XXI Semana do Tempo Comum

Domingo

Coisas bonitas

Bonita é a casa habitada, o café com leite, a manteiga no pão, a partilha da luta quotidiana, o beijo do “até logo”.

Bonita a tenacidade dos que lutam.

Bonito o gato que te adota como mãe, o aninhar de uma criança num colo.

Bonito respirar, ouvir, andar, ver.

Bonita é a ascensão que dói, é ousar, relaxar os músculos no alto da montanha, depois de ter trepado até lá cima.

Bonito é saber que existe em nós uma força por descobrir, é ver o espanto das tempestades ao encontrarem-nos refeitos.

Bonito é escorregar e depois rir da queda.

Bonita a magia da linguagem, a força da imaginação.

Bonito, na terra, a indignação que pede justiça, o funeral das armas, o diálogo de verdades e direitos, o estreitar das mãos.

Bonita a amizade, as marés da memória, o reconhecer dum rosto através das coisas.

Bonitos os milagres íntimos.

Bonito o homem, carregado de dons e grandeza, dobrar-se como árvore generosa e humilde.

Bonita a colmeia dos nossos sonhos. Bonito é o bonito não caber em palavras.

Henrique Manuel S. Pereira in “Os paraísos são interiores”

Segunda-feira

A felicidade

De que coisa está à procura a maior parte de nós? O que é que cada um de nós deseja? É certamente importante descobri-lo, e para o fazer procuramos, afanosamente, passando de um líder para o outro, de uma organização religiosa para outra, de um Mestre para outro. Por vezes, não sei se procuramos a felicidade, ou quem sabe aquela outra gratificação de que esperamos que nos traga felicidade. Buscamos todos um sentido de plenitude.

A felicidade é um estado de graça terno e frágil: um efeito do coração. Mas como encontrar a felicidade?

Antes de tudo, devemos encontrar uma razão para viver, saber aquilo que se quer, e querê-lo com paixão. Depois, deixar ao conselho, a uma certa casualidade, à conspiração das circunstâncias a possibilidade de nos forçarmos a escolher esse caminho único.

Por fim, é muito importante cultivar os papéis que escolhemos, mas que dormitam constantemente em nós. Equilibrar assim a outra parte de nós, de maneira a que quem é demasiado ativo cultive em segredo um espírito de solidão e de contemplação, quem cultiva as ciências cultive também a leitura, quem vive os trabalhos manuais cultive também a poesia. É importante esta abertura ao universal para compensar o desequilíbrio do nosso viver que nos conduz ao esgotamento.

A felicidade é mais do que o prazer e mais do que a sobreabundância, é um contentamento que se basta a si próprio.

Luigi Verdi  in “La realtà sa di pane”

Terça-feira

O dom da gratuidade

Trazemos até ti o quotidiano pulsante, o tráfico atrapalhado dos nossos passos, a sirene urgente das necessidades a que hipotecamos tempo, preocupação e esforço. Por vezes, a vida lateja em nós sem margens, organiza-se sem pausas, com uma respiração repetida e férrea. Mas dentro de nós permanecemos sedentos. Acabada a atividade febril, descobrimo-nos nós próprios inacabados. Sentimos que nos falta um tempo que expresse, para lá da mera perseguição do necessário, a pura graça daquilo que não tem porquê.

Por isso te pedimos, Senhor, a ousadia de viver o gratuito: que hoje abramos uma janela não apenas para vistoriar o chão, mas para que os nossos olhos se percam na vastidão dos céus; que hoje dediquemos à vida em nosso redor um olhar largo, sem juízos precipitados, sem a sombra dos ressentimentos que sitiam. E que interpretemos a excedência do real como um chamamento a experimentar a prodigalidade do amor que repartes com as tuas criaturas, pois é o excesso do dom e não a egoística penúria que te espelha a cada instante.

José Tolentino Mendonça in “Rezar de olhos abertos”

Quarta-feira

Frutos da meditação

Quase todos os frutos da meditação se recebem fora da meditação. Alguns desses frutos são, por exemplo, uma maior aceitação da vida tal qual é, uma assunção mais cabal dos seus limites e dos seus achaques ou dores que se arrastam, uma maior benevolência para com os semelhantes, uma atenção mais cuidada às necessidades alheias, um superior apreço pelos animais e pela natureza, uma visão do mundo mais global e menos analítica, uma crescente abertura ao diferente, à humildade, à confiança em si mesmo, à serenidade.

Na prática constante da meditação comprova-se que, se lavraste conscientemente a tua consciência e te adubaste bem, tudo crescerá esplendidamente. Viver é preparar-se para a vida. Todo o esforço que se investe em si próprio dará fruto, mais cedo ou mais tarde. É claro que os frutos costumam demorar a ser colhidos, mas colhem-se! Que o digam os artistas que, depois de longos anos de formação, dão à luz, graciosamente, como se nada fosse, uma obra-prima. Não foi graciosamente, não foi como se tivesse saído do nada. O tronco tinha raiz, a fruta estava madura.

Pablo d’Ors in “A biografia do silêncio – breve ensaio sobre meditação”

Quinta-feira

Proclamação

Atualmente, o profeta – frente a um mundo onde reina um individualismo feroz e em que aqueles que não conseguem prover às suas necessidades são facilmente esquecidos –  tem de fazer mais do que limitar-se a servir. Deve conduzir este mundo para lá das divisões presentes de raça e de género, de identidade nacional e de classe económica. Sim, o profeta está sempre desajustado em relação à resposta comum à dor, à carência, à perda ou à opressão. Os profetas são sempre incomodamente diferentes, desafiando sempre a consciência dos que ficam para trás, fazendo sempre frente a um mundo que lhes levanta obstáculos, sempre a caminho do Reino, e não do palácio.

Hoje, o apelo é a que todos nós percebamos que a tradição profética foi transmitida para que cada um de nós a pudesse reivindicar. O mundo precisa que todos nós, que cada um de nós, agora, tome o seu lugar com Jesus no caminho da Galileia para Jerusalém, de tal modo que as necessidades e a dor de ninguém sejam ignoradas ao longo da caminhada.

Joan Chittister  in “O tempo é agora – um chamamento para uma coragem invulgar”

Sexta-feira

A arte dos pequenos passos

«Não te peço milagres ou visões, mas a força para enfrentar o quotidiano. Preserva-me do temor de poder perder alguma coisa da vida. Não me dês o que desejo, mas o que preciso. Ensina-me a arte dos pequenos passos.»

Esta é uma oração aparente mínima, quase sussurrada por um escritor conhecido sobretudo pelo sucesso constante de um seu romance, “O principezinho”. Antoine de Saint-Exupéry, que era também aviador, pede a Deus um dom raramente evocado, o da simplicidade e da fidelidade pacata e serena nas pequenas opções de cada dia.

É a mesma atitude orante do salmista na deliciosa cena materno-filial do Salmo 131: «Não vou à procura de coisas grandes, superiores às minhas forças. Estou tranquilo e sereno como criança nos braços da sua mãe».

Estamos nos antípodas do estilo do nosso tempo que prefere o excesso, o grito, a exasperação. Uma atitude que se infiltra também na espiritualidade, com a procura de visões e milagres, com a predileção pelas expressões exteriores e o abandono da paciente e constante formação interior. O desejo vai muito além das necessidades reais e, portanto, queremos ter sempre cada vez mais, tanto no bem-estar quanto no sucesso, e também na religião. Eis, então, a sugestiva expressão do escritor francês: «a arte dos pequenos passos».

Em vez de fazer saltos clamorosos e, muitas vezes, ruinosos, é preciso optar por um caminho lento e progressivo. Um passo após outro em direção ao objetivo é muito mais eficaz do que uma corrida desenfreada e extenuante que, no fim, nos deixa à beira do caminho.

Cardeal Gianfranco Ravasi  in “Avvenire”

Sábado

Coração de pedra, a doença mais temida

Jesus era certo de ser encontrado nos problemas de fronteira do ser humano, à escuta do grito da Terra, no encontro com os últimos, atravessando com eles os territórios das lágrimas e da doença. Onde chegava, em aldeias, cidades ou no campo, traziam-lhe os enfermos e suplicavam-lhe que ao menos lhes deixasse tocar a bainha da sua capa. E quantos o tocavam eram salvos. Daqui vinha Jesus, trazia nos olhos a dor de corpos e das almas, a alegria irreprimível dos curados. Agora, fariseus e escribas queriam prendê-lo em frivolidades, como mãos lavadas ou não, questões de loiça e de objetos! Compreende-se como a réplica de Jesus é dura para eles: hipócritas! Tendes o coração distante! Distante de Deus e do ser humano. O grande perigo, para os crentes de todos os tempos, é viver uma religião de coração distante e ausente, nutrido por práticas exteriores, fórmulas e ritos; que se compraz com o incenso, a música, as horas das liturgias, mas não sabe socorrer os mais necessitados. O coração de pedra, o coração distante insensível ao ser humano, é a doença que o Senhor mais teme. «O verdadeiro pecado é, antes de tudo, a recusa de participar na dor do outro» ( J. B. Metz).

O que Ele propõe é o regresso ao coração, uma religião da interioridade: não há nada fora do ser humano que, entrando nele, o pode tornar impuro; são, pelo contrário, as coisas que saem do coração do ser humano. Jesus desconstrói todos os preconceitos sobre o puro e o impuro, esses preconceitos tão difíceis de morrer. Cada coisa é pura: o céu, a Terra, todo o alimento, o corpo do homem e da mulher. Como está escrito, Deus viu e tudo era bom. Cada coisa é iluminada. Jesus abençoa de novo a vida e atribui ao coração, e só ao coração, a possibilidade de tornar as coisas puras ou impuras, de as sujar ou de as iluminar. A mensagem festiva de Jesus, tão atual, é que o mundo é bom, que todas as coisas são boas, «repletas de palavras de amor». É uma mensagem que diz que deves proteger com todo o cuidado o teu coração, para que, por sua vez, seja protetor da luz das coisas. Fora as superestruturas, os formalismos vazios. Livre e novo regresse o Evangelho, libertador e renovador, uma lufada de ar fresco dentro do calor pesado dos discursos óbvios e habituais. Percorre o Evangelho e aflora-te o toque de um vento criador que te regenera, porque chegaste, porque regressaste ao coração feliz da vida.

Ermes Ronchi in “Avvenire”