XXXIII Semana do Tempo Comum

XXXIII Domingo do Tempo Comum

Escuta, Israel

“Escuta Israel”: cada um de nós é a resposta a uma chamada. É a resposta existencial, sinuosa mas possível, a um apelo de ser, que nós dizemos que é o apelo de Deus. Cada pessoa na sua vida é a resposta concreta ao apelo de Deus que é um apelo à vida. Os caminhos existenciais pelos quais se cumpre esta resposta podem ser em algumas pessoas mais facilitados e em outras mais complexos, mas cada pessoa se cumpre dizendo: “sim”. E o “sim” é aceitar a vida. “Escuta” é um dos mandamentos mais importantes do Antigo Testamento. Põe-te à escuta de Deus, pondo-te à escuta do mundo. E quem se põe à escuta sabe que a primeira palavra não é a nossa palavra. A primeira palavra é a palavra que alguém me dirige, é a palavra que vem de fora. É um desafio, um repto, um apelo, uma evidência, um conhecimento. É a descoberta de alguma coisa ou a descoberta de alguém. É um sentimento que me habita, é uma vontade. E no segundo momento, eu digo “sim” a esse apelo. Ao dizer “sim”, e ao continuar a dizer “sim”, estou-me a cumprir.

“Escuta Israel, amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua força, com toda a tua alma.” Curioso, o verbo «amarás» está no futuro. Significa que é um trabalho para toda a vida, é uma promessa, é um mandamento porque o Senhor nos desafia a vivê-lo. Mas é um mandamento que se adapta às nossas circunstâncias, ao nosso crescimento, à nossa evolução. É uma promessa que nunca está concluída, é uma resposta que nunca está acabada. Por isso tem futuro. “Amarás o Senhor teu Deus.” Porque a Deus só se vai pelo amor. Deus só vem a nós pelos caminhos do amor. O amor é que faz a santidade. Porque o amor é a relação, é a procura, é a descoberta, é a resposta possível, por vezes hesitante, é o passo que se dá na procura do outro em que nós nos implicamos por inteiro. Não deixes nada de fora na tua relação com Deus. Façamos do amor a Deus o amor envolvente de todo o teu ser. Até dos nossos limites, das nossas fragilidades, das nossas dúvidas, das nossas hesitações, das nossas feridas, dos nossos desencontros. Tudo isto é para o unificar, é para o oferecer nesta resposta que nós queremos dar a Deus pelo caminho do amor.

Mas o amor a Deus não vale por si, completa-se no amor aos irmãos. O nosso sentimento mais nobre, mais sublime que é a resposta a um apelo fundamental da nossa vida a quem chamamos Deus, concretiza-se na nossa relação quotidiana com aqueles com quem vivemos, com quem nos cruzamos: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”

Padre António Martins in “Homilia do XXXI Domingo do Tempo Comum (04.11.18)”

Segunda-feira

Agora, aqui e hoje

«O meu passado já não me preocupa: pertence à misericórdia divina. O meu futuro também não me preocupa: pertence à providência divina. O que me preocupa é o agora, aqui e hoje: ele pertence à graça divina e ao empenho da minha boa vontade.» Estas palavras de S. Francisco de Sales (1567-1622), também conhecido pela sua fina produção literária espiritual, podem adaptar-se a estes últimos dias de um ano que está a declinar.

Elaborar balanços finais ou projetivos de uma empresa pode ser fácil; mais desafiador é fazer o relatório de uma vida com os seus esplendores e as suas misérias, com o bem e o mal, com o significado ou com o vazio de uma existência.

Francisco de Sales articula o seu balanço na tríplice dimensão do tempo e coloca-o sob a alçada do julgamento divino. O passado e o futuro são vistos com grande serenidade: o primeiro é confiado à misericórdia de Deus, até porque já não pode ser mudado; o segundo está somente nas mãos de Deus, que também é pai e não quer que o filho seja abandonado ou arruinado.

O único aspeto do tempo que é arriscado é o presente porque está a ser construído «agora, aqui e hoje» e é o único que plenamente nos pertence. Depende da nossa liberdade torná-lo ofensivo e deflagrador ou frutífero e produtivo. Mas S. Francisco sabe que também o presente, embora intrinsecamente ligado a nós, não está privado da presença divina. A graça, com efeito, sustenta a nossa liberdade e basta esticarmos a mão para que Deus esteja pronto a agarrá-la e a guiar-nos ao longo do caminho da vida, dia após dia, passo após passo.

Cardeal Gianfranco Ravasi  in “Avvenire”

Terça-feira

Deus surpreende-nos sempre

No Evangelho, Jesus escolhe uma imagem quase banal do dia-a-dia para nos explicar a nossa relação com Deus. Fala-nos de um lavrador que lança a sua semente por todo lado, de modo a que esta cresça e ele possa ter uma boa colheita. É como se Jesus nos dissesse: Deus dá a todos, sem medida. Tudo o que Deus pode fazer é dar vida. Não é preciso dar muitas voltas à cabeça para compreendermos como podemos merecer o seu amor. Ele dá esse amor constantemente.

A verdadeira questão que esta parábola nos traz é outra, nomeadamente: como podemos receber o que Deus nos dá? Afinal, uma semente não cresce apenas por si própria. Precisa de encontrar o solo conveniente para dar fruto. Em nós e no nosso mundo, há muitos obstáculos que obstruem a comunicação e o crescimento da vida de Deus, do seu amor. Para algumas pessoas, há demasiadas provações que tornam a confiança em Deus impossível. As más experiências do passado podem endurecer-nos e fazer-nos duvidar da bondade de Deus.

Mas as provações também podem tornar-nos menos auto-suficientes, mais disponíveis para acolher o que vem de outros lados. Paradoxalmente, às vezes, podem ajudar-nos a avançar para uma vida melhor. O obstáculo mais profundo ao acolhimento do dom de Deus não é o sofrimento, mas a recusa de nos deixarmos ser perturbados, por medo ou por comodismo.

Deus surpreende-nos sempre. As crianças gostam de surpresas, mas os adultos nem sempre as apreciam imediatamente. Mexem com os nossos hábitos, deixamos de ter o controlo total das coisas, põem-nos sobre um caminho que nos leva ao desconhecido. Mas se nunca nos deixamos incomodar, como podemos descobrir a vida inesperada que Deus nos oferece? Esta vontade de acolher aquilo que não controlamos chama-se a confiança. E quando o dom de Deus encontra um coração que confia, tudo se torna possível. É a isso que a parábola chama dar fruto ao cêntuplo. O universo inteiro é como que recriado pelo sim de um coração que confia.

Comunidade de Taizé in “Aprofundar a Palavra” (www.taize.fr)

Quarta-feira

Sonhos sem realidade

No Evangelho, Jesus escolhe uma imagem quase banal do dia-a-dia para nos explicar a nossa relação com Deus. Fala-nos de um lavrador que lança a sua semente por todo lado, de modo a que esta cresça e ele possa ter uma boa colheita. É como se Jesus nos dissesse: Deus dá a todos, sem medida. Tudo o que Deus pode fazer é dar vida. Não é preciso dar muitas voltas à cabeça para compreendermos como podemos merecer o seu amor. Ele dá esse amor constantemente.

A verdadeira questão que esta parábola nos traz é outra, nomeadamente: como podemos receber o que Deus nos dá? Afinal, uma semente não cresce apenas por si própria. Precisa de encontrar o solo conveniente para dar fruto. Em nós e no nosso mundo, há muitos obstáculos que obstruem a comunicação e o crescimento da vida de Deus, do seu amor. Para algumas pessoas, há demasiadas provações que tornam a confiança em Deus impossível. As más experiências do passado podem endurecer-nos e fazer-nos duvidar da bondade de Deus.

Mas as provações também podem tornar-nos menos auto-suficientes, mais disponíveis para acolher o que vem de outros lados. Paradoxalmente, às vezes, podem ajudar-nos a avançar para uma vida melhor. O obstáculo mais profundo ao acolhimento do dom de Deus não é o sofrimento, mas a recusa de nos deixarmos ser perturbados, por medo ou por comodismo.

Deus surpreende-nos sempre. As crianças gostam de surpresas, mas os adultos nem sempre as apreciam imediatamente. Mexem com os nossos hábitos, deixamos de ter o controlo total das coisas, põem-nos sobre um caminho que nos leva ao desconhecido. Mas se nunca nos deixamos incomodar, como podemos descobrir a vida inesperada que Deus nos oferece? Esta vontade de acolher aquilo que não controlamos chama-se a confiança. E quando o dom de Deus encontra um coração que confia, tudo se torna possível. É a isso que a parábola chama dar fruto ao cêntuplo. O universo inteiro é como que recriado pelo sim de um coração que confia.

Luigi Verdi  in “Il domani avrà i tuoi occhi”

Quinta-feira

A arte da leveza

Com todo o nosso peso, nós, seres humanos, nunca cessamos de aspirar à leveza. Podemos não ter disso consciência, podemos até sentir que os nossos dias são como chumbo e, no emaranhamento de tudo aquilo que nos toca viver, experimentar sempre e unicamente o contrário da leveza. Todavia, somos habitados por um persistente e inexaurível desejo daquilo que a leveza significa, mesmo quando esse desejo se exprime apenas como um desencontro, um tormento, um naufrágio ou uma sede.

Voltam-me à memória os versos de uma poesia de Antonia Pozzi: «Desejo de coisas leves/ no coração que pesa». Nós somos «desejo de coisas leves»: e temos de o recordar a nós próprios. Porque se é verdade que a lei universal da gravidade nos mantém colados à terra, também é verdade que em nós pulsa uma tensão de transcendência. Se é verdade que somos amassados na argila, somos também aéreos e leves como o sopro de Deus.

Para Italo Calvino, leveza era uma das poucas palavras essenciais para este novo milénio, mas ele foi bem claro no facto de que o caminho para se aproximar dela exige uma conversão do nosso modo de olhar a vida.

Libertada dos equívocos que a assediam (por exemplo, quando se confunde com qualquer coisa de meramente superficial ou fútil), a leveza ensina-nos algo de fundamental sobre a arte de ser.

José Tolentino Mendonça in “Avvenire”

Sexta-feira

A sabedoria das árvores

Jesus ama a esperança, não o medo: aprendei da figueira: quando o seu ramo se torna tenro e despontam as folhas, sabei que o verão está próximo. Jesus conduz-nos à escola das plantas, para que as leis do espírito e as leis profundas da realidade coincidam. Cada rebento assegura que a vida vence sobre a morte.

Aprendei da sabedoria das árvores: quando o ramo se torna tenro… No inverno não imaginamos o amolecer do ramo; o seu amaciamento pela linfa que torna a encher os pequenos canais é uma surpresa e um espanto antigo. As coisas mais belas não são para procurar, mas para esperar. Como a primavera. E despontam as folhas, e tu não podes fazer nada; ou talvez sim: contemplar e proteger.

Então compreendereis que o verão está próximo. Na realidade, os botões indicam a primavera, que no entanto, na Palestina, é brevíssima, poucos dias e logo depois é o verão. Assim também vós sabereis que Ele está próximo, está à porta. Deus é próximo, está aqui; belo, vital e novo como a primavera do cosmo.

De um rebento aprendei o futuro de Deus: que está à porta e bate; vem não como um dedo apontado, mas como um abraço, um germinar humilde de vida. Então sinto-me como uma barca, que deixou de estar ansiosa pela rota a seguir, porque sobre ela sopra um Vento de Céu, e a lâmpada da Palavra está acesa à proa. Passam o Sol e a Lua, que são o relógio do universo, esfarela-se a Terra, mas não as minhas palavras, são um Sol que nunca declinará dos horizontes da História, do coração do ser humano. Os profetas e poetas, os enamorados e os bons são eles a parábola, o rebento, ramo de figueira ou de amendoeira do mundo salvado. São-no aqui e agora, sobre a Terra inteira e dentro da minha própria casa, como rebentos bons, embebidos de Céu, impregnados de Deus. Quem me quer bem é lâmpada para os meus passos.

Olhai bem, uma gota de luz está intrincada em cada ruga, um grama de primavera e de futuro está enraizada em cada rosto. A fé repete-me que Deus está à porta, está próximo, está aqui, está neles. «Cada um é um próprio momento de Deus» (D. M. Turoldo).

Ermes Ronchi  in “Avvenire”

Sábado

Deus tem plano B?

Que sucede quando Deus nos diz para irmos por um lado e nós desobedecemos e vamos por outro? Deus tem “planos B”? Ou seja: quando falhamos o caminho, quando seguimos por uma direção errada, será que Ele tem “planos B” a partir do ponto (errado) em que agora nos encontramos (por culpa nossa)? Recalcula a rota? Tomo como adquirido que Deus primeiro tenta sempre que façamos inversão de marcha. Mas nem sempre é fácil… Às vezes já não dá, a asneira já fez trajeto. Será que então aí Deus tem uma nova rota? Creio que somos hoje ingenuamente otimistas em relação a nós mesmos e em relação à vida. Achamos que está sempre tudo em aberto para ser revisto e recomeçado, quaisquer que sejam as opções que fizemos. Achamos que podemos sempre voltar ao ponto de partida e ser o que éramos antes da viagem. Acho esta ideia muito ingénua. As nossas opções entretanto fizeram história, criaram ligações, responsabilidades, tiveram as suas consequências, abriram ou fecharam possibilidades para o nosso futuro. Deixaram-nos em lugares diferentes dos lugares em que estávamos antes. Piores ou melhores; mas certamente diferentes.

E, ao longo do caminho, nós próprios ficámos pessoas diferentes devido às atitudes que fomos alimentando: pessoas mais livres ou mais mesquinhas, mais altruístas ou egocêntricas, pessoas com fé ou à defesa, generosas ou calculistas, pessoas mais humanas ou mais desumanas… As nossas decisões não decidem só a estrada que fazemos; decidem também as pessoas em que nos tornamos. 

Creio firmemente que a vontade de Deus coincide sempre com o nosso maior bem e que procurar fazer o que Lhe agrada é sempre a opção mais inteligente quando temos de tomar decisões. Digo “procurar” e não “fazer” porque muitas vezes nem sabemos bem o que é o melhor e por onde passa a vontade de Deus. Nem Deus nos pede que acertemos; pede-nos apenas que o tentemos fazer de todo o coração. Com essa nossa generosidade e boa vontade, Ele fará tudo o resto. E até poderá “escrever direito por linha tortas”, como diz o povo. Vezes sem conta. Ou seja: Deus tem sempre “planos B”. Para Ele, hoje é sempre o primeiro dia das nossas vidas. Mas não escreve por nós a nossa história.

Padre Nuno Tovar de Lemos in pontosj.pt