XXX Semana do Tempo Comum

XXX Domingo do Tempo Comum

A Deus, nada é impossível

Muitas vezes, o dom de Deus não é aquilo que esperamos. Maria Madalena descobriu isso no domingo de Páscoa. E – tal como Maria – por vezes precisamos de um certo tempo para apreender que aquilo que estamos a experimentar é uma ressurreição.

Com Deus, nada é impossível. É essa a mensagem a que eu volto com frequência. No primeiro dia da semana, o Evangelho de João diz-nos que a maioria dos discípulos estava escondida, à porta fechada, por medo. O seu líder fora executado como inimigo do Estado. Reunidos à porta fechada, na sequência da morte da pessoa em quem tinham colocado todas as suas esperanças… poderá haver imagem mais viva do medo? Mais uma vez, os discípulos não conseguem perceber que estão a lidar com o Deus vivo, com o mesmo cuja mensagem transmitida a Maria no momento da anunciação fora: “A Deus, nada é impossível.” Eles não conseguiam ver nada para lá das paredes daquela sala fechada.

Muitas vezes, sentimo-nos incapazes de acreditar que Deus poderia ter uma vida nova reservada para nós. “Nada pode mudar. Não há esperança.”, costumamos dizer. Nesses momentos, acabamos por ficar atolados no desespero, o que, às vezes, pode ser um reflexo de orgulho. Ou seja, nós pensamos que sabemos mais do que Deus, o que será uma maneira de dizer: “Deus não tem poder para mudar esta situação.” Que caminho escuro e perigoso é o desespero…

Quantos de nós acreditam que certas partes das nossas vidas estão mortas? Quantos acreditam que certas partes da nossa família, do nosso mundo, da nossa Igreja, não podem voltar à vida? Quantos de nós nos sentimos privados de esperança? É nestes momentos que eu me volto para a ressurreição. Muitas vezes, volto-me para a imagem dos discípulos aterrados, escondidos atrás de portas fechadas. Nós não somos chamados a viver nessa sala. Somos chamados a sair dos nossos esconderijos e a acompanhar Maria, chorando, por vezes, sempre à procura, e, por fim, ofuscados pela madrugada da vida nova de Jesus – surpreendidos – , encantados e comovidos de alegria. Somos chamados a acreditar naquilo que ela viu: Jesus está ressuscitado.

James Martin in “Jesus – um encontro passo a passo”

Segunda-feira

Um discurso de multiplicação: deixar tudo para ter tudo

Jesus saiu para a estrada, quer dizer: Jesus mestre livre, aberto a todos os encontros, a cada um que cruze os seus passos ou o espere na curva do caminho. Mestre que ensina a arte do encontro (cf. Marcos 10, 17-30). E eis que um tal, sem nome, corre ao seu encontro: como alguém com pressa, pressa de viver. Como faço para receber a vida eterna? Termo que não indica a vida sem fim, mas a própria vida do Eterno. Jesus responde elencando cinco mandamentos e um preceito, que não dizem respeito a Deus, mas às pessoas. Palavras que transmitem vida, a vida de Deus que é amor.

Mestre, isso já eu faço desde sempre. E não me preencheu a vida. Vive aquela bem-aventurança esquecida e criadora que diz: «Felizes os insatisfeitos, porque se tornarão buscadores de tesouros». Agora faz também uma experiência emocionante, sente sobre si o olhar de Jesus, cruza os seus olhos amorosos, pode naufragar dentro deles: Jesus fixou o olhar sobre ele e amou-o. A conclusão da narrativa vai na direção que não se espera: uma coisa te falta, vai, vende, dá aos pobres… Serás feliz se fizeres feliz alguém; faz outros felizes se quiseres ser feliz. E depois segue-me: dá uma reviravolta à tua vida. As balanças da felicidade pesam nos seus pratos a moeda mais preciosa da existência, que está no dar e no receber amor. O bom Mestre não pretende inculcar a pobreza naquele homem rico e sem nome, mas preencher a sua vida de rostos e nomes. E ele foi embora triste porque tinha muitos bens.

As regras do Evangelho sobre o dinheiro podem reduzir-se apenas a duas: não acumular; o que tens, tens para dividir. Não pôr a tua segurança no acúmulo, mas na partilha. Seguir Cristo não é um discurso de sacrifícios, mas de multiplicação: deixar tudo mas para ter tudo. Com efeito, o Evangelho continua: Pedro diz-lhe: Senhor, nós deixámos tudo e seguimos-te, que teremos em troca? Terás em troca cem vezes mais, terás cem irmãos e um coração multiplicado. Não renuncies, a não ser ao peso que te impede o voo. O Evangelho é adição de vida.

Ermes Ronchi  in “Avvenire”

Terça-feira

Deus investe em cada um de nós

Muitas vezes, a nossa vida espiritual, e a nossa vida, não se tornam fecundas porque nós temos medo, porque dentro de nós há esta figura do pai severo da qual nós não nos libertamos. Em vez de encontrarmos dentro de nós o eco, a voz de uma confiança fundamental, encontramos dentro de nós a sombra de uma desconfiança, a sombra de um receio. A grande transformação é esta: descobrir o amor de Deus, descobrir a fé que Deus tem em nós, descobrir esta paixão incondicional que Deus tem pela nossa história. Deus não é o juiz julgador, Deus não é o pai severo, Deus não é o Senhor implacável que nos há de pedir contas do que nós pudemos e do que nós não pudemos. Mas Deus é o Deus rico em misericórdia. Cada um de nós precisa desta palavra de confiança, desta palavra fundante de confiança para poder prosperar, para poder ser, para poder também desafiar, ir além de si e além da sua fragilidade para construir uma história de ser.

Esta é uma questão central porque é uma fonte de equívocos, uma fonte de sofrimentos. A verdade é que uma certa catequese levou a interiorizar uma imagem de Deus que continuamente nos tira o tapete, que continuamente desacredita em nós, que continuamente nos paralisa, quando a imagem de Deus é uma imagem radiosa, é uma imagem de confiança. “ Estarei convosco todos os dias, até ao fim dos tempos.” Nada nos separa do amor de Deus. Ele está sempre ali connosco, Ele está sempre disponível.

Apreendamos de Deus a imagem do amor. Sintamo-nos amados por Deus. Simone Weil dizia: “ A coisa mais importante não é amar a Deus, é compreender-se amado por Ele.” Sintamo-nos verdadeiramente amados  e testemunhemos, uns aos outros, este amor, porque isso é o ponto de partida de uma vida desatada, de uma vida liberta, de uma vida criativa, de uma vida que dá fruto. Nós temos de perguntar pelo fruto que dá a nossa vida e por aquilo que nos aprisiona, aquilo que nos prende, aquilo que nos retém. Sintamo-nos assim envolvidos por este amor, que nos pede também uma revisitação da nossa vida, da nossa história, olhar para o interior de nós para sentir a frescura da palavra de Jesus, a consolação da sua palavra e também a ressurreição, a ressuscitação, a insurreição, a transformação que este anúncio do Deus amor pode despertar em nós.

José Tolentino Mendonça in “Homilia no XXXIII Domingo do Tempo Comum (16.11.16)”

Quarta-feira

Céu

Quase todos queremos ir para o céu, mas poucos se esforçam por descobrir, escolher e aceitar o seu caminho para lá chegar. Só há um caminho para cada um de nós. Passa por quem está perto de nós, todos aqueles com quem nos cruzamos várias vezes ao longo dos dias. Por vezes, no mesmo dia. Os nossos familiares, aqueles com quem trabalhamos e, de uma forma ou outra, todos aqueles de que conhecemos o olhar. Na verdade, todos fazemos parte uns dos outros, pelo que não podemos ser felizes se os outros não estiverem bem. É promovendo a sua felicidade que alcançamos a nossa.

Por mais paradoxal que pareça, quem cuida apenas de si não consegue o resultado que deseja: paz e alegria. Os egoístas julgam que os outros são meros figurantes numa história que tem apenas um protagonista: eles mesmos. São o centro do seu mundo, onde não cabe mais ninguém, de tão grandiosos que se julgam. Vivem sempre sozinhos, mesmo que haja quem lhes satisfaça os caprichos. Vivem descontentes, mesmo que tenham mais do que o suficiente para serem felizes.

O caminho para o céu passa por dar com amor, não por acumular com egoísmo.

Pode até a nossa vida ser muito mais pesada do que alguma vez julgámos possível, mas nunca é mais pesada do que aquilo que os nossos ombros aguentam. E se nos derrubar uma vez, que sejamos capazes de nos erguer e de seguir adiante. Muitas vezes, precisaremos da ajuda de outros. Assim também os outros, por mais fortes que sejam e os julguemos, precisam da nossa força.

Amar é ir ao encontro de quem está fraco. Não por ele ser fraco, mas apenas porque somos iguais a ele e é sempre tempo de apoiar quem vive um momento de necessidade. As portas do céu estão à nossa volta, um pouco por todo o lado. Precisamos de parar e fazer do nosso silêncio espaço e tempo para que o outro nos revele aquilo de que precisa. Mais, precisamos de estar atentos aos olhares que se cruzam com o nosso, buscando a verdade que está por detrás de cada um. Depois de parar, escutar e olhar, é tempo de agir.

Para chegar ao céu é preciso ser luz. Quem não é luz apenas aumenta a escuridão!

José Luís Nunes Martins in www.agencia.ecclesia.pt

Quinta-feira

Deus basta

“Deixa-te satisfazer pelo Deus da tua vida e faz silêncio. Se a alguém não basta Deus, que outra realidade lhe poderia alguma vez bastar na comunidade, no mundo?” Karl Barth foi o maior teólogo protestante do século XX. Um pároco da diocese de Milão escolheu e enviou-me estas escassas e simples palavras daquele teólogo, extraídas da sua introdução à teologia evangélica, e eu proponho-as para esta meditação dominical.

Seria belo se o cristão entrasse na igreja não para pedir alguma coisa, mas apenas para escutar Deus, não para esperar uma graça, mas apenas para louvar a graça divina que se efunde nele e na humanidade, não para encontrar uma solução para os seus problemas, mas apenas para descobrir uma presença.

É fácil ouvir nas palavras de Barth o eco de um célebre canto de Santa Teresa de Ávila, «nada te perturbe, nada te espante, quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta. Tudo passa, Deus não muda». Na realidade, nós agarramo-nos a muitas coisas; procuramos encher o nosso espírito com prazeres, emoções, aventuras, presenças. E sempre se intui um vazio, uma fome, uma sede, uma pergunta, uma espera. É este o sinal daquilo que bem exprimia Pascal: «O homem supera infinitamente o homem», isto é, está além de si próprio a última resposta.

Cardeal Gianfranco Ravasi  in “Avvenire”

Sexta-feira

Corações

No peito de cada um de nós há um coração moldado pela vida. Há os que o guardam palpitante como um pássaro e os que o esqueceram por terem deixado de o sentir. Entre os vulgarmente chamados “corações de pedra” e “corações de manteiga”, há tantos e tantos corações diferentes que de formas diferentes vão moldando outros! Há corações incendiados e corações de gelo, corações de leão e corações de pássaro, corações de ouro e corações de chumbo. Há mesmo bons e maus corações.

Por vezes, ouve-se dizer de alguém que “não tem coração”. É preciso nunca acreditar. Pode estar tão apertado como um buraco negro, mas está lá. Talvez só precise de ser saciado. Há corações que transportam privações de séculos e parecem nunca atingir a saciedade e há os que transbordam como fontes inesgotáveis.

Que coração trazemos em nós? Que coração palpita dentro de quem cruza o nosso caminho em cada dia? Como atingirei o coração do meu irmão? E se numa qualquer guerra da vida alguém tiver perdido o seu, poderemos ajudar a procurar, a tentar encontrá-lo? E se o encontrarmos, saberemos transportá-lo nas mãos, sem o ferir e pousá-lo no peito a que pertence? Que faremos com o nosso coração?

Henrique Manuel S. Pereira in “Os paraísos são interiores”

Sábado

Vontade fraca

«Queres curar-te?… Se queres curar-te, levanta-te e caminha.» Jesus não dá respostas, coloca perguntas. Queres verdadeiramente curar-te? Está a tornar-se adulta uma geração à qual demos demasiadas respostas e impedimos de formular perguntas: «Como estás? O que queres desta vida? És feliz?». Tem-se medo que este colocar-se interrogações seja excessivamente revolucionário. Consideram-se neuróticos aqueles que se põem estas perguntas porque são obstáculo à satisfação dos instintos.

Jesus, ao invés, diz: «Olha para dentro de ti e pergunta-te o que verdadeiramente queres, e se o queres, levanta-te e caminha, o teu coração seja sem medo e torne-se vasto». A dificuldade e os obstáculos servem antes de tudo para provar a seriedade, a firmeza, a substância da nossa vontade.

«Onde está o teu tesouro, aí está o teu coração.» A vontade fez-se frágil porque o nosso coração já não sabe qual é e onde está o tesouro da nossa vida, porque uma impercetível preguiça nos entorpece, impedindo-nos de cultivar e proteger esta busca. A vida morre-nos porque não estamos motivados, mas suspensos do exterior para objetivos abstratos, enquanto a vida tem o seu tesouro nas pessoas, nos gestos e nos lugares de cada dia. Acomodamo-nos àquilo que somos obrigados a fazer, habituamo-nos ao costumeiro, fingimos que não temos necessidade dos outros, quando depois deles dependemos completamente.

A nossa vontade é fraca porque nos falta a constância, e porque nos falta a coragem de dizer aquilo que se pensa e de fazer aquilo que se diz. Porque não temos a audácia de proporcionar as nossas forças à altura e grandeza dos nossos ideais. Mas a vontade adquire força se em nós amadurecerem escolhas no silêncio, na escuta de nós próprios e dos companheiros de estrada que têm no coração o nosso caminho. É preciso libertar a vontade do conformismo, da preguiça e do medo que a tem prisioneira e lhe tira a coragem de ousar, de imaginar modos alternativos de viver. Devemos aprender a viver estando dentro da vida, tomar decisões e saber tornar a escolher a cada dia com força, coragem e confiança. Escolher é preparar a paz em nós próprios.

Luigi Verdi  in “Il domani avrà i tuoi occhi”