XVII Semana do Tempo Comum

Domingo

Ele estará sempre connosco até ao fim

Ressuscitado da morte, Cristo é movimento ascensional, arrebatamento, vida de Deus em nós que nos eleva para Deus e em Deus nos completa. A ressurreição é movimento que nos arrebata, intensidade de vida que nos envolve, força de Deus que integra e supera as nossas vulnerabilidades e os nossos limites. Aquele que desce e nos serve, é também Aquele que nos eleva consigo para o Pai, que nos coloca em movimento ascensional de futuro, que nos projeta para uma plenitude de vida. Onde estará o Filho, na sua relação íntima com o Pai, na intensidade fecunda do Espírito, também aí, com Ele, nós estaremos e seremos.

Vivemos o presente fundados na promessa do Senhor: «Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos». A sua palavra promete-nos futuro e é o fundamento da nossa esperança. Nas nossas lutas diárias, nas nossas resistências aos desafios inesperados da história, no nosso cuidado pela criação, no nosso testemunho de discípulos tentando viver as bem-aventuranças e ser sal da terra e luz do mundo, o Senhor está connosco. Não estamos desamparados. A sua promessa consola-nos, conforta-nos e encoraja-nos. Podemos viver com atrevimento e ousadia: Ele está connosco em todos os dias da nossa vida, os luminosos e os mais sombrios, os de paz interior e os de tormenta, os de clareza e os de incerteza. Que o Senhor «ilumine os olhos do nosso coração para compreendermos a esperança a que somos chamados».

Padre António Martins, capelão da Capela do Rato in “Homilia no Domingo da Ascensão (24.05.2020)”

Segunda-feira

Mesmo com o amor avassalador de Deus, o que decide é a liberdade do nosso “sim” ou “não”

Mesmo com o amor avassalador de Deus, é a liberdade humana que decide. Qual é o valor do nosso “sim” se não pudermos dizer “não”? Jesus olhará para Jerusalém e chorará, porque a cidade de David não conhecia a hora da visita de Deus. A consequência será a oportunidade perdida. Não há necessidade de punição. A virtude é a sua própria recompensa, enquanto a negligência é a sua própria perda. Simplesmente colhemos o que plantamos. A nossa fé religiosa não nos desculpa ou resgata da realidade. O Evangelho entra para o topo das leis básicas da vida e das regras de responsabilidade social.

A boa notícia é que ainda podemos controlar o resultado de grande parte da nossa realidade pessoal. Não somos vítimas de um destino cego ou do julgamento divino. Deus é sempre amor, sempre perdão, sempre pronto para nos mostrar como lidar com os desafios e reveses da vida, como ser inteligente e proativo. Mesmo quando cometemos erros ou agimos de maneira imprudente, se queremos ajuda, Deus oferece maneiras criativas de corrigir as coisas, começar de novo.

O discipulado cristão foi primeiramente denominado, simplesmente, “O Caminho”. Era um conjunto de ensinamentos, mas sempre no contexto da comunidade, redes de relacionamentos, projetos comuns para tornar a vida mais pacífica e justa. Atraiu outras pessoas que viram os benefícios da caridade e do apoio mútuo. Foi neste contexto que os crentes experimentaram a presença viva de Jesus, cuja morte e ressurreição ofereceram um padrão de renúncia e alegria na vida do dia a dia. Somos convidados a abraçá-lo livremente como um estilo de vida e um encontro contínuo com o mistério de Deus. Esta é a boa notícia.

Pat Marrin in “National Catholic Reporter”

Terça-feira

Uma gota de água

«Nunca pensei mudar o mundo. Procurei apenas ser uma gota de água limpa. Se também tu te tornares uma gota de água limpa, já seremos dois. E se também o for a tua mulher ou o teu marido, seremos três e depois quatro, dez, cem.» Assim respondeu Madre Teresa de Calcutá, durante a conferência de imprensa em Oslo por ocasião da entrega do Nobel da Paz em 1979, a um jornalista que lhe perguntava se a sua intenção era mudar o mundo.

Muitas vezes, com efeito, há um cómodo álibi que retorquimos perante o mal no mundo: ainda que eu tivesse de renunciar a um pouco do meu alimento, nunca poderia libertar o mundo da fome; ainda que eu tivesse de eliminar uma pequena injustiça, não era por isso que a sociedade ficaria diferente e mais justa; e assim por diante. Com este raciocínio, delegando as soluções dos escândalos colossais que envolvem o nosso planeta aos Estados, às políticas, aos grandes organismos internacionais, encontramo-nos sempre no ponto de partida, com um mundo injusto, egoísta, doente, inquinado.

Eis, então, aquela simples, e todavia eficaz, via da «gota de água limpa». É do pequeno que se deve começar, precisamente como fez Cristo, que escolheu a semente minúscula da mostarda e o pequeno rebanho. Efetivamente, há uma força secreta na gota que se une às outras, transformando-se num rio límpido, e depois num lago, na expetativa, como cantava o profeta Ezequiel, de fecundar inclusive o mar Morto da história.

Devemos, então, reencontrar a confiança nas pequenas escolhas pelo bem, sem desencorajamentos e sem retórica. Também os antigos latinos estavam convictos de que a gota consegue perfurar até a pedra.

Cardeal Gianfranco Ravasi  in “Avvenire”

Quarta-feira

Gratuidade

O bom samaritano é uma grande referência para compreender o valor de cada amor gratuito, de um verdadeiro amor gratuito.

Em primeiro lugar, o samaritano «teve compaixão», com-padecer, sofrer com ele e compartilhar. A compaixão não é uma sensação interior ou passageira, ou um vago sentimento, mas uma ação em direção da miséria, de qualquer género. Depois, «tomou-o sobre si», encarrega-se dele. Não só se compadece, mas inicia o verdadeiro esforço do amor: agir. E depois levou-o ao albergue e fez tudo aquilo que podia fazer, «até que ele ficasse curado». Encarregar-se dos outros, não só quando custa pouco, mas enquanto o outro não for capaz de caminhar sozinho.

Mas o máximo do amor e a verificação de todo o amor gratuito é desaparecer sem esperar gratificações ou agradecimentos. O samaritano, depois de ter feito todo o possível, «partiu».

Quando fazemos alguma coisa pelos outros, vivemos a desproporção narrada no Evangelho. Cinco pães e dois peixes para 50 mil pessoas, esta é a desproporção. Oferece-se aquilo que não se tem, coloca-se à disposição aquilo que não chega sequer para nós. Esta gratuidade que não espera que tudo funcione, mas que tem é grata pelo pouco que tem; porque aquilo que conta nunca é um sinal extraordinário, mas autêntico e discreto.

É muito precioso o amor gratuito, e para o fazer nosso devemos cuidar-nos mais, cuidar da doçura do nosso olhar, até o aperto de mão e o abraço, até termos uma espessura de ternura. É daqui que pode começar o nosso caminho para um amor amadurecido.

Luigi Verdi  in “La realtà sa di pane”

Quinta-feira

Todos os tempos em nós

Quando observamos um fragmento de terra, damo-nos conta dos vários estratos geológicos, e somos também capazes de dizer: este demorou mil anos a sedimentar, aquele quinhentos, outro dez. Toda a realidade é transformada pelo incomensurável efeito do tempo: quer seja um minúsculo seixo ou uma montanha grandiosa, tudo tem a sua chave indispensável no tempo.

Também nós somos trabalhados, instante após instante, pelos seus instrumentos. E o tempo passa entre nós de uma maneira por vezes tão delicada, que nem sequer nos damos conta; outras vezes, atormenta-nos, assedia-nos, tortura-nos com a sua voracidade. Nós somos duração e, como escreve o poeta francês Paul Éluard, «duro desejo de durar». Ou seja, trazemos em nós a memória e a presença de tempos muito diferentes, e tudo isto, por muito que nos custe integrá-lo em nós, é um dom.

Conhecer-se é tomar consciência de todos estes tempos que coexistem dentro de nós, inclusive no seu contraste. É preciso, por isso, afastar de nós a tentação da idealização, ou do cinismo, e aceitar que somos feitos de materiais muito diferentes.

Compreender como tudo isso é, no fundo, não só a matéria da vida, mas a consistência da própria vida, aproxima-nos de um horizonte de amadurecimento, de autenticidade e de sentido. Muito mais do que o quanto não cremos, a beleza é uma sabedoria que nos pertence.

José Tolentino Mendonça in “Avvenire”

Sexta-feira

Ousemos deixar explodir a alegria da Ressurreição

Jesus amou até ao fim, não condenava ninguém. E nós acreditamos que ele ressuscitou. Ninguém pode descrever ou mesmo imaginar a ressurreição de Jesus. Podemos apenas dizer que ele venceu o ódio com o amor, que a morte não teve a última palavra. Ele vive e acompanha misteriosamente cada ser humano.

Por que é que Deus não respondeu imediatamente ao grito de Jesus na cruz ressuscitando-o no próprio dia da sua morte? Porque Jesus, como muitos homens, mulheres e crianças, teve de conhecer o silêncio de Deus para ser completamente solidário connosco. Há uma imagem que exprime este amor magnificamente: é o ícone da ressurreição. Ali, vemos Jesus, que desce às mais profundas trevas. E o que faz Jesus? Abre as portas do inferno. Pega nas mãos de Adão e de Eva, simbolizando toda a humanidade, e volta a subir, libertando-os desta prisão. Então, ousemos deixar explodir a alegria da ressurreição, a alegria de Cristo nas nossas vidas. Longe de nos afastar dos que sofrem, esta alegria concede-nos, pelo contrário, a coragem de fazer face ao nosso próprio sofrimento e ao dos outros.

Para manter e reencontrar sempre o impulso desta fé pascal, necessitamos de caminhar com outros, de falar com outros sobre a nossa fé, as nossas dúvidas, sobre como rezar. Por isso, vos encorajo a caminhar em conjunto com outros, não sozinhos, na fé, e, de igual modo, a permanecer conscientes da beleza da terra, da natureza, e tudo fazer para cuidar do ambiente.

Nós, os irmãos, vivemos em conjunto porque queremos exprimir, pela nossa vida de comunidade, que Cristo ressuscitou, que nos reuniu nele, para além de todas as diferenças que podem existir entre nós. Agradeçamos a Deus por nos reunir por Cristo no Espírito Santo nesta comunhão única que é a Igreja: mesmo pobre e imperfeita, ela permite-nos ser um sinal de amor de Deus por toda a humanidade.

Irmão Alois de Taizé  in “Meditações semanais em Taizé” (www.taize.fr)

Sábado

Amarás

A conversão é a inversão da rota do barco que, se continua assim, vai direita às rochas. Não serve fazer a conta dos bons e dos maus, é preciso reconhecer que é todo um mundo que tem de mudar de direção: nas relações, na política, na economia, na ecologia.

Nunca como hoje sentimos como é atual este apelo do coração de Jesus. Nunca como hoje compreendemos que tudo na criação está em estreita conexão: se há milhões de pobres sem dignidade nem instrução, será todo o mundo a ser desprovido do seu contributo; se a natureza é envenenada, morre também a humanidade; a extinção de uma espécie equivale a uma mutilação de todos.

Convertei-vos à palavra que é cumprimento da lei: «Amarás». Amai-vos, em vez de vos destruirdes. O Evangelho está todo aqui. À gravidade destas palavras faz de contraponto a confiança da pequena parábola da figueira estéril: o dono está cansado, quer frutos, fará cortar a árvore. Mas o agricultor sábio, com o coração no futuro, diz: «Mais um ano de cuidado e saborearemos o fruto».

Mais um ano, mais sol, chuva e cuidado para que esta árvore, que sou eu, esteja boa e dê fruto. Deus agricultor, dobra-se sobre mim, hortelão confiante deste pequeno horto no qual semeou tanto para tirar tão pouco.

Todavia, continua a enviar germes vitais, sol, chuva, confiança. Ele acredita em mim antes mesmo que eu diga sim. O seu propósito é trabalhar para fazer florescer a vida: o fruto do próximo verão vale mais do que três anos de esterilidade. E por isso desencadeia processos, inicia percursos, entrega-nos uma antecipação de confiança. Não se sabe quanta exposição ao sol de Deus precisará uma criatura para chegar à harmonia e ao florir da sua vida. Por isso, tem confiança, sê indulgente com todos, e também contigo próprio. A primavera não se deixa perturbar, nem a Páscoa se rende. A confiança é uma vela que impele a história. E, verás, aquilo que tarda, virá.

Ermes Ronchi in “Avvenire”