XIII Semana do Tempo Comum

XIII Domingo do Tempo Comum

Chamados a ir além de nós próprios

Deus está em nós, mas está também à nossa frente. Ele acolhe-nos tal como nós somos, mas também nos leva para além de nós próprios. Por vezes, vem perturbar a nossa vida, alterar os nossos planos e os nossos projetos. A vida de Jesus motiva-nos a entrar nesta perspetiva. Jesus deixava-se conduzir pelo Espírito Santo. Ele nunca deixava de se referir à presença invisível de Deus, seu Pai. É aí que se encontra o fundamento da sua liberdade, que o levou a dar a sua vida por amor. Nele, relação com Deus e liberdade nunca se opunham, mas reforçavam-se mutuamente.

Em todos nós há o desejo de um absoluto em direção ao qual orientamos todo o nosso ser, corpo, alma e inteligência. Há uma sede de amor que arde em cada um. Nem mesmo a mais profunda intimidade humana a pode saciar plenamente.

Frequentemente, vemos essas aspirações como algo que nos falta ou como um vazio. Por vezes, elas podem dispersar-nos. Mas, longe de serem uma anomalia, elas fazem parte de nós. Elas são um dom, já contém o chamamento de Deus para nos abrirmos.

Então, cada um é convidado a interrogar-se: em que sentido sou agora chamado a ir mais longe? Não se trata necessariamente de «fazer mais». O que somos chamados é a amar mais. E como o amor precisa de todo o nosso ser para se expressar, cabe-nos a nós procurar, sem esperar nem mais um minuto, formas de permanecer atentos ao nosso próximo.

Irmão Alois de Taizé in “Carta do Quénia (2009)”

Segunda-feira

A verdadeira vida faz-se a caminho da Terra da Alegria

 «A minha única salvação é a alegria… Porque é cruel demais saber que a vida é única e que não temos como garantia senão a fé em trevas – porque é cruel demais, então respondo com a pureza de uma alegria indomável. Recuso-me a ficar triste. Sejamos alegres. Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: então eu amo. Como resposta. E a minha própria morte e a dos que amamos tem que ser alegre, não sei ainda como, mas tem que ser» (Clarice Lispector, “Água viva”, pp. 94-95).

Que o grito de alegria seja um grito de guerra contra todas as superstições que nos querem agrilhoados à tristeza. A verdadeira vida faz-se a caminho da Terra da Alegria. A alegria incondicional é uma arma, uma bandeira contra toda a forma de alienação porque a alegria é o outro nome da liberdade, enquanto afirmação plena da nossa individualidade.

Que a melancolia seja apenas um inocente interlúdio, um suave e passageiro estado de espírito nesta passagem; e que o louvor seja o permanente pulsar da alma, a “jubilatio”.

Que o Deus, sítio da alegria, nos empreste mãos, pão e vinho e asas para espaçar a mesa daqueles que connosco esperam o seu advento.

José Augusto Mourão in “Quem vigia o vento não o semeia”

Terça-feira

Reencontrar o gosto da busca e da interrogação

«Há uma tendência muito perigosa de aceitar tudo o que se diz, tudo o que se lê, de aceitar sem colocar em discussão. E, ao contrário, só quem está pronto a pôr em discussão, a pensar autonomamente, encontrará a verdade. Para conhecer as correntes do rio, quem quer a verdade tem de entrar na água.»

Leio estas palavras de um sábio indiano. Todos sabemos que não raramente a informação é fabricada para uso de finalidades nem sempre confessáveis; muitas vezes descobrimos que os dados apresentados pelos jornais são aproximativos e, por vezes, claramente falsificados. Todavia, deixamo-nos ir lentamente à deriva, e alguns meios particularmente poderosos envolvem as nossas mentes numa rede de lugares comuns, de convicções, de decisões que são acriticamente absorvidas na nossa existência. Eis, então, o apelo daquele sábio para exercitar vigorosamente a razão e o juízo.

Mas a mim agrada-me sobretudo a imagem do imergir na verdade e na realidade, com uma busca pessoal, fatigante, como quando se é obrigado a ir contra as correntes, nadando em sentido oposto.

Já um grande escritor do século XX, Robert Musil, em “O homem sem qualidades”, declarava que a verdade não é uma pedra preciosa a guardar num cofre ou no bolso, mas antes um mar infindável ao qual uma pessoa se deve lançar. É preciso, então, reencontrar o gosto da busca e da interrogação.

A própria fé não é uma adesão de olhos fechados e sem pensamento; ainda que a escolha última seja risco e confiança, ela supõe uma coerência interna e tem uma substancial premissa fundada na razão. Crer e compreender devem avançar juntos.

Cardeal Gianfranco Ravasi in “Avvenire”

Quarta-feira

Parábola dos talentos: dizer não ao medo e sim à confiança

O Evangelho está cheio de uma teologia simples, a teologia da semente, do fermento, dos inícios que hão de florir. A nós, toca o trabalho paciente e inteligente de quem cuida dos rebentos e dos talentos. Deus é a primavera do cosmo, a nós cabe a tarefa de ser o verão fecundo dos frutos.

Como muitas vezes nas parábolas, um proprietário, que é Deus, consigna algo, confia uma missão e sai de cena. Confia-nos o mundo, com poucas instruções para usar, e muita liberdade. Uma só regra fundamental, a mesma dada a Adão: cultiva e protege, ama e multiplica a vida.

A parábola dos talentos é a exortação premente a ter mais medo de permanecer inerte e imóvel, como o terceiro servo, do que de errar; o medo torna-nos perdedores na vida: quantas vezes, renunciámos a vencer só pelo temor de acabar derrotados.

A pedagogia do Evangelho acompanha-nos, ao contrário, a realizar três passos fundamentais para o crescimento humano: não ter medo, não fazer medo, libertar do medo. Sobretudo daquele que é o pai de todos os medos, o medo de Deus.

Por trás da imagem dos talentos estão apenas os dons de inteligência, de coração, de caráter, a minha capacidade. Esta é a mãe Terra e todas as criaturas colocadas no meu caminho são um dom do céu para mim. Cada um é talento de Deus para os outros.

Ermes Ronchi in “Avvenire”

Quinta-feira

O imenso e nós

Em 1917, o poeta Giuseppe Ungaretti escreve uma das mais célebres poesias do século XX. Trata-se de uma composição brevíssima, que consiste nisto: «Ilumino-me de imenso».

Qualquer que seja a interpretação que dela façamos, é importante interrogar-se sobre o seu significado existencial. O que pode representar para a vida de cada um de nós iluminar-se daquilo que é imenso?

É verdade que o desenho destes dois versos se assemelha a um flor que flutua na leveza do tempo. É uma espécie de cintilação, de leveza, de encantamento e de leveza perante o ser. Quanto o precisamos!

Precisamos de descobrir esta arte de existir na confiança e no espanto das pequenas coisas, através das quais a imensidão nos visita.

Ao contrário, não raramente a nossa experiência quotidiana está em total dissonância com esta leveza. Sentimo-nos sem força e sem graça, com os passos cada vez mais pesados, e como se o nosso coração nada mais do que uma casa às escuras.

Talvez nos ajude saber que esta poesia – que contém um extraordinário programa de vida – foi escrita quando Ungaretti se encontrava, como soldado, na frente de batalha na primeira guerra mundial, na trincheira, num mundo em escombros.

E talvez compreendamos, desta maneira, que nem sequer as dificuldades nos subtraem ao dever da grande celebração daquele dom que é estarmos vivos.

José Tolentino Mendonça in “Avvenire”

Sexta-feira

Instruções

Não deixes a alegria para depois.

Presta atenção aos grandes problemas. Quase sempre escondem grandes oportunidades.

Encara os problemas como oportunidade de crescimento e de autodomínio.

Não cruzes os braços por entenderes que pouco podes fazer. Faz aquilo que puderes.

Descontrai-te. Sossega. Excetuadas raríssimas questões de vida ou de morte, nada é tão importante como à primeira vista pode parecer.

Não percas tempo a recriminar-te por erros cometidos. Aprende com eles e anda para a frente.

Avalia a tua realização pessoal pelo nível de paz e de amor que conseguiste alcançar.

Tem sempre alguma coisa bonita diante dos teus olhos. Nem que seja apenas uma rosa num copo ou numa lata de salsichas.

Planta sempre flores na Primavera e se hoje for o dia do teu aniversário, então planta uma árvore.

Cuida de ti. E, sobretudo, não deixes a alegria para depois.

Henrique Manuel S. Pereira in “Os paraísos são interiores”

Sábado

O exercício da esperança

No Ocidente, mas não só, percebe-se desde há décadas o sinal dominante da “crise”. Dominam a precariedade do presente e a incerteza do futuro, e sobretudo para as novas gerações há uma incógnita que desperta medos por causa da sua imprevisibilidade e pelos horizontes asfixiantes que a caracterizam: vivemos num mundo em fuga, que parece escapar ao nosso controlo e impedir-nos de compreender para onde estamos a andar.

Por estas razões, creio que, hoje mais que nunca, seria necessário voltar a escutar a pergunta: «O que posso esperar?». E também: «O que podemos esperar juntos?». É uma pergunta por vezes muda, que senti e sinto ressoar em muitos encontros e diálogos. É a pergunta mais profunda, que muitos não sabem tão-pouco articular facilmente. A esperança, de facto, não é uma atitude a assumir ou a recusar de imediato, mas é o fruto de um discernimento, de uma espera fundada no pensar, no refletir, no escutar, no confrontar-se, e é também um exercício de grande responsabilidade.

O humano não é dado de uma vez por todas, mas é uma transformação que precisa de uma orientação, de um projeto, de um propósito pelo qual agir, de maneira a encontrar um sentido. No entanto, há uma errada compreensão da esperança da qual é preciso resguardar-se: aquela de quem tende constantemente para além do presente, sem o colher na sua irrepetibilidade, constrangendo-se assim a uma existência vivida ao futuro anterior. Não, não se vive esperando viver, preparando-se sempre, e em vão, para uma felicidade que nunca chega… Esperar é uma arte, é o estar prontos àquilo que ainda não nasceu, é um ato de fé e uma adesão convicta a uma promessa: é uma luta contra o desespero, e é por isso que é capaz de esperar em profundidade só quem conheceu a tentação de desesperar. A esperança, por fim, é o fruto de relações vivas, alimenta-se do estar juntos: nunca sem o outro! E não esqueçamos: só se pode “esperar por todos”, nunca apenas por si próprio.

Enzo Bianchi in “Monastero di Bose”