XXIX Semana do Tempo Comum

XXIX Domingo do Tempo Comum

Um novo Reino

“Ouvistes o que foi dito: amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no céu.” (Mt 5, 43-45)

Esta é a página do Evangelho mais difícil de explicar. Por isso mesmo, é a mais bela, a mais desconcertante e a mais perturbadora de todas elas. Embora confessemos que não temos força para a praticar, temos a certeza que seria a única saída para a maioria dos males, que há milénios vêm mutilando irremediavelmente o Homem. O que aqui é pedido ao cristão não é um absurdo, uma utopia, um gesto impossível, mas que tenha a coragem de demonstrar se é ou não o que a sua vocação lhes exige: um homem livre. De facto, só uma pessoa verdadeiramente livre será capaz de amar sem condições. As páginas mais desconcertante do Evangelho, em última análise, não pretendem senão levar o homem à perfeição da liberdade: perdoar e amar, até os inimigos. Além disso, o amor só será verdadeiro se não for condicionado pela exigência da reciprocidade. A gratuitidade é outro dos grandes segredos do Cristianismo: o amor só é verdadeiro se for gratuito.

Jesus sabia o que dizia. O que o cristão receia é não ser capaz de corresponder às suas exigências. É assim que revela a sua grandeza e pede ao Homem que arranque as máscaras de medo e de um egoísmo feroz. Ao cristão não resta senão este inadiável desafio: agir como o Pai do Céu. A vocação de Jesus Cristo é despertar no Homem a superação de tudo quanto é natural, instintivo, terreno, como por exemplo, não obedecer apenas às leis da economia de mercado, mas introduzir a mais valia da solidariedade, do puro acolhimento, do perdão, sem reservas, quer entre indivíduos, quer entre nações.

Com o anúncio do Reino, prosseguido incansavelmente pelo Cristianismo, surge o homem novo, o cristão, porque unido a Cristo nos critérios, nas exigências em que o Homem deve levar a cabo a grande, a única vocação: amar incondicionalmente, até ao último extremo, como Deus ama.

João da Silva Gama in “Encontro com Jesus Cristo”

Segunda-feira

Oferecer alegria

O sopro de Deus em nós é alegria profunda. Quando estamos felizes, estamos em harmonia com Deus. Mas, quando há outras pessoas a sofrer, a nossa felicidade não está em sintonia com o seu sofrimento. É por isso que o apóstolo Paulo escreve: sim, «alegrai-vos com os que se alegram», mas também «chorai com os que choram» (Romanos 12,15). Nós fomos feitos para a alegria. Mas, quando confrontados com o sofrimento dos outros, é com o choro que somos verdadeiros.

A alegria pode magoar aqueles que dela são excluídos. A satisfação de alguém que teve sucesso magoa aqueles que falharam. O júbilo daqueles que se amam pode ser pesado para aqueles que foram abandonados. A felicidade de alguém pode magoar-nos, mesmo sem ser mal intencionada: numa parábola, Jesus fala-nos da felicidade de um homem rico que vivia «feliz no seu esplendor» e que nem sequer reparava no pobre homem Lázaro à sua porta (Lucas 16,19-21).

Então, o que devemos fazer quando os outros sofrem? «Alegrai-vos sempre.» Paulo continua: «Que a vossa bondade seja conhecida por todos» (Filipenses 4,5). A felicidade de que ele fala irradia bondade e gentileza. É, acima de tudo, uma felicidade interior. Às vezes, é quase impercetível e nenhum sinal exterior a denuncia. Tem um toque delicado.

Qual é então o segredo de uma felicidade que não ofende, mas que, por outro lado, alegra aqueles que estão a sofrer? A resposta reside numa alegria de alguém que é pobre: uma felicidade que não é tomada como sua, possessiva, mas que quer sempre ser partilhada. Recusar ser feliz quando os outros sofrem pode originar desespero mútuo. Temos coisas melhores a fazer pelos que estão sujeitos à desgraça. Uma das coisas mais preciosas que podemos oferecer é a nossa luta oculta para manter viva a alegria do Espírito Santo, a alegria que irradia bondade e comunica força e coragem.

Comunidade de Taizé in “Aprofundar a Palavra” (www.taize.fr)

Terça-feira

Fugir à responsabilidade

Este tempo foge da responsabilidade. Vivemos um contínuo alijar de culpas entre pais e filhos, entre marido e mulher, entre políticos e cidadãos, sem que ninguém alguma vez parta dos seus erros. Sem responsabilidade, não se cresce nem como pessoa, nem como sociedade. A responsabilidade implica uma promessa, um compromisso, um assumir um peso que obriga a uma resposta. O puro existir do outro pede-me para não fugir, mas antes ser para ele resposta. É a vida de cada dia que me pede respostas, são o sangue e as lágrimas dos seres humanos que me pedem respostas.

Responsabilidade é a de Madre Teresa. Quando um dia um jornalista lhe pergunta: «Madre, o que é que não está bem neste mundo?», ela responde: «Aquilo que não está bem somos eu e o senhor».

O que falta? O que é que não está bem? Não está bem o nosso fechar os olhos para não os sentir arder pelas lágrimas de quem chora, o acomodarmo-nos a cada erro para não nos incomodarmos. Não está bem a atitude de comodismo, o pensar que o não assumir responsabilidades é a melhor maneira para nunca nos sentirmos culpados e para nos eximir do tormento de escolher.

A responsabilidade pede-nos, ao contrário, que estejamos próximos de nós, que vivamos dentro da realidade sem fugir, que não procuremos álibis, que não descarreguemos as culpas. A responsabilidade é a atenção a onde pões os pés, a levar um pouco mais ao alto de nós aquilo que vive. A responsabilidade requer a coragem de romper o cerco da desordem que há em mim, de me libertar de modas estéreis de uma vida banal, de reencontrar a dignidade de lutar contra a minha instintividade. A responsabilidade pede-me para caminhar contra corrente quando é preciso, e de quebrar os laços quando chega o momento.

A responsabilidade faz-se amor quando, alcançado o domínio de nós próprios, conseguimos ficar de pé nas contrariedades, e quando conseguimos restituir ao outro o governo de si mesmo sem nos aproveitarmos da sua fraqueza.

Luigi Verdi  in “Il domani avrà i tuoi occhi”

Quarta-feira

A pedra e a estrela

Rezo, meu Deus, esta vida, que tantas vezes experimentamos como um caos para o qual não existem nomes possíveis. Sinto-me como uma criança quando, na escuridão da noite, só o grito lhe permanece. Mas o grito é a forma frágil e intensa com que a nossa vida sai em busca de socorro. Como uma criança, Senhor, sinto-me exposto a coisas maiores que eu, à mercê de surpresas que não controlo.

Então, grito-te. Ensina-me, Senhor, que nascemos também neste grito, que o teu amor sabe recolher transformando-o em chamamento, em desejo de presença, em ocasião para o abandono confiante à tua vontade.

Ajuda-me a descobrir aquilo que ainda não vejo. Aproxima, em mim, a lama à estrela, o coração sem norte à sua órbita viva, a alegria introvertida à alegria dirigida para o exterior, o meu pão ao pão de todos. Explica-me que uma existência respira porque é iluminada por aquilo que não espera.

Na verdade, abrimos os olhos todos os dias, mas não quanto seria suficiente. Vemos, descontentes, a imperfeição e a pedra. Olhamos com desgosto – em nós e nos outros – o avesso e a costura. E não nos damos conta de que poder observar o avesso com amor torna-se uma preciosa aprendizagem do caminho (e de um caminho que conduz ao presépio).

Porque aquilo, exatamente aquilo que hoje nós percebemos como pedra, Deus vem ensinar-nos a transformá-lo em estrela.

José Tolentino Mendonça in “Avvenire”

Quinta-feira

Dar e receber

A história da vida sobre a terra baseia-se na troca. Dar e receber são os dois parâmetros essenciais da troca humana, sem os quais a própria sobrevivência da espécie correria riscos. Aprender o caminho do prazer de dar e do prazer de receber pode levar-nos a um sentimento nobre, que enriquece extraordinariamente a nossa vida: a gratidão, a gratidão uns aos outros e ao processo da vida em si, simplesmente.

É através do sentimento de gratidão que se pode não passar ao lado do estar grato pelos dons da vida: sentir o grande prazer de ter olhos para ver o mar, ouvidos para ouvir as palavras de amor que nos dizem, pés para pisar as folhas secas do Outono e capacidade para dar e receber dos outros e com os outros, do mundo e com o mundo. Viver em abundância torna-se então natural porque se soubermos chegar ao dar e ao receber nunca nos faltará nada.

Redescobrir a evidência de que o universo do qual nós somos parte integrante é dotado de uma fertilidade sem fim é abrir o caminho a podermos viver com um sentimento de abundância, ligado justamente ao respeito pelo princípio da troca que rege o mundo e que se inicia desde que nascemos, com as trocas relacionais com aqueles que nos deram a vida e nos criaram. Tudo nasce, cresce e se transforma na e pela relação. Ousemos então a nossa fertilidade, ousando o dar e o receber com simplicidade e abundância.

Isabel Abecassis Empis in “Bem-aventurados… os que ousam!”

Sexta-feira

Não há vidas sem saída

«Um náufrago foi lançado pelas ondas para as costas de um ilhéu deserto. Todos os dias perscrutava o horizonte na esperança de uma ajuda, mas não avistava ninguém no mar. Os dias foram passando e ele conseguiu construir uma cabana. Um dia, voltando da caça para encontrar alguma comida, encontrou a cabana em chamas, enquanto que densas colunas de fumo subiam ao céu. Ficou desesperado. Mas no dia seguinte, eis que vislumbra no horizonte um navio a dirigir-se para o ilhéu. Tinha sido o fumo a impeli-lo na direção daquela ilha.»

Leio esta parábola, atribuída a John Yates, numa revista religiosa. O sentido é claro e é apontado pelo próprio autor: «Ainda que no momento não pareça possível, muitas vezes as tuas dificuldades podem ter efeitos positivos para a tua felicidade futura».

Às vezes, sentimo-nos como que perseguidos pela desventura, as tragédias parecem encarniçar-se, nenhuma espiral de luz se perfila no horizonte. É fácil escorregar para o vórtice sombrio do desespero e, mergulhado na treva, deixam de ver-se os sinais positivos, já não nos agarramos à mão que se estende para nós ou à corda que nos é lançada. Na realidade, não existe uma vida em que não haja – inclusive no ventre escuro do mal – uma possibilidade de esperança e de salvação. Pelo contrário, não é raro que seja precisamente através de uma provação que inesperadamente se chegue à libertação, tal como acontece àquela cabana incendiada e às colunas de fumo. Paulo, aos romanos, escreve que «tudo concorre para o bem daqueles que amam Deus» (8, 28). É preciso, por isso, ter sempre dentro de si um fio de confiança e não ceder à tentação de fechar os olhos e mergulhar no vazio, na desolação sem remédio e sem esperança.

Cardeal Gianfranco Ravasi  in “Avvenire”

Sábado

A grande esperança

Precisamos das esperanças – menores ou maiores – que, dia após dia, nos mantêm a caminho. Mas, sem a grande esperança que deve suportar tudo o resto, aquelas não bastam. Esta grande esperança só pode ser Deus, que abraça o universo e nos pode propor e dar aquilo que, sozinhos, não podemos conseguir. Precisamente o ser gratificado com um dom faz parte da esperança.

Deus é o fundamento da esperança – não um deus qualquer, mas aquele Deus que possui um rosto humano e que nos amou até ao fim: cada indivíduo e a humanidade no seu conjunto. O seu reino não é um além imaginário, colocado num futuro que nunca mais chega; o seu reino está presente onde Ele é amado e onde o seu amor nos alcança. Somente o seu amor nos dá a possibilidade de perseverar com toda a sobriedade dia após dia, sem perder o ardor da esperança, num mundo que, por sua natureza, é imperfeito. E, ao mesmo tempo, o seu amor é, para nós, a garantia de que existe aquilo que intuímos só vagamente e, contudo, no íntimo esperamos: a vida que é “verdadeiramente” vida.

Papa Bento XVI  in “Salvos na Esperança”