VIII Semana do Tempo Comum

VIII Domingo do Tempo Comum

Abrir os olhos

Podemos perguntar-nos: O que é que move os nossos dias? Que amor nos impele a seguir em frente: o Espírito Santo ou a paixão do momento, isto é, uma coisa qualquer? Como nos movemos na Igreja e na sociedade?

Uma segunda pergunta: O que veem os nossos olhos? Simeão, movido pelo Espírito, vê e reconhece Cristo. E reza dizendo: «Meus olhos viram a Salvação» (2, 30). Eis o grande milagre da fé: abre os olhos, transforma o olhar, muda a perspetiva. Como sabemos através de muitos encontros de Jesus nos Evangelhos, a fé nasce do olhar compassivo com que Deus nos vê, dissolvendo as durezas do nosso coração, curando as suas feridas, dando-nos olhos novos para nos vermos a nós mesmos e ao mundo: olhos novos sobre nós mesmos, sobre os outros, sobre todas as situações que vivemos, mesmo as mais dolorosas. Não se trata dum olhar ingénuo, mas é sapiencial; o olhar ingénuo foge da realidade ou finge não ver os problemas; ao contrário, trata-se de olhos que sabem «ver dentro» e «ver mais além»; que não se detêm nas aparências, mas sabem entrar também nas brechas da fragilidade e dos fracassos para vislumbrar a presença de Deus.

Devemos ter esta sabedoria de olhar (é o Espírito que a dá): olhar bem, medir bem as distâncias, compreender as realidades. O Senhor não cessa de dar sinais para nos convidar a cultivar uma visão renovada da nossa vida. Não podemos fingir que não vemos esses sinais e continuar como se não importassem, repetindo as coisas de sempre, arrastando-nos por inércia nas formas do passado, paralisados pelo medo de mudar. Nós abrimos o coração, com coragem, sem medo. Abrimos o coração. Irmãos e irmãs, não desperdicemos o hoje a olhar para o ontem ou sonhando com um amanhã que jamais virá, mas coloquemo-nos diante do Senhor, em adoração, e peçamos olhos que saibam ver o bem e vislumbrar os caminhos de Deus. O Senhor no-lo concederá, se Lho pedirmos com alegria, com fortaleza, sem medo.

Por fim, uma terceira pergunta: Que estreitamos nos braços? Deus colocou o seu Filho nos nossos braços, porque o essencial, o centro da fé é acolher Jesus. Às vezes corremos o risco de nos perder e dispersar em mil coisas, fixar-nos em aspetos secundários ou mergulhar-nos nas coisas que temos de fazer, mas o centro de tudo é Cristo, que devemos acolher como o Senhor da nossa vida. Se acolhermos Cristo de braços abertos, acolheremos também os outros com confiança e humildade.

Papa Francisco in “Homilia na Festa da Apresentação do Senhor (2.2.22)”

Segunda-feira

Nós nos outros

Conseguirmos ir ao encontro de quem somos é, claramente, o maior de todos os desafios. É nesta descoberta das nossas limitações que, muitas das vezes, eliminamos falsas imagens. É neste confronto com aquilo que verdadeiramente somos que nos apercebemos que existe muito mais do que um “eu” solitário. É neste confronto que surge a perceção da realidade.  

Acredito firmemente que este será o desafio de todos os que querem tocar no céu ou chegar à santidade. É preciso ter esta capacidade de autoconhecimento. É fundamental ter esta capacidade de autoconhecimento, para que possamos chegar até ao outro. Chegar ao outro para além do toque. Chegar ao outro para além do olhar. 

É preciso, mais do que nunca, chegar ao outro através da dor. É preciso, mais do que nunca, chegar ao outro através da mente. Há muito mais em cada pessoa do que aquilo que ela nos mostra. E para se chegar a esse “invisível” é preciso conhecermos profundamente aquilo que deixamos escondido de todo o mundo. É preciso percebermos cada pensamento, cada emoção e cada comportamento. Só assim pode existir uma verdadeira compaixão. Chegar bem junto do outro na sua dor entendendo-a e querendo ajudar a suportá-la. 

Uma maior aceitação de nós e das nossas limitações leva-nos a abrir os olhos para o mundo. Uma maior aceitação de nós e das nossas limitações leva-nos a estar onde mais ninguém quer estar. Leva-nos a desafiar tudo e todos, porque deixamos para trás um ego altamente narcisista. 

É disto que este mundo necessita: de aceitação. Não uma aceitação mascarada, mas uma aceitação que leve à verdadeira compreensão do outro e da pessoa que se encontra à nossa frente. É preciso valorizar a unicidade que é revelada em cada ser humano. É preciso valorizar cada ser humano, tal como é, percebendo, de uma vez por todas, que “somos todos mais humanos do que outra coisa”, e como tal, não podemos, nem devemos ser tratados como meras máquinas. Tenhamos a audácia de nos conhecermos verdadeiramente, para podermos estar de olhos voltados para o mundo. 

Emanuel António Dias  in “imissio.net”

Terça-feira

Acreditar no amor

A religião cristã representa, para muitos, um sistema religioso difícil de entender e, sobretudo, um quadro de leis demasiado complicado para viver corretamente ante Deus. Não necessitamos, os cristãos, de concentrar muito mais a nossa atenção em cuidar antes de mais nada do essencial da experiência cristã?

Assim resume Jesus o essencial: o primeiro mandamento é “amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu ser”; o segundo é “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. A afirmação de Jesus é clara. O amor é tudo. O decisivo na vida é amar. Aí está o fundamento de tudo. Por isso, o primeiro mandamento é viver ante Deus e ante os demais numa atitude de amor. Não devemos perder-nos em coisas acidentais e secundárias, esquecendo o essencial. Do amor sai todo o resto. Sem amor, tudo fica desvirtuado.

Ao falar do amor a Deus, Jesus não está a pensar nos sentimentos ou emoções que podem brotar do nosso coração; tão pouco está a convidar-nos à multiplicação das nossas rezas e orações. Amar o Senhor, nosso Deus, com todo o coração é reconhecer Deus como Fonte última da nossa existência, despertar em nós uma adesão total à sua vontade e responder com fé incondicional ao seu amor universal de Pai de todos. Por isso, agrega Jesus um segundo mandamento. Não é possível amar a Deus e viver de costas para os seus filhos e filhas. Uma religião que anuncia o amor a Deus e se esquece dos que sofrem é uma grande mentira. A única postura realmente humana ante qualquer pessoa que encontramos no nosso caminho é amá-la e procurar o seu bem como quiséssemos para nós mesmos.

Toda esta linguagem pode parecer demasiado velha, demasiado gasta e pouco eficaz. No entanto, também hoje o primeiro problema no mundo é a falta de amor, que vai desumanizando uma e outra vez os esforços e as lutas por construir uma convivência mais humana. Há alguns anos, o pensador francês Jean Onimus escrevia assim: “O cristianismo está, todavia, nos seus começos: tem vindo a trabalhar apenas há dois mil anos. A massa é pesada e serão necessários séculos de maduração antes que a caridade a faça fermentar”. Os seguidores de Jesus não devem esquecer-se da sua responsabilidade. O mundo necessita de testemunhas vivas que ajudem as futuras gerações a acreditar no amor, pois não há um futuro esperançoso para o ser humano se acaba por perder a fé no amor.

José António Pagola  in “imissio.net”