XXXIV Semana do Tempo Comum

XXXIV Domingo do Tempo Comum

Esperança

Até onde chega a nossa esperança? O que esperamos, verdadeiramente, da vida? É pelo caminho da esperança que avançamos no futuro, de peito aberto, resistimos ao vazio da vida e ao seu caminhar para o nada. Uma esperança sem limites e um novo estilo de amar, até os próprios inimigos, são a marca subversiva da novidade cristã. A esperança é aquela dimensão da vida cristã que, nos nossos tempos perturbados e de mudanças imprevisíveis, mais precisamos de ativar. Pode correr até o risco, na Igreja e em cada um de nós, de ser a dimensão da vida cristã mais frágil e mais exposta a debilidade. Diz-me a força da tua esperança, dir-te-ei a densidade da tua fé, poderíamos dizer.

Ainda hoje é difícil falar de ressurreição. A maioria não acredita, e mesmo aqueles que acreditam, por vezes, hesitam em expressar a sua esperança. Foi no passado e continua a ser no presente um aspeto problemático da fé; e, todavia, é aí que se decide a novidade cristã: a de uma esperança que é mais forte do que a morte. À dificuldade, de sempre, de conceber uma vida ressuscitada, plena, inteira, cumprida, há a resposta, descrente e profundamente materialista: tudo acaba na evidência aniquiladora do vazio da morte. Importa dizer que uma esperança para além da morte, a vencer a própria morte, durante largos séculos não existia no judaísmo, e quando existiu era coisa muito marginal, quase facultativa. Outra resposta, também perigosa, é a de conceber a vida eterna como prolongamento desta, mas em estado imortal. Esta ingenuidade ainda existe a dar origem a conceções muito fantasiosas e caricatas da ressurreição.

Nem negação nem ingénua fantasia de um prolongamento. Mas a proclamação de que a ressurreição será o triunfo da vida, da força da vida de Deus em nós, e só Deus pode ressuscitar. A ressurreição será, então, essa graça plena, definitiva, do amor de Deus que dá vida, cria e ressuscita, porque é amante da vida, e não pode permitir que os seus filhos e filhas muito amados sejam destruídos e esvaziados na morte. A ressurreição é como que o certificado de credibilidade e de autenticidade do próprio Deus. Um Deus que não seja capaz de ressuscitar, de restaurar a vida da/na morte, seria um Deus falido, não credível. A ressurreição será o triunfo de Deus em nós, o definitivo da graça que dá vida e vida em plenitude. Possa a esperança na ressurreição ser fogo que nos atiça nas nossas resistências e adversidades. Alimentados pela esperança na ressurreição, atrevemo-nos a esperar contra toda a esperança.

Padre António Martins in “Homilia do XXXII Domingo do Tempo Comum (10.11.19)”

Segunda-feira

A nova imagem de Deus

O que me encanta é Jesus que se maravilha com o Pai. Uma coisa belíssima: o Mestre de Nazaré surpreende-se por um Deus sempre mais fantasioso e inventivo aos seus olhos, que surpreende todos, até o seu Filho.

O lugar vazio dos grandes preenchem-no os pequenos: pescadores, pobres, doentes, viúvas, crianças, publicanos, os preferidos de Deus. Jesus não o esperaria, e admira-se com a novidade; a maravilha invade-o, sente-se feliz. Descobre o agir de Deus, como antes sabia descobrir, na profundidade de cada pessoa, angústias e esperanças, e para elas sabia inventar como resposta palavras e gestos de vida, que o amor nos faz chamar “milagres”.

Os pequenos, os pecadores, os últimos da fila, as periferias do mundo compreenderam que Jesus veio trazer a revolução da ternura: vós valeis mais do que muitos pássaros, tendes o ninho nas suas mãos. Vinde a mim, vós todos que estais cansados e oprimidos, e Eu vos darei alívio.

Deus não é difícil: está ao lado de quem sofre, leva aquele pão de amor de que necessita todo o coração humano cansado… E todo o coração está cansado. Vinde, dar-vos-ei alívio. E não vos vou já apresentar um novo catecismo, regras superiores, mas o conforto do viver. Duas mãos nas quais apoiar a vida cansada e retomar o fôlego da coragem. O meu jugo é suave, e o meu peso é leve: palavras que são música, boa notícia. Jesus veio para eliminar a velha imagem de Deus. Não mais a imagem de um dedo acusador apontado contra nós, mas dois braços abertos. Veio para tornar leve e fresca a religião, a tirar-nos pesos das costas e a dar-nos as asas de uma fé que liberta. Jesus é um libertador de energias criativas, e por isso é amado pelos pequenos e oprimidos da Terra. Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, isto é, aprendei do meu coração, da minha maneira de amar delicada e indómita. Dele aprendemos o alfabeto da vida; na escola do coração, a sabedoria do viver.

Ermes Ronchi  in “Avvenire”

Terça-feira

Tem fé em ti

Faz tudo o que te é possível, mesmo aquilo que possas pensar que te é impossível. Não te deixes enganar pelo que os outros pensam a teu respeito. É sempre mais fácil tomar atenção ao que nos distrai e desvia do melhor caminho.

São raras as pessoas que, na vida, chegam onde podem chegar. O medo mata-nos muitos sonhos, antes mesmo de começarmos a lutar por eles. Todos devemos cumprir a missão de sermos quem somos, pagando o preço que tiver de ser. Toda a gente sonha, mas só poucos se colocam a caminho de os concretizar. O mais fácil é sempre ficar a sonhar, até que tudo nos seja entregue sem que tenhamos de fazer coisa alguma.

Acreditamos que não somos capazes de fazer muitas coisas e isso faz com que nem sequer as tentemos. Somos vítimas das nossas ideias a respeito de nós. É difícil aceitar que talvez sejamos mesmo capazes. É mais fácil apontar os erros aos outros do que ajudá-los. Deixar para amanhã é caminho fácil. Porque é sempre mais leve prometer do que cumprir.

O que é melhor? Arrependermo-nos do mal que fizemos ou pararmos a tempo de não fazer o mal que temos em mente? Escolhe o mais difícil. Algo que é muito mau nos caminhos difíceis é não vermos o sentido de ter de os fazer… mas a fé e a esperança são condições do amor. Nada garantem, mas tudo podem. É cheios de dúvidas que devemos lutar como se tivéssemos certezas.

Muitos são os que, por hábito ou preguiça, se deixam ficar pelo que é fácil. Impedem-se de crescerem, de se engrandecerem, de irem até onde podem ir. Não percas tempo com aqueles que não acreditam que se pode subir ao mais alto das montanhas. Talvez a sua vida seja mais fácil de suportar assim, sem acreditarem em si mesmos.

Tem fé em ti. Escolhe o caminho que te leva mais longe, por mais duro que seja.

Tem fé em ti.

José Luís Nunes Martins in www.agencia.ecclesia.pt

Quarta-feira

Oração e ação

O clima atual faz de tudo para esvaziar esta procura de Deus: o homem de hoje «encontra-se não apenas privado de Deus mas também sem o homem» (Claude Geffré). Ele encontra-se perdido na ausência de certezas, arrebatado por um absurdo caracterizado mais pela multiplicação dos sentidos que pelo não-senso. Em tal contexto, quer encontrar-se com Deus imediatamente, evadindo-se em práticas de cura, reduzindo a oração a uma injunção: Deus deve satisfazer a necessidade do homem.

Mil coisas, talvez até boas em si mesmas, vêm retirar a nossa atenção no Senhor e nos parecem ser mais importantes do que aquele pouco tempo que gostaríamos de dedicar a escutar o Senhor e a falar-Lhe face a face, como um amigo com o Seu amigo. 

É a tentação mais quotidiana, talvez a mais perigosa, porque parece salvaguardar um aspeto marginal da vida cristã: no fundo, até te dás conta quando dizes, se não rezo agora posso sempre rezar num outro momento, posso concentrar-me sobre a palavra de Deus quando estiver mais tranquilo, após ter resolvido aquele problema urgente… É uma tentação antiga, que todo o crente antes ou depois conhece.

Dietrich Bonhoeffer, preso numa cadeia de Berlim pela Gestapo, afirmou: «O nosso ser cristãos hoje consistirá somente em duas coisas: em orar e em atuar naquilo que pode ser considerado justo pelos homens.» A vida cristã reduz-se a estes dois aspetos inseparáveis: a oração e a ação justa entre os homens que nos seja possível. Ouso dizer que o cume da [oração de] intercessão não é constituído tanto por palavras sobre os outros dirigidas a Deus, mas por uma vida que se põe perante Deus, na posição do crucificado, com os braços estendidos. É bom de ver: existe uma estreita reciprocidade entre a oração pelo outro e o amor ativo por ele.

Luigi Verdi  in “Il domani avrà i tuoi occhi”

Quinta-feira

O Deus da proximidade

O nosso Deus é o Deus da proximidade, é um Deus próximo, que caminha com o seu povo. Aquela imagem no deserto, no Êxodo, a nuvem, a coluna de fogo para proteger o povo: caminha com o seu povo. Não é um Deus que deixa prescrições escritas, “e segue adiante”. Faz prescrições, escreve-as na pedra com as próprias mãos, dá-las a Moisés, entrega-as a Moisés; não se limita a dar  prescrições e a ir embora: caminha, está próximo. “Qual nação tem um Deus tão próximo?”. É a proximidade. O nosso Deus é o Deus da proximidade.

Muitas vezes, o homem rejeita a proximidade de Deus, quer ser dono das relações; mas a proximidade traz sempre consigo alguma fraqueza. O “Deus próximo” faz-se fraco, e quanto mais se aproxima, mais fraco parece. Quando vem habitar connosco, faz-se homem, um de nós: faz-se fraco e carrega a fraqueza até à morte e a morte mais cruel, a morte dos assassinos, a morte dos maiores pecadores. A proximidade humilha Deus. Ele humilha-se para estar ao nosso lado, para caminhar connosco, para nos ajudar.

O “Deus próximo” fala-nos de humildade. Não é um “grande Deus” distante… não. Está próximo. É de casa. E vemos isso em Jesus, Deus que se fez homem, próximo dos seus discípulos até à morte: acompanha-os, ensina-os, corrige-os com amor… Pensemos, por exemplo, na proximidade de Jesus aos discípulos angustiados de Emaús: estão aflitos, derrotados, e Ele aproxima-se lentamente, para lhes explicar a mensagem de vida, de ressurreição. O nosso Deus está próximo e pede-nos que estejamos próximos uns dos outros, que não nos afastemos uns dos outros. Podemos despertar uma atitude de proximidade entre nós: com a oração, a ajuda e tantos modos de proximidade. E por que motivo devemos estar próximos uns dos outros? Porque o nosso Deus está próximo, quis acompanhar-nos na vida. É o Deus da proximidade. Por isso, não somos pessoas isoladas: estamos próximos, pois a herança que recebemos do Senhor é a proximidade, ou seja, o gesto da proximidade.

Papa Francisco  in “Homilias (18.03.2020)”

Sexta-feira

A alegria verdadeira

O Deus cristão não é inimigo do Homem nem seu rival. Pelo contrário, é Força criadora, que faz ser tudo o que é e quer a plena realização de todas as criaturas. Alegra-se com a felicidade das pessoas, e está ao seu lado no combate contra tudo aquilo que as diminui. Deus não é interesseiro nem cioso da sua glória; pelo contrário, “a glória de Deus é o Homem vivo”, isto é, a pessoa humana na sua plenitude, plenamente realizada em todas as suas dimensões. A religião autêntica não é de modo nenhum inimiga da alegria. É preciso repetir  constantemente: o Deus cristão não tem inveja da realização do ser humano. Pelo contrário, Ele não nos criou para a sua maior glória, mas para que sejamos plenamente felizes. Ele é o Deus vivo e dos vivos. Por isso, em Cristo, promete a vida plena, eterna.

Foi pregado ao longo de demasiado tempo que Deus precisou do sangue do próprio Filho para aplacar a sua ira divina. Pergunta-se: como é que foi possível pregar e acreditar num Deus vingativo e sádico, um Deus pior do que um pai humano decente? “Quem segue o pensamento da morte expiatória de Jesus tem de responder à pergunta: quem é e como é o Deus que exige a expiação e a aceitou. A resposta supõe que Deus Pai só com a morte de Jesus na cruz se reconciliou com a Humanidade culpada. Só através do sofrimento bárbaro e a morte aplacou a sua ira, um pensamento que à luz da mensagem de Jesus sobre Deus parece a muitos absurdo”, escreveu, com razão, o teólogo H. Vorgrimler. Jesus não morreu para aplacar a ira de Deus. Jesus foi vítima da maldade dos homens, dos sacerdotes do Templo e dos senhores do Império. A cruz de Cristo é a expressão suma do amor incondicional de Deus para com todos. Jesus, o excluído, é aquele que, em nome do Deus bom, não exclui ninguém. Pelo contrário, inclui a todos no amor sem condições. Jesus morreu para dar testemunho até ao fim do Evangelho: Deus é bom.

Então aprendemos a alegria verdadeira: o sacrifício pelo sacrifício é detestável, mas, por outro lado, nada vale realmente sem sacrifício. Por causa de uma banalidade hoje triunfante, é recusado a muitos o sabor da alegria que resulta da superação de obstáculos. Nada de grande, belo e valioso e digno se faz e constrói sem sacrifício. Os valores merecem que nos batamos por eles, e é esse sacrifício enquanto luta por aquilo que vale que nos engrandece como seres humanos.

Padre Anselmo Borges  in “Diário de Notícias” (18.Setembro.2021)

Sábado

A tua estrela

A tua Estrela finalmente brilhará sobre os nossos dias insolúveis, entre penúria e sede.

Brilhará sobre o nosso coração blindado, sobre os invisíveis muros do egoísmo que nos isola, sobre os ávidos motivos que nos prendem ao seu comércio repetido e sonâmbulo.

Brilhará sobre as múltiplas formas de cegueira que defendemos acriticamente; sobre o peso insustentável das nossas omissões, sobre a paz e a justiça que permanecem para nós uma missão sempre adiada.

Brilhará sobre as inúteis razões que acumulamos para mascarar o medo, que nos torna sempre mais indisponíveis à viagem que Tu nos sugeres.

A tua Estrela brilhará sobre a austeridade que impomos à circulação dos afetos; sobre a dança interrompida e as mãos silenciadas, sobre o silêncio mastigado em solidão apesar do previsível incremento de presentes e de desculpas; sobre a incapacidade de transformar os nossos passos erráticos e afadigados numa confiante marcha de peregrinos.

A tua Estrela brilhará sobre os caminhos que tantas vezes percorremos sem conduzir a lado nenhum; sobre esta aliança hesitante, ainda que assídua; sobre a imperfeição das promessas que acendemos; sobre o nosso olhar demasiadas vezes se rompe do lado de cá; sobre a incompletude da oração e sobre a fragilidade do dom.

A tua Estrela brilhará sobre nós.

José Tolentino Mendonça in “Avvenire”