como também é inevitável. E o bebé é bem visível em “Fátima”: o sentimento de comunidade, com todo o seu asfixiante controlo social (também lá está), mas a sua comovente e empolgante experiência de elevação.

“Fátima” também é sobre sacrifício. Sobre o sacrifício das vidas normais e como é em mais sacrifício que encontram a sua libertação. Como se a liberdade de vidas sacrificadas por condições impostas por outros só se pudesse conquistar no sacrifício que nos impomos a nós próprios. E como se esse sacrifício, que facilita a experiência mística e libertadora, fosse condições para nos compreendermos como seres humanos. Estando seguramente entre o minúsculo grupo de portugueses que passou a sua infância e juventude ao lado de qualquer vivência religiosa, encontrei este elogio do sacrifício de forma muito evidente na ética comunista. Sem nunca ter experimentado nenhuma, o sentido das peregrinações a
Fátima não me é estranho.

Também sou dos que acreditam que o sacrifício autoimposto nos liberta do sofrimento que nos impõem. E que esse sacrifício, com um objetivo final – o Santuário de Fátima, uma sociedade melhor ou qualquer utopia –, só ajuda a construir qualquer coisa de real se for feito em grupo. Essa coisa real é o sentido de pertença que hoje merece escárnio da cultura do individualismo egomaníaco. E é por isso mesmo que sou incapaz de olhar para as novas igrejas de “autoajuda”, evangélicas, que prometem a solução para os problemas individuais como quem vende champô, como olho para as grandes religiões, construídas por camadas de tempo e de símbolos. Encontramos um sentido pragmático da fé tanto na IURD como nas promessas que levam muitos peregrinos a Fátima. Mas o que uma resolve em troca de sacrifício a outras resolvem pedindo apenas dinheiro, o que numa se dirige a uma tradição comunitária, muito presente no mundo rural, outras dirigem-se à solidão suburbana. E é por isso mesmo que a coerência católica condena o capitalismo enquanto essas novas seitas o representam na perfeição.

Muitos dos católicos que conheço não reconhecem nos supostos milagres de Fátima um elemento relevante na sua fé. Tenho, como muitos, convicções sobre a origem do fenómeno de Fátima, que começou por ser popular antes de ser institucional e que acabou por ter, depois da revolução Russa e do anticlericalismo da 1ª República, funções políticas muitíssimo claras. Mas estes fenómenos, como todas as tradições culturais que perduram, são apropriados de formas menos literais. E é por isso que é possível, como em “Fátima”, que os peregrinos cantem, no meio de músicas sobre a terra sem igual que é Vinhais e a roupa de Jesus lavada do Rio Jordão, a “Grândola Vila Morena”, também ela transformada em tradição popular sem referente claro. Porque um povo é muitas coisas e não se divide de forma simples entre crentes e não crentes, conservadores e progressistas, provincianos e cosmopolitas. E é difícil compreender este nosso povo sem compreender o culto mariano, a função libertadora do sacrifício e a experiência coletiva da fé. É difícil compreender este povo sem compreender o que é uma peregrinação a Fátima, retratada com a comovente e habitual honestidade de João Canijo.