O Cristianismo precisa da imaginação

Artigo de José Tolentino Mendonça in E, a Revista do Expresso, de 13.11.2021

Uma das canções icónicas do século XX é ‘Imagine’, de John Lennon. Foi primeiramente publicada num álbum de 1971, já depois do fim da carreira dos Beatles. Creio que todos nos recordamos dos seus versos iniciais, escritos por Yoko Ono: “Imagine there’s no heaven/ It’s easy if you try”. Ora, refletindo sobre o número crescente daqueles que na Europa se declaram sem religião, o teólogo inglês Timothy Radcliffe escolhe partir dessa canção. E diz: sim, há que reconhecer que é mais fácil do que supúnhamos imaginar a superação ou a substituição práticas da gramática do religioso, considerado hoje antiquado como uma máquina de escrever. Ele narra, por exemplo, centenas de conversas com avós e pais embaraçados, que se culpabilizam por não conseguirem transmitir o sentimento religioso às novas gerações, para quem essa linguagem aparece frequentemente desativada, desprovida de significado. É como se o cristianismo pertencesse a outro mundo e a sua expressão acontecesse numa estranha língua desconhecida. E não nasceu ontem este fosso, que a modernidade tem vindo a acelerar, e que se esconde debaixo desse heterogéneo e complexo chapéu chamado “secularização”.

Radcliffe é um dos mais estimulantes pensadores cristãos da atualidade, professor em Oxford, já mestre geral da Ordem Dominicana, e acaba de ver traduzido em Portugal um texto seu imprescindível: “A Arte de Viver Em Deus. A Imaginação Cristã Para Elevar o Real” (Edições Paulinas, 2021). O título em português soa um bocado explicativo. O inglês vai direto ao assunto: “Alive in God. A Christian Imagination”. E é esse o estilo convincente de Radcliffe.

Uma das coisas em que insiste é que hoje muitos se distanciam do cristianismo, porque simplesmente o consideram de um aborrecimento total, divorciado da existência que conhecem, distante das questões que os habitam, com pouco a dizer sobre as lutas, esperanças e alegrias onde, em concreto, se movem. É como se o cristianismo contemporâneo falhasse aí, na capacidade de tocar a realidade das pessoas. Esta crise é, na verdade, uma crise da imaginação, porque é esta que nos permite entrar no mundo de alguém e compreendê-lo a partir de dentro. Por isso, o autor escreve que o maior obstáculo ao cristianismo não é o ateísmo secular, mas a pobreza simbólica, a perda de profundidade do olhar, o achatamento da realidade produzido pela banalidade que, entretanto, se globalizou. Mas há também um mea culpa que o cristianismo precisa de assumir, pois uma das suas tentações correntes é o escapismo providencialista, escusando-se ao confronto com a complexidade, o risco e a crueza da experiência que viver representa. Em vez dessa fuga, sugere Radcliffe, necessitamos de testemunhas “que nos abram, com honestidade, à complexidade da experiência humana, do enamoramento ou dos dilemas morais. Então, com olhos novos, perceberemos que é precisamente aí que podemos procurar Deus”.

A transmissão do religioso precisa de superar este défice de imaginação. Um caminho possível é acolher o contributo desses mestres da imaginação, verdadeiros especialistas em Humanidade, que são os escritores, os artistas e os criadores. E dá o exemplo de Charles Dickens: “Dickens tem uma capacidade extraordinária de ler o coração humano. Compreende como é fácil errar e ver-se metido em sarilhos. Quando leio os seus romances, sinto-me a crescer humanamente, como alguém que entende o coração e a mente do homem”. E acrescenta: “Se me torno verdadeiramente humano, então estou mais apto a encontrar Cristo, que é o mais humano de todos.”

Caminho sinodal

A propósito do Sínodo que se inicia e que pretende ser uma oportunidade de promover a comunhão, a participação e a missão em Igreja em tempos de necessárias mudanças e novas oportunidades para construir, acima de tudo, a comunidade humana e cristã, sugerimos este artigo do cardeal José Tolentino Mendonça.

Artigo de José Tolentino Mendonça in E, a Revista do Expresso, de 16.10.2021

Está em curso uma experiência nova no catolicismo: neste 17 de outubro, em todas as dioceses do mundo, em simultâneo, inaugura-se um caminho sinodal. Na verdade, é o início de um processo em três etapas, que se desenvolverão entre outubro de 2021 e outubro de 2023: a primeira será diocesana, a segunda organizar-se-á por continentes e a culminar ocorrerá aquela do sínodo da Igreja universal. O tema é o mesmo nas três etapas: “Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”.

A palavra grega synodos é composta por dois termos: a preposição syn, que significa com, conjuntamente; e o substantivo hodos, que se traduz como caminho. O sínodo seria assim um caminho percorrido em conjunto. Ora, se isso é alguma coisa inerente à natureza da própria comunidade eclesial (por exemplo, a voz autorizada de São João Crisóstomo dizia que Igreja e sínodo são expressões equivalentes), a verdade é que a dinâmica sinodal pretende ser também um passo em frente, abrindo um amplo e inovador processo de escuta, participação e discernimento sobre o presente e o futuro.

A instituição contemporânea do sínodo deve a sua origem à redescoberta da dimensão colegial operada pelo Concílio Vaticano II. De facto, foi na reta final do Concílio que o Papa Paulo VI criou o “sínodo dos bispos”, cuja primeira assembleia decorreu em 1967. Se daí em diante todos os papas valorizaram o recurso ao sínodo (João Paulo II convocou dezena e meia, Bento XVI cinco), Francisco tem-se mostrado particularmente envolvido na intensificação da sinodalidade. Para compreender esta especial aposta do Pontífice, a sua biografia pode ser útil, pois os episcopados da América Latina destacam-se precisamente pelo ritmo sinodal que adotaram e que as importantes assembleias-gerais de Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007) documentam com vivacidade. Por exemplo, o então arcebispo de Buenos Aires, de nome Jorge Bergoglio, presidiu à comissão de redação do documento final de Aparecida, e isso realçou a sua visibilidade no contexto da Igreja.

Desde o início do seu pontificado, o Papa tem sublinhado com profecia e realismo dois elementos: o primeiro é que o caminho sinodal deve plasmar melhor a forma de ser Igreja neste terceiro milénio; o segundo é que — e são suas as palavras — “caminhar conjuntamente (leigos, pastores, bispo de Roma) é um conceito simples de verbalizar mas não tão fácil de colocar em prática”. Os obstáculos foram resumidos recentemente por Francisco como um aviso à navegação: existe o risco do formalismo (patente na tentação de construir um evento de fachada em vez de inaugurar instrumentos e estruturas de diálogo que relancem a participação dos leigos); o risco do intelectualismo (que reduziria o sínodo a uma espécie de grupo de trabalho especializado, descolado da realidade e das preocupações concretas); e o risco do imobilismo (que repete de forma estafada, como desculpa, o “sempre foi assim”).

Mas, a par dos obstáculos, há também reais oportunidades que se abrem. O caminho sinodal pode tornar a Igreja uma comunidade de escuta e de vizinhança, capaz de espelhar a participação, a inclusão e o cuidado, deixando-se converter ela própria pelo estilo de Deus. Isto tem mais hipóteses de acontecer, acredita Francisco, se a Igreja não for ocasionalmente sinodal, mas aceitar caminhar para uma Igreja estruturalmente sinodal. E uma citação que este mês de outubro tem reaparecido é a de Yves Congar, um dos teólogos-chave do Concílio Vaticano II: “Não precisamos de uma outra Igreja, mas de uma Igreja diferente.”

Mensagem do Papa Francisco para a XXXVI Jornada Mundial da Juventude (21.11.2021)

“Levanta-te! Eu te constituo testemunha do que viste!” (cf. At 26, 16)

Queridos jovens,

Gostaria de tomar-vos pela mão, mais uma vez, para continuarmos juntos na peregrinação espiritual que nos conduz rumo à Jornada Mundial da Juventude de Lisboa em 2023.

No ano passado, pouco antes de se propagar a pandemia, assinava a mensagem cujo tema era «Jovem, Eu te digo, levanta-te!» (cf. Lc 7, 14). Na sua providência, o Senhor já queria preparar-nos para o desafio duríssimo que estávamos para viver.

O mundo inteiro teve de defrontar-se com o sofrimento causado pela perda de tantos entes queridos e pelo isolamento social. A emergência sanitária impediu também a vós jovens – por natureza projetados para o exterior – de sair para irdes à escola, à universidade, ao trabalho, para vos encontrardes…. Vistes-vos em situações difíceis, que não estáveis acostumados a gerir. Aqueles que estavam menos preparados e desprovidos de apoio sentiram-se desorientados. Em muitos casos, surgiram problemas familiares, bem como desemprego, depressão, solidão e vícios; para não falar do stresse acumulado, das tensões e explosões de raiva, do aumento da violência.

Mas, graças a Deus, este não é o único lado da moeda. Se a provação pôs a descoberto as nossas fragilidades, fez emergir também as nossas virtudes, nomeadamente a predisposição à solidariedade. Em toda a parte, vimos tantas pessoas, incluindo muitos jovens, a lutar pela vida, semear esperança, defender a liberdade e a justiça, ser artífices de paz e construtores de pontes.

Quando cai um jovem, de certo modo cai a humanidade. Mas também é verdade que, quando um jovem se levanta, é como se o mundo inteiro se levantasse. Queridos jovens, que grande potencialidade tendes nas vossas mãos! Que força trazeis nos vossos corações!

Por isso, hoje, Deus diz a cada um de vós mais uma vez: «Levanta-te!» Espero de todo o coração que esta mensagem ajude a preparar-nos para tempos novos, para uma página nova na história da humanidade. Mas não há possibilidades de recomeçar sem vós, queridos jovens. Para levantar-se, o mundo precisa da vossa força, do vosso entusiasmo, da vossa paixão. É neste sentido que gostaria de meditar, juntamente convosco, sobre o trecho dos Atos dos Apóstolos onde Jesus diz a Paulo: «Levanta-te! Constituo-te testemunha do que viste» (cf. At 26, 16).

Paulo, testemunha diante do rei

O versículo que serve de inspiração ao tema do Dia Mundial da Juventude de 2021 encontra-se no testemunho de Paulo diante do rei Agripa, no tempo em que estava detido na prisão. Outrora inimigo e perseguidor dos cristãos, agora é julgado precisamente pela sua fé em Cristo. À distância de vinte e cinco anos dos factos, o Apóstolo conta a sua história e o episódio fundamental do seu encontro com Cristo.

Paulo confessa que, no passado, perseguira os cristãos, até que um dia, quando ia a Damasco para prender alguns deles, uma luz «mais brilhante do que o Sol» o envolveu, a ele e aos seus companheiros de viagem (cf. At 26, 13), mas só ele ouviu «uma voz»: falou-lhe Jesus, chamando-o pelo nome.

«Saulo, Saulo!»

Aprofundemos, juntos, o acontecimento. Ao chamá-lo pelo nome, o Senhor faz saber a Saulo que o conhece pessoalmente. É como se lhe dissesse: «Sei quem és, sei o que estás a tramar, mas, não obstante isso, é precisamente a ti que estou a falar». Pronuncia o seu nome duas vezes, querendo significar uma vocação especial e muito importante, como fizera com Moisés (cf. Ex 3, 4) e com Samuel (cf. 1 Sam 3, 10). Caindo por terra, Saulo reconhece que é testemunha duma manifestação divina, duma revelação vigorosa, que o transtorna mas sem o aniquilar; pelo contrário, interpela-o usando o nome.

Com efeito, só muda a vida um encontro pessoal, não anónimo, com Cristo. Jesus mostra que conhece bem Saulo, que «o conhece intimamente». Embora Saulo seja um perseguidor, embora haja ódio no seu coração contra os cristãos, Jesus sabe que isso se fica a dever à ignorância e quer manifestar nele a sua misericórdia. Será precisamente esta graça, este amor imerecido e incondicional, a luz que transformará radicalmente a vida de Saulo.

«Quem és tu, Senhor?»

Perante esta presença misteriosa que o chama pelo nome, Saulo pergunta: «Quem és tu, Senhor?» (At 26, 15). Trata-se duma questão extremamente importante, e todos nós mais cedo ou mais tarde na vida a devemos colocar. Não basta ter ouvido outros a falarem de Cristo; é necessário falar com Ele pessoalmente. No fundo, rezar é isto. É falar diretamente com Jesus, embora porventura tenhamos o coração ainda em desordem, a cabeça cheia de dúvidas ou mesmo de desprezo por Cristo e pelos cristãos. Faço votos de que cada jovem chegue, do fundo do coração, a fazer esta pergunta: «Quem és tu, Senhor?».

Não podemos presumir que todos conheçam Jesus, mesmo na era da internet. A pergunta que muitas pessoas dirigem a Jesus e à Igreja é precisamente esta: «Quem és?». Em toda a narrativa da vocação de São Paulo, esta é a única vez que ele fala. E, à sua pergunta, o Senhor responde prontamente: «Eu sou Jesus a quem tu persegues» (26, 15).

«Eu sou Jesus a quem tu persegues!»

Através desta resposta, o Senhor Jesus revela um grande mistério a Saulo: que Ele Se identifica com a Igreja, com os cristãos. Até então Saulo não vira nada de Cristo, senão os fiéis que metera na prisão (cf. At 26, 10), dando o próprio assentimento à sua condenação à morte (26, 10). E vira como os cristãos respondiam ao mal com o bem, ao ódio com o amor, aceitando as injustiças, as violências, as calúnias e as perseguições suportadas pelo nome de Cristo. Assim, bem vistas as coisas, de algum modo Saulo – sem o saber – tinha encontrado Cristo: encontrara-O nos cristãos.

Quantas vezes ouvimos dizer: «Jesus sim, a Igreja não», como se um pudesse ser alternativa à outra. Não se pode conhecer Jesus, se não se conhece a Igreja. Só se pode conhecer Jesus por meio dos irmãos e irmãs da sua comunidade. Ninguém pode dizer-se plenamente cristão, se não viver a dimensão eclesial da fé.

«É duro para ti recalcitrar contra o aguilhão»

Estas são as palavras que o Senhor dirige a Saulo, depois que ele caiu por terra. Mas é como se, já desde algum tempo, lhe estivesse a falar misteriosamente procurando atraí-lo para Si, e Saulo resistisse. A mesma suave «repreensão», dirige-a Nosso Senhor a cada jovem que se mantém afastado: «Até quando fugirás de Mim? Porque é que não sentes que te estou a chamar? Estou à espera do teu regresso». À semelhança do que sucedeu ao profeta Jeremias, às vezes dizemos: «Não pensarei mais n’Ele!?» (Jr 20, 9). Mas, no coração de cada um, há como que um fogo ardente: embora nos esforcemos por contê-lo, não conseguimos porque é mais forte do que nós.

O Senhor escolhe alguém que até O persegue, completamente hostil a Ele e aos seus. Mas, para Deus, não há pessoa que seja irrecuperável. Através do encontro pessoal com Ele, é sempre possível recomeçar. Ninguém está fora do alcance da graça e da misericórdia de Deus. De ninguém se pode dizer: Está demasiado longe… É demasiado tarde… Quantos jovens sentem a paixão de se opor e ir contra corrente, mas trazem escondida no coração a necessidade de se comprometer, de amar com todas as suas forças, de se identificar com uma missão! No jovem Saulo, Jesus vê exatamente isto.

Reconhecer a própria cegueira

Podemos imaginar que, antes do encontro com Cristo, Saulo estivesse de certo modo «cheio de si», considerando-se «grande» pela sua integridade moral, o seu zelo, as suas origens, a sua cultura. Seguramente estava convencido da justeza da sua posição. Mas, quando o Senhor se lhe revela, é «lançado por terra» e fica cego. De repente, descobre que não é capaz, física e espiritualmente, de ver. As suas certezas vacilam. No íntimo, sente que aquilo que o animava com tanta paixão, ou seja, o zelo de eliminar os cristãos, estava completamente errado. Dá-se conta de não ser o detentor absoluto da verdade; antes pelo contrário, está bem longe dela. E, juntamente com as suas certezas, cai também a sua «grandeza». De repente, descobre-se perdido, frágil, «pequeno».

Esta humildade – consciência da própria limitação – é fundamental. Quem pensa que sabe tudo sobre si mesmo, os outros e até sobre as verdades religiosas, terá dificuldade em encontrar Cristo. Tendo ficado cego, Saulo perdeu os seus pontos de referência. Ficando sozinho na escuridão, para ele as únicas coisas claras são a luz que viu e a voz que ouviu. Que paradoxo! Precisamente quando uma pessoa reconhece estar cega, começa a ver…

Depois da fulguração na estrada de Damasco, Saulo preferirá ser chamado Paulo, que significa «pequeno». Não se trata dum pseudónimo nem dum «nome de arte» (tão usado hoje mesmo entre as pessoas comuns): o encontro com Cristo fê-lo sentir-se verdadeiramente assim, derrubando o muro que o impedia de se conhecer com toda a verdade. De si mesmo afirma: «É que eu sou o menor dos apóstolos, nem sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus» (1 Cor 15, 9).

Santa Teresa de Lisieux gostava de repetir, como aliás outros santos, que a humildade é a verdade. Hoje em dia muitas «histórias» condimentam os nossos dias, principalmente nas redes sociais, muitas vezes criadas habilmente com muitas filmagens, telecâmaras, variados cenários. Procuram-se cada vez mais as luzes da ribalta, sabiamente orientadas, para poder mostrar aos «amigos» e seguidores uma imagem de si mesmo que às vezes não reflete a própria verdade. Cristo, meridiana luz, vem iluminar-nos devolvendo-nos a nossa autenticidade, libertando-nos de todas as máscaras. Mostra-nos claramente o que somos, porque nos ama tal como somos.

Mudar de perspetiva

A conversão de Paulo não é um voltar para trás, mas abrir-se para uma perspetiva totalmente nova. Com efeito, ele continua o caminho para Damasco, mas já não é o mesmo de antes; é uma pessoa diversa (cf. At 22, 10). É possível converter-se e renovar-se na vida ordinária, realizando as coisas que costumamos fazer, mas com o coração transformado e com motivações diferentes. Neste caso, Jesus pede expressamente a Paulo que vá até Damasco, para onde se dirigia. Paulo obedece, mas agora a finalidade e a perspetiva da sua viagem mudaram radicalmente. A partir de agora, verá a realidade com olhos novos: antes, eram os olhos do perseguidor justiceiro; a partir de agora, serão os do discípulo testemunha. Em Damasco, Ananias batiza-o e introdu-lo na comunidade cristã. No silêncio e na oração, Paulo aprofundará a sua experiência e a nova identidade que o Senhor Jesus lhe deu.

Não dispersar a força e a paixão dos jovens

A atitude de Paulo, antes do encontro com Jesus ressuscitado, não nos é muito estranha. Quanta força e paixão vivem também nos vossos corações, queridos jovens! Mas, se a escuridão ao vosso redor e dentro de vós mesmos vos impedir de ver corretamente, correis o risco de perder-vos em batalhas sem sentido, e até de vos tornardes violentos. E, infelizmente, as primeiras vítimas sereis vós mesmos e aqueles que estão mais próximo de vós. Há também o perigo de lutar por causas que, originalmente, defendem valores justos, mas, levadas ao extremo, tornam-se ideologias destrutivas. Quantos jovens hoje, talvez impelidos pelas suas próprias convicções políticas ou religiosas, acabam por se tornar instrumentos de violência e destruição na vida de muitos! Alguns, que já nasceram rodeados dos meios digitais, encontram o novo campo de batalha no ambiente virtual e nas redes sociais, recorrendo sem escrúpulos à arma de falsas notícias para espalhar venenos e demolir os seus adversários.

Quando o Senhor irrompe na vida de Paulo, não anula a sua personalidade, não cancela o seu zelo e paixão, mas usa os seus dotes para fazer dele o grande evangelizador até aos confins da terra.

Apóstolo dos gentios

Em seguida, Paulo será conhecido como «o apóstolo dos gentios»; ele, que fora um fariseu escrupulosamente observante da Lei! Aqui está outro paradoxo: o Senhor deposita a sua confiança precisamente naquele que O perseguia. À semelhança de Paulo, cada um de nós pode ouvir no fundo do coração esta voz que lhe diz: «Confio em ti. Conheço a tua história e tomo-a nas minhas mãos juntamente contigo. Apesar de muitas vezes teres estado contra Mim, escolho-te e torno-te minha testemunha». A lógica divina pode fazer do pior perseguidor uma grande testemunha.

O discípulo de Cristo é chamado a ser «luz do mundo» (Mt 5, 14). Paulo tem de testemunhar o que viu, mas agora está cego. Estamos de novo perante um paradoxo! Mas, precisamente através desta sua experiência pessoal, Paulo poderá identificar-se com aqueles a quem o Senhor o envia. Com efeito, é constituído testemunha «para lhes abrir os olhos e fazê-los passar das trevas à luz» (At 26, 18).

«Levanta-te e testemunha!»

Ao abraçar a vida nova que nos é dada no Batismo, recebemos também uma missão do Senhor: «Serás minha testemunha». É uma missão que pede a nossa dedicação e faz mudar a vida.

Hoje, o convite de Cristo a Paulo é dirigido a cada um e cada uma de vós, jovens: Levanta-te! Não podes ficar por terra a «lamentar-te com pena de ti mesmo»; há uma missão que te espera! Também tu podes ser testemunha das obras que Jesus começou a realizar em ti. Por isso, em nome de Cristo, eu te digo:

– Levanta-te e testemunha a tua experiência de cego que encontrou a luz, viu o bem e a beleza de Deus em si mesmo, nos outros e na comunhão da Igreja que vence toda a solidão.

– Levanta-te e testemunha o amor e o respeito que se podem estabelecer nas relações humanas, na vida familiar, no diálogo entre pais e filhos, entre jovens e idosos.

– Levanta-te e defende a justiça social, a verdade e a retidão, os direitos humanos, os perseguidos, os pobres e vulneráveis, aqueles que não têm voz na sociedade, os imigrantes.

– Levanta-te e testemunha o novo olhar que te faz ver a criação com olhos cheios de maravilha, te faz reconhecer a Terra como a nossa casa comum e te dá a coragem de defender a ecologia integral.

– Levanta-te e testemunha que as existências fracassadas podem ser reconstruídas, as pessoas já mortas no espírito podem ressuscitar, as pessoas escravizadas podem voltar a ser livres, os corações oprimidos pela tristeza podem reencontrar a esperança.

– Levanta-te e testemunha com alegria que Cristo vive! Espalha a sua mensagem de amor e salvação entre os teus coetâneos, na escola, na universidade, no trabalho, no mundo digital, por todo o lado.

O Senhor, a Igreja e o Papa confiam em vós e constituem-vos testemunhas junto de muitos outros jovens que encontrais pelos «caminhos de Damasco» do nosso tempo. Não vos esqueçais: «Se uma pessoa experimentou verdadeiramente o amor de Deus que o salva, não precisa de muito tempo de preparação para sair a anunciá-lo, não pode esperar que lhe deem muitas lições ou longas instruções. Cada cristão é missionário na medida em que se encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 120).

Levantai-vos e celebrai a JMJ nas Igrejas Particulares!

Renovo a todos vós, jovens do mundo inteiro, o convite a tomar parte nesta peregrinação espiritual que nos levará à celebração da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa no ano de 2023. O próximo encontro, porém, é nas vossas Igrejas Particulares, nas várias dioceses e eparquias da terra, onde, na Solenidade de Cristo Rei, será celebrado – a nível local – o Dia Mundial da Juventude de 2021.

Espero que todos nós possamos viver estas etapas como verdadeiros peregrinos e não como «turistas da fé»! Abramo-nos às surpresas de Deus, que quer fazer resplandecer a sua luz sobre o nosso caminho. Abramo-nos à escuta da sua voz, inclusive através dos nossos irmãos e irmãs. Assim ajudar-nos-emos uns aos outros a levantar-nos juntos e, neste difícil momento histórico, tornar-nos-emos profetas de tempos novos, cheios de esperança! A Bem-Aventurada Virgem Maria interceda por nós.

Roma, São João de Latrão, na Festa da Exaltação da Santa Cruz, 14 de setembro de 2021.

Um caminho a percorrer

Uma reflexão escrita pela teóloga Nancy Small a propósito da tão comentada passagem da Carta de São Paulo aos Efésios, proclamada na eucaristia do passado domingo, e que nos leva a partilhar a necessidade de percorrer um novo caminho na descoberta, no entendimento e no acolhimento da sociedade do nosso tempo. Igualmente importante é sempre o diálogo entre diferentes opiniões e, acima de tudo, que este diálogo seja sempre construído tendo por base o amor, a aceitação e a vontade de entender o outro, não deixando espaço para a crítica sem fundamento e não descontextualizando as palavras que são proferidas.

Depois de proclamar a instrução de S. Paulo para nos revestirmos «de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência» na sua carta aos Colossenses, o leitor leu: «Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor» (Colossenses 3, 18).

Há anos que ouço essas palavras proclamadas numa igreja. Desta vez, a mensagem pareceu ainda mais ofensiva do que no passado. Durante meses, ouvimos uma série de mulheres a falar sobre assédio sexual, abuso e condutas impróprias às mãos de homens poderosos. Também ouvimos as mulheres a dizer «acabou o tempo», o que significa que chegou o momento em que esses comportamentos já não são tolerados e as mulheres deixaram de ficar em silêncio. Ouvir uma leitura das Escrituras que apoia a submissão das mulheres neste contexto parecia seriamente errado.

O dicionário define «submeter» como «pôr debaixo de», «tornar dependente», «sujeitar; obrigar; subjugar». Instruir as esposas a serem submissas aos seus maridos perpetua a ideia de que as mulheres devem ser obedientes aos homens e contribui para uma cultura do domínio masculino. Este tipo de pensamento abre uma caixa de Pandora para a subjugação das mulheres numa escala mais ampla. Com efeito, se as mulheres são consideradas inferiores ao seu parceiro no casamento, certamente serão tratadas como inferiores na sociedade em geral.

As palavras de S. Paulo foram escritas num tempo em que as mulheres eram consideradas inferiores aos homens. Mas os tempos mudaram. Porque é que, hoje em dia, a Igreja católica ainda proclama leituras das Escrituras que suportam um entendimento das mulheres como submissas? Se se ler todo o terceiro capítulo da carta aos Colossenses, observar-se-á que contém instruções para os escravos, dizendo: «Escravos, obedeçam em tudo aos vossos mestres humanos» (3, 22). Não ouvimos esta parte proclamada no ambão porque não está incluída no lecionário. Se a ouvíssemos, reconheceríamos que a leitura está desatualizada. Poderíamos objetar ao percebermos que a Igreja estaria a aceitar a escravidão quando se proclamasse um trecho da Escritura que diz aos escravos como se hão de comportar.

Então por que é que o lecionário inclui partes das Escrituras sobre esposas que também estão desatualizadas e são objetáveis? A submissão das mulheres no contexto do casamento é inconsistente com o ensino da Igreja e a prática pastoral. O Catecismo da Igreja católica refere-se ao casamento como uma parceria entre um homem e uma mulher e fala de amor mútuo (1602, 1604). A bênção nupcial lida durante o sacramento do Matrimónio reza: «Confie nela o coração do seu marido, honrando-a como companheira igual em dignidade». O Papa Francisco desenvolve ainda mais esta mensagem de amor mútuo. Na sua exortação apostólica Amoris laetitia refere-se ao amor conjugal como «uma união que tem todas as características duma boa amizade: busca do bem do outro, reciprocidade, intimidade, ternura, estabilidade e uma semelhança entre os amigos que se vai construindo com a vida partilhada». No casamento «partilha-se tudo (…) sempre no mútuo respeito». Escreve Francisco: «O amor confia, deixa em liberdade, renuncia a controlar tudo, a possuir, a dominar. Esta liberdade, que possibilita espaços de autonomia, (…) consente que a relação se enriqueça».

Neste género de amor não há lugar para a submissão. A compreensão que o Papa tem do amor como uma força que não controla, possui ou domina é uma mensagem extremamente necessária na Igreja e na sociedade hoje. Este género de amor no contexto do casamento apoia a igualdade entre os cônjuges e encoraja o crescimento individualmente e em conjunto. Este género de amor que enriquece e expande os relacionamentos promove a cura e assegura o poder de transformar.

Temos um longo caminho a percorrer para mudar a nossa cultura de uma perspetiva em que a má conduta sexual contra as mulheres é generalizada e tolerada para uma cultura em que as mulheres são tratadas com dignidade e respeito. A Igreja tem um papel importante a desempenhar na realização desta transformação. Podemos dar um passo simples e no entanto substancial nessa direção ao simplesmente não proclamar textos da Escritura que submetem as mulheres. Melhor ainda, vamos remover esses textos dos nossos lecionários.

As férias ensinam a olhar, perguntar, pensar

Tempo de férias: tempo para olhar, ou melhor, para contemplar. Sim, porque habitualmente olhamos as pessoas ou as coisas, mas não as vemos. Não temos tempo para deter o olhar, habituado a responder ao estímulo de alguma coisa que o atrai de maneira repentina: um semáforo, um placar publicitário…

Ou então olhamos aquilo que nos é dito para olhar: os nossos olhos são atraídos por aquilo que foi pensado para nos seduzir, para chamar a nossa atenção, para acender o nosso desejo. Não é por acaso que, muitas vezes, constatamos «não vi, não me dei conta», só porque uma coisa não se impõe ao nosso olhar.

As férias são um tempo propício para exercitar o olhar: sobre uma praia ter os olhos abertos para o céu; deter-se a ver o mar que está sempre a mudar de cor e de forma; ver como uma formiga transporta uma migalha de pão; observar como é feita uma flor…

É assim que se aprende a “ver com o coração”, como aconselhava o Principezinho. Então, ao abrir os olhos do nosso coração, podemos dedicar-nos a contemplar, a ver em grande, e, por isso, a sentir em grande. Assim se começa a ver verdadeiramente aquilo que existe e vive ao nosso lado, ainda que muitas vezes não nos apercebamos; treinamo-nos a admirar e a acolher o inesperado, o que é desconhecido e diferente daquilo que pensamos.

As férias são também um tempo propício para exercitar-se a refletir sobre a própria vida. Também esta é uma operação não espontânea, árdua, mas é fundamental escutar as perguntas que nos habitam. Perguntas que não podem ser eludidas a não ser removendo-as, ou “distraindo-nos”, inebriando-nos de ativismo. Estes dias “vazios” são, antes, a ocasião para nos deixarmos habitar, com calma, pelas perguntas cruciais: como está a minha vida? Aonde cheguei? O que me falta?…

Schopenhauer anotava que «o homem é um animal metafísico», habilitado a colocar-se perguntas que vão para além do visível. O que quer dizer viver e morrer? O que significa amar verdadeiramente? O amor pode acabar? O ser humano é um animal capaz de colocar-se estas interrogações, porque quer interpretar a sua existência, e dela quer dar-se e dar razões. Não há respostas claras e certas? Não é por isso que tem de se interditar de escutar estas perguntas, pelo contrário!

É preciso, então, encontrar tempo para ficar a sós, no silêncio, e demorar-se nas perguntas que nos habitam. Se nunca fizermos este “trabalho”, arriscamo-nos a viver à superfície, sem estarmos conscientes, sem conseguir ler a nossa vida e a avaliá-la nas suas expetativas e nos seus fracassos. Os latinos diziam que cada ser humano amadurecido deve conseguir “habitare secum”, a habitar consigo, a escutar-se. Não é uma operação narcisista, mas um ato de verdade sobre si e sobre a relação com os outros. É uma necessidade para agarrar a própria vida nas mãos com um mínimo de lucidez, e assim aprender a amar-se a si e aos outros com inteligência e criatividade.

Nas férias, dêmos, por isso, tempo à reflexão, ao pensar. E a quem nos pergunta «o que estás a fazer?», respondamos: «Olho e penso». Rara mas extraordinária resposta!

Enzo Bianchi in Monastero di Bose

Nascemos e jamais morreremos

Nascemos e jamais morreremos!

Nascemos e jamais morreremos! Esta é a maior riqueza que a vida nos dá. A possibilidade de existir, de fazer caminho, de nos encontrarmos com os outros, de descobrir o infinito em cada dia, em cada gesto, em cada projeto. A possibilidade de sermos seres imortais.

Nascemos e jamais morreremos! Esta é a maior certeza que a vida do Jorge nos dá. A certeza profunda de que para sempre viveremos se amarmos, se nos dermos por completo e sem reservas, se acreditarmos que somos chamados a ser infinito em cada dia que nos é dado. E com os olhos postos num futuro maior, aceitar que viver a vida no presente de cada dia é viver o presente que é a vida de cada dia.

Nascemos e jamais morreremos! Por isso, hoje será sempre um dia de festa. De celebração. De alegria. De agradecimento. Profundo e feliz. Por tudo o que nos foi dado viver juntos, por tudo o que aprendemos, por tudo o que partilhamos. Pelas escolhas que fizemos. Pelos risos e tristezas. Pelas dificuldades e alegrias. E pela vida que continua a acontecer. Por tudo o que continuamos a aprender com os dias que tantas vezes surgem virados do avesso. Afinal, ainda temos tanto para descobrir. E tanto, tanto, tanto que temos aprendido e descoberto!

Nascemos e jamais morreremos! Há um ano, o Jorge, sempre tão avesso a festas em sua honra (o que ele gostava que o seu dia de aniversário coincidisse com a noitada de São Pedro, julgava ele que passava despercebido no meio dos festejos próprios desse dia…), quis celebrar o seu aniversário! 50 anos! Juntou-se o simbolismo da idade com a sua vontade raríssima de querer fazer festa, num momento já muito delicado do seu estado de saúde, e com um núcleo familiar muito restrito, devido às contingências da pandemia que assim o obrigava. Sentimos agora que terá sido para nos fazer lembrar que há que festejar e só agradecer, não há espaço para lamentos nem tristeza. E “foi bonita a festa, pá!”. Por isso, aqui queremos partilhar com todos esta memória feliz, de alegria, de amor.

Nascemos e jamais morreremos! Parabéns, Jorge, nosso amigo, nosso irmão, parte de nós, nosso coração inteiro e pensamento profundo. Por aqui, continuaremos a festejar-te todos os dias. Todos. Com a alegria que tu queres, com o empenho que tu exiges, com a convicção que vale a pena viver a serenidade por entre o mistério da vida. A celebrar a tua vida que é a nossa. A cantar-te. A assumir a responsabilidade de te vivermos em cada dia. Para sempre. A tua luz brilha sempre diante de nós.

De que serve a poesia num curso de Medicina?

João Luís Barreto Guimarães

João Luís Barreto Guimarães, médico de cirurgia reconstrutiva e poeta, em entrevista à VISÃO.

Além de médico, João Luís Barreto Guimarães, quase a completar 54 anos, é um poeta premiado (venceu recentemente o Willow Run Poetry Book Award pelo livro Mediterrâneo). Neste momento, revê provas da tradução que fez dos poemas de Margaret Atwood, encomenda da Bertrand. Em setembro, dará aulas de poesia no mestrado em Medicina do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), abertas também a alunos de outras faculdades e à sociedade civil. Quando recebeu o convite, aceitou imediatamente, porque quer levar novos mundos à relação do médico com o doente.

Como surgiu esta ideia de integrar a poesia num curso de Medicina?

Estão a renovar os curricula dos cursos médicos, integrando a cadeira de Introdução à Poesia e também uma de música, igualmente opcional. É interessante proporcionar aos alunos uma visão holística, ainda mais numa faculdade que se orgulha de ter Abel Salazar como patrono e que responde pelo mote “um médico que só sabe de medicina nem medicina sabe”. Vamos falar do que acontece num poema, como se lê um poema contemporâneo e da vivência dos alunos sobre o tema de cada poema, na esperança de que possa contribuir para desenvolver o lado mais empático e humanista que é suposto o médico ter com o doente. Um poema é sempre uma visão pessoal de quem o escreve, corresponde a um momento de entrega intelectual à descrição de uma experiência. Rilke dizia que os poemas são experiências. E estes alunos, na relação futura médico/doente, terão sempre uma barreira entre o que perguntam e o que os doentes decidem responder. O médico pode não fazer as perguntas certas e, portanto, não extrair a informação toda. E o doente pode não querer dar a resposta completa. A relação médico/doente vai progredir conforme a compatibilidade e a abertura que venha a desenvolver-se.

O que é que os poemas nos dão?

São autênticas janelas para a alma de quem os escreveu. Haverá poetas que tiveram a doença descrita ou passaram por aquele estado de alma ou que estão a escrever sobre familiares ou amigos que viveram aquelas situações. É muito interessante acrescentar esta temática àqueles futuros médicos e como que lhes desvelar e abrir um mundo escrito num momento de intimidade, sem quaisquer filtros, que correspondeu ao momento da criação poética de cada um dos autores.

Ou seja, a poesia não nos salva, mas humaniza-nos?

Wislawa Szymborska, poeta polaca e Nobel da Literatura 1996, diz: a poesia não pode evitar o sofrimento, mas pode acompanhar o processo de sofrimento. A poesia pode ou não salvar, dependendo de quem receciona o poema. Um poema que é escrito faz o seu caminho. Paul Celan também dizia que o poema é como uma mensagem numa garrafa que está a caminho de alguém. É possível saber quem o escreveu, mas não é possível saber quem e de que forma o vai rececionar. Cada um lê um poema com a sua imaginação e, fundamentalmente, com a sua experiência.

Um poema não é, então, para entender. É só para sentir?

Pode ser para sentir e para tentar entender a experiência de quem o escreveu. O desejo do poeta é escrever um poema que provoque uma resposta no leitor, qualquer que ela seja. Até pode ser escrito para provocar repulsa. Mas ele não tem maneira de adivinhar que tipo de resposta cada leitor vai ter. Assim como eu não tenho possibilidade de saber que tipo de resposta cada aluno vai ter a cada um daqueles poemas. Até pode ser de indiferença. Mas podem também ser poemas que inscrevem profundamente para a vida.

Que autores vai selecionar?

Na primeira aula, vamos começar com um poeta da casa: Jorge Sousa Braga, médico de obstetrícia e ginecologia no Hospital de Santo António. Depois, conversaremos sobre um poema de Wislawa Szymborska, outro de Simon Armitage [poeta britânico] e ainda outro de Robert Frost [poeta americano, que ganhou quatro prémios Pulitzer]. Falaremos de vários autores portugueses, mas vamos percorrer também o cânone europeu e americano.

Selecionando sempre poemas que falem de doença?

Não. Selecionando sempre de acordo com o que me interessa conversar sobre a oficina do poema. Por exemplo, os quatro poemas da primeira aula surgem como exemplos de um poema lírico, um narrativo, um dramático e um didático. Há dois níveis que ocorrem paralelamente: por um lado, os instrumentos da oficina de um poema contemporâneo; por outro, a medicina e a experiência médica da doença, da vida, da morte. Concretamente, um fala sobre uma síndrome psiquiátrica; outro, de um efeito farmacológico; outro, de um trauma cirúrgico; e outro, de um momento no bloco operatório. Vou tentar cumprir os dois objetivos: um, que me interessa mais enquanto poeta, que é dar a entender como se lê um poema contemporâneo e o que está a acontecer quando o lemos; e outro, que é desenvolver a empatia e o humanismo naqueles alunos de Medicina.

Os autores serão sempre médicos?

Não. Até há alguma graça na escrita de assuntos médicos por não médicos. Poemas em que se fala da pulsação de uma veia, em vez de ser de uma artéria. Coisas engraçadas que, não tendo uma verdade científica, têm uma verdade poética.

Há alguma razão particular para que a poesia se junte à medicina?

Posso falar da minha experiência cirúrgica e da escrita. O poema que gosto de escrever desenvolve-se numa página só, é muito concentrado, económico, elíptico, emoldurado com espaço branco, esculpido conforme a tensão e a velocidade que quero imprimir e o modo como quero surpreender o leitor com a linha seguinte. O poema final resulta numa certa escultura de som. Gasto bastante tempo na revisão, há um limpar de excesso, de gorduras, para que o poema fique seco. Cirurgicamente, o paralelo é que, em vez de ser feito com uma caneta, é feito com um bisturi. Concorrer para uma certa harmonia, não exatamente perfeita ou simétrica, passa também por esse eliminar do excesso. Fazemos isto no nosso quotidiano, escolhemos excluindo.

No ato cirúrgico, passam-lhe pela cabeça ideias para poemas?

Não exatamente. Mas estou recetivo a que elas cheguem. É muito interessante olhar à nossa volta e tentar destapar, perceber que sentidos ocultos podem transportar as coisas, a Natureza, os objetos. Por exemplo, estamos aqui num café, na foz do Douro, olho lá para fora e lembro-me de um verso de Billy Collins, poeta americano, que diz que a foz é o sítio onde o rio perde o nome para o mar. Joan Margarit, poeta catalão, fala da beleza de joias falsas que têm os semáforos. O poeta faz este jogo de comparar coisas e transferir uma característica de um objeto para outro, de uma situação para outra ou de uma emoção para outra.

A poesia é um mero jogo?

Há quem diga que é uma religião. Para mim, é o sítio onde a vida se mistura com o pensamento. E dou primazia ao pensamento, não pretendo que os meus poemas sejam peças sentimentais. Gostava que fossem momentos de inteleção, gosto que se relacionem com o leitor através da inteligência, da ironia, da crítica – que façam como que um flirt com o leitor, através da inteligência. Mas mais até do que a inteligência. Seamus Heaney, Nobel da Literatura 1995, tem uma expressão a propósito da poesia de Keats, poeta romântico inglês. Diz: “to school the intelligence and make it a soul.” Ou seja, educar a inteligência e fazer dela uma alma. A inteligência, em si, não é suficiente. Os ataques às Torres Gémeas, utilizar um veículo que era uma bomba para produzir aquela destruição é um ato maquiavelicamente inteligente. Mas transformar a inteligência numa alma já é algo diferente, porque a alma implica um conceito benigno. E a inteligência pode ser colocada à solta, benigna ou malignamente. Daí que esta questão da alma nos remeta para a compaixão e empatia que é suposto acontecer nas relações humanas.

O que viveu no hospital durante a pandemia trouxe-lhe novas confrontações no sentido poético?

O curioso do processo criativo é que não é tão controlável quanto se possa imaginar. Não sei avaliar, hoje, qual a dimensão com que a pandemia poderá ou não vir a surgir nos meus poemas. Não me parece assunto particularmente poético. Não irei escrever um livro sobre a pandemia. Os poemas do próximo livro poderão estar contaminados de alusões ao que se segue à pandemia. Ao regresso à vida, à forma como nós, seres humanos, vamos olhar para as coisas, com um olhar não tão cansado e iniciático. Interessante no confinamento foi olharmos para as avenidas e para as fachadas das casas com uma clareza que não é possível num dia de trânsito. Somos suscitados pelo movimento dos objetos mais imediatos e, normalmente, não vemos o que está atrás e que é o cenário da nossa vida. Acredito que, agora, este regresso ao movimento, ao quotidiano e à realidade vai permitir-nos ter um olhar e um entusiasmo novos. Pelo menos para algumas pessoas, será como que renascer para a vida.

Há quem o considere um escritor das cenas do quotidiano. É o louvor das pequenas coisas?

É, é aquilo que é essencial na vida. São os detalhes, é captar os pequenos absurdos do nosso quotidiano, as feridas, os elementos aberrantes, aquilo que sai fora da esquadria. Depois, agrada-me passar desse extrato mais concreto, desse referente, desse substantivo, para uma coisa maior. Não começar da generalização para o detalhe, mas partir do detalhe para uma coisa maior. Gosto deste movimento do pequeno para o grande, partir do grão de areia para a praia inteira, fazer da particularidade a universalidade. É isso que um poeta tenta atingir: a experiência universal. E que o leitor percecione como a sua própria experiência, não tendo sido ele a escrever. E diga: “É exatamente isto.”

Quais são as grandes questões do nosso tempo?

As de sempre. A vida, a morte, o amor, a religião, Deus… Deus é um tema que me interessa muito. Perceber como me comportei relativamente à existência de Deus e à presença da fé na minha vida. O meu livro A parte pelo Todo (2009) acompanha o processo de luto pela morte do meu pai. No poema Um carro para Eugeniu Cercavschi, há um verso terrível que diz: “Deus e o meu pai morreram no mesmo dia.” Pensar a minha relação com a religião, a presença de Deus ou qualquer coisa mística ou de divina no quotidiano interessa-me. Gosto de citar um verso de Robert Lowell, poeta americano: “Deus não existe e Maria é sua mãe.” Ou seja, a razão diz que Deus não existe, mas o lado emotivo mostra que é possível que exista. É o caminho que muitos fazem, sobretudo a partir de determinada idade, quando perdem o primeiro familiar que lhes é próximo. É quando começam a pensar no que acontece depois.

Quem é o sr. Lopes que aparece nos seus poemas?

É um indivíduo mediano e mesquinho, que está a meio do sistema, depende de alguém, mas tem um conjunto de pessoas que dependem dele e, através da forma como beneficia ou prejudica os seus subalternos, é capaz de condicionar a capacidade e o desempenho de cada um. Não tem mérito para estar na função, foi colocado ali por influência de alguém. Desempenha um determinado papel e, depois, reúne um conjunto de indivíduos que lhe são mais favoráveis e constituem um escudo para se perpetuar naquela posição. Não é um exclusivo da sociedade portuguesa, mas é um arquétipo muito frequente nas repartições, nos serviços e departamentos da estrutura da sociedade. E, à medida que vamos subindo nos diversos níveis de poder, encontramos este nível de incompetência, do qual todos dependemos.

A vida de um hospital ressente-se muito disso?

A vida de um hospital está cheia de senhores Lopes.

Cada dia da nossa vida é um dia de Pentecostes

Homilia do Cardeal José Tolentino Mendonça na Solenidade do Dia de Pentecostes (15.maio.2016)

Nesta festa do Pentecostes nós percebemos melhor como cada um de nós, e todos nós em conjunto, somos uma consequência do Espírito Santo. Cada dia da nossa vida é um dia de Pentecostes.

O dia de Pentecostes não foi apenas aquele dia, concreto, em que o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos reunidos no cenáculo. O Pentecostes passou a ser o tempo da Igreja, passou a ser o tempo do mundo, o tempo de cada crente. Porque, em cada dia, o Espírito Santo vem em nosso auxílio, o Espírito Santo desce sobre nós, o Espírito Santo está connosco, testemunha o amor de Deus no nosso coração. Diz ao nosso coração: “Podes acreditar em Deus, confia Nele, Deus é credível, podes amá-lo, podes confiar no Seu amor e na Sua Palavra.” O Espírito Santo vem até nós como defensor, não deixa que a voz da noite fale ao nosso coração, não deixa que a voz da sombra ou da violência ou do temor se sobreponham à voz, tantas vezes frágil, da própria esperança, da própria confiança.

O Espírito Santo vem até nós como laboratório da criatividade, da invenção de Deus no nosso coração. Porque o alfabeto com que Deus Se escreve é sempre novo, em cada pessoa, em cada crente, em cada tempo, em cada dia, em cada instante. O Espírito Santo é essa criatividade em ato que nos estimula a sermos diferentes, a sermos originais. E conspira para, na nossa diferença, na nossa singularidade irredutível nós nos conseguirmos entender, conseguirmos criar laços de fraternidade, conseguirmos ser um único pão partido e distribuído para a fome do mundo. Por isso, nós somos consequência do Espírito Santo, e precisamos rezar mais ao Espírito Santo na nossa vida, porque Deus é Pai. E nós sabemos como o Pai é essa arquitetura fundante daquilo que somos, o Pai está na origem da nossa própria vida. Este Pai foi-nos revelado pelo Filho e a experiência da filiação, a certeza de que somos filhos, a descoberta, como diz S. Paulo, de que: “Não somos escravos, mas somos filhos”, é uma descoberta que nos instaura como sujeitos crentes. De facto, nós não somos servos, somos filhos, não somos escravos somos herdeiros. Foi Jesus quem nos revelou isso e esta filiação vivida em cada um de nós.

E o que é a filiação? A filiação é a certeza de que a nossa vida está fundada num amor incondicional. A nossa vida é amada de uma forma ilimitada. Não é hipotético, não é se, se, se… A nossa relação com Deus não é se nos portamos bem, Deus gosta de nós. Ou, se nos comportarmos bem, vamos para o céu. Não, a nossa relação com Deus é a relação de um amor incondicional, a descoberta de que nada nem ninguém nos pode separar desse amor. E mesmo em relação aos pecados, na noite da Páscoa, nós cantamos: “Feliz pecado que te deu a conhecer tal Redentor.” Então, de facto, a experiência de filiação que Jesus nos vem revelar é a experiência de uma filiação infalível, indestrutível que nós descobrimos como código da esperança, tatuado no nosso coração e que já não se pode apagar mais.

Mas Jesus partiu. Ficou-nos a Sua palavra, a Sua presença eucarística. Como é que nós hoje descobrimos Deus vivo na história? Descobrimos através do Espírito Santo que é este Deus, é esta presença de Deus que o Pai e o Filho enviam a assistir aos crentes ao longo da história. E como é que o Espírito Santo se traduz na nossa vida? Traduz-se através da multiplicidade dos dons, desta confiança esparsa, espalhada, infundida, radicada em cada um de nós mas também através daquilo que nós descobrimos que é possível. Porque, se calhar, nós temos mais competências, mais capacidades, há mais potencialidades em nós do que nós pensamos. E, se calhar, ficamos a vida toda a achar que não somos capazes disto e daquilo, que os milagres não são para nós. E, se calhar, os milagres estão na ponta das nossas mãos, estão no interior das nossas palavras, estão nessa capacidade de revitalizar, de acordar a vida, de afirmar que a vida é maior do que a morte, de cuidar, de curar, de transformar a história. Isso é o Espírito em ação, o Espírito em atividade.

O Espírito Santo é dado a mulheres e homens que não têm uma vida isenta, não têm uma vida neutra. É muito duro e muito belo aquilo que nos é descrito por S. João, nesta cena que nós lemos para este dia de Pentecostes.

Os Apóstolos estão reunidos, com as portas fechadas, com medo dos judeus. Quer dizer, eles não estão numa atitude de confiança, leve de coração. Não, estão afundados no seu medo, na intranquilidade, no “ Ai, ai! O que é que vai ser agora?”, no “Não sabemos“, no “Não estamos a ver como é que vamos prosseguir o caminho.” Estava tudo fechado no medo. E Jesus vem, atravessa o medo deles, perfura o medo deles e diz: “ A paz esteja convosco.” E mostra-lhes as feridas, as próprias feridas e o lado. Quer dizer, nós não vamos receber o Espírito Santo para lá das nossas feridas. Se não tivermos feridas recebemos o Espírito Santo, não é isso.

É a mulheres e homens feridos, feridos pela vida, pelos lutos múltiplos, pelos sofrimentos, pela fragilidade, até pela própria imperfeição, pelo inacabamento que Jesus vem. É a mulheres e homens feridos que Jesus vem dizer: “A paz esteja contigo.” E é a estas vidas que se calhar não vêem bem como é que podem prosseguir: “E agora? Como é que vai ser? Não vemos claro como é que possa ser o passo seguinte, o dia seguinte, a estação seguinte da nossa vida.” É a esses, que somos nós, que Jesus vem e sopra, sopra. E esse sopro, faz uma citação do primeiro momento da criação em que Deus amassa o Homem da fadiga do barro, da fragilidade da terra, e sopra nas narinas e o Homem vive. E agora Jesus também na fadiga da nossa existência, na sua interminável fragilidade.

Jesus vem e não diz: “Acabou a fragilidade, acabaram as lágrimas, acabou o medo.” Não diz nada, mas sopra sobre nós. E este sopro que cada um de nós recebe é que nos dá a capacidade de entender, de compreender de uma outra forma. Se calhar a grande mudança, a grande transformação é também um exercício de compreensão, uma abertura do nosso olhar, uma capacidade de entender. É interessante que os Atos dos Apóstolos contam o Pentecostes como uma capacidade de tradução. O Espírito Santo é o grande tradutor dos acontecimentos, cada um fala numa língua diferente mas eu sou capaz de entender a diversidade das línguas com que a vida me fala e essa capacidade hermenêutica é um dom que o Espírito Santo nos dá, é o Espírito Santo em ato, em nós.

Queridos irmãs e irmãos, recebamos o Espírito Santo. Este Espírito que é múltiplo, múltiplo. Um cristão tem de ser singular. Cada um de nós tem de viver a fé na sua criatividade, a fé também é fantasia de acreditar. A fé também é um exercício de imaginação. Nós temos de ser diferentes. Temos de receber o Espírito Santo e fazer com Ele a nossa viagem, o nosso caminho.

O Espírito Santo é o contrário do cinzentismo, é o contrário da formatação, é o contrário do tudo igual, da diluição no mesmo que tantas vezes é uma tentação. Não, o Espírito Santo é esta unicidade, é esta diversidade, é esta polifonia. E, ao mesmo tempo, é percebermos que a diferença não é um obstáculo ao encontro. Mas é nas nossas diferenças, na nossa diversidade que podemos criar um corpo, que podemos criar uma orquestra. Que é uma imagem que S. Paulo também usa, no capítulo 14 da carta aos Coríntios: podemos ser uma flauta, um címbalo, uma harpa e todos juntos nos encontrarmos para tocarmos a seu tempo, com as linguagens aproprias de cada um, tocarmos a mesma peça. E assim, enchermos o mundo de esperança, mostrando que é possível.

Quanta alegria nos é possível?

«Na plenitude da alegria pascal, exultam os homens por toda a terra…»: durante os cinquentas dias entre a vigília pascal e o Pentecostes, o prefácio da oração eucarística da missa convida-nos diariamente a viver a alegria da ressurreição. Uma alegria universal que deveria envolver toda a humanidade. «Alegrai-vos e exultai», exortava-nos o papa Francisco há três anos, ao citar as palavras de Jesus dirigidas «a quantos são perseguidos ou humilhados por causa dele» (“Gaudete et exsultate”, 1). toda a liturgia é um convite constante a fazer festa: do “Exsultet” da grande vigília ao canto do “Regina coeli”.

Podemos perguntar-nos se em tudo isto não há retórica a mais. O que é esta «plenitude da alegria que canta o prefácio? Quanta alegria é possível verdadeiramente experimentar «neste vale de lágrimas»? Qual é a felicidade a que podemos realisticamente aspirar nas contradições da vida? A humanidade que deveria exultar sobre toda a Terra continua ferida e sofredora. As catástrofes naturais continuam a acontecer, e para populações inteiras as carestias não são uma recordação do passado. As guerras recomeçam sempre, apesar do empenho de muitos construtores de paz. Os acidentes nas estradas acontecem e os casamentos falham. O mal não cessa de morder a carne dos mais frágeis, nas formas mais diversas, mas também não poupa ricos e poderosos. É possível, é lícito a alegria nestas condições? Não se trata de uma alegria falsa, forçada, ou que no máximo abrange apenas poucos momentos da vida ou um restrito número de afortunados?

Sim, ainda não está tudo bem, mas a alegria cristã não é um sonho para gente iludida. Estamos nas mãos de Deus. Sempre. «Alegra-se o meu coração e exulta a minha alma: (…) porque não abandonarás a minha vida nos infernos…». Eis a fonte da verdadeira alegria pascal, a viver em plenitude.

A alegria cristã existe, e é autêntica. Precisamos dela precisamente para enfrentar os compromissos e os cansaços da vida, como ensinava às suas irmãs Santa Teresa de Calcutá. Mas não é uma alegria excessiva, impudente, agressiva. Não solicita manifestações eufóricas e intemperantes. Manifesta-se na luz dos olhos, mas brota e permanece no íntimo. É alegria incontida, mas moderada. É inebriamento sóbrio e espiritual. É uma felicidade visível, mas nunca ostentada. Não suscita a inveja dos sofredores: antes, consola-os e contagia-os. A alegria cristã não é cega diante das dores da vida. Não é otimismo obstinado e obtuso, nem voluntária autoilusão. Não se contenta com um pensamento cor-de-rosa perante o persistente mal de viver. O ano passado ouvimos repetir, como um mantra, «correrá tudo bem», e nas redes sociais partilhavam-se fotografias coloridas e tolas. Tentativas miseramente fracassadas de exorcizar o medo. Não correu tudo bem. Muitas pessoas adoeceram e muitas morreram. Muitíssimas sofreram pesadíssimos danos económicos. E ainda não acabou. Os males do mundo não são apenas a pandemia.

Contudo, tudo isto não prejudica a verdadeira alegria cristã. Podemos, devemos, continuar a entoar o aleluia pascal. Porque, como cantava Leonard Cohen, «love is not a victory march: it’s a cold and it’s a broken “Halleluja”». A exultação pascal é filha do amor, e o amor, quando verdadeiro, não é uma marcha triunfal. Ainda não, por agora. O amor é empastado de felicidade e de sacrifício, em simultâneo, incindivelmente. O tempo da História é ainda o tempo de um aleluia muitas vezes «frio e despedaçado». Um aleluia firmemente desejado, consciente, ferido pelas provações da vida, e todavia pleno de confiança, porque animado por uma esperança invencível. Porque é um fio estendido entre a certeza histórica da ressurreição de Jesus e a espera escatológica da nossa ressurreição. A alegria cristã radica-se no “já” do acontecimento pascal – o túmulo vazio – e estende-se até ao «não ainda» das bodas do Cordeiro. Aquele túmulo vazio é profecia da Jerusalém celeste, quando finalmente «all shall will be well, and all manner of thing shal be well», como Juliana de Norwich ouviu dizer-lhe do Senhor Jesus.

Sim, ainda não está tudo bem, mas a alegria cristã não é um sonho para gente iludida. Estamos nas mãos de Deus. Sempre. «Alegra-se o meu coração e exulta a minha alma: (…) porque não abandonarás a minha vida nos infernos…» (Salmo 15). Eis a fonte da verdadeira alegria pascal, a viver em plenitude. Esta certeza de fé torna possível e lícito cantar o aleluia também nos claros-escuros do presente. Melhor: não só é lícito, como é «nosso dever, é nossa salvação».

Filippo Morlacchi in L’Osservatore Romano

Aleluia!

Aleluia! Cristo Ressuscitou!

Jesus Cristo ressuscitou!

Celebramos a Páscoa, a festa da Vida.

Celebramos Jesus que está vivo no meio de nós.

Celebramos a ressurreição, a eternidade e o cosmos.

Celebramos a esperança, a fé e a alegria.

Celebramos a primavera, o sol e os passeios.

Celebramos a contemplação, a criação e o pão.

Celebramos os dias, o encontro e a claridade.

Celebramos a poesia, os rios e os olhares.

Celebramos o canto, as nuvens e os desafios.

Celebramos o horizonte, o riso e a aventura.

Celebramos a luz, o eco e a liberdade.

Celebramos as manhãs, o mar e a auto-estrada.

Celebramos a animação, o encanto e as estrelas.

Celebramos a partilha, as viagens e os gelados.

Celebramos a música, a água e o pôr-do-sol.

Celebramos a descoberta, a alfazema e as escaladas.

Celebramos o acreditar, a beleza e o entusiasmo.

Celebramos as cores, a saúde e a amizade.

Celebramos as nascentes, a brisa e as aldeias.

Celebramos o azul, a terra e a dança.

Celebramos a passagem, a juventude e os aniversários.

Celebramos as montanhas, o movimento e o amanhã.

Celebramos o tempo, os pais e os irmãos.

Celebramos as decisões, as alturas e a mudança.

Celebramos a coragem, os sonhos e as casas.

Celebramos as portas, as janelas e os sótãos.

Celebramos os grupos, a conquista e a criatividade.

Celebramos a originalidade, o equilíbrio e a comunidade.

Celebramos as horas, a diversidade e a confiança.

Celebramos a educação, a sensibilidade e a palavra.

Celebramos os objetivos, a qualidade e a elevação.

Celebramos o trabalho, a organização e a responsabilidade.

Celebramos os livros, o pensamento e a comunicação.

Celebramos o compromisso, a atualização e o crescimento.

Celebramos o silêncio, a maturidade e a renovação.

Celebramos a reflexão, a força e a serenidade.

Celebramos a comunhão, a simplicidade e a oração.

Celebramos o caminho, a verdade e a vida.

Celebramos o amor.

Celebramos a paz.

Celebramos o Homem.

Celebramos Jesus.

Celebramos para sempre.

Aleluia! Aleluia! Aleluia!

Jorge, Páscoa de 2010