Dia da Vida Consagrada. Um dia que fala de entrega, de disponibilidade, de vidas colocadas diante de Deus sem reservas. Um dia que nos convida a olhar para trás com gratidão, para o presente com verdade e para a frente com esperança.
Esta foi a nossa escolha, minha, da Beatriz e do Jorge há já muitos anos. Por isso, este dia vai ser sempre um dia celebrado e lembrado a três. Três histórias, três percursos, três formas de escutar Deus, e uma intuição comum: a vida só faria sentido se fosse entrega. Quando nos comprometemos, não sabíamos exatamente como seria esse caminho. Sabíamos apenas que não queríamos guardá-lo para nós. Desde então, temos vindo a aprender a viver com as mãos abertas, com entusiasmos e com medos. Dias há em que a estrada parece clara e outros em que avançamos apenas porque confiamos em Quem caminha connosco. O nosso compromisso não nos poupa às dúvidas nem aos cansaços, mas dá-nos um lugar onde permanecer quando tudo parece instável. A nossa comunidade é a casa onde aprendemos que a fidelidade se constrói em relação e onde a esperança cresce quando é partilhada. Aqui, o nosso compromisso deixa de ser apenas uma decisão pessoal e torna-se um caminho feito a várias vozes.
Ao celebrar este Dia da Vida Consagrada, olho para o futuro com confiança para viver, da melhor forma possível, desafios, mudanças, fragilidades. Porque a vida entregue continua a gerar vida. Porque Deus não termina aquilo que começa. Porque o nosso “sim” dito um dia continua a abrir possibilidades que ainda não conhecemos. Há ainda muito caminho por fazer. Muitas vidas por encontrar. Muitas formas novas de servir e amar que nós ainda não imaginamos.
Agradecer este dia é voltar a colocá-lo no presente. É dizer outra vez, com a nossa vida toda, que continuamos disponíveis para toda a vida. Por isso, hoje, não celebramos perfeições nem metas alcançadas. Celebramos a graça de continuar a caminhar juntos. Celebramos a luz que não se apaga, mesmo quando é pequena. Celebramos a fidelidade possível, sustentada pela comunidade e pela certeza de que Deus permanece fiel primeiro.
Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara
“Neste mundo, tudo tem a sua hora; cada coisa tem o seu tempo próprio.” (do Livro do Eclesiastes)
Sempre gostei muito do “Poema do Tempo” que vem no livro bíblico do Eclesiastes. Sabia que, um dia, haveria de escrever um texto sobre esta bela passagem que nos expõe, com simplicidade e delicadeza, ao conceito do tempo como uma arte singular. Acontece também que, por estes dias, foi tornado público o dueto que une Caetano Veloso e António Zambujo com a lindíssima canção “Oração ao Tempo”, um tema original do próprio Caetano, tema este escrito, curiosamente (ou não!) em 1979 (ano do meu nascimento!). Portanto, impelida por tantos sinais, percebi que era chegado o tempo próprio de refletir sobre… o próprio do tempo!
Somos feitos de tempos, de idades, de estações. Somos moldados e transformados pelo tempo que vai fluindo e emergindo em nós e nos outros. Ao mesmo tempo, vivemos uma relação tensa com o tempo. Queremo-lo rápido quando dói, lento quando é feliz, previsível quando nos assusta. Habitamos uma época que tem muitas dificuldades em esperar. A rapidez tornou-se critério de valor e a lentidão é frequentemente confundida com fracasso. Usamos e abusamos daquele ditado antigo que nos diz que o tempo voa. Por causa disto, consumimos desenfreadamente, sem saborear a própria vida que cheia está de detalhes que não se revelam a quem não seja sensível ao tempo. Dizemos inúmeras vezes que não temos tempo e outras tantas vezes damos por nós aborrecidos com o tempo que nos sobra. Que tenho eu feito, afinal, deste tempo que me é dado? Como posso eu ser instrumento deste tempo que me habita? Quem sou eu neste tempo da minha história?
Este poema bíblico ao Tempo reconhece a ambiguidade do próprio tempo e não nega a sua complexidade. De uma forma clara, enfatiza, em cada verso, que “tudo tem o seu tempo”, isto é, um tempo próprio, um “kairós”, um tempo oportuno que, muitas vezes, não coincide necessariamente com a nossa urgência interior. E é precisamente aqui que a fé que escolhemos assume uma importância vital. Deus nunca é indiferente à nossa história e acreditar nisto é viver o tempo com o coração no lugar certo.
Diz-nos o autor sagrado que há um tempo para construir e para destruir, para chorar e para dançar, para guardar silêncio e para falar. A vida não se move numa linha reta de progresso contínuo, mas num ritmo feito de avanços e recuos, de luz e de sombra. E Deus não está ausente de nenhum desses momentos. Na perspetiva cristã, o tempo deixa de ser apenas sucessão para se tornar, acima de tudo, relação. Deixa de ser apenas cronologia para se tornar história da salvação. Deus também entra no tempo. Faz-Se criança, cresce, espera, cansa-Se, sofre. Ao fazê-lo, santifica cada etapa da vida humana. Nada fica fora: nem os começos confusos, nem os meios cansados, nem os fins que carregam medo. Deus age dentro do tempo. A encarnação é, sem dúvida, a maior declaração de confiança no tempo humano.
Há um tempo para procurar e um tempo para perder. E perder também é parte do caminho espiritual, ainda que nos custe, tantas vezes, admiti-lo. Perdem-se certezas, imagens de Deus demasiado perfeitas e inatingíveis, projetos que julgávamos definitivos. Mas, muitas vezes, é precisamente nessas perdas que se abre espaço para uma fé menos ingénua e mais verdadeira, mais adulta e inteira.
Há um tempo para chorar e um tempo para rir. A fé não nos pede que saltemos etapas emocionais em nome de uma espiritualidade mal entendida. Jesus chorou. Esperou. Angustiou-Se. O tempo da fragilidade também é tempo habitado por Deus. E alegria que experimentamos é fruto de um sim para uma vida maior.
Talvez o maior desafio seja aceitar que nem todos os tempos são produtivos. Há tempos estéreis, aparentemente inúteis, onde nada parece avançar. Mas a lógica do Reino não é jamais a da eficiência. É sempre a da fidelidade. Permanecer, mesmo quando não se vê fruto, também é oração. A nossa relação com o tempo põe em evidência a nossa impaciência espiritual. Queremos compreender antes de viver, resolver antes de atravessar, fechar capítulos antes de os termos lido até ao fim. Mas a fé amadurece no intervalo, nesse espaço desconfortável onde ainda não se vê claramente e, mesmo assim, se continua a caminhar em confiança. A fé não nos protege do imprevisível e das dificuldades, mas oferece-nos uma forma diferente de os habitar. “O tempo de Deus” não é mágico nem irreal. Acontece no quotidiano, no que se passa entre o que desejamos e o que conseguimos viver. Acontece quando, apesar da impaciência, escolhemos confiar. Quando deixamos de perguntar “quando é que isto passa?” e começamos, timidamente, a perguntar “o que é que isto me pede?”.
Oração ao Tempo. Rezar o tempo é aprender a entregá-lo. É vivê-lo como lugar de encontro, não o desperdiçando com medo do futuro nem com a nostalgia do passado. Oração ao Tempo. Se tudo tem o seu tempo, então este agora, com as suas perguntas, limites e possibilidades, é também o tempo de Deus na nossa história. Procuremos uma reconciliação profunda com o tempo para podermos ver cada dia como uma epifania de Deus. A nossa vida está cheia deste tempo. Tratemos dele como quem cuida de um tesouro e vivámo-lo com gratidão e esperança. Cantemos este tempo, celebremos a experiência única e irrepetível da nossa temporalidade.
Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara
“Permanecei em mim e eu permanecerei em vós.” (do Evangelho segundo São João)
Permanecer. Uma palavra que traz tanta força e tanto mundo dentro. Uma palavra que quero que me acompanhe não só ao longo deste ano que agora começa, mas ao longo de uma vida que se vai edificando todos os dias.
Ao longo dos Evangelhos, esta é uma palavra que Jesus vai repetindo em momentos vários, reforçando a importância de permanecermos. De ficarmos até ao fim. De ficarmos por completo. De assim continuarmos através do tempo. Permanecer é uma forma de habitar a vida com verdade e por inteiro. Não se trata de ficar parado, mas sim de enraizar-se. Quem permanece, aprende a habitar o tempo, a acolher aquilo que chega e a deixar partir aquilo que já cumpriu a sua estação. Há uma mansidão profunda na arte de permanecer. Não é passividade; é confiança. É reconhecer que a luz também cresce na sombra, e que a fé, às vezes, se manifesta apenas como um fio muito ténue que, no entanto, nunca se rompe. Permanecer é deixar que Jesus seja o centro. É deixar que Ele nos habite de dentro para fora, com a paciência de quem sabe que o amor precisa de raízes para florescer.
E, aos poucos, quem permanece começa a ver de uma outra maneira. As tempestades deixam de ser o fim do caminho e passam a ser parte do itinerário. Os medos não desaparecem, mas perdem domínio. A fragilidade já não é motivo de vergonha, mas um lugar onde Deus se revela com delicadeza. Permanecer transforma-nos, não de repente, mas como a seiva que sobe, silenciosa, até à última folha.
Jesus propõe-nos que permaneçamos. Ao longo da sua vida, há pessoas que encarnam esse seu pedido de permanência nele. Maria permaneceu. Não porque entendia tudo, mas porque confiava. Permaneceu quando o anjo partiu e deixou no ar um silêncio cheio de mistério. Permaneceu quando teve de fugir para salvar o Filho, quando o viu crescer e escolher um caminho que a afastava, quando percebeu que Ele pertencia ao Pai antes de lhe pertencer a ela. E permaneceu também na dor mais funda, de pé junto à cruz, quando qualquer mãe teria desabado. Maria permanece e, nesse permanecer, torna-se espaço onde Deus pode acontecer.
Também João permaneceu. Talvez porque o amor o levava sempre mais perto, ou talvez porque sabia que é ao lado de quem sofre que se aprende o que significa fidelidade. Ele ficou quando tantos fugiram. Não porque soubesse explicar, mas porque o coração lhe dizia que o amor não abandona. João permaneceu aos pés da cruz e permaneceu também no silêncio do dia seguinte, quando tudo parecia perdido. É essa permanência silenciosa, feita de presença e não de respostas, que ainda hoje nos aponta um caminho: o de estar com o outro mesmo quando nada podemos resolver.
E depois as mulheres, essas discípulas discretas que acompanharam Jesus até onde os outros não ousaram ir. Foram elas que permaneceram no túmulo, na madrugada fria, sem certezas, apenas com o desejo de cuidar do corpo daquele a quem tanto tinham amado. Permaneceram quando já não havia promessa visível, quando tudo lhes apontava para o fim. E porque permaneceram, foram as primeiras a ver a luz da ressurreição. Às vezes, a fidelidade mais escondida é a que abre portas que pensávamos fechadas para sempre.
E há ainda Pedro, que nos consola com a sua permanência imperfeita. Prometeu ficar até ao fim e falhou. Quis ser forte e caiu. Mas mesmo na queda, continuou a amar Jesus. Voltou, deixou-se olhar, deixou-se restaurar. A sua permanência foi a de quem não desiste de regressar. Talvez seja isto que nos salva tantas vezes: a humildade de começar de novo.
Quando olhamos para estas histórias, percebemos que permanecer não é um ideal inalcançável. É antes um modo de estar que atravessa as nossas sombras e não se deixa paralisar por elas. E hoje, quando Jesus continua a pedir que permaneçamos, não nos pede algo diferente do que pediu àqueles que O seguiram primeiro. Pede-nos que permaneçamos na fé, mesmo quando Deus parece distante; no amor, mesmo quando amar custa; na esperança, mesmo quando a noite se arrasta; na comunidade, mesmo quando a fragilidade humana nos desanima; n’Ele, sobretudo, porque é d’Ele que vem a força para tudo o resto.
Na vida de Jesus, vemos como Ele próprio permanece com os seus. Não escolheu um grupo ideal, mas um grupo real: homens e mulheres com limites, medos, rivalidades, dúvidas. Ainda assim, Jesus não desiste. Permanece. Corrige com paciência, ensina com gestos, perdoa sem humilhar, lava os pés a todos. E é nesse permanecer fiel que nasce a Igreja e que nascemos nós também.
Quando Jesus diz “permanecei em Mim”, diz também “permanecei uns nos outros”. A comunhão com Ele não se vive à margem da comunhão fraterna. Permanecer em Igreja é deixar-se viver numa história maior do que nós, aceitar ritmos diferentes, suportar fragilidades, aprender a escutar. É compreender que a comunidade não existe para nos servir, mas para nos transformar. Permanecer em Igreja não é uma evidência, é uma escolha. Tal como os ramos não existem separados da videira, também o cristão não se constrói sozinho. Jesus fala de uma ligação viva, vital, onde a seiva passa, onde a vida circula. Fora dessa comunhão, tudo seca. Permanecer é aceitar que a fé precisa de corpo, de rosto, de relações concretas. Precisa de comunidade.
Num tempo marcado pela rapidez, pelo individualismo e pela facilidade de desistir, permanecer torna-se um testemunho profético. Permanecer em Igreja é dizer ao mundo que a comunhão vale a pena. É escolher ficar, cuidar, servir, crescer juntos. Permanecer é deixar que Cristo faça morada em nós e que, através de nós, continue a fazer morada na Igreja e nos grupos que a constituem. Porque só quem permanece ligado à videira pode dar fruto. E só quem permanece no amor aprende, lentamente, a amar como Ele amou. Que possamos, juntos, escolher a permanência e desejar ficar onde o coração sabe que é amado.
Mensagem da Comunidade Estrada Clara no Natal de 2025
Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara
“Ele será chamado Emanuel, que quer dizer: Deus connosco.” Do Evangelho de São Mateus
É nesta promessa simples e profunda que pousamos o coração neste Natal. E com o coração sentimos que nos é oferecido o maior dos presentes – um Deus que escolheu ser um de nós. Um Deus que entra no tempo, na matéria, na fragilidade da nossa história concreta e quer vivê-la em Humanidade. Um Deus que nasce criança para crescer connosco. Um Deus que nasce não como promessa distante, mas como presença quotidiana.
Neste Natal, somos convidados a descansar nesta certeza maior: a de que não somos sós. A Vida habita-nos, acompanha-nos, sustém-nos. Deus connosco significa que nada do que vivemos é indiferente. Cada alegria, cada dúvida, cada cansaço, cada descoberta encontra um espaço único nesse Amor que permanece.
Que este tempo de Natal nos ajude a confiar mais profundamente. A permitir que a nossa humanidade seja lugar de encontro e não de fuga. A reconhecer que o caminho se faz com tudo o que somos, quando vivido na presença de um Deus que quer ser connosco. Um Deus que escolhe esse lugar imperfeito, esse espaço real onde a vida acontece sem ensaio, para ficar connosco.
Que cada coração se torne presépio. Que cada gesto simples revele este Emanuel que nasce. Deus continua a fazer-Se connosco. Caminhemos juntos e com Ele, sempre!
Um muito feliz Natal para todos vós que connosco caminhais nesta nossa Estrada Clara! Um abraço sempre amigo e natalício!
A Comunidade Estrada Clara teve a imensa alegria de participar no Dia Arquidiocesano do Catequista, realizado no dia 1 de dezembro e promovido pelo Departamento de Catequese da Arquidiocese de Braga. Marcámos presença como expositores, apresentando o nosso projeto de Formação Cristã para Adultos, um itinerário pensado para apoiar cada pessoa no aprofundamento da fé, no crescimento humano e espiritual, e na vivência consciente da sua missão na Igreja e no mundo.
Desde o primeiro momento, fomos acolhidos com um espírito de fraternidade que refletiu o cuidado e o empenho da organização. A equipa responsável preparou um evento exemplar, onde cada detalhe revelou uma clara preocupação pastoral e um profundo respeito pelo trabalho dos catequistas. A clareza da programação, a qualidade dos espaços, a colaboração entre serviços e a atenção às necessidades dos participantes contribuíram para criar um ambiente harmonioso, inspirador e verdadeiramente sinodal.
Ao longo do dia, pudemos partilhar a visão que inspira o nosso percurso de formação com aqueles que, movidos pela curiosidade e pelo desejo, se aproximaram de nós para conhecerem este acompanhamento estruturado na nossa paróquia.
Em jeito de balanço, podemos afirmar que saímos motivadas pela qualidade pastoral do evento, pela proximidade estabelecida com tantas pessoas comprometidas com a evangelização e pela dedicação incansável dos organizadores, especialmente na pessoa da Fátima Castro, que soube criar, de forma magnífica, um espaço de comunhão, partilha e crescimento espiritual. Obrigada pelo convite tão generoso e uma nossa gratidão imensa pelo Evangelho vivo que a Fátima tão bem sabe ser! Obrigada também ao nosso pároco, padre Avelino Castro, por, uma vez mais, caminhar connosco nesta nossa Estrada, trazendo a sua criatividade e arte! Acreditamos que, todos juntos, podemos continuar a construir caminhos de formação que promovam uma Igreja mais viva, mais enraizada e mais capaz de testemunhar o Evangelho com autenticidade.
Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara
“Surgiu entre nós um grande profeta e Deus visitou o seu povo.” (do Evangelho segundo São Lucas)
Para a Beatriz, a Diana, a Patrícia e a Sofia com quem vivi, em irmandade, os Exercícios Espirituais que hoje terminam.
A cena de Naim parte de uma dimensão profundamente humana: uma mãe viúva que perde o filho, uma multidão que acompanha este abismo de dor e um silêncio pesado que parece decretar um fim irreversível. Mas nesta passagem do Evangelho de Lucas, o inesperado também acontece: uma vida irrompe onde já não havia esperança. O povo, maravilhado, exclama: “Deus visitou o seu povo.” Não é apenas um constatar; é um despertar. É o perceber que Deus não permanece distante, mas se inclina, se aproxima, abre caminho no meio daquilo que parecia impossível.
Vivemos por estes dias o início do tempo do Advento que nos convida precisamente a acordar para a presença de Deus que se faz próxima, concreta, humana. Não é uma visita ruidosa, mas uma presença paciente, quase tímida até. É uma visita que transforma a forma como olhamos o mundo: cada gesto torna-se sinal, cada encontro ganha valor, cada silêncio pode ser o lugar onde a esperança respira. Deus nunca se impõe. É uma presença subtil, discreta, mas, ao mesmo tempo, sempre pronta para “entrar em ação.” E sou eu quem escolhe acolher ou não esta presença. Sou eu quem O deixa ou não me visitar. Sou eu quem lhe abre ou não a porta do meu coração e da minha vida. Por isso, é preciso que eu me disponha a este acolhimento, a deixar-me ser visitada.
Deus visita o seu povo quando a luz vence a escuridão da noite. Visita-nos quando descobrimos a coragem heroica dos reinícios. Quando acolhemos a fragilidade do outro (e a nossa!) com ternura. Quando percebemos que o nosso coração, mesmo ferido, ainda tem espaço para acreditar. Deus continua a visitar-nos de inúmeras formas. Ele conhece-nos e sabe aquilo de que precisamos. Ele vem até nós no amor e na dor. Vem através de uma leitura, de um abraço, de uma história de vida, de um nascimento ou até de uma morte, de uma música ou de uma dúvida que persiste em ficar. Um Deus sempre novo vem visitar-nos. Um Deus que nos quer cuidar e dar uma nova perspetiva de vida, tão diferente daquela que o mundo nos quer impor. Deus aproxima-se dos nossos lugares esquecidos para os tocar com a possibilidade de recomeçar. Neste Advento, talvez possamos pedir o dom de reconhecer estas visitas discretas. Não para as controlar, mas para nos deixarmos surpreender. Este tempo propício lembra-nos que Deus não chega com a força de quem impõe, mas com a humildade de quem se dá. Vem como criança, não como rei triunfante. A sua primeira visita acontece no estábulo, não no palácio. Acontece no quotidiano, não no extraordinário. Talvez este seja o grande desafio espiritual deste tempo: aprender a reconhecer Deus no que parece pequeno e insignificante demais para O conter.
O povo de Naim não esperava aquele milagre. A morte parecia ter dito a última palavra. E, no entanto, é exatamente aí que a visita de Deus se revela: não nas zonas iluminadas da vida, mas no vale mais escuro dos nossos enredos. Ele chega onde dói, não para nos forçar a esquecer, mas para transformar a nossa forma de existir. Não são as situações que eu vivo que definem quem é este Deus. O que me acontece são possibilidades da visita deste Deus em mim. São oportunidades de presença e de atuação de Deus. As perguntas que Ele nos coloca são sempre estas: “Deixas-me entrar? Posso fazer parte da tua história?”. E quando tudo está bem, gostamos muito de O receber, de preparar a festa, de organizar a visita. Vestimos a nossa melhor roupa, embelezamos a casa e arranjamos o espaço perfeito. Mas o grande desafio é deixar que este Deus também possa entrar em nós nos momentos difíceis, quando só queremos estar quietos e mudos, quando temos o caos instalado, quando tudo está desorganizado. A maior das graças reside precisamente aqui, deixar que Deus nos visite nas nossas amarguras, nas revoltas, nas dúvidas.
A visita de Deus no Advento não é uma ideia poética ou mágica. É um movimento concreto que toca tudo aquilo que em nós parecia ter morrido: o entusiasmo que se apagou, o amor que se gastou, a confiança que se perdeu, aquela parte de nós que fechámos por cansaço ou desilusão. O Advento pede-nos um despertar. Não o de quem corre na agitação dos dias, mas o de quem se torna atento. O coração começa a pressentir que a vida não é só aquilo que vemos. Há uma presença que se insinua, uma promessa que se avizinha, um infinito que se desenha. Quando deixamos que Deus visite o nosso coração, mesmo nas suas rotinas, cansaços e fragilidades, começamos a ver a vida com uma luz diferente. Cada pequeno acontecimento torna-se um sacramento da sua presença divina. E, como o povo de Naim, também nós podemos dizer com todo o coração: “Deus visitou o seu povo.” E perceber, com gratidão e alegria, que esse povo somos nós.
A nossa vida é esta estrada visitada. O nosso Deus é o Deus da visitação que quer entrar na nossa história e viver connosco uma grande história de amor. A grande promessa do Advento é esta: a visita de Deus já começou e a nossa vida é o presépio onde Ele mais deseja nascer. Que este Advento seja um lugar habitado pela coragem de acolher o que chega e que o nosso coração possa ser o espaço onde a visita de Deus encontra para sempre morada.
Quantas alegrias deixamos que ocupem o nosso coração? Quantos caminhos nos conduzem a uma vida de gratidão? Durante esta semana que ontem terminou, estas questões foram a minha companhia. Há semanas que se medem em dias. E há outras que se medem em graças. Esta foi uma dessas — uma semana onde o tempo pareceu abrir-se em mil gestos de Deus.
Deus faz sempre realmente muito mais do que aquilo que nós esperamos. Nesta mesma semana, há cinco anos, o Jorge tinha acabado de partir e, consequentemente, outras perguntas invadiam-nos o coração e o corpo: “E agora? Como continuamos daqui para a frente? Como vamos viver todos os próximos anos sem ele? Quem nos vai orientar, ter ideias, entusiasmar? O que vamos fazer?”. Na altura e nos dias e meses seguintes, não encontrei respostas. Mas, sem saber o que aconteceria depois, fomos continuando este caminho. Sem mapas, mas sempre com confiança. E assim as respostas foram chegando ao longo dos tempos que se seguiram. Em forma de um momento de oração comunitário que se iniciou, de um renovado projeto de formação cristã de adultos, de ensaios que se consolidaram, de um retorno às animações das Eucaristias, de novos caminhos e caminhantes que têm surgido nesta nossa Estrada… E essas respostas também nos chegam através dos aniversários que continuamos a celebrar, da vida de cada um que persistimos em agradecer, dos abraços multiplicados e dos risos dobrados em fé e irmandade. Chegam também em novas formas de missão na nossa comunidade e que são oportunidades felizes e fecundas de vivermos ainda mais este nosso compromisso de uma vida toda para toda a vida em Igreja.
“Todos somos precisos porque todos somos preciosos.” Esta belíssima frase foi dita hoje pelo nosso querido amigo e pároco e veio fechar, com chave de ouro, esta semana tão rica que nos foi dada viver. As fotografias que aqui partilhamos são o espelho desta vida que nos acontece. E mostram a certeza que, afinal, numa só semana pode caber o Céu inteiro e que esta vida tão rica em projetos e missão comunitária é aquela que é vivida sempre na dádiva e no encontro, connosco, com os outros e com o Outro.
Há quatro anos, vimos nascer um sonho que já vivia no nosso coração há muito tempo — um momento de oração comunitária a que demos o nome de “Encontro em TI”, título este de um dos nossos cânticos mais bonitos. Esta ideia, que durante anos foi também sonhada e rezada pelo Jorge, encontrou finalmente forma precisamente um ano depois da sua morte. E, talvez por isso, este encontro tenha sempre consigo um significado tão profundo desde a sua origem: nasceu do amor, da fé e da vontade em continuar a fazer caminho.
O “Encontro em Ti” surgiu como resposta a um desejo antigo de criar um espaço de oração comunitária, diferente, único, próximo e autêntico — um tempo e um espaço em comum onde a fé se pudesse viver em simplicidade e verdade. Não se tratava apenas de reunir pessoas, mas de proporcionar um encontro vivo com Deus, onde cada um pudesse sentir-se acolhido e amado, independentemente do seu caminho.
Desde o primeiro momento, o “Encontro em Ti” tem mostrado a sua originalidade e força interior. A música, a oração partilhada, o silêncio que fala ao coração, os gestos simbólicos e as palavras simples — tudo isto foi ganhando corpo e alma, tornando-se num verdadeiro ponto de luz na caminhada da Comunidade Estrada Clara.
Hoje, celebrar quatro anos deste “Encontro em Ti” é muito mais do que assinalar uma data. É reconhecer a fidelidade de Deus, que transforma tudo em vida nova e a vontade em missão. É agradecer por todos os que disseram “sim”, por quem acredita connosco, por quem reza e trabalha para que cada encontro seja sinal do amor de Deus em nós.
“Encontro em Ti” é um testemunho de que Deus faz nascer vida onde parecia haver silêncio, e que os sonhos nascidos no coração — mesmo quando parecem adormecidos — florescem no tempo certo. Que este encontro continue a ser um espaço de comunhão e de presença na nossa comunidade.
“Todos esses deram do que lhes sobrava, mas ela, da sua pobreza, deu tudo o que possuía para viver.” (do Evangelho segundo São Lucas)
Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara
Esta fotografia foi tirada ontem na celebração do V aniversário do falecimento do Jorge. Olho para nós e vejo futuro, vida e caminho. Cinco anos depois, continuamos a viver a nossa Ressurreição aqui na terra. Continuamos nesta festa eterna e a descobrir novas alegrias uns nos outros e uns com os outros. Continuamos a escolher sermos dádiva e a deixar que a gratidão seja sempre maior que qualquer tristeza ou desesperança.
Há momentos em que a vida se torna canção. Uma canção que nasce do amor e do tempo, da partilha e da fidelidade. Connosco estes momentos acontecem quando nos juntamos para rezar a cantar, em particular nas eucaristias em que cantamos. Ali, entre notas, alguns risos e silêncios, vivemos algo mais do que música: vivemos a oferenda. E o amor a fazer-se som coletivo. Ali, damos o que somos e deixamo-nos cantar uns com os outros, oferecendo a vida como quem oferece uma melodia — sabendo que não somos os únicos a compô-la. E assim fazemos da nossa existência um coro, uma oração que se oferece. Um encontro que faz da música oração, um diálogo de amor que se transforma em comunhão. Um ofertório.
Há um altar que se levanta dentro de cada um de nós. Não é de pedra, nem de ouro — mas de tempo, de silêncio e de desejo. E é aí, nesse espaço escondido e frágil, que se realiza o verdadeiro ofertório da vida. Cada vida tem o seu altar e cada gesto pode ser uma oferenda. Não são precisos grandes feitos, só um coração inteiro e disponível para se dar. Cada dia pode ser uma liturgia. Cada gesto, um altar. O sorriso que se oferece a quem já perdeu a esperança, a palavra que se cala para que o outro fale, o perdão que rasga o véu do orgulho, o tempo que demos a alguém — tudo isso é pão e vinho do coração, matéria sagrada que Deus acolhe e transforma.
Há muitos altares no nosso quotidiano: a cozinha onde se prepara uma refeição com cuidado, o quarto onde se vela uma noite de doença, a sala onde se escuta alguém sem pressa, o local de trabalho onde se procura ser justo e honesto. Em todos esses lugares, o Espírito celebra discretamente a sua liturgia. Por isso, ofertório não é apenas o momento em que o pão e o vinho são levados ao altar — é o movimento escondido de toda a vida que se oferece. É quando o coração, cansado ou confiante, se volta para Deus e diz: “Tudo o que tenho e tudo o que sou, é Teu.”
Ofertar é um exercício diário de confiança. É acreditar que, mesmo quando o que damos parece insignificante, Deus transforma-o e o multiplica-o. É viver com o coração aberto, sabendo que o amor nunca se perde, que a entrega nunca é em vão. O ofertório é o lugar onde deixamos de ser donos e nos tornamos filhos. Onde deixamos de controlar e aprendemos a confiar. Onde o nosso fazer se encontra com o fazer de Deus. O menino dos cinco pães e dois peixes não sabia que o seu pequeno gesto seria milagre. Ofereceu o pouco que tinha e Jesus multiplicou-o. Assim acontece connosco: o ofertório é o lugar onde o impossível se torna fecundo.
Por isso, o ofertório não é um ato isolado, mas uma forma de viver. É dar graças em cada manhã, é oferecer o trabalho como oração, é consolar como quem partilha o próprio coração, é carregar a cruz sem perder a esperança da ressurreição. E quando, no fim do dia, recolhermos o que resta — as alegrias, as falhas, os gestos pequenos —podemos voltar a dizer, como Maria: “Faça-se em mim segundo a Tua palavra.” Porque a vida cristã é, toda ela, um grande ofertório. E quem se oferece, deixa Deus fazer de si milagre.
O ofertório não é só dar, é também deixar-se dar. É permitir que a nossa vida se torne um dom, mesmo nas suas fragilidades. Porque o que é oferecido com amor nunca se perde. No fundo, é aí que se encontra o propósito: no gesto simples que se entrega, no sim repetido todos os dias, na alegria de saber que, quando nos damos, é o próprio Deus que passa por nós.
Jesus mostrou-nos o caminho: Ele que Se fez oferta total, corpo entregue e sangue derramado, ensinou-nos que o amor só é verdadeiro quando se faz entrega. A sua vida oferecida é a medida de todo o amor verdadeiro. E cada vez que participamos na Eucaristia, somos chamados a fazer o mesmo: a deixar que a nossa vida se transforme em dom, a permitir que o que somos se torne presença de Deus no mundo. E, como no final de cada Eucaristia, o amor que se dá não termina no cântico final – prolonga-se nos corações que o escutam. Assim também a vida: quando é vivida como oferenda, torna-se melodia que Deus reconhece como Sua. Porque o Amor, quando é oferecido, tem sempre um eco divino. O cristão é aquele que vive neste ofertório constante: entre o que recebe e dá, entre o dom e a resposta.
Voltemos à canção. Deus faz das nossas vidas uma partitura e convida-nos a tocá-la com o que somos. Cada um com o seu ritmo único, o seu instrumento pessoal. E o mais extraordinário é que, mesmo quando nos enganamos na nota, Ele continua a compor connosco, pacientemente, até que o nosso som se torne oração. E talvez aqui esteja a beleza da nossa criação: perceber que o ofertório é aquela nossa canção que não tem fim. Cada dia acrescenta um verso, cada pessoa um novo timbre. E Deus, silencioso maestro, recolhe tudo – o riso e o pranto, a alegria e a dor – e faz dele a sinfonia que somos. Que a possamos escutar com o coração que somos, sempre.
“Mas primeiro tive de entender como pode o sol brilhar com este despudor amarelo sobre um mundo em que tu já não estás.” (Inês Pedrosa in Fazes-me falta)
Cinco anos. ✨
Hoje celebramos e agradecemos a vida toda, plena e inteira, do Jorge no meio de nós. Num exercício constante de ressurreição. Numa decisão permanente de continuarmos. Numa resolução constante de fazer as pazes com o que dói.
Sobreviver à morte de quem amamos não implica apenas resistir: impõe transformação. É deixar a ferida abrir espaço para a flor que teima em crescer entre as pedras. Viver depois de se experimentar esta dor não significa ficar à deriva: significa sim aprender a remar e seguir viagem. É decidir viver com um novo tipo de presença. Mais profunda, mais silenciosa. A presença da ausência do Jorge no meio de nós é um sinal de que a sua vida continua na nossa. E esta saudade, sendo partilhada, custa menos.
Há coisas que só quem ama entende: a ausência torna-se presença e aquilo que é o fim pode, afinal, ser o princípio de outra coisa maior que nós. Hoje há novos projetos, novos sonhos, novas mãos a construir o que começou com ele. E o Jorge continua vivo em tudo o que é luz, em cada gargalhada, em cada cântico, em cada passo que continuamos a dar em comunidade.
Jorge. O inventor de futuros. O que ria antes de reclamar, o que rezava antes de escolher, o que confiava no que estava por vir. E é nestas memórias que encontro a eternidade: no riso que fica, na bondade que deu fruto, na fé elevada.
Gosto muito de pensar que o Jorge já percebeu todos os mistérios que nós ainda tentamos decifrar. E que se ri de nós, lá do alto, com aquele ar de quem soube e sabe sempre mais do que devia. Um dia, nesse lugar onde o tempo não conta e o amor não tem pressa, voltar-nos-emos a ver. Para escrever as letras que faltam para as músicas que fizeste. Para pensar em novos temas para o retiro em Soutelo ou para o encontro em Caminha. Para ir comprar terra para os teus vasos ou os ingredientes para o bolo de cenoura. Para pegar no carro e ir até Paray ou Taizé. Para cantar as músicas da Betânia. Para ir “esplanar”. Para ler Virgílio Ferreira.
Cinco anos. E uma vida toda para toda a vida. Sempre.