Laços de família

Reflexão para o mês de fevereiro de 2024

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

 “Todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (do Evangelho segundo São Mateus 12, 50)

A qualidade da fotografia que acompanha este texto é inversamente proporcional à alegria e ao amor que fizeram com que ela acontecesse. Onde muitos poderão ver uma imagem muito pouco cuidada para ser exposta em redes públicas, eu vejo uma memória feliz de um encontro com a família à qual tenho a graça imensa de poder chamar de minha. Por isso, este é um texto de profunda gratidão. Pela minha vida vivida no meio de uma irmandade luminosa, pelo Amor com que amo e sou amada, pela alegria de acreditar num Deus que torna possível cada dia com que me vai presenteando. Pelos momentos felizes que me fazem rir e cantar e pelos momentos dolorosos em que me descubro capaz de ser forte no meio das minhas tantas fragilidades e onde sei que nunca estou sozinha. Este é também um texto de agradecimento imenso. Por estar rodeada de uma comunidade que personifica a presença do meu Deus e me faz acreditar que é o Amor que nos impede de cair na indiferença e na futilidade. Este é ainda um texto de reconhecimento. Por poder usar as palavras para construir propostas de caminhos, por viver em confiança plena com quem vai comigo, por partilhar esta dimensão espiritual comunitária e vivê-la em comunhão.

Nesta fotografia que convosco partilho está uma parte da família de Deus. Sim, nós somos família. Em Deus e por Deus. Pertencemos uns aos outros e comprometemo-nos a ser quem somos uns com os outros. Todo aquele com quem compartilhamos o nosso crescimento faz família connosco. Uns há já muitos anos, outros mais recentemente, mas todos escolhemos fazermo-nos família. E vamos partilhando vida, acontecimentos, histórias, horários, eventos. Fazemo-nos presentes no presente de cada dia nosso. E assim vamos sendo o resultado de tudo o que cada um de nós é. Somos esta família porque Deus nos uniu e nos chamou a ser. E nós tivemos a graça feliz de podermos, em determinado momento das nossas vidas, estarmos disponíveis para perceber esse chamamento. Nas nossas escolhas feitas, fomo-nos pondo assim no caminho uns dos outros. Ao que uns chamam acasos ou coincidências da vida, nós chamamos sinais da presença de Deus. Um Deus que se fez presente num convite para um encontro de catequese, numa vontade de ir cantar para um coro, numa curiosidade em participar num grupo da paróquia, num desejo de prosseguir uma caminhada espiritual, num chamamento depois de participar numa Eucaristia. E assim nos fomos encontrando na nossa Estrada Clara.

Ser família de Deus é aceitar viver em encontro, encontro este que ultrapassa fórmulas, papéis, funções. Ser família de Deus é falar a linguagem da irmandade, da cumplicidade, da relação. Ser família de Deus é acreditar que somos abraçados, que somos escutados, que a nossa história importa, que a nossa vida é conhecida e amada, seja qual for a sua circunstância. Ser família de Deus é saber que Ele vem ao nosso encontro e nos procura. Ser família de Deus é colocar os talentos que recebemos ao serviço do(s) Outro(s) e vê-los a serem multiplicados e fecundos. Ser família de Deus é deixarmo-nos cuidar e sermos também cuidadores tantas vezes do corpo e muitas vezes da alma.

Nem sempre é fácil pertencer a uma família destas. É exigente, baseia-se numa mensagem que nem sempre é aceite e não nos protege das montanhas-russas da vida. Por vezes, aparecem as dúvidas, as tempestades, as incertezas. Mas também e muitas mais vezes aparecem a vontade de seguir viagem de mãos dadas, a alegria incalculável de uma gargalhada partilhada, o abraço reconfortante que sabe sempre a casa quente e acolhedora. O lugar onde Ele está. O lugar onde nós queremos estar. A relação com os outros também faz parte da descoberta que vamos fazendo de nós próprios, interpela-nos, questiona-nos, faz-nos agir na construção de quem somos.

“Todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe». Foi esta a resposta dada por Jesus à pergunta que Ele próprio lançou sobre quem seriam a sua mãe e os seus irmãos. A leitura desta passagem do Evangelho pode causar uma certa estranheza a quem a lê na diagonal ou desconhece o seu contexto. É óbvio que Jesus não nega os seus familiares, pois tal não seria concebível na cultura judaica na qual ele próprio se inseria. Também não pretende levantar nenhuma dúvida no que concerne às relações de consanguinidade de Jesus. O que esta passagem nos mostra é, na realidade, algo bem mais simples, mas simultaneamente grandioso. O que as palavras de Jesus revelam é a grande graça que o Cristianismo nos oferece de nos reconhecermos a todos como irmãos. De facto, não há Cristianismo sem irmandade, não há história da salvação sem comunidade. Quem se afirma cristão vive com um coração permanentemente alargado e com a disponibilidade para amar sempre ativada. Jesus nasceu para nós e com Ele nasceu também a nossa condição de irmãos seus. Esta é uma das grandes maravilhas que o Cristianismo nos oferece – a de podermos viver em irmandade, em relação, em comunidade com o(s) Outro(s).

Não há Cristianismo sem relação. Não há um Nós sem um Tu e Eu. Não há Igreja sem as pequenas comunidades que a constituem. Não há espiritualidade sem ação. O coração de um Cristão estende-se, alarga-se, amplia-se para viver com os que são seus irmãos na fé, numa partilha de amor, de dádiva, de entendimento. O Cristão é, por excelência, o peregrino do encontro, a personalização de um abraço que acolhe, a mão sempre estendida para ajudar.

Jesus faz-nos irmãos ao revelar-nos o quão amados nós somos pelos irmãos que Ele colocou nas nossas estradas. Somos irmãos na medida em que, todos os dias, somos aqueles que vão a caminho, em peregrinação, uns com os outros. Que possamos escolher, em cada dia, sermos Evangelhos vivos, sermos lugares de esperança e de acolhimentos, sermos Amor.

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