XXII Semana do Tempo Comum

XXII Domingo do Tempo Comum

O dilema da vida

A vida é uma viagem esplêndida e para vivê-la só se deve evitar uma coisa: o medo. De todos os dilemas que conheço, o melhor é a própria vida. Quem pode resolvê-lo? A vida é tudo menos segura, apesar das nossas absurdas tentativas para que o seja. Ou se vive ou se morre: mas quem se decidir pela primeira hipótese, deverá aceitar o risco. Estamos à mesa, diante do tabuleiro, e tudo se conjugou para que peguemos no copo, o agitemos e lancemos os dados. Mas entristeço-me só de pensar que há muitos que têm o copo na mão, que até chegam a agitá-lo, mas não permitem que esses dados, brincalhões e ruidosos, saiam disparados e rolem no tabuleiro. E entristeço-me por haver muitos que passam a vida a olhar para esse tabuleiro, mas sem se decidirem a jogar, muitos que duvidam se deveriam ou não sentar-se à mesa do banquete, posta para eles; muitos que vão ao rio e não tomam banho, ou à montanha e não a sobem, ou à vida e não a vivem.

Pode-se viver sem lutar contra a vida. Mas, porque se há de ir contra a vida, se se pode ir a seu favor? Porquê apresentar a vida como um ato de combate, em vez de um ato de amor? Tenho a impressão que a meditação existe para erradicar o medo e para nos apercebermos que podemos viver de outra forma. A meditação abre uma frecha na estrutura da nossa personalidade, até que, de tanto meditar, a brecha se alarga e a velha personalidade rompe-se e, como uma flor, começa a nascer uma nova. Meditar é assistir a esse fascinante e tremendo processo de morte e renascimento.

Pablo d’Ors in “A biografia do silêncio – breve ensaio sobre meditação”

Segunda-feira

Um dia houve Alguém que sonhou

Um dia houve alguém que sonhou. Sonhou que a Sua Palavra tocaria os simples e incomodaria os que se sentiriam intocáveis. Sonhou que na Sua mesa não faltaria pão e vinho para os que lhe procurassem de coração humilde e com toda a sua inteireza.

Um dia houve alguém que sonhou. Sonhou que jamais existiria divisão entre puros e impuros. Sonhou que todas as Suas palavras eram escutadas por quem tem sede e fome de amor. Sonhou que poderia deixar entregue o Seu Reino a uma só Igreja. Uma Igreja que se importaria mais com a humanização dos gestos do que com a verbalização das doutrinas.

Um dia houve alguém que sonhou. E para isso deu a conhecer um Pai com entranhas de Mãe, porque só quem sonha consegue ver e praticar a misericórdia. Sonhou com a certeza de que a compaixão conseguiria erguer tantos e tantas. Dando-lhes a possibilidade de poder recomeçar vezes sem fim e de poderem regressar a casa em festa.

Um dia houve alguém que sonhou. Sonhou elevar a Sua humanidade para que ninguém pudesse duvidar da Sua divindade. Sonhou que o Seu olhar daria a alegria de se saberem amados. Sonhou que o Seu toque daria a felicidade de se saberem erguidos. Sonhou que todos e todas pudessem sentir-se ovelhas do mesmo rebanho, não por intimidação, mas por reconhecerem o seu amado.

Um dia houve alguém que sonhou. E não descansou enquanto não deixou tudo planeado. Não desistiu enquanto não transmitiu tudo àqueles que O seguiam. Porque Ele bem sabia que o Seu sonho não era coisa para ficar dentro de Si. Ele bem sabia que tinha de se cumprir para que o Mundo jamais ficasse na mesma.

Um dia houve alguém que sonhou. Sonhou mais alto do que todos os homens e mulheres e para que o Seu sonho ganhasse forma teve de o concretizar com a Sua vida. Por inteiro. Doando-se sem medidas.

Um dia houve alguém que sonhou e por isso amou.

Emanuel António Dias  in “imissio.net”

Terça-feira

Oração

Uma oração não é uma droga tranquilizante e também não é uma ocasião para soluçar no colo de Deus; é a forja de Deus em que devemos ser refundidos com a Palavra do Evangelho e forjados na forma de um instrumento seu, de um instrumento que nas suas mãos não perde nem a liberdade nem a responsabilidade de distinguir como e para quê há de ser utilizado.

Uma oração não é um voo fantasioso para o céu ou uma fuga para o além dos nossos desejos; pelo contrário, vira o nosso olhar para a terra, sempre que, enlevados e passivos, queremos olhar para o céu das nossas representações, das nossas projeções, dos nossos sonhos e utopias.

Na oração, tornamo-nos conscientes de que este mundo é o campo onde está escondido o tesouro de Deus. “O campo é o mundo”, diz Jesus aos seus discípulos quando Ele lhes explica a parábola do semeador. Mas o campo, em que Ele incessantemente trabalha e para onde nos envia, a fim de constantemente trabalharmos, é também o nosso coração, a nossa vida, situada neste mundo. Esse campo distingue-se pela qualidade e pela extensão da cultura: quando a Palavra de Deus cai entre espinhos, não germina, e quando cai entre as pedras dos corações duros ou na água insípida da nossa superficialidade, perde-se e não produz fruto.

Tomás Halík in “O meu Deus é um Deus ferido”

Quarta-feira

Vida maravilhosa

Não há pontos de partida ideais. O melhor ponto de partida é o “que nos vem às mãos”, isto é, aquele latente, aquele que concretamente é o nosso, aquele que representa o acessível e ordinário mais do que a rebuscada exceção. Daí devemos partir. Na vida e na poesia o gesto necessário, capaz de desencadear um consistente movimento de futuro, é uma confiança — frágil e difícil que seja, mas uma confiança — investida no real que somos. Descobrindo desse modo que, para quem se dispõe a realizar um itinerário interior, tudo é oportunidade, tudo se pode tornar possibilidade de caminho.

A questão decisiva não está, portanto, em controlar donde se parte, porque isso em grande medida depende do jorro incontrolável da vida que sempre nos excede. A questão é como se procede depois. Isto é, o que se faz com aquilo que a vida inicialmente nos deu. O desafio é que cheguemos a compreender em cada situação o essencial sem equívocos, que ousemos tocar em cada coisa aquilo que está para lá das maneiras, dos usos e artifícios, aquilo que da vida se mostra na sua verdade nua. É preciso dizer que o paradigma dominante nas nossas sociedades vai noutra direção, pois sem rodeios decreta que se proceda não por esvaziamento, mas por acumulação. E, de facto, para onde quer que se olhe constata-se o triunfo desse princípio. O insustentável peso do supérfluo que nos adoece provém daí, dessa espécie de debilidade interna que nos torna dependentes do consumo pelo consumo, que nos obsidia com a ordem a acumular, com uma voracidade cega e inconcludente que nos leva a encher a existência de coisas, coisas, coisas, adiando dessa forma o encontro connosco próprios. Ora, é por um exercício de subtração e desnudamento que a hospitalidade profundamente se dá. “Retirar o supérfluo” constitui, por isso, não só um dispositivo crítico face à saturação, mas é também um mediador da evidência, um acelerador possível da revelação. Diminuir o supérfluo para permitir o esplendor — é uma proposta que serve para construir um poema e para cumprir a aventura que a vida representa. A tal não se acede sem arriscar um desconforto, sem sentir que nos expomos na nossa pobreza, sem reconciliar-se com essa pobreza, sem desarmar o território do nosso coração. É um caminho lento, não raro balançado pela trepidação do medo, mas que nos leva a contemplar com sabedoria a nossa vida maravilhosa.

José Tolentino Mendonça in “Revista E (01.07.22)”

Quinta-feira

Apontar para outro estilo de vida

A situação atual do mundo gera um sentido de precariedade e insegurança que, por sua vez, favorece formas de egoísmo coletivo. Quando as pessoas se tornam autorreferenciais e se isolam na própria consciência, aumentam a sua voracidade: quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto mais necessita de objetos para comprar, para possuir, para consumir.

Mas nem tudo está perdido, porque os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se, para além de qualquer condicionalismo psicológico e social que lhes seja imposto. São capazes de olhar para si mesmos com honestidade, exteriorizar o próprio pesar e encetar caminhos novos rumo à verdadeira liberdade. Não há sistemas que anulem, por completo, a abertura ao bem, à verdade e à beleza, nem a capacidade de reagir, que Deus continua a estimular no mais fundo dos nossos corações.

É sempre possível desenvolver uma nova capacidade de sair de si mesmo rumo ao outro. Sem tal capacidade, não se reconhece às outras criaturas o seu valor, não se sente interesse em cuidar de algo para os outros, não se consegue impor limites para evitar o sofrimento ou a degradação que nos rodeia. A atitude basilar de se autotranscender, rompendo com a consciência isolada e a autorreferencialidade, é a raiz que possibilita todo o cuidado dos outros e do meio ambiente. Quando somos capazes de superar o individualismo, pode-se realmente desenvolver um estilo de vida alternativo e torna-se possível uma mudança relevante na sociedade.

Papa Francisco in “Laudato Si – carta encíclica sobre o cuidado da casa comum”

Sexta-feira

A simplicidade

Por vezes, não sabemos ser simples porque nos falta a coragem e a humildade de ser tal como somos; essa simplicidade que, como diz Dante, é a beleza do branco como a síntese de todas as cores; simplicidade que é como o ar de que se vive sempre, mas de que só te dás conta quando é mais puro.

Se soubermos ser simples, quando chega a dor, a crise ou a morte, bastar-nos-á um pequeno passo, se somos complicados precisaremos de muitos. Simplicidade como a de Jesus, que escuta o grito, que lava os pés, que é criança, que é jovem operário, que não se serviu do divino para encontrar o pão, que não se aliou aos poderosos, que não se lançou do pináculo do tempo para fazer fáceis milagres; simplicidade que teve no momento em que chegou a provação e não escapou.

A verdadeira simplicidade é um mistério que não se alcança com os próprios esforços ou com as próprias virtudes, mas é o reflexo em nós de uma luz que nos é dada pelo mais simples dos simples: Deus.

O que mais espanta em Jesus é o poder da sua liberdade e a sua espontaneidade. Espanta-nos este homem de coração grande, universal e ao mesmo tempo de vida simples. É grande o seu natural acolher aquilo que é compreensível e aquilo que não o é: o simples oferece sempre hospitalidade à diversidade.

Luigi Verdi  in “La realtà sa di pane”

Sábado

Algumas notas

Gosto de dizer que andamos no mistério e vivemos de sinais. Procuramos todos o mesmo, ainda que, eventualmente, por caminhos diferentes: ser felizes. Como consegui-lo? Talvez por aqui nunca o sejamos em plenitude, mas podemos ir tentando.

O mais importante é ter algum ideal grande para cuja consecução importam pouco os fracassos e as dificuldades. Depois, ter fé no futuro e confiança na vida. Assumir cada dia os problemas de hoje em vez de se pôr a sofrer antecipadamente pelos que poderão chegar amanhã ou mais logo. Tomar e viver a decisão de pensar muito mais no positivo e bom que temos do que nas zonas mais negras que havemos de atravessar. Falar do bem e não remoer os fracassos do passado. Acreditar nos outros e preferir ser enganado a passar a vida toda a desconfiar de todos. Dedicar-se mais aos problemas do próximo do que de si próprio.

E amar, amar sem nos perguntarmos se alguém nos agradecerá. Ficar certos de que, a longo prazo, inclusivamente neste mundo, o amor acaba por funcionar e também seremos mais amados do que merecemos.

Despertar toda a manhã como recém-nascidos. Pendurar todas as noites no cabide as preocupações do dia, dormir esquecido delas.

E sorrir. Sempre.

Henrique Manuel S. Pereira in “Os paraísos são interiores”