Reflexão para o mês de janeiro de 2026
Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara
“Permanecei em mim e eu permanecerei em vós.” (do Evangelho segundo São João)

Permanecer. Uma palavra que traz tanta força e tanto mundo dentro. Uma palavra que quero que me acompanhe não só ao longo deste ano que agora começa, mas ao longo de uma vida que se vai edificando todos os dias.
Ao longo dos Evangelhos, esta é uma palavra que Jesus vai repetindo em momentos vários, reforçando a importância de permanecermos. De ficarmos até ao fim. De ficarmos por completo. De assim continuarmos através do tempo. Permanecer é uma forma de habitar a vida com verdade e por inteiro. Não se trata de ficar parado, mas sim de enraizar-se. Quem permanece, aprende a habitar o tempo, a acolher aquilo que chega e a deixar partir aquilo que já cumpriu a sua estação. Há uma mansidão profunda na arte de permanecer. Não é passividade; é confiança. É reconhecer que a luz também cresce na sombra, e que a fé, às vezes, se manifesta apenas como um fio muito ténue que, no entanto, nunca se rompe. Permanecer é deixar que Jesus seja o centro. É deixar que Ele nos habite de dentro para fora, com a paciência de quem sabe que o amor precisa de raízes para florescer.
E, aos poucos, quem permanece começa a ver de uma outra maneira. As tempestades deixam de ser o fim do caminho e passam a ser parte do itinerário. Os medos não desaparecem, mas perdem domínio. A fragilidade já não é motivo de vergonha, mas um lugar onde Deus se revela com delicadeza. Permanecer transforma-nos, não de repente, mas como a seiva que sobe, silenciosa, até à última folha.
Jesus propõe-nos que permaneçamos. Ao longo da sua vida, há pessoas que encarnam esse seu pedido de permanência nele. Maria permaneceu. Não porque entendia tudo, mas porque confiava. Permaneceu quando o anjo partiu e deixou no ar um silêncio cheio de mistério. Permaneceu quando teve de fugir para salvar o Filho, quando o viu crescer e escolher um caminho que a afastava, quando percebeu que Ele pertencia ao Pai antes de lhe pertencer a ela. E permaneceu também na dor mais funda, de pé junto à cruz, quando qualquer mãe teria desabado. Maria permanece e, nesse permanecer, torna-se espaço onde Deus pode acontecer.
Também João permaneceu. Talvez porque o amor o levava sempre mais perto, ou talvez porque sabia que é ao lado de quem sofre que se aprende o que significa fidelidade. Ele ficou quando tantos fugiram. Não porque soubesse explicar, mas porque o coração lhe dizia que o amor não abandona. João permaneceu aos pés da cruz e permaneceu também no silêncio do dia seguinte, quando tudo parecia perdido. É essa permanência silenciosa, feita de presença e não de respostas, que ainda hoje nos aponta um caminho: o de estar com o outro mesmo quando nada podemos resolver.
E depois as mulheres, essas discípulas discretas que acompanharam Jesus até onde os outros não ousaram ir. Foram elas que permaneceram no túmulo, na madrugada fria, sem certezas, apenas com o desejo de cuidar do corpo daquele a quem tanto tinham amado. Permaneceram quando já não havia promessa visível, quando tudo lhes apontava para o fim. E porque permaneceram, foram as primeiras a ver a luz da ressurreição. Às vezes, a fidelidade mais escondida é a que abre portas que pensávamos fechadas para sempre.
E há ainda Pedro, que nos consola com a sua permanência imperfeita. Prometeu ficar até ao fim e falhou. Quis ser forte e caiu. Mas mesmo na queda, continuou a amar Jesus. Voltou, deixou-se olhar, deixou-se restaurar. A sua permanência foi a de quem não desiste de regressar. Talvez seja isto que nos salva tantas vezes: a humildade de começar de novo.
Quando olhamos para estas histórias, percebemos que permanecer não é um ideal inalcançável. É antes um modo de estar que atravessa as nossas sombras e não se deixa paralisar por elas. E hoje, quando Jesus continua a pedir que permaneçamos, não nos pede algo diferente do que pediu àqueles que O seguiram primeiro. Pede-nos que permaneçamos na fé, mesmo quando Deus parece distante; no amor, mesmo quando amar custa; na esperança, mesmo quando a noite se arrasta; na comunidade, mesmo quando a fragilidade humana nos desanima; n’Ele, sobretudo, porque é d’Ele que vem a força para tudo o resto.
Na vida de Jesus, vemos como Ele próprio permanece com os seus. Não escolheu um grupo ideal, mas um grupo real: homens e mulheres com limites, medos, rivalidades, dúvidas. Ainda assim, Jesus não desiste. Permanece. Corrige com paciência, ensina com gestos, perdoa sem humilhar, lava os pés a todos. E é nesse permanecer fiel que nasce a Igreja e que nascemos nós também.
Quando Jesus diz “permanecei em Mim”, diz também “permanecei uns nos outros”. A comunhão com Ele não se vive à margem da comunhão fraterna. Permanecer em Igreja é deixar-se viver numa história maior do que nós, aceitar ritmos diferentes, suportar fragilidades, aprender a escutar. É compreender que a comunidade não existe para nos servir, mas para nos transformar. Permanecer em Igreja não é uma evidência, é uma escolha. Tal como os ramos não existem separados da videira, também o cristão não se constrói sozinho. Jesus fala de uma ligação viva, vital, onde a seiva passa, onde a vida circula. Fora dessa comunhão, tudo seca. Permanecer é aceitar que a fé precisa de corpo, de rosto, de relações concretas. Precisa de comunidade.
Num tempo marcado pela rapidez, pelo individualismo e pela facilidade de desistir, permanecer torna-se um testemunho profético. Permanecer em Igreja é dizer ao mundo que a comunhão vale a pena. É escolher ficar, cuidar, servir, crescer juntos. Permanecer é deixar que Cristo faça morada em nós e que, através de nós, continue a fazer morada na Igreja e nos grupos que a constituem. Porque só quem permanece ligado à videira pode dar fruto. E só quem permanece no amor aprende, lentamente, a amar como Ele amou. Que possamos, juntos, escolher a permanência e desejar ficar onde o coração sabe que é amado.



























