Arquivo mensal: Fevereiro 2026

Quaresma, oficina de Deus em nós

Mensagem para a Quaresma 2026

Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

A Quaresma começa, muitas vezes, com listas: o que vou cortar, o que vou fazer, o que vou cumprir. Mas Deus começa num outro lugar. Começa no nosso espaço interior onde ainda não sabemos bem como mudar. A Quaresma não é um teste de força espiritual. É um treino de disponibilidade, onde não medimos o que somos capazes de fazer, mas sim o que permitimos que Deus faça em nós.

A Quaresma pede-nos conversão, transformação. Deixar-se transformar é consentir que Deus trabalhe no invisível, como fermento na massa, como seiva no tronco. A conversão é um convite em aberto para que a mente, tantas vezes cansada de ruídos, de opiniões, de defesas e de comparações, reaprenda a ver com simplicidade, a amar sem julgamentos, a confiar sem medos. Talvez o maior obstáculo que experimentamos seja o das narrativas interiores que nos dominam: “eu sou assim”; “já não consigo”; “não vale a pena tentar”. A transformação interior começa quando estas frases perdem autoridade, quando deixamos de as tratar como destino e apenas as aceitamos como provisórias. Deixar-se transformar é permitir que Deus nos ame para além da imagem que defendemos de nós próprios. É acreditar que Ele vê possibilidades onde nós vemos limites, vê futuro onde vemos repetição, vê vida onde vemos desgaste. Converter-se não é rejeitar quem fomos, mas sim permitir que não sejamos reduzidos a apenas isso e dar permissão a Deus para rever significados, curar memórias e desalojar ideias antigas sobre quem somos e o que valemos.

Quaresma. Oficina de renovação. Lugar escondido onde Deus trabalha. Espaço onde Ele não nos tira a nossa identidade, mas devolve-a. Onde Ele ajusta intenções e aplana as veredas. Onde Ele fortalece o que somos chamados a ser.

Nesta Quaresma, não procuremos a nossa melhor versão. Procuremos, antes, um coração atento e ofereçamo-nos por inteiro. É a partir daqui que Deus age em nós. Que esta Quaresma não termine numa meta de perfeição, mas numa disponibilidade nova, deixando que a conversão continue para lá do calendário.

Perdão, Sentido e Transcendência

A Logoterapia de Viktor Frankl em diálogo com a Fé Cristã

Ao longo destes três anos de encontros “Falar para CRER”, fomos aprendendo, juntos, que a fé cresce quando encontra palavras, quando se deixa escutar e quando se arrisca a tocar a vida real. Cada encontro foi um espaço seguro onde pudemos pensar a fé, rezá-la e confrontá-la com as nossas perguntas mais humanas. Não trouxemos respostas prontas, mas criámos caminhos. Não evitámos as fragilidades, antes aprendemos a habitá-las à luz do Evangelho. Nestes encontros, confirmámos algo essencial: crer não é fugir da vida, mas mergulhar nela com mais verdade, mais liberdade e mais esperança.

Por isso, continuamos neste nosso caminho comum e neste mês em que se assinalam três anos de encontros “Falar para CRER”, a Comunidade Estrada Clara, em colaboração com a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição (Matriz), propõe um ciclo de formação, em dois momentos, que aborda a dimensão do perdão na vida humana. Partindo da Logoterapia de Viktor Frankl, que nos convida a descobrir um propósito mesmo nas situações de sofrimento, esta formação será vivida em diálogo com a mensagem cristã do perdão. O perdão não apaga a dor, mas pode transformar o coração, libertando-nos do peso do ressentimento e abrindo-nos à esperança e renovando o nosso propósito de vida. Ao longo destes dois encontros, seremos convidados a refletir, partilhar e meditar, descobrindo como o perdão pode tornar-se um verdadeiro caminho de liberdade interior, reconciliação e vida com sentido.

Esta formação destina-se a todos os que se quiserem juntar a nós, independentemente da idade ou percurso de fé, e pretende ser um tempo de crescimento humano e espiritual, vivido em comunidade que somos, certos de que a fé amadurece quando se deixa tocar pela verdade da nossa história.

Dia da Vida Consagrada 2026

Dia da Vida Consagrada. Um dia que fala de entrega, de disponibilidade, de vidas colocadas diante de Deus sem reservas. Um dia que nos convida a olhar para trás com gratidão, para o presente com verdade e para a frente com esperança.

Esta foi a nossa escolha, minha, da Beatriz e do Jorge há já muitos anos. Por isso, este dia vai ser sempre um dia celebrado e lembrado a três. Três histórias, três percursos, três formas de escutar Deus, e uma intuição comum: a vida só faria sentido se fosse entrega. Quando nos comprometemos, não sabíamos exatamente como seria esse caminho. Sabíamos apenas que não queríamos guardá-lo para nós. Desde então, temos vindo a aprender a viver com as mãos abertas, com entusiasmos e com medos. Dias há em que a estrada parece clara e outros em que avançamos apenas porque confiamos em Quem caminha connosco. O nosso compromisso não nos poupa às dúvidas nem aos cansaços, mas dá-nos um lugar onde permanecer quando tudo parece instável. A nossa comunidade é a casa onde aprendemos que a fidelidade se constrói em relação e onde a esperança cresce quando é partilhada. Aqui, o nosso compromisso deixa de ser apenas uma decisão pessoal e torna-se um caminho feito a várias vozes.

Ao celebrar este Dia da Vida Consagrada, olho para o futuro com confiança para viver, da melhor forma possível, desafios, mudanças, fragilidades. Porque a vida entregue continua a gerar vida. Porque Deus não termina aquilo que começa. Porque o nosso “sim” dito um dia continua a abrir possibilidades que ainda não conhecemos. Há ainda muito caminho por fazer. Muitas vidas por encontrar. Muitas formas novas de servir e amar que nós ainda não imaginamos.

Agradecer este dia é voltar a colocá-lo no presente. É dizer outra vez, com a nossa vida toda, que continuamos disponíveis para toda a vida. Por isso, hoje, não celebramos perfeições nem metas alcançadas. Celebramos a graça de continuar a caminhar juntos. Celebramos a luz que não se apaga, mesmo quando é pequena. Celebramos a fidelidade possível, sustentada pela comunidade e pela certeza de que Deus permanece fiel primeiro.

Ana

Oração ao Tempo

Reflexão para o mês de fevereiro de 2026

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Neste mundo, tudo tem a sua hora; cada coisa tem o seu tempo próprio.” (do Livro do Eclesiastes)

Sempre gostei muito do “Poema do Tempo” que vem no livro bíblico do Eclesiastes. Sabia que, um dia, haveria de escrever um texto sobre esta bela passagem que nos expõe, com simplicidade e delicadeza, ao conceito do tempo como uma arte singular. Acontece também que, por estes dias, foi tornado público o dueto que une Caetano Veloso e António Zambujo com a lindíssima canção “Oração ao Tempo”, um tema original do próprio Caetano, tema este escrito, curiosamente (ou não!) em 1979 (ano do meu nascimento!). Portanto, impelida por tantos sinais, percebi que era chegado o tempo próprio de refletir sobre… o próprio do tempo!

Somos feitos de tempos, de idades, de estações. Somos moldados e transformados pelo tempo que vai fluindo e emergindo em nós e nos outros. Ao mesmo tempo, vivemos uma relação tensa com o tempo. Queremo-lo rápido quando dói, lento quando é feliz, previsível quando nos assusta. Habitamos uma época que tem muitas dificuldades em esperar. A rapidez tornou-se critério de valor e a lentidão é frequentemente confundida com fracasso. Usamos e abusamos daquele ditado antigo que nos diz que o tempo voa. Por causa disto, consumimos desenfreadamente, sem saborear a própria vida que cheia está de detalhes que não se revelam a quem não seja sensível ao tempo. Dizemos inúmeras vezes que não temos tempo e outras tantas vezes damos por nós aborrecidos com o tempo que nos sobra. Que tenho eu feito, afinal, deste tempo que me é dado? Como posso eu ser instrumento deste tempo que me habita? Quem sou eu neste tempo da minha história?

Este poema bíblico ao Tempo reconhece a ambiguidade do próprio tempo e não nega a sua complexidade. De uma forma clara, enfatiza, em cada verso, que “tudo tem o seu tempo”, isto é, um tempo próprio, um “kairós”, um tempo oportuno que, muitas vezes, não coincide necessariamente com a nossa urgência interior. E é precisamente aqui que a fé que escolhemos assume uma importância vital. Deus nunca é indiferente à nossa história e acreditar nisto é viver o tempo com o coração no lugar certo.

Diz-nos o autor sagrado que há um tempo para construir e para destruir, para chorar e para dançar, para guardar silêncio e para falar. A vida não se move numa linha reta de progresso contínuo, mas num ritmo feito de avanços e recuos, de luz e de sombra. E Deus não está ausente de nenhum desses momentos. Na perspetiva cristã, o tempo deixa de ser apenas sucessão para se tornar, acima de tudo, relação. Deixa de ser apenas cronologia para se tornar história da salvação. Deus também entra no tempo. Faz-Se criança, cresce, espera, cansa-Se, sofre. Ao fazê-lo, santifica cada etapa da vida humana. Nada fica fora: nem os começos confusos, nem os meios cansados, nem os fins que carregam medo. Deus age dentro do tempo. A encarnação é, sem dúvida, a maior declaração de confiança no tempo humano.

Há um tempo para procurar e um tempo para perder. E perder também é parte do caminho espiritual, ainda que nos custe, tantas vezes, admiti-lo. Perdem-se certezas, imagens de Deus demasiado perfeitas e inatingíveis, projetos que julgávamos definitivos. Mas, muitas vezes, é precisamente nessas perdas que se abre espaço para uma fé menos ingénua e mais verdadeira, mais adulta e inteira.

Há um tempo para chorar e um tempo para rir. A fé não nos pede que saltemos etapas emocionais em nome de uma espiritualidade mal entendida. Jesus chorou. Esperou. Angustiou-Se. O tempo da fragilidade também é tempo habitado por Deus. E alegria que experimentamos é fruto de um sim para uma vida maior.

Talvez o maior desafio seja aceitar que nem todos os tempos são produtivos. Há tempos estéreis, aparentemente inúteis, onde nada parece avançar. Mas a lógica do Reino não é jamais a da eficiência. É sempre a da fidelidade. Permanecer, mesmo quando não se vê fruto, também é oração. A nossa relação com o tempo põe em evidência a nossa impaciência espiritual. Queremos compreender antes de viver, resolver antes de atravessar, fechar capítulos antes de os termos lido até ao fim. Mas a fé amadurece no intervalo, nesse espaço desconfortável onde ainda não se vê claramente e, mesmo assim, se continua a caminhar em confiança. A fé não nos protege do imprevisível e das dificuldades, mas oferece-nos uma forma diferente de os habitar. “O tempo de Deus” não é mágico nem irreal. Acontece no quotidiano, no que se passa entre o que desejamos e o que conseguimos viver. Acontece quando, apesar da impaciência, escolhemos confiar. Quando deixamos de perguntar “quando é que isto passa?” e começamos, timidamente, a perguntar “o que é que isto me pede?”.

Oração ao Tempo. Rezar o tempo é aprender a entregá-lo. É vivê-lo como lugar de encontro, não o desperdiçando com medo do futuro nem com a nostalgia do passado. Oração ao Tempo. Se tudo tem o seu tempo, então este agora, com as suas perguntas, limites e possibilidades, é também o tempo de Deus na nossa história. Procuremos uma reconciliação profunda com o tempo para podermos ver cada dia como uma epifania de Deus. A nossa vida está cheia deste tempo. Tratemos dele como quem cuida de um tesouro e vivámo-lo com gratidão e esperança. Cantemos este tempo, celebremos a experiência única e irrepetível da nossa temporalidade.