V Semana da Quaresma

Domingo (dia 33)

É bom saber que esperas por todos

Senhor,

ninguém vive tão à espera como tu.

Na tua misericórdia esperas por todos.

Pelos que estão longe e pelos que estão perto.

Pelos que te pressentem nos acessos mais comuns da vida e pelos que percorrem os corredores infindos acumulando silêncio e perguntas.

Pelos que te avistam na certeza e pelos que ligam o teu mistério a esparsos e indecifráveis indícios.

Pelos que identificam o teu sinal indiscutível e pelos que não te encontram em nenhuma parte.

Esperas por todos.

Pelos que todos os dias te rezam: “Vem, Senhor!” e por aqueles cuja oração é uma ferida silenciosa, uma convulsão, um tormento ou uma revolta.

É bom saber que, na imensidão compassiva da tua espera, cada um está a tempo do conhecimento e da esperança.

José Tolentino Mendonça in “Rezar de olhos abertos”

Segunda-feira (dia 34)

Peregrinos

Deus está infinitamente além de tudo o que possamos imaginar. Estamos em busca, sedentos de amor e de verdade. Onde quer que estejamos na nossa peregrinação interior, frequentemente estamos a tatear no nosso caminho. Mas, tornando‐nos «peregrinos de confiança», é possível caminharmos juntos, partilharmos a nossa procura: as nossas questões e também as nossas convicções.

Deixemos que Cristo renove o nosso olhar: através dele reconhecemos mais claramente a dignidade de cada ser humano e a beleza da criação; a esperança, longe de ser uma confiança ingénua, nasce e renasce porque se enraíza em Cristo; uma alegria serena preenche‐nos e, com ela, a coragem de assumir as responsabilidades que Deus nos confia na Terra.

Irmão Alois de Taizé in “Manter a esperança em tempo propício e fora dele” (Carta 2021)

Terça-feira (dia 35)

Partilhar a cruz

Jesus,

o teu amor divino é o único que pode redimir a humanidade inteira. Sempre que, bondosamente, vamos ao encontro de alguém que sofre, alguém que é perseguido e inerme, partilhando o seu sofrimento, ajudamos a levar a tua própria cruz. E assim obtemos salvação, e nós mesmos podemos contribuir para a salvação do mundo.

Senhor,

abre os nossos olhos e o nosso coração, dando-lhe, na partilha da cruz, a graça da fé. Ajuda-nos a assistir o nosso próximo que sofre, ainda que este chamamento resulte em contradição com os nossos projetos e as nossas simpatias. Concede-nos reconhecer que é uma graça poder partilhar a cruz dos outros e experimentar que, dessa forma, estamos a caminhar contigo. Faz-nos reconhecer, com alegria, que é precisamente pela partilha do teu sofrimento e dos sofrimentos deste mundo que nos tornamos ministros da salvação, podendo assim ajudar a construir o vosso corpo, a Igreja, a comunidade.

Cardeal Joseph Ratzinger  in “Via sacra no Coliseu de Roma, 2005 – textos e meditações”

Quarta-feira (dia 36)

Mistério

Jesus, nossa esperança,

ao seguir-te, escolhemos amar com a compaixão do coração. Tu queres para nós uma alegria do Evangelho, por mais ténue que ela possa ser. E, mesmo quando o nosso íntimo é assaltado pelo sofrimento das contradições, faz com que nos abandonemos a ti, Cristo, procurando entregar-te e confiar-te o que poderia pesar muito sobre nós.

Jesus, nossa luz,

tu não queres para ninguém a angústia interior. E vens iluminar em nós o profundo mistério da dor humana. Através dela, nós aproximamo-nos da intimidade com Deus.

Espírito Santo consolador,

faz-nos aliviar o sofrimento dos inocentes e faz-nos estar atentos aos que, vivendo numa situação de sofrimento, irradiam, através da sua vida, a santidade de Cristo Jesus. 

Irmão Roger de Taizé in “Oração: frescura de uma fonte”

Quinta-feira (dia 37)

A via da misericórdia

Senhor,

faz-nos escolher a via da misericórdia.

Dá a cada um de nós a capacidade de acolher apenas, sem juízos prévios nem cálculos.

Dá-nos a arte de acolher o trémulo, o ofegante, o frágil modo como a vida se expressa.

Torna-nos atentos ao desenho silencioso e áspero dos dias; à dor profunda e, porém, quase anónima a nosso lado; ao grito sem voz; às mãos que se estendem na nossa direção sem as vermos; à necessidade que nem encontra palavras.

Ensina-nos que fomos feitos para a misericórdia e que ela é a sabedoria que tu amas.

José Tolentino Mendonça in “Rezar de olhos abertos”

Sexta-feira (dia 38)

Oremos

Nas noites escuras, é preciso viver uma tríplice paciência: na fé, na esperança e no amor. O amor sem paciência não é verdadeiro amor; a esperança sem paciência não é verdadeira esperança; e a fé sem paciência, quando se vive a hora sombria da provação, não está amadurecida nem é profunda o suficiente. Assim também nós podemos estar na angústia profunda e gritar para que seja afastado de nós o cálice do sofrimento. Só a sinceridade na oração nos faz aprender a confiança, de maneira a podermos dizer «seja feita a tua vontade, não a minha».

Oremos por todos aqueles que estão a viver o seu Getsémani. Por todos aqueles que na sua vida experimentam a escuridão da cruz, a ansiedade e a dor.

Oremos por todos aqueles que estão deprimidos, pelos doentes, por quem está a morrer e pelas pessoas que estão a perder os seus entes queridos.

Oremos por todos aqueles que se encontram na dor e na tristeza, para que recebam o dom da oração e sejam assim capazes de experimentar força e paz.

Oremos por quem é chamado a viver a paciência no amor. 

Oremos para sermos libertados da fé superficial e imatura que quer evitar a cruz.

Oremos por todas as pessoas corajosas que aceitam e abraçam a sua cruz.

Tomáš Halík in “Via Crucis – Encontro com Jesus no caminho da cruz, da nossa vida e da nossa história”

Sábado (dia 39)

A massa da argila

Estás em mim, ó Deus.

Brilhas nas margens do meu nome.

Ouves fielmente a canção dos meus anos, que por vezes é de pedra, por vezes é acorde iluminado.

Que nunca a vida me pareça um lugar indiferente.

Que a chama da tua presença ilumine tudo por dentro e eu possa contemplar a tua maravilhosa transparência onde quer que tu te mostres: no plano liso e na rugosidade, nos factos claros e no enigma, no louvor e na dolorosa contradição que também assinala a vida.

A irmos e virmos, somos o teu mapa.

Na palavra e no silêncio, somos a tua semelhança.

Tanto a fadiga como o repouso destapam em nós a tua irremovível pegada.

Sabemos que na massa da argila informe colocaste, Senhor, o sopro do teu Espírito, que desde as origens dos tempos murmura: “Vem!”

José Tolentino Mendonça in “Rezar de olhos abertos”