VII Semana do Tempo Comum

VII Domingo do Tempo Comum

Meditação

Faça-se Luz.

Faça-se Luz na tua vida. Leva Luz até à tua vida. Não lhe dês muito brilho, mas intensidade. Ilumina bem o que és. Ilumina os teus dons. Ilumina as tuas falhas. Leva Luz a todos os teus cantos e recantos. Leva Luz aos altares e aos túmulos da tua vida. 

Leva contigo a Luz que te liberta da culpabilização. Leva contigo a Luz que aqueça as tuas sombras. Leva contigo a Luz que te ajuda a contemplar e a contemplar-te. Leva contigo a Luz que te permite encontrar-te. Leva contigo a Luz que te enamora com a vida. Leva contigo Aquele que é a Luz. 

Leva contigo a Luz…

Faça-se Luz. 

Faça-se Luz em tudo o que és e fazes. Que sejas a Luz de tantos homens e mulheres. Que sejas a Luz que acolhe todos sem julgamentos. Que sejas a Luz que reza em cada c(oração). Que sejas a Luz que se gera em perdão. Que sejas a Luz da criação. Que sejas a Luz daqueles que não O vêem. 

Faça-se Luz. 

Faça-se Luz no teu olhar. Faça-se Luz no teu abraço. Faça-se Luz no teu cumprimento. Faça-se Luz nos teus medos e nas tuas inquietações. 

Leva a Luz contigo. Leva a Luz em ti. Leva a Luz bem ao fundo de ti. 

Se a Luz estiver em ti, então Ele estará contigo. Não estará para julgar, mas para acolher. Não estará para condenar, mas para Se doar. 

Faça-se Luz para que o Seu amor demore-se em ti.

Emanuel António Dias  in “imissio.net”

Segunda-feira

O coração voa fora de nós

O melhor de nós não é para nós. O coração vai para onde depositarmos a nossa atenção, as nossas esperanças e os nossos cuidados. Só raras vezes o nosso coração está dentro do nosso peito, e isso é bom. Muito.

Há infernos escondidos dentro de nós. Poços nos quais aqueles que se julgam mais do que são, aqueles que julgam que as aparências são mais importantes do que a verdade, aqueles que julgam bastar-se a si mesmos.

Há paraísos que podem ser encontrados. Corações em paz que acalmam as mais revoltas tempestades das nossas vidas.

É assim a um tal ponto que, por vezes e em certas pessoas, o ar que rodeia o corpo ganha uma cor subtil e muito bela. Quando se movem parecem cometas que deixam ouro espalhado por onde passam!

Outros há que, por terem assim o coração tão exposto, sentem tudo. As suas dores e as do mundo inteiro. Abraçam os corações que sofrem e com generosidade partilham o peso das angústias e dos desesperos, mas também se alegram com os que rejubilam pelas alegrias da vida!

O amor faz com que os corações se entreguem e se forme uma nuvem que permite aos que o aceitem caminhar por cima dos buracos e pedras deste mundo enganador.

O coração voa fora de nós e faz-nos voar, eleva-nos e leva-nos até ao ponto mais alto da existência: o céu! Ver o mundo através dos olhos do amor é admirar o coração de tudo o que nos rodeia.

Amar não é uma liberdade que se perde. É uma vontade de ser rico por se haver dado tudo!

E amor é tudo aquilo de que o mundo precisa.

José Luís Nunes Martins  in “www.agenciaecclesia.pt”

Terça-feira

Deus da esperança

A expressão “Deus da esperança” não significa somente que Deus é o objeto da nossa esperança, ou seja, Aquele que esperamos alcançar um dia na vida eterna; quer dizer também que Deus é Aquele que já neste momento nos faz esperar, aliás, nos torna «alegres na esperança» (Rm 12, 12): alegres agora por esperar, e não só esperar para ser alegres. É a alegria de esperar e não esperar para ter alegria, já hoje. “Enquanto houver vida, haverá esperança”, diz o ditado popular; e é verdade também o contrário: enquanto houver esperança, há vida. Os homens necessitam de esperança para viver e precisam do Espírito Santo para esperar.

São Paulo atribui ao Espírito Santo a capacidade de nos fazer até “transbordar de esperança”. Transbordar de esperança significa nunca desanimar; significa esperar «contra qualquer esperança» (Rm 4, 18), ou seja, esperar até quando falta qualquer motivo humano para esperar, como aconteceu com Abraão no momento em que Deus lhe pediu para sacrificar o único filho, Isac, e como sucedeu também, ainda mais, com a Virgem Maria aos pés da cruz de Jesus.

O Espírito Santo torna possível esta esperança invencível dando-nos o testemunho interior de que somos filhos de Deus e seus herdeiros (cf. Rm 8, 16). Como poderia Aquele que nos entregou o seu único Filho não nos dar também com Ele todas as coisas? (cf. Rm 8, 32). «A esperança — irmãos e irmãs — não desilude: a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5, 5). Portanto, não desilude, porque há o Espírito Santo dentro de nós que nos impele a ir em frente, sempre! E por esta razão, a esperança não desilude.

Há mais: o Espírito Santo não nos torna somente capazes de esperar, mas inclusive de ser semeadores de esperança, de ser também nós — como Ele e graças a Ele — “paráclitos”, ou seja, consoladores e defensores dos irmãos, semeadores de esperança. Um cristão pode semear amarguras, pode semear perplexidades, e isto não é cristão, e quem faz isto não é um bom cristão. Semeia a esperança: semeia óleo de esperança, semeia perfume de esperança e não vinagre de amargura e de desesperança. 

Papa Francisco in “Audiência Geral de 31.05.2017”

Quarta-feira

Tornar-se discípulo de Cristo

Imbuídos da vida de Cristo e do seu amor pelos outros, os discípulos são aqueles que querem viver como ele viveu. Durante a vida pública de Jesus, uma multidão de discípulos caminhava atrás dele. Seguiam-no de um lugar a outro para entenderem os seus ensinamentos. Entre eles, alguns continuaram a segui-lo até ao fim, até às horas mais sombrias da cruz e da morte. Mas não eram muitos. Muitos deixaram-no ao longo do caminho ou ao fim de algum tempo.

Para aquele que quer caminhar com ele, o chamamento de Cristo é radical, sem equívoco. Pede para se «renunciar» a si mesmo. É uma palavra difícil de entender na mentalidade de hoje. Não quer dizer que se deve negar aquilo que se é. Trata-se de renunciar àquela parte de si mesmo que vai contra a vida de Cristo e os seus ensinamentos. Compreendemos claramente que a perda de si não é pedida por Jesus. É, acima de tudo, um convite a realizar-se, seguindo-o verdadeiramente. Não com uma atitude preguiçosa e sem fervor, mas apenas com todo o coração e com toda a força é que o discípulo poderá seguir o caminho do Mestre.

A cruz de que Jesus nos fala é a cruz do «dia após dia», que cada um é chamado a carregar. Jesus sabe que os seus discípulos deverão encarar múltiplas provas e dificuldades. Ele encoraja-os a ter audácia, a enfrentar o desafio, a dar-se sem medo de sofrer pelo Evangelho e a encontrar, assim, uma vida em plenitude.

Na verdade, se caminharmos na senda de Cristo, hoje como no tempo dos Apóstolos, é inevitável que tenhamos que ir contra a corrente e, em certos momentos, nos tenhamos que tornar num «sinal de contradição» na sociedade. Por medo de perder o rosto ou pela segurança, será que vamos virar as costas aos diferentes obstáculos ou vamos avançar com confiança, com audácia e com a entrega de nós mesmos? O próprio Cristo não sofreu passivamente, mas entregou-se pelos outros. É verdade que o seu chamamento é exigente. Mas àquele que se entrega por causa de Cristo e do Evangelho, a alegria e a recompensa prometidas ser-lhe-ão oferecidas cem vez mais (Marcos 10,28-30).

Comunidade de Taizé in “Textos bíblicos com comentário”

Quinta-feira

Escutar

A reconstrução de um mundo justo passa através do exercício da escuta. Vemo-lo antes de tudo na relação entre pais e filhos, adultos e jovens. A necessidade de se ser aprovado e reconhecido passa necessariamente através da experiência da escuta: um pai tem nas mãos o poder de gerar frustração ou bem-estar no seu filho simplesmente refutando ou acolhendo o implícito, e por vezes silencioso, pedido de escuta. Também uma instituição, também a Igreja, tem nas suas mãos o poder de dar acolhimento ou transmitir indiferença. Muitas feridas foram geradas pela perceção, verdadeira ou presumida, de não termos sido escutados: nessas ocasiões não nos sentimos amados.

Vendo bem, a capacidade de escutar é precisamente a possibilidade dada ao ser humano para evitar o risco do delírio de omnipotência e para reconhecer que foi feito para a relação. A criança aprende a escutar antes de aprender a falar, aliás, aprende a falar precisamente porque tem a capacidade de escutar: falar quer dizer inicialmente repetir aquilo que escuto. Isto quer dizer que nunca aprenderia a falar se não houvesse antes de mim alguém que me dirige a palavra e que posso escutar. Apenas porque escuto, posso falar. Hoje, talvez, já não somos capazes de falar precisamente porque deixámos de escutar. É como se ao não escutar, eliminássemos a verdade da nossa origem. Esta dinâmica é muito clara na revelação bíblica: «Deus disse» é o primeiro passo da história da salvação. O ser humano escuta. Reconsiderar a nossa atitude para a escuta significa também reapropriar-se da nossa identidade diante de Deus. Graças a esta capacidade de escuta, o ser humano pode receber o dom da lei. Reencontramos aqui o profundo nexo, que no latim é evidente, entre escutar (“audire”) e obedecer (“ob-audire”). Não se pode obedecer sem escutar. Se a rebelião fundamental do ser humano consiste na recusa da relação com Deus e com os outros, só pode começar com o fechamento dos ouvidos. O mal começa daí, da desobediência, da traição do dom da escuta: o eu toma o todo o espaço quando não há mais nada que entra na nossa vida. Só numa escuta honesta reencontramos a nossa plena identidade, integrando as dimensões fundamentais da nossa pessoa.

Gateano Piccolo in “Osservatore Romano”

Sexta-feira

Meditação

Como é que Jesus viveu a negação de si mesmo, a perda de si próprio, o carregar a cruz? Não foi a cruz que tornou grande Jesus, mas foi a vida de Jesus que deu sentido até à cruz, quando Jesus esteve pendurado nela. Foi a vida de Jesus gasta a amar, a dar vida, a fazer justiça, a reconhecer e a ir ao encontro do outro nas suas necessidades; é também a vida de Jesus marcada pela amizade, fraternidade, afetos, contemplação da criação, encontros gratuitos; é ainda a vida de Jesus sustentada pela fé simples e radical em Deus, atravessada pela oração ao Pai e da escuta filial da sua Palavra, que conotou a cruz (símbolo de uma morte injusta e cruel, sinal do pecado do homem) com o selo da fidelidade e da solidariedade radical de Jesus. Fidelidade a Deus e solidariedade com os homens, sintetizados num único amor a Deus e ao próximo.

Jesus não teve como fim o autoaniquilamento, a perda da sua vida, mas o facto de vivê-la, plena e jubilosamente, perseguindo a liberdade e o amor. E amando livremente até ao fim, até ao ponto de não retorno.

Jesus viveu dando a vida: aos doentes, aos pecadores, aos marginalizados e aos desprezados. Jesus soube, isto é, escolheu e quis, dar a vida. A perda da sua própria vida foi dar tempo, forças físicas e espirituais, energias psíquicas e afetivas: Jesus deu a sua vida, dando vida aos outros. Não foi um mero perder, mas um dar, um gerar, um transmitir. Jesus também lutou com todas as suas forças contra a morte de cruz: orou intensamente para que fosse livre daquela hora. Mas também acolheu o indesejável, o que não queria, a contradição, como possibilidades de amar. Viveu na liberdade e no amor, na fidelidade a Deus e na solidariedade com os homens, mesmo o desumano a que foi sujeitado, mostrando-nos que “através de cada evento, seja qual for eventualmente o seu caráter não divino, passa uma estrada que nos conduz a Deus” (Dietrich Bonhoeffer). E até o ato de morrer de Jesus foi um ato de dar. Se amar é dizer sim, radicalmente àquele que se ama, Jesus amou, isto é, disse sim a Deus e aos homens como uma escolha sem retorno.

Luciano Manicardi in “Viver uma fé adulta – Itinerário para um Cristianismo credível”

Sábado

Dar tempo

Deixa! Confia! Acredita! Porque no caminho da fé não é apenas com a nossa força que nós contamos, é com a força da eficácia do próprio dom de Deus. Aquilo que Deus acende em nós e no nosso coração tem sempre a natureza de um milagre, de alguma coisa flagrante, tem sempre o inesperado, o imprevisível. A fé não é o caminho que nós já percorremos tantas vezes da mesma maneira, é uma abertura, é um rasgão, eu não sei o que vai acontecer, eu não sei como é que se vai dar… mas eu sei que vai acontecer em mim.

Santo Agostinho, na linha dos Padres da Igreja, dizia uma coisa tremenda. Ele dizia: “Porque é absurdo, eu acredito. Às vezes nós desistimos muito facilmente da vida, da nossa própria vida, porque achamos que já não vamos a tempo, que os anos passaram, que perdemos as oportunidades certas e que já não há lugar para nós, ou perdemos a esperança nos outros, desistimos! É muito fácil isto acontecer. Ora, Deus não desiste, e na fé nós sabemos que mesmo aquilo que nos parece impossível, mesmo aquilo que não está no plano das probabilidades acontecer, também acontece, também se dá a ver.

Porque é absurdo, eu acredito! A fé põe-nos à prova: nós, crentes, somos mulheres e homens expostos à prova da confiança, à prova de uma esperança maior que a própria esperança! E que muitas vezes contraria o horizonte da própria esperança… Mas é este fulgor, é esta intensidade que Deus quer colocar no coração de cada um de nós. Nós às vezes só vemos o deserto, só vemos a aridez, só vemos a secura, só vemos aquilo que está a ir declinando, a ir perdendo o seu vigor… Acreditemos naquilo que Deus nos diz: Elepróprio, o Senhor, vai arrancar da nossa vida um ramo novo evamos ser esse cedro verdejante. O Senhor vela pela fecundidade das nossas próprias vidas.

Por isso, a Palavra de hoje é uma palavra de confiança. E não necessariamente nas nossas forças, que são sempre frágeis. Eu acho que quando fazemos o diagnóstico da nossa vida, estamos a ver bem: somos frágeis, somos fracos, há tanta coisa por purificar, há tanta coisa que nos transcende… É verdade, não estamos numa ilusão, é verdade! É um diagnóstico realista das nossas possibilidades, mas a vida não é só isso e a nossa força não é só a nossa força. Não é só aquela que temos em nós. É a força que Deus deposita, é o fulgor das Suas sementes, é a intensidade da Sua palavra, é a novidade do Seu gesto, é o envolvimento concreto de Deus com cada um de nós que se torna depois o garante, a certeza, a grande razão da esperança…

José Tolentino Mendonça in “Homilia no XI Domingo do Tempo Comum”