XII Semana do Tempo Comum

XII Domingo do Tempo Comum

A viagem mais longa é a viagem interior

No século V a.C., Sócrates pedia aos seus discípulos: «Homem, conhece-te a ti mesmo». O conhecimento de si é indispensável para percorrer o itinerário da vida interior e humana. É verdade que tal conhecimento nunca é pleno: cada um continua a ser um mistério inclusive para si mesmo, e, por vezes, pode parecer até um enigma com sombras e lados obscuros que não quereria ver.

Todavia, é absolutamente necessário conhecer-se a si mesmo, para saber aquilo de que se é capaz, quais são os seus limites e as suas forças, para se ser responsável por si e pelos outros.

Cada um de nós existe porque foi gerado, por isso é precedido por pais específicos; existe num tempo e num lugar particulares, por isso veio e vem a cada dia ao mundo, agora e aqui, está no meio dos outros, por isso, está em relação com outros. Sim, cada um é chamado a conhecer-se na consciência de ser também tudo aquilo que a vida e os outros fizeram de si, contribuindo para a formação do seu eu.

Em tal faixa de relações, conhecer-se a si mesmo comporta um necessário passo preliminar: aderir à realidade, conhecer a sua relação com a história, os outros, o mundo, porque é assim que cada um de nós existe e está envolvido. Muitos caminhos espirituais e psicológicos são estéreis e até desumanizadores, porque carecem de adesão à realidade. É extremamente perigoso iniciar o caminho interior sem sentir-se no meio dos outros, necessitado dos outros, e nunca sem os outros! Quantas derivas existem da parte de pessoas que se isolam, que deixaram de escutar, que vivem só das suas certezas e descobertas…

Conhecer-se a si mesmo é, por isso, uma tarefa e um trabalho quotidiano, que requer perscrutar o seu sentir, pensar, falar e agir, mas sempre na alegria do intercâmbio fraterno.

Enzo Bianchi in “Monastero di Bose”

Segunda-feira

Compaixão

A opção pela alegria não significa uma fuga para longe dos problemas da vida. Pelo contrário, ela permite olhar para a realidade que está à nossa frente e até mesmo para o sofrimento. A opção pela alegria é inseparável da opção pelo homem. Ela enche-nos de uma compaixão sem limites. Saborear, por muito pouco que seja, a alegria de Deus faz de nós mulheres e homens de comunhão.

O individualismo como caminho de felicidade é uma ilusão. Sermos testemunhas da comunhão supõe a coragem de ir contra a corrente. O Espírito Santo dar-nos-á a imaginação necessária para encontrar os meios de nos tornarmos próximos dos que sofrem, escutá-los e deixarmo-nos tocar pelas situações de angústia. O caminho da felicidade, seguindo os passos de Jesus, reside no dom de nós mesmos, dia após dia. Pela nossa vida, numa grande simplicidade, podemos exprimir o amor de Deus.

Irmão Alois de Taizé in “Carta do Chile (2011)”

Terça-feira

A única coisa necessária

Quando penso nas coisas que quotidianamente nos ensinas, Senhor, vem-me muitas vezes ao pensamento aquela tua palavra dirigida a Marta, num dos vossos encontros em Betânia. Tu disseste-lhe: “Uma só coisa é necessária.” (Lucas 10, 42)

Mesmo nos contextos exigentes em que vivemos, onde sentimos que mil braços nos puxam para direções diferentes, onde mil vozes nos gritam urgências e todas elas reais, onde é fácil que a armadilha da angústia nos capture para uma agitação que, no fundo, só serve para ampliar a impotência e o medo, recordo o teu conselho a Marta: “Uma só coisa é necessária.”

Ajuda-nos, Senhor, a ter a sabedoria de perguntar qual é a coisa necessária e concentrar aí a nossa inteligência, o nosso labor e o nosso coração.

Ajuda-nos a discernir, com a luz do Espírito Santo, aquela “única coisa” que, neste momento, melhor resume a indefetível responsabilidade que somos chamados a expressar diante de ti e dos nossos irmãos. E ajuda-nos a confiar não só nas metas consideradas possíveis, mas até naquilo que nós, nos momentos de maior desânimo ou cansaço, formos tentados a declarar como impossível.

José Tolentino Mendonça in “Rezar de olhos abertos”

Quarta-feira

Bem-aventurados

As Bem-aventuranças não constituem apenas uma promessa de recompensa para aqueles que sofrem injustamente e uma predição da viragem tremenda do status quo. As Bem-aventuranças também pintam um retrato da pessoa que Jesus quer que nós sejamos. “Bem-aventurados os pobres” significa não só que os indigentes serão recompensados, mas que a simplicidade de vida é importante. “Felizes os pobres em espírito” significa não só que eles serão recompensados, mas que a humildade é importante.

Jesus estava a convidar as multidões, e a nós próprios, não só a escutar uma promessa de recompensa futura para aqueles que sofrem, mas a encarar desde já certas virtudes. Ao fazê-lo, tornamo-nos as pessoas que Ele pretende que nós sejamos, participamos do seu Reino e passamos a ser seus discípulos. E assim somos felizes.

Enquanto estava sentado no Jardim do Monte das Bem-aventuranças, interroguei-me: como seria viver as Bem-aventuranças? Uma frase que eu ouvira, certo dia,  num retiro, ocorreu-me à mente: uma pessoa das Bem-aventuranças. Desde que ouvi, pela primeira vez, essa expressão, tentei tornar-me essa pessoa – humilde, misericordiosa, amável, pacificadora, que procurasse a justiça para os outros – e tentei aproximar-me mais da visão da personalidade que Jesus estava a descrever. As Bem-aventuranças são uma visão não só para o fim dos tempos, ou para a sociedade, mas para nós. Nós tornámo-nos aquilo que Jesus espera que nós sejamos, como povo e como indivíduos. Por isso, somos bem-aventurados.

James Martin in “Jesus – um encontro passo a passo”

Quinta-feira

Conselhos da sabedoria árabe

«Se nunca caçaste, nunca amaste, se o perfume das flores nunca te atraiu e a música nunca te comoveu, não és um homem, mas um tolo.» Recolho do livro “Fontes de sabedoria islâmica” este que é apresentado como um provérbio árabe.

Deixemos ficar a caça, que é um assunto que não me entusiasma, mas que podemos transcrever metaforicamente como símbolo da indagação humana e religiosa. Mas o distintivo aqui indicado entre o homem verdadeiro e o tolo é absolutamente partilhável.

De maneira essencial poderemos dizer que o que distingue a pessoa autêntica do homem ou da mulher banal, vulgar, superficial é o espanto. É a descoberta do mistério que se oculta na realidade do coração, da natureza, da arte, da religião.

Sem esta capacidade de intuição profunda, o coração permanece um músculo, a pessoa um organismo, a natureza um sistema de energias e dados físicos, a arte e a espiritualidade fenómenos improdutivos, destinados talvez aos sonhadores.

E, no entanto, é precisamente nestes valores que pulsa a verdadeira vida da humanidade, aquilo que dá sabor ao dia a dia, o que transfigura a matéria e a corporeidade. Sem uma gota de amor, sem o frémito da beleza, sem a palpitação da fé, sem a intimidade da contemplação, somos só coisas entre as coisas, bestas entre outras bestas.

Cardeal Gianfranco Ravasi in “Avvenire”

Sexta-feira

A tentação é sempre uma opção entre dois amores

A tentação é sempre uma escolha entre duas vidas, melhor, entre dois amores. E, sem escolher, não se vive. «Tirai as tentações e ninguém mais se salvará» (Abba António, Padre do Deserto), porque faltaria o grande jogo da liberdade. Esse que abre toda a secção da lei na Bíblia: coloco diante de ti a vida e a morte, escolhe! O primeiro de todos os mandamentos é um decreto de liberdade: escolhe! Não ficar inerte, passivo, prostrado.

E é como uma súplica que o próprio Deus se dirige ao ser humano: peço-te, escolha a vida! (Deuteronómio 30, 19). O que significa «escolha sempre o humano contra o desumano» (David Maria Turoldo), escolhe sempre o que constrói e faz crescer a tua vida e dos outros em humanidade e dignidade.

Do deserto é lançado o anúncio de Jesus, o seu sonho de vida. A primavera, nossa e de Deus, não se deixa perturbar por nenhum deserto, por nenhum abismo de pedras. Jesus foi para a Galileia para proclamar o Evangelho de Deus. E dizia: o Reino de Deus está próximo, convertei-vos e acreditai no Evangelho. O conteúdo do anúncio é o Evangelho de Deus. Deus como uma bela notícia. Não era óbvio para ninguém. Nem toda a Bíblia é Evangelho, nem toda é notícia bela e alegre; por vezes, é ameaça e juízo, muitas vezes preceito e ordem. Mas Jesus anuncia a palavra que conforta a vida: Deus fez-se próximo, e com Ele são possíveis novos Céus e uma nova Terra. É possível viver melhor, um mundo como Deus o sonha.

Convertei-vos… Como que a dizer: voltai-vos para a luz, porque a luz já aqui está. E é como o movimento contínuo do girassol, o seu orientar-se tenaz para a paciência e para a beleza da luz. Para o Deus de Jesus e o seu rosto de luz.

Ermes Ronchi in “Avvenire”

Sábado

Esta vida

A oração tem também a forma de uma pergunta. Deixa-se habitar pela maravilha do nosso existir diante de Deus. A maravilha da argila nas mãos do criador. Pense-se no Salmo 8: «Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que fixastes, que coisa é o homem para que dele te recordes? O filho do homem para dele cuidares?».

Até onde nos leva o vento destas insuprimíveis perguntas? Talvez nos leve simplesmente a compreender a vida humana como possibilidade de Deus. Sim, esta vida, que tantas vezes nos custa a abraçar, aceitar ou compreender.

Esta vida que é exaltante como uma dança sem fim e ao mesmo tempo é lugar de fragilidade, contradição e dor. Esta misteriosa vida que se lança de tal maneira para a frente, para além de nós, que parece que nos escapa. Esta vida, assim em trânsito entre direções opostas, é a mira do olhar de Deus.

Precisamente esta vida, que construímos no esforço dia após dia, que resiste ao abstrato e se deixa ver melhor no concreto: em gestos pequenos e grandes, em obras de amplo respiro ou no minúsculo silabário dos dias.

Esta vida que não é unicamente pura biologia, elementar factualidade, mas é ética, amor, intencionalidade, arte, oração, desejo, sonho e procura. Esta vida que se quantifica e mede, mas para permanecer por fim indecifrável, é o lugar de Deus.

José Tolentino Mendonça in “Avvenire”