Dia da Mãe 2024

Amélia. Deolinda. Dulce. Ermelinda. Fernanda. Margarida. Maria de Lurdes. Melinha. Odete. Paula. Rosa

Os nomes das nossas mães. Os nomes que só de lembrá-los ou dizê-los nos trazem o mundo inteiro de quem somos.

Hoje é Dia da Mãe, aquela que foi, desde o nosso início, a nossa primeira casa, o nosso primeiro abrigo, a nossa primeira fortaleza de amor.

Hoje é dia de agradecer a vida das nossas mães nas nossas vidas. As suas escolhas e as suas dúvidas. As suas alegrias e as suas dores. Os seus abraços e as suas exigências. As suas entregas e as suas dificuldades.

Hoje é dia de celebrar a nossa história de amor vivida com as nossas mães em cada dia que nos foi e que nos continua a ser dado para sempre, mesmo quando a separação física se impõe. Somos quem somos porque as nossas mães construíram os nossos alicerces, cuidaram das nossas raízes, fazendo sempre o melhor que os seus corações lhes diziam para fazer por nós, tendo como único guião o do amor imenso por nós. Sempre.

Neste mês de maio, a Igreja lembra diariamente a figura de Maria. Uma mãe como tantas outras mães. Com dúvidas cobertas de amor. Com medos vencidos pela coragem. Com sofrimentos apaziguados com confiança. A maior lição que as mães e os filhos podem aprender de Maria é a do amor que acontece apesar de tudo o que acontece e quando tudo acontece.

Mãe. A palavra maior que canta amor. A palavra que anuncia beijos e abraços apertadinhos. A palavra que faz bater com intensidade o amor que trazemos no coração. A palavra que é um hino ao infinito.

Feliz Dia da Mãe a todos os que são filhos e mães, porque este dia só pode existir porque existe a maior de todas as relações – a do Amor!

Mês de Maria 2024

Hoje iniciamos o mês mariano por excelência. O mês dedicado a Maria que, com o seu Sim, modificou o rumo da História e fez história nas nossas histórias pessoais e coletivas. É um mês em que nos dispomos a estar mais atentos à figura de Maria, mais em sintonia com os seus movimentos, mais perto de uma vida que soube dar vida às nossas vidas.

Na nossa paróquia, este mês de Maio é vivido de forma sempre especial. Hoje à noite teremos a procissão de velas, uma caminhada orante iluminada pela luz que trazemos em nós e que queremos oferecer a quem connosco caminha. Durante o mês de Maio, ainda influenciados pela Senhora da Visitação das JMJ de Lisboa, iremos, em comunidade e na comunidade, percorrer as igrejas que fazem parte da nossa paróquia e aí os diversos grupos farão, todas as noites da semana, a sua oração mariana.

Assim, a Comunidade Estrada Clara celebra este mês de Maria na sua paróquia, desta vez na Igreja de Nossa Senhora das Dores. Com cânticos, meditações, silêncio e recitação do terço dedicaremos o nosso tempo a acolher este Sim de Maria. Seguem os horários das celebrações marianas orientadas pela Comunidade Estrada Clara:

– 2 de maio (5.ª feira), às 21h30, na Igreja de Nossa Senhora das Dores

– 9 de maio (5.ª feira), às 21h30, na Igreja de Nossa Senhora das Dores

*𝐄𝐬𝐭𝐚 𝐛𝐞𝐥í𝐬𝐬𝐢𝐦𝐚 𝐩𝐢𝐧𝐭𝐮𝐫𝐚 𝐪𝐮𝐞 𝐚𝐜𝐨𝐦𝐩𝐚𝐧𝐡𝐚 𝐞𝐬𝐭𝐞 𝐭𝐞𝐱𝐭𝐨 é 𝐨𝐛𝐫𝐚 𝐝𝐚 𝐁𝐞𝐚𝐭𝐫𝐢𝐳, 𝐪𝐮𝐞 𝐚𝐭𝐫𝐚𝐯é𝐬 𝐝𝐨𝐬 𝐩𝐢𝐧𝐜é𝐢𝐬, 𝐝𝐚𝐬 𝐜𝐨𝐫𝐞𝐬 𝐞 𝐝𝐚 𝐬𝐮𝐚 𝐬𝐞𝐧𝐬𝐢𝐛𝐢𝐥𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐭𝐫𝐚𝐳-𝐧𝐨𝐬 𝐚 𝐛𝐞𝐥𝐞𝐳𝐚 𝐝𝐚 𝐚𝐫𝐭𝐞 𝐭ã𝐨 𝐧𝐞𝐜𝐞𝐬𝐬á𝐫𝐢𝐚 𝐞 𝐮𝐫𝐠𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐧𝐨𝐬 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐨𝐬 𝐝𝐢𝐚𝐬.*

Senhor, eu vi e acreditei!

Mensagem para a Páscoa 2024

“Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro:¬ viu e acreditou.” (do Evangelho de São João)

𝗦𝗲𝗻𝗵𝗼𝗿, 𝗲𝘂 𝘃𝗶 𝗲 𝗮𝗰𝗿𝗲𝗱𝗶𝘁𝗲𝗶!

As ruas enchem-se de festa. Todos partilham sorrisos, estendem-se as mãos e os olhares são de esperança. Senhor, eu vi e acreditei!

A tristeza cobriu-se de alegria, o desespero deu lugar à certeza, o fim é o início. Senhor, eu vi e acreditei!

A vida multiplica-se em gestos, os abraços são lugares de acolhimento permanente, a nossa história completa-se na irmandade. Senhor, eu vi e acreditei!

A morte deu lugar à vida, os caminhos encontraram-se, foram cantados os mais belos hinos. Senhor, eu vi e acreditei!

A história fez história, a cruz tem os teus braços sempre abertos para nós, as tuas palavras guiam-nos e libertam-nos dos medos passados. Senhor, eu vi e acreditei!

As quedas deram-nos a oportunidade de nos reerguermos, as feridas curaram-se com o Amor, sempre e só o Amor. Senhor, eu vi e acreditei!

As perguntas transformam-se em respostas, a dor fica coberta com outro significado, o aleluia é a palavra-chave que nos abre todas as portas. Senhor, eu vi e acreditei!

O silêncio preparou a alegria, o choro antecipou os risos, a noite trouxe a luz que precisamos para compreender e sentir a tua presença em nós. Senhor, eu vi e acreditei!

Hoje é Páscoa. Não é uma mera data num calendário, um feriado onde não se trabalha. Hoje é Páscoa. Ele está vivo! E nós estamos vivos porque Ele está vivo! Senhor, eu vi e acreditei. És tu! Foste sempre tu! Que a minha vida seja sempre reflexo da tua morte e ressurreição, das tuas quedas mas sempre da tua vitória sobre a morte!
Senhor, eu vi e acreditei!

Uma Feliz e Luminosa Páscoa para todos vós neste caminho sempre pascal em que, juntos, fazemos e somos comunidade!

Ana

Ele vem!

“Bendito o que vem em nome do Senhor!” (do Evangelho de São Mateus)

Uma reflexão para o Domingo de Ramos

Ele vem! E nós, alegres e cheios de sol, deixamos que Ele entre. Abrimos as janelas da alma, escondemos as tristezas, vestimos as roupas mais bonitas, damos os nossos melhores sorrisos.

Ele vem! Trazemos risos, batemos palmas e levantamos os braços. Vamos juntos, caminhamos com a velocidade que o coração nos pede e com a certeza que Ele nos dá de que estarmos no lugar que nos espera.

Ele vem! Ouvem-se vozes cheias de alegria, estendem-se os braços que embalam confiança. Nada nos perturba, nada nos incomoda, nada nos esmorece.

Ele vem! Temos os nossos corações preparados para este Amor, para esta entrega, para esta Luz. Nada mais importa a não ser a agitação de quem se prepara para fazer uma grande festa!

Ele vem! E a história d’Ele podia ter terminado aqui. Com aclamações e juras de amor. Com festa e muitas palmas. Com abraços e promessas.

Mas Ele quis que fosse de outra forma, para mostrar que o caminho teria de ser outro, que os desafios e os obstáculos existem para serem abraçados. E que a vida d’Ele em tudo se assemelha à nossa. Com quedas e levantamentos, com alegria e apatias, com gargalhadas e nós na garganta.

Por isso, Ele atravessa esta Semana Maior. E muitos dos que O seguiram, já não fizeram o resto do caminho com Ele. Não era bem este Rei que desejavam… Mas nós, hoje, temos sempre a outra opção. A de ir. Com Ele. De seguirmos por esta Semana com Ele. Então, o que esperamos? Vamos!

Ana

📷 @tulippainter ✨️✨️✨️

Dia do Pai 2024

António. António Manuel. Arnaldo. Augusto. Carlos. Domingos. Isidro. Joaquim. Luís. Porfírio.

Os nomes dos nossos pais. Nomes carregados de histórias, de vidas, de risos e de lágrimas, de férias e de trabalho, de certezas e de perguntas, de abraços e partidas, de tempo e de espaço. Somos o que somos porque estes são os nossos pais. No dia do nosso nascimento não fomos só nós que nascemos. Nesse dia, os nossos pais nasceram connosco, com cada filho. Por isso, a nossa base está nestes homens. Fizeram por nós o melhor que sabiam num tempo em que muito pouco sabiam. O resto será sempre da nossa responsabilidade, daquilo que escolhemos fazer com o que nos foi dado. A vida vai se encarregando de nos dar a possibilidade de amarmos cada vez mais os nossos pais, de os olharmos com carinho e compreensão, de lhes sermos gratos, de perspetivarmos memórias guardadas.

Por isso, hoje é dia de celebrar e de agradecer. Aqueles que nos amaram primeiro mesmo antes de nos conhecerem. Aqueles que nos sonharam e que nos deram o primeiro colo. Aqueles que hoje podemos abraçar ou lembrar. Aqueles que são imortais nos nossos corações. Aqueles que nos deram o seu coração. Os nossos pais.

A Igreja lembra hoje também a figura paternal de São José, muitas vezes relegado para um plano mais secundário. José foi educador, sonhador, acolhedor. Numa sociedade patriarcal, foi chamado a amar a escolha de Maria, prova de amor irrefutável para com a sua mulher amada e o seu filho. José foi um desafiador de normas para que o bem se instalasse entre nós. Mesmo não compreendendo tudo, ele tudo fez para que os planos de Deus se concretizassem. Que possamos nós também olhar para este Pai e desejar atravessar com serenidade os desafios que a vida nos propõe.

Feliz Dia do Pai a todos os que são filhos e pais, porque este dia só pode existir porque existe a maior de todas as relações – a do Amor!

Ana

Vamos!

Reflexão para o mês de março de 2024

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

 “Se conhecesses o Amor de Deus, tu correrias até o encontrar.» (a partir do Evangelho segundo São João 4, 1-29)

“Se conhecesses o amor de Deus, tu correrias até o encontrar” cantamos no refrão de uma das músicas mais bonitas que o Jorge compôs. Nesta simples frase condicional está toda a condição de vida do Cristão, está toda a razão do movimento humano – o Amor. Mas não um amor qualquer, não um sentimento passageiro, não uma mera emocionalidade. O Amor de Deus é aquela força maior que ultrapassa todo o entendimento humano, que nos torna fortes nas nossas fragilidades, que nos faz capazes de ver o que é invisível. Por isso, ter a possibilidade de poder viver este Amor maior é o maior dos presentes que podemos receber. Ou como gostava de dizer o Jorge, é uma “riqueza”. Quando escolhemos viver cada dia nosso guiados por este Amor de Deus, a vida torna-se muito maior porque o nosso coração está mais disponível para acolher, para se doar, para compreender. E quando encontramos este Amor, não há outro querer a não ser o de corrermos para ir ao encontro de quem nos ama tal como somos.

Deus sonhou-nos para a felicidade. Há dentro de cada um de nós um grito de vida que nasce connosco e que é esta vontade de nos sentirmos plenos. E esta plenitude, buscada em tantos lugares, procurada em tantos espaços, só é vivível quando nos deixamos levar pelo amor de Deus, ou seja, quando escolhemos viver com a nossa vida a vida que Deus criou para nós. Uma vida que não está isenta de sofrimento, mas que é acompanhada amorosamente nesse sofrimento. Uma vida que nem sempre é aquilo que nós esperávamos que fosse, mas que se enche da presença divina nas novidades que vão surgindo.

“Se conhecesses o amor de Deus, tu correrias até o encontrar”. O verbo correr é, sem dúvida, uma das palavras ilustrativas da geração a que pertencemos. “Andas sempre a correr”, “Já vais embora a correr”, “Andei o dia todo a correr de um lado para o outro”, são alguns exemplares inseridos nos diálogos que atualmente vamos mantendo uns com os outros durante as nossas maratonas diárias. E, tantas vezes, nos acomodamos e até nos alegramos com estas correrias desenfreadas, que nos roubam tempo e espaço para podermos simplesmente ser… Os dias esmagam-nos, a agitação diária corrompe-nos, leva-nos tantas vezes a alma e, se não estivermos atentos e preparados, deixa-nos mesmo na lama. Vivemos como se tudo dependesse só de nós, como se tudo fosse sempre de possível controle, como se conseguíssemos eliminar todos os imprevistos da vida. Envaidecemo-nos com os dias cheios de compromissos e obrigações, onde tudo nos parece importante e insubstituível. Colocamos todo o nosso esforço e dedicação em tantas coisas efémeras e passageiras. Adjetivamos as horas do dia como rentáveis e descartamos a quietude e o prazer que advém daquilo que é tão simples. No nosso íntimo, sabemos que há algo de errado nesta forma de viver e até desejamos mudar, mas nem sempre conseguimos. Há sempre motivos e razões válidas que nos mantêm nesta corrida. Investimos nos troféus errados, gastamo-nos em tarefas que se esgotam a si próprias e passamos a ser só um mero instrumento de trabalho sujeito à erosão dos dias. E as vidas enchem-se de frustração, de expectativas não superadas, de desilusões dolorosas.

É então precisa coragem para sabermos dizer não a esta lógica mercantil que domina a vida humana. É precisa assertividade para não nos deixarmos deslumbrar pela vaidade de sermos reconhecidos. É precisa determinação para não nos transformarmos em números e percentagens. É preciso ser diferente para não nos deixarmos paralisar pelas exigências mundanas. É preciso querer seguir uma vida simples sem desistir quando chega o primeiro obstáculo. A perseverança não é um caminho de facilidade, mas leva-nos à essencialidade daquilo para o qual fomos chamados. Há que viver com atrevimento e ousadia numa sociedade que nos quer impor um pensamento exclusivamente racional e, por isso, limitador.

Há um imperativo da aceleração que devemos combater. Devemos parar. Para pensar. Para refletir. Para nos encontrarmos. Para nos questionarmos. Para onde corremos nós? O que nos move? O que nos motiva a fazer caminho? O que preenche o meu coração? O que levo nas minhas mãos? O que me faz dizer sim? O que dou de mim à vida que me foi dada? Corro para quem? Onde e a quem entrego o meu coração?

 “Abdica e serás rei” é um dos versos mais iluminados de Ricardo Reis. Foi precisamente esta a escolha de Jesus e a dos muitos homens e mulheres de boa vontade que lhe seguiram. Abdicar não implica perder. Abdicar não é ficar com o prémio de consolação. Abdicar é sinónimo de dar oportunidade a que a minha vida e a pessoa que eu sou ganhem mais espaço para ser. Abdicar do que é negativo, do que me aprisiona, do que me faz sucumbir às minhas fragilidades, do que me afasta da minha verdade. Abdicar do ter tudo para poder ser tudo. Abdicar das máscaras que me escondem para abraçar a verdade do que sou. Aquilo que vou sendo depende muito mais daquilo que abdico do que daquilo que conquisto.

O Cristianismo é altamente desafiador porque quem quer viver no concreto a ideologia cristã tem de aceitar viver num mundo às avessas. O Cristão é aquele que dá sem troca, que ama contra o ódio, que acolhe o que é desprezado. O Cristão é aquele que assume a lógica da salvação gratuita num mundo em que tudo é comercializado e comercializável.

Por isso, o Cristianismo salva-nos na medida em que a mensagem cristã nos garante que podemos ser apenas quem somos, sem necessidade de títulos ou papéis, carreiras ou prémios. Aos olhos de Deus, somos únicos e irrepetíveis e o que verdadeiramente importa (e efetivamente salva!) é aquilo que trazemos no nosso coração e o que fazemos pelo bem comum. Por meio de seu filho, Deus deixa-nos a maior das promessas: ele estará sempre connosco até ao fim do nosso tempo. É esta promessa que nos salva e nos leva a viver cada dia ancorados na confiança e na persistência deste amor.

Gosto muito da fotografia que escolhi para acompanhar este meu texto. Nela vejo a Clarinha e o Tomás – os meus amados sobrinhos do coração – quando eram mais pequeninos. Não lhes vejo as expressões, mas adivinho-lhes a alegria gigante e a felicidade plena que sentem por poderem estar no meio da natureza. Sinto-lhes a liberdade de poderem ser quem são sem preconceitos nem medos paralisantes. Decifro-lhes o entusiasmo maior de seguirem caminho acompanhados na irmandade. Eles sabem para que(m) correm. Eles sabem bem porque correm. Correm com o coração pequenino mas cheio de uma vida grande. Correm pelo coração maior a transbordar de vontade de encontrar o Infinito. Corramos também junto com eles! Não nos detenhamos, não nos boicotemos. Não tenhamos medo de escolher o que realmente importa! Não tenhamos receio de nos darmos, de fazermos comunidade, de participarmos sem reservas no dom gratuito que é a maravilha de viver. Quem compreende o Amor de Deus, compreende que a vida quer viver, que é sempre mais forte, mais soberana. Que esta alegria tão pura e doce nos contagie e nos faça também correr, sempre com vontade e decisão, ao encontro da nossa Terra Prometida.

Quarenta Dias

Mensagem para a Quaresma 2024

Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

Quaresma. Quarenta dias.

Quarenta dias. De oportunidades, de recomeços, de mudanças. De decisões a serem tomadas a cada dia que nos é dado com a certeza única de que fazemos e somos sempre caminho.

Quarenta dias. Para me deixar cair no colo de Deus e para me permitir que o seu Amor me erga bem alto, bem naquele lugar onde os sonhos se cruzam com a realidade, onde a vida é sempre maior, onde o coração voa até ao infinito.

Quarenta dias. Para acolher medos e inseguranças e para transformá-los em força e ação, instrumentos de peregrinação para a Terra nossa Prometida.

Quarenta dias. Para perceber que o sofrimento e a dor caminham de mãos dadas com um Deus que só me quer bem e nunca me deixa sozinha.

Quarenta dias. Para preparar, com serenidade e alegria, aquela manhã gloriosa em que a Vida vence todas as minhas mortes e as feridas são saradas com compaixão e amor.

Quarenta dias. De silêncios e de ruídos que falam e silenciam tudo que se vê e só se compreende com um coração que escolheu amar à medida de Deus.

Quarenta dias. De luzes e de sombras, nessa mistura que a vida faz todos os dias e que me pede que seja um peregrino que observa, que contempla, que avança mas também recua.

Quarentas dias. De espera e de expectativa. De acolhimento a este Jesus que me transforma, me inquieta, me mostra que na loucura de uma entrega na cruz está toda a minha salvação.

Quarenta dias. De solidão e de deserto, esse espaço onde me recolho para escutar quem sou e onde preparo a minha escolha de viver mais o dom de cada dia.

Quarenta dias. Não para viver em penitência, mas para acolher o que também me faz sofrer. Não para viver o desespero, mas para seguir a via da esperança que também existe numa cruz. Não para me culpabilizar, mas para descobrir um novo entendimento do que significa falhar.

Quarentas dias que nos levam ao Dia Maior dos nossos dias, ao Dia da Vida prometida, luminosa e erguida. Quarenta dias que nada valem se não forem vividos com a certeza que há aquele Dia de Páscoa Eterna que espera por mim, por ti, por cada um de nós.

Estrada Quaresmal 2024

Percorram connosco a nossa Estrada Quaresmal deste ano, um tempo de oportunidade, de recomeços e de vida interior. A oração não mede a minha relação com Deus, mas é a minha relação com Deus. Que este tempo quaresmal seja propício para fazermos a descoberta desta relação única que cada um de nós tem com Deus através da meditação, da música e do silêncio.

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“Entra no teu quarto.
Entra dentro de ti, no teu coração.
Entra no teu quarto.

Toma consciência da tua vida, da qualidade da tua vida. Da qualidade espiritual, da qualidade de amor, da qualidade de generosidade, da qualidade ou não de misericórdia que tu vives.

Entra no teu quarto.
Escuta o teu coração e entra. Entra com esperança para olhares o Pai, para descobrires o Pai que te ama e que te estende a mão.

Entra no teu quarto e descobre, redescobre que Deus é teu Pai e que Deus é uma presença de amor. Ele assiste ao nosso parto, Ele assiste à reinvenção de nós mesmos, Ele assiste à transformação da nossa vida.

Celebrar o tempo da Quaresma é esperar a primavera que não está longe. Há a primavera que as árvores vão mostrando, mas há sobretudo uma primavera interior, um rejuvenescimento da alma, uma juventude de coração que cada um de nós pode ganhar.”

José Tolentino Mendonça

Laços de família

Reflexão para o mês de fevereiro de 2024

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

 “Todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (do Evangelho segundo São Mateus 12, 50)

A qualidade da fotografia que acompanha este texto é inversamente proporcional à alegria e ao amor que fizeram com que ela acontecesse. Onde muitos poderão ver uma imagem muito pouco cuidada para ser exposta em redes públicas, eu vejo uma memória feliz de um encontro com a família à qual tenho a graça imensa de poder chamar de minha. Por isso, este é um texto de profunda gratidão. Pela minha vida vivida no meio de uma irmandade luminosa, pelo Amor com que amo e sou amada, pela alegria de acreditar num Deus que torna possível cada dia com que me vai presenteando. Pelos momentos felizes que me fazem rir e cantar e pelos momentos dolorosos em que me descubro capaz de ser forte no meio das minhas tantas fragilidades e onde sei que nunca estou sozinha. Este é também um texto de agradecimento imenso. Por estar rodeada de uma comunidade que personifica a presença do meu Deus e me faz acreditar que é o Amor que nos impede de cair na indiferença e na futilidade. Este é ainda um texto de reconhecimento. Por poder usar as palavras para construir propostas de caminhos, por viver em confiança plena com quem vai comigo, por partilhar esta dimensão espiritual comunitária e vivê-la em comunhão.

Nesta fotografia que convosco partilho está uma parte da família de Deus. Sim, nós somos família. Em Deus e por Deus. Pertencemos uns aos outros e comprometemo-nos a ser quem somos uns com os outros. Todo aquele com quem compartilhamos o nosso crescimento faz família connosco. Uns há já muitos anos, outros mais recentemente, mas todos escolhemos fazermo-nos família. E vamos partilhando vida, acontecimentos, histórias, horários, eventos. Fazemo-nos presentes no presente de cada dia nosso. E assim vamos sendo o resultado de tudo o que cada um de nós é. Somos esta família porque Deus nos uniu e nos chamou a ser. E nós tivemos a graça feliz de podermos, em determinado momento das nossas vidas, estarmos disponíveis para perceber esse chamamento. Nas nossas escolhas feitas, fomo-nos pondo assim no caminho uns dos outros. Ao que uns chamam acasos ou coincidências da vida, nós chamamos sinais da presença de Deus. Um Deus que se fez presente num convite para um encontro de catequese, numa vontade de ir cantar para um coro, numa curiosidade em participar num grupo da paróquia, num desejo de prosseguir uma caminhada espiritual, num chamamento depois de participar numa Eucaristia. E assim nos fomos encontrando na nossa Estrada Clara.

Ser família de Deus é aceitar viver em encontro, encontro este que ultrapassa fórmulas, papéis, funções. Ser família de Deus é falar a linguagem da irmandade, da cumplicidade, da relação. Ser família de Deus é acreditar que somos abraçados, que somos escutados, que a nossa história importa, que a nossa vida é conhecida e amada, seja qual for a sua circunstância. Ser família de Deus é saber que Ele vem ao nosso encontro e nos procura. Ser família de Deus é colocar os talentos que recebemos ao serviço do(s) Outro(s) e vê-los a serem multiplicados e fecundos. Ser família de Deus é deixarmo-nos cuidar e sermos também cuidadores tantas vezes do corpo e muitas vezes da alma.

Nem sempre é fácil pertencer a uma família destas. É exigente, baseia-se numa mensagem que nem sempre é aceite e não nos protege das montanhas-russas da vida. Por vezes, aparecem as dúvidas, as tempestades, as incertezas. Mas também e muitas mais vezes aparecem a vontade de seguir viagem de mãos dadas, a alegria incalculável de uma gargalhada partilhada, o abraço reconfortante que sabe sempre a casa quente e acolhedora. O lugar onde Ele está. O lugar onde nós queremos estar. A relação com os outros também faz parte da descoberta que vamos fazendo de nós próprios, interpela-nos, questiona-nos, faz-nos agir na construção de quem somos.

“Todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe». Foi esta a resposta dada por Jesus à pergunta que Ele próprio lançou sobre quem seriam a sua mãe e os seus irmãos. A leitura desta passagem do Evangelho pode causar uma certa estranheza a quem a lê na diagonal ou desconhece o seu contexto. É óbvio que Jesus não nega os seus familiares, pois tal não seria concebível na cultura judaica na qual ele próprio se inseria. Também não pretende levantar nenhuma dúvida no que concerne às relações de consanguinidade de Jesus. O que esta passagem nos mostra é, na realidade, algo bem mais simples, mas simultaneamente grandioso. O que as palavras de Jesus revelam é a grande graça que o Cristianismo nos oferece de nos reconhecermos a todos como irmãos. De facto, não há Cristianismo sem irmandade, não há história da salvação sem comunidade. Quem se afirma cristão vive com um coração permanentemente alargado e com a disponibilidade para amar sempre ativada. Jesus nasceu para nós e com Ele nasceu também a nossa condição de irmãos seus. Esta é uma das grandes maravilhas que o Cristianismo nos oferece – a de podermos viver em irmandade, em relação, em comunidade com o(s) Outro(s).

Não há Cristianismo sem relação. Não há um Nós sem um Tu e Eu. Não há Igreja sem as pequenas comunidades que a constituem. Não há espiritualidade sem ação. O coração de um Cristão estende-se, alarga-se, amplia-se para viver com os que são seus irmãos na fé, numa partilha de amor, de dádiva, de entendimento. O Cristão é, por excelência, o peregrino do encontro, a personalização de um abraço que acolhe, a mão sempre estendida para ajudar.

Jesus faz-nos irmãos ao revelar-nos o quão amados nós somos pelos irmãos que Ele colocou nas nossas estradas. Somos irmãos na medida em que, todos os dias, somos aqueles que vão a caminho, em peregrinação, uns com os outros. Que possamos escolher, em cada dia, sermos Evangelhos vivos, sermos lugares de esperança e de acolhimentos, sermos Amor.

A vida toda

Dia da Vida Consagrada – 2 de fevereiro

“A vida toda para toda a vida” foi o que dissemos os três, uns aos outros, há vinte anos, num dia bonito de Verão. Comprometemo-nos a fazer de cada dia nosso um dia de aleluia, um dia de luz que ilumina, um dia do evangelho do encontro.

“A vida toda para toda a vida” foi e continua a ser o que nos faz seguir caminho nesta Estrada escolhida e onde tanta gente boa faz também caminho connosco.

“A vida toda para toda a vida” é o mantra das nossas escolhas, decisões e perguntas, dos muitos avanços e também recuos que nos edificam sempre em busca e em procura do que somos e seremos.

“A vida toda para toda a vida” é um hino à amizade comprometida, ao amor comunitário, ao sonho de um Deus que nos eleva sempre.

“A vida toda para toda a vida” foi e é um convite à ousadia, ao fazer novas tantas e tantas coisas, à partilha do que somado se multiplica.

“A vida toda para toda a vida” é e sempre será a minha viagem com o Jorge e a Beatriz, uma viagem iniciada nesta vida terrena e que já é sonhada naquele que será o nosso dia de Páscoa eterna.

“A vida toda para toda a vida” é o nosso compromisso maior de todos os nossos sonhos, é esta nossa irmandade simultaneamente tão simples e tão rica.

Hoje é dia de agradecer esta minha e nossa escolha em comunidade.

Hoje é dia de poder dizer com a minha vida esta vida bonita que Deus me ofereceu e que me faz tão feliz.

Hoje é dia num dia em que nele cabe todo o meu e nosso sim.

“A vida toda para toda a vida”. Feliz Dia dos Consagrados!

Ana