XXIV Semana do Tempo Comum

XXIV Semana do Tempo Comum

O silêncio

O silêncio parou para te falar
Para te escutar e para estar contigo
Para te amar e para te compreender
Para te iluminar e para te libertar.

O silêncio parou para te ver
Para te olhar e para te perceber
Para te experimentar e para te provar
Para te inspirar e para te vencer.

O silêncio parou para te assumir
Para te inundar e para te preencher
Para te encantar e para te seduzir
Para te cativar e para te abrasar.

O silêncio é habitado pelo amor
Fonte de graça e de vida
Ele parou para te encontrar.

Faz silêncio diante do amor e Deus habitará em ti;
Como quem mistura a vida
O Amor mistura-se dentro do teu ser.

És dentro e fora, para dentro e para fora,
O silêncio parou para te revelar os teus espaços interiores e exteriores.

Ele quer te habitar para que saibas quem és
Para que sejas tu mesmo
Para que Deus seja Ele mesmo o teu Deus
Para que tu sejas diante de tudo e tudo seja diante de ti.

A consciência da vida
Está na consciência do silêncio que mora em ti.

Padre José Luís Coelho in https://www.snpcultura.org

Segunda-feira

Passos sem rede

Que medo nos persegue tão violentamente, obrigando-nos a exigir de tudo uma certeza? Há certezas que nunca chegarão, simplesmente porque não tivemos a coragem ou a inocência de arriscar. No pensamento, equacionamos tantas possibilidades e impossibilidades, dúvidas e probabilidades, margens de segurança e de erro, acertos e falhas, que aí esbanjamos os dias, as noites e o tempo, enredados em questões de que não chegamos a sair. E o momento passa. Passam os dias, as noites e o tempo. Vai passando a vida toda e não sabemos.

Esquecemo-nos de ouvir o coração. Perdemos a fé no que sentimos. Não nos arriscamos a seguir pura e simplesmente a voz do amor e perdemos dia após dia o paraíso. E, no entanto, seria tão mais simples se não nos esquecêssemos nunca que no peito de cada ser há um coração pulsante! Seria tão mais simples se o primeiro gesto de cada manhã fosse o de colocar a mão aberta sobre o coração para o sentir vivo, sentirmo-nos gratos pelo pulsar da vida em nós e no silêncio ouvir-lhe a voz! Onde nos envia? A quem procuraremos? O que faremos de bom?

Por que não segui-la sem perguntar porquê, sem duvidar? Não será preciso, por vezes, abdicar desta vontade medrosa de querer saber o porquê de todas as coisas, de ter a certeza de tudo, de estar sempre na posse de certezas inabaláveis? Vamos calar o medo e correr o risco de ouvir atentamente esse sussurro: Deus segreda-nos o seu amor.

Por uma vez, sem questionar, sem querer saber porquê nem que riscos corremos, ouçamos o coração, deixemos que nos leve. Sem esbanjar os dias, as noites e o tempo.

Henrique Manuel S. Pereira in “Os paraísos são interiores”

Terça-feira

A sabedoria

A sabedoria não é saber tudo da vida, mas saber viver e colocar em prática; é a inteligência de estar com os outros ganhando nós e eles sem criar perdedores. Sabedoria é inteligência mais coração, é o equilíbrio da cabeça e das emoções em tudo o que fazemos. A sabedoria é saber permanecer no nosso lugar com serenidade e firmeza no meio das ondas do mundo, é desfrutar os tempos difíceis em vez de os maldizer, é construir quando todos destroem, é ter a coragem de estar fora das modas da estação, porque quando as coisas envelhecem depressa, é sinal de que não têm um fundamento sólido. As pessoas felizes são pessoas que estão de pé, que têm qualquer coisa por que lutar, qualquer coisa em que acreditam, que não se sentam à margem da estrada.

É importante distinguir o essencial da vaidade, a banalidade daquilo que conta de verdade. Se não fazemos a cada dia este serviço à nossa mente, um dia cairemos na mediocridade, iludindo-nos de nela encontrarmos um valor ou um sentido. Seria preciso, no fim de cada dia, selecionar aquilo que é essencial, aquilo que conta realmente, daquilo que não conta, deveríamos fazê-lo mais vezes em vez de continuar a misturar tudo. É esta vigilância que devemos cultivar.

Por vezes pensamos que estamos despertos quando não o estamos. Vigiar é guiar, com uma clara consciência, os sentidos e as três dimensões que temos: mente, corpo e alma. A sabedoria requer uma outra atenção, aquela que Jesus faz experimentar aos discípulos na transfiguração, dizendo-lhes que a luz acesa sobre o monte não elimina a noite. No termo da transfiguração, descem do monte e reentram na escuridão das habituais contradições, mas a luz da transfiguração, se é verdade que não eliminou a noite, permite-lhes dar passos, caminhar um pouco.

As escassas migalhas de sabedoria que adquirimos na vida, e que nos mudaram o coração, passaram através daquilo que na vida era imediato, pobre, essencial, simples, descomplicado. Não foram os discursos de Jesus que converteram Pedro, mas o vê-lo com os espinhos. Foi o Jesus da cruz que converteu o centurião, como para Francisco foi o leproso no caminho. Deveríamos aprender a contar os nossos dias para chegar à sabedoria do coração. Sabedoria capaz de fazer-nos reconhecer Jesus nas suas muitas outras presenças silenciosas.

Luigi Verdi  in “La realtà sa di pane”

Quarta-feira

Reacende o dom de Deus que se encontra em ti

«Reacende o dom de Deus que se encontra em ti», escreveu S. Paulo ao seu querido colaborador Timóteo. Deus depositou um dom em cada um de nós. Mas, como as brasas que ardem sob as cinzas, por vezes o dom de Deus permanece escondido. O desafio é revelá-lo.

Através da oração, podemos começar a descobrir o dom que Deus depositou em nós. No silêncio do nosso coração, descobrimos que Deus nos pede apenas que acolhamos o dom do seu amor.

Também é verdade que os outros podem despertar em nós o dom de Deus. Quando olhamos para nós próprios, pode acontecer que só vejamos o que nos falta. Isso leva-nos a ficar desanimados. O olhar confiante de outra pessoa pode transformar-nos. Foi assim que Timóteo descobriu a sua vocação. Era jovem quando começou a trabalhar com Paulo e tinha um temperamento bastante tímido. Apesar disso, através do olhar confiante de Paulo, Timóteo foi capaz de ir mais longe do que jamais imaginara. Tão longe que se tornou um verdadeiro apoio para Paulo, quando este estava na prisão.

Quem desperta em nós o dom de Deus é o próprio Deus. Deus acredita na nossa humanidade. Confia naquilo que somos. Foi ele próprio que nos deu «um espírito de força, de amor e de bom senso» (2 Tim 1,7). Mas cada dom inclui um chamamento. Agora Timóteo é chamado a dar a sua vida pelo Evangelho. Poderá fazê-lo se, em conjunto com aqueles que o precederam, depositar a sua confiança no poder de Deus. O poder de Deus é a ressurreição, que faz brilhar a própria vida e que nos dá a força interior para ousarmos o dom da nossa vida pelos outros.

Comunidade de Taizé in “Textos bíblicos com comentário” (www.taize.fr)

Quinta-feira

Os ladrões do presente

Segundo um antigo apólogo rabínico, um dia Deus enviou o anjo Gabriel com o dom da eternidade para oferecer à humanidade. Depois de uma longa exploração, o anjo regressou apertando ainda nas mãos aquele dom.

E explicou ao Senhor: «Não encontrei nenhum homem que me escutasse, porque todos tinham um pé no passado e outro no futuro, ou não tinham um presente para se deterem e ouvirem-me».

É verdade, como dizia Santo Agostinho, que o presente, quando é dito, já se tornou passado, enquanto antes é somente um futuro a realizar-se. E todavia a vida é precisamente um contínuo presente, e tinha razão a poetisa italiana Margherita Guidacci (1921-1992) quando, em 1967, escrevia o seguinte: «Enquanto olhava alternadamente pelas duas grandes janelas que davam para o passado e para o futuro, os ladrões entraram imperturbáveis no quarto e roubaram-me totalmente o presente.»

São muitos os ladrões do presente que se aproveitam das nossas distrações para nos roubarem o instante em que vivemos. Há a nostalgia do passado que nos faz olhar para trás com melancolia, como acontece à mulher de Lot ou como aconteceu com o famoso escritor francês Marcel Proust, dedicado só à «procura do tempo perdido». Quem assim vive torna-se uma pessoa de arrependimento permanente, conservadora, lamentadora, deprimida, convicta de que a idade de ouro só existe atrás de si.

Mas há também o frenesim do futuro que torna a pessoa sempre tensa, exaltada, frenética, febrilmente atraída para um “depois” que lhe escapa das mãos, refugiando-se entre o nevoeiro da utopia.

Torna-se por isso importante «compreender esta hora», como dizia Jesus aos seus ouvintes, amar o instante em que Deus nos coloca continuamente, na expetativa do instante único, perfeito e definitivo da eternidade.

Cardeal Gianfranco Ravasi  in “Avvenire”

Sexta-feira

Os meus fracassos são um tesouro

O mundo e a felicidade conquistam-se a pouco e pouco, por entre muitos erros e derrotas. A vida é um caminho bastante íngreme e escorregadio, no qual se cai muitas vezes. Temos de ir devagar, de cair e, sem desanimar, de não desistir.

Erra quem luta, quem tenta, quem busca sempre mais. Erra quem não faz nada, quem não assume os seus erros, quem aponta a sua culpa aos outros, quem tenta justificar-se…Todos erramos, pelo que é uma estupidez alguém julgar que é o único a cometer um determinado erro. E quando não for possível prevenir, vale sempre mais remediar do que qualquer outra coisa.

As intenções não costumam estar erradas, são os meios que escolhemos para as concretizar que são muitas vezes desastrosos. Mas evoluímos de cada vez que corrigimos e ultrapassamos um pormenor de um falhanço.

Não condenes os erros dos outros, aprende com eles. Não tropeces sete vezes na mesma pedra, afasta-a do caminho ou dá um passo ao lado antes de te cruzares com ela. É claro que é quase impossível não cometer várias vezes o mesmo erro, mas também é pouco inteligente andar sempre a fugir e como que a descobrir novos erros para cometer.

A verdade está dentro dos erros. Importa pensá-los. Buscar compreender a raiz do fracasso e, com humildade, comprometer-se com um propósito, pequeno e possível, a fim de que, da próxima vez, fiquemos mais perto da verdade.

Nunca pagues com a tua saúde o sucesso em qualquer outro campo. Esse é um erro tremendo. Nunca apontes para metas demasiado baixas ou próximas. Não serás feliz, mesmo que as consigas alcançar sem erros.

Que eu aprenda comigo e com os outros, para que possa alcançar o que neste momento me é impossível.

José Luís Nunes Martins in www.agencia.ecclesia.pt

Sábado

Fazer da vida um lugar sagrado

O templo é o corpo de cada um de nós. O templo somos nós. O lugar sagrado é a nossa vida. Porque o Espírito de Deus habita em cada um de nós. Então já não estamos dependentes de um lugar, de uma raça, de uma etnia, de uma nação, de uma lei, de um código externo; é em nós que descobrimos Deus. Cada pessoa é o lugar onde Deus está.

Por isso, temos de olhar para a nossa vida de outra maneira. Somos sujeitos diferentes porque o que nos caracteriza não é uma ligação a uma estrutura que está fora de nós, mas a descoberta de que Deus nos habita, de que Deus está em nós. E essa descoberta transforma a nossa vida. Esta vida que, por vezes, nos custa abraçar, nos custa aceitar, nos custa entender; esta vida que é exaltante e ao mesmo tempo é lugar de fragilidade, é lugar de dor; esta vida tão misteriosa que parece que nos escapa; esta vida é o santuário de Deus. Esta vida que construímos dia a dia, esta vida que não existe em abstrato, mas em concreto, nos nossos gestos, na nossa decisão, esta vida que não é apenas biológica mas é a vida ética, a vida sensual, a vida de amor, a vida de procura que em cada um de nós quotidianamente se efetua… Isto que nós somos, isto de inominável, de indecifrável, isto é o lugar de Deus.

Esta é uma transformação imensa que o cristianismo operou. Por isso, tenho de olhar para a minha vida como um lugar sagrado; tenho de olhar para a minha vida com outros olhos, com outra esperança, porventura com outra veneração. Tenho de cair de joelhos perante o espetáculo desabalado e divino que é a vida, por mais frágil que seja. Tenho de olhar para a vida com um coração diferente, um coração novo.

A nossa vida não é apenas um instrumento. Não estamos escravizados a nada; vivemos plenamente a nossa liberdade porque Deus está em nós. Por isso, a nossa grande tarefa é descobrir o que somos, é tornarmo-nos naquilo que somos.

Nenhuma vida é para deitar fora, nenhuma vida é para excluir, nenhuma vida é descartável, nenhuma vida é para ser pisada. A nossa vida tem esta dignidade de ser o templo, o lugar sagrado.

José Tolentino Mendonça in “Homilia no VI Domingo do Tempo Comum (23.2.2014)”