Reflexão para o mês de outubro de 2026
Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara
“O Reino de Deus está no meio de vós.” (do Evangelho de São Lucas)

Fomos, inevitavelmente, envolvidos, nos últimos dias pelas palavras e pelas melodias de Jorge Palma. De entre as inúmeras canções da sua autoria, gosto de ouvir a icónica “Bairro do Amor”. Ao voltar a escutá-la, dei por mim a recordar uma passagem do Evangelho de Lucas, “O Reino de Deus está no meio de vós.” Trata-se de uma resposta direta de Jesus aos fariseus sobre a natureza e o tempo da vinda do Reino. Na época de Jesus, os judeus viviam sob a opressão do Império Romano. Os fariseus e outros grupos esperavam um Reino de Deus político, triunfante e visível, liderado por um Messias militar que libertaria Israel de forma imperial. Ao ser questionado sobre quando esse evento glorioso aconteceria, Jesus altera radicalmente a perspetiva. Ele afirma que o Reino não pode ser medido por sinais astrológicos ou geográficos externos.
Quando Jesus anuncia este Reino, não está a apontar para um território com fronteiras, nem para uma realidade reservada a um dia distante. Está a falar de uma maneira nova de viver, onde Deus encontra espaço para reinar através do amor, da justiça, da misericórdia e da fraternidade. O contexto desta frase é um convite para viver o Reino no presente. Em vez de aguardar passivamente um reino futuro, os cristãos são chamados a construí-lo no “aqui e agora” por meio de ações que espelhem o Evangelho.
Jesus não nos diz que o Reino está longe, Ele diz-nos que está no meio de nós. E é precisamente aqui que Deus quer estar. No meio de nós, no meio da vida, no lugar do encontro, num espaço feito de portas e janelas, de histórias, de caminhos, onde há sempre a possibilidade de recomeçar. Um lugar onde o amor não elimina as fragilidades, mas não permite que elas tenham a última palavra. Este Reino acontece quando, no meio das nossas imperfeições, deixamos Deus transformar a maneira como olhamos e cuidamos de quem caminha connosco. Jesus fala-nos de um Reino que não precisamos de procurar fora da vida, porque é precisamente na vida, nas relações e nos encontros que este Reino acontece. No meio de nós. Não longe, não depois, não apenas quando a vida se normaliza. O Reino de Deus não é um lugar perfeito à nossa espera, mas sim uma construção inacabada, confiada a todos nós. Um lugar onde Deus está presente, mas onde ainda há muito por fazer para que esta Sua presença seja reconhecida.
Se acreditamos que este Reino está no meio de nós, então não somos apenas aqueles que o esperam; somos também aqueles a quem foi confiada a tarefa de o construir. Como cristãos que somos, é esta a nossa maior responsabilidade: tornar este Reino visível, no aqui e no agora, na forma como escolhemos viver. É por isso que o Reino de Deus não pode ficar apenas nas nossas palavras ou nas nossas orações. Tem de passar para a vida, para a forma como acolhemos quem chega até nós, como cuidamos de quem precisa, como tratamos quem pensa diferente e como nos comprometemos com quem continua à margem. Jesus não nos pede que esperemos por um mundo melhor; Ele confia-nos a tarefa de o começar a tornar possível. E é aqui que o Evangelho se torna exigente: quando percebemos que o Reino que tantas vezes pedimos na oração (“Venha a nós o Vosso Reino”) também depende daquilo que estamos dispostos a fazer para que ele venha. Pedimos que venha, mas será que lhe abrimos caminho? Pedimos um mundo mais justo, mas que lugar damos à justiça nas nossas escolhas? Pedimos amor, mas o que fazemos para que alguém se sinta amado?
O Reino de Deus não se constrói de uma só vez nem depende de gestos extraordinários. Cresce nas pequenas fidelidades do dia-a-dia, nos encontros que facilitamos, nas reconciliações que procuramos e na coragem de não desistir perante as adversidades. Constrói-se quando percebemos que a fé que nos une não nos junta apenas para estarmos juntos, mas para que, juntos, possamos tornar mais concreto este imenso amor de Deus. O Reino é de Deus, mas a sua construção passa por nós. O Amor precisa de um lugar para habitar, um lugar onde haja “sempre lugar para mais alguém”, onde se possam levantar “ondas de ternura em cada olhar” e onde “o Sol parece maior”.
Este é o bairro do Amor onde Jesus nos convida a morar. Um bairro onde ainda seja possível acreditar que o amor pode mudar a paisagem. Um bairro onde ninguém tenha de bater à porta duas vezes para ser acolhido, onde haja espaço para quem chega cansado, para quem se perdeu, para quem procura um lugar onde possa simplesmente ser.
O Evangelho e a canção encontram-se aqui: o amor precisa de um lugar para acontecer. E esse lugar somos nós. As nossas casas, as nossas comunidades, as nossas famílias, as nossas amizades, as nossas igrejas. É aí que o Reino ganha corpo, rosto e nome. É aí que reside a nossa tarefa mais bonita e mais exigente: fazer do lugar onde estamos um lugar onde o Amor possa estar.






































































