XXVII Semana do Tempo Comum

XXVII Domingo do Tempo Comum

O bom humor de Cristo

A alegria cristã tem origem no encontro com Jesus, com a sua pessoa, dotada de uma infinidade de dons, humanos e divinos, de capacidades, humanas e divinas. Com a sua empatia e afeto contagiantes ultrapassou sempre as situações mais absurdas, precisamente por ter agido no espaço aberto pela alegria.

Cristo não quis o sofrimento nem a morte. Ele quis a alegria, aquela que os anjos anunciaram na noite em que nasceu. E que alegria é esta? Não é fácil agarrá-la ou traduzi-la por palavras. Almada Negreiros escreveu que “a alegria é a coisa mais séria deste mundo.” Não se traduz pela gargalhada, embora a suponha. A alegria é o segredo gigantesco do Cristianismo. É um segredo só descoberto pelas pessoas sérias, no sentido que lhe dava Chopin quando dizia “não gosto dos que nunca riem; não são pessoas sérias.”

Ninguém quer a tristeza, o sofrimento, o luto porque a alegria tem sempre mais força na nossa aspiração à felicidade. Se amassemos sempre com toda a seriedade, seríamos verdadeiramente alegres. Nem sempre procuramos a verdadeira alegria, pois, muitas vezes, a confundimos com o prazer, o bem-estar, o prestígio, etc. Confundimo-la necessariamente com estas coisas tão boas, tão boas, que até nos parecem ser a alegria, quando esta não deve procurar-se por si. O nosso erro consiste em buscá-la por si própria e não apenas como fruto do amor. Ser sério é amar e, consequentemente, ser alegre e rir à gargalhada.

Vale a pena sublinhar em Jesus uma atitude que não é muito frequente vê-la referida em estudos teológicos ou exegéticos sobre a mensagem evangélica: o bom humor, um humor profundamente humano, subjacente a toda a sua infinita generosidade em fazer seus os males e sofrimentos dos homens.

João da Silva Gama in “Encontro com Jesus Cristo”

Segunda-feira

Esperança

As nossas vidas estão em profunda comunhão entre si; através de numerosas interações, estão interligadas umas com as outras. Ninguém vive só. Ninguém peca sozinho. Ninguém se salva sozinho. Continuamente entra na minha existência a vida dos outros: naquilo que penso, digo, faço e realizo. E, vice-versa, a minha vida entra na dos outros: tanto para o bem como para o mal. Deste modo, a minha intercessão pelo outro não é de forma alguma uma coisa que lhe é estranha, uma coisa exterior, nem mesmo após a morte.

Nunca é tarde demais para tocar o coração do outro, nem é jamais inútil. Assim se esclarece melhor um elemento importante do conceito cristão de esperança. A nossa esperança é sempre essencialmente também esperança para os outros; só assim é verdadeiramente esperança também para mim. Como cristãos, não basta perguntarmo-nos: como posso salvar-me a mim mesmo? Devemos antes perguntar-nos: o que posso fazer a fim de que os outros sejam salvos e nasça também para eles a estrela da esperança? Então, terei feito também o máximo pela minha salvação pessoal.

Papa Bento XVI  in “Salvos na esperança”

Terça-feira

Um convite

Deus chama-nos a ser as pessoas que deveríamos ser. Deus cria-nos como indivíduos únicos com os nossos próprios dons. E, por isso, já somos as pessoas que Deus pretendeu que nós fôssemos ao criar-nos. Ao mesmo tempo, Deus convida-nos continuamente a uma liberdade cada vez maior, pedindo-nos que larguemos as redes que nos prendem às nossas antigas e emaranhadas formas de fazer as coisas, formas que já não são saudáveis para nós, formas que nos impedem de ter mais amor.

Nesses momentos, podemos ouvir a voz de Deus. De repente, experimentamos algo que nos parece prometer algo novo. Para mim isso foi, sem dúvida, um documentário de televisão. Para o meu amigo Dave terá sido a experiência de trabalhar num orfanato. Para outra pessoa qualquer, poderá ter sido aquilo que ouviu numa conversa, que leu num livro ou que viu num filme. Isto é tanto um chamamento como aquele que Jesus fez junto ao mar da Galileia. O convite dirigido por Jesus aos pescadores continua em aberto. Geralmente, não é claro aquilo que o futuro nos reserva. A única coisa clara é o chamamento.

Precisamos de escutar atentamente esses chamamentos e de não nos deixarmos enredar tanto pelas nossas vidas quotidianas a ponto de acabarmos por perdê-los. Uma postura aberta e atenta ajudar-nos-á a ouvir melhor e a tornar menos provável que impeçamos a voz de Deus de entrar. Devemos ser recetivos às formas pelas quais Deus nos chama – hoje, amanhã ou daqui por dez anos; por isso, quando ouvirmos Deus dizer “segue-me”, estaremos preparados para largar as nossas redes. E segui-lo.

James Martin in “Jesus – um encontro passo a passo”

Quarta-feira

Um buraco de luz para Deus

Ligo o braço longe a uma estrela
A lua límpida sobe no céu
Um anel passa através de outro anel

Procuro o tempo e encontro a passagem
Procuro a morada e encontro o relento

Às vezes mesmo sem voz
Às vezes até sem palavras
Silêncio que Deus me deu
És uma forma de luz
Tornas sagrado o que existe, centelhas da verdade
Somos o barro, somos poeira
O teu vento errante nos leva

Eu sei existe em mim, mesmo no fundo de um poço
Um buraco de luz para Deus
Um nome escrito no céu

E não sei o que fazer e rezo
Rezo sem saber dizer o quê e a quem
Mas rezo
Rezo o chão e a flor, o pão e a fome,
Rezo o branco e a dor
Nas letras do teu nome
Há um buraco de luz

José Tolentino Mendonça  in “Oratória – Credo”

Quinta-feira

Cansados de aguentar

Acontece, às vezes, o desânimo instalar-se em nós como uma ave no seu ninho. O futuro afigura-se-nos de cinza e todo o passado de escombros. Gestos e palavras cobrem-se de pessimismo. Sentamo-nos como alguém que, cansado de pedir boleia, espera passivamente que um transeunte pare sem que ele tenha necessidade de qualquer iniciativa.

Mas, pergunto-me: não é uma gritante contradição o facto de um cristão ser pessimista? Poderá havê-los carregados de pesos infinitos, cheios de dúvidas, cansados de aguentar; mas pessimistas não é fácil de perceber, não é lógico.

O pessimismo foge da esperança cristã, como a água do azeite. Há lugar para a dúvida, mas não para o pessimismo. Nem a criação do mundo como fruto do amor eterno nem a salvação do género humano nem o destino final nas mãos do Pai, permitem que o cristão se renda ao pessimismo. Se o pessimismo nasce da insegurança do futuro, não sabe já o cristão o fim deste filme? Se o pessimismo nasce da própria debilidade, não é Deus que nos oferece as suas costas para o nosso alívio? Não acreditamos que nem um só cabelo nos cai da cabeça sem que seja Ele a consenti-lo? Não valemos nós mais do que as aves do céu e os lírios do campo?

Bom, então parece que o pessimista está fora de lugar. Pode até ser psicologicamente hipocondríaco ou organicamente hipotenso. O que não pode é ser espiritualmente pessimista. E os pessimistas que se empenham em ser cristãos ou não sabem o Credo ou nunca leram os Evangelhos ou, simplesmente, não são cristãos. Seja Deus a dar-nos a verticalidade das árvores. É do alto que nasce a força capaz de despertar as raízes.

Henrique Manuel S. Pereira in “Os paraísos são interiores”

Sexta-feira

Dentro do túnel

«Muitas vezes caminhamos nas trevas, mas fazemo-lo com a memória da luz recebida, daquela luz que sabemos fluir instantaneamente. Para mim é assim. Muitas vezes caminhamos na escuridão, mas sei que a luz há de voltar. Quando era criança gostava de passar dentro dos túneis, de comboio. Mais cedo ou mais tarde sai-se dele.» Estas palavras são de uma escritora belga contemporânea, Colette Nys-Mazure, extraídas do livro “As sombras e os dias”. A imagem é simples e universal, aliás, é a primordial do contraste luz-trevas, antítese que abre a própria narração bíblica da criação.

Todas as crianças experimentam o pesadelo da escuridão e esta experiência deixa uma ferida que nunca sara. A obscuridade tomará depois nomes mais específicos e existenciais, como dor, morte, mal, culpa, infelicidade. Mas de igual modo viva e incisiva é a experiência da luz, do seu poder, do seu irromper glorioso, e assim florescerá na alma a espera, a alegria, a vida, o bem, o amor e a esperança, realidade positiva sempre aureolada de luz.

Nys-Mazure repete uma mensagem com frequência proclamada não só pelas religiões mas também por muitas culturas: a última palavra é a da luz. Quando se está dentro de um túnel, a esperança é sempre a de entrever a luminosa saída final. Também quem desespera tem num secreto canto do coração a esperança de ser desmentido e encontrar uma centelha de felicidade.

No prólogo do Evangelho segundo João há uma frase habitualmente dita assim: «As trevas não acolheram a luz» (1, 5). Ela, porém, pode ser traduzida também deste modo: «As trevas não sufocaram a luz».

Cardeal Gianfranco Ravasi  in “Avvenire”

Sábado

Liberdade

É a liberdade de Jesus que fascinou o nosso coração, uma liberdade que pede para que não nos refugiemos em ninhos ou covis seguros, mas para permanecermos sempre a caminho, que nos tira da massa para nos permitir viver a nossa unicidade. É hipocrisia a observância exterior que não liberta, que não discute as atitudes profundas, não torna capaz de superar os preconceitos e faz sentir bem porque se observam todas as regras. A verdadeira liberdade entra no coração com uma lâmina de dois gumes, incide em profundidade, perturba e faz optar, torna-nos independentes da vontade dos outros e das paixões, dos excessos da mente, do corpo e da alma. Ser-se livre exige a coragem de percorrer caminhos que ainda ninguém percorreu, de pensar ideias que ninguém ainda pensou. A liberdade é um espaço que chama, que nos obriga a redefinir a nossa finitude, a traçar novos limites.

As pessoas religiosas são sempre tentadas, como Jonas e como o irmão maior da parábola do filho pródigo, a não aceitar a liberdade e a lamentar-se. Vivemos muitas vezes fechados no cenáculo como quem ainda não viu o Cristo ressuscitado e não acolheram o Espírito. Vivemos de medos que aos poucos nos tornam indiferentes, e depois mornos, até tornar a vida uma série de ritos. Produzimos coisas opressoras e penosas de cada vez que quisemos deter Jesus, que está sempre a caminho, quando em vez de libertar as pessoas as tornámos escravas, quando tentamos simplificar a realidade complexa e contraditória do caminho, dizendo “ou estás dentro ou estás fora”.

Quando João e Tiago pedem a Jesus para usar ferro e fogo para com quem é diferente, Ele diz “deixai-os”: o Evangelho não se impõe, mas dá-se com a criatividade, a beleza, o amor e a liberdade. O fanatismo esconde-se na retidão inflexível e no desejo de que todos os outros pertençam a uma única forma. O ser humano faz a experiência de Deus na necessidade, na desorientação, na fome e em cada espaço sonhado de liberdade. Voltemos à liberdade de um Deus que se faz criança e que não concede repouso, que não se adapta a nenhuma habituação, não se faz encontrar, deixa apenas pegadas para nos manter a caminho.

Luigi Verdi  in “Il domani avrà i tuoi occhi”