XV Semana do Tempo Comum

XV Domingo do Tempo Comum

Oração e silêncio

A verdadeira condição para encontrar Deus é um coração simples, desarmado, vazio, que não quer colocar Deus à prova e não procura raciocínios tortuosos.

Podemos transfigurar o nosso pequeno mundo transfigurando-nos a nós próprios; por isso, a cada acordar recito o louvor da manhã, muito breve mas muito importante para retomar o caminho para o novo dia, voltando a começar com a experiência de um Deus que manifesta a sua ternura. Um Deus que, ainda que por vezes nos parece desaparecer, devemos continuar a buscar, dado que com frequência se oculta para fazer crescer o desejo e para purificar a nossa procura e não o fazer confundir com os ídolos.

O caminhar na vida pressupõe estar parado, faz-se estrada se se é capaz de parar, chega-se ao destino se se tem a coragem de perder tempo. Num mundo como o nosso, em que predomina o falar, é preciso aprender a calar, a fazer silêncio no íntimo, um silêncio atento à escuta e humilde.

Temos o dever de impedir que a nossa vida se extinga por causa de uma atividade sem alma, e por isso procurar para nós um espaço de deserto, um lugar de verdade, onde se está a sós, onde te dás conta daquilo que verdadeiramente vales. O facto de, instintivamente, termos medo deste face a face, indica quanto é precioso realizá-lo. Mas é um passo necessário para reencontrar o gosto do caminho, o gosto do novo, do abandono, do compromisso, dos pés cansados, do coração que bate, do fôlego que falta, numa realidade sem pontos de referência.

Como é bela a pobreza inútil do silêncio e da oração, este desperdício amável, este espaço de perfume, de casa aberta ao mundo!

Luigi Verdi  in “La realtà sa di pane”

Segunda-feira

Uma âncora fixa em Deus

A fé é uma simples confiança em Deus. Não nos oferece respostas completas, mas impede-nos de ficar paralisados pelo medo ou pelo desalento. Compromete-nos, impele-nos a seguir caminho. Através dela, compreendemos que o Evangelho alarga um horizonte de esperança para além de toda a esperança.

Esta esperança não é um otimismo fácil que fecha os olhos à realidade, mas sim uma âncora fixa em Deus. É criativa. Há sinais dela que já estão gravados nos locais mais inesperados da Terra.

Será que nos atrevemos a acreditar na presença do Espírito Santo nos nossos corações e no mundo? Conseguimos apoiar-nos nele, apesar de ser invisível aos olhos? Que a nossa fé permaneça simples à imagem da confiança das crianças! Não se trata de reduzir o seu conteúdo, mas de nos agarrarmos ao que é central: o amor de Deus pela humanidade e por toda a criação. A Bíblia conta a história desse amor, desde o seu frescor inicial aos obstáculos e, até, às infidelidades humanas. Deus não se cansa de amar: que esta mensagem nos mantenha na esperança!

Irmão Alois de Taizé in “Juntos, abrir caminhos de esperança – Carta de 2017”

Terça-feira

Fé e dúvida

«A fé e o amor têm de conquistar-se a cada dia através de uma luta com a dúvida. A vitória sobre a dúvida é a única e verdadeira afirmação do crer.»

Fé e amor não são apenas fontes de paz e de felicidade. Ao contrário. Basta apenas pensar em Abraão e na sua terrível provação consumada no monte Moriá com a inconcebível ordem divina relativa à morte sacrificial do filho.

Podemos também mencionar a luta noturna de Jacob com o Deus misterioso, oculto sob a forma de um ser forte, ou nos longos e atormentados acontecimentos vividos por Job, sempre pronto a acreditar em Deus.

Crer e amar são duas aventuras da alma que, no entanto, envolvem carne e sangue, inquietam mais que consolam, exigem antes ainda de dar, ferem e exaltam. É por isso que devemos suspeitar de uma fé demasiado sossegada, que atenua toda a emoção, que não custa e não compromete em demasia, que é demasiado óbvia e não tem de combater com a dúvida. Mas é igualmente verdade que a fé é também serenidade e alegria.

Uma frase significativa de Carlo Bo (1911-2011), professor, crítico literário e senador, diz o seguinte: «Tenho a impressão de que a voz de Deus passa sobre os nossos corações e não deixa rasto. O consenso sem sofrimento que damos a Deus é apenas mais uma maneira, entre tantas, de não lhe responder».

Cardeal Gianfranco Ravasi  in “Avvenire”

Quarta-feira

Faz com que o teu dom seja parte do dom de Deus

No Evangelho, Jesus fala das exigências que a vida coloca aos seres humanos como de fardos do trabalho, convidando quem está cansado para ir até Ele para encontrar descanso. Ele sugere que a vida pode ser branda quando partilhada. Ao tornar-se homem, Jesus retirou o fardo de se ser humano, mas revelou a agilidade e a beleza que a graça concede a quem vive naturalmente e em equilíbrio. Esta virtude oferece um estilo de vida situado entre extremos, o segredo da moderação em todas as coisas.

Jesus viveu uma vida extenuante e exigente, com o seu ministério atarefado entre multidões atraídas pelo seu ensinamento e a implacável tensão do conflito com os seus críticos até ao dia da sua prisão, tortura e morte. Mesmo assim, Ele descreve o seu jugo como suave e leve. O segredo da sua abordagem à vida foi o ter sido «manso e humilde de coração».

Com efeito, até o ser humano perfeito está incompleto se permanece sozinho. Os nossos corpos são complementares, desenhados para serem interdependentes fisicamente e socialmente. Existimos em comunidade, extraímos a nossa identidade dos nossos relacionamentos, encontramos vida em unidades familiares, completamo-nos uns aos outros ao contribuirmos com diferentes dons para um todo que é maior do que qualquer indivíduo. Aqueles que se isolam e se elevam a si próprios como homens que se fizeram a si mesmos e autossuficientes depressa descobrem como a vida em isolamento pode ser pesada. Eis o segredo: deixa de te esforçar tanto para seres melhor do que os outros; em vez disso, sê manso e humilde de coração. Deixa que o teu dom seja parte dos dons dos outros. Deixa que as tuas forças e fraquezas se misturem com as dos outros, para criar a rede de amor e perdão mútuos que a todos suportará em tempos de necessidade e em tempos de abundância. O que Jesus nos oferece é isto: «Aprende de mim». A sua incarnação, e tudo o que Ele aprendeu da sua vida e morte neste mundo, acrescenta natureza divina às nossas vidas humanas, e ensina-nos como nos podemos tornar a amada comunidade que é a imagem de Deus na Terra.

Pat Marrin in “National Catholic Reporter”

Quinta-feira

A arte de deter-se

A arte de deter-se é uma aprendizagem indispensável, ainda que seja muitas vezes esquecida. Quem não sabe deter-se, não sabe viver. Como há uma qualificação da existência que provém da ação, assim há outra que provém do repouso.

A vida não pode ser apenas um lugar para consumir e devorar. O marinheiro, quando parte para a grande aventura oceânica, deve certamente poder contar com o motor da sua embarcação, deve confiar-se ao bom estado do casco, da vela, dos remos; mas deve obrigatoriamente levar uma âncora, porque uma barca não pode navegar continuamente.

Do mesmo modo, um excursionista, quando prepara o seu percurso, deve prever não só a atividade, mas também os tempos e os lugares de pausa que lhe permitirão restaurar-se para poder retomar o caminho.

É verdade que, tendencialmente, nas nossas sociedades modernas, os estilos de vida se assemelham à cidade que nunca dorme. O tempo parece sempre escasso, em relação ao programa que nos impomos. Gostaríamos que o tempo se dilatasse, e fosse aquilo que não é. Como o coelho de “Alice no país das maravilhas”, estamos sempre atrasados. Mas atrasados em relação a quê, nem sequer nós verdadeiramente o sabemos.

Se hoje vivemos num mundo de evasão, é porque somos mulheres e homens que não sabem ancorar a vida. E a vida acaba por se um vazio a que nada responde.

José Tolentino Mendonça in “Avvenire”

Sexta-feira

Aprender a andar sobre a água

É fácil confiar em Deus quando está tudo bem. Durante esses períodos de “céu azul”, normalmente não passamos muito tempo a analisar a nossa fé. Mas quando nos deparamos com uma tempestade inesperada, depressa abrimos o guarda-chuva. Muitas vezes somos colocados em situações que nos desafiam a confiar em Deus, mesmo quando não faz sentido. Ninguém compreendeu melhor isto do que Pedro, pescador experimentado que foi convidado por Jesus para andar sobre a água, no meio de uma tempestade. Apesar de algumas vagas assustadoras, no geral, ele foi bem-sucedido.

Cada tempestade que encontramos oferece uma oportunidade de crescer na fé. Sair do barco e confiar em Jesus pode ser assustador, mas é-o menos quando percebemos que a existência que nele confia atravessa este processo e, apesar de conhecermos o seu desfecho, ninguém diz que é fácil. Antes de deixar a segurança do barco, Pedro teve o cuidado de discernir que Jesus, verdadeiramente, o chamava. Ao responder a esse chamamento, aprendeu que, com a ajuda de Deus, é realmente possível que uma pessoa ande sobre a água. Ele nunca teria adquirido esta aprendizagem fundamental se optasse pela segurança, permanecesse no barco.

Do mesmo modo, a nossa fé fortalece-se quando dizemos “sim”, e experimentamos a emoção de caminhar sobre a água. Podemos não escolher as tempestades que experimentaremos na vida, mas podemos escolher como reagimos a elas. Podemos arriscar e confiar em Jesus, como Pedro, ou podemos esconder-nos no barco, como os outros discípulos. Confiar em Jesus é uma escolha, não um sentimento. Mesmo com medo, é possível tomar a decisão de sair do barco e caminhar em direção ao meu Salvador no meio do temporal. As tempestades podem enfurecer-se e o medo pode encher os nossos corações, mas “tudo ficará bem”. Pedro acertou, e nós também podemos.

Gary Zimak in “Catholic Digest”

Sábado

Procura ser alguém de palavra

Que as tuas palavras sejam reveladoras de verdade. Damos a palavra, escutando, àqueles que nos podem dar mais do que temos. Algumas vezes, dá-se a palavra a quem apenas queremos conhecer o seu interior e o seu valor. As palavras dizem-nos e têm a força do que somos.

Uma pessoa sem palavra é vazia, desonesta e perigosa. E não ter voz desta forma é pior do que perder o voto em qualquer matéria. É deixar de valer.

Cada um de nós tem um nome, único. Sabê-lo e utilizá-lo significa um grau de intimidade que já é relação. Saber o nome de alguém é reconhecê-lo, é dar-lhe presença. No entanto, a força de um nome não está nas letras que o compõem. Antes sim, naquela pessoa para quem remetem.

Ser autêntico passa por não se deixar cair nas tentações de criar falsas aparências. Mentir é mais do que faltar à verdade, é fazer barulho e criar confusão. O silêncio não é um vazio de palavras, é a ausência de ego. Nunca há paz dentro nem perto de alguém que se julga o centro do mundo.

A verdade ilumina, mesmo quando é dura. No entanto, há quem prefira andar cego. Num tempo onde a mentira reina, dizer a verdade é uma escolha tão arriscada quanto heroica, porque nem todos estão dispostos a escutá-la. Afinal, poucos homens são aquilo que deviam ser, e alguns desses detestam ser confrontados com a verdade acerca de si mesmos. A vida é um longo e constante diálogo interior que mantemos connosco próprios, se nos respeitamos, então falamos com verdade, aos outros e a nós.

José Luís Nunes Martins in www.agencia.ecclesia.pt