XXXII Semana do Tempo Comum

XXXII Domingo do Tempo Comum

A nossa vida é autobiografia de Deus

A nossa vida é a autobiografia de Deus, a nossa vida é o lugar onde Deus se conta, onde Deus se narra, onde Deus se relata. Por isso é tão importante nós estarmos aqui, estarmos de corpo inteiro, não como quem vem a um templo mas como quem está em casa, como quem está em si, como quem entra dentro de si, como quem se reencontra com a sua história. Nós estamos aqui para respirarmos, para nos alimentarmos, para vivermos no fundo. E isso é que é mais importante do que todas as pedras. Às vezes, a história e o património são um atrapalho, são um impedimento, são coisas maravilhosas em si mas podem ser pura tralha que esmaga a vida. Porquê? Porque temos o peso de uma tradição que nos faz esquecer o óbvio. O óbvio é que Deus ama de forma única cada um de nós e quer que a sua glória seja o homem vivo.

Muitas vezes, a palavra de Jesus que fala do Templo do Seu corpo, e depois de S. Paulo que por diversas vezes fala do Templo que é o nosso corpo, foi lida unicamente em chave moral para, no fundo, nós termos de defender a pureza, e uma pureza ritualista, que tem a ver com os templos antigos. Claro que é importante a pureza de coração, é evidente que é importante, mas essa frase de Jesus e de S. Paulo é para entender em chave existencial. É a nossa vida, é o lugar de Deus. Nesse sentido é que nós temos a capacidade de transformar o tempo, a história, num Templo, num lugar de encontro, num lugar onde ensaiamos uma relação, num lugar onde se constrói verdadeiramente uma história. Isso é, sem dúvida, o elemento mais importante.

Celebramos as nossas vidas e o que significa a nossa vida como lugar de Deus. A grande pergunta é como é que na vida é que eu sou, como é que na história que eu construo, como é que na história, Deus se revela? Como é que eu O encontro? Como é que eu estabeleço uma relação, não apenas implícita com Deus, mas como é que eu estabeleço na minha vida, na minha história, com a pessoa que eu sou, uma relação vivificante com o próprio Deus? Essa é que é a questão que cada um de nós é chamado a aprofundar, a construir. Vamos rezar assim uns pelos outros e celebrar esta grande beleza que o Cristianismo traz à vida humana. Que é dizer: ”Olha tu, és o lugar onde Deus vive. És o lugar que Deus escolheu para viver no mundo.”

José Tolentino Mendonça in “Homilia na solenidade da dedicação da Basílica de São João de Latrão (9.11.14)”

Segunda-feira

Caminhando através da natureza, vamos de mãos dadas com Deus

Cultivar o apreço pela natureza é aprofundar a nossa própria vida espiritual, aproximarmo-nos mais da criação, ver a nossa própria responsabilidade moral por ela, segundo a forma como tratamos cada hastezinha de erva. Viver em harmonia com a natureza significa estarmos nós próprios mais vivos. A nossa sincronia com a natureza é demonstrada pelo efeito emocional que esta exerce sobre nós. Quando está escuro, podemos tornar-nos mais taciturnos. Quando a neblina paira sobre as montanhas que nos cercam, quando o nevoeiro nos envolve, também nós nos tornamos mais reflexivos. Quando o Sol sobreaquece as pedras, cada nervo cobra vida dentro de nós. Cada mudança da natureza chama-nos a entrar mais a fundo nos ritmos da vida. É vendo-nos como parte da natureza, e não exteriores a ela, que sintonizamos a alma com os ensinamentos da natureza.

Nós não «controlamos» a natureza. É a natureza que nos controla. O único problema é que um mundo moderno e laborioso leva várias gerações a compreendê-lo. Quando nós destruímos a natureza sem ter em conta as consequências daquilo que estamos a fazer ao futuro, a natureza tem sempre a última palavra. Basta olhar para aquilo que estamos a fazer à Terra, para saber que mudanças precisamos de introduzir na nossa própria vida, se quisermos ser verdadeiros buscadores de Deus.

Caminhando através da natureza, vamos de mãos dadas com Deus, que lhe deu a vida. A única questão é: dar-lhe-emos nós vida ou morte? Numa das suas visões, Hildegarda de Bingen, mística do século XII, diz acerca da natureza: «Eu sou aquela essência viva e ardente da substância divina… Eu brilho dentro da água e ardo no Sol, na Lua e nas estrelas.» Oh, quem nos dera viver tempo suficiente e suficientemente bem para chegarmos a ver estas coisas!

Joan Chittister in “Os tempos do coração”

Terça-feira

Unidade

Nas suas Cartas, o Apóstolo São Paulo afirma a profunda unidade que existe entre todos os batizados, qualquer que seja a sua condição, quer homens quer mulheres, iguais, pois cada um deles, em Cristo, é uma criatura nova. Cada distinção torna-se secundária no que diz respeito à dignidade de ser filho de Deus, que pelo seu amor alcança uma igualdade verdadeira e substancial. Todos, através da redenção de Cristo e do batismo que recebemos, somos iguais: filhos e filhas de Deus. Iguais.

Por conseguinte, somos chamados de modo mais positivo a viver uma nova vida que encontra a sua expressão fundadora na filiação em relação a Deus. Iguais porque somos filhos de Deus, e filhos de Deus porque nos remiu Jesus Cristo e entrámos nesta dignidade através do batismo.  É também decisivo para todos nós, hoje, redescobrir a beleza de ser filhos de Deus, de ser irmãos e irmãs entre nós, pois estamos inseridos em Cristo que nos redimiu. As diferenças e os contrastes que criam separação não deveriam existir entre os crentes em Cristo. E um dos apóstolos, na Carta a Tiago, diz assim: “Estai atentos com as diferenças, pois não sois justos quando na assembleia entra alguém que usa um anel de ouro, está bem vestido: ‘Ah, vem, vem!’ e convidam-no a sentar no primeiro banco. Depois, se entra outra pessoa, malvestida e que se vê que é pobre, muito pobre: ‘sim, sim, senta-te ali, no fundo’”. Estas diferenças são feitas por nós, muitas vezes, de modo inconsciente. Não pode ser, nós somos iguais. A nossa vocação é tornar concreta e evidente a chamada à unidade de toda a raça humana (cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. Lumen gentium, 1). Tudo o que exacerba as diferenças entre as pessoas, muitas vezes causando discriminação, tudo isto, perante Deus, já não tem qualquer substância, graças à salvação realizada em Cristo. O que conta é a fé que age seguindo o caminho da unidade, indicado pelo Espírito Santo. E a nossa responsabilidade consiste em percorrer decisivamente este caminho da igualdade, mas a igualdade que é apoiada e realizada pela redenção de Jesus.

Papa Francisco in “Audiência Geral (08.09.21)”

Quarta-feira

Trabalho interior

A realização de ti mesmo, daquela precisa imagem e semelhança com Deus que cada um de nós é, não é algo de automático, mas exige um trabalho. Trata-se de um trabalho interior, invisível mas nem por isso menos fatigante que outros trabalhos; e muitas vezes é, pelo contrário, muito mais fatigante e temível porque nos faz correr o risco de colocar diante de nós a realidade que nem queremos ver nem compreender. Sim, a vida interior exige coragem. É como iniciar uma viagem, não tanto em extensão quanto em profundidade, não fora de ti mas dentro de ti. E a dificuldade que podes encontrar nos inícios, perante a paisagem interior desconhecida, pode-te desencorajar e revelar-te que talvez precisamente esta seja a viagem mais longa e árdua, ainda que nunca te obrigue a percorrer um quilómetro.

Precisas de coragem não só para te interrogares, mas também para te deixares interrogar ou assumires os eventos da vida com perguntas que te são dirigidas: a doença que atingiu a vida de uma pessoa querida, a morte repentina de um amigo, o casamento de um conhecido, um nascimento que alegrou um casal amigo, e também os eventos quotidianos, menos vistosos ou aparatosos, mas formando a trama dos nossos dias… Trata-se de vida ou de morte, de alegria ou de sofrimento, que são sempre ocasiões para pensar e para refletir sobre o que é verdadeiramente sério e importante na vida, portanto sobre aquilo que se pode fazer para que a vida mereça ser vivida e sobre o que pode dar sentido também à nossa vida.

Coragem: não temas; este trabalho espera por ti. O desejo de Deus colocado no coração do homem é inapagável. Santo Agostinho, como poeta que era, soube descrevê-lo como poucos: «Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração anda inquieto até que não repouse em Vós!»

Enzo Bianchi in “Cartas a um amigo sobre a vida espiritual”

Quinta-feira

A arte do encontro

A vida é feita de muitas histórias. E cabem muitas histórias na vida de cada um. Todos sabemos que podem existir várias construções e interpretações de um mesmo acontecimento, dependendo do sentido atribuído por quem as experimenta. A maneira como interpretamos a realidade, a nossa versão dos factos, exprime muito do que somos. As nossas narrativas exprimem não só o nosso viver, mas a forma como o vivemos, como agimos, como sofremos… Isto, apesar de sermos bem mais do que as emoções que sentimos e das histórias que vivemos.

O poeta, compositor e diplomata brasileiro, Vinícius de Moraes, no seu Samba da Bênção, canta «que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida». Quando nos prontificamos a ouvir a versão de outra pessoa, com a qual até podemos discordar, podemos descobrir um novo sentido comum. Para isso, é preciso evitar julgamentos precipitados, de forma a deixarmos que os processos mentais sucedam e as memórias presentes se transformem.

Ao aprofundarmos o significado da palavra “arte”, entendemos que é sinónimo de compreensão, humildade, esforço e atividade criadora. A arte do encontro desafia-nos, pois, a repensar as nossas relações. Para compreendermos o significado das ações humanas, é necessário sabermos escutar. Sempre que nos dispomos a prestar atenção ao que nos está a ser dito, alargamos a nossa capacidade de entender. Passamos, então, a sentir para além das palavras, a discernir e a agir a partir de uma escolha consciente que nos humaniza e dignifica. É assim que a empatia dá acesso à compreensão. Essa abertura ao próximo acontece sempre que não nos fecharmos em pontos de vista opostos que nos esmagam e reduzem os horizontes.

Neste contexto, a experiência e a prática da oração podem ajudar-nos. É na oração, enquanto verdadeiro encontro, que a “arte do encontro” se aprende e onde se geram silêncios fecundos e vida em plenitude. A descoberta do silêncio, permite-nos ouvir o som da vida e faz-nos entrar numa paz profunda que nos torna capazes de escutar o que realmente importa. E, por isso, a prática da oração pode-nos tornar mais humildes e capazes de escutar o outro. É assim que caminhamos para a comunhão das pontes que o mundo de hoje tanto precisa.

Ana Tojal in pontosj.pt

Sexta-feira

História de amor

O amor ao próximo é um caminho para encontrar também a Deus e o fechar olhos diante do próximo torna-nos cegos diante de Deus. Na história de amor que a Bíblia nos narra, Deus vem ao nosso encontro, procura conquistar-nos – até à última ceia, até ao coração trespassado na cruz, até às aparições do Ressuscitado e às grandes obras pelas quais Ele, através da ação dos Apóstolos, guiou o caminho da Igreja nascente. Também na sucessiva história da Igreja, o Senhor não esteve ausente: incessantemente vem ao nosso encontro, através de pessoas nas quais ele se revela.

Na liturgia da Igreja, na sua oração, na comunidade viva dos crentes, experimentamos o amor de Deus, sentimos a sua presença e também, deste modo, aprendemos a reconhecê-lo na nossa vida quotidiana. Ele amou-nos primeiro e continua a ser o primeiro a amar-nos; por isso, também nós podemos responder com amor. Deus não nos ordena ter um sentimento que não possamos suscitar em nós próprios. Ele ama-nos, faz-nos ver e experimentar o seu amor.

O reconhecimento do Deus vivo é um caminho para o amor, e o sim da nossa vontade à dele une intelecto, vontade e sentimento no ato globalizante do amor. Mas isto é um processo que permanece continuamente em caminho: o amor nunca está concluído e completado; transforma-se ao longo da vida, amadurece e, por isso, permanece fiel a si próprio.

A história do amor entre Deus e o ser humano consiste precisamente no facto de que esta comunhão de vontade cresce em comunhão de pensamento e de sentimento e, assim, o nosso querer e a vontade de Deus coincidem cada vez mais: a vontade de Deus deixa de ser, para mim, uma vontade estranha que me impõem de fora os mandamentos, mas é a minha própria vontade, baseada na experiência de que realmente Deus torna-se cada vez mais íntimo.

Papa Bento XVI in “Deus é Amor”

Sábado

O teu dia

Cada um dos dias da minha vida quotidiana, Senhor, é o teu dia:
Dia da tua graça, dia do teu amor.
Por isso, Senhor, preciso de viver cada um dos meus dias e aceitá-lo como o teu dia.

Mas por que meios, os meus dias humanos
podem tornar-se os teus dias?
Só Tu, ó meu Deus, podes conceder-me esse meio.
Nem o medo, nem qualquer potência da alma, nem mesmo a morte me evitarão perder-me nas coisas do mundo;
só o teu amor me libertará:
o amor por ti, único fim de todas as coisas,
o amor por ti, que para ti basta, e que só ele pode preencher os nossos desejos…

Amando-te, reencontro o que estava perdido;
tudo se torna canto de louvor e de ação de graças dirigido à tua infinita majestade.
O que estava dividido, o teu amor conduziu à unidade;
o que estava disperso, Tu recolhes em ti;
Aquilo que se tinha tornado puramente exterior, o teu amor fá-lo reentrar
“no interior”.

Mas este amor que aceita a vida quotidiana tal como ela se apresenta,
que transforma cada um dos meus dias humanos num dia de graça para o fazer desaguar em ti,
esse amor só Tu mo podes fazer dom.

Só tenho uma prece a balbuciar:
concede-me o dom mais banal e mais maravilhoso que seja:
toca o meu coração pela tua graça, concede-me o teu amor.

Permite que ao usar das coisas deste mundo, na alegria ou na dor,
eu chegue, através delas, a compreender-te e a amar-te…
Para que um dia todos os meus dias desaguem
no único dia da tua vida eterna.

Karl Rahner in “Narthex”