XXVI Semana do Tempo Comum

XXVI Domingo do Tempo Comum

Podar

Devemos aprender a viver com leveza, não levando tudo atrás de nós, mas só o essencial, não deixando marcas mas o perfume do vento do Espírito. Para subir é preciso ser-se leve, livre no andar, doce no estar, mexendo-se com destreza entre luz e escuridão; é preciso fabricar passagens onde há muros, abrir brechas nos obstáculos. A vida pede-nos para dar espaço como o ar, de escorrer como a água, de renovar-se como a terra, de deixar vir e passar continuamente em nós a vitalidade.

Gosto dos gestos corajosos e irregulares da mulher que esvazia o frasco do óleo, de Zaqueu que sobre à árvore, e de Pedro que se lança ao lago para chegar mais depressa à margem, este romper uma forma definida para abrir-se a uma outra.

Quando nos sentimos sufocar, usamos as poucas forças que temos para nos reequilibrarmos, mas o problema não é tanto encontrar um mínimo de estabilidade para viver, porque o equilíbrio é gélido, e tornar-se dono de si é pouca coisa. Hoje, o ponto é saber voltar à fonte da vida e colocá-la de novo em movimento, porque sem o cuidado e a proteção da fonte da vida não há aquele húmus-terra-atmosfera que propicia o florir.

O jardim deves cultivá-lo, limpá-lo, roçá-lo, mas antes de tudo corar, tirar, quer antes de semear quer durante o crescimento da planta. Podam-se as plantas para que o velho e aquilo que sufoca impeça os rebentos de apanhar luz e vida. Podar, para os agricultores, é uma arte, porque te faz decidir sobre o futuro de uma planta, tens de decidir onde podar tendo em mente a situação presente e o seu futuro. Podar os ramos velhos que sufocam para permitir ao novo que nasça.

Podar é difícil porque adquirimos muitos hábitos, sentimos a necessidade de ir mais além, mas a nossa natureza resiste, não quer mudar a forma adquirida. O novo nasce do romper-podar as coisas e os gestos, o tempo e as palavras, para regenerar-se, porque a vida só amadurece quando aceita ser podada.

Luigi Verdi  in “Il domani avrà i tuoi occhi”

Segunda-feira

Que fazeis de extraordinário?

A espiritualidade cristã é a espiritualidade do quotidiano, que conserva a sua força transformadora, que é capaz de despertar o espanto e a admiração, apontando sempre para um horizonte mais amplo e mais rico; é a espiritualidade que reacende desejos e sonhos novos, que suscita energias em direção ao mais; é a espiritualidade que faz descobrir, escondida no ordinário, uma Presença absoluta que nos envolve; é a espiritualidade que faz saborear o eterno e o Absoluto no ritmo doméstico e quotidiano da vida… é a espiritualidade que projeta a vida a cada instante; abre espaço à ação do Espírito para que Ele nos expanda, nos alargue e nos impulsione para horizontes novos.

Por isso, todos nós somos chamados a sermos santos; e santo não é aquele que faz coisas extraordinárias, mas santo é aquele que faz as coisas ordinárias de forma extraordinária.  Há aqui um sentido profundo: ser uma pessoa dita “normal”, mas que faz tudo de forma extraordinária. Fazer bem as coisas, com responsabilidade, com ética, com respeito, com justiça…

É a “mística” que nos desperta da letargia do quotidiano. E despertos, descobriremos que o quotidiano guarda segredos, novidades, energias, forças criativas que podem sempre conferir novo sentido e brilho à vida. O Reino revela-se no pequeno, no anónimo, no ordinário e não só no espetacular, no grandioso.   

O quotidiano é o que vivemos e/ou fazemos cada dia: o conjunto de circunstâncias, atividades e relações que formam a trama da nossa vida através da qual Deus se revela presente e atuante. É na realidade diária que cada cristão é chamado a viver em comunhão com Deus e a deixar-se conduzir pelo mesmo Espírito que animou Jesus e o levou a inserir-se na trama humana, assumindo o risco da história. Ser cristão inserido no mundo, no meio das agitações quotidianas, é, acima de tudo, ter Jesus como referência de vida: as suas palavras, as suas ações, o seu modo de relacionar-se com o Pai e com os irmãos…

Neste sentido, os tempos de oração são os momentos privilegiados para que toda a pessoa, consciente de sua responsabilidade social e empenhada na transformação de seu “eu”, possa encontrar na sua vida quotidiana a fonte e a sua fecundidade transformadora.

Adroaldo Palaoro, sj in “centroloyola.org”

Terça-feira

Do silêncio fazer música

O que melhor expressa a experiência de Deus, em qualquer língua e em qualquer credo, é o silêncio. A fé é uma manifestação de confiança no silêncio. Todos os livros sagrados, todas as preces que já se escreveram ou se escreverão, todas as teologias, arquiteturas ou artes que, de uma forma ou de outra, associamos ao sagrado, todas as ritualidades, tão diversas na sua morfologia, mas mantendo entre si equivalências tão flagrantes, são mapas para aproximar-se do silêncio. Que é como quem diz: as experiências religiosas são instrumentos para observar o enigma do mundo; são modos de habitar não apenas a pergunta radical que nós humanos transportamos, mas aquela interrogação ardentemente irremovível que somos; são estratégias de perfuração do visível; são a consideração de que aquilo que tateamos não é o fim, mas o princípio apenas; são laboratórios para o interminável e doloroso espanto que viver significa; são epifania, relance, vislumbre, deslumbre, revelação.

Talvez por serem hermenêuticas do silêncio, as religiões mantêm com a música uma relação tão íntima, tão inesperada, tão criativa, tão verdadeira. Nietzsche escreveu que ”sem a música, a vida seria um engano”. Religião e música encontram-se aí: na busca e na tradução de um sentido para a vida.

José Tolentino Mendonça in “Texto para a folha de sala da oratória Credo”

Quarta-feira

Aqueles doze – ou como a unidade é possível

Nas escolhas de Jesus havia ali muito potencial de discórdia. O cobrador de impostos Mateus, a soldo dos romanos, e o agitador Simão que os queria derrubar. Natanael que vinha de Canã e descredibilizou Jesus antes ainda de o conhecer. Vários pescadores de empresas diferentes, concorrentes, onde havia muito mau feitio. Iscariotes foi quem ficou com a bolsa, mas o perito em contas era Mateus… O que tinham em comum aqueles homens? Jesus. O único ponto de ligação entre eles era o Messias. O chamamento de Cristo foi tão poderoso que todos abandonaram tudo e O seguiram, sem se deterem em afinidades ou antipatias entre si, visões sobre a religião ou perguntas sobre o futuro.

O mesmo se passou com todos os chamamentos que Cristo foi fazendo pelo caminho, onde havia de tudo: mulheres da má vida, pecadores públicos, curados de doenças estigmatizantes e outras doenças que levavam a carga dos pecados dos pais: cegos, coxos, mudos e até possessos. Nesses percursos foram igualmente salvos, sentindo-se chamados. Salvos e renascidos, iam depois cheios de alegria apregoar Jesus ou juntavam-se a Ele, como mais um, naquele grupo que hoje consideraríamos algo anárquico ou desorganizado. Mas nem isso interessava, porque o principal estava garantido: estavam com Cristo.

Sabemos que nenhuma dessas categorias se viu privada da graça de Deus, bem pelo contrário: quanto maior a pobreza, a necessidade, o desvalimento e a ânsia de cura e de graça, tanto mais rapidamente Jesus correspondia, abundantemente, sem olhar a raças ou condição.

O mundo está cheio de fome de amor, de unidade e de comunhão. A unidade é possível e é um sinal da presença de Deus. Quem une é Deus, o Criador. A criação é um ato de amor, não há criaturas não amadas. Todas são amadas com predileção e as nossas divisões, a nossa não aceitação dos outros, só demonstram o quanto estamos longe do coração de Deus. A unidade é possível. Como foi para aqueles 12 primeiros, que não deixaram de ter as suas desavenças, mas que as superaram totalmente olhando para Cristo e seguindo-O. A unidade fortalece o corpo e a alma, como uma alavanca poderosa de quem não vai só e transporta consigo um tesouro poderoso. Este tesouro cresce ao ser partilhado, fortalece-se ao ser distribuído, harmoniza o diverso de uma forma sublime, como só Deus pode fazer.

Dina Matos Ferreira  in “setemargens.com”

Quinta-feira

Eu sou a vida indissolúvel nas mãos de Deus

“As minhas ovelhas escutam a minha voz”, diz-nos Jesus. Não as ordens, a voz. A voz que atravessa as distâncias, inconfundível; que narra uma relação, revela uma intimidade, faz emergir em ti uma presença.

A voz chega ao ouvido do coração antes das coisas que diz. É a experiência com que o bebé, quando ouve a voz da mãe, a reconhece, emociona-se, estende os braços e o coração para ela, e já está feliz bem antes de chegar a compreender o significado das palavras. A voz é o canto amoroso do ser. Quando Maria, ao entrar na casa de Zacarias, saudou Isabel, a sua voz fez dançar o ventre.

Entre a voz do bom pastor e dos seus cordeiros corre esta relação confiante, amorosa, fecunda. E por que é que as ovelhas devem escutar a sua voz? Dois géneros de pessoas disputam a nossa escuta: os sedutores, que nos prometem prazeres, e os verdadeiros mestres, que dão asas e fecundidade à vida. Jesus responde oferecendo a maior das motivações: porque Eu dou-vos a vida eterna.

Escutarei a sua voz não por obséquio ou obediência, não por sedução ou medo, mas porque como uma mãe, Ele faz-me viver. Eu dou-lhe a vida. O Bom Pastor coloca no centro da religião não aquilo que eu faço por Ele, mas aquilo que Ele faz por mim. No coração do cristianismo não é colocado o meu comportamento, ou a minha ética, mas a ação de Deus. A vida cristã não se funda no dever, mas no dom: vida autêntica, vida para sempre, vida de Deus derramada dentro de mim, antes que eu faça o que quer que seja. A minha fé cristã é incremento, acrescento, intensificação do humano e de coisas que merecem não morrer.

Jesus di-lo com uma imagem de luta, de combativa ternura: ninguém arrancará as minhas ovelhas da minha mão. Uma palavra absoluta: «Ninguém». Dita duas vezes, como se tivéssemos dúvidas: ninguém as pode arrancar da mão do Pai. Eu sou vida indissolúvel das mãos de Deus, laço que não se rasga, nó que não se desata. A eternidade é um lugar entre as mãos de Deus. Somos passarinhos que temos o ninho nas suas mãos. E na sua voz, que aquece o gelo da solidão.

Ermes Ronchi in “Avvenire”

Sexta-feira

A quem serve a tua vida?

A nossa vida é chamada a ser repartida. O mundo precisa que nós façamos da nossa vida dom. A quem serve a nossa vida? A quem servem os nossos talentos? Por quem dás a tua vida? O sonho de Jesus é que a nossa vida não se esgote só nas nossas necessidades e confortos.

Nós não nos salvamos sozinhos, procurando unicamente o nosso bem-estar, construindo muros de indiferença. Nas palavras do Papa Francisco, no seu programático discurso em Lampedusa, estamos todos afetados pela globalização da indiferença, que torna invisíveis tantos irmãos que estão à distância da nossa aproximação, mas de quem nós não nos fazemos próximos! Esta época em tornou-nos vizinhos, mas não nos fez irmãos!

Mantemo-nos alerta para amar como Jesus amou. Nós somos discípulos deste amor. Amar, ao jeito de Cristo, não é fazer apenas isto ou aquilo. É fazer tudo. Nós vivemos demasiado à defesa, a fazer contas do que tu me deste e do que eu te dou, vivendo excessivamente limitados à retribuição, amando somente aqueles que nos amam. E, deste modo, submersos nos nossos cálculos, perdemos a vida.

O que expressa verdadeiramente a fé são as ações que praticamos no nosso quotidiano. E como testemunhamos a nossa fé? No que somos e naquilo que vivemos. Nos nossos gestos, nos nossos desejos, nos nossos projetos nós testemunhamos Cristo e, assim, o nosso amor transformar-se-á em serviço. E, se assim for, como discípulos de Jesus e escuteiros audazes, podemos dizer com Pedro Casaldáliga: “No final do meu caminho apenas me dirão: Amaste? E eu, sem dizer nada, abrirei as minhas mãos vazias e o coração cheio de nomes.”

D. José Cordeiro in “Homilia na Abertura Regional do Ano Escutista (24.09.22)”

Sábado

Escolhe esperar

“Somente a esperança nos faz propriamente cristãos”, escreveu Santo Agostinho. O que significa esperar num mundo como o nosso, onde tudo corre tão veloz e o momento presente parece mais determinante do que um eventual projeto a longo termo?

A esperança deriva de um discernimento atento da realidade, de uma espera fundada com solidez. É uma perseverança que se alimenta de responsabilidade. De facto, o ser humano está consciente da dimensão do tempo que o marca no tempo e na pessoa. Vivemos de esperanças, de pequenas esperanças quotidianas, e isto revela como nos é essencial transcender o presente, o momento que passa, para tomar posição perante o futuro e apostar no que virá. Mas a esperança é possível somente pela abertura aos outros. Nunca se espera sozinho e somente para si próprio. A esperança é fruto de uma relação viva e está sempre ligada a uma comunhão. Será sempre confiança posta nos outros: somente assim nos tornará capazes de acolher o inédito.

A esperança não existe por si própria. Exige do nosso lado uma resolução. A esperança é uma decisão pessoal que implica da nossa parte um esforço e uma vontade. Devemos decidir esperar. A esperança nasce quando se pensa que ainda é possível um futuro para uma pessoa, para uma sociedade e para a humanidade inteira: acreditar hoje naquilo que vai acontecer amanhã. Escolher esperar significa decidir-se por uma vida responsável.

A esperança do cristão está fundada com solidez sobre a ressurreição de Cristo, que deu uma resposta definitiva à esperança humana: a morte não tem a última palavra. A vida é invencível. Sendo cristãos, acreditamos nisto e é o que esperamos para a criação inteira.

Esperar é descobrir na profundidade do quotidiano uma vida que avança sem ninguém a poder parar. A esperança colorir-te-á os dias de alegria. Levar-te-á a partilhar com os outros uma procura realista, que te levará a reunir com eles em comunidade. Levar-te-á a procurar o diálogo e a comunhão.

Enzo Bianchi  in “Procura os outros – a fraternidade e a esperança”