Arquivo mensal: Maio 2026

Dia da Mãe 2026

“A coisa mais parecida com os olhos de Deus são os olhos de uma mãe.” (Cardeal José Tolentino Mendonça)

Hoje é dia de parar um pouco para olhar para todas as mães e não apenas para as que o são de forma biológica, mas para todas aquelas que, de algum modo, geram vida à sua volta.

Há mães que são palavras que se escutam no momento certo. Há mães que são presentes oferecidos toda a vida. Há mães que são histórias de amor multiplicado.

Ser mãe é descobrir que o coração cresce de formas inesperadas, que vive fora do corpo, que aguenta, que recomeça. Como Maria, tantas mães caminham sem mapas, confiando mais na vida do que nas respostas. Nem sempre compreendem o caminho, mas continuam. Nem sempre têm certezas, mas permanecem. E é nesse permanecer, tantas vezes discreto, que se revela uma força que é imortal.

Há uma beleza escondida nas mães que fazem do quotidiano um lugar de amor, nas que transformam pequenas coisas em abrigo, nas que sabem que um olhar pode salvar, nas que, mesmo quando não são vistas, continuam a ser o lugar onde pertencemos. Hoje é dia de agradecer esta forma tão concreta e tão misteriosa de amar.

Um abraço cheio de gratidão à minha MÃE, por tudo o que me tem dado e pelo que me ajudou e ajuda a ser, por tudo o que foi e é presença vital na minha vida.

Um abraço a todas as MÃES da nossa Comunidade Estrada Clara, às que caminham connosco, às que nos acompanham de longe e às que já vivem na paz de Deus, mas que continuam tão intensamente presentes.

Feliz Dia da Mãe a todos os que são filhos e mães, porque este dia só pode existir porque existe a maior de todas as relações – a do Amor!

Ana

Sinais dos Tempos

Reflexão para o mês de maio de 2026

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Sabeis interpretar o aspeto do céu, mas não sabeis interpretar os sinais dos tempos?” (do Evangelho segundo São Mateus)

Esta passagem do Evangelho de Mateus surge num ambiente de confronto. As autoridades religiosas da época, no seu orgulho, pediam a Jesus um “sinal do céu”, ou seja, uma prova incontestável da sua autoridade divina. Este pedido não era neutro: na tradição judaica, sinais celestes estavam associados a manifestações diretas de Deus na história. No entanto, ao longo do seu ministério, Jesus já realizara inúmeros sinais (curas, milagres e ensinamentos) que apontavam para a presença do Reino de Deus. Por isso, Jesus chama a atenção para o facto de os seus contemporâneos serem capazes de prever o tempo, observando o céu, mas revelarem-se incapazes de reconhecerem que o maior sinal de todos os tempos, o próprio Filho de Deus, já estava diante deles.

Também nós, tal como aqueles fariseus, orgulhamo-nos de saber interpretar muitas coisas: as mudanças climáticas, as tendências políticas, os gráficos económicos, as oscilações tecnológicas. E ainda bem! Mas Jesus convida-nos – tal como o fez no seu tempo – a algo mais profundo, a ler a presença de Deus no quotidiano, no que acontece à nossa volta.

Então, o que significa, hoje, interpretar os sinais dos tempos? Significa viver com atenção ao que está a nascer, mas também a morrer na nossa sociedade, nas nossas relações, no nosso coração. Significa olhar para as mudanças do mundo não com medo, mas com discernimento e serenidade. Ler os sinais dos tempos implica perguntar: “O que é que Deus me quer dizer através disto?”.

O nosso tempo exige que vivamos os problemas que surgem como desafios, e não como obstáculos. Ler os sinais dos tempos pressupõe uma atenção profunda à realidade para perceber a complexidade do presente, ligando o interior com o exterior e com o que vai acontecendo no mundo. Para nós cristãos esta leitura da vida implica sabermos usar a sabedoria que nos é dada pelo Espírito Santo para sermos capazes de discernir o que está a acontecer e, à luz do Evangelho, compreender a vontade de Deus para cada um de nós e para o mundo onde habitamos. É um convite que nos é feito para reconhecer nos acontecimentos atuais o caminho sempre novo e impactante da misericórdia e da fraternidade.

Os sinais dos tempos são, muitas vezes, subtis, discretos. Por isso, exigem de cada um de nós uma atenção própria e a disponibilidade permanente de um coração que se alarga sempre pelo amor. Há sinais nos ritmos das nossas vidas: quando uma inquietação regressa, vezes sem conta, como quem bate à porta e não desiste; quando uma palavra, ouvida quase por acaso, fica a ecoar dentro de nós; quando uma alegria inesperada abre uma brecha de esperança num dia comum. Há sinais nos encontros: pessoas que nos desinstalam, que nos fazem perguntas que não estávamos à espera, que nos mostram caminhos novos. Há sinais também nas feridas: no que dói, nas ausências, no que parece não fazer sentido, também aí Deus se revela para que nos aproximemos d’Ele com mais verdade.

Os sinais dos tempos raramente são claros à primeira vista; na realidade, são quase sempre ambíguos e, por vezes, até bastante desconcertantes. Um fracasso pode ser sinal de um caminho que precisa de ser abandonado para que se inicie algo novo e verdadeiro. Uma perda pode ser apenas dor ou um lugar onde se aprender a amar de outra forma. Uma espera pode parecer estagnação ou um tempo de gestação silenciosa.

Interpretar os sinais dos tempos é recusar a superficialidade do imediato. É aceitar que a vida precisa de espaço, de tempo, de disponibilidade para ser vivida em plenitude. É preciso habitar as situações e permanecer nelas o tempo suficiente para que revelem a sua essencialidade. E esta forma de leitura que Jesus nos traz contradiz a lógica da pressa com que tendemos a viver. Queremos respostas imediatas, direções claras, certezas firmes. Mas Deus parece preferir processos e caminhos que se vão iluminando passo a passo. Aceitar esta pedagogia é, então, reconhecer os sinais dos tempos. É aceitar que nem tudo é evidente, mas que a presença e a fidelidade de um Deus que é Amor atravessa todos os momentos. É aprender a ler a própria vida não com critérios de sucesso ou fracasso, mas com a pergunta mais profunda: onde é que Deus está aqui, nisto que nos acontece? E esta questão muda tudo e ajuda-nos a saber que Ele nos conduz. A fé vive-se neste espaço da confiança e prepara-nos para saber viver o sentido maior da nossa existência.

Os sinais dos tempos são convites que Jesus nos faz a sair de onde estamos instalados, a olhar com mais profundidade, a confiar que há um sentido que nos precede e nos chama. Os sinais dos tempos não são enigmas a resolver. São um encontro a acolher. E só quem se dispõe a esse encontro – com tudo o que ele tem de incerto e de transformador – começa a compreender a presença sempre presente de Deus em cada detalhe das nossas vidas.

No fundo, talvez o maior risco não seja o de não vermos sinais extraordinários, mas deixarmos de reconhecer o extraordinário que já habita o comum. Como aqueles que pediam um sinal do céu, também nós podemos ficar à espera de algo evidente, inequívoco e, nos entretantos, perder a presença tão viva e simples de Deus.

Há um Deus que continua a falar, não através de sinais espetaculares, mas por meio de gestos simples, de processos inacabados, de histórias que ainda estão a ser escritas. Deixemo-nos habitar pela confiança, discreta mas firme, para que o nosso coração se vá tornando capaz de ver, não apenas sinais no céu, mas Deus presente na terra, na vida, em nós.