XXII Semana do Tempo Comum

XXII Domingo do Tempo Comum

O dilema da vida

A vida é uma viagem esplêndida e para vivê-la só se deve evitar uma coisa: o medo. De todos os dilemas que conheço, o melhor é a própria vida. Quem pode resolvê-lo? A vida é tudo menos segura, apesar das nossas absurdas tentativas para que o seja. Ou se vive ou se morre: mas quem se decidir pela primeira hipótese, deverá aceitar o risco. Estamos à mesa, diante do tabuleiro, e tudo se conjugou para que peguemos no copo, o agitemos e lancemos os dados. Mas entristeço-me só de pensar que há muitos que têm o copo na mão, que até chegam a agitá-lo, mas não permitem que esses dados, brincalhões e ruidosos, saiam disparados e rolem no tabuleiro. E entristeço-me por haver muitos que passam a vida a olhar para esse tabuleiro, mas sem se decidirem a jogar, muitos que duvidam se deveriam ou não sentar-se à mesa do banquete, posta para eles; muitos que vão ao rio e não tomam banho, ou à montanha e não a sobem, ou à vida e não a vivem.

Pode-se viver sem lutar contra a vida. Mas, porque se há de ir contra a vida, se se pode ir a seu favor? Porquê apresentar a vida como um ato de combate, em vez de um ato de amor? Tenho a impressão que a meditação existe para erradicar o medo e para nos apercebermos que podemos viver de outra forma. A meditação abre uma frecha na estrutura da nossa personalidade, até que, de tanto meditar, a brecha se alarga e a velha personalidade rompe-se e, como uma flor, começa a nascer uma nova. Meditar é assistir a esse fascinante e tremendo processo de morte e renascimento.

Pablo d’Ors in “A biografia do silêncio – breve ensaio sobre meditação”

Segunda-feira

A lonjura dos dias

«O valor da vida não está na lonjura dos dias, mas no uso que deles fazemos. Uma pessoa pode ter vivido muito tempo, e todavia pouquíssimo.»

Recorremos a um autor que facilmente oferece motivos de reflexão mediante páginas marcadas pelo caráter lapidar e essencial. É dos “Ensaios” do famoso pensador francês Michel de Montaigne (1533-1592) que extraímos esta breve meditação sobre a vida.

Hoje, a existência humana alongou-se muito, mas não é por isso que podemos dizer que se vive mais, em sentido autêntico. Por vezes, os idosos têm diante de si anos e anos de sobrevivência quase larvar, meramente vegetativa.

Mas isto vale também para muitos jovens ou para quem está na plenitude do vigor da maturidade. Pode-se, com efeito, simplesmente ser-se sem se ser verdadeiramente. O tempo cronológico é igual para todos, mas é bem diferente o conteúdo existencial que o preenche.

Efetivamente, há quem tenha à sua frente só dias vazios, «dias tristes e anos – como confessava Qohélet – de que devo dizer: não sinto neles prazer algum» (12, 1). E há, ao contrário, quem complete as suas horas de obras, pensamentos e afetos. Só assim se pode dizer verdadeiramente que se vive, e não apenas que se existe.  

Rezemos, então, com as palavras do salmista: «Sacia-nos pela manhã com os teus favores, para podermos cantar e exultar todos os dias. Venham sobre nós as graças do Senhor, nosso Deus! Confirma em nosso favor a obra das nossas mãos; faz prosperar a obra das nossas mãos» (90, 14.17).

Cardeal Gianfranco Ravasi  in “Avvenire”

Terça-feira

Oração

Uma oração não é uma droga tranquilizante e também não é uma ocasião para soluçar no colo de Deus; é a forja de Deus em que devemos ser refundidos com a Palavra do Evangelho e forjados na forma de um instrumento seu, de um instrumento que nas suas mãos não perde nem a liberdade nem a responsabilidade de distinguir como e para quê há de ser utilizado.

Uma oração não é um voo fantasioso para o céu ou uma fuga para o além dos nossos desejos; pelo contrário, vira o nosso olhar para a terra, sempre que, enlevados e passivos, queremos olhar para o céu das nossas representações, das nossas projeções, dos nossos sonhos e utopias.

Na oração, tornamo-nos conscientes de que este mundo é o campo onde está escondido o tesouro de Deus. “O campo é o mundo”, diz Jesus aos seus discípulos quando Ele lhes explica a parábola do semeador. Mas o campo, em que Ele incessantemente trabalha e para onde nos envia, a fim de constantemente trabalharmos, é também o nosso coração, a nossa vida, situada neste mundo. Esse campo distingue-se pela qualidade e pela extensão da cultura: quando a Palavra de Deus cai entre espinhos, não germina, e quando cai entre as pedras dos corações duros ou na água insípida da nossa superficialidade, perde-se e não produz fruto.

Tomás Halík in “O meu Deus é um Deus ferido”

Quarta-feira

O que resta da noite

Ilumina, Senhor, o que resta em nós da noite.

O escuro pega-se à vida, propaga-se uma treva pelos corredores do coração. A esperança que tanto queríamos tem as luzes apagadas há tanto tempo. Tropeçamos dentro de nós, e em toda a parte, em fios que não vemos.

Assistimos ao nascer do teu dia, mas nem sempre renascemos para ele, pois prendem-nos os laços da seda desta e daquela escuridão, que bem conheces.

Ilumina, por isso, Senhor, ao pátios da tristeza pequenina que contamina tudo. Entreabre-nos à tua verdade que dá vigor aos nossos recomeços.

Faz-nos olhar a maré alta, o oceano vasto, as coisas simples e plenas como sinais do que somos chamados a ser. Ensina-nos a preparar o pão claro da alegria.

José Tolentino Mendonça in “Rezar de olhos abertos”

Quinta-feira

Apontar para outro estilo de vida

A situação atual do mundo gera um sentido de precariedade e insegurança que, por sua vez, favorece formas de egoísmo coletivo. Quando as pessoas se tornam autorreferenciais e se isolam na própria consciência, aumentam a sua voracidade: quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto mais necessita de objetos para comprar, para possuir, para consumir.

Mas nem tudo está perdido, porque os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se, para além de qualquer condicionalismo psicológico e social que lhes seja imposto. São capazes de olhar para si mesmos com honestidade, exteriorizar o próprio pesar e encetar caminhos novos rumo à verdadeira liberdade. Não há sistemas que anulem, por completo, a abertura ao bem, à verdade e à beleza, nem a capacidade de reagir, que Deus continua a estimular no mais fundo dos nossos corações.

É sempre possível desenvolver uma nova capacidade de sair de si mesmo rumo ao outro. Sem tal capacidade, não se reconhece às outras criaturas o seu valor, não se sente interesse em cuidar de algo para os outros, não se consegue impor limites para evitar o sofrimento ou a degradação que nos rodeia. A atitude basilar de se autotranscender, rompendo com a consciência isolada e a autorreferencialidade, é a raiz que possibilita todo o cuidado dos outros e do meio ambiente. Quando somos capazes de superar o individualismo, pode-se realmente desenvolver um estilo de vida alternativo e torna-se possível uma mudança relevante na sociedade.

Papa Francisco in “Laudato Si – carta encíclica sobre o cuidado da casa comum”

Sexta-feira

A simplicidade

Por vezes, não sabemos ser simples porque nos falta a coragem e a humildade de ser tal como somos; essa simplicidade que, como diz Dante, é a beleza do branco como a síntese de todas as cores; simplicidade que é como o ar de que se vive sempre, mas de que só te dás conta quando é mais puro.

Se soubermos ser simples, quando chega a dor, a crise ou a morte, bastar-nos-á um pequeno passo, se somos complicados precisaremos de muitos. Simplicidade como a de Jesus, que escuta o grito, que lava os pés, que é criança, que é jovem operário, que não se serviu do divino para encontrar o pão, que não se aliou aos poderosos, que não se lançou do pináculo do tempo para fazer fáceis milagres; simplicidade que teve no momento em que chegou a provação e não escapou.

A verdadeira simplicidade é um mistério que não se alcança com os próprios esforços ou com as próprias virtudes, mas é o reflexo em nós de uma luz que nos é dada pelo mais simples dos simples: Deus.

O que mais espanta em Jesus é o poder da sua liberdade e a sua espontaneidade. Espanta-nos este homem de coração grande, universal e ao mesmo tempo de vida simples. É grande o seu natural acolher aquilo que é compreensível e aquilo que não o é: o simples oferece sempre hospitalidade à diversidade.

Luigi Verdi  in “La realtà sa di pane”

Sábado

Algumas notas

Gosto de dizer que andamos no mistério e vivemos de sinais. Procuramos todos o mesmo, ainda que, eventualmente, por caminhos diferentes: ser felizes. Como consegui-lo? Talvez por aqui nunca o sejamos em plenitude, mas podemos ir tentando.

O mais importante é ter algum ideal grande para cuja consecução importam pouco os fracassos e as dificuldades. Depois, ter fé no futuro e confiança na vida. Assumir cada dia os problemas de hoje em vez de se pôr a sofrer antecipadamente pelos que poderão chegar amanhã ou mais logo. Tomar e viver a decisão de pensar muito mais no positivo e bom que temos do que nas zonas mais negras que havemos de atravessar. Falar do bem e não remoer os fracassos do passado. Acreditar nos outros e preferir ser enganado a passar a vida toda a desconfiar de todos. Dedicar-se mais aos problemas do próximo do que de si próprio.

E amar, amar sem nos perguntarmos se alguém nos agradecerá. Ficar certos de que, a longo prazo, inclusivamente neste mundo, o amor acaba por funcionar e também seremos mais amados do que merecemos.

Despertar toda a manhã como recém-nascidos. Pendurar todas as noites no cabide as preocupações do dia, dormir esquecido delas.

E sorrir. Sempre.

Henrique Manuel S. Pereira in “Os paraísos são interiores”