A reflexão de Maria Madalena
(a partir do Evangelho do dia – Mt 28, 1-1, 10)
“Jerusalém estava silenciosa, como se a cidade inteira tivesse necessidade de dormir depois do peso daqueles últimos dias. Ainda era escuro quando saímos. Caminhávamos depressa, eu e a outra Maria. Cada uma guardava a sua dor. Levávamos aromas nas mãos. Era o último gesto de cuidado que podíamos oferecer. Quando alguém morre, o amor encontra sempre pequenas formas de permanecer: preparar perfumes, aproximar-se do túmulo, ficar um pouco mais.
Mas dentro de mim havia uma pergunta que me inquietava: quem iria remover a pedra? Parecia impossível! Era grande demais, pesada demais. Como certas dores que se instalam firmes no coração…
De repente, tudo aconteceu depressa demais para compreender. O anjo, a pedra removida, o túmulo aberto… e um vazio que não era vazio como eu imaginava. Porque a ausência dele ali não era sinal de morte. O anjo falou, mas confesso que naquele momento as palavras chegavam até mim como se viessem de muito longe. “Não está aqui. Ressuscitou.”
Ressuscitou! Essa palavra parecia grande demais para caber no meu entendimento. Eu sabia o que era perder, sabia o que era chorar diante de uma cruz, sabia o que era ver o corpo de alguém amado descer para o silêncio do sepulcro. Mas isto… isto era outra coisa! O meu coração batia depressa demais para acompanhar os pensamentos. E então Ele apareceu! Aquela voz era a mesma que me tinha resgatado dos meus infernos. Caímos as duas aos seus pés. Segurei-os com as mãos com medo de perder novamente aquilo que encontrou. Ele disse-nos para não termos medo. É curioso… porque o medo ainda estava ali, misturado com uma alegria que eu não sabia explicar. Depois pediu-nos algo simples: ir dizer aos outros.
E foi assim que começou a manhã de Páscoa. Com duas mulheres a correr por um caminho de Jerusalém, com o coração cheio de uma notícia quase impossível de acreditar: a morte não teve a última palavra. E desde esse momento sei que nenhuma noite é verdadeiramente a última!”
🖋 Ana Luísa Marafona
