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No bairro do Amor

Reflexão para o mês de outubro de 2026

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“O Reino de Deus está no meio de vós.” (do Evangelho de São Lucas)

Fomos, inevitavelmente, envolvidos, nos últimos dias pelas palavras e pelas melodias de Jorge Palma. De entre as inúmeras canções da sua autoria, gosto de ouvir a icónica “Bairro do Amor”. Ao voltar a escutá-la, dei por mim a recordar uma passagem do Evangelho de Lucas, “O Reino de Deus está no meio de vós.” Trata-se de uma resposta direta de Jesus aos fariseus sobre a natureza e o tempo da vinda do Reino. Na época de Jesus, os judeus viviam sob a opressão do Império Romano. Os fariseus e outros grupos esperavam um Reino de Deus político, triunfante e visível, liderado por um Messias militar que libertaria Israel de forma imperial. Ao ser questionado sobre quando esse evento glorioso aconteceria, Jesus altera radicalmente a perspetiva. Ele afirma que o Reino não pode ser medido por sinais astrológicos ou geográficos externos.

Quando Jesus anuncia este Reino, não está a apontar para um território com fronteiras, nem para uma realidade reservada a um dia distante. Está a falar de uma maneira nova de viver, onde Deus encontra espaço para reinar através do amor, da justiça, da misericórdia e da fraternidade. O contexto desta frase é um convite para viver o Reino no presente. Em vez de aguardar passivamente um reino futuro, os cristãos são chamados a construí-lo no “aqui e agora” por meio de ações que espelhem o Evangelho.

Jesus não nos diz que o Reino está longe, Ele diz-nos que está no meio de nós. E é precisamente aqui que Deus quer estar. No meio de nós, no meio da vida, no lugar do encontro, num espaço feito de portas e janelas, de histórias, de caminhos, onde há sempre a possibilidade de recomeçar. Um lugar onde o amor não elimina as fragilidades, mas não permite que elas tenham a última palavra. Este Reino acontece quando, no meio das nossas imperfeições, deixamos Deus transformar a maneira como olhamos e cuidamos de quem caminha connosco. Jesus fala-nos de um Reino que não precisamos de procurar fora da vida, porque é precisamente na vida, nas relações e nos encontros que este Reino acontece. No meio de nós. Não longe, não depois, não apenas quando a vida se normaliza. O Reino de Deus não é um lugar perfeito à nossa espera, mas sim uma construção inacabada, confiada a todos nós. Um lugar onde Deus está presente, mas onde ainda há muito por fazer para que esta Sua presença seja reconhecida.

Se acreditamos que este Reino está no meio de nós, então não somos apenas aqueles que o esperam; somos também aqueles a quem foi confiada a tarefa de o construir. Como cristãos que somos, é esta a nossa maior responsabilidade: tornar este Reino visível, no aqui e no agora, na forma como escolhemos viver. É por isso que o Reino de Deus não pode ficar apenas nas nossas palavras ou nas nossas orações. Tem de passar para a vida, para a forma como acolhemos quem chega até nós, como cuidamos de quem precisa, como tratamos quem pensa diferente e como nos comprometemos com quem continua à margem. Jesus não nos pede que esperemos por um mundo melhor; Ele confia-nos a tarefa de o começar a tornar possível. E é aqui que o Evangelho se torna exigente: quando percebemos que o Reino que tantas vezes pedimos na oração (“Venha a nós o Vosso Reino”) também depende daquilo que estamos dispostos a fazer para que ele venha. Pedimos que venha, mas será que lhe abrimos caminho? Pedimos um mundo mais justo, mas que lugar damos à justiça nas nossas escolhas? Pedimos amor, mas o que fazemos para que alguém se sinta amado?

O Reino de Deus não se constrói de uma só vez nem depende de gestos extraordinários. Cresce nas pequenas fidelidades do dia-a-dia, nos encontros que facilitamos, nas reconciliações que procuramos e na coragem de não desistir perante as adversidades. Constrói-se quando percebemos que a fé que nos une não nos junta apenas para estarmos juntos, mas para que, juntos, possamos tornar mais concreto este imenso amor de Deus. O Reino é de Deus, mas a sua construção passa por nós. O Amor precisa de um lugar para habitar, um lugar onde haja “sempre lugar para mais alguém”, onde se possam levantar “ondas de ternura em cada olhar” e onde “o Sol parece maior”.

Este é o bairro do Amor onde Jesus nos convida a morar. Um bairro onde ainda seja possível acreditar que o amor pode mudar a paisagem. Um bairro onde ninguém tenha de bater à porta duas vezes para ser acolhido, onde haja espaço para quem chega cansado, para quem se perdeu, para quem procura um lugar onde possa simplesmente ser.

O Evangelho e a canção encontram-se aqui: o amor precisa de um lugar para acontecer. E esse lugar somos nós. As nossas casas, as nossas comunidades, as nossas famílias, as nossas amizades, as nossas igrejas. É aí que o Reino ganha corpo, rosto e nome. É aí que reside a nossa tarefa mais bonita e mais exigente: fazer do lugar onde estamos um lugar onde o Amor possa estar.

Encontro em TI 2026/2027

“Encontro em TI” é o nosso encontro mensal de oração, aberto a toda a comunidade paroquial, que tem lugar na Igreja Matriz da Póvoa de Varzim, na primeira quinta-feira de cada mês. Durante uma hora, diante de Jesus Eucaristia, colocamos em oração a vida que somos, os caminhos que percorremos e a comunidade que, juntos, vamos construindo. É um tempo de encontro, de partilha e de recolhimento, onde cada pessoa é convidada a reconhecer a presença de Deus e a deixar-se encontrar por Aquele que nunca se cansa de vir ao nosso encontro.

Na Comunidade Estrada Clara, a oração não é apenas um momento da nossa caminhada: é o que lhe dá sentido, sustenta os nossos passos e alimenta a nossa identidade. Desde sempre, procuramos fazer do silêncio, da meditação e da escuta espaços privilegiados de encontro com Deus e connosco próprios. Rezar é, para nós, uma forma de estar em comunidade, de cuidar dos laços que nos unem e de renovar o compromisso de caminharmos juntos, com os olhos postos no essencial.

A nossa oração inspira-se na Liturgia das Horas, a oração oficial da Igreja, que nos reúne na mesma fé e nos faz participar de uma voz que atravessa tempos, lugares e gerações. A esta estrutura juntamos os cânticos, as reflexões e, sobretudo, o silêncio. Esse silêncio que tantas vezes escasseia nos nossos dias, numa sociedade onde parece que tudo tem de ser dito, ouvido e vivido em voz alta. Na Estrada Clara, fomos descobrindo que também é preciso parar para escutar, calar para acolher e recolher para reconhecer o que verdadeiramente importa.

É no silêncio que aprendemos a escutar Deus, mas também a escutar os outros e a nós próprios. É aí que, pouco a pouco, vamos descobrindo a luz que nos habita e reconhecendo os sinais do divino que se revela nas pequenas coisas, nos encontros e nas inquietações de cada dia. E é dessa experiência de oração, partilhada e vivida em comunidade, que nasce a vontade de sermos presença, rosto e testemunho de Deus no mundo.

Um tempo para parar. Um lugar para escutar. Um encontro para nos reencontrarmos n’Aquele que nos reúne.

Eucaristias 2026/2027

O canto e a música ocupam um lugar muito especial na forma como a Comunidade Estrada Clara vive a fé e a liturgia. Cantar não é, para nós, apenas uma forma de animar uma celebração: é também uma maneira de rezar, de estarmos juntos e de vivermos a Igreja que somos.

Não somos simplesmente um grupo coral. Somos uma Comunidade que se reúne para celebrar, para rezar e para colocar a música ao serviço da liturgia. Alguns dos nossos elementos têm formação musical em canto e em diferentes instrumentos, como piano, guitarra clássica e até saxofone. Outros foram descobrindo a música ao longo do caminho. E há entre nós quem cante em conjunto desde muito novo, há já quase três décadas.

A maior parte dos cânticos que hoje levamos às Eucaristias nasceram também dentro da própria Comunidade. São fruto da nossa oração, da nossa experiência e da vontade de anunciar, através das nossas palavras e da música, um Deus vivo, próximo, que continua a ressuscitar-nos todos os dias.

Por isso, os nossos cânticos, a nossa música e até os nossos silêncios fazem parte daquilo que somos. São uma expressão da nossa identidade e da forma como entendemos a fé vivida em comunidade.

Hoje, entre agendas, famílias, responsabilidades profissionais, encontros e desencontros, ensaios e tantas outras exigências da vida, continuamos a procurar um espaço para este compromisso. Uma vez por mês, reunimo-nos na nossa comunidade paroquial para cantar o Deus que nos reúne e que, ao longo dos anos, fez de nós uma verdadeira irmandade.

Cantarmos juntos é também uma forma de permanecermos juntos. É criar tempo e espaço para celebrar, para rezar e para descobrir a alegria de caminharmos uns com os outros.

𝐀 𝐂𝐨𝐦𝐮𝐧𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐄𝐬𝐭𝐫𝐚𝐝𝐚 𝐂𝐥𝐚𝐫𝐚 é 𝐫𝐞𝐬𝐩𝐨𝐧𝐬á𝐯𝐞𝐥 𝐩𝐞𝐥𝐚 𝐚𝐧𝐢𝐦𝐚çã𝐨 𝐝𝐨 𝐜𝐚𝐧𝐭𝐨 𝐧𝐚 𝐄𝐮𝐜𝐚𝐫𝐢𝐬𝐭𝐢𝐚 𝐝𝐨 𝐩𝐫𝐢𝐦𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐝𝐨𝐦𝐢𝐧𝐠𝐨 𝐝𝐞 𝐜𝐚𝐝𝐚 𝐦ê𝐬, à𝐬 𝟏𝟗𝐡, 𝐧𝐚 𝐈𝐠𝐫𝐞𝐣𝐚 𝐌𝐚𝐭𝐫𝐢𝐳 𝐝𝐞 𝐍𝐨𝐬𝐬𝐚 𝐒𝐞𝐧𝐡𝐨𝐫𝐚 𝐝𝐚 𝐂𝐨𝐧𝐜𝐞𝐢çã𝐨, 𝐧𝐚 𝐏ó𝐯𝐨𝐚 𝐝𝐞 𝐕𝐚𝐫𝐳𝐢𝐦.

Knockin’ on heaven’s door

Reflexão para o mês de setembro de 2026

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Pedi, e dar-se-vos-á; procurai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á.” (do Evangelho de São Mateus)

Esta frase de Jesus é, à primeira vista, uma promessa fácil e feliz… até ao dia em que pedimos e nada acontece. Até ao dia em que procuramos e não encontramos. Até ao dia em que batemos com toda a força e a porta continua fechada. Então, estas palavras de Jesus deixam de ser apenas consoladoras: tornam-se uma pergunta incómoda para a nossa fé. O que fazemos com um Deus que nos diz para pedir, mas que nem sempre nos dá aquilo que pedimos?

O primeiro erro que cometemos na interpretação destas palavras de Jesus é o de imaginar que a oração serve para alterar os planos de Deus. Como se Deus tivesse uma intenção e, depois de muitas súplicas, mudasse de ideias. Mas Deus não é volúvel. Deus não nos ama mais porque rezamos mais nem nos ama menos porque deixamos de rezar. A oração existe não para transformar Deus, mas para nos transformar a nós. A oração não serve para convencer Deus a fazer a nossa vontade, mas é um caminho para nos aproximarmos da Sua vontade. Então, o que nos quis Ele dizer com esta promessa?

A resposta parte dos verbos: pedir, procurar, bater. Num mundo que nos ensina a bastar-nos a nós próprios, pedir é um ato de humildade. É reconhecer que há vazios que nenhuma competência, nenhum sucesso ou nenhuma distração consegue preencher. Pedir obriga-nos a reconhecer que não somos omnipotentes, que há realidades que não conseguimos controlar, que a vida não está inteiramente nas nossas mãos. E este reconhecimento, que tantas vezes nos custa, é o princípio da confiança. Procurar é recusar a resignação, é continuar caminho mesmo quando o próprio Deus parece estar escondido. Quem procura acredita que vale a pena levantar-se e continuar. Bater é, talvez, o gesto mais vulnerável de todos. Quem bate coloca-se nas mãos de quem está do outro lado da porta. Pode ser recebido, pode ter de esperar, pode até pensar que ninguém ouviu. Mas continua ali, porque há esperança.

À medida que pedimos, procuramos e batemos, vamos descobrindo que a maior dádiva nem sempre é receber aquilo que desejávamos. A maior dádiva é tornarmo-nos capazes de acolher aquilo que Deus sonhou para nós. Muitas das nossas orações nascem de um conhecimento muito limitado da realidade. Pedimos aquilo que, naquele momento, nos parece melhor. Mas nós vemos apenas um fragmento da história. Deus vê a história inteira. Rezamos, tantas vezes, para mudar as circunstâncias. E Deus começa por transformar o nosso coração. Pedimos uma vida sem cruzes. E Deus oferece-nos a força para as carregar. Pedimos respostas imediatas. E Deus oferece-nos a Sua presença. Há uma diferença enorme entre um Deus que resolve todos os problemas e um Deus que nunca nos abandona. O primeiro dispensaria a fé; o segundo torna-a possível.

Quando Jesus nos convida a pedir, a procurar e a bater, não nos está a oferecer uma chave para abrir todas as portas. Ele está a garantir-nos que, do outro lado de qualquer porta, nunca estaremos sozinhos. A promessa de Jesus não é a de que todas as portas se abrirão, mas sim que nenhuma porta verdadeiramente necessária para nós ficará fechada para sempre. E, mesmo quando a porta que desejávamos permanecer encerrada, Deus terá preparado outra que ainda não conseguimos ver.

Por isso, continuamos a pedir, continuamos a procurar, continuamos a bater. Nem tudo acontecerá como desejamos, mas assim confiamos que, do outro lado de cada silêncio, há um Pai que nunca deixa de escutar os filhos. E esta certeza, mesmo quando tudo vacila, é suficiente para voltar a levantar a mão e bater à porta mais uma vez. O maior milagre da oração não é a resolução, mas sim a descoberta de que Deus nunca está ausente. O silêncio de Deus nunca é indiferença. É, muitas vezes, a linguagem misteriosa de um Pai que continua a conduzir-nos quando nós não sabemos o caminho. No fim, a promessa de Jesus mantém-se verdadeira. Quem pede, recebe. Nem sempre recebe o que imaginava, mas recebe aquilo que mais precisa para chegar onde Deus sonhou que chegasse.

Não deixemos de pedir quando não recebemos, nem deixemos de procurar quando não encontramos, nem deixemos de bater quando a porta insiste em permanecer fechada. Pelo contrário, aprendamos a permanecer. A fé não é a certeza de que tudo vai acontecer como queremos, mas sim a certeza de que, aconteça o que acontecer, Deus continuará connosco. Um dia, olhando para trás, perceberemos que Deus esteve a responder-nos o tempo todo. Não da maneira que esperávamos, mas de uma forma que só o tempo e a fé nos permitiram compreender. Pedir, procurar, bater. Não são três maneiras de conseguir coisas de Deus. São três maneiras de permanecer diante de Deus. A promessa de Jesus não é que Deus nos dará tudo aquilo que pedirmos; é que, quando pedirmos, procurarmos e batermos, nunca estaremos sozinhos.

Testemunhos 2025/2026

Enquanto estamos já a preparar o novo ano de formação, deixamos aqui registados os testemunhos da Ana Clara, do Jhony, do Álvaro, do João Abreu, da Milena e do João Areias, que fizeram connosco este percurso de educação e de partilha na fé. De outubro de 2025 a junho de 2026, às sextas-feiras, das 21h30 às 23h, na paróquia da Matriz (Póvoa de Varzim), estes seis jovens adultos fizeram parte de um grupo de treze elementos que foi fazendo o seu percurso na descoberta de um Deus que está sempre disponível para quem o quer acolher, construindo assim o início de uma fé adulta, pensada e experimentada, concreta, vivida em ações, participada no quotidiano e celebrada sempre em comunidade. Com estes testemunhos verdadeiros e genuínos, queremos partilhar convosco a alegria que é para nós, Comunidade Estrada Clara, sabermos que este desejo de Deus tão próprio do ser humano está e continua presente em quem O procura e nós, Comunidade, somos infinitamente mais felizes por podermos proporcionar este tempo e este espaço de partilha, de descoberta e de interiorização. Um bem-haja a todos vós, queridos formandos por tudo o que pudemos partilhar, viver, descobrir em conjunto. 

Ana, Beatriz e Sofia

Cumbíbio para Cumbiber 2025

Há um ano, voltámos a juntar-nos (quase todos!) para aquilo a que continuamos a chamar, com o entusiasmo de sempre, “Cumbíbio para Cumbiber”, um encontro pensado apenas para estarmos juntos, sem reuniões, sem agendas, sem preocupações. Só com tempo para a amizade. E ainda celebramos o aniversário da nossa doce Joaninha!

Desta vez, o cenário foi o Pátio Colegial, que rapidamente se encheu de conversas cruzadas, gargalhadas, mergulhos na piscina, música e um karaoke onde, como seria de esperar, o talento foi proporcional ao entusiasmo. A alegria de podermos cantar, rir e fazer memória daquilo que Deus vai construindo entre nós é sempre o mais importante!

Ficam aqui as recordações desse encontro de 2025, um retrato simples de uma comunidade que continua a escolher fazer caminho lado a lado, apesar dos desafios quotidianos que a vida nos vai oferecendo. Escolhemos permanecer e ir construindo caminhos coletivos.

Amanhã, voltaremos a estar juntos para simplesmente estarmos juntos. Nesta irmandade que resiste ao tempo, às mudanças de vida, às distâncias e aos desafios, porque é sustentada por uma razão maior do que nós: Deus. É Ele quem continua a fazer da nossa amizade um lugar de encontro, de crescimento e de esperança. É n’Ele que encontramos a força para permanecer, a alegria para recomeçar e a certeza de que vale sempre a pena caminhar juntos.

Por tudo isto, amanhã é, outra vez, dia de festa. E há festas que nunca se repetem, porque cada reencontro acrescenta mais um capítulo à história que Deus continua a escrever connosco.

Vamos!

Ana

Memórias Jubilares – Jubileu 2025

Passou um ano desde o Jubileu dos Jovens. Um ano desde que, mais uma vez, foi possível perceber que a Igreja não cabe nas paredes da nossa paróquia, nem na geografia do nosso país. Nesses dias, vemos a Igreja respirar em milhões de rostos, cantar em mil idiomas, ajoelhar-se em silêncio diante do mesmo Deus.

Passou um ano. Provavelmente, muitas t-shirts já perderam a cor, talvez a credencial esteja esquecida numa gaveta e as fotografias se tenham perdido no meio de milhares de outras. Mas há memórias que não se gastam e que continuam vivas porque nos recordam quem fomos e quem encontramos naqueles dias e, sobretudo, quem Deus nos chamou a ser.

Nos dias seguintes, a pergunta que se impunha era quase sempre a mesma: o que trouxeram de Roma? A certeza de que Deus continua a escrever futuro com a marca permanente da juventude. A experiência de uma alegria que se multiplica em verdade. A convicção de que a Igreja é esta casa imensa onde há sempre lugar para mais um e, por isso, vale a pena sonhar uma Igreja jovem, alegre, imperfeita, cansada… mas sempre a caminho, sempre em Estrada.

Há um ano, fizemos caminho até Roma. Um ano depois, Roma continua e continuará sempre no nosso caminho.

Ana

Viver tudo numa vida

Achamos sempre que quem faz parte da geografia afetiva das nossas vidas e memórias é imortal. Hoje morreu Luís Represas. E percebemos que ele deixou de ser imortal para se tornar imortal. Chegados a este dia, fica mais frágil aquele património invisível que cada um de nós vai construindo ao longo da vida: a memória afetiva. Cada despedida destas obriga-nos a revisitar quem fomos. A música tem este poder extraordinário de vencer o tempo e, ao mesmo tempo, de nos lembrar que ele existe. Cada canção é uma ponte entre aquilo que vivemos e aquilo que permanece. As canções dos Trovante e de Luís Represas habitaram todas as casas onde vivi, as minhas viagens de carro, os dias de verão, as amizades feitas e desfeitas, os amores sentidos, as despedidas, os regressos.

A sua morte é um abalo silencioso na nossa própria biografia. Não porque a sua voz deixe de existir (essa felizmente continuará gravada e disponível), mas porque tomamos consciência de que o tempo passou e está a passar. Que a nossa infância já não é aquele lugar imediato. Que a juventude vai ficando do outro lado da memória. E que aqueles que deram som às diferentes etapas da nossa vida começam, eles próprios, a pertencer à eternidade.

As canções do Trovante e de Luís Represas são, para mim, lugares de memórias mil. De tempos em que as palavras tinham importância, em que a música era trabalhada infinitamente, em que as canções tinham uma dimensão plural.

Escrevo este texto enquanto vejo o concerto do Trovante na RTP 1. Tive o privilégio de, em março, ter estado no Porto a assistir a este mesmo concerto, sem imaginar que seria o último. Na altura, senti-me novamente em 1999, no então chamado Pavilhão Atlântico, num concerto memorável a pedido do presidente Sampaio. Numa altura sem instagram, com muito poucos telemóveis e sem selfies. Tantas memórias, boas e gratas memórias que hoje me invadem. O Trovante deixou de pertencer apenas aos palcos para habitar a nossa biografia, a minha história. É por isso que a voz única e a música de Luís Represas continuarão a cantar dentro de nós, mesmo quando o concerto chegou ao fim.

“As memórias são…” 🎶
Obrigada, Luís!

Ana

Um Deus que se experimenta

Reflexão para o mês de julho de 2026

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Aproximai-vos de Deus, e Ele aproximar-Se-á de vós.”” (da Carta de Tiago)

É possível experimentar Deus? Esta questão não é nova. É uma pergunta que surge à medida que vamos construindo a nossa relação com Deus. Desde sempre, o ser humano procura sinais que confirmem que não está sozinho no universo. Procura uma presença que não seja apenas uma ideia, uma doutrina ou uma tradição recebida. Procura um Deus que possa ser encontrado no terreno concreto da vida.

Muitas vezes, imaginamos que experimentar Deus é viver algo extraordinário: uma emoção intensa durante a oração, uma certeza absoluta que elimina todas as dúvidas, uma espécie de evidência interior que transforma tudo de um momento para o outro. Esperamos, quase sempre, acontecimentos grandiosos, momentos inesquecíveis, respostas imediatas. Mas Deus parece preferir outros caminhos…

Deus não quer “conquistar-nos” pela força da evidência, mas sim pela liberdade do encontro. E, por isso, há uma diferença profunda entre provar uma verdade e experimentar uma presença. Podemos provar um teorema. Podemos demonstrar uma teoria. Podemos verificar um facto. Mas uma presença só pode ser acolhida. Só pode ser vivida. Só pode ser experimentada.

Ninguém consegue demonstrar cientificamente a amizade. Ninguém mede o amor com instrumentos. Ninguém quantifica a esperança. E, no entanto, sabemos quando fomos verdadeiramente amados, quando fomos compreendidos ou quando uma palavra nos devolveu a coragem de continuar. Com Deus acontece algo semelhante. Há pessoas que passam anos a procurar argumentos sobre Deus e esquecem-se de prestar atenção aos lugares onde Ele se manifesta. É como quem estuda minuciosamente um mapa sem nunca iniciar a viagem…

Deus não é apenas objeto de conhecimento. É, acima de tudo, relação. As experiências de Deus acontecem quando alguém nos perdoa sem termos merecido, quando encontramos força para recomeçar depois de uma queda, quando uma dor que parecia insuportável não nos destrói, quando descobrimos uma paz inesperada no meio da tempestade. Momentos em que sentimos que a realidade é maior do que aquilo que conseguimos explicar. Momentos em que o coração reconhece algo antes de a inteligência conseguir nomeá-lo. Aquela certeza cristã de que não estamos entregues ao acaso. Não são provas, são vestígios. Não são evidências, são encontros.

Uma das maiores dificuldades para vivermos a experiência de Deus está no ritmo com que existimos. Habitámo-nos a uma vida cheia de ruído. Corremos de tarefa em tarefa, de preocupação em preocupação, de ecrã em ecrã. Vivemos ocupados a responder a tudo, menos àquilo que acontece dentro de nós. E Deus raramente compete com o ruído. Ele espera. Espera que a pressa abrande. Espera que o coração se torne novamente disponível. Espera que alguém tenha a coragem de permanecer.

A experiência de Deus não é uma conquista. É uma descoberta íntima, interior. Não acontece porque finalmente conseguimos chegar até Ele. Acontece porque, num determinado momento, percebemos que Ele já tinha chegado até nós. Fazer a experiência de Deus é descobrir que a nossa vida nunca foi um monólogo. Há Alguém que fala através dos acontecimentos, das pessoas, da beleza, da consciência, da Palavra, da oração e até das feridas. Nem tudo o que nos é dado viver é Deus, mas Deus é capaz de atravessar todos os nossos viveres para estar do nosso lado.

Deus deixa-se experimentar quando nos aproximamos dele. Esta é uma daquelas relações que não funciona à distância… pode até existir, mas nunca será suficiente. A nossa relação com Deus precisa de proximidade, de intimidade porque nós precisamos de conhecer este Deus. Quanto mais O conhecermos, mais capazes somos de O amar, de O compreender. E esta proximidade constrói-se sempre nos pequenos gestos: na sinceridade de uma oração, na gratidão vivida, na disponibilidade de O procurarmos nas variadas circunstâncias de vida. Tudo isto transforma a nossa vida interior. Olhamos para nós, para os outros e para o mundo com um olhar renovado. Cresce a confiança diante das dificuldades, a serenidade perante a incerteza e a capacidade de amar com maior generosidade. Deus deixa de ser apenas uma ideia distante ou uma mera referência religiosa e torna-se uma presença viva que acompanha cada passo do nosso caminho. Quanto mais próximo estou de Deus, mais descubro quem sou; e quanto mais íntima se torna essa relação, mais encontro sentido, esperança e plenitude para a minha vida, tantas vezes frágil e vacilante.

Experimentar Deus é encontrá-Lo no interior da nossa vida. É entregar-Lhe o lugar maior do nosso coração. Experimentar Deus não nos permite encontrar respostas para todas as perguntas, mas oferece-nos uma presença que muda a forma como vivemos todas as perguntas que a vida nos coloca. Experimentar Deus é deixar que a Sua presença transforme a nossa maneira de habitar a vida. Por isso, a experiência de Deus não termina num momento de oração, nem se encerra numa emoção passageira. Continua na forma como olhamos, escutamos, perdoamos, esperamos e amamos. Porque Deus não quer apenas visitar a nossa vida; Ele quer habitá-la. E quando Lhe oferecemos esse lugar, descobrimos que a verdadeira experiência de Deus não consiste em vê-Lo com os olhos, mas em deixar que seja a nossa vida a tornar visível a Sua presença.